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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

As bençãos da tecnologia



Diretor do Center for Academic Research do Acton Institute
Nos últimos trinta anos, um certo grau de ceticismo sobre os méritos da tecnologia vieram à tona nas reflexões e escritos de muitos cristãos. Sem dúvida, os bons cristãos têm razão para estarem preocupados com os usos que muitas vezes são dados à tecnologia. Quando Hannah Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, não se referia à mentalidade burocrática que, com relativa eficiência, tratava de matar os judeus europeus. Ela também tinha em mente o modo pelo qual a tecnologia moderna fazia com que a matança em série de seres humanos parecesse menos enlouquecida, menos sanguinária, e até mesmo um tanto desapaixonada.
Cada vez mais os acontecimentos tecnológicos quotidianos, tais como a popularização do e-mail e da Internet, são, por vezes, retratados por alguns cristãos como facilitadores da despersonalização da vida humana e dos relacionamentos. Outros cristãos parecem suspeitar da associação da tecnologia com a emergência da modernidade, ou seja, um período da história no qual as exigências da Revelação são, muitas vezes, vistas como se fossem desafiadas pelos avanços da ciência.
Certa vez, Karl Marx argumentou que a sociedade tecnológica facilitava o ateísmo. Sem dúvida, há um tanto de verdade nessa afirmativa. Os avanços tecnológicos criam para nós um mundo cercado de produtos feitos pelo homem. Muitos de nós vivemos numa cultura repleta de aparelhos mecânicos pelos quais moldamos nossas vidas, e em estruturas sem precedentes na história, dominadas por certas características construídas pelo homem. Como resultado, a tecnologia nos dá uma imagem de nossas obras. Essa auto-imagem é o que muitos seres humanos consideram, admiram e, às vezes, cultuam.
O problema do auto-consumo e do culto idólatra de si mesmo têm, no entanto, atormentado o homem desde o princípio. Ocorreu em todas as culturas e em todas as épocas, não importando o grau de desenvolvimento tecnológico. No mundo romano atingiu uma espécie de apogeu com a auto-atribuição de divindades por parte dos Césares.
Será possível, então, que os cristãos pensem em tecnologia de alguma forma que evite, ao mesmo tempo, tanto a romantização do mundo pré-moderno e natural, mas também o “cientificismo” que nos faz crer que que a percepção da verdade é essencialmente limitada ao conhecimento da técnica?
Devemos ter em mente que o mal não procede da tecnologia em si. O mal deriva do pecado original e das livres escolhas dos seres humanos que preferem o mal ao bem. Portanto, o problema geralmente não é a tecnologia, mas como ela é usada. Dificilmente esse é um novo dilema.
