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domingo, 10 de abril de 2011

Amor e razão, os dois pilares do real


Joseph Ratzinger
Na ocasião, cardeal Ratzinger. Hoje Papa Bento XVI.

Extraído da Palestra Verdades do cristianismo?, proferida pelo cardeal Joseph Ratzinger, no dia 27 de novembro 1999, na Universidade da Sorbone em Paris, publicada em italiano pela revista Il Regno-Documenti, vol. XLV (2000), n. 854, pp. 190-195.

Criação e evolução, segundo o professor Ratzinger: o cristianismo é o verdadeiro iluminismo

A separação operada pelo pensamento cristão entre metafísica e física vem sendo progressivamente abandonada: tudo precisa voltar a ser “física”. A teoria da evolução vai se delineando como a via para finalmente provocar o desaparecimento da metafísica e tornar supérflua a “hipótese de Deus” (Laplace), formulando uma explicação estritamente “científica” do mundo. Uma teoria da evolução que queira explicar toda a realidade torna-se uma espécie de “filosofia primeira”, que, por assim dizer, representa o verdadeiro fundamento da compreensão racional do mundo. Qualquer tentativa de colocar em ação causas diferentes daquelas elaboradas por tal teoria “positiva”, qualquer tentativa de “metafísica”, é tachada como um retrocesso para uma era anterior ao iluminismo, como renúncia à aspiração universal da ciência. Portanto, a idéia cristã de Deus deve ser considerada não-científica. A ela não corresponde mais nenhuma theologia physica: em tal visão, a única theologia naturalis é a teoria da evolução; e esta, justamente, não conhece nenhum Deus, nenhum criador, no sentido dado ao termo pelo cristianismo (pelo judaísmo e pelo islã), nem uma alma do mundo e nem mesmo uma força propulsora ou dynamis, no sentido da “stoa” [escola estóica]. No entanto, no sentido do budismo poder-se-ia considerar todo este nosso mundo como uma aparência, e o nada seria a verdadeira realidade; nesse sentido, justificam-se formas místicas de religião, que pelo menos não competem diretamente com o iluminismo (ou seja, com a razão).
Com isso, está dita a última palavra? A razão e o cristianismo estão definitivamente separados entre si?
De qualquer modo, não há como fugir da discussão sobre o alcance da teoria da evolução como filosofia primeira e sobre a exclusividade do método positivo como a única modalidade da ciência e da racionalidade. Essa discussão deve ser empreendida por ambas as partes de modo sereno e com disposição para o diálogo, o que até agora tem sido muito difícil.

Ninguém pode seriamente colocar em dúvida as provas científicas em relação aos processos microevolutivos. Reinhard Junker e Siegfried Scherer, em seu “manual crítico” sobre a evolução, dizem: “Tais processos (processos microevolutivos) tornaram-se bem conhecidos a partir dos processos de variação e de formação naturais. O exame deles mediante a biologia da evolução permitiu a aquisição de importantes conhecimentos sobre a genial capacidade de adaptação dos sistemas vitais”. Eles afirmam, conseqüentemente, que o estudo das origens pode ser bem definido como a disciplina principal da biologia. Portanto, a pergunta que um crente faria à razão [evolutiva] não se refere a isso, mas à sua pretensão de se tornar philosophia universalis, explicação global do real, e assim rejeitando qualquer outro nível de pensamento. No seio mesmo da teoria da evolução o problema aparece quando da passagem da micro para a macroevolução. Sobre isso, porém, Szathmáry e Maynard Smith – ambos convictos defensores de uma teoria globalizante da evolução – declaram: “Não há nenhum motivo teórico para se presumir que as linhas evolutivas, com o tempo, aumentem de complexidade; não há nenhuma prova empírica de que isso ocorra”.

A questão que devemos levantar vai mais fundo: o problema é se a teoria da evolução pode se apresentar como teoria universal de todo o real, além da qual não são mais admissíveis e nem mesmo necessárias ulteriores perguntas sobre a origem e sobre a natureza das coisas; ou se tais questões últimas não podem ultrapassar o âmbito do que é possível investigar só com as ciências naturais.
Gostaria de colocar a pergunta de uma forma ainda mais direta. Será que já se disse tudo com um tipo de resposta como aquela que encontramos, por exemplo, na seguinte formulação de Popper: “A vida, tal como a conhecemos, é constituída por corpos físicos (ou melhor, por processos e estruturas) que resolvem os problemas. As diversas espécies  aprenderam isso através da seleção natural, isto é, através do método da reprodução mais variação; um método que, por sua vez, foi aprendido com o mesmo método. Isso é um regresso, mas não é infinito...”? Não acredito.

