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domingo, 24 de abril de 2011

Papa: O homem não é um produto casual da evolução

ZP11042406 - 24-04-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27815?l=portuguese
Pontífice preside à Vigília Pascal na Basílica de São Pedro

CIDADE DO VATICANO, domingo, 24 de abril de 2011 (ZENIT.org) - O homem não é um produto casual da evolução, mas do Amor criador e redentor de Deus, que dá sentido à vida, explicou Bento XVI na Vigília Pascal.
Ao presidir a “mãe de todas as vigílias” e batizar seis catecúmenos – da Suíça, Albânia, Peru, Rússia, Singapura e China – o pontífice quis responder na homilia às perguntas de todo homem e mulher sobre a origem e destino de sua existência.
“Se o homem fosse apenas um tal produto casual da evolução num lugar marginal qualquer do universo, então a sua vida seria sem sentido ou mesmo um azar da natureza”, afirmou.
“Mas não! No início, está a Razão, a Razão criadora, divina. E, dado que é Razão, ela criou também a liberdade; e, uma vez que se pode fazer uso indevido da liberdade, existe também o que é contrário à criação.”
“Mas, apesar desta contradição, a criação como tal permanece boa, a vida permanece boa, porque na sua origem está a Razão boa, o amor criador de Deus. Por isso, o mundo pode ser salvo”, disse, explicando a mensagem de esperança deixada pela paixão, morte e ressurreição de Cristo.
“Por isso podemos e devemos colocar-nos da parte da razão, da liberdade e do amor, da parte de Deus que nos ama de tal maneira que Ele sofreu por nós, para que, da sua morte, pudesse surgir uma vida nova, definitiva, restaurada.”
A celebração começou no átrio da Basílica de São Pedro, com o rito da bênção do fogo e a preparação do Círio pascal, presente da Comunidade Neocatecumenal de Roma.
Na basílica, a passagem da escuridão à luz simbolizou a chegada da Luz, que é Cristo, no mundo tenebroso do pecado, da solidão e da morte, segundo explicou Dom Guido Marini, mestre das celebrações litúrgicas pontifícias. O serviço litúrgico foi realizado por religiosos dos Legionários de Cristo.

Homilia de Bento XVI na Vigília Pascal

ZP11042401 - 24-04-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27810?l=portuguese
“A Igreja não é uma associação qualquer que se ocupa das necessidades religiosas”

CIDADE DO VATICANO, domingo, 24 de abril de 2011 (ZENIT.org) - Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou na celebração litúrgica da Vigília Pascal, na Basílica de São Pedro.
* * *
Amados irmãos e irmãs,
Dois grandes sinais caracterizam a celebração litúrgica da Vigília Pascal. Temos antes de mais nada o fogo que se torna luz. A luz do círio pascal que, na procissão através da igreja encoberta na escuridão da noite, se torna uma onda de luzes, fala-nos de Cristo como verdadeira estrela da manhã eternamente sem ocaso, fala-nos do Ressuscitado em quem a luz venceu as trevas. O segundo sinal é a água. Esta recorda, por um lado, as águas do Mar Vermelho, o afundamento e a morte, o mistério da Cruz; mas, por outro, aparece-nos como água nascente, como elemento que dá vida na aridez. Torna-se assim imagem do sacramento do Baptismo, que nos faz participantes da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Mas não são apenas estes grandes sinais da criação, a luz e a água, que fazem parte da liturgia da Vigília Pascal; outra característica verdadeiramente essencial da Vigília é o facto de nos proporcionar um vasto encontro com a palavra da Sagrada Escritura. Antes da reforma litúrgica, havia doze leituras do Antigo Testamento e duas do Novo. As do Novo Testamento permaneceram; entretanto o número das leituras do Antigo Testamento acabou fixado em sete, que, atendendo às situações locais, se podem reduzir a três leituras. A Igreja quer, através de uma ampla visão panorâmica, conduzir-nos ao longo do caminho da história da salvação, desde a criação passando pela eleição e a libertação de Israel até aos testemunhos proféticos, pelos quais toda esta história se orienta cada vez mais claramente para Jesus Cristo. Na tradição litúrgica, todas estas leituras se chamavam profecias: mesmo quando não são directamente vaticínios de acontecimentos futuros, elas têm um carácter profético, mostram-nos o fundamento íntimo e a direcção da história; fazem com que a criação e a história se tornem transparentes no essencial. Deste modo tomam-nos pela mão e conduzem-nos para Cristo, mostram-nos a verdadeira luz.
Na Vigília Pascal, o percurso ao longo dos caminhos da Sagrada Escritura começa pelo relato da criação. Desta forma, a liturgia quer-nos dizer que também o relato da criação é uma profecia. Não se trata de uma informação sobre a realização exterior da transformação do universo e do homem. Bem cientes disto estavam os Padres da Igreja, que entenderam este relato não como narração real das origens das coisas, mas como apelo ao essencial, ao verdadeiro princípio e ao fim do nosso ser. Ora, podemo-nos interrogar: mas, na Vigília Pascal, é verdadeiramente importante falar também da criação? Não se poderia começar pelos acontecimentos em que Deus chama o homem, forma para Si um povo e cria a sua história com os homens na terra? A resposta deve ser: não! Omitir a criação significaria equivocar-se sobre a história de Deus com os homens, diminuí-la, deixar de ver a sua verdadeira ordem de grandeza. O arco da história que Deus fundou chega até às origens, até à criação. A nossa profissão de fé inicia com as palavras: «Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra». Se omitimos este início do Credo, a história global da salvação torna-se demasiado restrita, demasiado pequena. A Igreja não é uma associação qualquer que se ocupa das necessidades religiosas dos homens e cujo objectivo se limitaria precisamente ao de uma tal associação. Não, a Igreja leva o homem ao contacto com Deus e, consequentemente, com o princípio de tudo. Por isso, Deus tem a ver connosco como Criador, e por isso possuímos uma responsabilidade pela criação. A nossa responsabilidade inclui a criação, porque esta provém do Criador. Deus pode dar-nos vida e guiar a nossa vida, só porque Ele criou o todo. A vida na fé da Igreja não abrange somente o âmbito de sensações e sentimentos e porventura de obrigações morais; mas abrange o homem na sua integralidade, desde as suas origens e na perspectiva da eternidade. Só porque a criação pertence a Deus, podemos depositar n’Ele completamente a nossa confiança. E só porque Ele é Criador, é que nos pode dar a vida por toda a eternidade. A alegria e gratidão pela criação e a responsabilidade por ela andam juntas uma com a outra.
Podemos determinar ainda mais concretamente a mensagem central do relato da criação. Nas primeiras palavras do seu Evangelho, São João resumiu o significado essencial do referido relato com uma única frase: «No princípio, era o Verbo». Com efeito, o relato da criação, que ouvimos anteriormente, caracteriza-se pela frase que aparece com regularidade: «Disse Deus…». O mundo é uma produção da Palavra, do Logos, como se exprime João com um termo central da língua grega. «Logos» significa «razão», «sentido», «palavra». Não é apenas razão, mas Razão criadora que fala e comunica a Si mesma. Trata-se de Razão que é sentido, e que cria, Ela mesma, sentido. Por isso, o relato da criação diz-nos que o mundo é uma produção da Razão criadora. E deste modo diz-nos que, na origem de todas as coisas, não está o que é sem razão, sem liberdade; pelo contrário, o princípio de todas as coisas é a Razão criadora, é o amor, é a liberdade. Encontramo-nos aqui perante a alternativa última que está em jogo na disputa entre fé e incredulidade: o princípio de tudo é a irracionalidade, a falta de liberdade e o acaso, ou então o princípio do ser é razão, liberdade, amor? O primado pertence à irracionalidade ou à razão? Tal é a questão de que, em última análise, se trata. Como crentes, respondemos com o relato da criação e com João: na origem, está a razão. Na origem, está a liberdade. Por isso, é bom ser uma pessoa humana. Assim o que sucedera no universo em expansão não foi que por fim, num angulozinho qualquer do cosmos, ter-se-ia formado por acaso também uma espécie como qualquer outra de ser vivente, capaz de raciocinar e de tentar encontrar na criação uma razão ou de lha conferir. Se o homem fosse apenas um tal produto casual da evolução num lugar marginal qualquer do universo, então a sua vida seria sem sentido ou mesmo um azar da natureza. Mas não! No início, está a Razão, a Razão criadora, divina. E, dado que é Razão, ela criou também a liberdade; e, uma vez que se pode fazer uso indevido da liberdade, existe também o que é contrário à criação. Por isso se estende, por assim dizer, uma densa linha escura através da estrutura do universo e através da natureza do homem. Mas, apesar desta contradição, a criação como tal permanece boa, a vida permanece boa, porque na sua origem está a Razão boa, o amor criador de Deus. Por isso, o mundo pode ser salvo. Por isso podemos e devemos colocar-nos da parte da razão, da liberdade e do amor, da parte de Deus que nos ama de tal maneira que Ele sofreu por nós, para que, da sua morte, pudesse surgir uma vida nova, definitiva, restaurada.
O relato veterotestamentário da criação, que escutámos, indica claramente esta ordem das coisas. Mas faz-nos dar um passo mais em frente. O processo da criação aparece estruturado no quadro de uma semana que se orienta para o Sábado, encontrando neste a sua perfeição. Para Israel, o Sábado era o dia em que todos podiam participar no repouso de Deus, em que homem e animal, senhor e escravo, grandes e pequenos estavam unidos na liberdade de Deus. Assim o Sábado era expressão da aliança entre Deus, o homem e a criação. Deste modo, a comunhão entre Deus e o homem não aparece como um acréscimo, algo instaurado posteriormente num mundo cuja criação estava já concluída. A aliança, a comunhão entre Deus e o homem, está prevista no mais íntimo da criação. Sim, a aliança é a razão intrínseca da criação, tal como esta é o pressuposto exterior da aliança. Deus fez o mundo, para haver um lugar no qual Ele pudesse comunicar o seu amor e a partir do qual a resposta de amor retornasse a Ele. Diante de Deus, o coração do homem que Lhe responde é maior e mais importante do que todo o imenso universo material que, certamente, já nos deixa vislumbrar algo da grandeza de Deus.
Entretanto, na Páscoa e a partir da experiência pascal dos cristãos, devemos ainda dar mais um passo. O Sábado é o sétimo dia da semana. Depois de seis dias em que o homem, de certa forma, participa no trabalho criador de Deus, o Sábado é o dia do repouso. Mas, na Igreja nascente, sucedeu algo de inaudito: no lugar do Sábado, do sétimo dia, entra o primeiro dia. Este, enquanto dia da assembleia litúrgica, é o dia do encontro com Deus por meio de Jesus Cristo, que no primeiro dia, o Domingo, encontrou como Ressuscitado os seus, depois que estes encontraram vazio o sepulcro. Agora inverte-se a estrutura da semana: já não está orientada para o sétimo dia, em que se participa no repouso de Deus; a semana inicia com o primeiro dia como dia do encontro com o Ressuscitado. Este encontro não cessa jamais de verificar-se na celebração da Eucaristia, durante a qual o Senhor entra de novo no meio dos seus e dá-Se a eles, deixa-Se por assim dizer tocar por eles, põe-Se à mesa com eles. Esta mudança é um facto extraordinário, quando se considera que o Sábado – o sétimo dia – está profundamente radicado no Antigo Testamento como o dia do encontro com Deus. Quando se pensa como a passagem do trabalho ao dia do repouso corresponde também a uma lógica natural, torna-se ainda mais evidente o alcance impressionante de tal alteração. Este processo inovador, que se deu logo ao início do desenvolvimento da Igreja, só se pode explicar com o facto de ter sucedido algo de inaudito em tal dia. O primeiro dia da semana era o terceiro depois da morte de Jesus; era o dia em que Ele Se manifestou aos seus como o Ressuscitado. De facto, este encontro continha nele algo de impressionante. O mundo tinha mudado. Aquele que estivera morto goza agora de um vida que já não está ameaçada por morte alguma. Fora inaugurada uma nova forma de vida, uma nova dimensão da criação. O primeiro dia, segundo o relato do Génesis, é aquele em que teve início a criação. Agora tornara-se, de uma forma nova, o dia da criação, tornara-se o dia da nova criação. Nós celebramos o primeiro dia. Deste modo celebramos Deus, o Criador, e a sua criação. Sim, creio em Deus, Criador do Céu e da Terra. E celebramos o Deus que Se fez homem, padeceu, morreu, foi sepultado e ressuscitou. Celebramos a vitória definitiva do Criador e da sua criação. Celebramos este dia como origem e simultaneamente como meta da nossa vida. Celebramo-lo porque agora, graças ao Ressuscitado, vale de modo definitivo que a razão é mais forte do que a irracionalidade, a verdade mais forte do que a mentira, o amor mais forte do que a morte. Celebramos o primeiro dia, porque sabemos que a linha escura que atravessa a criação não permanece para sempre. Celebramo-lo, porque sabemos que agora vale definitivamente o que se diz no fim do relato da criação: «Deus viu que tudo o que tinha feito; era tudo muito bom» (Gn 1, 31). Amen.
[Tradução distribuída pela Santa Sé

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Evolucionismo: O estado atual da questão


Por Antonio Pardo
O darwinismo apresenta-se como a única explicação válida para o fenômeno evolutivo. Com efeito, há pessoas que pensam que negar o darwinismo é negar a própria idéia de evolução. Mas as coisas não são bem assim. A teoria de Darwin (e as suas várias interpretações) não consegue interpretar satisfatoriamente os dados disponíveis sobre a Evolução. Por que então continua a ser tão defendida?
 
