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sábado, 16 de fevereiro de 2013

Doutorando em História na USP: "Quem não crê em Jesus Cristo permanece escravo" e Albert Einstein



Autorizados, transcrevemos abaixo email do Doutorando em História, da USP, José Miguel Nanni Soares, comentando texto e citando o pensador e historiador francês Alexis de Tocqueville, sobre a interdependência entre a liberdade e o cristianismo.

Aproveitamos para complementar com Albert Einstein, que, escrevendo sobre Ciência e Religião, para explicar a importância dos princípios cristãos, propôs o cumprimento de um enunciado que teria a religião retirada do contexto. As pessoas deveriam cumprir somente os princípios extraídos da religião, logo após email.

Excelentíssimo bispo Dom Luiz,

Que a Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Nossa Senhora de Fátima estejam sempre convosco em vossa corajosa atividade pastoril! Que a mesma sirva de exemplo para todos os católicos do Brasil.

Não podemos mais permitir o avanço de doutrinas desumanas que, sob o verniz de promoverem os direitos humanos e o progresso da humanidade, cortejam o ódio, o orgulho e, em última instância, a morte.

Na condição de doutorando em história pela USP, gostaria de pedir-vos licença para citar um grande autor que equilibrava dois valores em seus escritos, a saber, a Liberdade e o Cristianismo, razão pela qual não logrou sistematizar uma doutrina (como Marx e Comte).

Trata-se de Alexis de Tocqueville e a seguinte frase: "Se for livre, tem que crer [no Cristianismo]; se não crê, tem que ser escravo". Tocqueville não poderia estar mais certo. 

Alexis de Tocqueville

Do marxismo de Marx e Engels às seitas micróbicas de hoje, o verdadeiro inimigo desta seita não é o capitalismo, mas o Cristianismo e sua grande nave (palavras do genial Joseph de Maistre), a Igreja Católica.

Parabéns ao digníssimo Bispo, sempre presente em nossas orações!

Atenciosamente,
 José Miguel Nanni Soares 



Aproveitando a intervenção do futuro, em breve, Doutor José Miguel Nanni Soares, trazemos a interpretação do indiscutível Albert Einstein, que, ao tratar da relação entre Ciência e Religião, apresentou uma síntese maravilhosa dos princípios. 
"Quando Einstein foi tratar da relação entre Ciência e Religião, apresentou uma síntese maravilhosa dos princípios.
Disse ele que os mais elevados princípios e aspirações das pessoas do mundo contemporâneo são fornecidos pela tradição judaico-cristã.
Essa tradição é, na verdade, um objetivo bastante elevado que dificilmente o ser humano, repleto de imperfeições, atinge, mas, deveras, se apresenta como um fundamento seguro para qualquer construção humana.
Propôs o genial pensador que, se fosse retirado o contexto religioso desse objetivo e se se mantivesse dele o conteúdo puramente humano, poderia ele ser assim enunciado:

Albert Einstein
"...desenvolvimento livre e responsável do indivíduo, de tal modo que ele possa colocar seus poderes livre e prazerosamente, a serviço de toda a humanidade."  (Rizzato Nunes, "O Princípio Constitucional da Dignidade Humana", Saraiva, capítulo 2, "O princípio absoluto")
Tocqueville e Einsten foram conscientes que os princípios cristãos são imprescindíveis para fundamentar a vida da pessoa humana.

Naquela época, agora e sempre! 

SEXTA-FEIRA, 9 DE DEZEMBRO DE 2011

http://www.domluizbergonzini.com.br/2011/12/doutorando-em-historia-na-usp-quem-nao.html

sábado, 22 de outubro de 2011

Democracia normal e patológica

Parte 1 A patologia depende da fisiologia. Não é possível saber se um órgão está doente quando não se tem idéia de como ele deveria funcionar normalmente. O mesmo princípio vigora na análise política. Não se pode falar de uma doença política da democracia quando não se tem uma idéia clara do que é uma democracia normal. Felizmente para o estudioso, as democracias normais não somente existem, mas são mesmo as nações mais visíveis e influentes do mundo. Malgrado as forças patológicas que permanentemente as assaltam desde dentro e desde fora, e malgrado a inabilidade com que por vezes se defendem, essas democracias ainda exibem uma vitalidade invejável. A Inglaterra e os EUA são as mais antigas. Alguns países escandinavos consolidaram-se como democracias normais desde a segunda metade do século XIX. A Alemanha, a Itália e a França, após várias tentativas falhadas, só conseguiram se estabilizar nessa condição após o término da II Guerra Mundial. A democracia israelense nasceu junto com o próprio Estado de Israel, em 1947. As democracias normais mais novas são a Espanha, Portugal e alguns países do Leste Europeu libertados do jugo comunista no começo dos anos 90. Material para estudo e comparação, portanto, não falta. Só um cretino ou alguém interessado em confundir propositadamente as coisas pode ignorar o que é normalidade democrática, ou chamar por esse nome algo que não é nem democracia nem muito menos normal. Que é, no período histórico nascido desde a Revolução Americana, uma democracia política normal no Ocidente? Se o conceito genérico de "democracia" pode ser definido por traços meramente jurídico-formais como a existência de uma ordem constitucional, partidos políticos, liberdade de imprensa etc., a mera presença desses traços é comum às democracias saudáveis e as doentes. A normalidade do sistema democrático tem de ser aferida por diferenças substantivas que o mero formalismo não apreende. Normalidade democrática é a concorrência efetiva, livre, aberta, legal e ordenada de duas ideologias que pretendem representar os melhores interesses da população: de um lado, a "esquerda", que favorece o controle estatal da economia e a interferencia ativa do governo em todos os setores da vida social, colocando o ideal igualitário acima de outras considerações de ordem moral, cultural, patriótica ou religiosa. De outro, a "direita", que favorece a liberdade de mercado, defende os direitos individuais e os poderes sociais intermediários contra a intervenção do Estado e coloca o patriotismo e os valores religiosos e culturais tradicionais acima de quaisquer projetos de reforma da sociedade. Representadas por dois ou mais partidos e amparadas nos seus respectivos mentores intelectuais e órgãos de mídia, essas forças se alternam no governo conforme as favoreça o resultado de eleições livres e periódicas, de modo que os sucessos e fracassos de cada uma durante sua passagem pelo poder sejam mutuamente compensados e tudo concorra, no fim das contas, para o benefício da população. Entre a esquerda e a direita estende-se toda uma zona indecisa de mesclagens e transigências, que podem assumir a forma de partidos menores independentes ou consolidar-se como política permanente de concessões mútuas entre as duas facções maiores. É o "centro", que se define precisamente por não ser nada além da própria forma geral do sistema indevidamente transmutada às vezes em arremedo de facção política, como se numa partida de futebol o manual de instruções pretendesse ser um terceiro time em campo. Nas beiradas do quadro legítimo, florescendo em zonas fronteiriças entre a política e o crime, há os "extremismos" de parte a parte: a extrema esquerda prega a submissão integral da sociedade a uma ideologia revolucionária personificada num Partido-Estado, a extinção completa dos valores morais e religiosos tradicionais, o igualitarismo forçado por meio da intervenção fiscal, judiciária e policial. A extrema direita propõe a criminalização de toda a esquerda, a imposição da uniformidade moral e religiosa sob a bandeira de valores tradicionais, a transmutação de toda a sociedade numa militância patriótica obediente e disciplinada. Não é o apelo à violência que define, ostensivamente e em primeira instância, os dois extremismos: tanto um quanto o outro admitem alternar os meios violentos e pacíficos de luta conforme as exigências do momento, submetendo a frias considerações de mera oportunidade, com notável amoralismo e não sem uma ponta de orgulho maquiavélico, a escolha entre o morticínio e a sedução. Isso permite que forjem alianças, alternadamente ou ao mesmo tempo, com gangues de delinqüentes e com os partidos legítimos, às vezes desfrutando gostosamente de uma espécie de direito ao crime. Não é uma coincidencia que, quando sobem ao poder ou se apropriam de uma parte dele, os dois favoreçam igualmente uma economia de intervenção estatista. Isto não se deve ao slogan de que "os extremos se tocam", mas à simples razão de que nenhuma política de transformação forçada da sociedade se pode realizar sem o controle estatal da atividade econômica, pouco importando que seja imposto em nome do igualitarismo ou do nacionalismo, do futurismo utópico ou do tradicionalismo mais obstinado. Por essa razão, ambos os extremismos são sempre inimigos da direita, mas, da esquerda, só de vez em quando. A extrema esquerda só se distingue da esquerda por uma questão de grau (ou de pressa relativa), pois ambas visam em última instância ao mesmo objetivo. Já a extrema direita e a direita, mesmo quando seus discursos convergem no tópico dos valores morais ou do anti-esquerdismo programático, acabam sempre se revelando incompatíveis em essência: é materialmente impossível praticar ao mesmo tempo a liberdade de mercado e o controle estatal da economia, a preservação dos direitos individuais e a militarização da sociedade. Isso é uma vantagem permanente a favor da esquerda: alianças transnacionais da esquerda com a extrema esquerda sempre existiram, como a Internacional Comunista, o Front Popular da França e, hoje, o Foro de São Paulo. Uma "internacional de direita" é uma impossibilidade pura e simples. Essa desvantagem da direita é compensada no campo econômico, em parte, pela inviabilidade intrínseca do estatismo integral, que obriga a esquerda a fazer periódicas concessões ao capitalismo. Embora essas noções sejam óbvias e facilmente comprováveis pela observação do que se passa no mundo, você não pode adquiri-las em nenhuma universidade brasileira nem na leitura dos comentários politicos usuais, pois praticamente todo mundo que abre a boca para falar de política neste país, com exceções tão minguadas quanto inaudíveis, é parte interessada e beneficiária da confusão geral, a começar pelos professores universitários e comentaristas de mídia. No próximo artigo, aplicarei os conceitos aqui resumidos à análise da democracia brasileira. *** Fonte: Diário do Comércio Por Olavo de Carvalho

domingo, 3 de julho de 2011

A democracia favorece a religião?