Leonardo Da Vinci, que também era um engenheiro, desistiu de publicar os planos de um submarino que projetou porque considerava injusto atacar, sem aviso prévio, um adversário que não pudesse ver quem o atacava. Poderíamos supor que a decisão de Da Vinci foi ditada por um estranho código de cavalheirismo renascentista. O raciocínio de Da Vinci, entretanto, pressupunha simplesmente que a tecnologia estava sujeita a uma ordem maior: os ditames da lei moral divina, a única ordem que poderia dar à tecnologia um significado apropriado e determinar os fins para os quais poderia ser usada. Assim, devemos considerar que os submarinos não precisam ser empregados somente para fins violentos. Eles, de fato, têm servido para revelar ao homem muitas das glórias, anteriormente ocultas aos homens, como o mundo submarino criado por Deus.
Na verdade, é difícil pensar em algo que nos dê uma imagem mais poderosa da manifestação da Criação de Deus do que os imensos espaços solares que a astronomia nos permite vislumbrar. Em outras palavras, a tecnologia permitiu perceber uma parte do mistério complexo e interligado do universo de um modo nunca antes imaginado por Galileu ou Ptolomeu.
E nisso reside a maior de todas as ironias. Foi precisamente por realizar o mandato do livro do Gênesis de preencher a Terra e subjugá-la, que os seres humanos não só participam da ampliação do ato criador, mas também adquirem maior percepção das maravilhas da Criação. Por intermédio da tecnologia, cada vez um número maior de cientistas começa a vislumbrar o projeto e a ordem das coisas, onde muitos de seus ancestrais só viam a escuridão e o caos.
Nesse sentido, a tecnologia pode ajudar a desmistificar e “des-divinizar” o mundo material ao nos despertar para a majestade dAquele que o criou.
Jean Daniélou, um jesuíta estudioso da Patrística, certa vez observou que o homem primitivo identificava o sobrenatural em todos os lugares, mas isso se devia, em grande parte, à sua ignorância. Dessa forma, percebeu Daniélou, a tecnologia pode ajudar a “libertar a religião e a percepção humana do sobrenatural do incômodo fardo do pseudo-sobrenatural e do pseudo-religioso”.
Tudo isso nos leva a reconhecer que não há necessidade de denegrir Bill Gates para exaltar Santo Agostinho, da mesma forma que também não precisamos degradar a tecnologia humana para exaltar as obras de Deus. Quanto maiores as conquistas da tecnologia humana, segundo o divino ordenamento moral, escreveu Daniélou, Deus se mostra ainda maior ao homem.
Nesse sentido, não devemos ser excessivamente temerosos das conquistas tecnológicas do homem. Certamente, o cristão deve exigir que o uso que o homem dê à tecnologia, como a todas as outras escolhas, se conforme à Lei moral de Deus, uma lei possível de ser conhecida pela fé e pela razão. Mas, quanto maior o homem e suas conquistas tecnológicas, mais os cristãos devem perceber que ainda maior Ele deve ser – o Deus feito homem, o Alfa e o Ômega de todos os tempos, Jesus Cristo – de quem herdamos nossa própria grandeza.

