Mostrando postagens com marcador Demografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Demografia. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de junho de 2011

A guerra da China contra as mulheres e meninas

ZP11060807 - 08-06-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28172?l=portuguese
Promotora dos EUA lidera movimento contra a política do filho único

Por Edward Pentin
ROMA, quarta-feira, 8 de junho de 2011 (ZENIT.org) - “A política chinesa do filho único provoca mais violência contra as mulheres e meninas do que qualquer outra política no mundo; mais do que qualquer outra política oficial na história do mundo”.
São palavras acaloradas de Reggie Littlejohn, uma promotora dos EUA que fundou a Women's Rights Without Frontiers – uma coalizão internacional contra o aborto forçado e a escravidão sexual na China.
Californiana que na juventude trabalhou com a Madre Teresa nos bairros pobres de Calcutá, Littlejohn entrou na política representando refugiados chineses que pediam asilo político nos Estados Unidos em 1990.
“Primeiro eles foram perseguidos por ser cristãos e depois esterilizados à força”, conta. “Isso abriu dois mundos novos para mim”.
Falando com ZENIT em visita recente a Roma, Littlejohn resumiu a política do único filho como “a guerra da China contra mulheres e meninas”.
Os abortos obrigatórios para as mulheres que violam a política são comuns no país e chegam a ser feitos até os noves meses de gravidez. “Há mulheres que morrem junto com os bebês”.
A brutalidade do aborto forçado não é a única violação aos direitos humanos da “política de planejamento familiar”.
Acontece um “generocídio” devido à preferência tradicional chinesa pelos meninos, sendo as meninas objeto desproporcionado de aborto, abandono e infanticídio. Uma das consequências é a escravidão sexual: a eliminação de meninas levou a um aumento do tráfico de mulheres dos países vizinhos, já que há 37 milhões de homens a mais que as mulheres na China.
Esta política também pode ser a causa do alto índice de suicídios femininos na China. A Organização Mundial da Saúde informa que a China é o país com a porcentagem de suicídios femininos mais alta do mundo, com aproximadamente 500 mulheres por dia acabando com a própria vida.
As vítimas não são só as mulheres e as meninas. De acordo com muitas histórias filtradas fora da China, o governo também aplica uma variedade de métodos impiedosos contra os membros da família para forçá-los a obedecer à política de controle.
“As táticas usadas são absolutamente aterradoras”, disse Littlejohn. Lembrando um incidente documentado em março deste ano, ela conta que os funcionários do planejamento familiar foram até a casa de um jovem para esterilizar sua irmã à força.
“Como ela não estava em casa, começaram a bater no pai dela. Quando o homem tentou defender o pai, um dos funcionários pegou uma faca e o apunhalou duas vezes no coração. O homem morreu. Isto é assassinato!”.
Mas o assassino não foi preso e, apesar de a família estar tentado denunciar a história, os meios de comunicação se recusam a divulgá-la.
“Os funcionários do planejamento familiar estão acima da lei, podem fazer qualquer cosa e sair impunes”, disse Littlejohn. “O que eles estão fazendo é aterrorizar a população”.
As estatísticas relacionadas com a política do filho único são assombrosas. Desde que ela começou, em 1979, as autoridades informam que evitaram 400 milhões de vidas.
O governo diz também que 13 milhões de abortos são feitos a cada ano: 1.458 abortos por hora, ou, como Littlejohn afirmou, “um massacre como o da Praça da Paz Celestial a cada hora”.
“O irônico é que a China instituiu esta política do filho único por razões econômicas”, explicou Littlejohn. “Mas ela virou uma sentença de morte econômica para a China”.
Ela dá razões para isto. A primeira é a disparidade de sexos: 37 milhões de homens a mais, o que gera o tráfico humano entre a China e os países próximos e a decorrente escravidão sexual.
A segunda razão é que a China sofrerá o envelhecimento da população sem ter jovens para sustentá-la. Esse “tsunami senior”, como Littlejohn o chama, ocorrerá por volta de 2030.
“Eles não têm previdência social e, que eu saiba, também não têm nenhum plano para a situação dessa população de idosos”.
Littlejohn teme que, assim como forçaram o aborto no começo da vida, eles “forçarão o final da vida quando sofrerem esse tsunami senior”.
Ela destaca que os chineses têm uma cultura de respeito pelos anciãos, mas se pergunta se o apoio à eutanásia não ganhará terreno quando os resultados da política demográfica se mostrarem.
“Não tem sentido continuar com a política do filho único. Então por que eles continuam? Para mim, a razão não é tanto de controle da população, mas de controle social”.
Mantendo o rumo
As autoridades chinesas afirmam que a política será mantida pelo menos até 2015, embora recentemente tenham insinuado a permissão para dois filhos.
Mas Littlejohn acha que o aborto forçado, a esterilização e o infanticídio continuarão. É provável que a demografia da nação também não melhore.
Uma política de dois filhos já é permitida nas zonas rurais e entre as minorias se o primeiro a nascer é uma menina, mas pouco foi feito para evitar a difusão do aborto de meninas num país que tem preferência cultural pelos garotos.
Apesar da difusão da violência e do trauma infringidos pelas autoridades, os governos ocidentais têm feito pouquíssimo para pressionar a China.
“Este deveria ser o tema mais importante para os ativistas pró-direitos humanos”, ela considera.
Littlejohn conta que a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, tem “falado muito” sobre o aborto forçado na China. Mas isso não se traduz em nenhuma ação concreta ainda. Littlejohn crê que os governos não querem arriscar, “porque devem muito dinheiro para a China”.
Por outro lado, ela comenta que os Estados Unidos e a ONU estão ajudando a financiar a política chinesa através da UNFPA (United Nations Family Planning Fund) assim como da IPPF (International Planned Parenthood Federation), e da Marie Stopes International.
Ela conta que essas organizações são “provedoras de abortos” operativos na China e que, apesar dos EUA terem cortado os fundos dirigidos à UNFPA em 2001 – porque se comprovou a cumplicidade com a política do filho único – restaurou-se novamente o destino de verbas em 2009, pelo Departamento de Estado americano.
Neste link, pode-se ver um breve vídeo realizado por Women’s Rights Without Frontiers sobre a política do filho único: www.youtube.com/watch?v=JjtuBcJUsjY
Já aqui se pode assinar uma petição internacional contra o aborto forçado e a escravidão sexual na China: www.womensrightswithoutfrontiers.org/index.php?nav=sign_our_petition