Os países muçulmanos acham que não. Sua aversão a esse regime é notória. No dia em que se instalar um governo verdadeiramente democrático naquela região, adeus unidade religiosa daqueles povos. Hoje, por força de suas leis, e levados por suas práticas de grande imposição, em certas nações nem se admite que cristãos se vistam com trajes do país... No Brasil, aparentemente, o Império favorecia a religião católica.Desde o tempo da república, no entanto, a porcentagem de católicos entrou em constante declínio. Acabou a proteção do Estado, e entrou o conceito de Estado laico. Mas interpretado em sentido quase ateu, como no famoso "Programa Nacional de Direitos Humanos - 3" do governo anterior. Embora não se consiga apontar os países que tem verdadeiras democracias - quase todas são maquiadas - o fato é que em todas as chamadas democracias a religião católica tem extremas dificuldades para se manter. Por que seria isso?Quero alertar aos menos avisados de que sou a favor do "Estado Laico", e a favor dos regimes democráticos de governo. Mas fico perplexo diante do crescimento gigantesco do mal em todas as democracias. A instalação pacífica de qualquer entidade, que consiga convencer o público - mesmo sem o mínimo conteúdo de verdade - é progressiva. A democracia tem uma fraqueza congênita: ela não possui armas para se defender de seus inimigos, nem protege seus grupos internos, entregues à sanha dos mais espertos. Tem a intuição de que o povo, no seu conjunto, acaba acertando.  A religião católica é fraca no seio das democracias: não consegue se defender dos impérios econômicos; nem dos seus perseguidores. Nem ao menos tem força para desmascarar os ilusionistas da prosperidade e da saúde completas. Precisamos competir, sem ter armas. Só nos resta empatar muito na instrução, no aprofundamento da fé, e no exemplo da caridade fraterna. Somos, de fato, como pobres "ovelhas no meio de lobos" (Mt  10, 16). Sem eufemismos, não levamos vantagem diante da audácia da falsidade.***Dom Aloísio Roque Oppermann scj Arcebispo de Uberaba - MG

domingo, 15 de maio de 2011

Cristianismo, Humanismo e Democracia.

BENTO, Fábio Régio (Org) São Paulo: Paulus, 2005, ISBN: 8534924031. 294 p. por José J. Queiroz Pesquisar as relações entre cristianismo e democracia a partir de uma abordagem humanista é o objetivo desta obra. O organizador do livro, Fábio Régio Bento, na Introdução, busca definir o que é humanismo. O termo não pode ser definido em abstrato, mas adquire sentido dentro de um contexto social histórico determinado e a partir de fatos sociais. Ele recolhe as insatisfações da humanidade frente a determinadas situações históricas e indica a construção de valores humanos a partir do enfrentamento dessas situações. Valores preexistentes como os do cristianismo, da democracia, se anexam a essa construção, mas o ponto de partida é sempre a insatisfação, o confronto e a rebeldia frente a situações desumanizantes, que devem ser observadas, analisadas, avaliadas. O humanismo apóia-se na esperança de mudanças; o ponto de chegada são as mudanças sociais. Cristianismo e democracia: da soberania dos “pastores” à sabedoria das “ovelhas” é o título do primeiro capítulo de autoria do organizador da obra. Ele define a verdade moral em um contexto pluralista, e nesse mesmo contexto, estuda a relação entre natureza, cultura e verdade moral para depois focalizar a revolução das ovelhas, isto é, a passagem da tutela moral à soberania dialógica da consciência de sujeito. A inquisição entre justitia et misericórdia. Humanismo ou anti humanismo? ´é o tema do segundo capítulo, escrito por Geraldo Pieroni. Com a Bula do papa Paulo III – Meditatio Cordis – de 1543, instala-se em Portugal o Tribunal da Santa Inquisição e com ele a caça aos heréticos, que compreendiam cristãos novos, bígamos, feiticeiras, visionários, sodomitas, curandeiros, blasfemadores, padres falsos e sedutores, falsos testemunhos e transgressores dos segredos do Santo Ofício. O método era a pedagogia do medo que levou esses infelizes a uma longa degradação. O autor descreve os horrores da inquisição sob o signo da justiça, e também, sob o manto da misericórdia, vários casos em que as penas foram alteradas, comutadas e até perdoadas. Fé cristã e democracia, é o terceiro capítulo de autoria de Clodovis Boff que inicia tratando a problemática da relação entre teologia e democracia apontando “a democracia vivida” das bases populares, os desafios da democracia à reflexão teológica e oferece uma definição de democracia. Em seguida, trabalha o discernimento teológico da democracia, as bases antropológicas do ideal democrático a partir do ser humano. Essas bases são o Deus-comunhão, o poder serviço e as interpelações que essas categorias teológicas levantam ao ideal democrático. A cultura de democracia é trabalhada por João Batista Libâneo, no quarto capítulo. O autor pretende olhar a atual cultura democrática, como se vive entre nós, e refletir sobre ela à luz da fé cristã. Começa discorrendo sobre os limites da democracia formal eleitoral, focaliza o espírito democrático na relação entre os países no concerto das nações, as possibilidades de outras instâncias, como as religiões, que possuem experiências espirituais milenares e contribuem para a paz e a democracia em nível mundial. No horizonte último das aspirações humanas, o autor propõe a necessidade de repensar na conjuntura atual a tríade “liberdade, igualdade, fraternidade”, pois, embora ela continue sendo o maravilhoso ideal para a humanidade, há uma versão burguesa dos valores da Revolução Francesa em detrimento das imensas maiorias. A autor conclui apontando que a perspectiva cristã é crítica aos poderes atuais que se firmam na força, no saber monopolista, no dinheiro, na imposição e na concorrência desvairada e anuncia novas possibilidades utópicas para a humanidade. Agenor Brighenti trabalha, no quinto capítulo, o tema Pessoa- comunidade-sociedade: o trinômio da realização da vocação humana e cristã. Essa realização acontece no âmbito da pessoa, da comunidade. Daí a necessidade de analisar os caminhos que conduzem do individualismo ao coletivismo até chegar à personalização, e à visão da pessoa como horizonte da revolução judaico-cristã. A pessoas e a personalização se realizam na comunidade, que tem conotação peculiar no âmbito da revelação cristã e na esfera social. A doutrina social da Igreja e as orientações da CNBB – testemunho, serviço, diálogo, anúncio - são pistas preciosas para refazer o tecido social e enfrentar o escândalo da exclusão e da violência na sociedade contemporânea. Educadores do Reino de Deus é o tema abordado por Dom Murilo S.R. Krieger, no sexto capítulo. Trata da espiritualidade que deve animar os educadores do Reino de Deus, aos quais compete continuar a missão evangelizadora de Jesus. O autor lembra a importância da educação dos filhos de Deus e as dimensões da espiritualidade; percorre as etapas do processo educativo do povo de Deus na travessia do deserto sob o comando de Moisés; reflete sobre a essência do anúncio do Evangelho e se volta para os dias atuais, lembrando que a Igreja quer que os seus educadores busquem águas mais profundas e respondam aos anseios daqueles que querem ver Jesus. Elias Wolf, no sétimo capítulo, trabalha Humanismo e Religião. A relação entre essas duas realidades é profundamente complexa, dada a dificuldade de compreensão do que vem a ser religião e humanismo. Há, na hipótese do autor, uma intrínseca relação entre os dois termos, porém não imune de ambigüidades, que devem ser superadas. Depois de apontar as complexidades semânticas ínsitas nos conceitos de religião e humanismo, e as ambigüidades dessa relação, ele passa a indicar as vias de encontro, a via antropológica, a teológica, - detendo-se no diálogo inter-religioso – a via sociológica, na qual sobressai a cooperação inter-religiosa para a promoção do humanismo. Em Crença, Aceitação e Fé Pragmatista, título do oitavo capítulo. Felipe Müller investiga a noção de crença, depois a fé em geral, para chegar à fé pragmatista, na qual ele identifica várias características, tais como a aceitação de alguma proposição, de crer em alguém, de ter fé que alguma proposição seja verdadeira, de ter fé em alguém. Aplicando essas características ao campo religioso, a fé pragmatista pode incluir certas atitudes, por exemplo, aceitar que Deus existe, que é misericordioso e tenha outros atributos, que crê em Deus, que tenha fé que Ele retribui algumas de nossas atitudes, que tenha fé n’Ele a ponto de confiar-lhe a própria vida. No último capítulo, Selvino José Assmann discorre sobre O Direito à vida ameaçado. Diante da barbárie que continua sob nossos olhos, afirma o autor, citando Adorno, que “desbarbarizar tornou-se a questão mais urgente da educação hoje em dia”. O direito à vida é garantido a cada um pelo simples fato de ter nascido membro da espécie humana, independentemente da família, da condição econômica, social e política. Após esse preâmbulo, o autor passa a apontar as razões da nossa perplexidade atual, sendo a mais ampla a ligação perversa entre a produção globalizada da riqueza e a exclusão da maioria dos seres humanos. Os direitos humanos, tantas vezes declarados, continuam sendo ameaçados e violados. É preciso acreditar na possibilidade de derrotar a primazia do econômico que conduz à terrível desvalorização da vida e superar a mentalidade dominante segundo a qual não há alternativa à organização capitalista da sociedade nacional e internacional. Este breve garimpo pela obra permite concluir que se trata de um trabalho rico em informações e análises, que abrem horizontes e pistas para quantos queiram ter uma visão mais aprofundada das relações que interligam cristianismo, humanismo e democracia, e se disponham, na prática, a trabalhar para a construção de um humanismo inspirado nos princípios cristãos.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Sem princípios morais democracia é frágil, afirma Papa

