A falsa fábula da transmissão do saber antigo pelos árabes
“Se acreditarmos nos manuais, os de ontem e mais ainda nos de hoje, a herança da Grécia e de Roma foi completamente ignorada no nosso mundo ocidental, desde a queda do Império Romano até a “Renascença”: mil anos de obscurantismo!
“Afirma-se, no mesmo embalo, que os autores de Antiguidade não foram conhecidos senão por intermédio dos Árabes, únicos capazes de explorar e transmitir essa cultura que nossos clérigos menosprezavam.
“Esses livros falam a vontade dos sábios e dos tradutores de Toledo que no tempo dos califas de Córdoba teriam estudado e teriam tornado conhecidos os autores antigos.
“Mas, eles se esquecem de lembrar que essa cidade episcopal, como muitas outras, e numerosos mosteiros, já no tempo dos reis bárbaros, e bem antes da ocupação muçulmana, era um grande centro de vida intelectual totalmente penetrado pela cultura antiga.
“Os clérigos que ficaram cristãos eram muito conscientes da importância de transmitir essa herança, e continuaram seus trabalhos pura e simplesmente sob os novos senhores.
Saladino incendeia uma cidade,
Chroniques de Guilhaume de Tyr, BNF“Querem nos fazer acreditar nas piores asneiras e mostram para nós os monges como copistas ignaros, só ocupados na transcrição dos textos sagrados, obsedados em jogar no fogo preciosos manuscritos dos quais nada podiam compreender.
“Entretanto, testemunha alguma nos tempos obscuros da Idade Média viu alguma vez uma biblioteca entregue às chamas e são numerosos os que, pelo contrário, falam de mosteiros reunindo importantes coleções de textos antigos.
“É evidente que os grandes centros de estudo gregos não se situavam de maneira alguma em terra de Islã, mas em Bizâncio. (…)
“Não há sequer indício na Igreja, nem no Oriente nem no Ocidente, de qualquer tipo de fanatismo, enquanto que os muçulmanos eles próprios relatam numerosos exemplos do furor de seus teólogos e de seus chefes religiosos contra os estudos profanos.(…)
“Os 'árabes' certamente procuraram menos e estudaram menos os autores gregos e romanos que os cristãos.
“Os ocidentais não tinham necessidade alguma da ajuda dos árabes porque dispunham em seus países de coleções de textos antigos, latinos e gregos, reunidos no tempo do império romano e que tinham permanecido nos locais originais.
“Sob todo ponto de vista, era em Bizâncio e não nos “árabes” que os clérigos de Europa iam aperfeiçoar seu conhecimento da Antiguidade.
“As peregrinações na Terra Santa, os Concílios Ecumênicos, as viagens de prelados a Constantinopla mantinham e reforçavam toda espécie de contatos intelectuais.
“Na Espanha dos visigodos, os mosteiros, as escolas episcopais, os reis e os nobres recolhiam os livros antigos em suas bibliotecas.
“A Espanha servia de etapa na rota marítima rumo à Armorique (Bretanha) e à Irlanda onde os monges, lá também, estudavam os textos profanos da Antiguidade.
“Pode se esquecer que os Bizantinos, nos anos 550, reconquistaram e ocuparam a Itália toda, as províncias marítimas da Espanha e uma boa parte do que fora a África romana?
“Que Ravenna ficou grega durante mais de duzentos anos e que os italianos chamaram essa região de Romagna, a terra dos romanos, quer dizer dos bizantinos, herdeiros do império romano?
“Também nada é dito sobre o papel dos mercadores da Itália, da Provence ou da Catalunha que desde os anos mil freqüentavam regularmente os portos do Oriente, com mais freqüência Constantinopla que Cairo.
“Seria preciso imaginá-los como seres cegos, sem alma e sem cérebro, sem outra curiosidade senão suas especiarias?
“O esquema foi imposto, mas está errado.
“Apresentar os ocidentais como tributários das lições dadas pelos árabes é facciosismo e ignorância demais. Não é outra coisa senão uma fábula que reflete uma curiosa tendência para se denigrar a si próprio.”
