Mostrando postagens com marcador Oriente Médio/Mundo árabe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oriente Médio/Mundo árabe. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de março de 2012

A vida cristã em Damasco, na Síria, onde Paulo se converteu





Ainda que o cristianismo em Damasco tenha suas raízes nos tempos anteriores a São Paulo, a pequena comunidade atual luta por sobreviver. Precisamente porque a Igreja é uma minoria em terra muçulmana, cada cristão sai da pauta cultural, explica o arcebispo católico Samir Nassar, de Damasco. O bispo, que cumpriu 60 anos em 5 de julho, serve a Igreja local desde 2006. Nesta entrevista, ele fala das dificuldades enfrentadas pela Igreja, mas também das razões para a esperança. Damasco, onde o senhor é arcebispo, é uma cidade que está no coração do cristianismo, onde São Paulo perdeu a vista e a recuperou novamente. Poderia nos falar da situação atual dos cristãos em Damasco? Dom Nassar: A Síria é um país cristão muito antigo. Nela, há 33 mil igrejas. A Síria era predominantemente cristã e ainda temos muitos lugares cristãos famosos. Temos muitas igrejas cristãs que ainda estão vivas. Os cristãos no país não são convidados; têm suas raízes e viveram ao lado dos muçulmanos desde o século VII.O cristianismo, no entanto, estava profundamente enraizado na Síria antes do Islã. Sim, antes de São Paulo, porque São Paulo foi batizado e foi capaz recobrar a vista em Damasco, o que significa que o cristianismo existia aqui antes de São Paulo. Como são os cristãos na Síria hoje? Dom Nassar: Temos três tipos de igrejas. Em primeiro lugar, temos as igrejas monofisitas, que são as ortodoxas sírias e as ortodoxas armênias; têm seu patriarca, que mora em Damasco. Depois, temos a ortodoxa grega, a maior igreja da Síria; e finalmente, temos muitas igrejas católicas. Além disso, certamente, há algumas igrejas protestantes. Todas essas igrejas são muito antigas, exceto as protestantes, que chegaram durante o último século; as demais igrejas se remontam aos apóstolos. Eu pertenço à Igreja Maronita, que foi fundada no século V por São Maron, um monge que costumava morar em algum lugar entre Alepo e Antioquia. Nos primeiros mil anos, estivemos na Síria e, depois, mudamos para as montanhas libanesas; agora estamos em todos os lugares, na Austrália, na América. Mais da metade da população está fora do Oriente Médio. Voltemos à Síria. Que porcentagem da população da Síria é cristã? Dom Nassar: Oficialmente, somos cerca de 8%. Alguns dizem que não passamos de 5%. Somos uma minoria. Isso seria mais ou menos um milhão de pessoas, em uma população de 21 milhões. Como o senhor descreveria a relação atual entre cristãos e muçulmanos na Síria? Dom Nassar: Vivemos juntos durante 1.400 anos. Algumas vezes, tivemos problemas, mas vivemos juntos. Compartilhamos e vivemos juntos e, no meu bispado em Damasco, tenho uma mesquita precisamente do lado do meu quarto, e por isso escuto suas orações e eles podem escutar a nossa oração também. Coexistimos no dia-a-dia. Uma criança cristã frequenta uma escola local, que é de maioria muçulmana; lá, as crianças cristãs aprendem o Alcorão e o Islã. Elas se tornam muçulmanas? Dom Nassar: Pouco a pouco, vão se familiarizando mais com o Alcorão e com Maomé que com Jesus Cristo. Nós lhe damos uma hora de catequese e, para isso, temos de enviar um ônibus ou um carro para trazer as crianças e depois levá-las de volta. Algumas vezes elas vêm, outras vezes não, e uma hora de catequese não é suficiente. Então, tentamos encontrar a forma de conservar a nossa Igreja viva nesta terra da Bíblia. Se uma moça deseja se casar com um muçulmano, ela tem de se converter? Dom Nassar: Sim, é um problema. E se um cristão quiser se casar com uma muçulmana, também tem de se converter. Esta é uma lei muito antiga e não pode ser mudada. Ninguém obriga esse homem a se casar com uma moça muçulmana, mas 95% das moças são muçulmanas, apenas 5% são cristãs; há mais opções do lado dos 95%, então, quando se casam, também perdemos nossa gente. E quanto à questão da conversão? Há muçulmanos que vão às igrejas católicas maronitas, interessados em converter-se? Como o senhor responderia a este tema da conversão, sendo que no Islã a conversão é castigada com a morte? Dom Nassar: Isso é fanatismo, mas muitos muçulmanos vêm à nossa igreja; aprendem o catecismo, acompanham nossos encontros, mas não podem ser batizados. Se quiserem, podem ser cristãos no seu coração, mas não podem mostrar isso. Então são... cristãos escondidos? Dom Nassar: Não podem mostrar, mas nós os recebemos de coração aberto e alguns vêm à Missa diariamente, aos estudos da Bíblia e à catequese, Vêm, mas para os de fora, eles têm de permanecer sendo muçulmanos. Então, o senhor tem de ter muito cuidado; quando um jovem vem até o senhor e deseja se converter, como o senhor lida com a situação? Dom Nassar: Posso recebê-lo, mas não posso batizá-lo, para não ter problemas com o governo... Mas é uma Igreja feliz. Não somos muitos, mas somos uma pequena Igreja muito ativa e dinâmica; temos uma vida ecumênica belíssima. Trabalhamos juntos. Em Damasco, somos 9 bispos: 5 ortodoxos e 4 católicos, e nos reunimos uma vez ao mês para compartilhar nosso trabalho pastoral, rezar juntos e organizar nosso trabalho. E tudo vai bem. Na Igreja, quando as pessoas vêm à Missa, não são somente católicos; alguns são ortodoxos e outros, cristãos. Minha gente também vai à Missa na igreja ortodoxa, e isso nos torna quase uma família. O que seria do Oriente Médio sem a Síria? No sentido de que a Igreja Católica no Iraque está desaparecendo rapidamente e assim está ocorrendo em todo o Oriente Médio, exceto no Líbano, mas inclusive lá os jovens estão indo embora... Dom Nassar: Se você olha para o Oriente Médio, tem a guerra entre a Turquia e o Curdistão, tem a guerra no Iraque, a guerra entre os palestinos e Israel, a guerra do Líbano; e a Síria é o único país pacífico na região. É por isso que todo mundo vem para a Síria, porque é o único lugar pacífico para viver, para trabalhar, para rezar e aprender; é uma cidade universitária. Sem a Síria, a maioria das pessoas abandonaria o Oriente Médio. Iriam embora, emigrariam. O senhor tem esperança na Igreja? Dom Nassar: Tenho que ter. Somos a Igreja da esperança. Não podemos ser pessimistas; esta é a nossa fé para nos convertermos em mártires. Vi alguns iraquianos cristãos que são felizes, apesar da perseguição. Jesus Cristo, depois de tudo, foi um refugiado, um mártir, e me dá a força na minha fé neste mundo; e é belíssimo demonstrar quão importante é para nós permanecer aqui. Fonte: ZENIT

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Algumas lições da morte de Muammar Kaddafi

Os meios de comunicação mostraram a maneira como foi morto Gaddafi, o ditador líbio que esteve no poder por mais de 40 anos e que subjugou indignamente seu povo, desfrutando de suas riquezas de maneira egoísta e despótica, tendo prendido e eliminado muitos dos seus adversários que lutavam por justiça e liberdade. Finalmente, para não entregar o poder, aceitou uma carnificina contra o seu próprio povo, levando o país a uma triste guerra civil que deve terminar com a sua morte. Tudo isso é verdade, e o ditador precisava mesmo ser julgado e condenado, pois foi cruel. Mas não da maneira como foi. Ele deveria e poderia ter sido preso e julgado como foi Sadam Hussein e Hosni Mubarak, mas o que vimos foi vexaminoso e vergonhoso para a humanidade: um ser humano ser morto como se fosse o pior animal selvagem, da maneira mais cruel e indigna de qualquer ser humano. Não se buscou contra ele simplesmente justiça, mas se derramou sobre ele o mais triste ódio e a mais criminosa vingança. Isto é contra a lei de Deus. Um erro não justifica o outro; esta é a base da moral cristã. Não se pode fazer o bem por meio de um mal. Não se pode eliminar um ser humano, por pior que ele seja, da maneira que vimos ser eliminado Gaddafi. Foi um ato vergonhoso para a humanidade e que merece desagravo. Todo o episódio que levou à morte de Muammar Gaddafi serve de lição para todos os países. Não há lugar no mundo contemporâneo para ditaduras ferrenhas que se instalam no poder, como se seus governantes fossem donos da Nação e do povo; como se vê ainda em Cuba, depois de 50 anos sem que o povo possa, ao menos, eleger seus governantes. Isso levou esta Ilha a um atraso sem precedentes. O mesmo acontece na Coréia do Norte e outros países Árabes, onde o povo está saindo às ruas para exigir democracia: Irã, Egito, Iêmen, Arábia Saudita, Líbia etc. A Igreja ensina que os cidadãos têm o direito e o dever de escolher livremente seus governantes; diz o nosso Catecismo que "se, por um lado, a autoridade remete a uma ordem fixada por Deus, por outro, são entregues à livre vontade dos cidadãos a escolha do regime e a designação dos governantes" (§1901). "A autoridade pública deve respeitar os direitos fundamentais da pessoa humana e as condições de exercício de sua liberdade" (Cat. §2254). Um povo sem liberdade é um povo que perde a sua dignidade; é como um pássaro preso em uma gaiola: tem comida, mas não tem vida. Por isso a Igreja ensina que "a autoridade não deve se comportar de maneira despótica, mas agir para o bem comum, como uma força moral fundada na liberdade e no senso de responsabilidade" (§1902). "A autoridade política deve desenvolver-se dentro dos limites da ordem moral e garantir as condições para o exercício da liberdade". (§1923) Quando um povo não escolhe livremente seus governantes, não tem motivação para cooperar com eles. A Igreja condena também uma intervenção exagerada do Estado na vida da nação, pois isso limita a livre inciativa e o progresso. "Uma intervenção muito acentuada do Estado pode ameaçar a liberdade e iniciativa pessoais. A doutrina da Igreja elaborou o chamado princípio de subsidiariedade" (Cat. §1883). "Segundo este princípio, nem o Estado nem qualquer outra sociedade mais ampla devem substituir a iniciativa e a responsabilidade das pessoas e dos órgãos intermediários (§1894). E a Igreja ensina também que o cristão não está obrigado a obedecer leis imorais: "O cidadão está obrigado em consciência a não seguir as prescrições das autoridades civis, quando contrárias às exigências da ordem moral. "É preciso obedecer antes a Deus que aos homens" (At 5,29). (Cat.§2256) O poder não pode ficar nas mãos de poucas pessoas, pois sabemos que "a carne é fraca" e que "o poder corrompe as pessoas"; por isso a Igreja ensina que: "É preferível que cada poder seja equilibrado por outros poderes e outras esferas de competência que o mantenham em seu justo limite. Este e o principio do 'estado de direito', no qual é soberana a lei, e não a vontade arbitrária dos homens." (Cat. §1904). É por isso que numa autêntica democracia os três poderes são interdependentes: Judiciário, Executivo e Legislativo; e um não pode subjugar os outros, como temos visto acontecer fortemente hoje em alguns países da América Latina; isso destrói a verdadeira democracia. O Catecismo da Igreja diz com todas as letras que: "Deve-se louvar a maneira de proceder daquelas nações em que a maior parte dos cidadãos, com autêntica liberdade, participa da vida pública." (§1915). "É legítima a diversidade dos regimes políticos, contanto que concorram para o bem da comunidade". (§1922) *** Prof. Felipe Aquino

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Manifestação copta é violentamente reprimida