LONDRES, 17 SET (ANSA) - O papa Bento XVI disse hoje que a base da democracia é frágil se for fundamentada só no consenso e se mostrou preocupado pela marginalização da fé na sociedade e na política, ao se reunir com representantes civis no Westminster Hall, sede do Parlamento britânico. "Se os princípios morais que sustentam o processo democrático não se fundamentam, a sua volta, em nada mais sólido que o consenso social, então a fragilidade do processo se mostra em toda a sua evidência", declarou o Pontífice, no segundo dia de sua visita de Estado ao Reino Unido, complementando que "aqui está o desafio real da democracia". Bento XVI elogiou a tradição legislativa britânica como modelo e "fonte de inspiração para muitos no mundo". "A Grã-Bretanha emergiu como uma democracia pluralista, que atribui um grande valor à liberdade de expressão, à liberdade de afiliação política e ao respeito ao Estado de Direito, com um forte sentido dos direitos e deveres dos cidadãos individuais, e da igualdade de todos os cidadãos frente à lei", completou. Em fevereiro, o Papa falou que normas a favor da igualdade de homossexuais batem de frente com o catolicismo ao "impor injustas limitações à liberdade da comunidade religiosa de agir de acordo com sua fé". Na época, estava em estudo no Parlamento britânico a lei Equality Bill, que obrigaria instituições católicas de adoção a conceder a guarda de crianças a casais formados por pessoas do mesmo sexo. O pronunciamento gerou muitos protestos no Reino Unido. Sobre sua preocupação quanto à "marginalização da religião, em particular do cristianismo", o chefe de Estado do Vaticano assinalou que essa mudança está se enraizando em "alguns ambientes e em nações que atribuem à tolerância um grande valor". "Há alguns que sustentam que a voz da religião deveria ser silenciada, ou relegada à esfera puramente privada", disse ele. "Estes são sinais preocupantes da incapacidade de colocar em posição justa não só os direitos dos fieis à liberdade de consciência e de religião, mas também o papel legítimo da religião na esfera pública", acrescentou. O Papa também falou sobre economia, afirmando que se há bancos e empresas "grandes demais para falir" que justificam os "vastos recursos" que "os governos estão em condição de recolher para salvá-los", como foi dito durante a recente crise, "certamente o desenvolvimento integral dos povos da terra não é menos importante: é uma companhia digna da atenção do mundo, verdadeiramente 'grande demais para falir'". De acordo com Bento XVI, para realizar uma "ação efetiva" são necessárias "ideias novas, que melhorem as condições de vida em áreas importantes, como a produção de alimento, o tratamento da água, a criação de postos de trabalho, a formação, a ajuda às famílias, especialmente aos imigrantes, e os serviços sanitários de base". Convidando expoentes da sociedade civil, política, cultural e empreendedores a "procurar os caminhos para promover e encorajar o diálogo entre as fés e razões a cada nível da vida nacional", o Pontífice falou dos "setores de interesse" nos quais o governo britânico "se comprometeu junto à Santa Sé", como a limitação do comércio de armas, a defesa dos direitos humanos, a promoção do desenvolvimento e a colaboração na "remissão do débito" no apoio financeiro aos países pobres. Bento XVI disse desejar buscar com o Reino Unido "novas estradas para promover a responsabilidade ambiental", o que tem sido uma das bandeiras de seu Pontificado. "Espero e rezo para que esta relação [bilateral] continue a render frutos e se reflita em uma crescente aceitação da necessidade de diálogo e respeito a todos os níveis da sociedade, entre o mundo da razão e o mundo da fé". Assistiram ao discurso do Papa, que foi muito aplaudido, os ex-primeiros-ministros britânicos Gordon Brown, Tony Blair, Margaret Thatcher e John Major, além do vice-premier Nick Clegg e do chanceler William Hague. Na ocasião, o líder máximo da Igreja Católica recordou a figura de São Tomás Moro, proclamado por João Paulo II patrono dos governantes e políticos, e que no mesmo Westminster Hall foi condenado por se recusar a aceitar o Ato de Supremacia do rei Henrique VIII, de quem era chanceler, que rompeu com a Santa Sé e criou a Igreja Anglicana em 1535.

Bento XVI apresenta lei natural como fundamento da democracia

ZP07100505 - 05-10-2007 Permalink: http://www.zenit.org/article-16342?l=portuguese Defesa necessária ante as ideologias e o relativismo CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 5 de outubro de 2007 (ZENIT.org).- Bento XVI fez um chamado a todas as consciências para redescobrir na lei natural o fundamento da convivência democrática e evitar assim que a opinião da maioria ou dos mais fortes se converta no critério do bem ou do mal. Em uma audiência aos membros da Comissão Teológica Internacional, que congrega alguns dos melhores teólogos de todos os continentes, o Papa quis tratar nesta sexta-feira do que considera como o antídoto para o «relativismo ético». A lei natural é, segundo explicou o Papa, essa «norma escrita pelo Criador no coração do homem» que lhe permite distinguir o bem do mal. Porém, reconheceu, «em muitos pensadores parece dominar hoje uma concepção positivista do direito. Segundo eles, a humanidade, ou a sociedade, ou de fato a maioria dos cidadãos se converte na fonte última da lei civil». «O problema que se propõe não é, portanto, a busca do bem, mas a do poder, ou melhor, a do equilíbrio de poderes», reconheceu ante os teólogos da Comissão que estão escrevendo um documento sobre a lei natural. «Na raiz desta tendência se encontra o relativismo ético, no qual alguns vêem inclusive uma das principais condições da democracia, pois o relativismo garantiria a tolerância e o respeito recíproco das pessoas», afirmou. Mas se fosse assim, continuou advertindo, «uma maioria composta em um momento se converteria na última fonte do direito». «A história demonstra com grande clareza que as maiorias podem errar – alertou. A verdadeira racionalidade não está garantida pelo consenso de uma maioria, mas somente pela transparência da razão humana ante a Razão criadora e pela escuta desta Fonte de nossa racionalidade.» Quando entram em jogo «as exigências fundamentais da dignidade da pessoa humana, de sua vida, da instituição familiar, da justiça da ordem social, ou seja, os direitos fundamentais do homem, nenhuma lei feita pelos homens pode tocar a norma escrita pelo Criador no coração do homem, sem que a sociedade seja afetada dramaticamente no que constitui seu fundamento irrenunciável», declarou. «A lei natural se converte deste modo em garantia oferecida a cada um para viver livremente e ser respeitado em sua dignidade, ficando livre de toda manipulação ideológica e de todo arbítrio ou abuso do mais forte.» «Ninguém pode se eximir desta exigência – continuou advertindo o Papa. Se por um trágico obscurecimento da consciência coletiva, o ceticismo e o relativismo ético chegassem a cancelar os princípios fundamentais da lei moral natural, a própria ordem democrática ficaria radicalmente ferida em seus fundamentos». «Contra este obscurecimento, que é a crise da civilização humana, antes inclusive que da cristã, é necessário mobilizar a todas as consciências dos homens de boa vontade, leigos ou pertencentes a religiões diferentes do cristianismo, para que juntos e de maneira concreta se comprometam a criar, na cultura e na sociedade civil e política, as condições necessárias para uma plena consciência do valor inegável da lei moral natural.» «Do respeito desta depende de fato o avanço dos indivíduos e da sociedade no caminho do autêntico progresso, em conformidade com a reta razão, que é participação na Razão eterna de Deus», concluiu o Papa.

