ZP11042406 - 24-04-2011
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Pontífice preside à Vigília Pascal na Basílica de São Pedro
CIDADE DO VATICANO, domingo, 24 de abril de 2011 (ZENIT.org)
- O homem não é um produto casual da evolução, mas do Amor criador e
redentor de Deus, que dá sentido à vida, explicou Bento XVI na Vigília
Pascal.
Ao presidir a “mãe de todas as vigílias” e batizar seis
catecúmenos – da Suíça, Albânia, Peru, Rússia, Singapura e China – o
pontífice quis responder na homilia às perguntas de todo homem e mulher
sobre a origem e destino de sua existência.
“Se o homem fosse
apenas um tal produto casual da evolução num lugar marginal qualquer do
universo, então a sua vida seria sem sentido ou mesmo um azar da
natureza”, afirmou.
“Mas não! No início, está a Razão, a Razão
criadora, divina. E, dado que é Razão, ela criou também a liberdade; e,
uma vez que se pode fazer uso indevido da liberdade, existe também o que
é contrário à criação.”
“Mas, apesar desta contradição, a
criação como tal permanece boa, a vida permanece boa, porque na sua
origem está a Razão boa, o amor criador de Deus. Por isso, o mundo pode
ser salvo”, disse, explicando a mensagem de esperança deixada pela
paixão, morte e ressurreição de Cristo.
“Por isso podemos e
devemos colocar-nos da parte da razão, da liberdade e do amor, da parte
de Deus que nos ama de tal maneira que Ele sofreu por nós, para que, da
sua morte, pudesse surgir uma vida nova, definitiva, restaurada.”
A
celebração começou no átrio da Basílica de São Pedro, com o rito da
bênção do fogo e a preparação do Círio pascal, presente da Comunidade
Neocatecumenal de Roma.
Na basílica, a passagem da escuridão à
luz simbolizou a chegada da Luz, que é Cristo, no mundo tenebroso do
pecado, da solidão e da morte, segundo explicou Dom Guido Marini, mestre
das celebrações litúrgicas pontifícias. O serviço litúrgico foi
realizado por religiosos dos Legionários de Cristo.
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domingo, 24 de abril de 2011
Papa: O homem não é um produto casual da evolução
Homilia de Bento XVI na Vigília Pascal
ZP11042401 - 24-04-2011
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“A Igreja não é uma associação qualquer que se ocupa das necessidades religiosas”
CIDADE DO VATICANO, domingo, 24 de abril de 2011 (ZENIT.org) - Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou na celebração litúrgica da Vigília Pascal, na Basílica de São Pedro.
* * *
Amados irmãos e irmãs,
Dois grandes sinais caracterizam a celebração litúrgica da Vigília Pascal. Temos antes de mais nada o fogo que se torna luz. A luz do círio pascal que, na procissão através da igreja encoberta na escuridão da noite, se torna uma onda de luzes, fala-nos de Cristo como verdadeira estrela da manhã eternamente sem ocaso, fala-nos do Ressuscitado em quem a luz venceu as trevas. O segundo sinal é a água. Esta recorda, por um lado, as águas do Mar Vermelho, o afundamento e a morte, o mistério da Cruz; mas, por outro, aparece-nos como água nascente, como elemento que dá vida na aridez. Torna-se assim imagem do sacramento do Baptismo, que nos faz participantes da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Mas não são apenas estes grandes sinais da criação, a luz e a água, que fazem parte da liturgia da Vigília Pascal; outra característica verdadeiramente essencial da Vigília é o facto de nos proporcionar um vasto encontro com a palavra da Sagrada Escritura. Antes da reforma litúrgica, havia doze leituras do Antigo Testamento e duas do Novo. As do Novo Testamento permaneceram; entretanto o número das leituras do Antigo Testamento acabou fixado em sete, que, atendendo às situações locais, se podem reduzir a três leituras. A Igreja quer, através de uma ampla visão panorâmica, conduzir-nos ao longo do caminho da história da salvação, desde a criação passando pela eleição e a libertação de Israel até aos testemunhos proféticos, pelos quais toda esta história se orienta cada vez mais claramente para Jesus Cristo. Na tradição litúrgica, todas estas leituras se chamavam profecias: mesmo quando não são directamente vaticínios de acontecimentos futuros, elas têm um carácter profético, mostram-nos o fundamento íntimo e a direcção da história; fazem com que a criação e a história se tornem transparentes no essencial. Deste modo tomam-nos pela mão e conduzem-nos para Cristo, mostram-nos a verdadeira luz.
Na Vigília Pascal, o percurso ao longo dos caminhos da Sagrada Escritura começa pelo relato da criação. Desta forma, a liturgia quer-nos dizer que também o relato da criação é uma profecia. Não se trata de uma informação sobre a realização exterior da transformação do universo e do homem. Bem cientes disto estavam os Padres da Igreja, que entenderam este relato não como narração real das origens das coisas, mas como apelo ao essencial, ao verdadeiro princípio e ao fim do nosso ser. Ora, podemo-nos interrogar: mas, na Vigília Pascal, é verdadeiramente importante falar também da criação? Não se poderia começar pelos acontecimentos em que Deus chama o homem, forma para Si um povo e cria a sua história com os homens na terra? A resposta deve ser: não! Omitir a criação significaria equivocar-se sobre a história de Deus com os homens, diminuí-la, deixar de ver a sua verdadeira ordem de grandeza. O arco da história que Deus fundou chega até às origens, até à criação. A nossa profissão de fé inicia com as palavras: «Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra». Se omitimos este início do Credo, a história global da salvação torna-se demasiado restrita, demasiado pequena. A Igreja não é uma associação qualquer que se ocupa das necessidades religiosas dos homens e cujo objectivo se limitaria precisamente ao de uma tal associação. Não, a Igreja leva o homem ao contacto com Deus e, consequentemente, com o princípio de tudo. Por isso, Deus tem a ver connosco como Criador, e por isso possuímos uma responsabilidade pela criação. A nossa responsabilidade inclui a criação, porque esta provém do Criador. Deus pode dar-nos vida e guiar a nossa vida, só porque Ele criou o todo. A vida na fé da Igreja não abrange somente o âmbito de sensações e sentimentos e porventura de obrigações morais; mas abrange o homem na sua integralidade, desde as suas origens e na perspectiva da eternidade. Só porque a criação pertence a Deus, podemos depositar n’Ele completamente a nossa confiança. E só porque Ele é Criador, é que nos pode dar a vida por toda a eternidade. A alegria e gratidão pela criação e a responsabilidade por ela andam juntas uma com a outra.
Podemos determinar ainda mais concretamente a mensagem central do relato da criação. Nas primeiras palavras do seu Evangelho, São João resumiu o significado essencial do referido relato com uma única frase: «No princípio, era o Verbo». Com efeito, o relato da criação, que ouvimos anteriormente, caracteriza-se pela frase que aparece com regularidade: «Disse Deus…». O mundo é uma produção da Palavra, do Logos, como se exprime João com um termo central da língua grega. «Logos» significa «razão», «sentido», «palavra». Não é apenas razão, mas Razão criadora que fala e comunica a Si mesma. Trata-se de Razão que é sentido, e que cria, Ela mesma, sentido. Por isso, o relato da criação diz-nos que o mundo é uma produção da Razão criadora. E deste modo diz-nos que, na origem de todas as coisas, não está o que é sem razão, sem liberdade; pelo contrário, o princípio de todas as coisas é a Razão criadora, é o amor, é a liberdade. Encontramo-nos aqui perante a alternativa última que está em jogo na disputa entre fé e incredulidade: o princípio de tudo é a irracionalidade, a falta de liberdade e o acaso, ou então o princípio do ser é razão, liberdade, amor? O primado pertence à irracionalidade ou à razão? Tal é a questão de que, em última análise, se trata. Como crentes, respondemos com o relato da criação e com João: na origem, está a razão. Na origem, está a liberdade. Por isso, é bom ser uma pessoa humana. Assim o que sucedera no universo em expansão não foi que por fim, num angulozinho qualquer do cosmos, ter-se-ia formado por acaso também uma espécie como qualquer outra de ser vivente, capaz de raciocinar e de tentar encontrar na criação uma razão ou de lha conferir. Se o homem fosse apenas um tal produto casual da evolução num lugar marginal qualquer do universo, então a sua vida seria sem sentido ou mesmo um azar da natureza. Mas não! No início, está a Razão, a Razão criadora, divina. E, dado que é Razão, ela criou também a liberdade; e, uma vez que se pode fazer uso indevido da liberdade, existe também o que é contrário à criação. Por isso se estende, por assim dizer, uma densa linha escura através da estrutura do universo e através da natureza do homem. Mas, apesar desta contradição, a criação como tal permanece boa, a vida permanece boa, porque na sua origem está a Razão boa, o amor criador de Deus. Por isso, o mundo pode ser salvo. Por isso podemos e devemos colocar-nos da parte da razão, da liberdade e do amor, da parte de Deus que nos ama de tal maneira que Ele sofreu por nós, para que, da sua morte, pudesse surgir uma vida nova, definitiva, restaurada.
O relato veterotestamentário da criação, que escutámos, indica claramente esta ordem das coisas. Mas faz-nos dar um passo mais em frente. O processo da criação aparece estruturado no quadro de uma semana que se orienta para o Sábado, encontrando neste a sua perfeição. Para Israel, o Sábado era o dia em que todos podiam participar no repouso de Deus, em que homem e animal, senhor e escravo, grandes e pequenos estavam unidos na liberdade de Deus. Assim o Sábado era expressão da aliança entre Deus, o homem e a criação. Deste modo, a comunhão entre Deus e o homem não aparece como um acréscimo, algo instaurado posteriormente num mundo cuja criação estava já concluída. A aliança, a comunhão entre Deus e o homem, está prevista no mais íntimo da criação. Sim, a aliança é a razão intrínseca da criação, tal como esta é o pressuposto exterior da aliança. Deus fez o mundo, para haver um lugar no qual Ele pudesse comunicar o seu amor e a partir do qual a resposta de amor retornasse a Ele. Diante de Deus, o coração do homem que Lhe responde é maior e mais importante do que todo o imenso universo material que, certamente, já nos deixa vislumbrar algo da grandeza de Deus.