Em última análise, trata-se de uma alternativa que não pode ser resolvida só naturalisticamente e nem mesmo filosoficamente. Trata-se da questão se a razão ou o racional surgiu por acaso e por necessidade (ou, com Popper, que se reporta a Butler, por luck e cunning – o acaso fortuito e a previsão), portanto do irracional, se a razão é um subproduto casual do irracional finalmente irrelevante no oceano do irracional, ou se continua sendo verdade a convicção basilar da fé cristã e de sua filosofia: In principio erat Verbum – na origem de todas as coisas está a força criadora da razão.

A fé cristã é, hoje, tal como no passado, a opção pela prioridade da razão e do racional. Tal questão última não pode mais – como dissemos – ser decidida com argumentos derivados das ciências naturais, e até mesmo o pensamento filosófico bate-se, aí, contra os próprios limites. Nesse sentido, não há uma demonstrabilidade última da opção cristã fundamental. Mas a razão poderia verdadeiramente renunciar à prioridade do racional sobre o irracional, à prioridade do Logos, sem se auto-anular?

O modelo de explicação apresentado por Popper, que com variações diversas retorna à apresentação da “filosofia primeira”, demonstra que a razão não pode deixar de pensar também o irracional segundo a sua medida, portanto racionalmente (resolver problemas, aprender métodos), restabelecendo desse modo, implicitamente, o primado da razão, que acabara de ser negado.
Mediante a sua opção pelo primado da razão, o cristianismo continua sendo, ainda hoje, “iluminismo”. Eu penso que um iluminismo que cancele essa opção, contra todas as aparências, não representa uma evolução, mas uma involução do iluminismo.

Vimos que na concepção do cristianismo primitivo os conceitos de natureza, homem, Deus, ethos e religião estavam indissoluvelmente ligados entre si e que justamente essa imbricação contribuiu para a racionalidade do cristianismo na crise dos deuses e na crise da antiga racionalidade. A orientação da religião para uma visão racional da realidade em geral, o ethos como parte dessa visão e a sua concreta aplicação sob o primado do amor combinavam-se perfeitamente. O primado do Logos e o primado do amor mostraram-se idênticos. O Logos não apareceu só como razão matemática na base de todas as coisas, mas como amor criativo até o ponto de se tornar compaixão com a criatura. O aspecto cósmico da religião, que adora o Criador na força do ser, e o seu aspecto existencial, a exigência de redenção, confluíram e se tornaram um unicum.

De fato, qualquer explicação da realidade que não seja capaz de fundar significativa e racionalmente um ethos permanecerá insuficiente. Ora, a teoria da evolução, lá onde se arroga o status de philosophia universalis, procura fundar de novo evolucionisticamente também o ethos. Mas esse ethos evolucionista, que reencontra inevitavelmente o seu conceito-chave no modelo da seleção, portanto na luta pela sobrevivência, na vitória do mais forte, na adaptação bem-sucedida, tem a oferecer algo muito pouco consolador. Mesmo quando procura melhorá-lo de vários modos, continua sendo, em definitivo, um ethos impiedoso. A tentativa de instilar o racional em algo que é irracional em si fracassa aí de modo evidente.
Para uma ética da paz universal, do amor efetivo ao próximo, da necessária superação do particular, de que temos necessidade, tudo isso tem pouca serventia. Nessa crise da humanidade, a tentativa de dar novamente um sentido racional à idéia do cristianismo como religião verdadeira deve, por assim dizer, apoiar-se em igual medida na ortopráxis e na ortodoxia. Seu conteúdo, hoje, tal como no passado, deve consistir essencialmente no fato de que o amor e a razão, como dois verdadeiros pilares do real, confluem mutuamente: a verdadeira razão é o amor, e o amor é a verdadeira razão. Em sua unidade, eles constituem o verdadeiro fundamento e o objetivo de todo o real.




















Filosofia além do Iluminismo e do relativismo

ZP08052811 - 28-05-2008
Permalink: http://www.zenit.org/article-18569?l=portuguese
Entrevista ao decano da Faculdade de Filosofia da Urbaniana