O pensamento político de Bento XVI

João Caetano, presidente do CADC Foi como filósofo político e teólogo filosófico que Joseph Ratzinger, no período anterior à sua eleição como Papa, reflectiu sobre os conceitos políticos mais importantes do mundo ocidental: democracia, liberdade, governo e Estado, entre outros. Fê-lo em múltiplas obras e intervenções, durante dezenas de anos, revelando uma coerência notável, que se reflecte na sua actuação como Papa, sobretudo na Carta Encíclica “Deus é Amor”, de 2005. Não é contudo correcto classificar o percurso do actual Papa como político, porque ele nunca formulou um programa de acção política nem agiu politicamente. Foi como homem de fé e de pensamento que procurou determinar o significado da política e da democracia, e, por essa via, do direito, circunscrevendo a sua reflexão aos fundamentos da convivência humana. À semelhança de João Paulo II, o actual Papa vê a democracia como a forma mais adequada de organizar a política, mas assinala-lhe contradições e limitações graves no tempo presente, provocadas pela falta de conhecimento e observação, pelos agentes políticos, de fundamentos morais sólidos, que ele identifica como os valores absolutos do cristianismo. Segundo ele, tanto a organização como a actividade política devem fundamentar-se nos valores cristãos, porque foram eles que permitiram criar os laços sociais das sociedades ocidentais. A sua reflexão é actual e pertinente, não se afastando, no domínio dos factos, do que é aceite pela maioria dos filósofos políticos contemporâneos. Mas Ratzinger acrescenta um elemento, que decorre da sua condição de homem de fé, embora sempre numa atitude filosófica. A moralidade social tem como postulado, desde Kant, a existência de Deus, e este é um elemento que não pode ser ignorado. As democracias puramente formais vigentes, baseadas na regra da maioria e da minoria, criam “um direito governado pela estatística”. Mas a maioria não tem o direito de, só porque é maioria, definir o que é verdadeiro e justo, de acordo com os valores do momento e muito menos contra o sentimento verdadeiro das pessoas. Mas é isso que acontece realmente, e por isso denuncia aquilo a que chama “idolatria da democracia”, em que a legitimidade invocada pelos agentes políticos para as suas decisões é apenas a da maioria, sem qualquer vínculo externo ou conteúdo moral. Bento XVI perspectiva a relação entre a democracia e o cristianismo do seguinte modo: não existe verdadeira democracia sem fundamentos morais consensuais que permitam uma determinação livre da vontade das pessoas. Os fundamentos morais do cristianismo são, no plano racional, o que possibilita a harmonia social, pois são absolutos, pelo que devem ser assumidos explicitamente pelos ordenamentos político-jurídicos. De resto, a política é o reino do relativo, justificando-se a existência de diversidade de opiniões sobre a maior parte das matérias. Bento XVI duvida da existência de uma efectiva liberdade de escolha nos Estados democráticos contemporâneos, porque, segundo ele, a vontade dos eleitores é manipulada através da propaganda veiculada pela comunicação social, que faz parte de uma oligarquia que determina o que é moderno e progressista, o que devem pensar as pessoas. Essa oligarquia engloba a comunicação social, assim como grandes empresas e associações de interesses – os poderes fácticos da sociedade –, cujas actividades, ao contrário do que aconteceu em séculos precedentes, não são controladas pelas pessoas e põem em causa a representação democrática. Diante dos interesses organizados, o bem comum é hoje uma miragem, o que leva Ratzinger, hoje Papa, a perguntar se o sistema da maioria e da minoria será verdadeiramente um sistema de liberdade. A democracia funda-se na liberdade, que não é no entanto o direito de fazer o que se deseja mas o pressuposto de uma racional auto-determinação da vontade. O Papa é contra a “tirania da irracionalidade”, ao mesmo tempo que nega que o homem saiba sempre o que quer. O que vale para a liberdade vale, segundo ele, também para a democracia. Não existe democracia sem uma sentida e compreendida relação de interdependência entre os membros da colectividade política, o que explica o conceito de autoridade e lhe confere conteúdo, por exemplo em matéria social. Segundo o Papa, não é conforme à natureza humana uma acção ou decisão fundada no egoísmo e que separa o indivíduo, nas suas relações, da vontade dos outros. O homem em sociedade quer mais do que pode e nem sempre quer bem. Sob pena de se autodestruir, o homem deve aprender a harmonizar a sua vontade com a sua natureza racional. Ora a vontade da maioria não expressa sempre a vontade individual, por força da referida manipulação das consciências e das modas ou da própria pressão do mercado, sofrendo o homem contemporâneo que se julga livre “a influência da multidão”. “A subtil voz da consciência – escreveu Ratzinger quando era cardeal – é sufocada pelos gritos da multidão. A indecisão, o respeito humano conferem força ao mal”. Existe uma “ditadura da aparência”, que se manifesta na actividade política, “na qual em muitos casos o que realmente conta é o que “aparece” dos factos – aquilo que é afirmado, escrito, mostrado –, mais do que os factos em si mesmos”. Não existe hoje uma transferência do poder das pessoas para as instituições políticas, que não passam de “um poder indeterminado e sem rosto”. Diante da dissolução dos laços consolidados nas sociedades políticas, ao longo de milénios, por influência do cristianismo, as democracias são hoje “grandes sistemas anónimos” que capturaram a liberdade de auto-determinação das pessoas. A democracia baseada na maioria é uma “forma de relativismo moral”, que desemboca “na anarquia ou no totalitarismo”, se não houver uma sólida formação da consciência moral das pessoas. Este é o desafio que Bento XVI, como Papa que pensa, de modo inovador, a organização política, nos deixa para já, esperando-se mais desenvolvimentos no futuro. João Carlos Relvão Caetano, Presidente do CADC

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Resumo de Tocqueville

Tocqueville


Aléxis Charles Henri Clerel de Toquecville nasceu em Paris em 1805 e morreu em 1859. Como liberal convicto e politicamente atuante, Tocqueville, tanto na teoria como na prática, não deixou de oferecer sua parcela de contribuição para construção da nova sociedade democrática. Como teórico, deixou duas obras políticas que se tornaram clássicas, e, como ativista no mundo da política, atuou como membro do magistrado, depois, como membro do parlamento e, ainda, como secretário de assuntos estrangeiros. Descontente com os novos rumos políticos da França no período na Restauração e, em protesto ao golpe de Estado de Luís Bonaparte (1808-1873), Tocqueville abandonou a vida política e passou a se dedicar ao estudo da vida social, particularmente, aos estudos históricos. Entre a pequena – mas nem por isso irrelevante – produção intelectual de Tocqueville, duas obras importantes têm acentuado destaque: Democracia na América, publicada em 1834 e O Antigo Regime e a Revolução, publicada em 1856 (ZEVEDEI, 1989, p. 12-13).

O método de análise utilizado por Tocqueville em seus estudos – tanto sobre a vida política dos americanos como a vida política dos franceses – tem as suas peculiaridades em relação aos métodos utilizados pelos Antigos – Platão e Aristóteles – e pelos Modernos – Hobbes e Rousseau. Enquanto esses pensadores partem de princípios gerais elaborados por meio da razão e ou da generalização indutiva para analisar a vida social e política e prescrever como ela deveriam ser, Tocqueville, ao contrário, se ateve em descrever as realidades sociais que estudava e em mostrar os condicionamentos históricos do fenômeno político e suas tendências evolutivas.

No desenvolvimento dessa abordagem analítica, Tocqueville procurou destacar, conforme os propósitos de seus estudos, as características relevantes de seu objeto de estudo para construir o seu referencial teórico e, a partir daí, estabelecer as relações causais por meio da comparação entre as diversas realidades políticas. Com o primeiro procedimento, então, Tocqueville construiu o conceito de democracia destacando a liberdade e a igualdade como suas características básicas. Com base na noção de igualdade como elemento fundamental da democracia, Tocqueville pôde realizar as comparações entre a natureza da democracia americana, inglesa e francesa, tanto em seu estudo sobre a democracia na América, como em seu estudo sobre a relação entre o absolutismo e a Revolução Francesa.

Em a Democracia na América, ao tratar da fundação das colônias inglesas no continente americano, Tocqueville pôde mostrar como e por que razões o Estado e o poder político fora criado pelos anglo-americanos que ali se instalaram a partir de inícios do século XVII. Assim, poder-se-ia afirmar que, embora Tocqueville não trate da origem e fundamentos do Estado ou do poder político em geral – como o fizeram, por exemplo, Platão, Aristóteles, Hobbes e Rousseau –, ele procura mostrar como e por que, especificamente entre os anglo-americanos, a constituição do Estado se fez necessária. Como diversos estudiosos que o antecederam – por exemplo, Hobbes, Montesquieu, Rousseau – Tocqueville avalia que o Estado e o poder político nasceu do pacto realizado entre os homens com o propósito de promover o bem-estar de todos. A diferença entre Tocqueville e seus antecessores reside em que, enquanto estes últimos não situam no tempo e no espaço a realização do pacto social, Tocqueville o vê nascer como um fato geográfico e historicamente situado: na América de inícios do século XVII.

A apenas dois séculos da constituição dos estados americanos, Tocqueville pôde observar, com nitidez, as características dos emigrantes ingleses que se instalaram na costa do Atlântico Norte, bem como os motivos que os levaram a constituir, ali, o poder político. Embora os emigrantes ingleses tivessem objetivos diferentes para se instalarem na América, eles tinham em comum a característica de falarem a mesma língua e de serem descendentes de um mesmo povo habituado ao respeito às leis e à liberdade política. Como diz Tocqueville (1969), particularmente os colonos que se instalaram ao norte, nas costas da Nova Inglaterra, pertenciam todos às classes mais independentes de seu país de origem. Eram colonos que, de certa maneira, tinham as suas condições sociais niveladas em termos de riqueza, de inteligência e de talentos. Esses colonos, detentores de certa posição social em seu país de origem, não foram obrigados a deixar a Inglaterra por necessidades econômicas. Ao invés disso, o que os motivou a enfrentar o sofrimento intrínseco do exílio para começar vida nova no norte do Novo Mundo foi a esperança em ter uma vida próspera e liberdade para que pudessem, ali, pôr em prática a sua fé religiosa.

Esses emigrantes, portadores de um certo nivelamento social e de uma mesma fé religiosa, ao desembarcarem nas costas nuas do Novo Mundo, haveria, de imediato, de se preocupar com a organização da nova vida social que iniciavam. Assim, segundo Tocqueville, o primeiro cuidado que tiveram foi constituir uma sociedade subscrevendo o “Acordo de May-Flower”: um pacto social que daria origem ao Estado e que fundamentaria o poder político daquela futura nação. Nas poucas linhas transcritas por Tocqueville em seu livro Democracia na América, é possível observar o momento em que o Estado foi constituído pelos emigrantes ingleses e como eles fundamentaram o poder político que acabava de nascer no Novo Mundo. O “Acordo de May-Flower”, ou seja, o pacto social realizado pelos novos habitantes da Nova Inglaterra em 1620, deu-se nos seguintes termos:

Em nome de Deus. Amém. Nós cujos nomes vão abaixo assinados, súditos leais de nosso venerado Senhor Soberano o Rei Jaime etc. etc., tendo empreendido para a glória de Deus e o progresso da Fé Cristã, e honra de nosso Rei e país, uma viagem para implantar a primeira colônia nas regiões setentrionais da Virgínia; pelo presente, solene e mutuamente – na presença de Deus e de cada um – nos reunimos e combinamos a nós mesmos como um corpo político e civil, para nossa melhor ordem e preservação e a busca dos fins acima mencionados, e em virtude do presente, promulgaremos, constituiremos e moldaremos as leis, ordenações, atos, constituições e ofícios justos e iguais que, de tempos em tempos, forem considerados melhores e mais convenientes para o bem geral da Colônia; nos quais prometemos toda a devida submissão e obediência. (TOCQUEVILLE, 1989, p. 53).