Marx, o vil filósofo dos sem memória



Diretor do Center for Academic Research do Acton Institute
Karl Marx é o maior filósofo de todos os tempos. Ou ao menos foi o que muitos ouvintes da rádio BBC recentemente afirmaram quando ao serem perguntados “Qual maior filósofo de nossos tempos?” indicaram tal personagem. Para a surpresa de alguns, Marx liderou a pesquisa (27,93% dos entrevistados), batendo – por ampla margem de diferença – pensadores como Aristóteles (4,52%) e Kant (5,21%).
Marx escreveu muitas coisas, até mesmo palavras admiráveis sobre o capitalismo, o qual via como um avanço explícito nos arranjos econômicos anteriores. O resultado da BBC, no entanto, ressalta uma estranha cegueira nas sociedades ocidentais que persistem na presença de Marx.
De certa forma, nada disso é novidade. Em 1930, ocidentais intrépidos viajaram para a União Soviética e retornaram dizendo que tinham visto o futuro. De algum modo, eles conseguiram não ver o expurgo, a coletivização, e os gulags que acabaram por aprisionar e matar milhões de pessoas. Dizem, muitas vezes, que o comunismo é um sistema sem Deus. Isso não é bem verdade. O comunismo foi sem Deus na medida em que se baseou numa visão atéia do homem. Mesmo assim, o comunismo teve seus deuses; divindades para quem todos e qualquer um poderiam ser sacrificados.
Uma resposta comum é dizer que a filosofia de Marx foi distorcida por Lenin e Stalin. O próprio Marx, muitas vezes ouvimos, foi um humanista que queria libertar os povos de seus grilhões. Outros apologistas insistem que podemos fazer distinções entre o jovem e o velho Marx: o jovem filósofo, mais humanista, e o grisalho e insensível revolucionário.
Mesmo numa rápida passada de olhos, os escritos de Marx rapidamente nos revelam a superficialidade de tais defesas. Uma consistente visão desumanizante aparece em todo o pensamento de Marx. Para esse autor, o homem é um ser cuja origem é irrelevante, o futuro é a extinção e o presente é submissão ao controle. Mesmo que as pessoas vivessem na sociedade comunista de Marx, elas não teriam a possibilidade de uma existência com significado. Certa vez Marx descreveu a sociedade comunista como aquela em que seria possível “fazer uma coisa hoje e outra amanhã”, caçar pela manhã, pescar a tarde, criar gado a noite e criticar depois do jantar, se me aprouver”.
Isso parece idílico até percebermos que, da perspectiva marxista, nenhuma dessas atividades pode ter qualquer valor para os seres humanos. Para os verdadeiros materialistas, não há diferença qualitativa entre ler e pescar, trabalhar ou dormir, viver ou morrer. Tudo tem o mesmo valor e, portanto, nenhum valor. Nesse mundo não há diferença entre o trabalho de Madre Teresa de Calcutá e o de um guarda do campo de concentração. Eles partilham da mesma parcela de irrelevância geral de tudo e de todos.
Isso nos diz que o marxismo não pode estar interessado na justiça ou na liberdade. Ele insiste no fato de sermos como uma jangada, navegando nas ondas da história. Em tal mundo, nossas vidas não são importantes e nossas mortes, irrelevantes. Tentamos salvar somente a satisfação animal que tiramos da vida, antes que o nada em essência que somos termine na nossa aniquilação final como seres vivos.
Tanto se pode dizer do humanismo de Marx e um dos problemas mais sério com a filosofia marxista é a legitimação da criminalidade. Por “criminoso” não quero dizer simplesmente a pessoa que ocasionalmente desrespeita a lei. Em vez disso, pretendo descrever toda a situação em que a pessoa decide estar acima da lei, não estar sujeita à lei e onde a lei age meramente como outra ferramenta do poder. Pois, se o marxismo estiver correto e o materialismo for verdadeiro, então a violência sistemática à lei para alcançar objetivos políticos é aceitável.
Ironicamente, enquanto milhões de pessoas nos dias de hoje conhecem os impronunciáveis crimes nazistas, muito poucos, ao contrário, sabem das atrocidades cometidas por Lenin, Stalin, Fidel Castro, Pol Pot e outros marxistas. É como se houvesse um acordo silencioso para que esses crimes não sejam mencionados. Essa ignorância estudada manifesta-se quando observamos bandeiras vermelhas com foices e martelos estampados em manifestações. Será que as pessoas que as empunham sabem dos muitos que foram escravizados e mortos pelos regimes marxistas? Por que a bandeira marxista não é tratada da mesma forma que a suástica nazista?
É claro que Marx morreu muitos anos antes de seus seguidores chegarem ao poder. Mas podemos suspeitar de que Marx teria aplaudido o uso da violência pelos comunistas. O próprio Marx advogou o enforcamento dos capitalistas nos postes mais próximos. “Quando chegar a nossa vez”, advertiu a seus oponentes, “não disfarçaremos o nosso terrorismo”.
Muitas ações violentas têm sido cometidas em nome de filosofias e religiões, e nisso incluimos o cristianismo. Mas a diferença é que o cristianismo possui um critério moral, segundo o qual podemos julgar e condenar tais atividades cometidas por parte dos cristãos. O marxismo nunca teve nem terá tais padrões, pois na filosofia marxista não há lugar para o amor de Deus e para o amor ao próximo. Talvez isso, acima de tudo, torne Marx tão indigno da admiração de nossos contemporâneos.