INTRODUÇÃO
É muito difícil dar uma visão de conjunto razoavelmente completa sobre a teoria da evolução, tendo em conta a complexidade das discussões sobre o assunto que hoje se encontram no mercado das idéias. Por isso, procurarei nesta exposição fazer apenas um elenco das idéias mais relevantes que servem de base para as teses evolucionistas atuais. Ao longo da explanação, tecerei algumas observações críticas quando forem necessárias e, no fim, apresentarei alguns dados que permitam vislumbrar possíveis encaminhamentos para uma explicação atualizada do fenômeno evolutivo.
1. IDÉIAS BÁSICAS
1.1. O que se entende por evolução?
Em primeiro lugar, é necessário um esclarecimento terminológico: muitos livros ou artigos sobre a evolução empregam os termos comuns nesse campo com significados diferentes; por isso devemos esclarecer qual o significado que daremos aqui a esses termos, a fim de evitar confusões.
Entendemos por evolução, de um modo genérico, a variação das espécies dos seres vivos.
Mais especificamente, podemos distinguir dois tipos de evolução: a macroevolução e a microevolução.
Por macroevolução, entende-se a aparição de novas espécies por geração a partir de outras distintas.
Por microevolução, entende-se a aparição de variações morfológicas dentro de uma mesma espécie, isto é: a aparição daquilo que podemos chamar de raças, de subespécies ou de variedades, que no entanto continuam a ser inequivocamente da mesma espécie.
 
Fóssil de mastodonte encontrado em 2000 no estado americano de Nova York
1.2. Houve evolução
Em segundo lugar, é preciso ressaltar que deve ser admitida a evolução das espécies (no sentido de macroevolução, que é o que habitualmente empregaremos nestas linhas), mesmo que não seja uma realidade observável diretamente: exige-o o cúmulo de averiguações feitas em múltiplas disciplinas, por uma necessidade de coerência lógica. Trata-se da única dedução possível diante da evidência de que existem fósseis de seres vivos hoje desaparecidos, bem como seres vivos dos quais não se encontram fósseis. Uma vez demonstrada definitivamente a impossibilidade da geração espontânea nas atuais circunstâncias do mundo, a única dedução válida é que em tempos pretéritos alguns seres de uma espécie geraram seres de outra espécie. É a isso que chamaremos de evolução.
Além da dedução a partir da evidência dos fósseis, existem
muitas outras evidências que apontam na mesma direção: todos os seres vivos têm uma constituição basicamente igual, são compostos deproteínas, açúcares, informação genética, membranas, sistemas respiratórios, etc. Todas essas coincidências, que são muitíssimas, sugerem uma origem comum e apóiam a idéia da evolução, ou seja, o aparecimento de novas espécies por geração.
1.3. Evolução não é igual a darwinismo
Outra fonte de confusões procede de se reduzir o processo evolutivo a uma das explicações que se dão acerca dele; concretamente, nesta época de predomínio quase absoluto da explicação darwinista, é comum confundir evolução com darwinismo. Uma coisa, porém, é que seres de uma espécie tenham no passado produzido seres de outra espécie; e outra bem diferente as várias explicações que se podem dar para esse fenômeno. O problema atual é a ausência quase absoluta de explicações alternativas à darwinista, e por isso as pessoas tendem a confundir o fenômeno evolutivo com essa sua explicação, que é quase a única oferecida no mercado das idéias.
 
O naturalista inglês Charles Robert Darwin (1809-1882) e uma caricatura sua publicada na revista inglesa The Hornet (“A vespa”), contemporânea ao cientista
 
Uma coisa, no entanto, é evidente: um fenômeno que se quer explicar é diferente da explicação científica que se constrói para explicá-lo. Outra questão é saber se essa explicação científica está ou não suficientemente comprovada; mas, independentemente de estar ou não comprovada, explicação e fenômeno explicado serão sempre coisas diferentes.
Por este motivo, é preciso manter uma clara separação conceitual entre os termos “evolução” e “darwinismo”. Conseqüentemente, aceitar o fenômeno evolutivo não implicará aceitar a explicação darwinista; nem criticar a explicação implicará negar o fenômeno evolutivo.

2. BREVE EXPOSIÇÃO DO DARWINISMO
A predominância da explicação darwinista para o fenômeno da evolução é tão grande que torna obrigatório fazermos um breve resumo das suas idéias básicas. O tema não é tão simples como parece, pois a obra de Darwin foi publicada há mais de século e meio; a ela já se fizeram numerosos acréscimos e várias das suas teses originais foram abandonadas. Mesmo assim, continuaremos a empregar o termo “darwinismo”, tanto para a obra de Darwin como para as suas derivações posteriores que mantiveram as mesmas idéias básicas. Estas últimas receberam diversos nomes, que omitiremos em favor da clareza da exposição.
O núcleo da idéia de Darwin, apresentada num artigo em co-autoria com Wallace, mas popularizada depois na sua obra A origem das espécies (1859), consiste basicamente na união de três noções: variação, seleção e acumulação.
Folha de rosto da primeira edição de A origem das espécies.
 
2.1. Variações espontâneas
A variação, mais do que uma idéia explicativa, é uma constatação elementar que resulta da observação da Natureza. Numa população de animais da mesma espécie, não existem dois idênticos: há sempre pequenas variações entre os diversos exemplares. Trata-se de um assunto que os pecuaristas e os que trabalham com animais conhecem bem, pois a familiaridade torna-os capazes de distinguir pequenas diferenças que passam desapercebidas aos olhos de um leigo. As pequenas diferenças morfológicas ou funcionais são o ponto de apoio para toda a tese de Darwin.
2.2. Seleção natural
A seleção é uma idéia que Darwin tomou de Malthus e aplicou à Natureza. Com a sua obra Ensaio sobre a população (1798), Malthus popularizou entre as classes cultas da Inglaterra a idéia de que o ritmo de crescimento da população segue uma progressão geométrica, ao passo que o da produção de alimentos segue uma progressão
Folha de rosto da primeira edição de A origem das espécies.
aritmética. A conseqüência automática seria a fome no futuro. Com outras palavras: a vida do homem é uma dura luta pela sobrevivência, simplesmente por causa da escassez de alimentos. É uma tese que reflete visivelmente a competição comercial da Inglaterra nos começos da Revolução Industrial.
Darwin transfere essa consideração da Sociedade para Natureza; para ele, a sobrevivência dos seres vivos é uma tarefa difícil, pois estes se encontram ameaçados por múltiplos perigos e problemas: escassez de alimentos, inclemências do tempo, ameaças dos predadores, etc. A vida é uma dura luta pela sobrevivência. Nessa luta, somente os que estão mais bem dotados são capazes de sobreviver e gerar descendentes. A Natureza, devido ao seu caráter duro e implacável, vai filtrando as variações espontâneas até que, por eliminação das formas menos aptas para sobreviver, os seres de uma espécie ganhem novas formas.
2.3. Acumulação de variações
Por último, Darwin aceita que todo o processo evolutivo se deu por acumulação progressiva de pequenas variações espontâneas que vão sendo filtradas pela dureza da seleção natural. Em alguns momentos, ele se pergunta abertamente como podem todas as formas vivas ter surgido mediante um processo tão elementar, mas diz que, apesar das suas dúvidas, reafirma a sua tese, pensando no tempo enorme que esse processo pôde empregar para ir produzindo as diferentes formas.
2.4. Outras idéias
A obra original de Darwin contém muitas outras idéias e sugestões: não reluta em aceitar questões como a herança de caracteres adquiridos (tese que na época tinha boa aceitação entre os biólogos), ou até mesmo teses ortogenéticas, isto é, teses que postulam que os seres vivos têm uma tendência interna à variação.
Mas não nos devemos iludir com esse ecletismo: Darwin afirma explicitamente que negar o fenômeno da seleção natural derrubaria toda a sua teoria. Isso significa que os outros fenômenos que ele menciona só têm um papel marginal na sua explicação da evolução. O básico são as variações, unidas à seleção natural e à acumulação progressiva das variações.
 
2.5. O neodarwinismo
O botanista holandês Hugo de Vries (1848-1935) que aplicou a teoria das mutações genéticas à teoria evolucionista.
Falar de neodarwinismo em bloco é uma simplificação excessiva. Mas de qualquer forma é possível resumir a sua principal contribuição: acrescentar a teoria genética às idéias de Darwin (mediante a teoria sintética de Hugo de Vries). Enquanto Darwin, ao falar das variações, se referia somente às constatações da observação, o neodarwinismo afirma ter descoberto a causa de tais variações: as alterações aleatórias da informação genética. A aparição da teoria genética no começo do século XX foi decisiva para a formulação dessa tese: embora seja evidente que os caracteres dos seres vivos são transmitidos às sucessivas gerações, a teoria genética atribui pela primeira vez essa transmissão a um componente material dentro da célula. Inicialmente, esse componente foi chamado de plasma germinal, e posteriormente recebeu o nome de gene; mas a sua estrutura e o seu modo de guardar a informação só foram descobertos muito tempo depois.
O botanista holandês Hugo de Vries (1848-1935) que aplicou a teoria das mutações genéticas à teoria evolucionista

Em suas primeiras versões, afirmava-se que toda e qualquer característica de um ser vivo corresponde a um gene que determina de modo unívoco a existência de tal característica. A teoria sintética simplesmente limitava-se a aplicar a teoria genética às variações observadas: variações morfológicas ou de qualquer outro tipo devem-se às variações dos genes. Quando as teses da genética foram definidas mais claramente, essas variações casuais passaram a ser chamadas de mutações aleatórias: é o que hoje se ensina já nas primeiras lições de Biologia.
 
3. ALGUNS AJUSTES CONCEITUAIS
Embora aparentemente explique a evolução biológica de um modo satisfatório, a teoria darwinista contém vários erros conceituais e mal-entendidos dos quais raramente se fala, mas que são básicos para que se possa entender a fragilidade dessa explicação.
3.1. Morfologia e espécie
Em primeiro lugar, na obra inicial de Darwin, o termo “espécie” só aparece no título: não é mencionado em nenhum outro trecho do livro. Na realidade, o que se tenta dar é apenas uma explicação para a mudança morfológica dos seres vivos, e não para a sua espécie. A questão sobre como uma mudança de espécie pode ocorrer por acumulação de variações foi introduzida no darwinismo num momento bem posterior, mediante o conceito de “especiação”: existem mudanças evolutivas, mas somente algumas delas levam a mudanças de espécie, ou seja, só algumas acarretam especiação.
O próprio Darwin chega a reconhecer a sua frustração e os problemas quase insolúveis com que depara quando tenta determinar, numa série de exemplares que descreve, se são espécies diferentes ou variedades de uma mesma espécie. Depois de escrever um artigo científico num dos sentidos, não se convence, deixa-o de lado e escreve outro no sentido oposto, para depois abandoná-lo também e voltar ao enfoque original. Dessa perplexidade de Darwin podemos tirar uma lição bem clara: uma mudança de espécie não é uma mera mudança de morfologia.