Parece que, ao transcrever esse acordo, Tocqueville não estava fazendo outra coisa senão preenchendo a lacuna – não situar historicamente os supostos pactos sociais realizados entre os homens – deixada, por exemplo, na teoria política de Hobbes e Rousseau e, ao mesmo tempo, revelando como e por que, senão os homens em geral, pelo menos os norte-americanos, criaram o Estado e o poder político. Tocqueville, tratando especificamente do Estado norte-americano, mostra, documentalmente, que, na América, o Estado surgiu de um acordo realizado entre os colonos ingleses que se estabeleceram no Novo Mundo em inícios do século XVII. Como vimos anteriormente, Hobbes (1999: 109), postulava que o Estado foi criado no momento em que os homens, percebendo que o estado de guerra de todos contra todos em que se encontravam no estado de natureza poderia levá-los ao extermínio mútuo, decidiram realizar um pacto social transferindo os direitos ilimitados que possuíam a um soberano que, doravante, se incumbiria de promover a paz e a prosperidade que buscavam. Rousseau (1999: 99), diferentemente de Hobbes, considerava que os homens, longe de serem conflituosos por natureza, tornaram-se desiguais e colidentes quando ingressaram na vida social. O estado de guerra que, a partir daí se estabeleceu entre ricos e pobres, fortes e fracos, levou os mais astutos e poderosos a proporem um ardiloso pacto social que foi ingenuamente aceito por todos. Neste pacto, cada um deveria transferir seus direitos a um soberano com poderes para promover a ordem social e o bem-estar de todos. Assim, no entendimento de Rousseau, nascia o Estado em geral que, a seu ver, seria um instrumento de domínio de uns sobre outros - note-se que, Marx e Engels (1978 e 1987) e Engels (1984), em outra perspectiva de análise, também tinham o Estado como um instrumento de luta de classes. Conforme os dados oferecidos em Democracia na América e conforme o Acordo de May-Flower, poder-se-ia afirmar que, para Tocqueville, o Estado norte-americano – embora submisso ao Estado inglês até que as colônias inglesas declarassem sua independência em finais do Século XVIII e elaborassem sua primeira Constituição – foi criado por homens que eram iguais em suas condições sociais, com a incumbência de promover a melhor ordem e preservação, bem como o bem geral dos novos habitantes do Novo Mundo.

Embora o trecho transcrito acima, sobre o Acordo de May-Flower, não trate da forma de governo que haveria de ser instalada pelos anglo-americanos na Nova Inglaterra, Tocqueville avalia que as condições sociais – igualdade de condições – desses novos habitantes do Novo Mundo, bem como a sua herança cultural e até mesmo as condições geográficas do território ocupado, não permitiriam a adoção de outra forma de governo senão a democracia. Foram essas condições que levaram os anglo-americanos a nortear suas práticas políticas – desde a fundação das colônias – no princípio da liberdade e da soberania do povo.

A igualdade de condições não poderia estar ausente entre emigrantes ingleses que foram construir vida nova na América. Além de se tornarem iguais no processo de nivelamento social que ocorria na Europa e que atingia a todos, entre os emigrantes ingleses que foram para a América não havia aristocratas, nem pobres que precisassem garantir a sobrevivência em outras regiões. Daí a afirmação de Tocqueville de que os anglo-americanos que se instalaram no Novo Mundo se encontravam num estado de igualdade social, pois, entre eles, não havia homens de baixo nascimento, nem pobres. Ao invés disso, eram homens com “maior igualdade de fortuna e de intelecto” (1969: 66). Essa igualdade de condições existente entre os anglo-americanos foi o fator decisivo para que, na prática, a democracia fosse instalada na América, garantindo que, constitucionalmente, a soberania fosse colocada nas mãos do povo e não nas mãos de um só ou de poucos. É a igualdade geradora do gosto pela liberdade que levaria a Nova Inglaterra a respeitar as liberdades provinciais e a criar, depois da luta das colônias pela independência, uma constituição democrática e um sistema federativo, onde seriam contemplados não só os interesses comuns existentes entre elas, mas também as diversas aspirações provinciais.

Os hábitos e os costumes herdados pelos anglo-americanos de sua pátria-mãe, aliados à igualdade que existia entre eles, foram outros fatores que lhes permitiram criar e manter, por todo o tempo, a democracia na América. Os ingleses que emigraram para a costa do Novo Mundo – dizia Tocqueville – “tinham aprendido a tomar parte nos negócios públicos em sua pátria mãe; estavam todos habituados ao julgamento pelo júri, à liberdade de palavra e de imprensa, à liberdade pessoal, à noção de direitos e à prática de os afirmar” (TOCQUEVILLE, 1969, p. 341). Os anglo-americanos – continua Tocqueville – “levaram consigo para a América essas instituições livres e costumes varonis e essas instituições preservaram-nos contra a usurpação do Estado. São os hábitos e costumes adquiridos pelos anglo-americanos que levaram as colônias britânicas, desde o seu começo, a parecer “destinadas a testemunhar o crescimento, não da liberdade aristocrática de sua pátria-mãe, mas a liberdade das ordens inferiores e médias das quais a história do mundo ainda não tinha fornecido um exemplo completo” (TOCQUEVILLE, 1969, p. 51).

As causas acidentais ou providenciais, ou seja, as causas físicas, segundo Tocqueville, também exerceram suas influências na construção da democracia nas colônias inglesas. Em primeiro lugar, situadas numa região do Novo Mundo onde se encontravam sem vizinhos, portanto, sem guerras, sem crises financeiras e sem grandes exércitos a sustentar, as colônias não necessitaram centralizar a administração com o propósito de arrecadar pesados impostos, para permitir, assim, que os cidadãos mantivessem suas liberdades provinciais. Em segundo lugar, a abundância de recursos naturais oferecidos pelo vasto território ocupado pelos anglo-americanos, ao garantir-lhes a prosperidade geral, proporcionou a estabilidade do governo democrático que – mais que qualquer outra forma de governo – depende da vontade da maioria. Daí a afirmação de Tocqueville: os antepassados dos anglo-americanos “deram-lhes o amor pela igualdade e pela liberdade; mas o próprio Deus lhes deu os meios de permanecerem iguais e livres, colocando-os num continente sem limites”. Nos Estados Unidos – continua Tocqueville – “não é só a legislação que é democrática, mas a própria natureza favorece a causa do povo” (TOCQUEVILLE, 1969, p. 149-150).

A religiosidade dos anglo-americanos foi outro fator de significativa importância no processo de criação e de consolidação da democracia no território americano. No entendimento de Tocqueville, a religião, ao estabelecer valores morais para nortearem a conduta dos indivíduos que se encontram em condições de igualdade, coloca limites à aspiração desenfreada que possuem pela liberdade. Os anglo-americanos se instalaram na América trazendo da pátria-mãe dois espíritos distintos, mas necessariamente complementares para o convívio ordeiro na sociedade que haveriam de construir: o “espírito da liberdade” propiciado por suas condições de igualdade e o “espírito da religião” neles despertado pelo protestantismo puritano. O puritanismo – que, a um só tempo, é portador de elementos morais e democráticos – haveria de deixar os anglo-americanos convictos de que somente sua religião poderia oferecer a verdade sobre a vida, mas também convencidos de que somente a obediência às leis poderia garantir-lhes a liberdade civil. A moralidade pregada pelo puritanismo, aos olhos de Tocqueville, foi o fator que contribui para que os anglo-americanos, mesmo sedentos de liberdade, não esquecessem de prestar obediências às leis que construíam. Como diz Tocqueville, “a moralidade é a melhor garantia da lei; é o pendor mais seguro da duração da liberdade” (TOCQUEVILLE, 1969, p. 58-59).

Enfim, a igualdade existente entre os emigrantes que fundaram as colônias inglesas na América, seus hábitos e costumes, bem como a natureza do território que os acolheu e a própria religião que professavam, foram os fatores decisivos que permitiram a construção da democracia na América. Com essas condições favoráveis, os anglo-americanos puderam fundar o poder político atribuindo a soberania à maioria e puderam, também, criar as instituições democráticas necessárias para alcançar a liberdade que buscavam. Em outras palavras, devido às suas circunstâncias, sua origem, sua inteligência e especialmente sua moral, os anglo-americanos “foram suficientemente felizes para escapar ao domínio do poder absoluto” e “puderam estabelecer e manter a soberania do povo" (TOCQUEVILLE, 1969, p. 67).

É preciso observar que, embora estivesse preocupado em demonstrar que o regime democrático americano resulta de condicionamentos historicamente situados, Tocqueville não deixa de emitir seu ponto de vista sobre a democracia. Muitas vezes, e por diversas razões, Tocqueville deixa transparecer, em seus textos, sua preferência pela democracia aristocrática – uma democracia em que somente os nobres participariam das decisões políticas.[1] Entretanto, tendo como natural e irreversível o processo de nivelamento social gerador das instituições democráticas, Tocqueville acaba se conformando com o processo de democratização por que passavam as sociedades de sua época. Neste sentido, em tom melancólico – afirmava Tocqueville, em O Antigo Regime e a Revolução:

“O espetáculo dessa uniformidade universal me entristece e me gela, e sou tentado a ter saudades da sociedade que não mais existe. É natural que o que mais satisfaz os olhares desse criador e desse conservador dos homens não é absolutamente a prosperidade singular de alguns, mas o maior bem-estar de todos; o que me parece uma decadência é, portanto, a seus olhos, um progresso; o que me magoa, lhe agrada. A igualdade é menos elevada, talvez, porém é mais justa, e essa justiça faz sua grandeza e sua beleza. Procurei então me erguer até essa altura da contemplação divina, para daí olhar e julgar os cuidados e as penas dos homens” TOCQUEVILLE, 1989, p. 363).
por JOSÉ OTACÍLIO DA SILVA 

O autor é professor Sociologia e Ciência Política e membro do GPCP – Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político, na UNIOESTE – Universidade Estadual do Oeste do Paraná