ZP11101401 - 14-10-2011 Permalink: http://www.zenit.org/article-29048?l=portuguese Egito: primavera árabe se transforma em outono bárbaro Por Robert Cheaib ROMA, sexta-feira, 14 de outubro de 2011 (ZENIT.org) – Até o domingo passado, continuava brilhando nos olhos da juventude a imagem dos egípcios, muçulmanos e cristãos unidos num grito despertado pelos desejos mais nobres: liberdade, justiça e a esperança de um futuro melhor. Até o domingo passado. Porque a imagem de carros blindados esmagando de modo bárbaro os manifestantes paralisados afoga o sonho e abre os olhos para um horizonte que escurece a primavera árabe. O sonho, cujos protagonistas eram os muçulmanos e os cristãos do Egito, reunidos como um só povo na praça Tahrir, se desvanece sob a máquina da violência e se transforma em pesadelo, com um cenário imprevisível. Uma manifestação pacífica terminou com cenas de violência inaudita descritas pelo jornal saudita Al-Hayat como “o acontecimento mais sanguinário depois da revolução de 25 de janeiro, que levou à queda da ditadura de Hosni Mubarak”. O número das vítimas, segundo o Ministério da Saúde egípcio, é de 24 mortos e 212 feridos. Tudo começou no domingo 9 de outubro, com um protesto dos cristãos coptas, indignados com o ataque recente contra uma igreja em Assuan, no sul do país. Os manifestantes repudiavam o silêncio das autoridades. Os coptas pediam a renúncia do governador da província de Assuan, Mustafa As-Sayyed, acusando-o de causar o ataque. As-Sayyed declarou, segundo o jornal Tariq Al-Akhbar, que a igreja era ilegal, porque o edifício tinha sido transformado em igreja através da manipulação de autorizações. Os extremistas, com base nessas declarações, incendiaram o lugar de culto cristão. No dia seguinte ao ataque, As-Sayyed, em vez de condenar a violência, afirmou que “não houve ataque algum porque em Assuan não existem igrejas”, segundo o site cristão Coptreal. Tais declarações fomentaram a indignação copta que levou ao protesto. Os manifestantes partiram do bairro de Shabra rumo à sede da televisão nacional, pedindo a tutela do estado para os lugares de culto cristão e a paridade de direitos para todos os cidadãos. Os manifestantes pediam também a renúncia de As-Sayyed, acusando-o de apoio aos extremistas islâmicos. A multidão, constituída também por muçulmanos que apoiam os direitos dos cristãos, deplorava ainda a linha parcial adotada pela televisão estatal, que incentiva sentimentos anticristãos. Durante a manifestação, alguns vândalos começaram a jogar pedras e a disparar contra a multidão. Os coptas responderam com mais pedras. As forças da ordem e o exército agiram então com violência, reprimindo os manifestantes inclusive com veículos blindados. Um sacerdote copta, o padre Daoud, declarou ter visto um carro blindado arrastar cinco manifestantes. A situação degenerou em caos, com o exército e a polícia disparando gases lacrimogêneos e balas de borracha contra os manifestantes, que revidaram jogando tudo o que estivesse ao seu alcance. A televisão estatal declarou que os manifestantes conseguiram queimar alguns carros da polícia. O exército está impondo toque de recolher desde a manhã da segunda-feira, 10 de outubro. A France Press informou sobre os feridos e os mortos no hospital copta do Cairo, relatando ter visto diversos cadáveres totalmente desfigurados. O Al-Hayat relata que, à noite, um grupo de muçulmanos pacíficos marchou até o hospital copta manifestando solidariedade aos cristãos. Reação da Igreja copta Em comunicado a Zenit, o Conselho dos Patriarcas e bispos católicos do Egito comentou os acontecimentos, pedindo ao conselho militar e ao governo egípcio que “assumam suas responsabilidades nacionais e gerenciem a situação custodiando a justiça e tutelando a dignidade de todos os cidadãos, sem discriminações”. Os prelados egípcios católicos afirmaram ainda que a Igreja católica no Egito “eleva suas orações a Deus para proteger o Egito e seu povo” e assegura a oração pelas vítimas dos últimos episódios de violência. O Egito foi cenário de crescentes tensões inter-religiosas nos últimos meses. Diversas igrejas cristãs foram alvo de ataques terroristas. As novas autoridades mudaram algumas leis discriminatórias que impunham severas restrições à construção de lugares de culto cristãos, mas enfrentam grande resistência de correntes fundamentalistas que aspiram ao poder presidencial nas eleições deste novembro.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O ataque à embaixada israelense e o avanço do fundamentalismo

[normal] [medium] [big] ZP11092004 - 20-09-2011 Permalink: http://www.zenit.org/article-28882?l=portuguese Egito: radicalização da “Primavera Árabe” Por Paul De Maeyer ROMA, terça-feira, 20 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – Um desastre evitado por um triz: o primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu resumiu assim o ataque à embaixada do seu país na capital egípcia, que deixou pelo menos três mortos e centenas de feridos e presos. A agressão contra a sede diplomática, que, segundo Netanyahu, “simboliza a paz entre nós e o Egito” (The Guardian, 11 de setembro), começou depois da tradicional oração da sexta-feira e do agora também tradicional protesto na Praça Tahrir, quando centenas de manifestantes se dirigiram contra a embaixada e tentaram derrubar o novo muro de proteção construído ao redor do edifício. Apesar da presença policial, dezenas de manifestantes conseguiram arrombar as portas e invadir a embaixada. A intervenção das forças especiais egípcias evitou o pior, conseguindo proteger os funcionários diplomáticos israelense, entre os quais o embaixador Yitzhak Levanon. Alguns grupos de manifestantes tentaram chegar também à embaixada da Arábia Saudita. A ira dos manifestantes, aparentemente, foi pela construção do próprio muro de proteção. O porta-voz da Igreja Católica no Egito, padre Rafic Greche, definiu o muro como “uma ideia infeliz” (AsiaNews, 10 de setembro). Segundo o padre, “isto criou a mesma impressão que o muro construído por Israel na Cisjordânia”. Faz semanas que a tensão na área era visível, em consequência do homicídio, por erro, de vários guardas fronteiriços egípcios por parte do exército israelense, em 18 de agosto, depois de atentados na região turística de Eliat, no Mar Vermelho, quando sete cidadãos israelenses morreram. Segundo analistas, entre eles o jornalista independente Jacques Benillouche, o ataque foi um ato “premeditado”, já que os manifestantes atacaram as forças da polícia com coquetéis molotov (Slate.fr, 10 de setembro). Da mesma opinião é o padre Giovanni, missionário comboniano que vive no Cairo. “É difícil pensar que foi espontâneo” (Fides, 12 de setembro). “Foi planejado. Os envolvidos foram recrutados em torcidas de futebol”. Para o missionário, o ataque violento representa “um gesto de ruptura com o passado”. “Violaram um lugar 'sagrado', que no regime de Mubarak jamais teria sido atacado desse modo”. Segundo Clemens Wergin, do Welt Online (11 de setembro), o ataque é “um ponto de inflexão”: mostra que, mais de meio ano depois da queda de Hosni Mubarak, as revoluções árabes perderam a inocência e voltaram às “antigas receitas” para mobilizar as massas. “Quando as ideias se esgotam, eles incitam o povo contra Israel”. Para o estado judeu, o ataque, além de lembrar o dramático sequestro na embaixada dos EUA em Teerã pelos revolucionários iranianos em novembro de 1979, acontece numa hora muito delicada. Não só a Autoridade Nacional Palestina (ANP) pretende pedir que as Nações Unidas reconheçam unilateralmente a Palestina, como ainda Israel está atravessando uma grave crise diplomática com um ex-aliado, a Turquia do combativo primeiro- ministro filo-islâmico Recep Tayyip Erdogan, que exige desculpas de Jerusalém pela abordagem do navio de ajuda humanitária para Gaza, em maio do ano passado, em incidente que matou nove cidadãos turcos. Erdogan rompeu recentemente as relações diplomáticas com Israel. Como se não bastasse, iniciou no último 12 de setembro uma visita ao Egito, primeira etapa de uma viagem a outros países da Primavera Árabe como a Líbia e a Tunísia. Para muitos analistas, o objetivo do premier não é só reforçar as relações com as novas administrações da região, mas também promover a Turquia como nova potência líder do mundo muçulmano. O crescente isolamento de Israel parece fazer parte dessa “política hegemônica neo-otomana”, como definida por Shlomo Avineri, professor de Ciências Políticas na Universidade Hebraica de Jerusalém (The Washington Post, 11 de setembro). Na terça-feira 13 de setembro, dirigindo-se aos ministros de Assuntos Exteriores da Liga Árabe, reunidos no Cairo, Erdogan comparou Israel com uma “criança mimada” e afirmou que antes de acabar o ano “veremos a Palestina em situação bem diferente” (BBC, 13 de setembro). “Devemos trabalhar de mãos dadas com os nossos irmãos palestinos. A causa palestina é a causa da dignidade humana”, continuou. “É hora de içar a bandeira palestina nas Nações Unidas”. O estado israelense, segundo o primeiro-ministro turco, sairá do seu isolamento “somente se agir como um estado razoável, responsável, sério e normal”. Segundo o padre Greche, entre os envolvidos no ataque à embaixada havia gente com o alcorão na mão ou no bolso. Talvez seja apenas um detalhe, mas ganha muita importância no contexto das próximas eleições, previstas para setembro e adiadas para novembro. Segundo pesquisas, as forças islamistas, desde os Irmãos Muçulmanos até o Partido da Luz dos Salafitas, poderiam acabar com todas as outras propostas. Seria um “desastre geopolítico”, fruto do “devastador vazio de poder” que prevalece hoje no Cairo, escreveu Franco Venturini no Corriere della Sera (11 de setembro). “O Egito não está caminhando para a democracia, mas para a islamização”, alerta sem hesitar o ex-embaixador israelense no Cairo, Eli Shaked: “É o mesmo caso da Turquia e de Gaza. O mesmo que aconteceu no Irã em 1979” (The New York Times, 10 de setembro). A perspectiva de uma possível vitória dos islamistas preocupa a comunidade cristã do Egito. O povo, segundo o patriarca católico de Alexandria dos coptas, cardeal Antonios Naguib, “segue o que pregam nas mesquitas. E os imãs falam todos de instaurar um estado religioso” (Terrasanta.net, 1º de setembro). “Os partidos islâmicos só repetem que serão respeitados os direitos dos cristãos na base da lei islâmica. Eu não entendo a necessidade dessa premissa: que tudo deva ser regulado pela lei islâmica. Que igualdade é essa? Para mim, é uma contradição”, continuou o purpurado, que teme justamente uma volta aos tempos em que os não muçulmanos eram tolerados só como “infiéis protegidos” ou “dhimmi”, se pagavam um imposto suplementar, ou “jizya”. Isso é o que querem alguns expoentes islamistas, entre os quais está o xeque salafita Adel el-Ghihadi. Em uma entrevista publicada no Rose al-Yusuf em agosto e definida como “delirante” por Giuseppe Caffulli (Terrasanta.net, 26 de agosto), o xeque e ex-combatente entre as filas dos talibãs no Afeganistão não tem dúvidas. “A revolução é vista à luz da religião e não do ponto de vista político. Para ser legal, deve se apoiar na sharia islâmica”, explicou. “Nosso plano de trabalho será exatamente governar o Egito sobre os princípios da lei islâmica. Portanto, completaremos a islamização das nações em torno a nós, enviando missionários muçulmanos ao Sudão e à Líbia. Depois passaremos Estado por Estado, para converter todos ao islã e fazer aceitar a sharia. Prepararemos um exército egípcio capaz de formar outros exércitos islâmicos, aos que Alá dará seguramente a vitória”. Também no que diz respeito à presença dos chamados “infiéis” em terra egípcia, el-Ghihadi tem, infelizmente, as ideias muito claras. “Os cristãos e os judeus para nós são kafir, não crentes. Eu como muçulmano devo apoiar o muçulmano, antes do cristão. Os demais são considerados inimigos. Se não incomodam, podem ser tratados com certa benevolência. Sempre entro de certos limites”, afirmou, acrescentando, no entanto, que “os cristãos não devem ocupar um lugar de importância como o de juízes de tribunais, nem no exército, nem na polícia”. Para o xeque, “os cristãos são livres para rezar em suas igrejas. Mas se forem motivo de discórdia e houver problemas, eu as destruirei. Não posso contradizer minha religião para contentar as pessoas. Quem quer viver em um país de maioria muçulmana deve aceitar suas leis. Ou paga o tributo, ou se torna muçulmano, ou é morto”. Lendo essas declarações, seria melhor falar de um “Inverno árabe”. Por outro lado, para ser precisos, a revolta na Tunísia começou entre o outono e o inverno, ou seja, 17 de dezembro de 2010, e a queda de Mubarak aconteceu em pleno inverno, no dia 11 de fevereiro passado...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Primavera Árabe, uma revolução sequestrada