ROMA, quarta-feira, 28 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Foi apresentado hoje, em Roma, na sala Marconi da Rádio Vaticano, o livro em italiano do sacerdote Aldo Vendemiati, «Universalismo e relativismo nell’etica contemporanea» (Edições Marietti), que aponta para a busca de sentido, superando o universalismo ético iluminista e o relativismo pós-moderno e propõe um pluralismo fundado nos deveres e na responsabilidade.
O autor, especializado em ciências éticas e bioéticas, é professor de Filosofia Moral e decano da Faculdade de Filosofia da Universidade Pontifícia Urbaniana de Roma.
Para apresentar o livro de Vendemiati, estiveram o cardeal Carlo Caffarra, ex-professor de Teologia Moral e de Ética Médica, e a professora Franca D’Agostini, de Filosofia Contemporânea no Politécnico de Turim.
Para compreender as razões que estão no centro do debate, Zenit entrevistou Aldo Vendemiati.
-O Iluminismo expressou um pensamento ético fortemente universalista: basta pensar nas declarações «universais» dos direitos humanos. Como é que hoje isso parece estar «fora de moda»?
-Vendemiati: Isso depende do fato de que grande parte do pensamento contemporâneo é explicitamente cético sobre as possibilidades da razão. O enfoque culturalmente mais difundido é o voluntarista, segundo o qual seria possível conhecer o bem e a virtude só quando se soubesse o que Deus quer; mas sendo isto impossível em perspectiva ‘leiga’ (que nestes contextos significa simplesmente ‘não fideísta’), não resta outro critério fora do que as pessoas querem: não já o diálogo (que implica uma comunicação racional), mas o consenso entre as pessoas (sua «permissão») é o único princípio moral válido.
Pois bem, se esta é a perspectiva «leiga», das duas uma: ou esta é uma posição racional ou não o é. Se é racional, é porque – apesar do que sustentam seus defensores – se reconheceu o valor universal da autonomia, da negociação e da convivência pacífica. Se, pelo contrário, a proposta não é racional, se tudo repousa sobre a vontade das pessoas, não se vê por que se a deverá respeitar.
O fundamento teorético do pluralismo é, ao contrário, a afirmação de que nosso conhecimento está condicionado e que, portanto, se por um lado nenhum pensamento humano pode presumir de possuir a Verdade absoluta, por outro lado são possíveis diversos pontos de vista sobre uma mesma matéria, cada um dos quais está potencialmente em grau de contribuir para o conhecimento da própria matéria.
Quando, com Gadamer, afirmo «iniludível vínculo da razão com horizontes, tradições e situações», eu me situo, com a razão, sobre horizontes, tradições e situações e afirmo uma verdade de caráter universal.
Isso significa que o pensamento não é tal frágil como se quer fazer crer. A própria afirmação da condicionalidade pressupõe uma razão forte, seguramente uma razão pobre e nua – porque aquele que sabe com certeza é em verdade bastante pouco, e está cheia de dúvidas, titubeios, erros – mas tão forte como para reconhecer a própria pobreza e não envergonhar-se da própria nudez.
Penso, portanto, que seja não só necessário mas também possível superar o impasse que nos vê oprimidos entre o universalismo moderno e a «insustentável leveza» do relativismo pós-moderno.
-Quais são as motivações do relativismo atual? São a última palavra possível no campo da ética?
-Vendemiati: O pior serviço ao universalismo foi feito pelas ambições racionalistas e idealistas do pensamento ocidental, que pretenderam elevar a própria «razão» ao nível de «Razão» em absoluto, ou seja, de situar-se «desde o ponto de vista de Deus» (como diria H. Putnam), em outras coisas após ter negado valor cognoscitivo à fé n’Ele.
Em ética, isto se expressa assumindo a perspectiva da «terceira pessoa»: a reflexão moral consistiria na busca de normas, elaboradas «desde o ponto de vista de Deus», mas de um deus secularizado e imanente, coincidente – em última análise – com o legislador ou o juiz humano.
A tal pretensão se opõem as «razões» da democracia liberal, da antropologia, da hermenêutica, da epistemologia ou da própria ética contemporânea, que – de diversas maneiras – mostram a condicionalidade de nosso conhecimento, a vã inconsistência de quem pretende possuir a Verdade absoluta, o Inteiro, o Todo.
O pensamento único deve deixar-se empobrecer e desnudar por tais razões, para chegar a uma correta visão do pluralismo: sobre a mesma matéria são, de fato e de direito, possíveis diversos pontos de vista, cada um dos quais poderiam contribuir a uma melhor compreensão da realidade.
Contudo, é preciso guardar-se bem também dos «excessos de correção» nos quais as perspectivas relativistas vêm a cair. O relativismo, longe de garantir os valores do pluralismo e do diálogo entre as civilizações, nivela todos os enfoques ético-culturais em uma equivalência teorética e prática, da qual se sai unicamente com a violência da manipulação ou do terrorismo.
-Qual é o sentido e o papel da busca ético-racional para quem vive no horizonte da fé cristã?
-Vendemiati: O conhecimento racional tem uma especificidade própria que não pode nunca desaparecer. E isso é particularmente evidente hoje, na sociedade complexa e secularizada na qual nos movemos.
No debate sobre temas que despedaçam a consciência das nações e do mundo inteiro (por exemplo, sobre os temas da eutanásia, do aborto, da política econômica, etc), nós, cristãos, não podemos apoiar nossos argumentos a partir da autoridade do Evangelho, já que nos encontramos discutindo com pessoas (e são a maioria) que não reconhecem esta autoridade.
Devemos fundar racionalmente nossos argumentos. A tradição cristã, neste sentido, ensinou que a filosofia está «ao serviço» da teologia (philosophia ancilla theologiae). E se trata de um serviço prestado em duas frentes: por um lado, a teologia descobre algumas verdades que facilitam a acolhida do Evangelho; por outro lado, a filosofia desmascara alguns erros que impedem a acolhida do Evangelho.
Por outra parte, nós nos sentimos convidados por nossa própria fé a exercitar até o final a razão: um axioma teológico clássico diz: «A graça não destrói a natureza, mas a supõe»; em nosso campo isto pode ser traduzido assim: «A fé não destrói a razão, mas a supõe».
A fé não substitui a razão, mas a completa e a eleva: portanto, é necessário que haja algo a completar e elevar: uma atividade racional que a fé não substitui. Feita esta distinção metodológica, é agora possível sublinhar que para a ética é necessário pôr-se à escuta das grandes tradições religiosas e, em nosso caso, do cristianismo.
-É possível propor uma ética que permita dar razão às instâncias da autenticidade, da diversidade social e do reconhecimento? Ou estamos obrigados a submeter-nos à «ditadura do relativismo»?
-Vendemiati: Para a salvação do planeta e da humanidade que o habita, é necessário proporcionar as bases éticas de confrontação que possam garantir o diálogo, e, se não a convivência pacífica, ao menos uma eqüitativa resolução dos conflitos.
Se não é possível considerar alguma civilização concreta como uma cultura universalmente válida, não é nem sequer possível negar que há valores universalmente válidos aos que todas as civilizações podem (com maior ou menor esforço) em última análise remeter-se.
Este é o sentido de uma busca sobre o universalismo moral. Para fazer isto é necessário que a ética se ponha à escuta das grandes tradições religiosas: estas são um horizonte interpretativo universal, capaz de oferecer um sentido último à vida e à morte. Nelas, efetivamente, os valores, as normas e as motivações ficam garantidas.
Incondicionalmente, concretizados, capazes de criar segurança espiritual, confiança e esperança.
Onde, ao contrário, a secularização corta o cordão umbilical entre as grandes tradições da fé e a busca racional, ou onde o fundamentalismo exclui a possibilidade da própria busca racional, os riscos são evidentes. O fundamentalismo, quando não conduz ao isolamento e à incomunicabilidade, desemboca no conflito e no terrorismo.
O secularismo tende a substituir a verdade pelo consenso, e – como assinala Ratzinger – «quão frágeis são os consensos e que rapidamente, em um certo clima intelectual, grupos partidários podem impor-se como os únicos representantes autorizados do progresso e da responsabilidade, está diante dos olhos de todos nós».