Lições de Tocqueville

Carlos Gaspar

Público, 29|Julho|2005
O principal teórico da democracia moderna é um nobre francês de velha linhagem, Alexis de Tocqueville, que escreveu dois grandes livros - De la démocratie en Amérique (1835-1840) e L'ancien régime et la révolution (1856), ambos sobre o mesmo tema, a grande transformação que marca o fim das sociedades aristocráticas.
A sua originalidade foi ter identificado o movimento democrático como a mudança decisiva. Na sociologia politica de Tocqueville, a modernidade não se caracteriza essencialmente nem pela indústria, como quer Comte, nem pelo capitalismo e pela luta de classes, como quer Marx, mas pela «igualdade social ou pela igualização das condições». Depois dos desaparecimentos sucessivos da sociedade socialista e da sociedade industrial, a sociedade democrática contemporânea continua a poder ser entendida nos termos em que foi apresentada pela seu inventor : «se, para si, o objectivo do governo não é dar à nação a maior glória e a maior força possivel, mas sim dar a cada um dos individuos que a compõem mais bem-estar e de lhe evitar mais miséria, então igualize as condições e constitua o governo da democracia.»
Alexis de Tocqueville estuda e avalia a mudança politica na América, em França e na Europa continental do seu tempo, para construir um tipo-ideal da sociedade democrática. A viragem histórica é inexorável e irreversivel : o regresso ao antigo regime é uma ilusão e a liberdade não se pode fundar na desigualdade, tem de assentar na realidade democrática da igualdade das condições e ser salvaguardada pelas leis, pelas instituições e pelos costumes.
A comparação entre o modelo anglo-americano e o caso francês atravessa os seus textos. Há três distinções principais. Desde logo, o liberal francês sublinha uma especificidade norte-americana : os colonos tiveram a sorte de não serem obrigados a lutar contra uma aristocracia antes de iniciar a sua revolução constitucional. Por outro lado, é importante separar a sequência inglesa e americana, onde os hábitos da liberdade precedem a paixão pela igualdade e imprimem um carácter liberal às instituições politicas e judiciais, das mudanças continentais, onde o nivelamento e a igualização antecedem as regras da liberdade e a democratização aumenta a vocação despótica do Estado. Enfim, para o aristocrata normando, a revolução francesa é única, pois «as leis religiosas foram abolidas ao mesmo tempo que as leis civis». A pior consequência dessa dupla destruição é a emergência de uma «religião secular» : os revolucionários (sobretudo os intelectuais revolucionários) «não tinham dúvidas de que deviam transformar a sociedade e regenerar a espécie, e esses sentimentos e essas paixões tornaram-se para eles uma nova religião».
A questão religiosa é relevante para Tocqueville também para caracterizar as condições de estabilidade da democracia liberal, que dependem não só das suas origens, das leis e das instituições como dos costumes de uma sociedade bem ordenada : «uma sociedade igualitária que se quer governar democraticamente tem de assentar numa discplina moral criada pela fé religiosa.» A ausência desta é um perigo incomportável : «é o despotismo, e não a liberdade, que pode dispensar a fé.»
Qual é a tendência das sociedades democráticas ? Segundo a regra tocquevilliana, podem ser duas, a democracia liberal e o despotismo democrático. As tendências despóticas estão inscritas na lógica da democracia, partilhada entre os riscos simétricos da centralização e da demagogia - ou as instituições concentram poderes excessivos, ou se subordinam excessivamente à vontade do novo soberano democrático. A tirania da maioria pode ser temperada pelas leis e pelos costumes, mas a destruição dos corpos intermédios e a expansão, sem precedentes, do Estado social democrático apontam para a consolidação do despotismo : «a unidade, a ubiquidade, a omnipotência do poder social, a uniformidade das suas regras, são o traço saliente de todos os sistemas politicos gerados nos nossos dias.» A igualdade produz a concentração dos poderes e a expansão do Estado, e o modo de funcionamento das instituições democráticas parece ir no mesmo sentido : «a maior parte dos partidos acha que o governo actua mal, mas todos pensam que o governo deve agir constantemente e pôr a mão em tudo.»
Tocqueville, liberal e realista, é um pessimista moderado. A tendência para o despotismo democrático é a mais provável, porque a paixão da igualdade é mais forte do que o gosto pela liberdade : os povos democráticos «querem a igualdade na liberdade e, se não a puderem obter, ainda a querem na escravidão.»
Porém, o despotismo democrático será uma tirania suave. A essência da transformação post-aristocrática é a mediocridade : «as grandes riquezas desaparecem, o número das pequenas fortunas aumenta ; já não há prosperidades extraordinárias, nem misérias irremediáveis ; a ambição é um sentimento universal, há poucas ambições vastas». Esse nivelamento deveria atenuar as tensões e os extremos : «se o despotismo democrático se instalasse nas nações democráticas seria mais extenso e mais doce e degradaria os homens sem os atormentar.»
A sociedade democrática contemporânea continua a poder reconhecer-se na descrição melancólica, bem como nos dilemas e nas profecias de Tocqueville. O aristocrata francês era demasiado decente para poder antecipar a explosão totalitária, para lá da sua intuição sobre as religiões seculares, mas, no fim do ciclo terrivel das guerras e das revoluções, prevalecem as suas previsões fundamentais sobre a grande transformação democrática. Todavia, é dificil resistir à tentatação de pensar que a sua realização anuncia o seu fim e nada diz sobre o próximo ciclo : «quando o passado não ilumina o futuro, o espirito avança nas ténebras.»