Os pintassilgos que Darwin descreveu nas Ilhas Galápagos.
A ilustração é do livro
A origem das espécies.
3.2. Morfologia e padrão
O problema da determinação da espécie por meio de critérios exclusivamente científicos ou biológicos é insolúvel. Existe uma evidência intelectual da espécie: é a natureza ou essência de um ser vivo. Mas as evidências proporcionadas pela Ciência são de outro tipo (estritamente baseadas nos dados observados): por isso ela é não é capaz de dizer nada a esse respeito. A Ciência deve pautar-se pela evidência intelectual comum e organizar-se de acordo com ela, para depois, mediante raciocínios, identificar as espécies de acordo com os dados da observação.
Quando se aplica esse critério do conhecimento comum (ou do bom senso) à questão da espécie, chega-se à conclusão de que, do ponto de vista científico, uma espécie caracteriza-se por ter um padrão morfológico estável (dentro de uma certa margem de variações, maiores ou menores, que não o desfiguram). Com a geração, com os cruzamentos, etc. aparecem variações entre os diferentes indivíduos que não rompem esse padrão estável.
Para explicar a evolução, seria preciso explicar por que aparecem novos padrões morfológicos estáveis: esse seria o único enfoque cientificamente aceitável, pois procuraria identificar um substrato material utilizando os seus próprios métodos. Isso nunca foi feito, e nem sequer tentado seriamente (em parte, por causa da perda de foco no problema, causada pelo próprio darwinismo).
3.3. Origem e seleção
Por último, é evidente que as teses darwinistas partem da constatação da variedade, mas não a explicam. Com a chegada da genética, já em pleno século XX, tenta-se explicar essa variedade como resultado de mutações ao acaso. Mas, como é bem sabido, o acaso como causa é muito pobre e dificilmente consegue explicar alguma coisa, ainda mais no que se refere à enorme riqueza que vemos nos seres vivos, mesmo nos mais elementares; uma riqueza que se mostra cada vez maior à medida que a Biologia progride nas suas descobertas.
O que o darwinismo explica – ou pelo menos pretende explicar – é a filtragem das distintas formas (variações espontâneas) que os seres vivos assumem. O seu ponto forte é a seleção natural. Observa-se no entanto que muitas pessoas, ao simplificarem em demasia as teses darwinistas, acabam pensando que a origem das formas adaptadas se deve à própria seleção. Isso já é um erro, pois a seleção apenas elimina as formas não adaptadas. E se isso é assim, então de onde procedem as tais formas adaptadas? É óbvio para qualquer pessoa de bom senso que essas formas não surgem por acaso.

4. DARWINISMO E CIENTIFICISMO
Acabamos de esboçar, de modo muito sumário, o panorama atual da evolução, cujo ponto de vista é fundamentalmente darwinista. E já começaram a surgir algumas questões passíveis de crítica: daqui para a frente, tentaremos desenvolver essa visão crítica, centrada num pequeno número de pontos que nos parecem ser especialmente interessantes. Os primeiros versarão sobre o cientificismo para o qual pendem as explicações darwinistas.
4.1. Apenas ciência
Um dos apelos que tornaram a explicação darwinista tão popular hoje em dia é a sua pretensão de ser uma explicação exclusivamente científica. É possível mesmo acrescentar que é a única, pois até agora não apareceu nenhuma outra explicação que alcançasse alguma popularidade. Por isso o darwinismo – sob formas mais ou menos desenvolvidas – reina absoluto no panorama atual.
Para a cultura contemporânea, a explicação mais válida para a realidade é a explicação científica. Para quem vê o mundo assim, é muito conveniente dispor de uma explicação do fenômeno evolutivo que afirme ser (embora na verdade não o seja) exclusivamente científica.
4.2. Rejeição de Deus
Além de contar com a simpatia da mentalidade cientificista atual, a explicação darwinista presta-se ao jogo das ideologias materialistas e mecanicistas.
Ao longo do século XIX, todas as outras teorias sobre a evolução aliavam as explicações que hoje consideramos científicas a outras de cunho fortemente filosófico: questões sobre a finalidade natural, sobre tendências naturais na evolução dos seres vivos, etc., que aliás sempre foram clássicas nos estudos sobre a Filosofia da Natureza. Partindo desses temas, e também de outros, a reflexão filosófica sempre procurou dar prosseguimento aos seus raciocínios até chegar a Deus, cuja existência justifica – do ponto de vista teórico – essas finalidades e tendências na Natureza.
Com o darwinismo, a explicação torna-se meramente científica e desaparecem as aludidas questões filosóficas (que no entanto continuam a ser pertinentes): a partir desse momento, Deus já não é mais necessário no quadro da evolução. Neste ponto, convém esclarecer o seguinte: não se trata de afirmar que Deus cria a evolução, mas sim de que a observação da Natureza leva, por reflexão, à consideração de Deus como fundamento da realidade que se está observando, incluída a evolução.
Em suma: com o darwinismo, aparece a possibilidade de expulsar Deus da visão de uma Natureza em contínua evolução, já que se trata de uma explicação “puramente” mecânica ou biológica. Quando os contemporâneos de Darwin o acusavam de ateu, estavam percebendo como tudo isso ia acabar.
4.3. Darwinismo e fundamentalismo
Esse matiz ateu das teses darwinistas (claramente reforçado por muitos autores neodarwinistas posteriores) provocou uma reação dos cristãos: uma reação que se estendeu ao longo do século XX sob diversas formas, especialmente no âmbito norte-americano. Basicamente, o que se fez foi rejeitar em bloco a idéia de evolução biológica e as suas explicações darwinistas, justamente porque essas idéias (na sua versão materialista) se opõem às verdades religiosas sobre a criação e sobre o mundo.
Por isso começaram a ser movidas diversas ações judiciais nos Estados Unidos no sentido de garantir que as teses darwinistas (ou evolucionistas) fossem ensinadas nas escolas públicas apenas como sendo meras hipóteses, e exigindo que se dedicasse um igual número de horas ao ensino das teses criacionistas, propondo-as como uma alternativa à explicação científica.
Atitudes como essa derivam de uma confusão entre os diferentes planos explicativos da realidade (o científico e o filosófico) e também de uma simplificação: tanto da postura científica (reduzir a evolução à sua explicação darwinista, e esta à sua versão materialista) como da postura religiosa (reduzir a criação à produção direta de cada coisa por Deus no exato momento em que começa a existir, sem diferenciar a causalidade transcendente de Deus da causalidade imanente do mundo).
4.4. O novo conservadorismo
Esse clima de “guerra entre ciência e religião” mudou nos últimos anos, a partir do momento em que começaram a surgir críticas ao darwinismo dentro do próprio campo da ciência, por parte da chamada escola do intelligent design. A sua idéia de fundo é relativamente simples: o mecanismo postulado pelo darwinismo não explica o surgimento de sistemas irredutivelmente complexos. Tais sistemas não podem proceder de outros mais simples, mediante pequenas variações, precisamente porque os sistemas mais simples não são funcionais; existe um grau máximo de simplificação, além do qual já não há tal funcionalidade. Encontram-se na Natureza muitos exemplos de funcionalidade irredutível, cuja origem não pode ser explicada pelo darwinismo.
A saída que os partidários dessa escola encontraram para explicar os sistemas irredutivelmente complexos foi afirmar que eles são fruto de um projeto inteligente (intelligent design), pois a sua funcionalidade exibe uma finalidade (um “para quê”) evidente. Mas, ao formularem essa explicação, evitam entrar em maiores profundidades filosóficas.
Essa oposição ao darwinismo (que o público e muitos biólogos erradamente interpretam como uma oposição à própria idéia de evolução) obviamente não é feita a partir de uma visão religiosa do assunto. Sendo assim, a discussão que antes era entre Ciência e Fé derivou para uma discussão entre liberais e conservadores, na qual estes últimos não têm uma posição explicitamente baseada em idéias religiosas.
Como já vimos, o trabalho de divulgação científica levado a cabo por evolucionistas materialistas e ateus (como Carl Sagan e Richard Dawkins, entre outros) influiu decisivamente para que surgissem atitudes desse tipo contra o darwinismo (e também contra a evolução, conforme a simplificação já mencionada). A pressão no sentido de criar um clima de opinião materialista foi tanta que acabou por produzir uma reação – em alguns casos puro fruto da irritação, mas em outros muito justificada – por parte dos que não se consideram materialistas nem ateus. Isso fez também com que certas questões claramente filosóficas (embora atualmente não sejam chamadas assim) retornassem ao âmbito da explicação.
 
5. O DARWINISMO EM APUROS
Voltando à questão do darwinismo em si, não podemos deixar de mencionar as dificuldades de natureza exclusivamente científica que lhe foram levantadas nas últimas décadas. Até mesmo a enumeração das principais que surgiram a partir dos anos 1970 já seria muito demorada, mas não podemos deixar de aludir a obras como a do zoólogo Grassé, que com base na sua ciência denuncia a incapacidade do darwinismo para explicar o que pretende.
A fim de mostrar com certa profundidade uma das dificuldades apontadas nestas décadas, descreveremos a questão do equilíbrio pontuado e a resposta que lhe deram os darwinistas: a chamada especiação alopátrica. Terminaremos mencionando brevemente outras dificuldades, para que se veja que o reinado das idéias darwinistas não é indiscutível, apesar do seu esmagador predomínio na época atual.
5.1. O equilíbrio pontuado
Já era evidente desde o século XIX que as diferenças entre os diversos restos fósseis não seguiam uma graduação suave. Mas a explicação de Darwin era que toda a evolução se processou por meio de variações minúsculas, e portanto, entre duas formas quaisquer claramente diferenciadas, deveriam existir restos das formas intermediárias. E por que não são encontrados?
A resposta dada no século XIX foi de que isso se devia às falhas no registro fóssil: nem todo o ser vivo deixa restos fossilizados, e os que estavam sendo descobertos ainda eram poucos; por isso era lógico que nem todas as formas intermédias estivessem já à disposição. No entanto, com o decorrer dos anos a situação não melhorou, e assim permanece até hoje: não apareceram formas intermédias da transição entre formas claramente diferentes. As novas descobertas de fósseis parecem estar configurando um quadro repleto de formas escalonadas, mas nunca suavizando a transição entre as formas já conhecidas.
O trabalho de Stephen Jay Gould, nos anos 70, foi o que consagrou a expressão equilíbrio pontuado para referir-se a esse fenômeno. Depois de estudar uma série especialmente nítida de fósseis, Gould concluiu que a nossa busca por “elos perdidos” provavelmente nunca dará frutos, e que a evolução só deixou vestígios descontínuos.
Isto porém acarreta um grave problema para o darwinismo ortodoxo, já que os fatos observados desmentiriam a teoria. A maneira encontrada para compatibilizar as teses darwinistas com as observações foi a hipótese da especiação alopátrica.
5.2. Especiação alopátrica
O próprio Darwin já havia notado que as possibilidades de uma variação ser transmitida à descendência são pequenas quando os indivíduos de uma determinada população têm muita liberdade para se reproduzirem. Nesse caso, a característica vantajosa dilui-se na população sem repercutir na forma dos indivíduos de toda a espécie.
Essa dificuldade, notada já nos começos da teoria sintética, foi explicada nos anos 1940 partindo do fato de que a diluição e desaparecimento da nova característica não tem por que ocorrer se essa característica surge em populações pequenas e de alguma forma isoladas. O caso mais simples é o de uma ilha: de fato, é muito freqüente encontrar em ilhas uma flora e uma fauna autóctones, o que parece apoiar essa hipótese.
 