Papa explica aspectos positivos e negativos do Iluminismo

ZP08060603 - 06-06-2008
Permalink: http://www.zenit.org/article-18664?l=portuguese
Ao receber aos bispos da Malásia, Brunei e Singapura

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 6 de junho de 2008 (ZENIT.org).- Segundo Bento XVI, a liberdade religiosa constitui uma das heranças positivas que o Iluminismo deixou, junto a perigos reais como a «ditadura da razão positivista».
O Papa fez uma análise nesta sexta-feira das luzes e sombras desse movimento filosófico e cultural do século XVIII, que acentua o predomínio da razão humana e a crença no progresso humano, ao receber em audiência os bispos da Malásia, Brunei e Singapura.
O pontífice explicou aos prelados que eles «têm de assegurar que o Evangelho cristão não seja confundido com os princípios seculares associados ao Iluminismo».
«Pelo contrário, falando na verdade e no amor, podeis ajudar vossos concidadãos a distinguir o trigo do Evangelho do joio do materialismo e do relativismo», indicou.
O pontífice pediu aos prelados desses países com uma importante presença de muçulmanos, budistas e hindus que «respondam aos desafios urgentes propostos pelo Iluminismo, familiar para o cristianismo ocidental nos dois últimos séculos, mas que só agora começa a ter um impacto significativo em outras partes do mundo».
«Resistindo à ditadura da razão positivista, que busca excluir Deus do terreno público, deveríamos dar boas-vindas às autênticas conquistas do Iluminismo, sublinhando em particular os direitos humanos e a liberdade de religião e sua prática», sugeriu.
Segundo assegurou aos bispos asiáticos, Bento XVI, «acentuando o caráter universal dos direitos humanos, baseados na dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus, ofereceis uma importante contribuição à evangelização, pois este ensinamento constitui um aspecto essencial do Evangelho».
«Ao fazê-lo – concluiu –, estais seguindo os passos de São Paulo, que aprendeu a expressar a essência da fé e a vida cristã de uma maneira que poderá ser compreendida pelas comunidades pagãs às que foi enviado.»
No dia 28 de junho começará o ano de São Paulo, convocado pelo Papa para a Igreja universal, ao se celebrarem os dois mil anos de seu nascimento.