[normal] [medium] [big] ZP11091508 - 15-09-2011 Permalink: http://www.zenit.org/article-28851?l=portuguese Patriarca Naguib: objetivos iniciais ainda estão longe MUNIQUE, quinta-feira, 15 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – “Uma geração jovem, que tinha sido deixada de lado, que se familiarizou com os meios de comunicação modernos e se conectou à rede sem a mediação de partidos políticos ou religiosos. Eles têm fé, mas separam política e religião. Eles provocaram a revolução e são a garantia dos objetivos iniciais: justiça, dignidade e trabalho”. É o cardeal Antonios Naguib, patriarca copta católico de Alexandria, quem descreve os jovens da praça Tahrir, protagonistas da revolução de janeiro que derrubou Hosni Mubarak da presidência egípcia, “pondo fim em 18 dias a 30 anos de um regime de aparência democrática, mas ditatorial na prática”. Muito foi dito sobre a “primavera árabe” no encontro mundial “Bound to Live Together - Religões e culturas em diálogo”, em Munique, por iniciativa da Comunidade de Santo Egídio e daquela arquidiocese alemã. É evidente o vínculo entre o desenvolvimento das mudanças institucionais e políticas e a convivência entre os povos e as religiões nas áreas já “quentes” do Oriente Médio e norte africano. Revolução sequestrada A “queda do muro de medo que bloqueava a livre expressão de opiniões e críticas” e o “despertar da possibilidade de sonhar com um mundo melhor, baseado nos princípios de uma sociedade democrática” são, para Naguib, os efeitos principais da revolução egípcia. No tocante ao religioso, ele destaca ainda “a desaparição das barreiras confessionais psicológicas e sociais que separavam os muçulmanos dos cristãos e que causavam conflitos frequentes, muitas vezes dramáticos”. Tudo isso ficou evidente nos primeiros momentos da reação. Mas, hoje, em que ponto estamos? Os objetivos iniciais estão “longe do alcance da mão”. A falta de segurança e o aumento dos preços condicionam muito esta fase e preocupam os cidadãos. “Movimentos islamistas como os Irmãos Muçulmanos, os salafitas e outros grupos mudaram a situação política a ponto de se falar de uma revolução 'sequestrada'. E reapareceram os conflitos entre muçulmanos e cristãos”, afirma Naguib. O elemento tranquilizador é a Declaração de Al-Azhar e de uma elite intelectual sobre o futuro do Egito, de 19 de julho de 2011, uma “clara tomada de posição dentro da suprema autoridade religiosa sunita que rejeita o estado teocrático e apóia a instituição de um Estado nacional, constitucional, democrático, moderno”, completa o patriarca. Primavera árabe? Enquanto a ONU difunde o número de vítimas da repressão na Síria (2.600 desde março), a definição de “primavera árabe” é questionada por Gregórios III Laham, patriarca de Antioquia dos melquitas: “Não estamos diante de uma revolução, mas de manifestações de praça, manipuladas pelo exterior, que têm o objetivo de agredir e criar confusão. O governo reage para se defender”. E prossegue: “A Síria é um país com liberdade e democracia: não é à toa que nos últimos cinco anos abriram dez universidades europeias no país”. Seria necessário “dar uma chance ao presidente Assad, já que a Síria pode ser um verdadeiro instrumento de paz para o Oriente Médio”. “Mais que uma revolução”, afirma Laham, “temos que falar de uma luta entre grupos sunitas e alauitas pelo poder: parece mais uma guerra civil”. “Os cristãos não se sentem em perigo, não houve hostilidades contra eles, mas tememos o caos que pode surgir da derrocada do governo se faltar uma verdadeira alternativa”. Rota para a democracia “Quarenta anos de abusos nos deram uma visão clara do nosso futuro”, afirma Fathi Mohammed Baja, responsável de Assuntos Políticos e Internacionais do Conselho de Transição Nacional da Líbia, o CNT. Ao falar de “Qual é o futuro para o mundo árabe?”, Baja descreveu para os jornalistas a situação do país. “Já que Gadaffi rejeitou qualquer tipo de solução pacífica, somos obrigados a usar a opção militar até que a Líbia seja libertada: depois vamos voltar a ser um movimento pacífico e trabalhar pela democracia”. “Hoje”, prossegue Baja, “controlamos 70% da capital Trípoli. Quando libertarmos toda a cidade, levaremos para lá o governo de transição, que está em Bengasi. Na liderança do nosso movimento temos juízes, professores, peritos em direito, e o CNT tem uma rota para a democratização da Líbia, no militar, no jurídico e institucional, na justiça para evitar vinganças, na imprensa, nos tribunais civis”. A ação “deverá contar com um plano em prol das vastas faixas da nossa população que são afetadas pela pobreza”. “Desde 1995, a Líbia registra 80 bilhões de dólares por ano com a venda de petróleo. Uma boa parte irá para a reconstrução e para a luta contra o desemprego e o analfabetismo”. Quanto à possibilidade da afirmação de tendências fundamentalistas islâmicas, “isso é mais um temor ocidental, porque na Líbia não existe um movimento fundamentalista, e sim um movimento pela libertação e pela democracia. Temos em mente uma alternativa muito clara, rejeitar os movimentos violentos e unificar visões políticas diferentes. Queremos eleições livres. Acreditamos no respeito aos direitos humanos e não queremos o fundamentalismo e muito menos o terrorismo”. “Para a Líbia moderna, queremos a paz”, acrescenta o representante do CNT. “E o povo está em consenso quanto ao 'depois de Gadaffi', porque quer participar de uma sociedade democrática”. A propósito das relações da “nova Líbia” com o ex-rais, Baja precisa que “quando capturarmos Gadaffi, o processo contra ele será na Líbia, porque o Tribunal Penal Internacional de Haia só o processaria pelos crimes cometidos desde fevereiro deste ano, mas ele mata a nossa gente e nos rouba desde 1969. Se, depois da justiça líbia, o Tribunal de Haia também quiser processá-lo, não vejo problema em processá-lo duas vezes”. (Chiara Santomiero)

domingo, 4 de setembro de 2011

Existe guerra entre muçulmanos e cristãos na Nigéria?

ZP11090403 - 04-09-2011 Permalink: http://www.zenit.org/article-28756?l=portuguese Arcebispo de Abuja: tensão religiosa não é o maior perigo ABUJA, domingo, 4 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – A maior causa das tensões na Nigéria não é a divisão entre cristãos e muçulmanos, mas entre ricos e pobres, afirma o arcebispo de Abuja, capital do país. Em entrevista ao programa de televisão Deus chora na Terra, da Catholic Radio and Television Network (CRTN) em colaboração com Ajuda à Igreja que Sofre, o arcebispo John Onaiyekan explica que o maior perigo para a paz na Nigéria “é a injustiça social no país”. Em aproximadamente uma década, 3.000 pessoas foram assassinadas pela violência inter-étnica e inter-religiosa. Qual é a origem desta violência? Dom Onaiyekan: Essa é a má notícia, a perda de vidas em conflitos que têm conotações religiosas e são interpretados como religiosos. Mas eu acho que nós temos que lembrar que milhares de vidas se perdem no meu país, ano após ano, por causa dessas mortes diárias em hospitais por culpa da má gestão, e também por causa de conflitos em áreas onde não existem cristãos ou muçulmanos. E ninguém fala delas. Só da violência entre muçulmanos e cristãos. Nós estamos falando de uma cultura que desvaloriza a vida humana em geral. E eu digo isso como nigeriano, com toda a responsabilidade e tristeza. Temos que colocar tudo no seu devido contexto. Para falar de 3.000, eles calculam normalmente com base nos que perderam a vida no norte da Nigéria. Na região de Jos? Dom Onaiyekan: A região de Jos é só a última, porque tem outras da Nigéria com enfrentamentos: em Kaduna, Bauchi, e, quando fizeram aquelas famosas “caricaturas dinamarquesas”, tivemos distúrbios em Duguri e em toda a região, e, depois, na meseta de Jos. Jos foi especialmente surpreendente, porque Jos não tem uma grande população muçulmana. Nem é um lugar onde se possa dizer que os cristãos e muçulmanos tenham uma relação tensa. É de maioria cristã e nós ficamos surpresos de que num lugar como aquele ocorra esse tipo de violência. Em segundo lugar, seja em Jos ou em qualquer outro lugar, as pessoas não atacam as outras só por causa da religião. Mas quando escrevem sobre isso, apresentam justamente assim: violência por motivos religiosos entre muçulmanos e cristãos. Se não é assim, qual é a verdadeira origem? Dom Onaiyekan: Pode haver uma dimensão religiosa, porque os nigerianos são profundamente religiosos, o que é uma coisa grandiosa. E este é um dos casos em que algo bom pode virar uma coisa ruim. Eles são profundamente comprometidos com a fé, e isso quer dizer que tudo o que eles fazem é com fervor religioso. Se duas pessoas brigam, até no mercado, e um é muçulmano e o outro é cristão, antes de saber qualquer coisa as pessoas vão dizer: “aquele muçulmano e aquele cristão estão brigando”. Não vão dizer: “aqueles dois nigerianos”, como deveriam dizer, e eu acho que é isso o que faz parecer que é uma disputa religiosa. No caso de Jos, o assunto é bem claro: é entre os que são considerados “indígenas” da meseta e os considerados “colonos”. O problema nem é tanto com os colonos, porque existem colonos e indígenas pela Nigéria toda. O problema na meseta é a situação dos colonos que exigem plenos direitos como indígenas, um ponto em que eu pessoalmente estou de acordo, e que não é válido só para aquela meseta, mas para toda a Nigéria. Há outros elementos em jogo? Dom Onaiyekan: Eu quero insistir no seguinte: os nigerianos não são só cristãos ou muçulmanos; os nigerianos são também hausa, ibo e ioruba. Os nigerianos têm também ideologias políticas diferentes. E a maior diferença hoje, e uma das causas da maioria dos problemas, e o maior perigo para a paz na Nigéria, não é essa história dos cristãos e dos muçulmanos; é a injustiça social no país. A grande diferença, o grande abismo entre uns poucos que são muito ricos e a imensa maioria que são pobres numa nação que é muito rica. Os poucos ricos, a maioria dos quais são também ladrões, bandidos que roubam o nosso dinheiro, gente corrupta, são cristãos e muçulmanos que estão sentados nas mesmas mesas diretivas. Os pobres que estão sofrendo também são cristãos e muçulmanos, e também se dão bem entre si, porque têm os mesmos problemas. Estas são as coisas que deveríamos considerar de modo cuidadoso, e, se você vive na Nigéria, tem que usar essa lente para não se deixar levar por explicações que parecem simples e diretas, mas são simplistas demais. Então podemos dizer que o sucesso ou o fracasso político na Nigéria se traduz em poder econômico ou na falta dele? Dom Onaiyekan: Isso. É uma mentalidade de “o ganhador leva tudo”. Se você é do partido do governo, então você consegue todos os contratos, todas as promoções e todos os trabalhos no governo para os filhos. Mas se você é da oposição, aí você não consegue nada. Se, além de pertencer ao partido da oposição, você ainda pertence a uma tribo diferente, porque além da divisão política você acrescente também a étnica, e se você acrescentar também que pertence a outra religião, é fácil alguém dizer que cristãos e muçulmanos se enfrentam... E esta é a imagem que você vê no mundo inteiro sobre a Nigéria. Jamais eu vi na Nigéria que nós tenhamos brigado porque Jesus Cristo seja ou não seja Deus, que é a maior diferença teológica entre os cristãos e os muçulmanos. Nós nunca brigamos por isso nem nunca nos enfrentamos para discutir se Maomé é um verdadeiro profeta ou não é. Nós lutamos pela terra. Nós discutimos quantos ministros são muçulmanos ou cristãos. Nós discutimos sobre quem é o líder deste ou daquele partido político. Estes é que são os temas em que existe enfrentamento. Isso levanta a questão: Por que é apresentado como um assunto religioso e não como o que ele realmente é - interesses econômicos ou políticos? Dom Onaiyekan: É devido à natureza da comunidade nigeriana. Nós facilmente nos identificamos como cristãos ou muçulmanos. Se você estiver na Nigéria num domingo, verá que as igrejas estão cheias. Todo mundo vai à igreja no domingo. Se você é um cristão e estiver sentado em casa em um domingo, te perguntarão: "por que não vai à igreja? O quê acontece? Você tem algum problema?". E se pode dizer o mesmo para um muçulmano. É como se sua identidade se definisse em termos de sua religião. Então, seja lá o que você faça, você é considerado cristão ou muçulmano. Em segundo lugar, quando duas pessoas são rivais, tentam implantar todos os recursos para se proteger. Assim, se eu estou lutando com um parceiro que é muçulmano e eu estou prestes a perder, direi: "Olha como eles me tratam. Eu sou cristão". Isso me lembra de São Paulo quando ele estava em pé diante do Sinédrio, olhou os fariseus entre os saduceus e disse: "Eu sou fariseu e por isso sofro." Então os fariseus apoiaram. Há algo disso também. Do lado muçulmano, há pessoas que querem atrair a solidariedade dos muçulmanos, não só na Nigéria, mas também no exterior. Vemos que isso acontece em ambos os lados. Mas a questão é: Quando este tipo de coisa ocorre, não se pensa muito no resultado. Estamos caminhando para resolver nossos problemas de convivência ou estamos nos preparando para a guerra que haverá, finalmente, entre cristãos e muçulmanos? O senhor mencionou os interesses estrangeiros. Há interesses estrangeiros provocando isso? Dom Onaiyekan: Há muitos interesses em jogo, creio eu, já que estamos falando de uma base religiosa, obviamente, em ambos os lados, com correntes que têm posições muito fortes contra os outros. Há correntes islâmicas que acreditam que os cristãos são maus crentes. Há muitas pessoas na Nigéria que assistem TV ou ouvem sermões que vêm Iêmen e são emitidos pelos canais islâmicos. Há pequenos grupos que são muito tendenciosos em ambos os lados. Também há cristãos que dizem coisas horríveis sobre os muçulmanos. Acham que os muçulmanos que vão a Meca adoram um ídolo, uma pedra, e que não há maneira de um muçulmano alcançar o céu, porque Jesus disse que, se não nascer da água e do espírito, não entrarás no Reino de Deus. Quando alguém vai a público dizer isso diretamente aos muçulmanos, está provocando, mas, digo novamente, trata-se de um pequeno grupo. Nossa Igreja não ensina isso. Quando há choques, o resto de nós fica envolvido, o que é um grande problema. A razão final que lhe daria – já que estamos falando em termos de comunicação – é que os jornalistas às vezes são preguiçosos. Nós conversamos sobre o diálogo nessas situações tão complicadas. O senhor tem esperanças? Dom Onaiyekan: Eu sou um otimista incurável e sempre olho para o que mais deslumbra e também porque acredito que essa é a atitude cristã. Nós acreditamos em Jesus ressuscitado, e seu espírito nos move. Por isso não temos medo de olhar até mesmo a realidade da corrupção. Amo a Nigéria intensamente. Há tantas pessoas maravilhosas. A grande maioria dos nigerianos, de todas as crenças, são pessoas maravilhosas e quando veem algo de bom, admiram e se apegam a ele. Nosso grande problema é que precisamos de um bom governo, um governo forte, que possa implementar todas estas coisas maravilhosas e não só os recursos naturais, mas, acima de tudo, os recursos humanos da Nigéria. Com a ajuda de Deus, não deveria haver problemas entre cristãos e muçulmanos. De fato, minha opinião é que a Nigéria será um modelo para o mundo de como os cristãos e muçulmanos vivem juntos, porque nossa cultura tem o maior número de cristãos e muçulmanos vivendo juntos em um mesmo país. Em outros países, uma ou outra das religiões é maioria ou minoria. Faça o que fizer, eles são separados. Na Nigéria, somos iguais e nos encontramos face a face e somos cidadãos do mesmo país, às vezes, os membros da mesma família. --- --- --- Esta entrevista foi realizada por Marie-Pauline Meyer para "Deus chora na terra", um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television Network, (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre. Mais informação em www.aisbrasil.org.br, www.fundacao-ais.pt, http://www.wheregodweeps.org/countries/nigeria