O lago Turkana, no Quênia (África)
Na década de 1980, observações feitas com conchas de mexilhões no lago Turkana ressaltaram a inexistência de formas intermédias nesse caso concreto, minuciosamente analisado. Isso levantou dois sérios problemas: em que consiste o isolamento nessas circunstâncias?; e por que em alguns casos ocorrem saltos evolutivos e em outros as espécies permanecem estáveis? Na época, a revista Nature comentou essas experiências num artigo, fazendo uma pergunta retórica: a explicação darwinista falhou? (obviamente a resposta era que não, bem de acordo com a sua conhecida linha editorial).

Embora o problema seja mais complicado do que sugere o breve resumo apresentado aqui, tudo parece indicar que a chamada especiação alopátrica não passa de uma explicação ad hoc confeccionada para salvar ao mesmo tempo a explicação darwinista e os saltos entre as formas nos registros fósseis suficientemente completos.
5.3. Observando e experimentando
É óbvio que a evolução por saltos – para a qual a saída darwinista foi a especiação alopátrica – é apenas uma das dificuldades enfrentadas pela hipótese neodarwinista. A modo de exemplo, poderíamos citar mais algumas outras.
Como dissemos, para explicar a transformação de uma espécie em outra foi necessário postular que parte da sua população ficou isolada. No entanto, nunca foi possível relacionar um isolamento concreto com uma especiação concreta: só existem suspeitas e dados sugestivos (como aquele da fauna e da flora em ilhas). Em nenhum caso demonstrou-se que a transformação de uma espécie em outra se deveria a uma determinada circunstância de isolamento.
Outra questão diferente e igualmente relevante: nunca foi possível determinar, para uma espécie dada, nenhum fator concreto que estivesse implicado na seleção que a consolidou.
Para tentar contornar essas dificuldades, foram feitas muitas experiências nas quais se procurou agir sobre a natureza para ver se o mecanismo da seleção natural funciona mesmo. Uma das mais clássicas foi a de Kettlewell com as formas escuras e claras da mariposa Biston betularia. Kettlewell colocou pássaros, troncos de abeto e mariposas num recinto fechado e observou que, quando os troncos estavam cobertos de fuligem, os pássaros comiam mais mariposas claras do que escuras, já que as mais claras eram mais visíveis. Embora o caso parecesse inquestionável, observou-se posteriormente que na natureza as mariposas não pousam sobre os troncos, e sim na parte de trás das folhas, onde não podem ser vistas, quer sejam elas claras ou escuras. Isto sem entrar em detalhes como o de que os pássaros da experiência estavam famintos e o de que as mariposas estavam mortas e foram coladas sobre os troncos.
 
A experiência de Kettlewell
 
Outra linha de experimentação consistiu em submeter seres de ciclo vital muito rápido, como bactérias ou moscas, a condições ambientais forçadas, com a esperança de conseguir uma especiação num tempo relativamente curto. Todos as experiências desse tipo fracassaram: só foi possível obter variações sobre a espécie original, que sempre reaparecia após cessarem os fatores externos de seleção artificialmente introduzidos no ambiente. Isto aliás leva-nos a outro problema: não está demonstrado que a evolução, como fenômeno global (macroevolução), seja resultado do acúmulo de pequenas variações (microevolução): trata-se apenas de uma suposição que os darwinistas teimam em manter.
De qualquer forma, todas essas experiências e observações giram ao redor da idéia darwinista, seja para comprová-la ou refutá-la. Mas o problema não é esse, e sim o de explicar a origem das novas formas dos seres vivos: sobre este assunto, a seleção natural não tem nada a dizer. O importante é o que se afirme sobre a causa da origem das novas formas (mesmo admitindo que depois tenham que passar pelo crivo da seleção natural); o darwinismo, porém, nada diz sobre isso: limita-se a afirmar que tudo acontece por acaso. Mas todos sabemos por experiência que o acaso explica muito poucas coisas; não é uma causa como as outras, pois nem sempre produz o seu efeito (nem mesmo na maioria das vezes).
Quando procuramos uma explicação para a evolução, o que queremos é encontrar uma causa autêntica, capaz de explicar o processo de um modo claro, evidenciando uma lei interna. Atribuir a origem das formas ao acaso é uma saída pela tangente.
 
 
O biólogo americano Stephen Jay Gould e o seu livro The structure of evolutionary theory
6. OS DESDOBRAMENTOS MAIS RECENTES
O predomínio absoluto do darwinismo, apesar das suas fraquezas internas, obteve uma confirmação em 2003 com a publicação da obra póstuma de Stephen Jay Gould, A estrutura da teoria da evolução. Faremos a seguir um resumo parcial da sua linha argumentativa.
Trata-se de uma obra muito extensa (mais de 1.400 páginas), e era de esperar que fosse uma revisão e uma refutação de todas as críticas feitas ao darwinismo nas últimas décadas. Gould – um darwinista convicto e de muito prestígio – propõe no entanto uma coisa muito diferente.
6.1. Premissas básicas
Logo no início do livro, empregando o estilo ensaístico que o caracteriza, Gould compara a teoria da evolução a uma árvore, com uma série de elementos essenciais que não podem faltar: o tronco, os galhos, os ramos. Se algum desses elementos falha, não é possível que a estrutura se mantenha.
Na teoria da evolução (na versão darwinista que ele defende), haveria igualmente uma série de elementos que, se falhassem, fariam a teoria desmoronar. Concretamente, os elementos seriam estes três: (1) as variações espontâneas dos seres vivos (devidas a variações genéticas ao acaso); (2) a seleção natural; e (3) a
afirmação de que todo o processo evolutivo (macroevolução) se reduz à acumulação de pequenas variações microevolutivas.
Seria de esperar que logo a seguir Gould passasse a defender essas teses das numerosas críticas que receberam: (1) Reduzir toda a novidade biológica às mudanças ao acaso não resiste a uma análise medianamente séria, nem biológica nem filosófica; (2) a seleção natural – que concebe a Natureza como palco de uma dura luta pela sobrevivência – não bate com o que se observa espontaneamente, que mais parece uma explosão de vida, com muito poucos obstáculos (isso sem falar que o significado de “seleção natural” nunca foi estabelecido com precisão: cada autor tem uma interpretação diferente para o que significa “mudança de espécie”, e nenhuma delas foi comprovada); e (3) não está demonstrado – como já dissemos – que a macroevolução é microevolução acumulada: isso não passa de mera suposição.
6.2. Coisas indiscutíveis e problemas inexistentes
Gould, porém, não faz nenhuma defesa desses pontos-chave. Simplesmente afirma que, se não aceitarmos esses pontos básicos, ficaremos sem nenhuma explicação para a evolução. É paradoxal que o principal sustentáculo das atuais teses darwinistas seja uma afirmação tão insubstancial como essa: a de que não existe nenhuma alternativa medianamente detalhada para explicar a evolução.
Trata-se de um problema basicamente psicológico: ninguém gosta de estar rodeado de dados brutos para os quais não possui uma chave interpretativa. Para quem está numa situação assim, agarrar-se a uma explicação “manca” (melhor seria dizer falsa, pois não se ajusta aos dados observados) é melhor do que ficar com os meros dados, à espera de que apareça alguém com talento suficiente para indicar qual o caminho que uma explicação adequada deve seguir.
Depois dessa afirmação inicial, toda a obra se dedica a perfilar questões de detalhe: os problemas de fundo (o acaso como causa das formas, a seleção e a macroevolução como microevolução acumulada) são varridos para debaixo do tapete. Essa atitude, que seria normal em um ou outro biólogo – talvez até mesmo num especialista em evolução –, não deixa de chamar a atenção em Gould, de quem se esperava uma visão científica mais crítica e que possuísse conhecimentos suficientes para apontar alternativas sérias para alguns dos pontos-chave do darwinismo. Fixação ideológica nas teses darwinistas? É uma hipótese plausível.
 