Tocqueville 200 Anos





Félix Maier
"Eu confesso que na América eu vi mais do que a América; eu vi a imagem da democracia mesmo, com suas inclinações, seu caráter, seus preceitos e suas paixões, o suficiente para aprender o que devemos temer ou o que devemos esperar do seu progresso” (Alexis de Tocqueville, 1834).
“A vantagem real da democracia não é, como já se disse, favorecer a prosperidade de todos, mas apenas servir ao bem-estar do maior número” (Alexis de Tocqueville, in A Democracia na América).
Em meados do desastroso Annus Lulae 3 (Annus Domini 2005), quando pipocavam denúncias e mais denúncias da corrupção petista, o senador Eduardo Suplicy deu de presente a Lula o livro mais famoso de Alexis de Tocqueville, A Democracia na América. Provavelmente, era uma indireta de Suplicy ao presidente, para que não se candidatasse à reeleição, sistema eleitoral condenado por Tocqueville no citado livro, pois o governante – segundo o liberal francês -, desde o primeiro dia da posse, não pensaria em outra coisa senão na reeleição, utilizando toda a máquina administrativa federal para tal intento. Não creio que Lula tenha lido o livro, um calhamaço de quase 600 páginas (*), pois o próprio presidente já declarou que recebe muitos livros de presente e apenas folheia algumas páginas. Talvez o livro Sobre o Ócio, de Sêneca, fosse mais recomendável para Lula, especialmente como companhia para suas ociosas viagens turísticas a bordo do Air Force 51, o Aerolula...
Em 29 de julho de 2005, deveria ter sido comemorado o 200º aniversário do politólogo e sociólogo francês Alexis Charles Henri Maurice Clérel de Tocqueville (1805-1859). Nome longo, de um verdadeiro príncipe, que na verdade é, ao menos em Sociologia, Tocqueville foi um dos mais ilustres liberais clássicos que o mundo já conheceu, ao lado de Adam Smith, Friedrich von Hayek, Michael Novak, Ludwig von Mises, Raimond Aron, Jean-François Revel, Milton Friedman,  além dos brasileiros Antônio Paim, Roberto Campos e José Osvaldo de Meira Penna. E por que Tocqueville não mereceu nenhum tipo de comemoração? Da mesma forma que o presidente Emílio Garrastazu Médici, um dos mais ilustres presidentes do Brasil, não mereceu nesse ano nenhuma lembrança pela passagem dos 100 anos de seu nascimento: boicote dos meios de comunicação. A mídia brasileira, dominada por um ranço revanchista de esquerda sem limites, para quem o Muro de Berlim continua mais firme do que as milenares muralhas da Cidadela de Saladino, no Cairo, nomes como Tocqueville são olimpicamente ignorados, como se nunca tivessem existido, e governantes como Médici são satanizados como a pior coisa que já existiu nestes trópicos. O pouco que foi dito sobre Tocqueville no Brasil nos últimos tempos pode ser visto no texto de Luiz Fernando Alves Evangelista, LULA PRESIDENTE: Uma Reflexão Sobre a Democracia no Brasil (http://www.achegas.net/numero/oito/luiz_evangelista_08.htm).
Em 1831, com apenas 26 anos de idade, Tocqueville viajou para a América do Norte, vindo a publicar em 1835 o primeiro volume de La Démocratie en Amerique, considerado até hoje o melhor livro sobre o funcionamento do sistema político norte-americano; em 1840, Tocqueville publicaria o segundo volume sobre o assunto.
 “Descontente com o novo regime implantado na França com a Revolução de 1830, Alexis de Tocqueville, descendente de um família ultra-realista que padecera o diabo na época do Terror (1793-4), decidiu-se viajar para a América do Norte. Ele e um outro jovem jurista como ele, chamado Gustave de Beaumont, encontraram um pretexto para vir estudar as instituições penais norte-americanas, aportando em Newport, Rhode Island, em nove de maio de 1831. Durante os onze meses seguintes, os dois farão um longo périplo de 7.500 quilômetros por boa parte da América do Norte, passando por 18 dos 24 estados que então compunham a União, percorrendo-a de Nova Iorque ao Canadá e dali até o Sul, a Nova Orleans. Das margens do Mississipi, rumaram depois para o norte, para Washington DC, e dali de volta para Nova Iorque, onde tomaram um barco para a França em 20 de fevereiro de 1832. No caminho, entrevistaram até dois ex-presidentes” (http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/democracia.htm).
Em seu livro, Tocqueville profetizou o avanço dos americanos, em levas migratórias, do Texas até o Pacífico, terras que foram conquistadas à força do México. Se em 1831 eram 24 Estados, hoje o gigante americano é composto por 50, além do Distrito de Colúmbia, onde fica a capital Washington, e Porto Rico, Estado livre associado. A respeito, já questionava um célebre barbudo alemão: “É uma infelicidade se a rica Califórnia foi arrancada dos mexicanos preguiçosos que não sabiam o que fazer dela?” (Karl Marx, in Nova Gazeta Renana, 1849; cit. por Ipojuca Pontes in Politicamente Corretíssimos, pg. 21).
O direito sagrado da propriedade é, inequivocamente, um dos fatores que proporcionaram a riqueza americana: “Por que, nos Estados Unidos, país da democracia por excelência, ninguém faz ouvir contra a propriedade em geral as mesmas queixas que muitas vezes ressoam na Europa? Será necessário dizê-lo? É que na América não existem proletários. Como cada qual tem um bem particular a defender, reconhece em princípio o direito de propriedade”. Tocqueville foi o primeiro pensador a observar o que viria a ser denominado “paradoxo da pobreza”. Depois de uma viagem que fez à Inglaterra, em 1833, escreveu Mémoire sur le paupérisme, onde diz: “Quando se cruza os vários países da Europa, somos surpreendidos por um espetáculo extraordinário e aparentemente inexplicável. Os países que aparecem como os mais empobrecidos são aqueles que na realidade abrigam menores quantidades de indigentes”. A Inglaterra, mais industrializada que os outros países europeus, na época comportava maior número de indigentes nas ruas!
Tocqueville era católico fervoroso. Deus, religião e fé são palavras corriqueiras em sua obra. Qual o sociólogo, hoje, que ousaria escrever sobre Deus, sobre a importância da religião entre os povos? A maioria dos sociólogos atuais, como Emir Sader e FHC, é composta por esquerdistas e ateus (desculpe o pleonasmo!). Tocqueville foi um precursor de Max Weber ao analisar a força do protestantismo, vale dizer, do puritanismo na criação do pujante capitalismo americano. “Quando cheguei aos Estados Unidos, foi o aspecto religioso do país que desde logo me atraiu a atenção. À medida que prolongava minha permanência, percebia as grandes conseqüências políticas que decorriam desses fatos novos. (...) A cada um deles, exprimi minha admiração e expus minhas dúvidas: achava que todos aqueles homens não diferiam entre si a não ser em minúcias; mas todos atribuíam principalmente à completa separação da Igreja e do Estado o império pacífico que a religião exerce em seu país” (pg. 227). E complementa: “Foi a religião que deu nascimento às sociedades anglo-americanas: é preciso nunca esquecer isso; nos Estados Unidos, a religião confunde-se, pois, com todos os hábitos nacionais e todos os sentimentos que a pátria faz nascer; isso lhe dá uma força particular”. Tocqueville observou que se, de um lado, havia uma profusão de credos protestantes nos EUA, por outro, todos tinham o mesmo objetivo final, já que “a moral do cristianismo é a mesma”: “Nos Estados Unidos, as seitas cristãs variam ao infinito e se modificam constantemente, mas o próprio cristianismo é um fato estabelecido e irresistível, que nunca se faz necessário atacar nem defender. Tendo admitido sem exame os principais dogmas da religião cristã, os americanos são obrigados a receber da mesma maneira grande número de verdades morais que daí decorrem e que por aí se explicam” (pg. 323). Tocqueville  não viu em outro lugar em que “o amor ao dinheiro tenha um lugar maior no coração do homem e onde se professe desprezo tão profundo pela teoria da igualdade permanente de bens. Mas a fortuna circula ali com uma rapidez incrível, e a experiência ensina que é raro ver duas gerações recolherem o seu favor” (pg. 48). Tocqueville comprovou que no capitalismo americano a mobilidade social é espantosa, os ricos de hoje podem ser os arruinados de amanhã; os milionários de amanhã podem ser os pobres de hoje. Para o autor francês, um ponto fundamental para a pujança americana foi o nível médio em conhecimentos alcançado por seus cidadãos: “Por isso, encontra-se uma multidão imensa de indivíduos que têm o mesmo número de noções mais ou menos iguais em matéria de religião, história, ciências, economia política, legislação e governo” (pg. 49).
Premonição de Tocqueville a casos como o do Iraque sob o governo George W. Bush, que quer fazer daquele país uma democracia? “De resto, muito longe estou de crer que devemos seguir o exemplo da democracia americana ponto por ponto e imitar os meios de que se serviu para atingir com os seus esforços essa meta; pois não ignoro qual é a influência exercida pela natureza do país e os fatos antecedentes sobre as constituições políticas, e consideraria um grande mal para o gênero humano se a liberdade tivesse de produzir-se em todos os lugares seguindo os mesmos caminhos” (pg. 2340).
Há equívocos em Tocqueville, ao falar de raça: “Não creio que a raça branca e a raça negra possam vir, em parte alguma, a viver em pé de igualdade” (pg. 273). Porém, o sociólogo observa que nos EUA já existe uma enorme miscigenação: “Existem partes da América onde o europeu e o negro se cruzaram de tal forma que é difícil encontrar um homem que seja inteiramente branco ou inteiramente negro: chegadas a esse ponto, pode-se dizer que as raças estão realmente misturadas” (pg. 273).
Chamou a atenção de Tocqueville algumas excentricidades puritanas antigas, então em franco desuso, como a proibição do uso do tabaco. “Em data de 1649, assiste-se à criação, em Boston, de uma associação solene cuja finalidade é coibir o luxo mundano dos cabelos longos” (pg. 39).
Tocqueville critica a legislação americana sobre fiança, cujos “costumes parecem contrários ao conjunto do estado social”: “A legislação civil e criminal dos americanos não conhece mais que dois meios de agir, a prisão e a fiança. O primeiro ato de um processo consiste em obter fiança de um réu, ou, se ele recusa, em fazê-lo encarcerar; depois é que se discute a validade do título ou a gravidade das acusações. É evidente que semelhante legislação é dirigida contra o pobre e favorece apenas o rico. O pobre nem sempre pode pagar a fiança, mesmo em matéria civil, e se é constrangido a ir esperar a justiça na prisão, depressa a sua inação forçada o reduz à miséria” (pg. 43).
Para finalizar, voltemos a Lula e ao livro de Suplicy. Considerando o lamaçal em que nosso presidente se afundou, e tendo em vista preservar a biografia de Lula, sugiro que nosso presidente leia O Vendedor de Passados, do escritor angolano José Eduardo Aqualusa. Na obra, o personagem Félix tem a faculdade de criar biografias ou “passados”, de acordo com o que desejam os interessados que o procuram. Quem sabe Lula não peça a criação de um novo personagem, cheio de virtudes, longe da imagem que passou a ter depois que se comprovaram as denúncias da corrupção petista, da qual ele e unicamente ele é o principal culpado. Quem sabe Lula não possa encomendar um passado limpo a Félix – ao personagem de Aqualusa, não a mim! – recebendo, por exemplo, um trono num emirado árabe? Ou então Lula não passe a ser presidente perpétuo de uma republiqueta africana, do tipo “Pongo Pongo”, imortalizado no livro satírico de Meira Penna, Cândido Pafúncio?
 (*) TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América, Editora Itatiaia Limitada, Belo Horizonte, 1987, 3ª edição (Tradução de Neil Ribeiro da Silva).

Alexis de Tocqueville

Autor: Félix Maier

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Tocqueville 200 anos

Félix Maier

"Eu confesso que na América eu vi mais do que a América; eu vi a imagem da democracia mesmo, com suas inclinações, seu caráter, seus preceitos e suas paixões, o suficiente para aprender o que devemos temer ou o que devemos esperar do seu progresso” (Alexis de Tocqueville, 1834).

“A vantagem real da democracia não é, como já se disse, favorecer a prosperidade de todos, mas apenas servir ao bem-estar do maior número” (Alexis de Tocqueville, in A Democracia na América).

Em meados do desastroso Annus Lulae 3 (Annus Domini 2005), quando pipocavam denúncias e mais denúncias da corrupção petista, o senador Eduardo Suplicy deu de presente a Lula o livro mais famoso de Alexis de Tocqueville, A Democracia na América. Provavelmente, era uma indireta de Suplicy ao presidente, para que não se candidatasse à reeleição, sistema eleitoral condenado por Tocqueville no citado livro, pois o governante – segundo o liberal francês -, desde o primeiro dia da posse, não pensaria em outra coisa senão na reeleição, utilizando toda a máquina administrativa federal para tal intento. Não creio que Lula tenha lido o livro, um calhamaço de quase 600 páginas (*), pois o próprio presidente já declarou que recebe muitos livros de presente e apenas folheia algumas páginas. Talvez o livro Sobre o Ócio, de Sêneca, fosse mais recomendável para Lula, especialmente como companhia para suas ociosas viagens turísticas a bordo do Air Force 51, o Aerolula...