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Tunísia: pós-revolução, travessia do deserto

ZP11072604 - 26-07-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28559?l=portuguese
Arcebispo de Túnis fala da transição democrática depois de Ben Ali

Por Chiara Santomiero
TÚNIS, terça-feira, 26 de julho de 2011 (ZENIT.org) – “A revolução é a travessia do Mar Vermelho, a manifestação do desejo de liberdade, justiça e paz. O período pós-revolução é a travessia do deserto, um período longo e duro, caracterizado por recolher a própria história.”
Assim define a fase de transição que afeta a Tunísia Dom Maroun Lahham, arcebispo de Túnis.
Na carta pastoral “Faço novas todas as coisas”, distribuída no dia 24 de julho, Dom Lahham se detém na leitura dos recentes acontecimentos no país, do ponto de vista da Palavra de Deus.
Revolução de jasmim
No dia 14 de janeiro, a “Revolução de jasmim” – um protesto muito alimentado pelos jovens através da internet – levou ao fim o regime de Zine El Abidine Ben Ali, que durou 23 anos e se caracterizou pela corrupção e os abusos.
Desde então, iniciou no país um processo de democratização, guiado por governos de transição, que levará às primeiras eleições livres, no dia 23 de outubro, para a Assembleia constituinte, que deverá dar à Tunísia sua nova estrutura.
Um percurso não ausente de incertezas e protestos dos que cobram rapidez nas reformas, em virtude de uma fase de grande precariedade econômica do país, acentuada pelas repercussões da revolução sobre o turismo (que representa 8% do PIB) e o desemprego.
No dia 17 de julho, na cidade de Sidi Bouzid – a mesma onde o comerciante Mohamed Bouazizi tinha ateado fogo ao próprio corpo no dia 17 de dezembro, num ato que marcou o início dos protestos – morreu um jovem de 14 anos, Thabet Belkacem, atingido por um disparo de policiais durante uma manifestação.
O primeiro-ministro provisório, Beji Caid Essebsi, denunciou um plano de desestabilização por parte das forças contrárias à revolução e à redemocratização do país, assinalando aos partidos políticos confessionais e aos movimentos extremistas ligados a eles, que seriam conscientes de não poder enfrentar as eleições de outubro e estariam, assim, movendo-se para barrá-las, alimentando a violência nas ruas.
Nesse país, que busca uma nova definição, está também a comunidade católica tunisiana, pequena – 22 mil católicos em 10 milhões de habitantes –, mas viva e organizada em 11 paróquias, com 121 religiosas e 49 sacerdotes. Os católicos gerenciam 11 escolas, têm em suas salas 6 mil alunos muçulmanos e dão uma importante contribuição educativa para o futuro da Tunísia.
Nova realidade
“É necessário acolher esta realidade em sua novidade – escreve Dom Lahham – e viver com humildade a situação atual na Igreja”.
Humildade significa, entre outras coisas, “aceitar ser uma Igreja em uma sociedade muçulmana quase ao 100%” e, portanto, “viver a fé e testemunhar Jesus Cristo no seio de um povo não cristão”, além de “descobrir na vida deste povo e em suas tradições culturais e religiosas o dom que o próprio Deus lhes deu, para enriquecer nossa fé e a da nossa Igreja”.
Entre outras coisas, sobretudo nesta fase de transição democrática, oferece-se à Igreja Católica (quase em sua maioria composta de não tunisianos que em sua maioria são ocidentais) uma grande oportunidade: “além do respeito recíproco, ao diálogo da vida que é nosso pão cotidiano, temos a possibilidade, e talvez a missão, de servir de ponte entre estes dois mundos: o Magreb e o Ocidente”.
A propósito das tensões que atravessam o país, “uma coisa é a revolução – explica o bispo de Túnis – e outra é a democracia”. Uma fase constituinte, de fato, representa um gigantesco passo adiante nesta direção, mas estabelecer os valores da democracia custará gerações inteiras”.
“Durante décadas – assinala Dom Lahham – as pessoas tiveram medo das autoridades; agora são estas que temem a opinião pública. É um bem, portanto, que os jovens se manifestem”.
Se os tempos fixados para a transição democrática são ainda longos, é um tempo para sonhar com um espírito positivo e otimista, apesar das dificuldades.
É necessário que a Tunísia saiba resistir “às tentações do domínio, da posse e dos interesses pessoais”, para abrir as portas “à liberdade, ao respeito de todos em suas diferenças, ao sentido do serviço autêntico e sobretudo ao perdão dos erros do passado”.
Raízes religiosas
No que diz respeito à nova estrutura institucional, “nós somos a favor, certamente – afirma Dom Lahham –, da separação da mesquita do Estado”.
“Nós esperamos que a Tunísia possa encontrar um bom caminho para cada uma das aspirações espirituais e religiosas de seus cidadãos e de seus hóspedes”.
Espera-se também que o país saiba viver “ao mesmo tempo a transição democrática e a pertença ao mundo árabe muçulmano e que encontre o caminho para conciliar a fidelidade ao Deus único com os dons da modernidade”.
Desta modo, verdadeiramente, “a construção democrática representa a chegada à Terra prometida”.
Laboratório de democracia
Este momento histórico da Tunísia e a passagem a uma nova fase de definição institucional é o mesmo atravessado por outros países do norte da África e do Oriente Médio.
“A primavera árabe é real” – afirma Dom Lahham –. “Os países árabes estão vivendo, cada um em seu contexto particular, uma prometedora primavera”.
Esta primavera, segundo o arcebispo, floresce se estiver baseada na juventude, com suas reivindicações de liberdade, dignidade, transparência, justiça, igualdade, possibilidade de escolha pessoal.
“A Tunísia representa um laboratório de democracia para os países árabes: se o processo para a transição democrática chegar até aqui, o mesmo pode acontecer em outras partes e talvez mudar estruturas consolidadas nas relações internacionais.”
É necessário – convida o arcebispo – “ajudar a economia e erguer o turismo, que emprega 25% da população”.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Certezas e incertezas da “Revolução do Jasmim” (2)

ZP11072104 - 21-07-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28524?l=portuguese
Entrevista com arcebispo de Luxor, Dom Youannes Zacharia