7. ERROS DE ABORDAGEM
Uma crítica como a que fizemos pode ser válida no caso de Gould – possuidor de um saber enciclopédico nesses temas -, mas não no da maioria dos outros autores darwinistas, que têm uma enorme dificuldade para enxergar outra solução diferente do darwinismo em virtude de uma série de idéias preconcebidas em Biologia que gozam de excessiva difusão. Vejamos alguns desses preconceitos, que me parecem ser os principais, embora seja possível trazer à tona outros mais.
7.1. O paradigma genético
Como já mencionamos, quando Darwin escreveu A origem das espécies, parte da sua explicação baseou-se nas observações que ele mesmo fez sobre a variação espontânea: nem todos os exemplares de uma espécie são iguais. Mas Darwin não aponta uma causa para essa variedade morfológica, pois a Biologia da época ainda não tinha uma explicação para esse fato.
A explicação do fenômeno só veio a ser formulada no começo do século XX, quando Weisman sugeriu a idéia do “plasma germinal”, isto é: de que uma certa parte do conteúdo líquido (o “plasma”) da célula seria a responsável pela transmissão dos caracteres hereditários à descendência. Apenas esse “plasma germinal” determinaria as características do indivíduo: o resto não. Com o passar do tempo, essa noção foi sendo mais perfilada: primeiro veio o conceito de gene (unidade de informação); depois soube-se que o material genético está no núcleo da célula; mais tarde (nos anos 1950), ficou conhecida a sua composição química e como a informação é codificada.
Essas descobertas iniciais legaram à Biologia o paradigma genético: cada característica do indivíduo deve-se a um gene que a codifica. De acordo com essa idéia inicial foi surgindo a mentalidade de que os genes dos seres vivos têm a chave para podermos entender e dominar a Biologia. De fato, a pesquisa biológica das últimas décadas direcionou-se para esse terreno, movida em parte por essa suposição, que se tornou uma mentalidade comum hoje em dia.
Uma vez que os biólogos passaram a ter essa idéia em mente, foi possível desenvolver a teoria sintética, que fornecia uma explicação muito imediata para as observações de Darwin sobre as variações dos indivíduos de uma população: se a forma é causada unicamente pelos genes, então as variações das formas deverão ser produto das variações dos genes; e se as variações das formas são aparentemente aleatórias, também deverão ser aleatórias as variações dos genes que as causam.
Mas se levarmos em conta os avanços da própria Biologia, esse paradigma, que permitiu o atual florescimento da genética, é hoje em dia insustentável. Mais adiante voltaremos ao assunto com outras detalhes.
7.2. A luta pela vida
O indiscutido reinado das teses darwinistas por mais de meio século, e seu ensino às crianças desde a mais tenra idade, contribuíram em boa medida para que arraigasse um segundo preconceito entre os biólogos: a idéia de seleção natural, que está associada à visão da Natureza como palco de uma árdua luta pela sobrevivência.
É óbvio que uma tal visão da Natureza é resultado de uma interpretação das realidades observadas. Estas são muito mais modestas, e penso que interpretá-las assim é forçar muito as coisas. Com isso não quero dizer que a manutenção da vida careça de problemas: todas as atividades vitais procuram manter a sua individualidade, e nisso o meio não ajuda, sendo portanto necessário um esforço por parte do ser vivente. Não é preciso ir muito longe para achar um exemplo: a própria homeostase, a auto-regulação dos organismos, depende de que existam processos ativos que mantenham o meio interno em condições razoavelmente estáveis, independentemente de como está o meio externo. Mesmo assim, querer ver uma “luta pela vida” até em realidades elementares como essa, e ainda por cima afirmar que essa é uma boa descrição da Natureza parece-me um exagero excessivo.
Contudo, parece-me que essa extrapolação incorreta tem uma outra origem: a observação da atividade predatória dos seres vivos uns sobre os outros. Observam-se cenas de caça ou de alimentação, em que uns seres vivos dependem da morte de outros para viver, e a seguir se extrapola dizendo que a vida de ambos é uma luta pela sobrevivência: a do predador para conseguir a sua presa, e a da presa para escapar e continuar a viver. Pode até ser que para um indivíduo concreto isso seja verdade, mas como diz o ditado, “uma andorinha não faz verão”: da observação de uma cena de caça não se pode deduzir que a espécie predatória está nas últimas, nem que a espécie caçada está em vias de extinção. Para fazer uma afirmação dessas, é preciso observar ambas as espécies de um modo completo e global.
Muitas das espécies que se envolvem em caçadas e perseguições – como as sardinhas e os bonitos ou as libélulas e as efêmeras – não têm o menor problema para continuar a existir por muitas gerações. A vida de um de seus indivíduos pode ver-se ameaçada por um predador concreto, mas isso não significa nada para a espécie como um todo. Interpretar o cenário de uma espécie inteira, ou até mesmo da Natureza em seu conjunto, como palco de uma dura luta pela sobrevivência, só porque se observam cenas de caça, é uma afirmação claramente desfocada.
O homem vê caçadas e perseguições há milhares de anos, mas só muito recentemente – depois que surgiram as teses darwinistas – isso foi interpretado como luta pela vida. A interpretação de sempre, muito mais coerente com os fatos observados, é a de que o mundo é um conjunto harmonicamente ordenado: nele ocorrem cenas de violência, mas isso não implica que a visão geral da Natureza precise ser modificada.
Seria possível aduzir muitas observações em sentido contrário ao da interpretação do mundo como luta. Os pássaros, por exemplo, na época do acasalamento, mostram-se com a sua plumagem mais colorida, ficam muitas vezes em lugares bem visíveis e se põem a cantar: se a sua vida estivesse por um fio, condutas desse tipo seriam inviáveis. Resumindo: o mundo é um lugar basicamente pacífico. Basta perguntar aos repórteres do mundo animal: quando querem filmar cenas de caça, ficam sempre à beira de desistir, de tão difícil que é.
7.3. A complexidade da vida
Outro preconceito freqüente em Biologia é o abuso do método analítico, que acaba por criar uma mentalidade mecanicista na interpretação da realidade biológica. O método científico analítico isola artificialmente as realidades que estuda, separando-as do resto, e tenta estabelecer o seu modo de funcionamento. Quem começa por esse tipo de estudos termina pensando que o ser vivo nada mais é do que a soma dos mecanismos elementares que a Ciência vai descobrindo. E isso é um erro de abordagem.
Vejamos, por exemplo, a relação gene-forma: hoje está suficientemente esclarecido que a relação entre a forma e a informação genética não é direta. Embora a expressão de alguns genes influa decisivamente no aparecimento das formas dos seres vivos, a forma só depende do código genético muito indiretamente. Durante o desenvolvimento, a forma é determinada não somente por aqueles poucos genes que controlam e determinam esse desenvolvimento, mas também por todos os outros genes que se manifestam, e além disso pela correta interação entre todos os elementos componentes do ser vivo e os fatores externos correspondentes.
A forma é o resultado de uma complexa interação entre todos os elementos do ser vivo durante o seu desenvolvimento, e não apenas uma simples transcrição de uma espécie de esquema contido na informação genética (mecanismo elementar que parece ser o único alvo das pesquisas de muitos biólogos). Afinal, os seres vivos são realidades complexas, unitárias, onde tudo tem a ver com tudo em diferentes graus, e por isso a separação do fator genético não deixa de ser uma deformação derivada da aplicação do método científico analítico. O que é real é a complexidade orgânica do ser vivo.
Portanto, considerar as mudanças nos seres vivos como simples resultados de mutações ao acaso é, no mínimo, uma simplificação excessiva. Para encontrar a origem das variações interindividuais nos seres vivos,b será preciso pesquisar o desenvolvimento embrionário e procurar nele todos os fatores reais que intervêm na produção da forma de cada ser vivo (alguns desses fatores serão genéticos e muitos serão não-genéticos). Além disso, será preciso considerar essa realidade em cada um dos diferentes níveis possíveis de estudo: (1) o do mecanismo básico (os genes e a sua expressão); (2) o das interações bioquímicas de nível superior (entre as proteínas produzidas, umas com as outras e com os genes e com as outras substâncias presentes na célula); e (3) todos os outros tipos de interações (entre as células, conjuntos de células e tecidos). Reduzir esse emaranhado a um só fator – a simples expressão de um certo número de genes – é um erro de perspectiva.
Podemos acrescentar que a Biologia não está ainda em condições de dar uma visão de conjunto do ser vivo que leve simultaneamente em conta os principais níveis de interação: restam enormes lacunas em seus conhecimentos.
7.4. A miopia do darwinismo
Um último tema merece ser tratado à parte, embora esteja relacionado com o mecanicismo que acabamos de mencionar. Trata-se da maneira peculiar com que o darwinismo encara a evolução, que tem muito de uma visão incorreta da realidade.
A explicação biológica que as teses darwinistas dão para a evolução é a já mencionada combinação de variações e seleção natural. Embora essa solução tenha numerosas dificuldades (como já vimos), sua virtude é ser uma explicação muito simples que à primeira vista apreende bem os fatos observados. Mas quando se tenta aprofundar nela, a questão complica-se, multiplicam-se os significados heterogêneos e o panorama torna-se bastante confuso e embaralhado.
É justamente nessa aparente simplicidade (fator que favoreceu o seu triunfo) que radica uma das suas dificuldades: partindo do “descobrimento” desse mecanismo, o darwinismo anuncia que explicou a evolução. Desse modo extrapola um único fator (que talvez até possa existir realmente) e afirma que tudo na evolução se reduz a esse mecanismo proposto ou dele deriva. Todos os outros possíveis fatores causais passam para um segundo plano ou são considerados sem importância, e no ensino básico sobre a evolução simplesmente desaparecem, demonstrando até que ponto tais elementos são tidos como relativamente acessórios.
Um estudo científico que pretenda ser sério, porém, não pode limitar-se somente a um dos elementos que descobre. A realidade é complexa, pode ser observada em diferentes níveis, e cada um desses níveis deve ter as suas próprias leis e explicações. O darwinismo esquiva-se dessa necessidade simplesmente expandindo o mecanismo da seleção a todas as classes possíveis de observação.
Se Darwin afirmava que a seleção filtra os indivíduos menos aptos, agora se diz que há seleção genética individual, reprodutiva, de gerações, etc., afirmações tão gratuitas quanto a da seleção de indivíduos e igualmente baseadas em pequenas observações interpretadas como sendo o comportamento global dos sistemas estudados.
Para poder responder à pergunta sobre o por quê da evolução, é necessário abandonar a atitude simplista de querer estabelecer apressadamente uma visão sintética que explique razoavelmente a realidade, enquanto se foge da tarefa de enfrentar os fatos em todos os níveis (genético, embriológico, metabólico, de populações, etc.). Esta é a tarefa que ainda está por fazer, e que a Biologia não está em condições de executar, nem agora nem dentro de qualquer prazo previsível. Enquanto isso, o darwinismo fica repetindo a sua cantilena: variações ao acaso e seleção natural.
 
8. CONCLUSÃO
Chegados a este ponto, resta formular a pergunta: se a explicação darwinista ou neodarwinista não é correta, então como se explica a evolução? E a resposta é sumamente simples: ainda não sabemos.
Com essa afirmação, não se quer afirmar que não tenhamos nem a mais remota idéia de onde possa vir a explicação. De fato sabemos muitas coisas soltas, não somente de tipo paleontológico, como também a respeito de questões genéticas, de parentescos entre as diversas espécies, de paleometabolismo, etc. Embora não tenhamos ainda uma explicação que reúna tudo isso num corpo coerente, não se pode dizer que não sabemos nada.
Também sabemos com bastante certeza que a explicação darwinista não é verdadeira, quais são as observações que nos permitem refutá-la e quais as dificuldades metodológicas envolvidas nesse assunto. Dizer que não podemos ainda explicar a evolução pode parecer uma afirmação que nos deixa no vazio, mas não é assim; não equivale a não saber nada: equivale a dizer que se sabe, e muito! Mas trata-se de um conhecimento ao qual nem todos os biólogos conseguem chegar, ou por causa dos defeitos de método acima mencionados, ou porque foge em parte do seu campo de atuação, ou ainda por outras razões. Todo esse conhecimento é orientador de futuras pesquisas, e não uma porta fechada diante de nós.
O que está claro é que o medo de ficar sem um marco de idéias em que encaixar os dados que possuímos não nos deve inibir de repudiar o darwinismo, pois a sua aceitação desorienta a pesquisa posterior: em questões de dinâmica das populações, sobre a importância de outros fatores no processo seletivo e em questões de genética. Tudo por causa da mentalidade darwinista de considerar o acaso como causa. O neodarwinismo de fato tende a concentrar o seu trabalho unicamente em desvendar como os genes causam a forma (o que é uma visão parcial), em considerar a pressão ambiental sobre as espécies e em tentar identificar quais condutas que são favoráveis ou prejudiciais à sobrevivência.
Enquanto predominar o darwinismo, uma questão básica permanecerá sem ser investigada: por que aparecem novos padrões morfológicos nos seres vivos? Do ponto de vista científico, tais padrões são a única coisa tangível que pode ser verificada numa nova espécie, e é justamente este ponto-chave que o darwinismo abandona e deixa de estudar, relegando a sua causa ao simples acaso. Trata-se evidentemente de um ponto que sugere muitas pesquisas importantes em embriologia e em outras disciplinas, e é por isso que rejeitar o darwinismo não implica apenas fechar certas portas: também abre muitas outras.
Uma vez explicada a origem das novas formas dos seres vivos, será possível abordar a questão da causa de que umas desapareçam e outras sobrevivam. Mas essa é uma questão sobre o crivo posterior a que são submetidas umas formas que já existem: o próprio crivo não explica de modo algum a existência dessas formas. Ao estudar a evolução – insisto –, o que nos interessa é a origem das formas: sobre isso o darwinismo nada disse neste último século e meio.
Fonte: site da Universidade de Navarra
Link: http://www.unav.es/cryf/curso05ap.html
Tradução: Quadrante
Antonio Pardo
Professor-adjunto do Departamento de Humanidades Biomédicas da Universidade de Navarra.
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Acreditar em Evolução?