Entretanto, na Páscoa e a partir da experiência pascal dos cristãos, devemos ainda dar mais um passo. O Sábado é o sétimo dia da semana. Depois de seis dias em que o homem, de certa forma, participa no trabalho criador de Deus, o Sábado é o dia do repouso. Mas, na Igreja nascente, sucedeu algo de inaudito: no lugar do Sábado, do sétimo dia, entra o primeiro dia. Este, enquanto dia da assembleia litúrgica, é o dia do encontro com Deus por meio de Jesus Cristo, que no primeiro dia, o Domingo, encontrou como Ressuscitado os seus, depois que estes encontraram vazio o sepulcro. Agora inverte-se a estrutura da semana: já não está orientada para o sétimo dia, em que se participa no repouso de Deus; a semana inicia com o primeiro dia como dia do encontro com o Ressuscitado. Este encontro não cessa jamais de verificar-se na celebração da Eucaristia, durante a qual o Senhor entra de novo no meio dos seus e dá-Se a eles, deixa-Se por assim dizer tocar por eles, põe-Se à mesa com eles. Esta mudança é um facto extraordinário, quando se considera que o Sábado – o sétimo dia – está profundamente radicado no Antigo Testamento como o dia do encontro com Deus. Quando se pensa como a passagem do trabalho ao dia do repouso corresponde também a uma lógica natural, torna-se ainda mais evidente o alcance impressionante de tal alteração. Este processo inovador, que se deu logo ao início do desenvolvimento da Igreja, só se pode explicar com o facto de ter sucedido algo de inaudito em tal dia. O primeiro dia da semana era o terceiro depois da morte de Jesus; era o dia em que Ele Se manifestou aos seus como o Ressuscitado. De facto, este encontro continha nele algo de impressionante. O mundo tinha mudado. Aquele que estivera morto goza agora de um vida que já não está ameaçada por morte alguma. Fora inaugurada uma nova forma de vida, uma nova dimensão da criação. O primeiro dia, segundo o relato do Génesis, é aquele em que teve início a criação. Agora tornara-se, de uma forma nova, o dia da criação, tornara-se o dia da nova criação. Nós celebramos o primeiro dia. Deste modo celebramos Deus, o Criador, e a sua criação. Sim, creio em Deus, Criador do Céu e da Terra. E celebramos o Deus que Se fez homem, padeceu, morreu, foi sepultado e ressuscitou. Celebramos a vitória definitiva do Criador e da sua criação. Celebramos este dia como origem e simultaneamente como meta da nossa vida. Celebramo-lo porque agora, graças ao Ressuscitado, vale de modo definitivo que a razão é mais forte do que a irracionalidade, a verdade mais forte do que a mentira, o amor mais forte do que a morte. Celebramos o primeiro dia, porque sabemos que a linha escura que atravessa a criação não permanece para sempre. Celebramo-lo, porque sabemos que agora vale definitivamente o que se diz no fim do relato da criação: «Deus viu que tudo o que tinha feito; era tudo muito bom» (Gn 1, 31). Amen.
[Tradução distribuída pela Santa Sé
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“A Igreja não é uma associação qualquer que se ocupa das necessidades religiosas”
CIDADE DO VATICANO, domingo, 24 de abril de 2011 (ZENIT.org) - Publicamos a homilia que Bento XVI pronunciou na celebração litúrgica da Vigília Pascal, na Basílica de São Pedro.
* * *
Amados irmãos e irmãs,
Dois grandes sinais caracterizam a celebração litúrgica da Vigília Pascal. Temos antes de mais nada o fogo que se torna luz. A luz do círio pascal que, na procissão através da igreja encoberta na escuridão da noite, se torna uma onda de luzes, fala-nos de Cristo como verdadeira estrela da manhã eternamente sem ocaso, fala-nos do Ressuscitado em quem a luz venceu as trevas. O segundo sinal é a água. Esta recorda, por um lado, as águas do Mar Vermelho, o afundamento e a morte, o mistério da Cruz; mas, por outro, aparece-nos como água nascente, como elemento que dá vida na aridez. Torna-se assim imagem do sacramento do Baptismo, que nos faz participantes da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Mas não são apenas estes grandes sinais da criação, a luz e a água, que fazem parte da liturgia da Vigília Pascal; outra característica verdadeiramente essencial da Vigília é o facto de nos proporcionar um vasto encontro com a palavra da Sagrada Escritura. Antes da reforma litúrgica, havia doze leituras do Antigo Testamento e duas do Novo. As do Novo Testamento permaneceram; entretanto o número das leituras do Antigo Testamento acabou fixado em sete, que, atendendo às situações locais, se podem reduzir a três leituras. A Igreja quer, através de uma ampla visão panorâmica, conduzir-nos ao longo do caminho da história da salvação, desde a criação passando pela eleição e a libertação de Israel até aos testemunhos proféticos, pelos quais toda esta história se orienta cada vez mais claramente para Jesus Cristo. Na tradição litúrgica, todas estas leituras se chamavam profecias: mesmo quando não são directamente vaticínios de acontecimentos futuros, elas têm um carácter profético, mostram-nos o fundamento íntimo e a direcção da história; fazem com que a criação e a história se tornem transparentes no essencial. Deste modo tomam-nos pela mão e conduzem-nos para Cristo, mostram-nos a verdadeira luz.
Na Vigília Pascal, o percurso ao longo dos caminhos da Sagrada Escritura começa pelo relato da criação. Desta forma, a liturgia quer-nos dizer que também o relato da criação é uma profecia. Não se trata de uma informação sobre a realização exterior da transformação do universo e do homem. Bem cientes disto estavam os Padres da Igreja, que entenderam este relato não como narração real das origens das coisas, mas como apelo ao essencial, ao verdadeiro princípio e ao fim do nosso ser. Ora, podemo-nos interrogar: mas, na Vigília Pascal, é verdadeiramente importante falar também da criação? Não se poderia começar pelos acontecimentos em que Deus chama o homem, forma para Si um povo e cria a sua história com os homens na terra? A resposta deve ser: não! Omitir a criação significaria equivocar-se sobre a história de Deus com os homens, diminuí-la, deixar de ver a sua verdadeira ordem de grandeza. O arco da história que Deus fundou chega até às origens, até à criação. A nossa profissão de fé inicia com as palavras: «Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra». Se omitimos este início do Credo, a história global da salvação torna-se demasiado restrita, demasiado pequena. A Igreja não é uma associação qualquer que se ocupa das necessidades religiosas dos homens e cujo objectivo se limitaria precisamente ao de uma tal associação. Não, a Igreja leva o homem ao contacto com Deus e, consequentemente, com o princípio de tudo. Por isso, Deus tem a ver connosco como Criador, e por isso possuímos uma responsabilidade pela criação. A nossa responsabilidade inclui a criação, porque esta provém do Criador. Deus pode dar-nos vida e guiar a nossa vida, só porque Ele criou o todo. A vida na fé da Igreja não abrange somente o âmbito de sensações e sentimentos e porventura de obrigações morais; mas abrange o homem na sua integralidade, desde as suas origens e na perspectiva da eternidade. Só porque a criação pertence a Deus, podemos depositar n’Ele completamente a nossa confiança. E só porque Ele é Criador, é que nos pode dar a vida por toda a eternidade. A alegria e gratidão pela criação e a responsabilidade por ela andam juntas uma com a outra.
Podemos determinar ainda mais concretamente a mensagem central do relato da criação. Nas primeiras palavras do seu Evangelho, São João resumiu o significado essencial do referido relato com uma única frase: «No princípio, era o Verbo». Com efeito, o relato da criação, que ouvimos anteriormente, caracteriza-se pela frase que aparece com regularidade: «Disse Deus…». O mundo é uma produção da Palavra, do Logos, como se exprime João com um termo central da língua grega. «Logos» significa «razão», «sentido», «palavra». Não é apenas razão, mas Razão criadora que fala e comunica a Si mesma. Trata-se de Razão que é sentido, e que cria, Ela mesma, sentido. Por isso, o relato da criação diz-nos que o mundo é uma produção da Razão criadora. E deste modo diz-nos que, na origem de todas as coisas, não está o que é sem razão, sem liberdade; pelo contrário, o princípio de todas as coisas é a Razão criadora, é o amor, é a liberdade. Encontramo-nos aqui perante a alternativa última que está em jogo na disputa entre fé e incredulidade: o princípio de tudo é a irracionalidade, a falta de liberdade e o acaso, ou então o princípio do ser é razão, liberdade, amor? O primado pertence à irracionalidade ou à razão? Tal é a questão de que, em última análise, se trata. Como crentes, respondemos com o relato da criação e com João: na origem, está a razão. Na origem, está a liberdade. Por isso, é bom ser uma pessoa humana. Assim o que sucedera no universo em expansão não foi que por fim, num angulozinho qualquer do cosmos, ter-se-ia formado por acaso também uma espécie como qualquer outra de ser vivente, capaz de raciocinar e de tentar encontrar na criação uma razão ou de lha conferir. Se o homem fosse apenas um tal produto casual da evolução num lugar marginal qualquer do universo, então a sua vida seria sem sentido ou mesmo um azar da natureza. Mas não! No início, está a Razão, a Razão criadora, divina. E, dado que é Razão, ela criou também a liberdade; e, uma vez que se pode fazer uso indevido da liberdade, existe também o que é contrário à criação. Por isso se estende, por assim dizer, uma densa linha escura através da estrutura do universo e através da natureza do homem. Mas, apesar desta contradição, a criação como tal permanece boa, a vida permanece boa, porque na sua origem está a Razão boa, o amor criador de Deus. Por isso, o mundo pode ser salvo. Por isso podemos e devemos colocar-nos da parte da razão, da liberdade e do amor, da parte de Deus que nos ama de tal maneira que Ele sofreu por nós, para que, da sua morte, pudesse surgir uma vida nova, definitiva, restaurada.
O relato veterotestamentário da criação, que escutámos, indica claramente esta ordem das coisas. Mas faz-nos dar um passo mais em frente. O processo da criação aparece estruturado no quadro de uma semana que se orienta para o Sábado, encontrando neste a sua perfeição. Para Israel, o Sábado era o dia em que todos podiam participar no repouso de Deus, em que homem e animal, senhor e escravo, grandes e pequenos estavam unidos na liberdade de Deus. Assim o Sábado era expressão da aliança entre Deus, o homem e a criação. Deste modo, a comunhão entre Deus e o homem não aparece como um acréscimo, algo instaurado posteriormente num mundo cuja criação estava já concluída. A aliança, a comunhão entre Deus e o homem, está prevista no mais íntimo da criação. Sim, a aliança é a razão intrínseca da criação, tal como esta é o pressuposto exterior da aliança. Deus fez o mundo, para haver um lugar no qual Ele pudesse comunicar o seu amor e a partir do qual a resposta de amor retornasse a Ele. Diante de Deus, o coração do homem que Lhe responde é maior e mais importante do que todo o imenso universo material que, certamente, já nos deixa vislumbrar algo da grandeza de Deus.
Entretanto, na Páscoa e a partir da experiência pascal dos cristãos, devemos ainda dar mais um passo. O Sábado é o sétimo dia da semana. Depois de seis dias em que o homem, de certa forma, participa no trabalho criador de Deus, o Sábado é o dia do repouso. Mas, na Igreja nascente, sucedeu algo de inaudito: no lugar do Sábado, do sétimo dia, entra o primeiro dia. Este, enquanto dia da assembleia litúrgica, é o dia do encontro com Deus por meio de Jesus Cristo, que no primeiro dia, o Domingo, encontrou como Ressuscitado os seus, depois que estes encontraram vazio o sepulcro. Agora inverte-se a estrutura da semana: já não está orientada para o sétimo dia, em que se participa no repouso de Deus; a semana inicia com o primeiro dia como dia do encontro com o Ressuscitado. Este encontro não cessa jamais de verificar-se na celebração da Eucaristia, durante a qual o Senhor entra de novo no meio dos seus e dá-Se a eles, deixa-Se por assim dizer tocar por eles, põe-Se à mesa com eles. Esta mudança é um facto extraordinário, quando se considera que o Sábado – o sétimo dia – está profundamente radicado no Antigo Testamento como o dia do encontro com Deus. Quando se pensa como a passagem do trabalho ao dia do repouso corresponde também a uma lógica natural, torna-se ainda mais evidente o alcance impressionante de tal alteração. Este processo inovador, que se deu logo ao início do desenvolvimento da Igreja, só se pode explicar com o facto de ter sucedido algo de inaudito em tal dia. O primeiro dia da semana era o terceiro depois da morte de Jesus; era o dia em que Ele Se manifestou aos seus como o Ressuscitado. De facto, este encontro continha nele algo de impressionante. O mundo tinha mudado. Aquele que estivera morto goza agora de um vida que já não está ameaçada por morte alguma. Fora inaugurada uma nova forma de vida, uma nova dimensão da criação. O primeiro dia, segundo o relato do Génesis, é aquele em que teve início a criação. Agora tornara-se, de uma forma nova, o dia da criação, tornara-se o dia da nova criação. Nós celebramos o primeiro dia. Deste modo celebramos Deus, o Criador, e a sua criação. Sim, creio em Deus, Criador do Céu e da Terra. E celebramos o Deus que Se fez homem, padeceu, morreu, foi sepultado e ressuscitou. Celebramos a vitória definitiva do Criador e da sua criação. Celebramos este dia como origem e simultaneamente como meta da nossa vida. Celebramo-lo porque agora, graças ao Ressuscitado, vale de modo definitivo que a razão é mais forte do que a irracionalidade, a verdade mais forte do que a mentira, o amor mais forte do que a morte. Celebramos o primeiro dia, porque sabemos que a linha escura que atravessa a criação não permanece para sempre. Celebramo-lo, porque sabemos que agora vale definitivamente o que se diz no fim do relato da criação: «Deus viu que tudo o que tinha feito; era tudo muito bom» (Gn 1, 31). Amen.