CAIRO, quinta-feira, 21 de julho de 2011 (ZENIT.org) – A chamada “primavera árabe” ou “Revolução do Jasmim” uniu, na Praça Tahrir do Cairo, jovens muçulmanos e cristãos, mostrando a vontade de conviver em uma mesma nação.
No entanto, precisamente nestes últimos anos, foram testemunhas do aumento de atos de intolerância com relação aos cristãos, que provocaram preocupação no Ocidente, especialmente na Igreja, como se evidenciou durante o Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio, realizado em Roma em outubro de 2010.
Qual pode ser a contribuição dos cristãos para o futuro cenário político destes países? A esta e outras perguntas responde Dom Youannes Zacharia, bispo católico de Luxor, nesta segunda parte de uma ampla entrevista realizada pela equipe árabe de ZENIT.
A primeira parte foi publicada ontem e a terceira parte será publicada amanhã.
ZENIT: Nos últimos anos, foram observados casos sem precedentes de conversões forçadas ao Islã. Em sua opinião, trata-se de incidentes aleatórios ou de um plano metódico, levando em consideração que o grupo de idade que constitui o alvo é somente um – as mulheres jovens?
Dom Zacharia: Não acho que sejam incidentes casuais, mas que existem pessoas planejando e financiando esse tipo de incidentes e tirando proveito dos problemas emocionais, familiares e financeiros que essas moças coptas sofrem. Eles as ajudam a escapar das suas famílias e as convidam a converter-se ao Islã.
Cada família copta deveria cuidar dos seus filhos e filhas e a Igreja, neste período tão delicado, tem de intensificar sua atividade no aprofundamento da fé entre seus filhos, cuidando deles e trabalhando pelo seu bem.
ZENIT: De fato, a maioria dos coptas sonha com emigrar e deixar o Egito para evitar danos futuros, segundo sua visão... Como a Igreja Católica no Egito considera este assunto?
Dom Zacharia: Não são somente os coptas que sonham com emigrar e viajar para o exterior; também há irmãos muçulmanos e jovens de países do terceiro mundo que compartilham este sonho. A razão desta imigração não é somente escapar de uma realidade amarga em seus países, no âmbito político, econômico e de segurança, mas também buscar uma oportunidade de um futuro melhor para as suas vidas e para os seus filhos.
A Igreja Católica no Egito não incentiva os fiéis e emigrar, para poder preservar a presença cristã na terra egípcia e no Oriente Médio. Mas a Igreja deveria ter planos para os jovens, planos de oferecer trabalho e oportunidades de moradia, e que tenham como objetivo oferecer-lhes estabilidade e garantir seu próprio futuro e o dos seus filhos.
ZENIT: Muita gente considerou que o Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio seria uma esperança para os cristãos desse lugar, mas aparentemente ele só ofereceu recomendações teóricas. Qual foi o benefício desse Sínodo?
Dom Zacharia: O Sínodo dos Bispos para o Oriente Médio foi considerado um sucesso singular na história da Igreja do Leste. De fato, é a primeira vez que todos os bispos do Oriente Médio se reuniram com o Santo Padre em Roma para analisar as aspirações e os problemas da Igreja e dos cristãos do Oriente Médio.
O Sínodo foi precedido por intensos estudos e debates preparatórios, que aconteceram na maioria das arquidioceses, institutos, centros e ordens monásticas católicas do Oriente Médio. Muitas personalidades e comitês especializados nos assuntos das igrejas do Oriente Médio pertencentes à Igreja Católica participaram desses preparativos.
Durante o Sínodo, a mídia internacional se centrou nas notícias, história e assuntos da Igreja no Oriente Médio e nos problemas dos fiéis cristãos. Este fato é considerado um êxito do Sínodo, que debateu e se centrou na situação das Igrejas Orientais e nos problemas dos cristãos.
O Sínodo levou à publicação de alguns importantes documentos e recomendações. As igrejas e arquidioceses estudaram estes documentos e solicitaram a aplicação destas recomendações. Nossa Igreja no Egito imprimiu um livro que contém os estudos e debates sobre estas recomendações e atualmente se estuda este livro em cada diocese egípcia.
Atualmente, estamos esperando a exortação apostólica relacionada às igrejas do Oriente Médio, que o Santo Padre publicará em breve e que incluirá a publicação definitiva das recomendações do Sínodo, para trabalhar e servir de acordo com estas recomendações, implementando-as na missão da Igreja.
ZENIT: O que a Igreja Católica no Egito oferece aos leigos que querem aprofundar no seu papel na vida política e nos partidos, para que os coptas não sejam acusados de languidez?
Dom Zacharia: No passado, a Igreja Católica no Egito deve ter oferecido algo neste âmbito, devido às condições que impediam o trabalho. Agora, há muitos fóruns e reuniões que estão sendo realizados em todas as arquidioceses, ordens monásticas, institutos e escolas para educar os leigos e incentivá-los a unir-se à ação política.
A este respeito, há um trabalho sério e concreto, realizado pela Comissão de Justiça e Paz dos Patriarcas Católicos Egípcios e pela conferência episcopal.
ZENIT: Por que os coptas estão divididos no assunto da proteção internacional? Alguns deles a querem, apesar do fato de que não a pedem publicamente, enquanto outros o fazem. Como a Igreja Católica egípcia vê isso?
Dom Zacharia: Sem dúvida, os coptas que são indígenas e vivem em seu país sofrem problemas, dificuldades acumuladas ao longo dos séculos, e sentem que seus direitos são ignorados, que ninguém se preocupa por eles e que suas petições não são consideradas. Finalmente, alguns acreditam que a proteção internacional eliminará seus problemas e dificuldades. Mas eu acho que a proteção internacional, entendida como a dependência dos coptas das potências estrangeiras, não é o caminho para resolver os problemas dos coptas. Considero que o caminho correto para isso é a calma e o diálogo construtivo entre os cidadãos de uma mesma nação.
ZENIT: Como são suas relações no Sul do Egito com os muçulmanos moderados e os chefes dos movimentos liberais? Estes têm a mesma influência dos salafitas e os Irmãos Muçulmanos?
Dom Zacharia: Na minha época sacerdotal e de serviço episcopal, minha relação com os irmãos muçulmanos sempre foi boa.
Lembro-me de quando era pastor na cidade de Alfikriyah na província de Minya; lá, criei um albergue para crianças e muitas dessas crianças eram de famílias muçulmanas. Nunca discriminei entre uma criança muçulmana e uma cristã. Ainda hoje, tenho uma amizade pessoal com alguns dos responsáveis por essas crianças. Há um sentimento de cordialidade e de respeito mútuo entre nós; e quando visito a minha família em Abu Qarqas, muitos deles vão me ver. Para mim, é um grande prazer encontrar-me com meus filhos e filhas que estiveram lá e que, ao crescer, agora se encarregam de dirigi-lo. Alguns deles, quando vêm a Luxor a trabalho, me visitam especialmente. Com eles, recordo aqueles belos dias que passamos juntos.
Em minhas visitas pastorais às igrejas e paróquias da arquidiocese de Luxor, todos os paroquianos muçulmanos, ortodoxos e católicos me dão as boas-vindas, e quando visito as casas pertencentes às paróquias, dou prioridade às casas dos meus irmãos muçulmanos.
De fato, posso dizer que as relações entre os muçulmanos e os cristãos que moram e trabalham juntos nos povoados e em algumas cidades do Alto Egito são cordiais. E muitas pessoas que plantam as sementes da traição e da divisão vêm de fora dos povos ou das cidades, têm suas ideias fanáticas e trabalham na difusão do rancor, do ódio entre as pessoas do mesmo povoado cujos ancestrais viveram durante séculos em amor e paz, sem discriminações entre muçulmanos e cristãos.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Certezas e incertezas da "Revolução do Jasmim" (1)

ZP11072002 - 20-07-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28511?l=portuguese
Entrevista com arcebispo de Luxor, Dom Youannes Zacharia

CAIRO, quarta-feira, 20 de julho de 2011 (ZENIT.org) – Seis meses depois da chamada "primavera árabe", que derrubou os antigos regimes dos países ribeirinhos do sul do Mediterrâneo, o que resta daquele movimento, saudado então com grande esperança?
A revolução na Praça Tahrir, no Cairo, não foi um ponto de chegada, mas de partida, e a estrada ainda é incerta: haverá um amadurecimento dessas sociedades ou a instabilidade social e política vai acabar com essas aspirações, permitindo a ascensão de grupos fundamentalistas?
Esta é a reflexão que Dom Youannes Zacharia, bispo católico de Luxor, oferece nesta entrevista de três partes, conduzida pela equipe árabe de ZENIT.
ZENIT:Acima de tudo e em geral, como o senhor descreveria a situação no Egito depois da revolução de 25 de janeiro?Qual é a sua influência, especialmente para a presença cristã?
Dom Zacharia: Primeiro, deixe-me expressar o meu agradecimento e profundo reconhecimento à equipe editora de ZENIT por todos os seus sacrifícios e seu trabalho duro para oferecer informação cristã de qualidade, especialmente através da sua edição em árabe e em outras línguas.
Em minha opinião, a situação no Egito, depois de 25 de janeiro, é escura. A estrada ainda não está clara e a viagem ainda é longa para chegar a um período de estabilidade e segurança.
Sim, a revolução foi bem sucedida na Praça da Libertação, no Cairo. Conseguiu derrubar o regime militar que governava o Egito desde a revolução de 23 de julho de 1952, libertando todos os egípcios, destruindo o muro de medo e eliminando-o de todos os corações egípcios. Encorajou-os a abandonar as suas atitudes negativas e a buscar participação na ação política. Mas o sucesso desta jovem revolução, graças a seus sacrifícios e mártires, ofereceu uma oportunidade de ouro para algumas forças políticas e comunidades religiosas que estavam proibidas e eram perseguidas sob o regime anterior; quebraram o silêncio e trabalharam duramente, aproveitando esta oportunidade para alcançar seus objetivos, tanto políticos como religiosos.
Quanto à presença de cristãos egípcios, percebi o fim do silêncio e da negatividade que caracterizavam muitos cristãos egípcios, especialmente depois da revolução de 23 de julho de 1952. A presença de cristãos egípcios na Praça da Libertação foi honesta, ativa e construtiva, especialmente a dos jovens cristãos. Até agora, sua participação nos acontecimentos atuais ainda está viva e eficaz, e sua presença em conferências nacionais e comitês populares reflete sua preocupação sobre os assuntos da nação, e que estão preparados para ajudar no seu desenvolvimento.
Espero que a presença dos cristãos egípcios seja caracterizada pela unidade, renuncie a divergências denominacionais e não seja isolada. Mas é preciso dialogar e cooperar com todas as forças políticas e religiosas presentes no panorama egípcio.
ZENIT:O aumento de movimentos radicais de vários partidos é uma realidade...Os coptas do Egito poderão se adaptar aos últimos acontecimentos?
Dom Zacharia: Após a revolução de 25 de janeiro, a volta à liberdade política no Egito e a queda do muro do medo, o cenário egípcio testemunhou o ressurgimento de muitas comunidades religiosas e de forças políticas que não eram reconhecidas pelo regime anterior, que nunca cooperou com elas e tentava eliminá-las.
Eu acho que essas comunidades religiosas e as forças políticas precisam de mais tempo e esforço para chegar a uma fase de maturidade política em todo o país, para serem capazes de aceitar os que são diferentes deles em matéria de religião, de opinião, crença e pensamento e, finalmente, cooperar com todos os egípcios, sem exceção, e trabalhar juntos para uma vida melhor e um novo estado desenvolvido.
Se estas comunidades religiosas e as forças políticas forem capazes de evoluir e aceitar os partidos diferentes deles em termos de religião e de pensamento, os coptas do Egito cooperarão e viverão juntos em paz.
ZENIT:Todo mundo está pedindo um estado civil, mas as estimativas no Egito dizem que está mais próximo de um estado religioso...Eminência, o que o senhor acha?
Dom Zacharia: A experiência do povo e a história da nação mostram que um estado religioso que acredita em uma determinada religião, credo ou doutrina está condenado ao fracasso, seja no Ocidente ou no Oriente.
Nos tempos modernos, vemos que, em todos os estados e cidades do mundo, no leste ou oeste, há muitas pessoas que têm diferentes religiões, crenças e doutrinas, mas procuram viver em paz e harmonia. Para a segurança da nação em que vivem, pedem a todos que respeitem a religião e a doutrina do outro e convidam todos os cidadãos a colaborar com os outros para o bem-estar da sociedade. Portanto, a criação de um estado religioso não cria a paz interna e nega os direitos legítimos do grupo que professa uma religião diferente da do Estado.
A este propósito, recordo o que Jesus disse: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é Deus", e me lembro também do slogan da revolução de 1919, quando os muçulmanos e coptas repetiam, gritando contra o colonizador inglês: "A religião é de Deus e a nação é para todos!", e pediam a criação de um estado civil que respeitasse os direitos de todos os cidadãos.
A doutrina religiosa e os pensamentos de fé em que as pessoas acreditam são muito importantes no que diz respeito às relações íntimas entre Deus e o homem, e entre este e seus semelhantes. Também têm muita força na vida cotidiana e social do homem. Quando a doutrina religiosa está longe da praga horrível do fanatismo, do ódio e da ignorância, é capaz de construir uma casa e plantar sementes de amor e paz. Finalmente, todos os egípcios têm de manter suas crenças, sejam eles muçulmanos ou cristãos, e construir relações cordiais com base no respeito mútuo, progredindo no diálogo e na cooperação construtiva para servir a sociedade e o país.
ZENIT:Sohag e Qena, as duas províncias mais próximas do senhor, testemunharam, nos últimos dois anos, o aumento de uma crise sem precedentes, que levou à morte de alguns coptas... Em sua opinião, quais são as verdadeiras razões deste aumento?
Dom Zacharia: Sim, ultimamente, estes eventos dolorosos entre muçulmanos e cristãos têm aumentado em todas as províncias e em todo o país, e os coptas têm sofrido muita dor e sacrifício, além da perda de vidas e bens. Penso que as razões são principalmente a ignorância, a pobreza e as doenças físicas e psicológicas que muitos dos cristãos egípcios e muçulmanos sofrem. Além disso, existem as tensões sectárias e desentendimentos criados pelo antigo regime em algumas cidades e em algumas partes do país. Além disso, não posso excluir algumas conspirações e razões internas e externas que buscam desestabilizar a situação interna e obter benefícios sectários.
ZENIT:O que os coptas pensam daqueles que falam da possibilidade de implementar a lei islâmica ou impor o sistema fiscal no novo Egito, ao se formar um governo islâmico?
Dom Zacharia: Não posso falar em nome dos coptas, mas posso dar minha opinião pessoal. Se os irmãos muçulmanos estão convencidos de que a implementação da lei islâmica é inevitável, eu não me importo, mas se for só para eles. Para os não-muçulmanos, deveria haver uma aplicação de suas leis e dos princípios de suas doutrinas.
No que diz respeito à imposição de um sistema tributário, há uma série de juízos interpretativos e estudos feitos por especialistas muçulmanos que rejeitam este sistema e argumentam que o imposto criado no começo da era islâmica buscava defender os não-muçulmanos. E em nossa era moderna, todos os cidadãos a defendem. O sistema de diferentes impostos e taxas de governo substituiu o sistema tributário. Eu acredito que este sistema não será imposto no Egito de forma alguma; e como cidadão cristão egípcio, rejeito categoricamente ser forçado pelo meu governo a pagar um imposto para poder preservar a minha religião.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Papa e Abbas: resolver conflito Israel-Palestina

ZP11060307 - 03-06-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28131?l=portuguese

Destacam contribuição insubstituível das comunidades cristãs no Oriente Médio

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 3 de junho de 2011 (ZENIT.org) - A necessidade de encontrar urgentemente uma solução para o conflito entre Israel e Palestina foi o tema fundamental da audiência de Bento XVI com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.
Um comunicado da Sala de Imprensa da Santa Sé indica que o Papa e Abbas se centraram sobretudo "na problemática situação da Terra Santa".
"Em concreto, destacou-se a urgência de encontrar uma solução justa e duradoura para o conflito Israel-Palestina, para garantir o respeito aos direitos de todos e, portanto, o cumprimento das legítimas aspirações do povo palestino a um Estado independente."
Depois se "recordou que o Estado de Israel e o palestino devem viver seguros logo, em paz com seus vizinhos e dentro das fronteiras reconhecidas internacionalmente".
Neste contexto, "com o apoio da comunidade internacional e um espírito de cooperação e de abertura à reconciliação, a Terra Santa poderá conhecer a paz", indica a nota vaticana.
No encontro, não faltou a referência à "situação das comunidades cristãs nos Territórios Palestinos e, mais em geral, no Oriente Médio", destacando-se "a contribuição insubstituível que elas oferecem para a construção da sociedade".
Finalmente, fizeram votos de que "os trabalhos das delegações da Santa Sé e da Organização para a Libertação da Palestina procedam com êxito na elaboração de um Acordo Global entre as partes".
Depois da audiência com o Papa, o presidente da Autoridade Palestina se reuniu com o secretário de Estado vaticano, Tarcisio Bertone, acompanhado pelo secretário para as Relações com os Estados, Dom Dominique Mamberti.

sábado, 14 de maio de 2011

O Irã é um modelo para as revoluções árabes?