Iluminismo: A Filosofia Sem Deus



por Carlos Eduardo Maculan

O pretensioso projeto revolucionário e sua abertura para o fim da moral. O iluminismo, que sem sombra de dúvidas, é o mais trivial período do pensamento humano, que proporcionou ao mundo a marginalização do Sagrado, e uma tentativa de destituir o Império de Cristo Rei do Universo, Senhor espiritual e temporal sentado à direita do Pai.

O racionalismo, para os defensores de hoje e de outrora, despoticamente assume a condição de ser o sustento da base política do Estado, e o meio pelo qual se conhece a verdade, pois, negando que o homem é criado e se submete ao governo da lei natural que está impressa no coração de todos, expropria-se Deus da vida cotidiana, e estabelece uma forma de atuar politicamente que concretize a negação da moral. Acreditam que tudo está sujeito ao domínio da razão, e somente dela se faz a verdadeira leitura dos acontecimentos. Voltaire sintetiza essa questão no seu “dicionário filosófico” ao discorrer sobre a pretensiosa perniciosidade da religião. Tudo deve ser construído fora de Deus, e Aquele que É dominador da razão humana é categoricamente negado em benefício da liberdade. A filosofia sem Deus declara que o homem só pode conhecer a si mesmo no próprio homem, sendo ele fruto dele mesmo. A sentença “Nosce te Ipsum” de Sócrates, que já era de forma imperfeita um lampejo da luz divina, e que já condensava no seu enunciado aquilo que foi posteriormente enxertado na verdadeira videira conhecida por Cristo Jesus, é deturpado tanto em sua essência, quanto na sua prática. Vigora o utopismo onde o fundamental é a criação de um lugar fantasioso, contrário ao mundo criado, não importando se Deus, o Sumo Bem, está ou não no centro da filosofia, atuando então para substituir a religiosidade, a moral, a doutrina cristã, sancionando a destruição da firmeza de uma doutrina reta, fruto de séculos inteiros de verdadeira filosofia cristã, que em Santa Catarina de Siena faz a autêntica leitura do conhecimento do homem e de sua existência, purificando Sócrates e afirmando o absoluto: - Conhece a ti mesmo, em Deus. O Criador é o centro, e obrigatoriamente toda nossa construção filosófica deve para Ele convergir e n’Ele encontrar a razão do existir humano e toda ordem criada. O mundo só se conhece em Deus, pois a criatura não tem por direito enxergar-se fora de sua origem.

O iluminismo necessitava destruir essa base filosófica tão profunda, fruto da fé que presta auxílio à razão, pois ela existindo e vigorando, seria uma ameaça real para as pretensões ilustradas que coloca a humanidade como senhora de si própria. Logo, com o desejo de fundar uma nova ordem de pensamento, tendo o homem e sua razão sem fé no centro, estabelecem os adeptos da revolução a mais perfeita corrupção do pensamento, colocando a humanidade na direção de sua própria história, e centralizando a busca da felicidade de forma a se negar que cada um possa escutar a voz de sua consciência, e ouvindo o desejo do infinito, deve se pautar pelo senso do correto fruto da lei moral. Pelas coisas criadas, o homem - segundo a doutrina Santa e Católica -, é capaz de conhecer Deus, portanto, toda a realidade circundante deve nos levar para a contemplação de Deus, sendo Ele a razão infinita, a inteligência suprema que supre as incapacidades da razão humana, e na melhor esteira do Doutor Angélico, sabe-se com certeza filosófica cristã, como servidora a teologia, que o mundo e o homem atestam que não têm em si mesmo nem seu princípio primeiro nem seu fim último, mas que participam do Ser em si, que é sem origem e sem fim. Assim por estas diversas "vias", o homem pode aceder ao conhecimento da existência de uma realidade que é a causa primeira e o fim último de tudo, "e que todos chamam Deus" (Santo Tomás de Aquino: Suma Teológica I, 2, 3)