[Tradução distribuída pela Santa Sé
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Evolucionismo: O estado atual da questão
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INTRODUÇÃO
É muito difícil dar
uma visão de conjunto razoavelmente completa sobre a teoria da evolução,
tendo em conta a complexidade das discussões sobre o assunto que hoje
se encontram no mercado das idéias. Por isso, procurarei nesta exposição
fazer apenas um elenco das idéias mais relevantes que servem de base
para as teses evolucionistas atuais. Ao longo da explanação, tecerei
algumas observações críticas quando forem necessárias e, no fim,
apresentarei alguns dados que permitam vislumbrar possíveis
encaminhamentos para uma explicação atualizada do fenômeno evolutivo.
1. IDÉIAS BÁSICAS
1.1. O que se entende por evolução?
Em primeiro lugar, é
necessário um esclarecimento terminológico: muitos livros ou artigos
sobre a evolução empregam os termos comuns nesse campo com significados
diferentes; por isso devemos esclarecer qual o significado que daremos
aqui a esses termos, a fim de evitar confusões.
Entendemos por evolução, de um modo genérico, a variação das espécies dos seres vivos.
Mais especificamente, podemos distinguir dois tipos de evolução: a macroevolução e a microevolução.
Por macroevolução, entende-se a aparição de novas espécies por geração a partir de outras distintas.
Por microevolução,
entende-se a aparição de variações morfológicas dentro de uma mesma
espécie, isto é: a aparição daquilo que podemos chamar de raças, de
subespécies ou de variedades, que no entanto continuam a ser
inequivocamente da mesma espécie.
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muitas
outras evidências que apontam na mesma direção: todos os seres vivos
têm uma constituição basicamente igual, são compostos deproteínas,
açúcares, informação genética, membranas, sistemas respiratórios, etc.
Todas essas coincidências, que são muitíssimas, sugerem uma origem comum
e apóiam a idéia da evolução, ou seja, o aparecimento de novas espécies
por geração.
1.3. Evolução não é igual a darwinismo
Outra fonte de
confusões procede de se reduzir o processo evolutivo a uma das
explicações que se dão acerca dele; concretamente, nesta época de
predomínio quase absoluto da explicação darwinista, é comum confundir
evolução com darwinismo. Uma coisa, porém, é que seres de uma espécie
tenham no passado produzido seres de outra espécie; e outra bem
diferente as várias explicações que se podem dar para esse fenômeno. O
problema atual é a ausência quase absoluta de explicações alternativas à
darwinista, e por isso as pessoas tendem a confundir o fenômeno
evolutivo com essa sua explicação, que é quase a única oferecida no
mercado das idéias.
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Uma
coisa, no entanto, é evidente: um fenômeno que se quer explicar é
diferente da explicação científica que se constrói para explicá-lo.
Outra questão é saber se essa explicação científica está ou não
suficientemente comprovada; mas, independentemente de estar ou não
comprovada, explicação e fenômeno explicado serão sempre coisas
diferentes.
Por este motivo, é
preciso manter uma clara separação conceitual entre os termos “evolução”
e “darwinismo”. Conseqüentemente, aceitar o fenômeno evolutivo não
implicará aceitar a explicação darwinista; nem criticar a explicação
implicará negar o fenômeno evolutivo.
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Acreditar em Evolução?
Dom Cristiano Jakob Krapf
Entre Ciência e Religião, entre fé e
razão, onde está a Verdade? A evolução atual da ciência contradiz o
ensinamento da Bíblia sobre a origem do mundo e do homem? Um leitor da
“Superinteressante” faz a pergunta assim: “É coerente acreditar em Deus
e também em Darwin?”
A revista responde: “Na comunidade científica, o consenso é de que a evolução é autossuficiente, exclui a figura de um criador.”
Tal resposta genérica é mentira. A mesma
revista traz logo depois a resposta diferente de um professor formado
em física experimental e doutor em teologia. Não sei quantos cientistas
são ateus ou agnósticos, mas sei que muitos cientistas sérios têm fé.
Muitos acreditam na mensagem da Bíblia sobre Deus, o Criador do mundo.
Entre os habitantes atuais do planeta
terra, os adeptos do monoteísmo são maioria. Mais de um bilhão de
católicos e um bilhão de outros cristãos, e mais de um bilhão de
maometanos e muitos milhões de judeus, acreditam na existência de um só
Deus, Criador do mundo de matéria e energia regido por leis criadas por
ele para organizar a evolução desde o início até a situação atual e
futura.
Podemos entender a inteligência como dom
de Deus que nos criou com a capacidade de sondar os mistérios do mundo e
com a missão de cuidar da morada que criou para nós. Quanto ao futuro,
depende também de nós que temos o dom da liberdade que cientistas
preconceituosos querem enquadrar nos seus conhecimentos limitados ao
mundo material.
Muitos cristãos reconhecem a importância
dos fundamentos racionais da sua fé e não se deixam abalar por
questionamentos superficiais. Em vez de criar dificuldades com
pormenores dos textos bíblicas sobre a criação do mundo e sobre a
história do povo judeu, entendem que a mensagem da Bíblia pode servir de
fundamento para os acréscimos da ciência. Salmos escritos faz trinta
séculos nos falam da beleza de Deus no Céu. A obediência aos 10
mandamentos melhora o convívio dos homens na terra.
Quem não quer saber de Deus aceita
qualquer teoria “científica” que pretende explicar o mundo sem Deus.
Desde meu tempo de menino procurei seguir o conselho de Paulo: “Examinai
tudo, guardai o que for bom!” Já sou velho e não achei qualquer teoria
racional razoável contra a existência de Deus, o Criador não feito por
outro.
Entre aqueles que admitem que não existe
prova científica contra a existência de Deus, muitos acham ou dizem que
também não se pode provar que Deus existe.
Agnósticos céticos acham que nada se
pode saber sobre Deus. Dizem que ninguém pode conhecer a verdade, que
ninguém pode ter certeza de nada. Para os mais radicais, não existe
verdade. Para esses, tenho uma pergunta: É verdade que não existe
verdade? Outros admitem que possa existir alguma verdade, na filosofia e
na religião, mas dizem que ninguém pode conhecer a verdade. Para esses,
tenho duas perguntas: É verdade que ninguém pode conhecer a verdade?
Como sabem?
Acontece que o conhecimento humano
ultrapassa a ciência sobre as leis da natureza material. Somos capazes
de filosofia. Só que muitos “filósofos” de hoje ficam filosofando sobre
tudo, mas fogem da essência da filosofia que é a metafísica, a reflexão
que ultrapassa os limites da matéria.
Alguns pretendem explicar a origem de
tudo com a teoria do Big Bang, dizendo que tudo começou com a Grande
Explosão. Tal teoria contradiz as leis mais elementares da ciência
moderna e da filosofia. A ciência moderna afirma que na natureza nada se
cria e nada se destrói. A filosofia diz que do nada não surge nada. A
teoria do Big Bang não explica origem de nada.
Qualquer criança curiosa pergunta: O que
foi que explodiu? De onde veio o material (massa/energia?) que
explodiu? Pergunta parecida faz aos que dizem que Deus é o criador de
tudo: E quem foi que fez Deus?
Acontece que tal pergunta sobre Deus tem
resposta racional: Deus é aquele que existe por si mesmo, o único ser
que não foi feito por outro. Segundo um texto da Bíblia, escrito muitos
séculos antes do nascimento de Jesus, foi assim que Deus se deu a
conhecer a Moisés: Eu sou aquele que é. Esse é o sentido da palavra
hebraica Jahvé, já por três milênios o nome de Deus para o povo judeu.
Séculos depois, filósofos gregos deram
definições semelhantes: Deus é aquele que é. Aquele que existe por si
mesmo, que não é feito por outro. O primeiro motor de tudo que se move,
de toda mudança. Causa primeira de tudo que existe. A origem. Antes da
filosofia grega já estava escrito na Bíblia: No início Deus criou o céu e
a terra. As dificuldades entre cientistas e biblistas têm sua causa
principal nos mal-entendidos de muitos cientistas e religiosos sobre a
mensagem da Bíblia, e em conclusões precipitadas nada científicas de
cientistas metidos a filósofos.
O que existiu primeiro, o sol ou o dia?
Quanto à Bíblia, a dificuldade maior
está no fundamentalismo que pretende enquadrar no rigor da linguagem da
ciência de hoje a descrição poética da criação do mundo nas páginas da
Bíblia, escritas em linguagem acessível aos leitores de todos os tempos.
Sua mensagem é feita para ser entendida no tempo que foi escrita e no
nosso tempo cheio de ciência, e nos tempos de futuras evoluções do
conhecimento.
Para fundamentalistas que apresentam a
interpretação literal de qualquer texto bíblico como questão de fé,
tenho uma pergunta: O sol foi mesmo criado no quarto dia? Como é que
podiam existir dias quando não existia sol?
Quanto à criação dos seres vivos, a
descrição bíblica não está distante da teoria da evolução. Apenas
acrescenta que tudo que conhecemos tem origem divina e passa por
mudanças de acordo com leis que regem a natureza, leis também criadas
por Deus desde o começo: “Que a terra produza seres vivos, plantas e
animais.”
Se a dificuldade maior se refere à
criação dos seres humanos, é preciso reconhecer a diferença essencial
entre eles e os outros seres que andam na terra, nadam no mar e voam no
ar. A Bíblia explica: “E Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e
semelhança.” Tal semelhança não pode estar no corpo. Se estivesse no
corpo, macacos também seriam semelhantes a Deus. Uns mais, outros menos.
Podemos combinar as teorias sobre a
evolução do corpo humano, passando por antepassados semelhantes a
macacos, com a mensagem da Bíblia que diz que Deus formou o homem do pó
da terra. Pela ciência sabemos que o macaco também é feito do pó da
terra. Dos mesmos elementos que formam o corpo humano.
O mundo é tão bem feito que tudo vem
evoluindo como por si mesmo, sustentado por leis naturais criadas junto
com este mundo de matéria e energia.
E a criação da mulher, apresentada como
tirada da costela do homem? Quero apenas lembrar que a Bíblia traz duas
descrições sobre a criação dos seres humanos. A segunda é bem diferente:
“Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança ...