domingo, 24 de abril de 2011

A fertilidade continua caindo


ZP11042403 - 24-04-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27812?l=portuguese
População envelhecida e consequências econômicas

Pe. John Flynn, L.C.
ROMA, domingo, 24 de abril de 2011 (ZENIT.org) - A taxa de natalidade baixa e uma população envelhecida representam um desafio econômico gigante para a Europa. Esta é uma das conclusões de um estudo publicado pela Comissão Europeia no início do mês.
O "Terceiro Informe Demográfico" apontou que o número de filhos por mulher aumentou de 1,45 no último informe, de 2008, para 1,6. Mesmo assim, continua muito abaixo dos 2,1 filhos necessários para manter uma população estável.
A esperança de vida também aumentou, o que acelera o processo de envelhecimento do continente. Em quatro países – Bulgária, Lituânia, Letônia e Romênia – a população já está diminuindo porque os falecimentos e a emigração superam o número dos nascimentos.
O informe revela ainda que a média de idade das mulheres no seu primeiro parto aumentou significativamente nas últimas três décadas. A idade mais alta para o primeiro parto, em 2009, foi medida na Irlanda: 31,2 anos. A Itália está bem próxima do índice, com 31,1 anos, enquanto a idade mais baixa está na Bulgária, com 26,6, seguida pela Romênia, com 26,9. Em 13 dos 27 países da União Europeia, as mulheres tendem a ter filhos com 30 anos ou mais.
Segundo o informe, a fertilidade pode continuar aumentando de modo marginal, superando ligeiramente a média de 1,7 filhos por mulher. Mas o documento observa que, a essa taxa, ainda será necessária uma grande afluência de imigrantes para evitar que a população se reduza no longo prazo.
Não é provável que a fertilidade suba o suficiente para atingir o nível de substituição de 2,1, ou que se reverta o envelhecimento da população da Europa, conclui o estudo.
Cerca de 5 milhões de crianças nascem por ano nos 27 países da União Europeia, e cerca de 2 milhões de pessoas emigram de países estrangeiros para o bloco. Os nascimentos superam o número de mortes em poucas centenas de milhares de pessoas por ano. A imigração, que supera amplamente o milhão por ano, explica a maior parte do crescimento da população da região.
As nações do bloco são hoje o lar de 20 milhões de pessoas que não têm a cidadania europeia. Além disso, cerca de 5 milhões de extracomunitários obtiveram a cidadania da União Europeia desde 2001. Há também a migração interna, com 10 milhões de europeus que moram em países da União que não são a sua pátria.
Mais idosos
Existem diferenças significativas entre os estados membros da União Europeia. As populações atualmente mais velhas, como a da Alemanha e a da Itália, continuarão envelhecendo rapidamente nos próximos 20 anos, mas depois se estabilizarão. Outros países, com populações hoje mais jovens, principalmente no leste da União, envelhecerão a uma velocidade cada vez maior, a ponto de terem, no ano 2060, as populações mais idosas do bloco.
O informe observa que, em 2014, a população em idade de trabalho, entre os 20 e os 64 anos, começará a diminuir rapidamente, ao se aposentarem os baby-boomers do período posterior à Segunda Guerra Mundial.
De fato, na União Europeia, o número de pessoas com 60 anos ou mais já está aumentando em mais de dos milhões por ano, o que é o dobro do observado há três anos.
A metade da população atual dos 27 estados da União tem 40,9 anos ou mais. A idade média vai dos 34,3 anos na Irlanda aos 44,2 na Alemanha. É previsto que a idade média suba para os 47,9 anos em 2060.
A população de 65 anos ou mais deverá aumentar de 17,4% em 2010 para 30% em 2060.
O resultado será uma carga cada vez maior sobre os cidadãos em idade de trabalho, que deverão pagar os gastos sociais demandados pela população envelhecida.