Michael Segall | 16 Março 2011 Internacional - Oriente Médio O Irã entende a dominação do Hezb'Allah no Líbano, a tomada de Gaza pelo Hamas, o avanço contínuo do programa nuclear iraniano e, agora, as revoluções no mundo árabe como sinais do sucesso de sua revolução islâmica. Do ponto de vista do Irã, os acontecimentos recentes, especialmente no Egito (há muito considerado no Ocidente como uma âncora de estabilidade e o iniciador de um tratado de paz com Israel), representam uma melhora no status estratégico do Irã. • Além disso, os eventos recentes têm concentrado toda a atenção na arena do Oriente Médio e removeram o programa nuclear iraniano do foco dos holofotes. O aumento do preço do petróleo para mais de 100 dólares o barril também levou à erosão da efetividade das sanções ao Irã (cuja utilidade ainda está por ser comprovada). • O chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas do Irã, major-general Sevved Hassan Firuzabadi, disse que a onda islâmica que está varrendo a região marca o início de um processo que terminará com a queda de Israel, e com os sionistas fugindo para seus países de origem. Ele acrescentou que os sinais de tal medo já são claramente visíveis no semblante dos líderes israelenses. • Depois que os Estados Unidos derrubaram o regime iraquiano em 2003, o Irã sentiu-se cercado. Agora, Teerã se vê a caminho de completar um "cerco" regional a Israel - com o Hezb'Allah (Partido de Alá) ao norte e o Hamas ao sul. O Irã também acredita que a Jordânia, ao leste, se unirá às ondas de protesto, marcando a queda de mais uma nação que assinou um tratado de paz com Israel. • O colapso da antiga ordem árabe nos países sunitas moderados do Oriente Médio é, pelo menos a curto ou médio prazo, favorável a Teerã e melhorou significativamente o status geo-estratégico do país e sua habilidade de promover um programa pan-islâmico xiita ambicioso. • O Irã está aproveitando a atual comoção no mundo árabe e a confusão do Ocidente para intensificar sua intervenção, influência e interferência nas regiões que estavam anteriormente sob a influência dos Estados Unidos e do Ocidente, desdobrando sua força Al-Quds (uma unidade especial para "exportar" a revolução islâmica para além das fronteiras iranianas), enquanto também explora os recursos do Hezb'Allah, da Síria e do Hamas. A queda dos regimes árabes pró-ocidentais O abalo histórico que varreu o Oriente Médio, subvertendo a ordem que existia há décadas, pegou o Irã no meio da celebração do 32º aniversário da Revolução Islâmica. Embora o Irã não tenha sido a força motivadora por detrás de várias revoluções nos regimes árabes sunitas, os líderes iranianos assumiram o crédito. Do ponto de vista do Irã, acontecimentos recentes, especialmente no Egito (há muito considerado no Ocidente como uma âncora de estabilidade e o iniciador de um tratado de paz com Israel), representam uma melhora no status estratégico do Irã, pelo menos em curto prazo. Para o Irã, a queda dos regimes árabes sunitas pró-ocidentais e a derrubada de seus governantes têm um impacto direto sobre o processo de fortalecimento regional e refletem a força da mensagem iraniana às nações árabes fora do controle de seus governantes. O Irã entende a dominação do Hezb'Allah no Líbano, a tomada de Gaza pelo Hamas, o avanço contínuo do programa nuclear iraniano e, agora, as revoluções no mundo árabe como sinais do sucesso de sua revolução islâmica. Além disso, os acontecimentos recentes têm concentrado toda a atenção na arena do Oriente Médio e removido o programa nuclear iraniano da luz dos holofotes. O aumento do preço do petróleo para mais de 100 dólares o barril também levou à erosão da efetividade das sanções ao Irã (cuja utilidade ainda está por ser comprovada). Sai o pan-arabismo; entra o pan-islamismo Quase nada resta do campo árabe sunita "moderado". Os poucos moderados que sobraram temem por suas posições e estão ocupados tentando manter a estabilidade na arena interna. Contra esse pano de fundo, vemos navios de guerra iranianos sendo despachados para a região via Canal de Suez, carregando não apenas uma mensagem militar, mas também recados políticos e estratégicos. Além disso, os acontecimentos recentes bloquearam eficientemente o pan-arabismo e o estabelecimento de um campo árabe moderado unificado que pudesse servir como um contrapeso ao campo iraniano rejeicionista e provocador. Com a derrota imposta pelo Ocidente ao último símbolo do arabismo e do poderio árabe - Sadam Hussein - não resta agora nenhum líder carismático árabe nem há a probabilidade de que apareça um a qualquer momento. Teerã apressa-se para preencher o vazio O Irã (e também a Turquia) agora busca preencher o vazio resultante, servindo como modelo islâmico de oposição e independência. Enquanto as nações sunitas provavelmente estarão preocupadas estabelecendo novos governos em seus países, o Irã continuará a salientar seu estilo islâmico próprio como uma estrutura ou um modelo ideológico e político total para o estabelecimento de uma nova ordem no Oriente Médio. As crenças pan-islâmicas, sejam de natureza iraniana ou turca, muito provavelmente permearão o novo Oriente Médio emergente. Ao mesmo tempo, o Irã também continuará a desenvolver atividades na África e na América do Sul (onde o Hezb'Allah, agente do Irã, aumentou suas atividades de contrabando de drogas para os Estados Unidos)[1] à medida que tenta desafiar o Ocidente também nessas frentes. O Irã acredita que o crescimento de movimentos populares de oposição aos regimes árabes sunitas (especialmente no Bahrein, vide abaixo) tem produzido condições que o capacitam a expandir mais sua própria influência regional. Ele espera aumentar o uso de sua força Al-Quds (uma unidade especial destinada a atividades subversivas e a "exportar" a revolução islâmica para além das fronteiras do Irã) em colaboração com o Hezb'Allah libanês para intensificar sua intromissão nos países árabes que atualmente estão passando por agitações internas. No passado, a subversão iraniana e os esforços para espalhar a doutrina xiita em países árabes encontraram oposição por parte das forças de segurança locais. Além do mais, os países que previamente continham o Hezb'Allah e o Hamas e promoviam o processo de paz (Egito, Arábia Saudita e Jordânia) agora ficaram enfraquecidos e estão preocupados com seus problemas domésticos, enquanto o Irã está cimentando vigorosamente seu status como líder do campo oposto ao processo de paz e à intervenção americana e ocidental na região. A imprensa iraniana vê a desestabilização de Israel Muitos porta-vozes e analistas iranianos vêem os recentes acontecimentos como um catalisador que leva à desestabilização de Israel na região, à luz do enfraquecimento da posição dos Estados Unidos e da perda de aliados regionais americanos, particularmente o Egito. De acordo com a imprensa iraniana, a Irmandade Muçulmana e outros grupos políticos no Egito devem agora expor o papel (negativo) dos Estados Unidos e de Israel em tudo o que está relacionado com (nas palavras deles): "os crimes de Mubarak contra o povo egípcio". Há outras afirmações de que o presidente Obama, para quem a revolução egípcia foi um duro golpe, está agora tentando, a quase qualquer preço, impedir que ela se espalhe rapidamente por outras áreas sob o governo de aliados da América. A imprensa iraniana - sempre altamente crítica dos governantes egípcios, que são vistos como responsáveis pela paz com Israel, convocou os novos líderes do Egito para tentarem "o doce experimento que muitas nações em todo o mundo estão observando" - de terem liberdade da influência do Ocidente.[2] Numa tendência semelhante, os jornais iranianos descrevem a queda dos regimes dependentes dos Estados Unidos como um golpe severo contra os americanos e Israel.[3] O chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas do Irã, major-general Sevved Hassan Firuzabadi, disse que a onda islâmica que está varrendo a região marca o início de um processo que terminará com a queda de Israel, e com os sionistas fugindo para seus países de origem. Ele acrescentou que os sinais de tal medo já são claramente visíveis no semblante dos líderes israelenses.[4] A grande erupção xiita Ao mesmo tempo, o Irã pode buscar explorar a atual fragilidade do mundo árabe sunita para estabelecer fortalezas xiitas em áreas árabes sunitas, embora suas aspirações nessa área sejam de modo geral encobertas. Da mesma forma, o Irã está aproveitando a libertação do Iraque pelos Estados Unidos - embora os xiitas iraquianos divirjam do modelo iraniano e geralmente exijam a separação entre a religião e o Estado - para restaurar o poder dos xiitas no mundo islâmico. O primeiro sucesso do Irã foi registrado no Líbano com o estabelecimento de um governo com o apoio do Hezb'Allah, seguido por ondas de protesto predominantemente no Bahrein xiita e no leste da Arábia Saudita. A mídia estatal do Irã em inglês (Press TV) e em árabe (Al-Alam News Network), ambas direcionadas a audiências não-iranianas, proporciona ampla cobertura dos acontecimentos e destaca os protestos nas áreas xiitas por todo o mundo árabe. Do cerco ao contra-ataque O abalo na ordem árabe tradicional reforça o sentido de justiça dos líderes iranianos em seu próprio sistema e causa. Depois que os Estados Unidos derrotaram o regime iraquiano em 2003, o Irã sentiu-se cercado, com o Afeganistão a leste, o Iraque ao sul, os Estados do Golfo também ao sul e o Azerbaijão ao norte. Ele agora se sente melhor em quebrar esse cerco e até mesmo em infiltrar-se nas regiões vizinhas tanto quanto em outras partes do mundo. Na verdade, Teerã se vê a caminho de completar um "cerco" regional a Israel - com o Hezb'Allah ao norte e o Hamas ao sul. O Irã também acredita que a Jordânia, ao leste, se unirá às ondas de protesto, marcando a queda de mais uma nação que assinou um tratado de paz com Israel. A missão islâmica histórica Em meses recentes, o presidente Mahmoud Ahmadinejad tem promovido freqüentemente o estilo iraniano do islamismo revolucionário como uma alternativa viável. Na conferência de imprensa no dia 23 de fevereiro, para marcar a apresentação de um supercomputador fabricado no Irã, Ahmadinejad anunciou que "o mundo está à beira de mudanças e acontecimentos globais enormes, desde a Ásia até a África, desde a Europa até a América do Norte". Ele também conclamou uma reestruturação do Ministério Iraniano do Exterior para se adaptar "à missão histórica da nação iraniana nos dias de hoje. Atualmente, precisamos de paixão, caráter e energia em nossa política externa. Precisamos empregar todas as nossas capacidades e talentos, e todas as novas idéias da revolução deveriam nortear e dirigir nossa política externa".[5] Em seu estilo messiânico, Ahmadinejad referiu-se a uma "onda imensa e crescente", afirmando que os acontecimentos no mundo árabe representam apenas uma parte disso e que "estamos esperando por aquele levante principal e pela grande onda que irá desarraigar todos aqueles enganos do mundo". Ele conclamou os líderes nacionais árabes a respeitarem o desejo do povo por reformas e mudanças: "Por que eles desempenham seu papel tão mal que o povo é forçado a pressioná-los e pedir por reformas?" Ele também criticou severamente o líder líbio Muammar Kaddafi[6] e condenou a dureza repugnante que Kaddafi adotou para reprimir seu povo: "Como um líder pode bombardear seu próprio povo e depois dizer que quem protestar será morto? Isso é inaceitável".