Deus, o homem e o meio-ambiente

 Samuel Gregg

Diretor do Center for Academic Research do Acton Institute


Em 22 de abril, uma grande parte do mundo celebrará o Dia Internacional da Terra. Como muitos modismos, a popularidade desse evento ficou enfraquecida na maior parte do ocidente. Isso pode ter ocorrido porque as calamitosas conseqüências previstas por muitos ecologistas não aconteceram. Apesar disso, muitas pessoas de fé continuam a pregar uma espécie de “Evangelho verde”, alegando que um apocalipse ecológico irá ocorrer a menos que uma série de políticas – normalmente envolvendo várias formas de regulamentação governamental – sejam imediatamente adotadas.
É verdade que o “Evangelho verde” mudou seu credo ao longo dos últimos dez anos. Os fiéis já trilharam um longo caminho desde os dias das procissões de elefantes e das placas de cultura de bactérias na Catedral Episcopal de St. John The Divine em Nova York. Do mesmo modo, o flerte com a pseudo-ciência da teoria Gaia parece estar confinada a um número reduzido de teólogos da libertação, ex-padres e feministas que se autodenominam “eco-teólogas”.
Mas, embora os ambientalistas dentro das comunidades de fé, agora sabiamente se distanciem das tendências neo-pagãs que surgiram nos anos noventa, algumas coisas não mudaram. A primeira delas é o hábito de aceitar acriticamente as previsões de um juízo final ecológico feitas por ativistas ecológicos e alguns cientistas. Associado a isso está o hábito bastante não científico de ignorar qualquer evidência em contrário.
Um segundo problema recorrente é a tendência a considerar os problemas ecológicos como sendo iguais, ou de maior importância, do que a guerra contínua contra a vida humana inocente que floresce, na forma cada vez mais expansiva e cancerosa, da cultura de morte. Certamente, a destruição aleatória e sem sentido do mundo natural é um pecado. No entanto, a comparação dessas ações com a morte dos fetos ainda não nascidos ou com a eutanásia dos idosos, dos doentes ou aleijados, não pode ser conciliada com qualquer teologia moral cristã ortodoxa.
Há também o hábito de associar a responsabilidade ambiental com a intervenção do governo. Raramente chega ao conhecimento dos muitos círculos de ambientalistas cristãos que os maiores poluidores do mundo foram os regimes estatistas que dominavam a Europa Central e Oriental, bem como a ex-União Soviética. Qualquer pessoa buscaria em vão, dentre os escritos dos vários ambientalistas cristãos, encontrar o reconhecimento da força das soluções baseadas na propriedade privada para os problemas ambientais.
A beleza dessas soluções não repousam tão somente na sua eficiência comprovada. A utilidade e eficácia têm lugar na vida moral cristã, mas estão estritamente subordinadas à necessidade de evitar o mal e participar dos bens morais que são o fundamento do aprimoramento humano.
Desse ponto de vista, a força moral das soluções baseadas na propriedade privada devem ser encontradas de forma tal que atribuam responsabilidade direta pelo mundo natural nas mãos de indivíduos de carne e osso. Ao atingir tal patamar, nós mesmos evitamos de negligenciar tais obrigações por delegá-las aos políticos e burocratas.
É claro que nenhuma pessoa pode assumir a responsabilidade por toda a natureza. As soluções dadas pela propriedade privada, contudo, permitem que milhares de indivíduos e comunidades concretizem suas responsabilidades de bons administradores da terra, precisamente por permiti-los exercer o que o livro do Gênesis descreve como o domínio de cada pessoa humana sobre a Terra.
O exercício desse domínio, não é, é claro irrestrito. Se não puder ser moralmente bom, tal domínio deve ser atualizado de acordo com as especificações da lei divina dada por Deus, até mesmo aquela porção que possa ser conhecida pela simples razão humana, ou o que chamamos de lei moral natural. Dizer de outro modo seria sugerir que os seres humanos sabem mais do que Deus sobre a verdade do bem e do mal moral.
Dentro desses parâmetros, no entanto, as soluções que consideram a propriedade privada como parte da solução dos problemas ambientais permitem às pessoas aplicar seus conhecimentos diretamente aos assuntos que as tocar. Nesse sentido, representam uma aplicação concreta do princípio da subsidiariedade nas questões de meio-ambiente.
Isso não significa que o governo não tenha um papel a cumprir nas questões ambientais. As transações humanas no mundo natural não estão numa “zona-franca” da legislação. Qualquer análise mais acurada da subsidiariedade, no entanto, sugerirá que os problemas de meio-ambiente são melhor resolvidos e encaminhados na esfera mais próxima ao problema, até que o indivíduo ou a comunidade provem ser manifestamente incapazes de resolver a questão.
Nesse Dia da Terra, esperemos que os cristãos continuem a se distanciar dos elementos decididamente não cristãos e não científicos dos vários movimentos de meio-ambiente e descobrir as verdadeiras idéias amigas da natureza, que podem ser encontradas dentro de nossas próprias tradições. Essa é uma forma de respeitar a glória da ação criativa de Deus, ao passo que honramos a pessoa humana que está no ápice da criação de Deus.