Dom Cristiano Jakob Krapf

Entre Ciência e Religião, entre fé e razão, onde está a Verdade? A evolução atual da ciência contradiz o ensinamento da Bíblia sobre a origem do mundo e do homem?   Um leitor da “Superinteressante” faz a pergunta assim: “É coerente acreditar em Deus e também em Darwin?”
A revista responde: “Na comunidade científica, o consenso é de que a evolução é autossuficiente, exclui a figura de um criador.”
Tal resposta genérica é mentira. A mesma revista traz logo depois a resposta diferente de um professor formado em física experimental e doutor em teologia. Não sei quantos cientistas são ateus ou agnósticos, mas sei que muitos cientistas sérios têm fé. Muitos acreditam na mensagem da Bíblia sobre Deus, o Criador do mundo.
Entre os habitantes atuais do planeta terra, os adeptos do monoteísmo são maioria. Mais de um bilhão de católicos e um bilhão de outros cristãos, e mais de um bilhão de maometanos e muitos milhões de judeus, acreditam na existência de um só Deus, Criador do mundo de matéria e energia regido por leis criadas por ele para organizar a evolução desde o início até a situação atual e futura.
Podemos entender a inteligência como dom de Deus que nos criou com a capacidade de sondar os mistérios do mundo e com a missão de cuidar da morada que criou para nós. Quanto ao futuro, depende também de nós que temos o dom da liberdade que cientistas preconceituosos querem enquadrar nos seus conhecimentos limitados ao mundo material.
Muitos cristãos reconhecem a importância dos fundamentos racionais da sua fé e não se deixam abalar por questionamentos superficiais. Em vez de criar dificuldades com pormenores dos textos bíblicas sobre a criação do mundo e sobre a história do povo judeu, entendem que a mensagem da Bíblia pode servir de fundamento para os acréscimos da ciência. Salmos escritos faz trinta séculos nos falam da beleza de Deus no Céu. A obediência aos 10 mandamentos melhora o convívio dos homens na terra.
Quem não quer saber de Deus aceita qualquer teoria “científica” que pretende explicar o mundo sem Deus. Desde meu tempo de menino procurei seguir o conselho de Paulo: “Examinai tudo, guardai o que for bom!”  Já sou velho e não achei qualquer teoria racional razoável contra a existência de Deus, o Criador não feito por outro.
Entre aqueles que admitem que não existe prova científica contra a existência de Deus, muitos acham ou dizem que também não se pode provar que Deus existe.
Agnósticos céticos acham que nada se pode saber sobre Deus.  Dizem que ninguém pode conhecer a verdade, que ninguém pode ter certeza de nada. Para os mais radicais, não existe verdade. Para esses, tenho uma pergunta: É verdade que não existe verdade?  Outros admitem que possa existir alguma verdade, na filosofia e na religião, mas dizem que ninguém pode conhecer a verdade. Para esses, tenho duas perguntas: É verdade que ninguém pode conhecer a verdade? Como sabem?
Acontece que o conhecimento humano ultrapassa a ciência sobre as leis da natureza material. Somos capazes de filosofia. Só que muitos “filósofos” de hoje ficam filosofando sobre tudo, mas fogem da essência da filosofia que é a metafísica, a reflexão que ultrapassa os limites da matéria.
Alguns pretendem explicar a origem de tudo com a teoria do Big Bang, dizendo que tudo começou com a Grande Explosão. Tal teoria contradiz as leis mais elementares da ciência moderna e da filosofia. A ciência moderna afirma que na natureza nada se cria e nada se destrói. A filosofia diz que do nada não surge nada.   A teoria do Big Bang não explica origem de nada.
Qualquer criança curiosa pergunta: O que foi que explodiu? De onde veio o material (massa/energia?) que explodiu? Pergunta parecida faz aos que dizem que Deus é o criador de tudo: E quem foi que fez Deus?
Acontece que tal pergunta sobre Deus tem resposta racional: Deus é aquele que existe por si mesmo, o único ser que não foi feito por outro. Segundo um texto da Bíblia, escrito muitos séculos antes do nascimento de Jesus, foi assim que Deus se deu a conhecer a Moisés: Eu sou aquele que é.  Esse é o sentido da palavra hebraica Jahvé, já por três milênios o nome de Deus para o povo judeu.
Séculos depois, filósofos gregos deram definições semelhantes: Deus é aquele que é. Aquele que existe por si mesmo, que não é feito por outro. O primeiro motor de tudo que se move, de toda mudança. Causa primeira de tudo que existe. A origem. Antes da filosofia grega já estava escrito na Bíblia: No início Deus criou o céu e a terra.  As dificuldades entre cientistas e biblistas têm sua causa principal nos mal-entendidos de muitos cientistas e religiosos sobre a mensagem da Bíblia, e em conclusões precipitadas nada científicas de cientistas metidos a filósofos.

O que existiu primeiro, o sol ou o dia?

Quanto à Bíblia, a dificuldade maior está no fundamentalismo que pretende enquadrar no rigor da linguagem da ciência de hoje a descrição poética da criação do mundo nas páginas da Bíblia, escritas em linguagem acessível aos leitores de todos os tempos. Sua mensagem é feita para ser entendida no tempo que foi escrita e no nosso tempo cheio de ciência, e nos tempos de futuras evoluções do conhecimento.
Para fundamentalistas que apresentam a interpretação literal de qualquer texto bíblico como questão de fé, tenho uma pergunta: O sol foi mesmo criado no quarto dia? Como é que podiam existir dias quando não existia sol?
Quanto à criação dos seres vivos, a descrição bíblica não está distante da teoria da evolução. Apenas acrescenta que tudo que conhecemos tem origem divina e passa por mudanças de acordo com leis que regem a natureza, leis também criadas por Deus desde o começo: “Que a terra produza seres vivos, plantas e animais.”
Se a dificuldade maior se refere à criação dos seres humanos, é preciso reconhecer a diferença essencial entre eles e os outros seres que andam na terra, nadam no mar e voam no ar.  A Bíblia explica:  “E Deus disse:  Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.” Tal semelhança não pode estar no corpo. Se estivesse no corpo, macacos também seriam semelhantes a Deus. Uns mais, outros menos.
Podemos combinar as teorias sobre a evolução do corpo humano, passando por antepassados semelhantes a macacos, com a mensagem da Bíblia que diz que Deus formou o homem do pó da terra. Pela ciência sabemos que o macaco também é feito do pó da terra. Dos mesmos elementos que formam o corpo humano.
O mundo é tão bem feito que tudo vem evoluindo como por si mesmo, sustentado por leis naturais criadas junto com este mundo de matéria e energia.
E a criação da mulher, apresentada como tirada da costela do homem? Quero apenas lembrar que a Bíblia traz duas descrições sobre a criação dos seres humanos. A segunda é bem diferente: “Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança  ...  Homem e mulher os criou.”  Nada diz sobre costela de Adão.  Pergunto aos fundamentalistas que dizem que devemos tomar tudo ao pé da letra:  Qual das duas descrições é verdadeira? “Nenhuma,” dizem ateus e agnósticos.
Com boa vontade, dá para entender a mensagem da Bíblia sobre Deus e sobre nós. Dá para ver que Deus confiou a terra aos nossos cuidados. Cumprindo bem a nossa missão, podemos viver e conviver em paz.  Se fizermos os estragos dos pecados no convívio da nossa morada, não adianta reclamar de Deus.
Podemos entender também que a semelhança com Deus não nos é dada como coisa pronta e acabada, mas como vocação a realizar. Somos colaboradores de Deus na sua obra. De maneira especial na sua obra prima que somos nós mesmos.
Somos chamados a colaborar com Deus em três dimensões: Organizando nossa própria vida, cuidando do mundo onde fomos colocados, e prestando serviços na comunidade, em qualquer lugar que nos foi dado para viver.
O mesmo número daquela revista tem um artigo de capa com a pretensão de apresentar uma “Biografia de Deus”. Tal artigo traz uma escolha arbitrária de idéias sobre seres mitológicos chamados de deuses, mitos surgidos em culturas anteriores ao conhecimento do único Deus verdadeiro. Tais religiões têm seus valores, mas não têm os fundamentos racionais que o monoteísmo tem.
Muitos judeus se deixavam contaminar por tais idéias, combatidas na Bíblia como idolatrias incompatíveis com a fé. O texto da revista desconsidera toda evolução da religião a partir de acontecimentos da história do povo judeu que grande parte da humanidade de hoje considera como intervenções de Deus na história dos homens. Cremos que Deus falou pelos profetas para quem o procura com sinceridade, e que veio estar conosco para que possamos estar com ele.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um estudo revela que a história geológica contradiz Darwin



.- A teoria de Charles Darwin da evolução gradual não é compatível com a história geológica, conclui o geólogo da Universidade de Nova Iorque Michael Rampino em um ensaio publicado na revista Historical Biology.

De fato, Rampino apóia uma teoria mais precisa da evolução gradual, que postula que os longos períodos de estabilidade evolutiva se vêem afetados pelas extinções em massa de vida, e que foi proposta pelo escocês Patrick Matthew antes que Darwin publicasse sua obra sobre o tema.

"Matthew descobriu e claramente enunciou a idéia de seleção natural, aplicando-a à origem das espécies, e a pôs no contexto de um registro geológico marcado por extinções em massa catastróficas seguidas de adaptações relativamente rápidas", diz Rampino, cuja investigação sobre os eventos catastróficos inclui estudos sobre as erupções vulcânicas e os impactos de asteróides.

"À luz da recente aceitação da importância das extinções catastróficas em massa na história da vida, talvez seja hora de reconsiderar o ponto de vista evolutivo de Patrick Matthew, muito mais consonante com as idéias atuais sobre a evolução biológica que a visão de Darwin".

Matthew (1790-1874) publicou uma declaração sobre a lei da seleção natural no apêndice ao seu livro de 1831 'Madeira Naval e Arboricultura'. Apesar de que tanto Darwin e seu colega Alfred Russel Wallace reconheceram que Matthew foi o primeiro em estabelecer a teoria da seleção natural, os historiadores atribuíram sua gênese a Darwin e Wallace. Os cadernos de Darwin mostram que chegou a esta idéia em 1838, e compôs um ensaio sobre a seleção natural já em 1842, anos depois de que o trabalho de Matthew aparecesse. A teoria de Darwin e Wallace foi apresentada oficialmente em 1858 em uma reunião da sociedade científica em Londres. 'A Origem das Espécies' de Darwin apareceu um ano depois.

No apêndice de 'Madeira Naval e Arboricultura', Matthew descreveu a teoria da seleção natural em uma forma que mais tarde foi ecoada por Darwin: "Há uma lei natural universal na natureza, que tende a fazer que de todos os seres reproduzidos sobreviva o melhor adequado à sua condição ... À medida que o âmbito da existência é limitado, são apenas os mais resistentes, mais robustos, e melhor adaptados às circunstâncias particulares, que são capazes de lutar para alcançar a maturidade...".

Entretanto, na explicação das forças que intervieram neste processo, Matthew viu os eventos catastróficos como um fator primordial pelo qual as extinções massivas foram cruciais para o processo da evolução. Quando Darwin publicou sua 'Origem das Espécies' quase três décadas mais tarde, rechaçou explicitamente o papel da mudança catastrófica na seleção natural: "A velha idéia de que todos os habitantes da Terra foram varridos por catástrofes em períodos sucessivos é muito geral, e se deu por vencida" escreveu.

Por outro lado, Darwin esboçou uma teoria da evolução apoiada na contínua luta pela sobrevivência entre os indivíduos dentro das populações de espécies existentes. Este processo de seleção natural, segundo ele, deveria dar lugar a mudanças graduais nas características de organismos sobreviventes.

Entretanto, como assinala Rampino, agora se entende comumente que a história geológica está marcada por longos períodos de estabilidade com mudanças ecológicas que ocorrem em forma episódica e rapidamente, pondo em dúvida a teoria do Darwin de que "a maioria das mudanças evolutivas se realizaram muito paulatinamente pela competição entre os organismos cada vez melhor adaptados a um ambiente relativamente estável".

"A contribuição de Matthew foi ignorada em grande medida no seu momento e, com poucas exceções, em geral, só merece uma nota ao pé de página nos desenvolvimentos modernos do descobrimento da seleção natural", conclui Rampino. Outros disseram que a tese de Matthew foi publicada em um lugar muito escuro para ser vista pela comunidade científica, ou que a idéia estava tão adiantada ao seu tempo que não podia conectar-se com os conhecimentos geralmente aceitos, informa a Universidade de Nova Iorque.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A fé na criação e a Teoria Evolucionista

Joseph Ratzinger em “Dogma e Anúncio”
Quando, em meados do século XIX, Charles Darwin desenvolveu a idéia da evolução de todos os seres vivos, questionando assim radicalmente a concepção tradicional da constância das espécies criadas por Deus, desfechou uma revolução da imagem do mundo que em alcance não fica atrás daquela que para nós está ligada ao nome de Copérnico. Apesar da revolução copernicana que destronou a Terra, alargando sempre mais para o infinito as dimensões do Universo, no conjunto, tinha ficado de pé o arcabouço firme da antiga imagem do mundo, o qual continuava a ser afirmado sem mudança, principalmente em relação ao limite temporal de seis mil anos calculado segundo as cronologias bíblicas. Algumas observações podem ilustrar a naturalidade hoje quase inimaginável com que então se retinha o quadro temporal estreito da imagem bíblica do mundo.

Quando Jacó Grimm publicou em 1848 sua “História da língua alemã”, para ele a idade de seis mil anos da humanidade era uma suposição incontestada e que não necessitava de exame. W. Wachsmuth exprime o mesmo com grande certeza na sua reconhecida “História geral da cultura”, aparecida em 1850, e que nesse ponto não se distingue em nada da história geral do mundo e dos povos que Cristiano Daniel Beck havia publicado em 1813, em segunda edição. Poderíamos multiplicar os exemplos sem dificuldade. Bastam estes para mostrar em que horizonte estreito se movia, ainda faz cem anos, a nossa imagem da história e do mundo, até que ponto estava inabalada a tradição, tirada da Bíblia, de uma concepção desenvolvida inteiramente a partir da história judeu-cristã da salvação.