[7] O Crescente Vermelho iraniano (equivalente à Cruz Vermelha) até se ofereceu para enviar ajuda ao povo líbio.[8] Ahmadinejad também falou criticamente sobre o Ocidente, acusando-o de tentar impedir o progresso e o desenvolvimento de outros países: "O pensamento materialista, tanto o representado pelo marxismo quanto o representado pelo capitalismo, ambos são a mesma coisa, mas a revolução islâmica do Irã renovou a principal identidade e a verdadeira natureza do povo. (...) Os líderes da arrogância estavam gritando que queriam abafar a revolução logo no início, mas agora a revolução pegou-os pela garganta em seus próprios palácios. Eles são inativos e estão se retraindo e se opõem ao povo livre que está se movendo em um caminho perfeito e os está pressionando".[9] A revolução islâmica como modelo A liderança iraniana vê os distúrbios nos países árabes como um "despertar islâmico no mundo árabe" contra todos os governantes árabes "despóticos", que são vistos como traidores da Revolução Islâmica iniciada por Khomeini, e exalta o poder de recuperação constante do Irã em face dos esforços do Ocidente de enfraquecer e comprometer sua independência.. Em um sermão de oração em uma sexta-feira, dia 4 de fevereiro, na Universidade de Teerã, o líder religioso aiatolá Sevved Ali Khamenei disse: "A nação iraniana está vendo por si mesma como sua voz é ouvida em outras regiões do mundo. Os eventos de hoje no Norte da África, no Egito e na Tunísia e em outros países têm outro sentido para a nação iraniana. Eles têm um sentido especial. (...) Isto é o mesmo que um 'despertar islâmico', que é resultado da vitória da grande revolução da nação iraniana". O líder iraniano se referiu à independência do Irã desde a revolução e sua não-dependência do Ocidente, dizendo: "O Xá costumava buscar aconselhamento dos Estados Unidos em todos os assuntos, o que significa dependência dos americanos". Falando sobre o levante no Egito, ele observou: "A nação egípcia sente-se humilhada devido ao apoio do regime de Hosni Mubarak a Israel e por seguir os Estados Unidos. (....) O sentimento por ser humilhada foi a razão para o levante da nação egípcia".[10] Ali Akbar Salehi, o ministro do Exterior iraniano, disse que a irrupção de um despertar islâmico por todo o Oriente Médio é o resultado direto da determinação e resistência demonstradas pelo Irã ao longo dos muitos anos de sua luta contra o Ocidente. Ele descreveu o levante do povo no Egito e na Tunísia e o protesto pró-democracia em andamento na Líbia e no Bahrein como milagres, tendo os 32 anos da revolução iraniana por detrás deles. Salehi teceu uma comparação entre a revolução iraniana de 1979 e os acontecimentos recentes no Oriente Médio e no Norte da África, afirmando que aquelas nações vêem o Irã como modelo a ser seguido.[11] O presidente do Majlis (Parlamento iraniano) declarou que as superpotências ocidentais não têm nenhum papel nas revoluções populares que estão acontecendo atualmente no Oriente Médio. Ele descreveu o enfraquecimento da influência dos Estados Unidos na região, dizendo que durante anos esse país apoiou regimes ditatoriais em todo o mundo, mas que agora deve se retirar em face dos levantes populares espalhados por todos os lugares, que representam um tipo do Dia do Julgamento para os Estados Unidos.[12] O chefe da cadeia nacional de notícias do Irã (IRIB) disse que "os slogans, as inclinações e as exigências das pessoas durante os levantes no Norte da África e no Oriente Médio foram todos inspirados pela Revolução Islâmica (do Irã). (...) O que é mais importante é que o Irã de hoje se tornou um modelo para os povos daqueles países, a respeito dos quais os ocidentais estão muito amedrontados. Os políticos, escritores e analistas do Ocidente também já reconheceram essa influência em suas falas e artigos".[13] Em casa, o Irã conseguiu com sucesso conter à força o protesto público que novamente ameaçava surgir, seguindo os levantes internos no mundo árabe. O Majlis publicou uma declaração, observando: "Os lamentáveis incidentes que aconteceram na Líbia, no Iêmen, no Bahrein e no Marrocos, e a matança desapiedada de pessoas por governantes despóticos são reminiscentes dos crimes perpetrados por todos os ditadores que tentaram permanecer no poder em toda a história. (...) Nós, os representantes da grande nação iraniana, condenamos esses crimes e mais uma vez anunciamos que apoiamos fortemente as campanhas das nações islâmicas".[14] Primeiro, nós tomamos o Bahrein Os recentes sucessos do Irã, a crescente confiança e o progresso em direção à obtenção de armas nucleares, inspiram esperança nos corações das populações xiitas oprimidas em todo o mundo árabe, especialmente no Bahrein e no leste da Arábia Saudita. O Irã está investindo recursos para agilizar essa atividade, com um foco na força Revolucionária da Guarda Al-Quds. Os ativistas libaneses do Hezb'Allah também estão trabalhando em favor do Irã no Iraque, nos Estados do Golfo e no Egito, para disseminar a mensagem xiita e animar os xiitas a se oporem aos regimes, enquanto também tentam converter os sunitas ao xiismo. Nesse contexto, o Bahrein representa a zona vulnerável e desprotegida. Uma série de destacados analistas iranianos se referiu ao Bahrein no passado como a 14ª província iraniana, inclusive Ali Akbar Nateq-Nuri, presidente anterior do Majlis iraniano, e Hossein Shriatmadari, editor-chefe do jornal conservador Kayhan, que está próximo ao líder iraniano.[15] O Irã reivindicou soberania sobre o reino da ilha de Bahrein uma vez que esse reino esteve sob o governo persa durante dois séculos, começando em 1602. Quando a Grã-Bretanha decidiu retirar suas tropas do Golfo em 1968, o Irã renovou sua reivindicação de soberania, mas em um plebiscito realizado em 1970, patrocinado pelas Nações Unidas, os residentes da ilha decidiram pela independência em vez da anexação ao Irã. Em 1971, o Bahrein foi reconhecido como um país independente. Depois disso, o Xá abandonou as reivindicações persas, mas elas têm sido ouvidas novamente desde a Revolução Islâmica no Irã. Mubarak, [então] presidente do Egito, visitou o Bahrein em 2008 para expressar seu apoio contra um histórico de ameaças iranianas. A família real sunita do Bahrein teme repetidos atentados de desestabilização pelo Irã, usando elementos xiitas da oposição. Os xiitas representam mais de 70% da população do Bahrein, alguns dos quais são árabes e outros são persas. Todavia, eles não estão colocados em nenhuma posição de poder nem têm influência sobre o que acontece no reino. Alguns foram aprisionados no ano passado, em uma ação preventiva, pelas forças de segurança. Em duas ocasiões, o Bahrein acusou o Irã de subversão no seu território: em 1996, o reino desmascarou um grupo local do Hezb'Allah que se auto-denominava Ala Militar do Hezb'Allah-Bahrein, deteve muitos de seus participantes e deportou alguns deles. Reclamações semelhantes surgiram em 1981, quando o Bahrein desmascarou a Frente Islâmica Para a Libertação do Bahrein, que tentava realizar um golpe de Estado em seu território. Agora, à luz das recentes mudanças no mundo árabe, da fraqueza dos líderes árabes e da renovação do protesto no Bahrein, o reino teme uma combinação do envolvimento iraniano mais forte e de manifestantes altamente motivados como um produto secundário do momento de protesto em outras nações árabes. A Quinta Frota Americana tem seu quartel-general no Bahrein, servindo como base para defender os Estados do Golfo da ameaça iraniana. Os Estados Unidos insistiram com os líderes do Bahrein para que continuem a promover reformas e processos democráticos no reino. Mas, ao mesmo tempo, eles temem um cenário ao estilo do Egito, com a perda dessa importante base no Golfo Pérsico. O Irã vem realizando exercícios navais nas águas do Golfo em anos recentes, enquanto continua a manter grupos ocultos para ações de terrorismo e para uma insurreição no Bahrein e em outras nações do Golfo, aguardando o momento para dar a ordem de um impulso nas atividades subversivas iranianas naqueles países. Teerã sente que agora é o momento certo para intensificar sua intervenção nos eventos dos Estados do Golfo, especialmente entre a população xiita. Na vizinha Arábia Saudita há um crescente medo de um desafio xiita maior ao reino. Uma mudança de regime no Bahrein poderia resultar em maior marginalização dos Estados Unidos no Golfo e em posterior reforço do status do Irã como uma força-chave na região, representando uma ameaça intrínseca aos pequenos Estados do Golfo. Em suma, o colapso da antiga ordem árabe nos países sunitas moderados do Oriente Médio é, pelo menos em curto ou médio prazo, favorável a Teerã e tem melhorado significativamente o status geo-estratégico daquele país e sua habilidade de promover uma agenda ambígua, que o Irã define como "uma mudança no equilíbrio regional". Ele está aproveitando a atual comoção do mundo árabe e a confusão do Ocidente para intensificar sua intervenção e sua influência por toda a vizinhança no Golfo Pérsico, assim como por outras regiões que estavam anteriormente sob a influência dos Estados Unidos e do Ocidente, enquanto explora também os recursos do Hezb'Allah, da Síria e do Hamas. Michael (Mickey) Segall, tenente-coronel (da reserva) das FDI (Forças de Defesa de Israel), é especialista em questões estratégicas, com enfoque no Irã, em terrorismo e no Oriente Médio. (Jerusalem Center for Public Affairs - www.jcpa.org - www.Beth-Shalom.com.br) Notas: 1. http://liveshots.blogs.foxnews.com/2011/02/21/hezbollah-working-with-cartels/. 2. Resalat, 20 de fevereiro de 2011. 3. Quds, 24 de fevereiro de 2011. 4. "Iran", 26 de fevereiro de 2011. 5. Voice of the Islamic Republic of Iran [Voz da República Islâmica do Irã], 31 de janeiro de 2011. 6. IRINN, 23 de fevereiro de 2011. 7. IRINN, 23 de fevereiro de 2011. 8. IRNA, 23 de fevereiro de 2011. 9. Fars News Agency [Agência de Notícias Fars], 5 de fevereiro de 2011. 10. http://www.irna.ir/ENNewsShow.aspx?NID=30222191. 11. http://presstv.com/detail/166867.html. 12. IRNA, 25 de fevereiro de 2011. 13. http://www.presstv.ir/detail/167002.html 14. Mehr News, 23 de fevereiro de 2011. 15. Em julho de 2007, o editor do Kayhan chamou o Bahrein de uma província iraniana. "Os governos dos Estados do Golfo foram estabelecidos como resultado da intervenção direta da arrogância mundial (do Ocidente) e são acusados por suas populações de colaboração com a entidade sionista. (...) Eles sabem que o terremoto que aconteceu no Irã (a Revolução Islâmica), mais cedo ou mais tarde, ocasionará o colapso de seus regimes ilegais". Em um outro artigo, o editor escreveu: "Algumas décadas atrás, o Bahrain era uma província iraniana, mas se separou do Irã por causa do acordo assinado entre o Xá e os governos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha". Publicado na revista Notícias de Israel 4/2011 - http://www.Beth-Shalom.com.br