O fenômeno fica mais evidente ao se considerarem as previsões do número de pessoas em idade de trabalho, entre 19 e 65 anos, e ao se compararem tais números com o das pessoas dependentes (as menores de 19 e as maiores de 65).
A União Europeia tem hoje três pessoas em idade de trabalho por cada dois dependentes. Em 2060, haverá uma pessoa em idade de trabalho para cada pessoa dependente.
Estados Unidos
A Europa não está sozinha. Nos Estados Unidos, a taxa de natalidade também desceu entre 2007 e 2009, segundo os dados do Centro de Controle de Doenças.
De 2007 a 2009, os nascimentos caíram 4%, para 4.131.019, e os números parciais de nascimentos em junho de 2010 indicavam que a queda continuava.
A taxa de natalidade caiu 9% para as mulheres de 20 a 24 anos, chegando ao índice mais baixo registrado para essa faixa etária, e 6% para as de 25 a 29. Também há queda nas taxas de natalidade entre as mulheres com mais de 30 anos.
Chama a atenção que a taxa de fertilidade tenha caído mais entre as mulheres hispanas do que nos outros grupos da população.
O Population Reference Bureau, organização privada, publicou dados recentes que trazem mais luz aos números populacionais nos Estados Unidos: a quantidade de bebês nascidos no país em 2009 caiu 2,3%, e continua caindo. Isto significa que a média de nascimentos por mulher em 2009 foi de 2,01, o número mais baixo desde 1998. Com a queda dos nascimentos, o índice de fertilidade total nos Estados Unidos está abaixo do nível de substituição, de 2,1 nascimentos por mulher.
Os dados do Population Reference Bureau também mostram que, pela primeira vez em muitos anos, os nascimentos entre as mulheres solteiras diminuíram. Mas os nascimentos entre as mulheres casadas caíram mais ainda, revelando que 41% de todos os nascimentos nos Estados Unidos aconteceram no grupo das mulheres solteiras, o índice mais alto até hoje.
O ‘Bureau’ afirma que esta última queda se deve à atual crise econômica, o que difere do relatório do CDC, que assinala que os dados de nascimento por si só não são suficientes para tirar conclusões sobre as razões da queda no índice de fertilidade.
Ainda assim, o PRB observa, tanto na Grande Depressão dos anos trinta como nos difíceis momentos econômicos dos anos setenta, que seguiram à “crise do petróleo”, houve também períodos de baixa fertilidade nos EUA.
A questão é, insistia o PRB, se a fertilidade voltará quando a economia melhorar ou esses baixos índices se converterão em norma, como no caso da Europa e Canadá.
Custo
No Canadá, a baixa fertilidade foi norma durante muito tempo e, como aponta um artigo de 2 de abril do jornal ‘National Post’, isso custou caro ao governo. Os últimos dados orçamentários calculam que no período 2010-11 a 2015-16, os gastos em auxílios para os anciãos aumentará cerca de 30%.
Esta projeção de aumento anual estará muito acima do crescimento econômico previsto para o Canadá. De fato, o artigo cita dados segundo os quais o crescimento econômico pode cair até a metade do nível das últimas décadas, devido ao impacto de uma população envelhecida.
Apesar dos graves problemas causados pela baixa taxa de fertilidade e do envelhecimento, a ONU continua firme em seu objetivo de reduzir a fertilidade a todo custo. A 44ª sessão da Comissão de População e Desenvolvimento reuniu-se dos dias 11 a 15 de abril em Nova York.
O comunicado de imprensa que anunciava esta reunião enfatizava a necessidade de ampliar o planejamento familiar para reduzir com rapidez a fertilidade na África e na Ásia. Em lugar disso, talvez seria melhor considerar os graves problemas econômicos que tal redução causa em muitos países.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Que Mama África que nada! É Mama Europa, mesmo!