Que revolução devia significar que agora, depois da precedente ampliação imensa do espaço, uma igual remoção dos limites tocava ao tempo e à história. Sob muitos aspectos, as consequências de tal processo até são mais dramáticas do que o podiam as da revolução copernicana. A dimensão do tempo toca o homem de modo incomparavelmente mais profundo do que do espaço. Mesmo hoje a concepção do espaço é relativizada e mudada mais uma vez, perdendo sua figura passível de definição firme e sendo submetida à história, à temporalidade. O homem aparece como o ser que se originou em transformações infinitas, as grandes constantes da imagem bíblica do mundo recuam para distancias incomensuráveis – a noção fundamental da realidade se altera: o devir toma o lugar do ser, a evolução o da criação, a ascensão o da deterioração.

No quadro dessas considerações, não podemos percorrer todo o conjunto de problemas aqui implicados; queremos apenas debater a seguinte questão: as idéias fundamentais da criação e da evolução podem subsistir uma ao lado da outra contra a aparência inicial, sem que o teólogo entre num compromisso pouco honesto, declarando, por motivos táticos, supérfluo o terreno impossível de defender, depois de pouco antes o ter declarado com todo o volume da voz uma parte insubstituível da fé.

O problema tem diversos planos que devem ser distinguidos e tratados separadamente. Em primeiro lugar, há um aspecto relativamente superficial que só em parte tem natureza verdadeiramente teológica: a idéia da constância das espécies, que reinava antes de Darwin, tinha-se legitimado a partir da idéia da criação; ela via cada espécie particular como um dado da criação, existente desde o começo do mundo em virtude da ação criadora de Deus, como algo individual e diverso ao lado de outras espécies. É claro que o pensamento da evolução colide com essa forma de fé na criação e que essa modalidade da fé hoje se tornou insustentável. Mas, com este esclarecimento, a cuja significação e problemática voltaremos mais tarde, ainda não está apreendido todo o âmbito do conceito da criação. Somente se cancelamos todas as criações particulares, substituindo-as pela idéia da evolução, é que se torna visível a diferença real entre as duas concepções; vê-se que cada vez é uma outra forma de pensamento, outro ponto de partida espiritual, outra problemática que constitui o fundamento. A ampliação do conceito de criação, até as formas particulares da realidade, pôde encobrir por muito tempo essa diferença mais profunda, assim como o problema propriamente de que se trata. A fé na criação se pergunta pelo fato do ser como tal; o seu problema é por que existe alguma coisa e não temos o nada absoluto. O pensamento evolucionista, pelo contrário, porque existem precisamente essas coisas e não outras, donde receberam sua determinação e como coexistem com outras formas. Portanto, filosoficamente se diria que o pensamento evolucionista se acha no nível dos fenômenos, ocupa-se com os seres do mundo que ocorrem realmente, enquanto a fé na criação se move no nível ontológico, questiona num plano anterior às coisas individuais, admira o milagre do ser mesmo, procurando dar-se conta do “é” enigmático que predicamos universalmente de todas as realidades que ocorrem.

Também se poderia dizer que o conceito da criação se refere à diferença entre o nada e o algo; a idéia da evolução, pelo contrário, àquela entre o um e o outro. A criação caracteriza o ser na sua totalidade como vindo de outro; a evolução, pelo contrário, descreve a construção interna do ser, procurando o donde específico das diversas realidades existentes. Pode ser que para o naturalista a problemática da fé na criação apareça como uma questão ilegítima, à qual o homem não pode responder. De fato, a transição para a consideração evolutiva do mundo representa o passo para aquela forma positiva da ciência que se limita conscientemente àquilo que é dado, apreensível, verificável pelo homem, removendo do âmbito da ciência como estéril a reflexão sobre as verdadeiras razões da realidade. Nesse sentido, a fé na criação e a idéia da evolução não só designam dois campos diversos de problemas, mas duas formas diferentes de pensar. Será também daí que provém a problemática que se sente entre ambas, mesmo quando se torna visível a possibilidade em princípio de se unirem.

Com isso nos encontramos já num segundo nível de problemas. Aprendemos a distinguir dois aspectos da fé na criação: a sua forma concreta na idéia da criação de todas as espécies particulares por Deus e a sua base propriamente dita. Constatamos que o primeiro aspecto, isto é, a forma na qual a concepção criadora se tinha concretizado praticamente foi eliminado pela idéia da evolução; aqui o crente deve deixar-se instruir pela ciência, no sentido de que o modo como ele concebia a criação pertencia a uma imagem pré-científica do mundo, a qual se tornou insustentável. Quanto ao fundamento propriamente dito, na pergunta da passagem do nada para o ser apenas tomamos conhecimento da diferença das formas de pensar; quanto às suas últimas características, a teoria da evolução e a fé na criação pertencem a mundos espirituais absolutamente diversos, não se tocando em nada imediatamente. Que devemos pensar dessa neutralidade aparente? Este é o segundo nível da problemática que agora devemos aprofundar. Não é tão fácil avançar aqui, porque a comparação de modos de pensar e o problema de seu possível relacionamento têm sempre alguma coisa de muito delicado. Devemos procurar colocar-nos acima dos dois modos de pensar, indo assim parar facilmente numa terra conceitual de ninguém, na qual se parece suspeito aos dois lados, e logo se tem a impressão de estarmos sentados entre duas cadeiras. Contudo, devemos fazer a tentativa de avançar tateando. Em primeiro lugar, poderemos constatar que a problemática do pensamento evolucionista é mais limitada do que a da fé na criação. Logo a teoria da evolução, de nenhum modo, pode incorporar em si a fé na criação.

“Desse modo, ela pode com razão designar a idéia da criação como inaproveitável para si: dentro do material positivo, para cuja elaboração ela está fixada pelo seu método, a idéia criadora não pode ocorrer. Ao mesmo tempo, entretanto, deve deixar aberta a questão de se a problemática ulterior da fé não é justificada em si é possível. A partir de determinada concepção da ciência poderá considerá-la como extracientífica, mas não pode baixar uma proibição, em princípio, de que o homem não se possa voltar, por exemplo, para a questão do ser como tal. Pelo contrário, tais questões últimas serão sempre indispensáveis para o homem que existe precisamente em face do último, não podendo ser reduzido ao comprovável cientificamente. Assim, fica o problema de se a idéia da criação, por ser mais ampla, pode acolher no seu espaço o conceito da evolução ou se, pelo contrário, isso contradiz ao seu ponto básico de partida.

À primeira vista razões diversas parecem sugerir essa última alternativa; afinal, os naturalistas e os teólogos da primeira geração que pensavam assim não eram nem tolos nem maus. As duas partes tinham certamente suas razões a que se deve atender, se não se quer chegar a sínteses precipitadas, sem consistência ou desonestas. As objeções que surgem são de natureza muito variada. Antes de tudo, pode-se dizer que a fé na criação era formulada como fé na criação das diversas espécies e na pressuposição de uma imagem estática do mundo; agora que isso se tornou insustentável não se pode livrar sem mais desse lastro e se torna no seu conjunto inaproveitável. Essa objeção, que hoje já não nos parece muito séria, se torna mais insistente, se nos lembrarmos que também atualmente a fé deve considerar indispensável a criação de ao menos um ser determinado: do homem.

Se o homem for apenas um produto da evolução, também o espírito é um efeito do acaso. Mas, se o espírito se originou por evolução, a matéria é a origem primeira e suficiente de tudo o mais. E, se isso é assim, Deus Criador e criação desaparecem por si mesmos. De que modo, porém, se poderá conservar fora da cadeia da evolução o homem, um entre muitos seres, por mais diferente e grande que seja? Agora se vê que a criação dos seres particulares e a própria idéia da criação, contudo, não podem ser separadas sem mais, como poderia parecer de início. Aqui parece se tratar de um princípio. Ou todas as coisas são produto da evolução e então o homem também o é. Ou, pelo contrário, não o são. Essa segunda alternativa está eliminada, logo permanece a primeira, e isso, como acabamos de ver, parece pôr em questão toda a idéia da criação, porque suprime o primado e a superioridade do espírito, coisas que de forma alguma devem ser consideradas uma suposição fundamental da fé na criação.

Houve quem procurasse livrar-se desse problema dizendo que o corpo do homem seria produto da evolução; o espírito não o seria em caso algum: a este Deus mesmo teria criado, pois o espírito não pode sair da matéria. Essa resposta, que parece ter a seu favor que, de fato, o espírito não pode ser tratado com o mesmo método da ciência natural com o qual se pode seguir a história dos organismos, no máximo satisfaz à primeira vista. Logo se deverá continuar a perguntar: é possível dividir assim o homem entre os teólogos e os naturalistas – a alma para uns, o corpo para os outros – ou não é isso inadmissível para ambos? O naturalista crê ver como aos poucos se constitui toda a estrutura do homem; também encontra um campo psíquico de transição no qual, aos poucos, o proceder humano ascende do animal, sem que possa traçar uma linha clara, para a qual, é verdade, também lhe falta o material – o que muitas vezes não se concede suficientemente. Em contrapartida, se o teólogo está convencido de que o espírito é que dá forma também ao corpo, cunhando-o de ponta a ponta como corpo humano, de modo que o homem só é espírito como corpo e só corpo como espírito e no espírito, também para ele essa divisão do homem perde qualquer sentido.

Com efeito, o espírito então criou o seu corpo como algo novo, anulando assim toda a evolução. Como se vê, para ambos os lados, o tema criação e desenvolvimento parece levar a um rigoroso ou/ou que não permite mediações. Mas, segundo nosso estado atual de conhecimento, parece que isso significaria o fim da fé na criação.

Assim tornou a estar completamente anulada a bela harmonia que parecia delinear-se já no primeiro plano do questionamento; vemo-nos, de novo, no ponto inicial. Como poderemos avançar? Bem, tocamos antes levemente um plano intermédio, que primeiro parecia de pouca importância, mas que agora, não obstante, se poderia revelar como o centro da questão e o ponto de partida de uma resposta defensável. Até que ponto a fé está ligada à admissão da criação das diversas realidades do mundo por Deus? Essa pergunta, algo tanto superficial, pode ser reduzida a um problema geral que poderá representar o centro de toda a nossa questão: a idéia de um mundo em formação pode ser conciliada com o pensamento bíblico fundamental da criação do mundo pelo Verbo, com a redução do ser a um sentido criativo? A idéia do ser expressa nisso pode coexistir internamente com aquela de devir como a propõe a teoria da evolução? Nessas perguntas está contida ao mesmo tempo outra de pronunciado caráter básico, aquela pela relação entre imagem do mundo e a fé em geral. Será bom começar por aí, pois na tentativa de pensar ao mesmo tempo com fé na criação e cientificamente, quer dizer, de modo evolucionista, evidentemente se atribui à fé uma outra imagem do mundo do que aquela que até agora podia valer como imagem do mundo propriamente dita da fé. Em si, nesse processo, até está o núcleo de todo o problema ao redor do qual giram nossas considerações: priva-se a fé da sua imagem do mundo que parecia ter sido a fé mesma, sendo esta referida a outra imagem. Pode-se fazer isso, sem destruir a sua identidade? – é exatamente nosso problema.

Aqui ao mesmo tempo poderá surpreender e tranquilizar o fato de que essa pergunta não surge pela primeira vez na nossa geração. Pelo contrário, os teólogos da Igreja antiga por princípio se viram em face do mesmo problema, pois a imagem bíblica do mundo, como está expressa nos relatos da criação no Antigo Testamento, de nenhum modo era a deles; no fundo, parecia-lhes exatamente tão pouco científica como a nós. Quem fala simplesmente de uma imagem antiga do mundo se encontra num grande erro. De fora, talvez nos possa parecer uniforme; para aqueles, porém, que viviam dentro dela, eram decisivas as diferenças que nós hoje encaramos como irrelevantes. Os relatos antigos da criação exprimem a concepção do mundo do Oriente antigo, principalmente da Babilônia; os Padres da Igreja viviam na época helenista, para a qual essa concepção parecia mítica, pré-científica, inadmissível em todos os aspectos. Deveria servir de auxílio a eles, como a nós, o fato de que a Bíblia é na realidade uma literatura que abrange um período de todo um milênio. Ela se estende desde a imagem do mundo dos babilônios até a do helenismo, pelo qual estão condicionados os textos da literatura sapiencial sobre a criação, em que se encontra delineada uma concepção do mundo e do processo da criação inteiramente diversa dos textos da criação do Gênesis que nos são tão familiares, mas que da sua parte também não são uniformes: o primeiro e o segundo capítulo desse livro dão imagem em grande medida opostas do decurso da criação. Isso, porém, significa que já dentro da Bíblia a fé e a imagem do mundo não são idênticas; a fé se serve de uma concepção do mundo, mas não coincide com ela.