Homem e mulher os criou.” Nada diz sobre costela de Adão. Pergunto aos
fundamentalistas que dizem que devemos tomar tudo ao pé da letra: Qual
das duas descrições é verdadeira? “Nenhuma,” dizem ateus e agnósticos.
Com boa vontade, dá para entender a
mensagem da Bíblia sobre Deus e sobre nós. Dá para ver que Deus confiou a
terra aos nossos cuidados. Cumprindo bem a nossa missão, podemos viver e
conviver em paz. Se fizermos os estragos dos pecados no convívio da
nossa morada, não adianta reclamar de Deus.
Podemos entender também que a semelhança
com Deus não nos é dada como coisa pronta e acabada, mas como vocação a
realizar. Somos colaboradores de Deus na sua obra. De maneira especial
na sua obra prima que somos nós mesmos.
Somos chamados a colaborar com Deus em
três dimensões: Organizando nossa própria vida, cuidando do mundo onde
fomos colocados, e prestando serviços na comunidade, em qualquer lugar
que nos foi dado para viver.
O mesmo número daquela revista tem um
artigo de capa com a pretensão de apresentar uma “Biografia de Deus”.
Tal artigo traz uma escolha arbitrária de idéias sobre seres mitológicos
chamados de deuses, mitos surgidos em culturas anteriores ao
conhecimento do único Deus verdadeiro. Tais religiões têm seus valores,
mas não têm os fundamentos racionais que o monoteísmo tem.
Muitos judeus se deixavam contaminar por
tais idéias, combatidas na Bíblia como idolatrias incompatíveis com a
fé. O texto da revista desconsidera toda evolução da religião a partir
de acontecimentos da história do povo judeu que grande parte da
humanidade de hoje considera como intervenções de Deus na história dos
homens. Cremos que Deus falou pelos profetas para quem o procura com
sinceridade, e que veio estar conosco para que possamos estar com ele.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Um estudo revela que a história geológica contradiz Darwin
De fato, Rampino apóia uma teoria mais precisa da evolução gradual, que postula que os longos períodos de estabilidade evolutiva se vêem afetados pelas extinções em massa de vida, e que foi proposta pelo escocês Patrick Matthew antes que Darwin publicasse sua obra sobre o tema.
"Matthew descobriu e claramente enunciou a idéia de seleção natural, aplicando-a à origem das espécies, e a pôs no contexto de um registro geológico marcado por extinções em massa catastróficas seguidas de adaptações relativamente rápidas", diz Rampino, cuja investigação sobre os eventos catastróficos inclui estudos sobre as erupções vulcânicas e os impactos de asteróides.
"À luz da recente aceitação da importância das extinções catastróficas em massa na história da vida, talvez seja hora de reconsiderar o ponto de vista evolutivo de Patrick Matthew, muito mais consonante com as idéias atuais sobre a evolução biológica que a visão de Darwin".
Matthew (1790-1874) publicou uma declaração sobre a lei da seleção natural no apêndice ao seu livro de 1831 'Madeira Naval e Arboricultura'. Apesar de que tanto Darwin e seu colega Alfred Russel Wallace reconheceram que Matthew foi o primeiro em estabelecer a teoria da seleção natural, os historiadores atribuíram sua gênese a Darwin e Wallace. Os cadernos de Darwin mostram que chegou a esta idéia em 1838, e compôs um ensaio sobre a seleção natural já em 1842, anos depois de que o trabalho de Matthew aparecesse. A teoria de Darwin e Wallace foi apresentada oficialmente em 1858 em uma reunião da sociedade científica em Londres. 'A Origem das Espécies' de Darwin apareceu um ano depois.
No apêndice de 'Madeira Naval e Arboricultura', Matthew descreveu a teoria da seleção natural em uma forma que mais tarde foi ecoada por Darwin: "Há uma lei natural universal na natureza, que tende a fazer que de todos os seres reproduzidos sobreviva o melhor adequado à sua condição ... À medida que o âmbito da existência é limitado, são apenas os mais resistentes, mais robustos, e melhor adaptados às circunstâncias particulares, que são capazes de lutar para alcançar a maturidade...".
Entretanto, na explicação das forças que intervieram neste processo, Matthew viu os eventos catastróficos como um fator primordial pelo qual as extinções massivas foram cruciais para o processo da evolução. Quando Darwin publicou sua 'Origem das Espécies' quase três décadas mais tarde, rechaçou explicitamente o papel da mudança catastrófica na seleção natural: "A velha idéia de que todos os habitantes da Terra foram varridos por catástrofes em períodos sucessivos é muito geral, e se deu por vencida" escreveu.
Por outro lado, Darwin esboçou uma teoria da evolução apoiada na contínua luta pela sobrevivência entre os indivíduos dentro das populações de espécies existentes. Este processo de seleção natural, segundo ele, deveria dar lugar a mudanças graduais nas características de organismos sobreviventes.
Entretanto, como assinala Rampino, agora se entende comumente que a história geológica está marcada por longos períodos de estabilidade com mudanças ecológicas que ocorrem em forma episódica e rapidamente, pondo em dúvida a teoria do Darwin de que "a maioria das mudanças evolutivas se realizaram muito paulatinamente pela competição entre os organismos cada vez melhor adaptados a um ambiente relativamente estável".
"A contribuição de Matthew foi ignorada em grande medida no seu momento e, com poucas exceções, em geral, só merece uma nota ao pé de página nos desenvolvimentos modernos do descobrimento da seleção natural", conclui Rampino. Outros disseram que a tese de Matthew foi publicada em um lugar muito escuro para ser vista pela comunidade científica, ou que a idéia estava tão adiantada ao seu tempo que não podia conectar-se com os conhecimentos geralmente aceitos, informa a Universidade de Nova Iorque.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
A fé na criação e a Teoria Evolucionista
Joseph Ratzinger em “Dogma e Anúncio”
Quando, em meados do século XIX, Charles Darwin desenvolveu a idéia da evolução de todos os seres vivos, questionando assim radicalmente a concepção tradicional da constância das espécies criadas por Deus, desfechou uma revolução da imagem do mundo que em alcance não fica atrás daquela que para nós está ligada ao nome de Copérnico. Apesar da revolução copernicana que destronou a Terra, alargando sempre mais para o infinito as dimensões do Universo, no conjunto, tinha ficado de pé o arcabouço firme da antiga imagem do mundo, o qual continuava a ser afirmado sem mudança, principalmente em relação ao limite temporal de seis mil anos calculado segundo as cronologias bíblicas. Algumas observações podem ilustrar a naturalidade hoje quase inimaginável com que então se retinha o quadro temporal estreito da imagem bíblica do mundo.
Quando Jacó Grimm publicou em 1848 sua “História da língua alemã”, para ele a idade de seis mil anos da humanidade era uma suposição incontestada e que não necessitava de exame. W. Wachsmuth exprime o mesmo com grande certeza na sua reconhecida “História geral da cultura”, aparecida em 1850, e que nesse ponto não se distingue em nada da história geral do mundo e dos povos que Cristiano Daniel Beck havia publicado em 1813, em segunda edição. Poderíamos multiplicar os exemplos sem dificuldade. Bastam estes para mostrar em que horizonte estreito se movia, ainda faz cem anos, a nossa imagem da história e do mundo, até que ponto estava inabalada a tradição, tirada da Bíblia, de uma concepção desenvolvida inteiramente a partir da história judeu-cristã da salvação.
Que revolução devia significar que agora, depois da precedente ampliação imensa do espaço, uma igual remoção dos limites tocava ao tempo e à história. Sob muitos aspectos, as consequências de tal processo até são mais dramáticas do que o podiam as da revolução copernicana. A dimensão do tempo toca o homem de modo incomparavelmente mais profundo do que do espaço. Mesmo hoje a concepção do espaço é relativizada e mudada mais uma vez, perdendo sua figura passível de definição firme e sendo submetida à história, à temporalidade. O homem aparece como o ser que se originou em transformações infinitas, as grandes constantes da imagem bíblica do mundo recuam para distancias incomensuráveis – a noção fundamental da realidade se altera: o devir toma o lugar do ser, a evolução o da criação, a ascensão o da deterioração.
No quadro dessas considerações, não podemos percorrer todo o conjunto de problemas aqui implicados; queremos apenas debater a seguinte questão: as idéias fundamentais da criação e da evolução podem subsistir uma ao lado da outra contra a aparência inicial, sem que o teólogo entre num compromisso pouco honesto, declarando, por motivos táticos, supérfluo o terreno impossível de defender, depois de pouco antes o ter declarado com todo o volume da voz uma parte insubstituível da fé.
O problema tem diversos planos que devem ser distinguidos e tratados separadamente. Em primeiro lugar, há um aspecto relativamente superficial que só em parte tem natureza verdadeiramente teológica: a idéia da constância das espécies, que reinava antes de Darwin, tinha-se legitimado a partir da idéia da criação; ela via cada espécie particular como um dado da criação, existente desde o começo do mundo em virtude da ação criadora de Deus, como algo individual e diverso ao lado de outras espécies. É claro que o pensamento da evolução colide com essa forma de fé na criação e que essa modalidade da fé hoje se tornou insustentável. Mas, com este esclarecimento, a cuja significação e problemática voltaremos mais tarde, ainda não está apreendido todo o âmbito do conceito da criação. Somente se cancelamos todas as criações particulares, substituindo-as pela idéia da evolução, é que se torna visível a diferença real entre as duas concepções; vê-se que cada vez é uma outra forma de pensamento, outro ponto de partida espiritual, outra problemática que constitui o fundamento. A ampliação do conceito de criação, até as formas particulares da realidade, pôde encobrir por muito tempo essa diferença mais profunda, assim como o problema propriamente de que se trata. A fé na criação se pergunta pelo fato do ser como tal; o seu problema é por que existe alguma coisa e não temos o nada absoluto. O pensamento evolucionista, pelo contrário, porque existem precisamente essas coisas e não outras, donde receberam sua determinação e como coexistem com outras formas. Portanto, filosoficamente se diria que o pensamento evolucionista se acha no nível dos fenômenos, ocupa-se com os seres do mundo que ocorrem realmente, enquanto a fé na criação se move no nível ontológico, questiona num plano anterior às coisas individuais, admira o milagre do ser mesmo, procurando dar-se conta do “é” enigmático que predicamos universalmente de todas as realidades que ocorrem.
Também se poderia dizer que o conceito da criação se refere à diferença entre o nada e o algo; a idéia da evolução, pelo contrário, àquela entre o um e o outro. A criação caracteriza o ser na sua totalidade como vindo de outro; a evolução, pelo contrário, descreve a construção interna do ser, procurando o donde específico das diversas realidades existentes. Pode ser que para o naturalista a problemática da fé na criação apareça como uma questão ilegítima, à qual o homem não pode responder. De fato, a transição para a consideração evolutiva do mundo representa o passo para aquela forma positiva da ciência que se limita conscientemente àquilo que é dado, apreensível, verificável pelo homem, removendo do âmbito da ciência como estéril a reflexão sobre as verdadeiras razões da realidade. Nesse sentido, a fé na criação e a idéia da evolução não só designam dois campos diversos de problemas, mas duas formas diferentes de pensar. Será também daí que provém a problemática que se sente entre ambas, mesmo quando se torna visível a possibilidade em princípio de se unirem.