Vejam o que informa Reinaldo José Lopes, na Folha de hoje:
DNA de negros e pardos do Brasil é muito europeu

No Brasil, faz cada vez menos sentido considerar que brancos têm origem europeia e negros são “africanos”. Segundo um novo estudo, mesmo quem se diz “preto” ou “pardo” nos censos nacionais traz forte contribuição da Europa em seu DNA.  O trabalho, coordenado por Sérgio Danilo Pena, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), indica ainda que, apesar das diferenças regionais, a ancestralidade dos brasileiros acaba sendo relativamente uniforme. “A grande mensagem do trabalho é que [geneticamente] o Brasil é bem mais homogêneo do que se esperava”, disse Pena à Folha.
De Belém (PA) a Porto Alegre, a ascendência europeia nunca é inferior, em média, a 60%, nem ultrapassa os 80%. Há doses mais ou menos generosas de sangue africano, enquanto a menor contribuição é a indígena, só ultrapassando os 10% na região Norte do Brasil.
QUASE MIL
Além de moradores das capitais paraense e gaúcha, foram estudadas também populações de Ilhéus (BA) e Fortaleza (compondo a amostra nordestina), Rio de Janeiro (correspondendo ao Sudeste) e Joinville (segunda amostra da região Sul). Ao todo, foram 934 pessoas. A comparação completa entre brancos, pardos e pretos (categorias de autoidentificação consagradas nos censos do IBGE) só não foi possível no Ceará, onde não havia pretos na amostra, e em Santa Catarina, onde só havia pretos, frequentadores de um centro comunitário ligado ao movimento negro.
Para analisar o genoma, os geneticistas se valeram de um conjunto de 40 variantes de DNA, os chamados indels (sigla de “inserção e deleção”). São exatamente o que o nome sugere: pequenos trechos de “letras” químicas do genoma que às vezes sobram ou faltam no DNA. Cada região do planeta tem seu próprio conjunto de indels na população -alguns são típicos da África, outros da Europa. Dependendo da combinação deles no genoma de um indivíduo, é possível estimar a proporção de seus ancestrais que vieram de cada continente. Aqui
Por Reinaldo Azevedo