Na evolução da Bíblia, esse desenvolvimento formava evidentemente uma realidade óbvia irrefletida: só assim se pode explicar que tenham sido mudadas as formas intuitivas da imagem do mundo, nas quais era moldada a idéia da criação, e isso não só nos diversos períodos da história de Israel, mas também dentro de um e o mesmo espaço de tempo, sem se ver aí um perigo para o que propriamente se pensava.

A compreensão dessa amplitude interna da fé desapareceu apenas quando começou a impor-se a assim chamada exegese literal, perdendo-se a capacidade de ver a transcendência da palavra de Deus em todas as suas modalidades particulares de expressão. Ao mesmo tempo – às voltas do século XIII -, também a imagem do mundo se tornou rígida de um modo não conhecido antes, embora na sua forma básica absolutamente não fosse um produto do pensamento bíblico, mas pelo contrário só com dificuldade pudesse ser conciliada com os dados fundamentais da fé bíblica. Não seria difícil descobrir as raízes pagãs dessa concepção do mundo, que mais tarde foi tida como a única cristã. Também se podem ver facilmente os remendos colocados sobre ela e que mostram como a fé a tomou a seu serviço, sem se poder tornar idêntica a ela. Mas aqui não podemos nos ocupar com isso; devemos limitar-nos à pergunta positiva sobre se a fé na criação, que sobreviveu a tantas mudanças da imagem do mundo, agindo ao mesmo tempo como fermento de crítica sobre elas e impelindo o desenvolvimento, pode continuar a existir como uma afirmação racional também no tempo da compreensão evolutiva do mundo. Está claro que a fé, que não era idêntica com nenhuma das imagens anteriores do mundo, mas respondia a uma pergunta que leva para além das concepções do universo, embora a seguir se tenha concluído com elas, também não se pode nem se deve identificar com a nossa imagem do universo. Seria tolo e falso declarar sub-repticiamente a teoria da evolução como um produto da fé, embora também a fé tenha contribuído para que se desenvolvesse aquele horizonte de pensamento no qual se podia originar o problema da evolução. Mais tolo ainda seria considerar a fé como uma espécie de ilustração da teoria da evolução, fazendo que esta seja confirmada por aquela

O plano das perguntas e respostas da fé é absolutamente outro, como constatamos antes; tudo de que se pode tratar é verificar se a questão humana básica para a qual ela está ordenada também sob as suposições mentais presentes pode ainda ser respondida legitimamente do modo como faz a fé na criação e de que maneira assim também a imagem evolutiva do mundo pode ser entendida como expressão da criação.

Para alcançarmos alguma coisa, devemos examinar mais exatamente tanto o relato da criação como a idéia da evolução; infelizmente aqui ambas as coisas podem ser feitas apenas sumariamente. Perguntemos, portanto, partindo da evolução: como se entende propriamente o mundo, se o concebemos de modo evolutivo? Nesse ponto, é essencial o fato de que o tempo e o ser entram em uma relação fixa: o ser é tempo, não apenas tem tempo. Só no devir ele existe e se descobre, tornando-se ele mesmo. Consequentemente o tempo está entendido de modo dinâmico, como movimento do ser, que por sua vez está orientado para um fim: não circula sempre no mesmo ponto, mas avança. Embora se discuta a possibilidade de se aplicar o conceito de progresso à cadeia da evolução, principalmente porque não se dispõe de uma medida neutral, que permitiria dizer o que propriamente deve ser considerado melhor ou menos bom e quando, por conseguinte, se pode falar seriamente de progresso. Mas a posição que o homem ocupa em face de toda a realidade restante o autoriza a considerar-se a si mesmo ponto de referência pelo menos em relação à pergunta por si mesmo: enquanto se trata dele mesmo, está autorizado, sem dúvida, a tal.

Ora, orientando-se desse modo, a direção da evolução e o seu caráter de progresso são incontestáveis em última análise, embora quanto a isso não esqueçamos que nessa evolução há becos sem saída e que seu trajeto está longe de se mover em linha reta. Também voltas são um caminho, e também por voltas se chega à meta, como o mostra também a evolução mesma. A questão de se o ser, entendido deste modo como caminho, isto é, a evolução como um todo, tem um sentido, é verdade que fica aberta, não podendo ser decidida dentro da teoria da evolução mesma; para ela, isso é uma questão estranha ao método, embora para o homem vivo seja a questão básica do todo. Hoje a ciência natural, com conhecimento acertado de seus limites, declara que essa pergunta, indispensável para o homem, não é intracientífica, podendo ser respondida apenas no quadro de um “sistema da fé”. O fato de que muitos julguem que o “sistema cristão da fé” não se presta para isso, devendo-se achar um novo, não nos precisa ocupar aqui, porque aquelas pessoas fazem uma afirmação fora da sua própria decisão sobre a fé e fora da sua ciência.

Com isso, porém, já estamos na situação de dizermos precisamente o que significa a fé na criação, em relação à compreensão evolutiva do mundo. Em face da questão fundamental, que não pode ser respondida pela teoria da evolução mesma, a saber, se aqui há sentido, ou não, a fé exprime a convicção de que o mundo como um todo, como diz a Bíblia, vem do LOGOS, isto é, da razão criadora, representando a forma temporal da realização de si mesma. Vista com base na nossa concepção do mundo, a criação não é um início distante, nem um começo dividido por vários estádios, mas se refere ao ser como temporal e em processo de devir: o ser temporal, como um todo, é abarcado pelo único ato criador de Deus, que, apesar de sua fragmentariedade, lhe dá sua unidade na qual, ao mesmo tempo, se fundamenta o seu sentido que não podemos reconstruir no nosso cálculo, porque não vemos o todo, sendo nós mesmos apenas partes. A fé na criação não nos fala da natureza do sentido do mundo, mas apenas do fato dele: por todo esse movimento ascendente e descendente do ser em formação, realiza-se livremente e sob o risco da liberdade o pensamento primordial criador do qual essa realização tem o seu ser. Assim, a nós hoje talvez se nos torne mais claro aquilo que a doutrina cristã da criação sempre afirmou, mas não deve ser concebida segundo o modelo de um artesão que faz diversos objetos e sim à maneira segundo o qual o pensamento é criativo. E, ao mesmo tempo, se vê que o todo do movimento do ser (não só o seu começo) é criação e que do mesmo modo o todo (não só aquilo que vem depois de outra coisa) é realidade e movimento de si mesmo. Resumindo tudo isso, podemos dizer: crer na criação significa entender na fé o mundo em devir, revelado pela ciência como um universo racional proveniente do intelecto criador.

Dessa maneira, está já delineada claramente a resposta à pergunta pela criação do homem, porque aí temos a decisão básica sobre a posição do espírito e do sentido no mundo: o reconhecimento do mundo como realização de si mesmo, de um pensamento criador, supõe que se deva reduzi-lo à criatividade do espírito, ao CREATOR SPIRITUS. Em Teilhard de Chardin encontramos a seguinte observação lúcida: “O que distingue um materialista de um espiritualista já não é absolutamente (como na filosofia fixista) o fato de que ele admita uma transição entre infra-estrutura física e a superestrutura psíquica, mas apenas que põe o ponto definitivo de equilíbrio do movimento cósmico na parte da infra-estrutura, quer dizer da decomposição”. Sem dúvida, poder-se-ão discutir as particularidades dessa formulação; mas o ponto decisivo me parece acertado lucidamente: a alternativa materialismo-determinada do mundo, acaso ou sentido, hoje se nos apresenta na forma da questão sobre se é possível considerar o espírito e a vida nas suas formas ascendentes apenas um bolor casual na superfície da matéria (quer dizer do ser que não se entende a si mesmo) ou a meta do devir; ou se, pelo contrário, temos de olhar a matéria como a pré-história do espírito. Escolhendo-se a segunda alternativa, está claro que o espírito não é um produto casual de desenvolvimentos materiais, mas antes, a matéria um momento na história do espírito. Isso, porém, é apenas uma expressão da afirmação de que o espírito foi criado e não é somente um puro produto da evolução, mesmo que apareça na forma da evolução.

Chegamos assim no ponto no qual se responde à pergunta sobre o modo como a afirmação teológica da criação pode subsistir juntamente com uma imagem evolutiva do mundo, e que forma ela deve tomar numa concepção evolutiva do universo. Tratar desse ponto nas suas particularidades ultrapassaria o quadro desse ensaio; devem bastar algumas indicações. Em primeiro lugar, dever-se-ia lembrar que também a criação do homem não significa um começo distante, mas em ser Adão estende a cada um de nós: cada homem se refere diretamente a Deus. A fé não afirma mais quanto ao primeiro homem do que quanto a cada um de nós e vice-e-versa, quanto a nós não afirma menos do que quanto ao primeiro homem. Cada homem é mais do que o produto da massa hereditária e do ambiente, nenhum resulta só de fatores intramundanos que podem ser calculados; o mistério da criação envolve a cada um de nós. Além disso, dever-se-ia mencionar a verdade de que o espírito não acede à matéria como algo estranho, como uma segunda substância; conforme o que ficou dito, o surgimento do espírito significa antes que um movimento progressivo chega à meta que lhe foi marcada. Finalmente, dever-se-ia dizer que precisamente a criação do espírito é a que menos imaginar como uma atividade artesanal de Deus que aqui, de repente, começaria a manobrar no mundo. Se a criação significa dependência do ser, a criação particular não é outra coisa do que uma dependência particular do ser. A afirmação de que o homem foi criado por Deus de um modo específico, mais direto do que as coisas da natureza, significa, em expressão um pouco menos figurada, simplesmente que o homem foi querido por Deus de um modo específico: não só como um ser que existe, mas como alguém que conhece a Deus; não só como uma estrutura que Deus pensou, mas como existência que, da sua parte, O pode pensar. Esse modo específico como Deus quis e conheceu o homem é que chamamos sua criação especial.

A partir daqui, poder-se-á estabelecer uma verdadeira diagnose sobre o modo da humanização: A ARGILA SE TORNOU HOMEM NO MOMENTO EM QUE UM SER, PELA PRIMEIRA VEZ, EMBORA DO MODO MAIS IMPERFEITO, PODE FORMAR O PENSAMENTO DE DEUS. O PRIMEIRO TU QUE – POR MAIS BALBUCIANTE QUE TENHA SIDO – FOI DITO A DEUS POR BOCA HUMANA DESIGNA O MOMENTO NO QUAL O ESPÍRITO SURGIU NO MUNDO. Assim foi transposto o Rubicão da humanização, pois não é o uso de armas ou do fogo, nem novos métodos de crueldade ou de aproveitamento das coisas que constituem o homem, mas sim sua capacidade de se relacionar imediatamente com Deus. É isso o que diz a doutrina da criação especial do homem; nisso é que está o centro da fé na criação como tal. Nisso também está a razão por que o momento da humanização absolutamente não pode ser fixado pela paleontologia: A HUMANIZAÇÃO É O SURGIMENTO DO ESPÍRITO, que não se pode cavar com a pá. A teoria da evolução não elimina a fé; tampouco a confirma. Mas ela a provoca a que entenda mais profundamente a si mesma, ajudando assim ao homem a entender-se a si mesmo e a tornar-se mais e mais aquilo que é: O SER QUE DEVE DIZER ETERNAMENTE TU A DEUS.