O “justo” para a corrente iluminista não é mais aquele que passa do estado de pecado para o estado de justiça diante de Deus, tornando-se amigo e servo do Seu Senhor, aceitando a iniciação cristã e submetendo à confissão sacramental, mas, aquele que muda a sociedade para só depois pensar em Cristo que nos colocou em estado de filiação divina, quando não - mesmo fazendo mudanças estruturais na vida social -, esquece-se totalmente da Sã Doutrina pregada pelos lábios Santíssimos do Nosso Senhor, e validando essas mudanças por meios que podem variar do uso da força revolucionária, até da subversão moral, de forma que a sociedade assuma os falsos valores pela repetição de conceitos livremente pregados contra a fé. Desconstruir o vigor cristão na vida cotidiana era a palavra de ordem, criando conceitos que colocavam a religião no campo das superstições, além o ataque frontal às certezas oriundas do catolicismo e dos mistérios divindos. O que os homens louvam no iluminismo é a destituição de Deus do poder e de Sua primazia sobre a filosofia; o que se aplaude é o decreto do pensamento que tenta – como se possível fosse -, retirar Deus do seu trono excelso para assim, colocar o homem no lugar; este mesmo que não lhe compete ocupar, pois qualquer criatura não exerce poder sobre si mesma. Opostamente, a máxima da verdade cristã enfatizada pelos filósofos do cristianismo, por sua vez, apregoa que a mudança começa pelo homem – criatura de Deus que é princípio e fim de toda a criação - que aceita a supremacia divina, devotando toda a capacidade intelectual em benefício de Cristo, sendo essa mesma inteligência devedora de se inclinar humildemente diante do esplendor da verdade; e depois de curvada diante do Senhorio Divino, modifica o espaço criado, pelo fato de ter assumido a prática das virtudes cristãs mantidas pela Igreja Católica, e anunciadas como frutos da Revelação Divina. Inverte-se os papéis na filosofia ilustrada, pois para os homens modernos, a sociedade deve ceder espaço para a humanidade no centro e Deus às margens. O utilitarismo da divindade, que só será consultada quando necessário, quanto surgir o interesse de ver a criação partindo do Criador, ou para justificar a imoralidade da razão como se fosse fruto de um desejo transcendental, ou então, é negada categoricamente, para dizer que o cristianismo perfeito e puro dentro da Igreja Católica, é pernicioso e insalubre ao conhecimento. Nega-se a direção única para a qual toda ciência deve tender: “Procurai as coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita Deus. Pensais nas coisas do alto, e não nas da terra, pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”. (Col 3, 2 – 3).

Enquanto os frutos do movimento revolucionário iluminista determinam uma inteira corrupção da razão, limitando ainda mais suas incapacidades, e orientando a humanidade para radicalizar a vida social sem ter a doutrina cristã como centro, instaurando modificações somente no campo material, vitimando o pensamento e as condutas humanas para ações somente em benefício da coletividade sem ter Deus, em detrimento da verdade católica, esta, por sua santa e esponsal união com Jesus Cristo, com toda sinceridade, e sabendo que nossas vidas devem ser pautadas pela abertura para o transcendente, condicionando nossas ações para o que é agradável aos olhos de Deus, ensinou pelos séculos passados e vindouros que a vida plena é a vida sobrenatural da qual já participamos no mundo criado redimidos pelos méritos da Cruz de Cristo e por sua ressurreição, a qual nascemos pelo batismo. A mudança deve, portanto, ter a base sólida no Redentor, que não degrada sob nenhuma hipótese a mudança da sociedade sob os valores fundados pela doutrina cristã – que é diametralmente oposta da pretensão iluminista -, pois mesmo procurando as coisas do alto, trabalham diuturnamente todos os homens cristãos para a construção do mundo mais humano na humanidade de Jesus Cristo, sendo a Pessoa Divina de Cristo o santificador concreto e absoluto da corrupção humana experimentada na corrupção moral, por isso, o mal iluminista reside no direcionamento deturpado que se dá para as coisas terrenas, usando-as não em benefício do bem, mas da expropriação de Deus. O poder é puramente material, e jamais decorrente de Supremo Senhor. Tudo que vive o cristão, que assume a filosofia com Deus e não sem Ele, deve ser adquirido pelo espírito da fé que recebe do amor a sua perfeição; o mundo é visto com Cristo no poder, então, a esperança que opta pela glória do Senhor latentemente irá se iniciar na terra: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rom 12, 2).