DNA de negros e pardos do Brasil é muito europeu Estudo diz que cerca de 70% da herança genética nacional vem da Europ

Variação de região para região do país é baixa; cor da pele tem elo com poucos genes e, por isso, é parâmetro enganoso

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA

No Brasil, faz cada vez menos sentido considerar que brancos têm origem europeia e negros são "africanos". Segundo um novo estudo, mesmo quem se diz "preto" ou "pardo" nos censos nacionais traz forte contribuição da Europa em seu DNA.
O trabalho, coordenado por Sérgio Danilo Pena, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), indica ainda que, apesar das diferenças regionais, a ancestralidade dos brasileiros acaba sendo relativamente uniforme.
"A grande mensagem do trabalho é que [geneticamente] o Brasil é bem mais homogêneo do que se esperava", disse Pena à Folha.
De Belém (PA) a Porto Alegre, a ascendência europeia nunca é inferior, em média, a 60%, nem ultrapassa os 80%. Há doses mais ou menos generosas de sangue africano, enquanto a menor contribuição é a indígena, só ultrapassando os 10% na região Norte do Brasil.

QUASE MIL
Além de moradores das capitais paraense e gaúcha, foram estudadas também populações de Ilhéus (BA) e Fortaleza (compondo a amostra nordestina), Rio de Janeiro (correspondendo ao Sudeste) e Joinville (segunda amostra da região Sul).
Ao todo, foram 934 pessoas. A comparação completa entre brancos, pardos e pretos (categorias de autoidentificação consagradas nos censos do IBGE) só não foi possível no Ceará, onde não havia pretos na amostra, e em Santa Catarina, onde só havia pretos, frequentadores de um centro comunitário ligado ao movimento negro.
Para analisar o genoma, os geneticistas se valeram de um conjunto de 40 variantes de DNA, os chamados indels (sigla de "inserção e deleção"). São exatamente o que o nome sugere: pequenos trechos de "letras" químicas do genoma que às vezes sobram ou faltam no DNA.
Cada região do planeta tem seu próprio conjunto de indels na população -alguns são típicos da África, outros da Europa. Dependendo da combinação deles no genoma de um indivíduo, é possível estimar a proporção de seus ancestrais que vieram de cada continente.
Do ponto de vista histórico, o trabalho deixa claro que a chamada política do branqueamento -defendida por estadistas e intelectuais nos séculos 19 e 20, com forte conteúdo racista- acabou dando certo, diz Pena.
Segundo os pesquisadores, a combinação entre imigração europeia desde o século 16 e casamento de homens brancos com mulheres índias e negras gerou uma população na qual a aparência física tem pouco a ver com os ancestrais da pessoa.
Isso porque os genes da cor da pele e dos cabelos, por exemplo, são muito poucos, parte desprezível da herança genética, embora seu efeito seja muito visível. O trabalho está na revista "PLoS One".

Santa Sé: para erradicar pobreza é preciso mais crianças




Dom Chullikatt intervém na ECOSOC
NOVA YORK, quinta-feira, 16 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) - Para erradicar a pobreza é fundamental promover a família.
O arcebispo Francis Chullikatt, observador permanente da Santa Sé na ONU, fez essa afirmação ao intervir na 49ª Sessão da Comissão para o Desenvolvimento Social do Conselho Econômico e Social (ECOSOC), que acontece em Nova York de 9 a 18 deste mês.

Em seu discurso, o arcebispo afirmou que "as gerações futuras de crianças e jovens são o melhor meio para superar os problemas econômicos e sociais. A pobreza não está causada pelo excesso de crianças, mas pelo fraco sustento ao seu desenvolvimento".

"A história humana nos ensina que se se investe suficientemente nas crianças, elas crescem para restituir muito mais do que consumiram, elevando assim o modo de vida de todos."

Por este motivo, "promover uma cultura que se abra à vida e se baseie na família é fundamental para compreender o pleno potencial e o desenvolvimento autêntico da sociedade, para o presente e o futuro".