Com isso nos encontramos já num segundo nível de problemas. Aprendemos a distinguir dois aspectos da fé na criação: a sua forma concreta na idéia da criação de todas as espécies particulares por Deus e a sua base propriamente dita. Constatamos que o primeiro aspecto, isto é, a forma na qual a concepção criadora se tinha concretizado praticamente foi eliminado pela idéia da evolução; aqui o crente deve deixar-se instruir pela ciência, no sentido de que o modo como ele concebia a criação pertencia a uma imagem pré-científica do mundo, a qual se tornou insustentável. Quanto ao fundamento propriamente dito, na pergunta da passagem do nada para o ser apenas tomamos conhecimento da diferença das formas de pensar; quanto às suas últimas características, a teoria da evolução e a fé na criação pertencem a mundos espirituais absolutamente diversos, não se tocando em nada imediatamente. Que devemos pensar dessa neutralidade aparente? Este é o segundo nível da problemática que agora devemos aprofundar. Não é tão fácil avançar aqui, porque a comparação de modos de pensar e o problema de seu possível relacionamento têm sempre alguma coisa de muito delicado. Devemos procurar colocar-nos acima dos dois modos de pensar, indo assim parar facilmente numa terra conceitual de ninguém, na qual se parece suspeito aos dois lados, e logo se tem a impressão de estarmos sentados entre duas cadeiras. Contudo, devemos fazer a tentativa de avançar tateando. Em primeiro lugar, poderemos constatar que a problemática do pensamento evolucionista é mais limitada do que a da fé na criação. Logo a teoria da evolução, de nenhum modo, pode incorporar em si a fé na criação.
“Desse modo, ela pode com razão designar a idéia da criação como inaproveitável para si: dentro do material positivo, para cuja elaboração ela está fixada pelo seu método, a idéia criadora não pode ocorrer. Ao mesmo tempo, entretanto, deve deixar aberta a questão de se a problemática ulterior da fé não é justificada em si é possível. A partir de determinada concepção da ciência poderá considerá-la como extracientífica, mas não pode baixar uma proibição, em princípio, de que o homem não se possa voltar, por exemplo, para a questão do ser como tal. Pelo contrário, tais questões últimas serão sempre indispensáveis para o homem que existe precisamente em face do último, não podendo ser reduzido ao comprovável cientificamente. Assim, fica o problema de se a idéia da criação, por ser mais ampla, pode acolher no seu espaço o conceito da evolução ou se, pelo contrário, isso contradiz ao seu ponto básico de partida.
À primeira vista razões diversas parecem sugerir essa última alternativa; afinal, os naturalistas e os teólogos da primeira geração que pensavam assim não eram nem tolos nem maus. As duas partes tinham certamente suas razões a que se deve atender, se não se quer chegar a sínteses precipitadas, sem consistência ou desonestas. As objeções que surgem são de natureza muito variada. Antes de tudo, pode-se dizer que a fé na criação era formulada como fé na criação das diversas espécies e na pressuposição de uma imagem estática do mundo; agora que isso se tornou insustentável não se pode livrar sem mais desse lastro e se torna no seu conjunto inaproveitável. Essa objeção, que hoje já não nos parece muito séria, se torna mais insistente, se nos lembrarmos que também atualmente a fé deve considerar indispensável a criação de ao menos um ser determinado: do homem.
Se o homem for apenas um produto da evolução, também o espírito é um efeito do acaso. Mas, se o espírito se originou por evolução, a matéria é a origem primeira e suficiente de tudo o mais. E, se isso é assim, Deus Criador e criação desaparecem por si mesmos. De que modo, porém, se poderá conservar fora da cadeia da evolução o homem, um entre muitos seres, por mais diferente e grande que seja? Agora se vê que a criação dos seres particulares e a própria idéia da criação, contudo, não podem ser separadas sem mais, como poderia parecer de início. Aqui parece se tratar de um princípio. Ou todas as coisas são produto da evolução e então o homem também o é. Ou, pelo contrário, não o são. Essa segunda alternativa está eliminada, logo permanece a primeira, e isso, como acabamos de ver, parece pôr em questão toda a idéia da criação, porque suprime o primado e a superioridade do espírito, coisas que de forma alguma devem ser consideradas uma suposição fundamental da fé na criação.
Houve quem procurasse livrar-se desse problema dizendo que o corpo do homem seria produto da evolução; o espírito não o seria em caso algum: a este Deus mesmo teria criado, pois o espírito não pode sair da matéria. Essa resposta, que parece ter a seu favor que, de fato, o espírito não pode ser tratado com o mesmo método da ciência natural com o qual se pode seguir a história dos organismos, no máximo satisfaz à primeira vista. Logo se deverá continuar a perguntar: é possível dividir assim o homem entre os teólogos e os naturalistas – a alma para uns, o corpo para os outros – ou não é isso inadmissível para ambos? O naturalista crê ver como aos poucos se constitui toda a estrutura do homem; também encontra um campo psíquico de transição no qual, aos poucos, o proceder humano ascende do animal, sem que possa traçar uma linha clara, para a qual, é verdade, também lhe falta o material – o que muitas vezes não se concede suficientemente. Em contrapartida, se o teólogo está convencido de que o espírito é que dá forma também ao corpo, cunhando-o de ponta a ponta como corpo humano, de modo que o homem só é espírito como corpo e só corpo como espírito e no espírito, também para ele essa divisão do homem perde qualquer sentido.
Com efeito, o espírito então criou o seu corpo como algo novo, anulando assim toda a evolução. Como se vê, para ambos os lados, o tema criação e desenvolvimento parece levar a um rigoroso ou/ou que não permite mediações. Mas, segundo nosso estado atual de conhecimento, parece que isso significaria o fim da fé na criação.
Assim tornou a estar completamente anulada a bela harmonia que parecia delinear-se já no primeiro plano do questionamento; vemo-nos, de novo, no ponto inicial. Como poderemos avançar? Bem, tocamos antes levemente um plano intermédio, que primeiro parecia de pouca importância, mas que agora, não obstante, se poderia revelar como o centro da questão e o ponto de partida de uma resposta defensável. Até que ponto a fé está ligada à admissão da criação das diversas realidades do mundo por Deus? Essa pergunta, algo tanto superficial, pode ser reduzida a um problema geral que poderá representar o centro de toda a nossa questão: a idéia de um mundo em formação pode ser conciliada com o pensamento bíblico fundamental da criação do mundo pelo Verbo, com a redução do ser a um sentido criativo? A idéia do ser expressa nisso pode coexistir internamente com aquela de devir como a propõe a teoria da evolução? Nessas perguntas está contida ao mesmo tempo outra de pronunciado caráter básico, aquela pela relação entre imagem do mundo e a fé em geral. Será bom começar por aí, pois na tentativa de pensar ao mesmo tempo com fé na criação e cientificamente, quer dizer, de modo evolucionista, evidentemente se atribui à fé uma outra imagem do mundo do que aquela que até agora podia valer como imagem do mundo propriamente dita da fé. Em si, nesse processo, até está o núcleo de todo o problema ao redor do qual giram nossas considerações: priva-se a fé da sua imagem do mundo que parecia ter sido a fé mesma, sendo esta referida a outra imagem. Pode-se fazer isso, sem destruir a sua identidade? – é exatamente nosso problema.
Aqui ao mesmo tempo poderá surpreender e tranquilizar o fato de que essa pergunta não surge pela primeira vez na nossa geração. Pelo contrário, os teólogos da Igreja antiga por princípio se viram em face do mesmo problema, pois a imagem bíblica do mundo, como está expressa nos relatos da criação no Antigo Testamento, de nenhum modo era a deles; no fundo, parecia-lhes exatamente tão pouco científica como a nós. Quem fala simplesmente de uma imagem antiga do mundo se encontra num grande erro. De fora, talvez nos possa parecer uniforme; para aqueles, porém, que viviam dentro dela, eram decisivas as diferenças que nós hoje encaramos como irrelevantes. Os relatos antigos da criação exprimem a concepção do mundo do Oriente antigo, principalmente da Babilônia; os Padres da Igreja viviam na época helenista, para a qual essa concepção parecia mítica, pré-científica, inadmissível em todos os aspectos. Deveria servir de auxílio a eles, como a nós, o fato de que a Bíblia é na realidade uma literatura que abrange um período de todo um milênio. Ela se estende desde a imagem do mundo dos babilônios até a do helenismo, pelo qual estão condicionados os textos da literatura sapiencial sobre a criação, em que se encontra delineada uma concepção do mundo e do processo da criação inteiramente diversa dos textos da criação do Gênesis que nos são tão familiares, mas que da sua parte também não são uniformes: o primeiro e o segundo capítulo desse livro dão imagem em grande medida opostas do decurso da criação. Isso, porém, significa que já dentro da Bíblia a fé e a imagem do mundo não são idênticas; a fé se serve de uma concepção do mundo, mas não coincide com ela.
Na evolução da Bíblia, esse desenvolvimento formava evidentemente uma realidade óbvia irrefletida: só assim se pode explicar que tenham sido mudadas as formas intuitivas da imagem do mundo, nas quais era moldada a idéia da criação, e isso não só nos diversos períodos da história de Israel, mas também dentro de um e o mesmo espaço de tempo, sem se ver aí um perigo para o que propriamente se pensava.
A compreensão dessa amplitude interna da fé desapareceu apenas quando começou a impor-se a assim chamada exegese literal, perdendo-se a capacidade de ver a transcendência da palavra de Deus em todas as suas modalidades particulares de expressão. Ao mesmo tempo – às voltas do século XIII -, também a imagem do mundo se tornou rígida de um modo não conhecido antes, embora na sua forma básica absolutamente não fosse um produto do pensamento bíblico, mas pelo contrário só com dificuldade pudesse ser conciliada com os dados fundamentais da fé bíblica. Não seria difícil descobrir as raízes pagãs dessa concepção do mundo, que mais tarde foi tida como a única cristã. Também se podem ver facilmente os remendos colocados sobre ela e que mostram como a fé a tomou a seu serviço, sem se poder tornar idêntica a ela. Mas aqui não podemos nos ocupar com isso; devemos limitar-nos à pergunta positiva sobre se a fé na criação, que sobreviveu a tantas mudanças da imagem do mundo, agindo ao mesmo tempo como fermento de crítica sobre elas e impelindo o desenvolvimento, pode continuar a existir como uma afirmação racional também no tempo da compreensão evolutiva do mundo. Está claro que a fé, que não era idêntica com nenhuma das imagens anteriores do mundo, mas respondia a uma pergunta que leva para além das concepções do universo, embora a seguir se tenha concluído com elas, também não se pode nem se deve identificar com a nossa imagem do universo. Seria tolo e falso declarar sub-repticiamente a teoria da evolução como um produto da fé, embora também a fé tenha contribuído para que se desenvolvesse aquele horizonte de pensamento no qual se podia originar o problema da evolução. Mais tolo ainda seria considerar a fé como uma espécie de ilustração da teoria da evolução, fazendo que esta seja confirmada por aquela
O plano das perguntas e respostas da fé é absolutamente outro, como constatamos antes; tudo de que se pode tratar é verificar se a questão humana básica para a qual ela está ordenada também sob as suposições mentais presentes pode ainda ser respondida legitimamente do modo como faz a fé na criação e de que maneira assim também a imagem evolutiva do mundo pode ser entendida como expressão da criação.