O homem não é o fim de si mesmo, pois se ele fosse seu próprio fim, além de salvar a si mesmo por seus próprios méritos, seria ele também sua causa, e sabemos fortemente que não exercermos senhorio sobre nós, porque se assim fosse, certamente escolheríamos nascer ou não nascer, quando, onde e como entraríamos na existência terrena. Pelo contrário, a causa e o fim de todas as coisas é Deus, sem Ele o sustento do universo e seu ordenamento, e evidentemente a sociedade, que faz parte do universo criado, não se sustentaria fora de Deus, e fora de Deus, tudo caminha para a aniquilação total de toda a criação. Quando o pensamento faz sua ruptura com a busca de contemplar as coisas do alto, deixando de procurá-la no universo criado e fazendo com que elas se iniciem aqui na terra, Aquele que É a causa e o fim de todas as coisas (Deus) não está no centro, pelo contrário, renuncia-se ao bem para se abraçar o mal, pois Deus é o sumo Bem, e por ser tal, não existe sumo Bem fora de Deus. Toda e qualquer filosofia que não tende para o seu fim último, sendo esse fim a causa primeira de tudo, arvora-se arrogantemente em dizer que ela é o fim de si própria. (cf. Santo Tomás de Aquino: Suma Contra os Gentios III, XVIII, 1)

Existe a certeza cristã, que nos assevera com doce inteligência e excelsa sabedoria, que toda a criação, a sociedade, a humanidade, e todas as demais coisas estão sujeitas ao Cristo, até que Ele as submeta ao Pai (Cf. I Cor 15, 27s). Cristo reina em soberano império absoluto e supremo sobre todas a criaturas: “E necessário que Cristo reine na inteligência do homem, a qual, com perfeito acatamento, há de dar assentimento firme e constantemente às verdade reveladas e à doutrina de Cristo; é necessário que reine na vontade, a qual há de obedecer às leis e preceitos divinos” [Sua Santidade, o Papa Pio XI – Carta Encíclica Quas Primas ]. O homem só será governado para praticar o bem, quando participar da sabedoria celestial assistido pelo Espírito Santo, que beneficia a condição humana limitada com o discernimento para entender o que é bem e o que é mal. A disposição estável da inteligência é dominada por Deus, que permite, por grande amor do Pai pelos seus filhos, que não condicionemos em construir pensamentos que sejam distantes de Deus, pois buscando Sua face (Salmo 27) , encontraremos a justiça que abarca cada um para se viver Cristo, imitando-O; porque só assim não iremos corromper a vida social, como desejam os partidários das correntes iluministas.

A conservação da vida, da sociedade, a pregação da verdadeira doutrina não se constrói concorrentemente ao poderio de Deus, porém, se faz de forma tão íntima com o Senhor, que com Ele a razão e a vontade de dirigir nossas ações para a concretização da vontade divina na terra se unem, o que possibilita toda a conservação do existir humano. O iluminismo pretende por sua vez, colocar a humanidade centrada em si própria pela negação dos conceitos universais da fé, fruto da verdade Revelada por Deus, e que já foi entregue de forma completa, sendo que nada há entre os homens que necessita ser revelado. O depósito dessa Revelação, que Deus fez de Si próprio, dando-se a conhecer através Filho, Encarnado no seio da Virgem Maria pela ação do Espírito Santo, está contido e guardado fielmente pela Igreja Católica, que na sucessão dos apóstolos, e sob o Primado de Pedro, fundador da Sé Romana, por sua autoridade constituída por Cristo, legou aos seus sucessores, os Papas, a mesma primazia sobre a fé dos povos.

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Para citar:

MACULAN, Carlos Eduardo. Apostolado Sociedade Católica: Iluminismo: A Filosofia Sem Deus. Disponível em: http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=123.

Uma guerra surda: cristianismo x iluminismo ateu


Publicado por Pe Henrique
Uma guerra surda: cristianismo x iluminismo ateu
Há uma guerra surda sendo travada, no Brasil e no mundo, entre os crentes e os herdeiros do iluminismo ateu e anti-cristão, nascido a partir do século XVIII. A sociedade ocidental, século após século, foi sendo plasmada pelo cristianismo: suas leis, suas expressões culturais, sua sensibilidade, tudo tem a marca dos discípulos de Cristo...

O Ocidente foi parido pelo cristianismo. Agora, com a descristianização generalizada, os bem-pensantes iluministas querem criar um novo ordenamento, totalmente alheio e até contrário à cultura cristã. Querem também que os cristãos aceitem isso sem reagir... Se o leitor quiser um exemplo, basta ler as revistas semanais brasileiras (Época, Veja, IstoÉ) e os jornais de maior circulação no País (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, o Jornal do Brasil, O Globo). O argumento deles é o seguinte: a sociedade hoje é pluralista, o Estado é laico, sem vínculo com qualquer religião; logo, a Igreja e os cristãos, de modo geral, não têm nada a dizer sobre as questões da atualidade: aborto, manipulação genética, uso de embriões humanos em experiências para adquirir células-tronco, união civil dos homossexuais, eutanásia... nada disso compete aos cristãos. Aqui, cada um deve seguir sua consciência, sem querer impor ao conjunto da sociedade sua visão. Religião é questão privada, é questão de opinião e não deve ter nenhum influxo na construção do ordenamento social.