(Fonte: Jacques Heers, Nouvelle Revue d’Histoire, n°1. Heers foi professor de História e ensinou nas Faculdades de Literatura e nas Universidades de Aix-en-Provence, Alger, Caen, Rouen, Paris X-Nanterre e Sorbonne (Paris IV). Foi Diretor do Departamento de Estudos Medievais da Universidade Paris-Sorbonne.)
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domingo, 27 de fevereiro de 2011
A falsa fábula da transmissão do saber antigo pelos árabes
Jacques Heers e o império islâmico na Idade Média
A CIVILIZAÇÃO DAS FEITORIAS COMERCIAISEsses estabelecimentos
muçulmanos contavam inicialmente somente cabanas cobertas de ramagens.
Mais tarde, enriquecem-se de fortalezas e casas de terra batida, grandes
palacios cercados de jardins. O mihrab da mesquita de Kizimkazi, na
ilha de Zanzíbar, que data de 1207, é o único vestígio arqueológico
importante conservado dos primeiros tempos da ocupação muçulmantí. Ibn
Battuta fornece todavia, em 1332, urna descrição entusiástica dos
monumentos de Kilwa, onde os persas haviam introduzido o gosto pelo
luxo, pelas sedas suntuosas.
Os Estados muçulmanos do mar, Estados piratas e mercantis, fortes em arsenais alimentados pelas madeiras do interior, tais como Mogadisque, Kilwa, Melinde, Mombosa, Pemba e Zanzíbar, devem sua fortuna principalmente ao tráfico longínquo para a Arábia, o Iraque e, mais ainda, para a Índia. Encontram-se, igualmente, nessas feitorias muçulmanos da África, moedas chinesas que datam do século VIII. Muito mais tarde, no inicio do século XV, expedições marítimas chinesas atingem, varias vezes, no tempo da dinastia Ming, essas costas da África oriental, comandadas alias por um muculmano do Junan, familiar da corte imperial e grande mestre da frota. Tais empreendimentos permanecen! porém sem conseqüências.
Do interior africano, os mercadores árabes obtinham inestimáveis recursos. Abasteciam os bantos de cereais, de carnes e de peixes secos; sua língua comercial, o swaheli, era então falada até no coração do continente, até no longínquo Congo. Eles traziam produtos da caca ou da pesca, o açucar de cana, então de excelente qualidade, o ferro das minas das montanhas de Sofala e dos planaltos de Melinde, as madeiras, as fibras têxteis para tecer velas ou cordames, os óleos de coco ou de palmeira, o ámbar cinzento, o marfim; mas principalmente o ouro e os escravos. As mais ricas minas de ouro situavam-se no reino banto da regiao atual de Vitoria, na Rodésia, não muito longe da célebre cidade de Zimbawe., Lá se tinham instalado, por volta do século XI, os povos negros bantos, provenientes do Oeste; eles trazem consigo urna nova cultura, chamada dos construtores, que expulsa a antiga, dita dos mineiros, dos indígenas de raça branca. Foi mais tarde o Monomatapa dos portugueses. Essas minas de ouro conheceram então urna atividade considerável: as escavações são ainda encontradas ao longo de mais de 600 quilômetros; a profundidade de alguns poços ultrapassava 30 m (W. G. L. Randles).
Quanto ao maléfico tráfico dos escravos, marcou ele profundamente, durante mais de mil anos, toda a vida dos países negros da África oriental. Antes mesmo do estabelecimento desses entrepostos comerciais, os árabes do golfo Pérsico — os da ilha de Keich no mar de Orna — faziam incursões desvastadoras ñas longínquas costas da regido dos Zendjs a fim de aprisionar jovens e enancas. A expansáo mugulmana provoca um considerovel aumento do tráfico desses escravos negros em direcáo a todas as provincias do Imperio,, do Cairo ao Irá. Este tráfico é constantemente alimentado por terríveis expedigoes dos mouros escravistas que, bem aprofundados no interior, até a regiáo dos Grandes Lagos, surpreendem as aldeias negras, massacram os defensores e levam os cativos acorrentados, em longos comboios, para as cidades da costa. Ai, os mercadores árabes em-barcavam homens e mulheres em seus navios, amontoando-os sobre dois ou tres assoalhos superpostos, mantendo-os de tal maneira apertados que só lhes era permitido conservarem-se deitados. Tais navios só atingiam o golfo Pérsico depois de cinco ou seis semanas de urna navegagáo me-donha; muitos dos cativos morriam de fome ou de epidemias. Mas este tráfico deixava aos árabes lucros consideráveis. Por causa disso despovoou essas provincias da África, tanto mais que algumas tribos guerreavom entre si para venderem os prisioneiros aos comerciantes.