Para alcançarmos alguma coisa, devemos examinar mais exatamente tanto o relato da criação como a idéia da evolução; infelizmente aqui ambas as coisas podem ser feitas apenas sumariamente. Perguntemos, portanto, partindo da evolução: como se entende propriamente o mundo, se o concebemos de modo evolutivo? Nesse ponto, é essencial o fato de que o tempo e o ser entram em uma relação fixa: o ser é tempo, não apenas tem tempo. Só no devir ele existe e se descobre, tornando-se ele mesmo. Consequentemente o tempo está entendido de modo dinâmico, como movimento do ser, que por sua vez está orientado para um fim: não circula sempre no mesmo ponto, mas avança. Embora se discuta a possibilidade de se aplicar o conceito de progresso à cadeia da evolução, principalmente porque não se dispõe de uma medida neutral, que permitiria dizer o que propriamente deve ser considerado melhor ou menos bom e quando, por conseguinte, se pode falar seriamente de progresso. Mas a posição que o homem ocupa em face de toda a realidade restante o autoriza a considerar-se a si mesmo ponto de referência pelo menos em relação à pergunta por si mesmo: enquanto se trata dele mesmo, está autorizado, sem dúvida, a tal.
Ora, orientando-se desse modo, a direção da evolução e o seu caráter de progresso são incontestáveis em última análise, embora quanto a isso não esqueçamos que nessa evolução há becos sem saída e que seu trajeto está longe de se mover em linha reta. Também voltas são um caminho, e também por voltas se chega à meta, como o mostra também a evolução mesma. A questão de se o ser, entendido deste modo como caminho, isto é, a evolução como um todo, tem um sentido, é verdade que fica aberta, não podendo ser decidida dentro da teoria da evolução mesma; para ela, isso é uma questão estranha ao método, embora para o homem vivo seja a questão básica do todo. Hoje a ciência natural, com conhecimento acertado de seus limites, declara que essa pergunta, indispensável para o homem, não é intracientífica, podendo ser respondida apenas no quadro de um “sistema da fé”. O fato de que muitos julguem que o “sistema cristão da fé” não se presta para isso, devendo-se achar um novo, não nos precisa ocupar aqui, porque aquelas pessoas fazem uma afirmação fora da sua própria decisão sobre a fé e fora da sua ciência.
Com isso, porém, já estamos na situação de dizermos precisamente o que significa a fé na criação, em relação à compreensão evolutiva do mundo. Em face da questão fundamental, que não pode ser respondida pela teoria da evolução mesma, a saber, se aqui há sentido, ou não, a fé exprime a convicção de que o mundo como um todo, como diz a Bíblia, vem do LOGOS, isto é, da razão criadora, representando a forma temporal da realização de si mesma. Vista com base na nossa concepção do mundo, a criação não é um início distante, nem um começo dividido por vários estádios, mas se refere ao ser como temporal e em processo de devir: o ser temporal, como um todo, é abarcado pelo único ato criador de Deus, que, apesar de sua fragmentariedade, lhe dá sua unidade na qual, ao mesmo tempo, se fundamenta o seu sentido que não podemos reconstruir no nosso cálculo, porque não vemos o todo, sendo nós mesmos apenas partes. A fé na criação não nos fala da natureza do sentido do mundo, mas apenas do fato dele: por todo esse movimento ascendente e descendente do ser em formação, realiza-se livremente e sob o risco da liberdade o pensamento primordial criador do qual essa realização tem o seu ser. Assim, a nós hoje talvez se nos torne mais claro aquilo que a doutrina cristã da criação sempre afirmou, mas não deve ser concebida segundo o modelo de um artesão que faz diversos objetos e sim à maneira segundo o qual o pensamento é criativo. E, ao mesmo tempo, se vê que o todo do movimento do ser (não só o seu começo) é criação e que do mesmo modo o todo (não só aquilo que vem depois de outra coisa) é realidade e movimento de si mesmo. Resumindo tudo isso, podemos dizer: crer na criação significa entender na fé o mundo em devir, revelado pela ciência como um universo racional proveniente do intelecto criador.
Dessa maneira, está já delineada claramente a resposta à pergunta pela criação do homem, porque aí temos a decisão básica sobre a posição do espírito e do sentido no mundo: o reconhecimento do mundo como realização de si mesmo, de um pensamento criador, supõe que se deva reduzi-lo à criatividade do espírito, ao CREATOR SPIRITUS. Em Teilhard de Chardin encontramos a seguinte observação lúcida: “O que distingue um materialista de um espiritualista já não é absolutamente (como na filosofia fixista) o fato de que ele admita uma transição entre infra-estrutura física e a superestrutura psíquica, mas apenas que põe o ponto definitivo de equilíbrio do movimento cósmico na parte da infra-estrutura, quer dizer da decomposição”. Sem dúvida, poder-se-ão discutir as particularidades dessa formulação; mas o ponto decisivo me parece acertado lucidamente: a alternativa materialismo-determinada do mundo, acaso ou sentido, hoje se nos apresenta na forma da questão sobre se é possível considerar o espírito e a vida nas suas formas ascendentes apenas um bolor casual na superfície da matéria (quer dizer do ser que não se entende a si mesmo) ou a meta do devir; ou se, pelo contrário, temos de olhar a matéria como a pré-história do espírito. Escolhendo-se a segunda alternativa, está claro que o espírito não é um produto casual de desenvolvimentos materiais, mas antes, a matéria um momento na história do espírito. Isso, porém, é apenas uma expressão da afirmação de que o espírito foi criado e não é somente um puro produto da evolução, mesmo que apareça na forma da evolução.
Chegamos assim no ponto no qual se responde à pergunta sobre o modo como a afirmação teológica da criação pode subsistir juntamente com uma imagem evolutiva do mundo, e que forma ela deve tomar numa concepção evolutiva do universo. Tratar desse ponto nas suas particularidades ultrapassaria o quadro desse ensaio; devem bastar algumas indicações. Em primeiro lugar, dever-se-ia lembrar que também a criação do homem não significa um começo distante, mas em ser Adão estende a cada um de nós: cada homem se refere diretamente a Deus. A fé não afirma mais quanto ao primeiro homem do que quanto a cada um de nós e vice-e-versa, quanto a nós não afirma menos do que quanto ao primeiro homem. Cada homem é mais do que o produto da massa hereditária e do ambiente, nenhum resulta só de fatores intramundanos que podem ser calculados; o mistério da criação envolve a cada um de nós. Além disso, dever-se-ia mencionar a verdade de que o espírito não acede à matéria como algo estranho, como uma segunda substância; conforme o que ficou dito, o surgimento do espírito significa antes que um movimento progressivo chega à meta que lhe foi marcada. Finalmente, dever-se-ia dizer que precisamente a criação do espírito é a que menos imaginar como uma atividade artesanal de Deus que aqui, de repente, começaria a manobrar no mundo. Se a criação significa dependência do ser, a criação particular não é outra coisa do que uma dependência particular do ser. A afirmação de que o homem foi criado por Deus de um modo específico, mais direto do que as coisas da natureza, significa, em expressão um pouco menos figurada, simplesmente que o homem foi querido por Deus de um modo específico: não só como um ser que existe, mas como alguém que conhece a Deus; não só como uma estrutura que Deus pensou, mas como existência que, da sua parte, O pode pensar. Esse modo específico como Deus quis e conheceu o homem é que chamamos sua criação especial.
A partir daqui, poder-se-á estabelecer uma verdadeira diagnose sobre o modo da humanização: A ARGILA SE TORNOU HOMEM NO MOMENTO EM QUE UM SER, PELA PRIMEIRA VEZ, EMBORA DO MODO MAIS IMPERFEITO, PODE FORMAR O PENSAMENTO DE DEUS. O PRIMEIRO TU QUE – POR MAIS BALBUCIANTE QUE TENHA SIDO – FOI DITO A DEUS POR BOCA HUMANA DESIGNA O MOMENTO NO QUAL O ESPÍRITO SURGIU NO MUNDO. Assim foi transposto o Rubicão da humanização, pois não é o uso de armas ou do fogo, nem novos métodos de crueldade ou de aproveitamento das coisas que constituem o homem, mas sim sua capacidade de se relacionar imediatamente com Deus. É isso o que diz a doutrina da criação especial do homem; nisso é que está o centro da fé na criação como tal. Nisso também está a razão por que o momento da humanização absolutamente não pode ser fixado pela paleontologia: A HUMANIZAÇÃO É O SURGIMENTO DO ESPÍRITO, que não se pode cavar com a pá. A teoria da evolução não elimina a fé; tampouco a confirma. Mas ela a provoca a que entenda mais profundamente a si mesma, ajudando assim ao homem a entender-se a si mesmo e a tornar-se mais e mais aquilo que é: O SER QUE DEVE DIZER ETERNAMENTE TU A DEUS.
Quando, em meados do século XIX, Charles Darwin desenvolveu a idéia da evolução de todos os seres vivos, questionando assim radicalmente a concepção tradicional da constância das espécies criadas por Deus, desfechou uma revolução da imagem do mundo que em alcance não fica atrás daquela que para nós está ligada ao nome de Copérnico. Apesar da revolução copernicana que destronou a Terra, alargando sempre mais para o infinito as dimensões do Universo, no conjunto, tinha ficado de pé o arcabouço firme da antiga imagem do mundo, o qual continuava a ser afirmado sem mudança, principalmente em relação ao limite temporal de seis mil anos calculado segundo as cronologias bíblicas. Algumas observações podem ilustrar a naturalidade hoje quase inimaginável com que então se retinha o quadro temporal estreito da imagem bíblica do mundo.
Quando Jacó Grimm publicou em 1848 sua “História da língua alemã”, para ele a idade de seis mil anos da humanidade era uma suposição incontestada e que não necessitava de exame. W. Wachsmuth exprime o mesmo com grande certeza na sua reconhecida “História geral da cultura”, aparecida em 1850, e que nesse ponto não se distingue em nada da história geral do mundo e dos povos que Cristiano Daniel Beck havia publicado em 1813, em segunda edição. Poderíamos multiplicar os exemplos sem dificuldade. Bastam estes para mostrar em que horizonte estreito se movia, ainda faz cem anos, a nossa imagem da história e do mundo, até que ponto estava inabalada a tradição, tirada da Bíblia, de uma concepção desenvolvida inteiramente a partir da história judeu-cristã da salvação.
Que revolução devia significar que agora, depois da precedente ampliação imensa do espaço, uma igual remoção dos limites tocava ao tempo e à história. Sob muitos aspectos, as consequências de tal processo até são mais dramáticas do que o podiam as da revolução copernicana. A dimensão do tempo toca o homem de modo incomparavelmente mais profundo do que do espaço. Mesmo hoje a concepção do espaço é relativizada e mudada mais uma vez, perdendo sua figura passível de definição firme e sendo submetida à história, à temporalidade. O homem aparece como o ser que se originou em transformações infinitas, as grandes constantes da imagem bíblica do mundo recuam para distancias incomensuráveis – a noção fundamental da realidade se altera: o devir toma o lugar do ser, a evolução o da criação, a ascensão o da deterioração.
No quadro dessas considerações, não podemos percorrer todo o conjunto de problemas aqui implicados; queremos apenas debater a seguinte questão: as idéias fundamentais da criação e da evolução podem subsistir uma ao lado da outra contra a aparência inicial, sem que o teólogo entre num compromisso pouco honesto, declarando, por motivos táticos, supérfluo o terreno impossível de defender, depois de pouco antes o ter declarado com todo o volume da voz uma parte insubstituível da fé.