Aparentemente, o raciocínio dessa gente parece certo: cada um siga a sua consciência e pronto! Mas, aqui, há alguns pontos que precisam ser esclarecidos:

(1) É verdade que o Estado é laico e, enquanto tal, não deve professar ou favorecer religião alguma. Mas também e verdade que o Estado está a serviço do Povo, deve respeitar e tutelar os valores do Povo e o Povo brasileiro é cristão, na sua grande maioria e na sua matriz cultural. O Estado brasileiro não pode ser anticristão, não pode ignorar o cristianismo, não pode tratá-lo com desdém. Se o fizer, deve ser desautorizado e reformado pelo Povo! O Estado não é Deus e não está acima do bem e do mal! Então, quando se propõe arrancar o crucifixo do Supremo Tribunal Federal, se está agredindo a grande maioria do povo brasileiro: hoje arranca-se o crucifixo para amanhã se arrancar os valores cristãos que guiam nossa sociedade.

(2) É bobagem pensar que existam valores soltos, neutros e imparciais. Na verdade, o que os neo-iluministas desejam é impor seus valores: valores laicos, que apregoam a destruição da família e a adoção de uma ética atéia para decidir sobre o conceito de família, aborto, pesquisa genética, eutanásia, assassinato de embriões anencéfalos, etc. Note-se bem: não há uma ética neutra! Querem fazer o povo brasileiro engolir uma ética pagã, fundamentada numa razão meramente utilitarista e individualista.

(3) Os cristãos têm todo direito de gritar e defender seus valores. Se a sociedade é democrática e pluralista e a Igreja e outras denominações cristãs são membros dessa sociedade, têm direito sim de fazer pressão. É interessante: quando as minorias fazem barulho, todos elogiam; quando os cristãos o fazem, a turma iluminista reclama e mete o pau na Igreja católica (que é a bruxa velha) e nos outros cristãos! A Igreja deve gritar, deve organizar os que crêem, deve se articular com as demais denominações cristãs e com as pessoas de boa vontade para defender que nossas leis exprimam valores cristãos. Todos devem ser respeitados, mas temos o direito de lutar por nossas idéias.

(4) Isso não significa querer impor aos outros nosso modo de pensar. A questão é que uma sociedade permissiva, com leis em contradição com uma cultura cristã, marca toda a sociedade, marca as famílias, marca as escolas, marca nossos jovens e crianças. Temos o direito de lutar para defendê-los! Basta pensar no que uma idéia pagã de matrimônio e família, veiculada pelos meios de comunicação, tem gerado no Brasil: o conceito de família tem sido totalmente destruído na nossa cultura brasileira. Agradeçamos à Rede Globo e demais emissoras de televisão! Como seria interessante escutar os filhos de descasados e recasados, os filhos de mães solteiras e adolescentes, para vermos de perto o resultado desastroso de tudo isso! O que será dos jovens daqui a cinqüenta anos, formados em famílias totalmente alheia a valores sólidos?

As coisas, como estão, encaminham-se para uma contraposição forte. Estamos chegando num ponto de fusão, no qual os cristãos terão de dizer claramente “basta”! É preciso perguntar se é correto promover a desconstrução do Ocidente como se está fazendo. O Estado não religioso é uma conquista que deve ser mantida; a separação entre religião e governo é uma realidade sadia. O problema é quando grupos poderosos – os senhores dos meios de comunicação, por exemplo – fazem uma campanha bem orquestrada para arrancar as marcas cristãs de nossa cultura. Aí é necessário dizer “basta”, é necessário gritar, pressionar e mostrar que os cristãos não estão dormindo.

Devemos caminhar para a elaboração de uma ética civil, isto é, critérios éticos, fundamentados no princípio de respeito profundo pelos valores humanos mais nobres, que possam, de modo geral, ser por todos compartilhados. Todos – crentes ou não, cristãos ou não-cristãos – têm algo a dizer e têm em que colaborar. Mas, não se pode esquecer que este País chamado Brasil ainda é majoritariamente cristão e católico. Não se pode esquecer de nossas raízes culturais e dos valores que plasmaram nossa sociedade. Não se pode aceitar a ditadura intelectual de uma minoria “iluminada” por uma razão atéia querendo impor seus contra-valores – ainda na semana passada a Veja referia-se a Jesus como um simples “mito” e ridicularizava sutilmente os que acreditam que Cristo nasceu de uma Virgem... Uma guerra ideológica não faria bem a ninguém, pois provocaria somente exacerbações e exageros... Mas, os cristãos não ficarão calados; não ficarão quietos... Quem viver, verá!

Côn. Henrique Soares da Costa
fonte: www.padrehenrique.com