domingo, 24 de abril de 2011

Mensagem de Páscoa de Bento XVI

ZP11042405 - 24-04-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27814?l=portuguese

“Na vossa Ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra”

CIDADE DO VATICANO, domingo, 24 de abril de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos a mensagem de Páscoa que Bento XVI dirigiu do balcão central da Basílica de São Pedro ao meio-dia deste Domingo da Ressurreição.
* * *
«In resurrectione tua, Christe, coeli et terra laetentur – Na vossa Ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra» (Liturgia das Horas).
Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro!
A manhã de Páscoa trouxe-nos este anúncio antigo e sempre novo: Cristo ressuscitou! O eco deste acontecimento, que partiu de Jerusalém há vinte séculos, continua a ressoar na Igreja, que traz viva no coração a fé vibrante de Maria, a Mãe de Jesus, a fé de Madalena e das primeiras mulheres que viram o sepulcro vazio, a fé de Pedro e dos outros Apóstolos.
Até hoje – mesmo na nossa era de comunicações supertecnológicas – a fé dos cristãos assenta naquele anúncio, no testemunho daquelas irmãs e daqueles irmãos que viram, primeiro, a pedra removida e o túmulo vazio e, depois, os misteriosos mensageiros que atestavam que Jesus, o Crucificado, ressuscitara; em seguida, o Mestre e Senhor em pessoa, vivo e palpável, apareceu a Maria de Magdala, aos dois discípulos de Emaús e, finalmente, aos onze, reunidos no Cenáculo (cf. Mc 16, 9-14).
A ressurreição de Cristo não é fruto de uma especulação, de uma experiência mística: é um acontecimento, que ultrapassa certamente a história, mas verifica-se num momento concreto da história e deixa nela uma marca indelével. A luz, que encandeou os guardas de sentinela ao sepulcro de Jesus, atravessou o tempo e o espaço. É uma luz diferente, divina, que fendeu as trevas da morte e trouxe ao mundo o esplendor de Deus, o esplendor da Verdade e do Bem.
Tal como os raios do sol, na primavera, fazem brotar e desabrochar os rebentos nos ramos das árvores, assim também a irradiação que dimana da Ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana, a cada expectativa, desejo, projecto. Por isso, hoje, o universo inteiro se alegra, implicado na primavera da humanidade, que se faz intérprete do tácito hino de louvor da criação. O aleluia pascal, que ressoa na Igreja peregrina no mundo, exprime a exultação silenciosa do universo e sobretudo o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela sua infinita bondade, beleza e verdade.
«Na vossa ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra». A este convite ao louvor, que hoje se eleva do coração da Igreja, os «céus» respondem plenamente: as multidões dos anjos, dos santos e dos beatos unem-se unânimes à nossa exultação. No Céu, tudo é paz e alegria. Mas, infelizmente, não é assim sobre a terra! Aqui, neste nosso mundo, o aleluia pascal contrasta ainda com os lamentos e gritos que provêm de tantas situações dolorosas: miséria, fome, doenças, guerras, violências. E todavia foi por isto mesmo que Cristo morreu e ressuscitou! Ele morreu também por causa dos nossos pecados de hoje, e também para a redenção da nossa história de hoje Ele ressuscitou. Por isso, esta minha mensagem quer chegar a todos e, como anúncio profético, sobretudo aos povos e às comunidades que estão a sofrer uma hora de paixão, para que Cristo Ressuscitado lhes abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz.
Possa alegrar-se aquela Terra que, primeiro, foi inundada pela luz do Ressuscitado. O fulgor de Cristo chegue também aos povos do Médio Oriente para que a luz da paz e da dignidade humana vença as trevas da divisão, do ódio e das violências. Na Líbia, que as armas cedam o lugar à diplomacia e ao diálogo e se favoreça, na situação actual de conflito, o acesso das ajudas humanitárias a quantos sofrem as consequências da luta. Nos países da África do Norte e do Médio Oriente, que todos os cidadãos – e de modo particular os jovens – se esforcem por promover o bem comum e construir um sociedade, onde a pobreza seja vencida e cada decisão política seja inspirada pelo respeito da pessoa humana. A tantos prófugos e aos refugiados, que provêm de diversos países africanos e se vêem forçados a deixar os afectos dos seus entes mais queridos, chegue a solidariedade de todos; os homens de boa vontade sintam-se inspirados a abrir o coração ao acolhimento, para se torne possível, de maneira solidária e concorde, acudir às necessidades prementes de tantos irmãos; a quantos se prodigalizam com generosos esforços e dão exemplares testemunhos nesta linha chegue o nosso conforto e apreço.
Possa recompor-se a convivência civil entre as populações da Costa do Marfim, onde é urgente empreender um caminho de reconciliação e perdão, para curar as feridas profundas causadas pelas recentes violências. Possa encontrar consolação e esperança a terra do Japão, enquanto enfrenta as dramáticas consequências do recente terremoto, e demais países que, nos meses passados, foram provados por calamidades naturais que semearam sofrimento e angústia.
Alegrem-se os céus e a terra pelo testemunho de quantos sofrem contrariedades ou mesmo perseguições pela sua fé no Senhor Jesus. O anúncio da sua ressurreição vitoriosa neles infunda coragem e confiança.
Queridos irmãos e irmãs! Cristo ressuscitado caminha à nossa frente para os novos céus e a nova terra (cf. Ap 21, 1), onde finalmente viveremos todos como uma única família, filhos do mesmo Pai. Ele está connosco até ao fim dos tempos. Sigamos as suas pegadas, neste mundo ferido, cantando o aleluia. No nosso coração, há alegria e sofrimento; na nossa face, sorrisos e lágrimas. A nossa realidade terrena é assim. Mas Cristo ressuscitou, está vivo e caminha connosco. Por isso, cantamos e caminhamos, fiéis ao nosso compromisso neste mundo, com o olhar voltado para o Céu.
Boa Páscoa a todos!
[Tradução distribuída pela Santa Sé

domingo, 10 de abril de 2011

Sudão: bispo diz que violência não deterá independência


ZP11040805 - 08-04-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27692?l=portuguese
Pede promoção da educação para formar a sociedade

CARTUM, sexta-feira, 8 de abril de 2011 (ZENIT.org) - O bispo auxiliar de Cartum afirma que a violência que já custou centenas de vidas não impedirá os planos de independência do Sul do Sudão.
Há relatos de centenas de mortes nas últimas semanas devido a conflitos entre os rebeldes e o Exército do Sul do Sudão, enquanto a região se prepara para tornar-se Estado independente em julho.

O bispo auxiliar Daniel Adwok Kur contou a ‘Ajuda à Igreja que Sofre’ (AIS) que tem havido uma grande quantidade de episódios de violência no contexto do referendo de janeiro, em que 98% da população do Sul do Sudão votou pela independência do Norte.

O bispo chamou o governo a abordar as causas do conflito desde a raiz. “Seria melhor sentar e discutir as questões. Temos de perguntar às pessoas qual é a raiz da tensão”.

Dom Adwok assinalou a necessidade de ajudar milhares de refugiados que estão viajando de Norte para o Sul. Estima-se que 750.000 pessoas chegaram ao Sul da nação desde o agosto passado.

O bispo considera que a prioridade é trabalhar com a população no âmbito da educação.

“A Igreja sempre reconheceu que a formação humana e a educação estão no coração da formação de uma sociedade sadia. A promoção de escolas com uma clara identidade cristã é muito importante tanto para o Sul quanto para o Norte”.

O prelado destacou que, apesar de muitas famílias estarem deixando Cartum (região Norte), algumas permanecem em suas casas com a esperança de que o governo de caráter islamita não mantenha as políticas anti-cristãs.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Queima do Alcorão nos EUA enfurece Afeganistão

ZP11040407 - 04-04-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27657?l=portuguese
Onda de violência atinge o país

Por Paul de Maeyer

ROMA, segunda-feira, 4 de abril de 2011 (ZENIT.org) - A "tempestade perfeita" causada pelos pastores evangélicos americanos Terry Jones e Wayne Sapp, que, após um breve "julgamento", queimaram em público, em 20 de março, uma cópia do Alcorão em Gainesville (Flórida), continua ceifando vidas.
O epicentro da ira muçulmana foi neste fim de semana, no Afeganistão, onde uma onda de manifestações e protestos de grupos muçulmanos locais terminou com um resultado terrível: 20 pessoas mortas, incluindo 7 estrangeiros que trabalhavam para as Nações Unidas, e dezenas de feridos.
A violência explodiu na sexta-feira, 1º de abril, na província setentrional de Balkh, quando, na cidade de Mazar-i-Sharif - considerada relativamente calma -, uma turba enfurecida invadiu a sede da ONU depois da oração no famoso santuário da Mesquita Azul (o nome da cidade significa "Nobre Santuário").
Tendo atacado e desarmado os seguranças, que haviam recebido a ordem de não atacar, os manifestantes destruíram os escritórios e começou a caça aos funcionários no prédio. Alguns deles, que tentaram se refugiar em um ‘bunker', também foram mortos. Trata-se de três funcionários europeus da ONU, incluindo uma mulher, a norueguesa Siri Skare. Os outros dois europeus são Joakim Dungel e Filaret Motco, de nacionalidade sueca e romena, respectivamente. Pelo menos 4 manifestantes foram mortos durante o assalto, bem como 4 guardas de segurança nepaleses (ex Ghurka) da ONU.
A Missão das Nações Unidas de Assistência ao Afeganistão (UNAMA) está presente no país da Ásia Central desde 2002 e atualmente é dirigida pelo diplomata sueco Staffan de Mistura, nomeado enviado especial pelo secretário-geral, Ban Ki-moon, em janeiro de 2010. A missão está dividida em 8 escritórios regionais e 15 escritórios provinciais, e emprega 1.500 pessoas; quase 80% delas são afegãs. O ataque de sexta-feira foi o mais sangrento realizado contra a ONU no país.
No último sábado, 2 de abril, houve uma manifestação na cidade sulista de Kandahar. Segundo o ‘New York Times', milhares de manifestantes, entre os quais havia pessoas armadas, haviam se infiltrado na marcha, incendiaram em primeiro lugar uma escola secundária para meninas, financiada pelos Estados Unidos - a ‘Zarghona Ana High School for Girls'; em seguida, incendiaram carros e um ônibus; quando tentaram chegar ao escritório local da Organização das Nações Unidas, intervieram forças de segurança afegãs, que abriram fogo. Embora o chefe da polícia provincial, Khan Mohammad Mojayed, tenha negado que seus homens atiraram diretamente contra os manifestantes, também em Kandahar falamos de um resultado terrível: pelo menos 9 mortos e 90 feridos.
Enquanto isso, houve manifestações mais pacíficas, no domingo 3 de abril, em Jalalabad; e nos dias passados, na capital Cabul, na cidade ocidental de Herat e na província de Takhar.
Segundo um porta-voz do governo da província de Balkh, Sher Jan Durani, entre 20 manifestantes detidos após os distúrbios na cidade de Mazar-i-Sharif, havia várias pessoas armadas. O suposto cérebro por detrás da violência - assim especificou o número dois da polícia da província, Rawof Taj - é da província de Kapisa, um reduto da insurgência. E em Kandahar, alguns manifestantes agitaram bandeiras brancas, a cor do movimento talibã, tal como referido pelo ‘Washington Post'. Por outro lado, o movimento fundamentalista negou seu envolvimento. Também o diretor da missão da ONU no Afeganistão acusou o movimento dos talibãs ou grupos de insurgentes afiliados aos chamados "estudantes".
Por sua vez, o presidente americano, Barack Obama, expressou suas condolências às famílias das vítimas do assalto e definiu a recente queima do Alcorão como "um ato de extrema intolerância e de fanatismo". Ao mesmo tempo, pode-se ler num comunicado da Casa Branca que o gesto de Jones e Sapp não justifica a matança de pessoas inocentes, que "é repugnante e uma afronta à decência e à dignidade humana" (‘Associated Press', 2 de abril).
Mas Terry Jones não demonstrou arrependimento. Inclusive o pastor da ‘Dove World Outreach Center ‘- uma pequena igreja evangélica fundada em 1986 - aumentou a dose. "Devemos considerar esses países e essas pessoas responsáveis ​​por tudo aquilo que fizeram e de qualquer desculpa que usaram para promover suas atividades terroristas. Chegou a hora de responsabilizar o Islã", disse (‘The Daily Mail', 2 de abril). "O Islã não é uma religião de paz", continuou ele, convidando o governo dos EUA e as Nações Unidas a tomarem medidas contra aqueles que espalham o ódio contra os cristãos e as minorias.
Em qualquer caso, para a BBC, que na sexta-feira publicou um perfil de Jones, o pastor já era uma pessoa problemática antes de seu polêmico projeto do "Burn a Koran Day". Antes de assumir a liderança do ‘Dove World Outreach Center', Jones havia fundado, em Colônia (Alemanha), uma igreja evangélica - a ‘Christliche Gemeinde Köln' - que abandonou por causa das divergências em 2008. Um tribunal administrativo falhou contra Jones em 2002, pelo uso indevido do título de "doutor". O pastor também foi acusado pela própria filha, Emma Jones, e por um ex-membro de sua igreja de abusos financeiros. O pastor também teve problemas com as autoridades fiscais da Flórida, por violar o status de isenção fiscal que a sua igreja tem.
Para a missão da ONU e as forças internacionais presentes no Afeganistão, a nova violência é fonte de preocupações. Enquanto a transferência da responsabilidade da segurança para os afegãos deveria estar concluída antes de 2014, há pouco mais de uma semana, o presidente Hamid Karzai anunciou que certamente a cidade de Mazar-i-Sharif será uma das primeiras áreas a voltar sob o controle do Afeganistão. A transferência das indicações deveria ocorrer no próximo dia 1º de julho, como observado pela agência ‘France-Presse' (3 de abril).