Em recompensa, a ação civilizadora dessas feitorias muçulmanas no rumo do interior parece quase nula. (JACQUES HEERS, História Medieval)
Os Estados muçulmanos do mar, Estados piratas e mercantis, fortes em arsenais alimentados pelas madeiras do interior, tais como Mogadisque, Kilwa, Melinde, Mombosa, Pemba e Zanzíbar, devem sua fortuna principalmente ao tráfico longínquo para a Arábia, o Iraque e, mais ainda, para a Índia. Encontram-se, igualmente, nessas feitorias muçulmanos da África, moedas chinesas que datam do século VIII. Muito mais tarde, no inicio do século XV, expedições marítimas chinesas atingem, varias vezes, no tempo da dinastia Ming, essas costas da África oriental, comandadas alias por um muculmano do Junan, familiar da corte imperial e grande mestre da frota. Tais empreendimentos permanecen! porém sem conseqüências.
Do interior africano, os mercadores árabes obtinham inestimáveis recursos. Abasteciam os bantos de cereais, de carnes e de peixes secos; sua língua comercial, o swaheli, era então falada até no coração do continente, até no longínquo Congo. Eles traziam produtos da caca ou da pesca, o açucar de cana, então de excelente qualidade, o ferro das minas das montanhas de Sofala e dos planaltos de Melinde, as madeiras, as fibras têxteis para tecer velas ou cordames, os óleos de coco ou de palmeira, o ámbar cinzento, o marfim; mas principalmente o ouro e os escravos. As mais ricas minas de ouro situavam-se no reino banto da regiao atual de Vitoria, na Rodésia, não muito longe da célebre cidade de Zimbawe., Lá se tinham instalado, por volta do século XI, os povos negros bantos, provenientes do Oeste; eles trazem consigo urna nova cultura, chamada dos construtores, que expulsa a antiga, dita dos mineiros, dos indígenas de raça branca. Foi mais tarde o Monomatapa dos portugueses. Essas minas de ouro conheceram então urna atividade considerável: as escavações são ainda encontradas ao longo de mais de 600 quilômetros; a profundidade de alguns poços ultrapassava 30 m (W. G. L. Randles).
Quanto ao maléfico tráfico dos escravos, marcou ele profundamente, durante mais de mil anos, toda a vida dos países negros da África oriental. Antes mesmo do estabelecimento desses entrepostos comerciais, os árabes do golfo Pérsico — os da ilha de Keich no mar de Orna — faziam incursões desvastadoras ñas longínquas costas da regido dos Zendjs a fim de aprisionar jovens e enancas. A expansáo mugulmana provoca um considerovel aumento do tráfico desses escravos negros em direcáo a todas as provincias do Imperio,, do Cairo ao Irá. Este tráfico é constantemente alimentado por terríveis expedigoes dos mouros escravistas que, bem aprofundados no interior, até a regiáo dos Grandes Lagos, surpreendem as aldeias negras, massacram os defensores e levam os cativos acorrentados, em longos comboios, para as cidades da costa. Ai, os mercadores árabes em-barcavam homens e mulheres em seus navios, amontoando-os sobre dois ou tres assoalhos superpostos, mantendo-os de tal maneira apertados que só lhes era permitido conservarem-se deitados. Tais navios só atingiam o golfo Pérsico depois de cinco ou seis semanas de urna navegagáo me-donha; muitos dos cativos morriam de fome ou de epidemias. Mas este tráfico deixava aos árabes lucros consideráveis. Por causa disso despovoou essas provincias da África, tanto mais que algumas tribos guerreavom entre si para venderem os prisioneiros aos comerciantes.
Em recompensa, a ação civilizadora dessas feitorias muçulmanas no rumo do interior parece quase nula. (JACQUES HEERS, História Medieval)
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