O problema tem diversos planos que devem ser distinguidos e tratados separadamente. Em primeiro lugar, há um aspecto relativamente superficial que só em parte tem natureza verdadeiramente teológica: a idéia da constância das espécies, que reinava antes de Darwin, tinha-se legitimado a partir da idéia da criação; ela via cada espécie particular como um dado da criação, existente desde o começo do mundo em virtude da ação criadora de Deus, como algo individual e diverso ao lado de outras espécies. É claro que o pensamento da evolução colide com essa forma de fé na criação e que essa modalidade da fé hoje se tornou insustentável. Mas, com este esclarecimento, a cuja significação e problemática voltaremos mais tarde, ainda não está apreendido todo o âmbito do conceito da criação. Somente se cancelamos todas as criações particulares, substituindo-as pela idéia da evolução, é que se torna visível a diferença real entre as duas concepções; vê-se que cada vez é uma outra forma de pensamento, outro ponto de partida espiritual, outra problemática que constitui o fundamento. A ampliação do conceito de criação, até as formas particulares da realidade, pôde encobrir por muito tempo essa diferença mais profunda, assim como o problema propriamente de que se trata. A fé na criação se pergunta pelo fato do ser como tal; o seu problema é por que existe alguma coisa e não temos o nada absoluto. O pensamento evolucionista, pelo contrário, porque existem precisamente essas coisas e não outras, donde receberam sua determinação e como coexistem com outras formas. Portanto, filosoficamente se diria que o pensamento evolucionista se acha no nível dos fenômenos, ocupa-se com os seres do mundo que ocorrem realmente, enquanto a fé na criação se move no nível ontológico, questiona num plano anterior às coisas individuais, admira o milagre do ser mesmo, procurando dar-se conta do “é” enigmático que predicamos universalmente de todas as realidades que ocorrem.
Também se poderia dizer que o conceito da criação se refere à diferença entre o nada e o algo; a idéia da evolução, pelo contrário, àquela entre o um e o outro. A criação caracteriza o ser na sua totalidade como vindo de outro; a evolução, pelo contrário, descreve a construção interna do ser, procurando o donde específico das diversas realidades existentes. Pode ser que para o naturalista a problemática da fé na criação apareça como uma questão ilegítima, à qual o homem não pode responder. De fato, a transição para a consideração evolutiva do mundo representa o passo para aquela forma positiva da ciência que se limita conscientemente àquilo que é dado, apreensível, verificável pelo homem, removendo do âmbito da ciência como estéril a reflexão sobre as verdadeiras razões da realidade. Nesse sentido, a fé na criação e a idéia da evolução não só designam dois campos diversos de problemas, mas duas formas diferentes de pensar. Será também daí que provém a problemática que se sente entre ambas, mesmo quando se torna visível a possibilidade em princípio de se unirem.
Com isso nos encontramos já num segundo nível de problemas. Aprendemos a distinguir dois aspectos da fé na criação: a sua forma concreta na idéia da criação de todas as espécies particulares por Deus e a sua base propriamente dita. Constatamos que o primeiro aspecto, isto é, a forma na qual a concepção criadora se tinha concretizado praticamente foi eliminado pela idéia da evolução; aqui o crente deve deixar-se instruir pela ciência, no sentido de que o modo como ele concebia a criação pertencia a uma imagem pré-científica do mundo, a qual se tornou insustentável. Quanto ao fundamento propriamente dito, na pergunta da passagem do nada para o ser apenas tomamos conhecimento da diferença das formas de pensar; quanto às suas últimas características, a teoria da evolução e a fé na criação pertencem a mundos espirituais absolutamente diversos, não se tocando em nada imediatamente. Que devemos pensar dessa neutralidade aparente? Este é o segundo nível da problemática que agora devemos aprofundar. Não é tão fácil avançar aqui, porque a comparação de modos de pensar e o problema de seu possível relacionamento têm sempre alguma coisa de muito delicado. Devemos procurar colocar-nos acima dos dois modos de pensar, indo assim parar facilmente numa terra conceitual de ninguém, na qual se parece suspeito aos dois lados, e logo se tem a impressão de estarmos sentados entre duas cadeiras. Contudo, devemos fazer a tentativa de avançar tateando. Em primeiro lugar, poderemos constatar que a problemática do pensamento evolucionista é mais limitada do que a da fé na criação. Logo a teoria da evolução, de nenhum modo, pode incorporar em si a fé na criação.
“Desse modo, ela pode com razão designar a idéia da criação como inaproveitável para si: dentro do material positivo, para cuja elaboração ela está fixada pelo seu método, a idéia criadora não pode ocorrer. Ao mesmo tempo, entretanto, deve deixar aberta a questão de se a problemática ulterior da fé não é justificada em si é possível. A partir de determinada concepção da ciência poderá considerá-la como extracientífica, mas não pode baixar uma proibição, em princípio, de que o homem não se possa voltar, por exemplo, para a questão do ser como tal. Pelo contrário, tais questões últimas serão sempre indispensáveis para o homem que existe precisamente em face do último, não podendo ser reduzido ao comprovável cientificamente. Assim, fica o problema de se a idéia da criação, por ser mais ampla, pode acolher no seu espaço o conceito da evolução ou se, pelo contrário, isso contradiz ao seu ponto básico de partida.
À primeira vista razões diversas parecem sugerir essa última alternativa; afinal, os naturalistas e os teólogos da primeira geração que pensavam assim não eram nem tolos nem maus. As duas partes tinham certamente suas razões a que se deve atender, se não se quer chegar a sínteses precipitadas, sem consistência ou desonestas. As objeções que surgem são de natureza muito variada. Antes de tudo, pode-se dizer que a fé na criação era formulada como fé na criação das diversas espécies e na pressuposição de uma imagem estática do mundo; agora que isso se tornou insustentável não se pode livrar sem mais desse lastro e se torna no seu conjunto inaproveitável. Essa objeção, que hoje já não nos parece muito séria, se torna mais insistente, se nos lembrarmos que também atualmente a fé deve considerar indispensável a criação de ao menos um ser determinado: do homem.
Se o homem for apenas um produto da evolução, também o espírito é um efeito do acaso. Mas, se o espírito se originou por evolução, a matéria é a origem primeira e suficiente de tudo o mais. E, se isso é assim, Deus Criador e criação desaparecem por si mesmos. De que modo, porém, se poderá conservar fora da cadeia da evolução o homem, um entre muitos seres, por mais diferente e grande que seja? Agora se vê que a criação dos seres particulares e a própria idéia da criação, contudo, não podem ser separadas sem mais, como poderia parecer de início. Aqui parece se tratar de um princípio. Ou todas as coisas são produto da evolução e então o homem também o é. Ou, pelo contrário, não o são. Essa segunda alternativa está eliminada, logo permanece a primeira, e isso, como acabamos de ver, parece pôr em questão toda a idéia da criação, porque suprime o primado e a superioridade do espírito, coisas que de forma alguma devem ser consideradas uma suposição fundamental da fé na criação.
Houve quem procurasse livrar-se desse problema dizendo que o corpo do homem seria produto da evolução; o espírito não o seria em caso algum: a este Deus mesmo teria criado, pois o espírito não pode sair da matéria. Essa resposta, que parece ter a seu favor que, de fato, o espírito não pode ser tratado com o mesmo método da ciência natural com o qual se pode seguir a história dos organismos, no máximo satisfaz à primeira vista. Logo se deverá continuar a perguntar: é possível dividir assim o homem entre os teólogos e os naturalistas – a alma para uns, o corpo para os outros – ou não é isso inadmissível para ambos? O naturalista crê ver como aos poucos se constitui toda a estrutura do homem; também encontra um campo psíquico de transição no qual, aos poucos, o proceder humano ascende do animal, sem que possa traçar uma linha clara, para a qual, é verdade, também lhe falta o material – o que muitas vezes não se concede suficientemente. Em contrapartida, se o teólogo está convencido de que o espírito é que dá forma também ao corpo, cunhando-o de ponta a ponta como corpo humano, de modo que o homem só é espírito como corpo e só corpo como espírito e no espírito, também para ele essa divisão do homem perde qualquer sentido.
Com efeito, o espírito então criou o seu corpo como algo novo, anulando assim toda a evolução. Como se vê, para ambos os lados, o tema criação e desenvolvimento parece levar a um rigoroso ou/ou que não permite mediações. Mas, segundo nosso estado atual de conhecimento, parece que isso significaria o fim da fé na criação.
Assim tornou a estar completamente anulada a bela harmonia que parecia delinear-se já no primeiro plano do questionamento; vemo-nos, de novo, no ponto inicial. Como poderemos avançar? Bem, tocamos antes levemente um plano intermédio, que primeiro parecia de pouca importância, mas que agora, não obstante, se poderia revelar como o centro da questão e o ponto de partida de uma resposta defensável. Até que ponto a fé está ligada à admissão da criação das diversas realidades do mundo por Deus? Essa pergunta, algo tanto superficial, pode ser reduzida a um problema geral que poderá representar o centro de toda a nossa questão: a idéia de um mundo em formação pode ser conciliada com o pensamento bíblico fundamental da criação do mundo pelo Verbo, com a redução do ser a um sentido criativo? A idéia do ser expressa nisso pode coexistir internamente com aquela de devir como a propõe a teoria da evolução? Nessas perguntas está contida ao mesmo tempo outra de pronunciado caráter básico, aquela pela relação entre imagem do mundo e a fé em geral. Será bom começar por aí, pois na tentativa de pensar ao mesmo tempo com fé na criação e cientificamente, quer dizer, de modo evolucionista, evidentemente se atribui à fé uma outra imagem do mundo do que aquela que até agora podia valer como imagem do mundo propriamente dita da fé. Em si, nesse processo, até está o núcleo de todo o problema ao redor do qual giram nossas considerações: priva-se a fé da sua imagem do mundo que parecia ter sido a fé mesma, sendo esta referida a outra imagem. Pode-se fazer isso, sem destruir a sua identidade? – é exatamente nosso problema.
Aqui ao mesmo tempo poderá surpreender e tranquilizar o fato de que essa pergunta não surge pela primeira vez na nossa geração. Pelo contrário, os teólogos da Igreja antiga por princípio se viram em face do mesmo problema, pois a imagem bíblica do mundo, como está expressa nos relatos da criação no Antigo Testamento, de nenhum modo era a deles; no fundo, parecia-lhes exatamente tão pouco científica como a nós. Quem fala simplesmente de uma imagem antiga do mundo se encontra num grande erro. De fora, talvez nos possa parecer uniforme; para aqueles, porém, que viviam dentro dela, eram decisivas as diferenças que nós hoje encaramos como irrelevantes. Os relatos antigos da criação exprimem a concepção do mundo do Oriente antigo, principalmente da Babilônia; os Padres da Igreja viviam na época helenista, para a qual essa concepção parecia mítica, pré-científica, inadmissível em todos os aspectos. Deveria servir de auxílio a eles, como a nós, o fato de que a Bíblia é na realidade uma literatura que abrange um período de todo um milênio. Ela se estende desde a imagem do mundo dos babilônios até a do helenismo, pelo qual estão condicionados os textos da literatura sapiencial sobre a criação, em que se encontra delineada uma concepção do mundo e do processo da criação inteiramente diversa dos textos da criação do Gênesis que nos são tão familiares, mas que da sua parte também não são uniformes: o primeiro e o segundo capítulo desse livro dão imagem em grande medida opostas do decurso da criação. Isso, porém, significa que já dentro da Bíblia a fé e a imagem do mundo não são idênticas; a fé se serve de uma concepção do mundo, mas não coincide com ela.