Em 29 de julho de 2005, deveria ter sido comemorado o 200º aniversário do politólogo e sociólogo francês Alexis Charles Henri Maurice Clérel de Tocqueville (1805-1859). Nome longo, de um verdadeiro príncipe, que na verdade é, ao menos em Sociologia, Tocqueville foi um dos mais ilustres liberais clássicos que o mundo já conheceu, ao lado de Adam Smith, Friedrich von Hayek, Michael Novak, Ludwig von Mises, Raimond Aron, Jean-François Revel, Milton Friedman, além dos brasileiros Antônio Paim, Roberto Campos e José Osvaldo de Meira Penna. E por que Tocqueville não mereceu nenhum tipo de comemoração? Da mesma forma que o presidente Emílio Garrastazu Médici, um dos mais ilustres presidentes do Brasil, não mereceu nesse ano nenhuma lembrança pela passagem dos 100 anos de seu nascimento: boicote dos meios de comunicação. A mídia brasileira, dominada por um ranço revanchista de esquerda sem limites, para quem o Muro de Berlim continua mais firme do que as milenares muralhas da Cidadela de Saladino, no Cairo, nomes como Tocqueville são olimpicamente ignorados, como se nunca tivessem existido, e governantes como Médici são satanizados como a pior coisa que já existiu nestes trópicos. O pouco que foi dito sobre Tocqueville no Brasil nos últimos tempos pode ser visto no texto de Luiz Fernando Alves Evangelista, LULA PRESIDENTE: Uma Reflexão Sobre a Democracia no Brasil (http://www.achegas.net/numero/oito/luiz_evangelista_08.htm).

Em 1831, com apenas 26 anos de idade, Tocqueville viajou para a América do Norte, vindo a publicar em 1835 o primeiro volume de La Démocratie en Amerique, considerado até hoje o melhor livro sobre o funcionamento do sistema político norte-americano; em 1840, Tocqueville publicaria o segundo volume sobre o assunto.

“Descontente com o novo regime implantado na França com a Revolução de 1830, Alexis de Tocqueville, descendente de um família ultra-realista que padecera o diabo na época do Terror (1793-4), decidiu-se viajar para a América do Norte. Ele e um outro jovem jurista como ele, chamado Gustave de Beaumont, encontraram um pretexto para vir estudar as instituições penais norte-americanas, aportando em Newport, Rhode Island, em nove de maio de 1831. Durante os onze meses seguintes, os dois farão um longo périplo de 7.500 quilômetros por boa parte da América do Norte, passando por 18 dos 24 estados que então compunham a União, percorrendo-a de Nova Iorque ao Canadá e dali até o Sul, a Nova Orleans. Das margens do Mississipi, rumaram depois para o norte, para Washington DC, e dali de volta para Nova Iorque, onde tomaram um barco para a França em 20 de fevereiro de 1832. No caminho, entrevistaram até dois ex-presidentes” (http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/democracia.htm).

Em seu livro, Tocqueville profetizou o avanço dos americanos, em levas migratórias, do Texas até o Pacífico, terras que foram conquistadas à força do México. Se em 1831 eram 24 Estados, hoje o gigante americano é composto por 50, além do Distrito de Colúmbia, onde fica a capital Washington, e Porto Rico, Estado livre associado. A respeito, já questionava um célebre barbudo alemão: “É uma infelicidade se a rica Califórnia foi arrancada dos mexicanos preguiçosos que não sabiam o que fazer dela?” (Karl Marx, in Nova Gazeta Renana, 1849; cit. por Ipojuca Pontes in Politicamente Corretíssimos, pg. 21).

O direito sagrado da propriedade é, inequivocamente, um dos fatores que proporcionaram a riqueza americana: “Por que, nos Estados Unidos, país da democracia por excelência, ninguém faz ouvir contra a propriedade em geral as mesmas queixas que muitas vezes ressoam na Europa? Será necessário dizê-lo? É que na América não existem proletários. Como cada qual tem um bem particular a defender, reconhece em princípio o direito de propriedade”. Tocqueville foi o primeiro pensador a observar o que viria a ser denominado “paradoxo da pobreza”. Depois de uma viagem que fez à Inglaterra, em 1833, escreveu Mémoire sur le paupérisme, onde diz: “Quando se cruza os vários países da Europa, somos surpreendidos por um espetáculo extraordinário e aparentemente inexplicável. Os países que aparecem como os mais empobrecidos são aqueles que na realidade abrigam menores quantidades de indigentes”. A Inglaterra, mais industrializada que os outros países europeus, na época comportava maior número de indigentes nas ruas!

Tocqueville era católico fervoroso. Deus, religião e fé são palavras corriqueiras em sua obra. Qual o sociólogo, hoje, que ousaria escrever sobre Deus, sobre a importância da religião entre os povos? A maioria dos sociólogos atuais, como Emir Sader e FHC, é composta por esquerdistas e ateus (desculpe o pleonasmo!). Tocqueville foi um precursor de Max Weber ao analisar a força do protestantismo, vale dizer, do puritanismo na criação do pujante capitalismo americano. “Quando cheguei aos Estados Unidos, foi o aspecto religioso do país que desde logo me atraiu a atenção. À medida que prolongava minha permanência, percebia as grandes conseqüências políticas que decorriam desses fatos novos. (...) A cada um deles, exprimi minha admiração e expus minhas dúvidas: achava que todos aqueles homens não diferiam entre si a não ser em minúcias; mas todos atribuíam principalmente à completa separação da Igreja e do Estado o império pacífico que a religião exerce em seu país” (pg. 227). E complementa: “Foi a religião que deu nascimento às sociedades anglo-americanas: é preciso nunca esquecer isso; nos Estados Unidos, a religião confunde-se, pois, com todos os hábitos nacionais e todos os sentimentos que a pátria faz nascer; isso lhe dá uma força particular”. Tocqueville observou que se, de um lado, havia uma profusão de credos protestantes nos EUA, por outro, todos tinham o mesmo objetivo final, já que “a moral do cristianismo é a mesma”: “Nos Estados Unidos, as seitas cristãs variam ao infinito e se modificam constantemente, mas o próprio cristianismo é um fato estabelecido e irresistível, que nunca se faz necessário atacar nem defender. Tendo admitido sem exame os principais dogmas da religião cristã, os americanos são obrigados a receber da mesma maneira grande número de verdades morais que daí decorrem e que por aí se explicam” (pg. 323). Tocqueville não viu em outro lugar em que “o amor ao dinheiro tenha um lugar maior no coração do homem e onde se professe desprezo tão profundo pela teoria da igualdade permanente de bens. Mas a fortuna circula ali com uma rapidez incrível, e a experiência ensina que é raro ver duas gerações recolherem o seu favor” (pg. 48). Tocqueville comprovou que no capitalismo americano a mobilidade social é espantosa, os ricos de hoje podem ser os arruinados de amanhã; os milionários de amanhã podem ser os pobres de hoje. Para o autor francês, um ponto fundamental para a pujança americana foi o nível médio em conhecimentos alcançado por seus cidadãos: “Por isso, encontra-se uma multidão imensa de indivíduos que têm o mesmo número de noções mais ou menos iguais em matéria de religião, história, ciências, economia política, legislação e governo” (pg. 49).

Premonição de Tocqueville a casos como o do Iraque sob o governo George W. Bush, que quer fazer daquele país uma democracia? “De resto, muito longe estou de crer que devemos seguir o exemplo da democracia americana ponto por ponto e imitar os meios de que se serviu para atingir com os seus esforços essa meta; pois não ignoro qual é a influência exercida pela natureza do país e os fatos antecedentes sobre as constituições políticas, e consideraria um grande mal para o gênero humano se a liberdade tivesse de produzir-se em todos os lugares seguindo os mesmos caminhos” (pg. 2340).

Há equívocos em Tocqueville, ao falar de raça: “Não creio que a raça branca e a raça negra possam vir, em parte alguma, a viver em pé de igualdade” (pg. 273). Porém, o sociólogo observa que nos EUA já existe uma enorme miscigenação: “Existem partes da América onde o europeu e o negro se cruzaram de tal forma que é difícil encontrar um homem que seja inteiramente branco ou inteiramente negro: chegadas a esse ponto, pode-se dizer que as raças estão realmente misturadas” (pg. 273).

Chamou a atenção de Tocqueville algumas excentricidades puritanas antigas, então em franco desuso, como a proibição do uso do tabaco. “Em data de 1649, assiste-se à criação, em Boston, de uma associação solene cuja finalidade é coibir o luxo mundano dos cabelos longos” (pg. 39).

Tocqueville critica a legislação americana sobre fiança, cujos “costumes parecem contrários ao conjunto do estado social”: “A legislação civil e criminal dos americanos não conhece mais que dois meios de agir, a prisão e a fiança. O primeiro ato de um processo consiste em obter fiança de um réu, ou, se ele recusa, em fazê-lo encarcerar; depois é que se discute a validade do título ou a gravidade das acusações. É evidente que semelhante legislação é dirigida contra o pobre e favorece apenas o rico. O pobre nem sempre pode pagar a fiança, mesmo em matéria civil, e se é constrangido a ir esperar a justiça na prisão, depressa a sua inação forçada o reduz à miséria” (pg. 43).

Para finalizar, voltemos a Lula e ao livro de Suplicy. Considerando o lamaçal em que nosso presidente se afundou, e tendo em vista preservar a biografia de Lula, sugiro que nosso presidente leia O Vendedor de Passados, do escritor angolano José Eduardo Aqualusa. Na obra, o personagem Félix tem a faculdade de criar biografias ou “passados”, de acordo com o que desejam os interessados que o procuram. Quem sabe Lula não peça a criação de um novo personagem, cheio de virtudes, longe da imagem que passou a ter depois que se comprovaram as denúncias da corrupção petista, da qual ele e unicamente ele é o principal culpado. Quem sabe Lula não possa encomendar um passado limpo a Félix – ao personagem de Aqualusa, não a mim! – recebendo, por exemplo, um trono num emirado árabe? Ou então Lula não passe a ser presidente perpétuo de uma republiqueta africana, do tipo “Pongo Pongo”, imortalizado no livro satírico de Meira Penna, Cândido Pafúncio?

(*) TOCQUEVILLE, Alexis de. A Democracia na América, Editora Itatiaia Limitada, Belo Horizonte, 1987, 3ª edição (Tradução de Neil Ribeiro da Silva).



Fonte: http://www.webartigos.com/articles/1657/1/Tocqueville-200-Anos/pagina1.html#ixzz10UFFZNDC