Na evolução da Bíblia, esse desenvolvimento formava evidentemente uma realidade óbvia irrefletida: só assim se pode explicar que tenham sido mudadas as formas intuitivas da imagem do mundo, nas quais era moldada a idéia da criação, e isso não só nos diversos períodos da história de Israel, mas também dentro de um e o mesmo espaço de tempo, sem se ver aí um perigo para o que propriamente se pensava.
A compreensão dessa amplitude interna da fé desapareceu apenas quando começou a impor-se a assim chamada exegese literal, perdendo-se a capacidade de ver a transcendência da palavra de Deus em todas as suas modalidades particulares de expressão. Ao mesmo tempo – às voltas do século XIII -, também a imagem do mundo se tornou rígida de um modo não conhecido antes, embora na sua forma básica absolutamente não fosse um produto do pensamento bíblico, mas pelo contrário só com dificuldade pudesse ser conciliada com os dados fundamentais da fé bíblica. Não seria difícil descobrir as raízes pagãs dessa concepção do mundo, que mais tarde foi tida como a única cristã. Também se podem ver facilmente os remendos colocados sobre ela e que mostram como a fé a tomou a seu serviço, sem se poder tornar idêntica a ela. Mas aqui não podemos nos ocupar com isso; devemos limitar-nos à pergunta positiva sobre se a fé na criação, que sobreviveu a tantas mudanças da imagem do mundo, agindo ao mesmo tempo como fermento de crítica sobre elas e impelindo o desenvolvimento, pode continuar a existir como uma afirmação racional também no tempo da compreensão evolutiva do mundo. Está claro que a fé, que não era idêntica com nenhuma das imagens anteriores do mundo, mas respondia a uma pergunta que leva para além das concepções do universo, embora a seguir se tenha concluído com elas, também não se pode nem se deve identificar com a nossa imagem do universo. Seria tolo e falso declarar sub-repticiamente a teoria da evolução como um produto da fé, embora também a fé tenha contribuído para que se desenvolvesse aquele horizonte de pensamento no qual se podia originar o problema da evolução. Mais tolo ainda seria considerar a fé como uma espécie de ilustração da teoria da evolução, fazendo que esta seja confirmada por aquela
O plano das perguntas e respostas da fé é absolutamente outro, como constatamos antes; tudo de que se pode tratar é verificar se a questão humana básica para a qual ela está ordenada também sob as suposições mentais presentes pode ainda ser respondida legitimamente do modo como faz a fé na criação e de que maneira assim também a imagem evolutiva do mundo pode ser entendida como expressão da criação.
Para alcançarmos alguma coisa, devemos examinar mais exatamente tanto o relato da criação como a idéia da evolução; infelizmente aqui ambas as coisas podem ser feitas apenas sumariamente. Perguntemos, portanto, partindo da evolução: como se entende propriamente o mundo, se o concebemos de modo evolutivo? Nesse ponto, é essencial o fato de que o tempo e o ser entram em uma relação fixa: o ser é tempo, não apenas tem tempo. Só no devir ele existe e se descobre, tornando-se ele mesmo. Consequentemente o tempo está entendido de modo dinâmico, como movimento do ser, que por sua vez está orientado para um fim: não circula sempre no mesmo ponto, mas avança. Embora se discuta a possibilidade de se aplicar o conceito de progresso à cadeia da evolução, principalmente porque não se dispõe de uma medida neutral, que permitiria dizer o que propriamente deve ser considerado melhor ou menos bom e quando, por conseguinte, se pode falar seriamente de progresso. Mas a posição que o homem ocupa em face de toda a realidade restante o autoriza a considerar-se a si mesmo ponto de referência pelo menos em relação à pergunta por si mesmo: enquanto se trata dele mesmo, está autorizado, sem dúvida, a tal.
Ora, orientando-se desse modo, a direção da evolução e o seu caráter de progresso são incontestáveis em última análise, embora quanto a isso não esqueçamos que nessa evolução há becos sem saída e que seu trajeto está longe de se mover em linha reta. Também voltas são um caminho, e também por voltas se chega à meta, como o mostra também a evolução mesma. A questão de se o ser, entendido deste modo como caminho, isto é, a evolução como um todo, tem um sentido, é verdade que fica aberta, não podendo ser decidida dentro da teoria da evolução mesma; para ela, isso é uma questão estranha ao método, embora para o homem vivo seja a questão básica do todo. Hoje a ciência natural, com conhecimento acertado de seus limites, declara que essa pergunta, indispensável para o homem, não é intracientífica, podendo ser respondida apenas no quadro de um “sistema da fé”. O fato de que muitos julguem que o “sistema cristão da fé” não se presta para isso, devendo-se achar um novo, não nos precisa ocupar aqui, porque aquelas pessoas fazem uma afirmação fora da sua própria decisão sobre a fé e fora da sua ciência.
Com isso, porém, já estamos na situação de dizermos precisamente o que significa a fé na criação, em relação à compreensão evolutiva do mundo. Em face da questão fundamental, que não pode ser respondida pela teoria da evolução mesma, a saber, se aqui há sentido, ou não, a fé exprime a convicção de que o mundo como um todo, como diz a Bíblia, vem do LOGOS, isto é, da razão criadora, representando a forma temporal da realização de si mesma. Vista com base na nossa concepção do mundo, a criação não é um início distante, nem um começo dividido por vários estádios, mas se refere ao ser como temporal e em processo de devir: o ser temporal, como um todo, é abarcado pelo único ato criador de Deus, que, apesar de sua fragmentariedade, lhe dá sua unidade na qual, ao mesmo tempo, se fundamenta o seu sentido que não podemos reconstruir no nosso cálculo, porque não vemos o todo, sendo nós mesmos apenas partes. A fé na criação não nos fala da natureza do sentido do mundo, mas apenas do fato dele: por todo esse movimento ascendente e descendente do ser em formação, realiza-se livremente e sob o risco da liberdade o pensamento primordial criador do qual essa realização tem o seu ser. Assim, a nós hoje talvez se nos torne mais claro aquilo que a doutrina cristã da criação sempre afirmou, mas não deve ser concebida segundo o modelo de um artesão que faz diversos objetos e sim à maneira segundo o qual o pensamento é criativo. E, ao mesmo tempo, se vê que o todo do movimento do ser (não só o seu começo) é criação e que do mesmo modo o todo (não só aquilo que vem depois de outra coisa) é realidade e movimento de si mesmo. Resumindo tudo isso, podemos dizer: crer na criação significa entender na fé o mundo em devir, revelado pela ciência como um universo racional proveniente do intelecto criador.
Dessa maneira, está já delineada claramente a resposta à pergunta pela criação do homem, porque aí temos a decisão básica sobre a posição do espírito e do sentido no mundo: o reconhecimento do mundo como realização de si mesmo, de um pensamento criador, supõe que se deva reduzi-lo à criatividade do espírito, ao CREATOR SPIRITUS. Em Teilhard de Chardin encontramos a seguinte observação lúcida: “O que distingue um materialista de um espiritualista já não é absolutamente (como na filosofia fixista) o fato de que ele admita uma transição entre infra-estrutura física e a superestrutura psíquica, mas apenas que põe o ponto definitivo de equilíbrio do movimento cósmico na parte da infra-estrutura, quer dizer da decomposição”. Sem dúvida, poder-se-ão discutir as particularidades dessa formulação; mas o ponto decisivo me parece acertado lucidamente: a alternativa materialismo-determinada do mundo, acaso ou sentido, hoje se nos apresenta na forma da questão sobre se é possível considerar o espírito e a vida nas suas formas ascendentes apenas um bolor casual na superfície da matéria (quer dizer do ser que não se entende a si mesmo) ou a meta do devir; ou se, pelo contrário, temos de olhar a matéria como a pré-história do espírito. Escolhendo-se a segunda alternativa, está claro que o espírito não é um produto casual de desenvolvimentos materiais, mas antes, a matéria um momento na história do espírito. Isso, porém, é apenas uma expressão da afirmação de que o espírito foi criado e não é somente um puro produto da evolução, mesmo que apareça na forma da evolução.
Chegamos assim no ponto no qual se responde à pergunta sobre o modo como a afirmação teológica da criação pode subsistir juntamente com uma imagem evolutiva do mundo, e que forma ela deve tomar numa concepção evolutiva do universo. Tratar desse ponto nas suas particularidades ultrapassaria o quadro desse ensaio; devem bastar algumas indicações. Em primeiro lugar, dever-se-ia lembrar que também a criação do homem não significa um começo distante, mas em ser Adão estende a cada um de nós: cada homem se refere diretamente a Deus. A fé não afirma mais quanto ao primeiro homem do que quanto a cada um de nós e vice-e-versa, quanto a nós não afirma menos do que quanto ao primeiro homem. Cada homem é mais do que o produto da massa hereditária e do ambiente, nenhum resulta só de fatores intramundanos que podem ser calculados; o mistério da criação envolve a cada um de nós. Além disso, dever-se-ia mencionar a verdade de que o espírito não acede à matéria como algo estranho, como uma segunda substância; conforme o que ficou dito, o surgimento do espírito significa antes que um movimento progressivo chega à meta que lhe foi marcada. Finalmente, dever-se-ia dizer que precisamente a criação do espírito é a que menos imaginar como uma atividade artesanal de Deus que aqui, de repente, começaria a manobrar no mundo. Se a criação significa dependência do ser, a criação particular não é outra coisa do que uma dependência particular do ser. A afirmação de que o homem foi criado por Deus de um modo específico, mais direto do que as coisas da natureza, significa, em expressão um pouco menos figurada, simplesmente que o homem foi querido por Deus de um modo específico: não só como um ser que existe, mas como alguém que conhece a Deus; não só como uma estrutura que Deus pensou, mas como existência que, da sua parte, O pode pensar. Esse modo específico como Deus quis e conheceu o homem é que chamamos sua criação especial.
A partir daqui, poder-se-á estabelecer uma verdadeira diagnose sobre o modo da humanização: A ARGILA SE TORNOU HOMEM NO MOMENTO EM QUE UM SER, PELA PRIMEIRA VEZ, EMBORA DO MODO MAIS IMPERFEITO, PODE FORMAR O PENSAMENTO DE DEUS. O PRIMEIRO TU QUE – POR MAIS BALBUCIANTE QUE TENHA SIDO – FOI DITO A DEUS POR BOCA HUMANA DESIGNA O MOMENTO NO QUAL O ESPÍRITO SURGIU NO MUNDO. Assim foi transposto o Rubicão da humanização, pois não é o uso de armas ou do fogo, nem novos métodos de crueldade ou de aproveitamento das coisas que constituem o homem, mas sim sua capacidade de se relacionar imediatamente com Deus. É isso o que diz a doutrina da criação especial do homem; nisso é que está o centro da fé na criação como tal. Nisso também está a razão por que o momento da humanização absolutamente não pode ser fixado pela paleontologia: A HUMANIZAÇÃO É O SURGIMENTO DO ESPÍRITO, que não se pode cavar com a pá. A teoria da evolução não elimina a fé; tampouco a confirma. Mas ela a provoca a que entenda mais profundamente a si mesma, ajudando assim ao homem a entender-se a si mesmo e a tornar-se mais e mais aquilo que é: O SER QUE DEVE DIZER ETERNAMENTE TU A DEUS.
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