"As crianças não devem ser vistas como uma carga, mas como um dom insubstituível e como construtoras das gerações futuras."

Se os legisladores afirmam que o crescimento da população é prejudicial para o progresso, "na verdade, onde se verifica um crescimento econômico, frequentemente ele está acompanhado de um aumento da população".

Neste contexto, "o primeiro capital que há que se salvaguardar e proteger é a pessoa humana em sua integridade", começando por "dar um devido reconhecimento à instituição social mais básica, a família humana, fundada sobre o matrimônio".

"Quando uma sociedade é privada de sua unidade básica, a família, e das relações sociais que derivam dela, podem nascer grandes sofrimentos psicológicos e espirituais e também pode afetar o bem-estar econômico e social", observou o arcebispo.

Integração e solidariedade

Dom Chullikatt recordou depois que "no esforço particular por promover a integração social para toda família humana, a globalização tem oferecido novos caminhos para a cooperação econômica e civil".

A integração supõe desafios como "a desigualdade de riqueza e renda, assim como no capital humano e na educação", ou "a falta de acesso aos setores da sociedade para todos, em particular para os pobres e para outros grupos esquecidos, como as mulheres e as crianças".

Para que haja um "desenvolvimento social autêntico e duradouro, são necessárias medidas e incentivos sociais autênticos que derivam da solidariedade e da caridade fraterna".

"Hoje - concluiu o representante da Santa Sé - é necessário um apoio estratégico para a erradicação da pobreza, baseado na justiça social autêntica para contribuir para reduzir o sofrimento de milhões de irmãos e irmãs nossos."

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Desativada a bomba demográfica

ZP11020602 - 06-02-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27185?l=portuguese



Contagem regressiva rumo aos 7 bilhões de habitantes no planeta

Por padre John Flynn, L.C.
ROMA, domingo, 6 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org) – No fim deste ano, a população mundial atingirá 7 bilhões. Em artigo no site Spiked, Brendan O'Neill observa que este fato levará, inevitavelmente, a uma série de predições malthusianas.
A revista National Geographic publicou este ano várias matérias sobre população, destacando numa reportagem de janeiro alguns representantes pessimistas. Entre eles, Jared Diamond, cujo livro Collapse afirma que o massacre de centenas de milhares de ruandeses em 1994 foi causado, em parte, pela superpopulação.
O artigo, porém, apresenta o contraponto de algumas fontes autorizadas. "A população, em seu conjunto, não está a caminho de uma explosão", diz Hania Zlotnik, diretora da Divisão de População das Nações Unidas, organismo que publica as informações estatísticas da organização (não é, portanto, a agência de planejamento familiar).
Zlotnik também afirma à revista que a velocidade com que a fertilidade decaiu em muitos países e culturas "é espantosa", e que ainda não há um entendimento sobre como o fenômeno ocorreu.
Um chamativo exemplo de até que ponto a fertilidade decaiu aparece num estudo publicado no último 25 de junho pelo Pew Research Center.
Quase uma em cada cinco mulheres norte-americanas termina seus anos férteis sem ter tido nenhum filho, quando nos anos setenta a taxa era de uma em cada dez.
Segundo o estudo, as mulheres brancas têm mais probabilidade de encerrarem o ciclo sem terem tido nenhum filho. Na última década, entretanto, a porcentagem de mulheres sem filhos aumentou mais rapidamente entre as mulheres negras, hispanas e asiáticas, o que diminuiu as diferenças raciais.
Os dados de outros países variam muito pouco. O relatório aponta que das mulheres nascidas em 1960, 22% das do Reino Unido não tiveram filhos; 19% das da Finlândia e da Holanda, e 17% das da Itália e da Irlanda. A porcentagem oscila entre 12% e 14% na Espanha, Noruega, Dinamarca, Bélgica e Suécia.
Errados
National Geographic entrevistou também Joel E. Cohen, autor do livro How Many People Can the Earth Support?, de 1995.
Sobre o impacto de uma população maior e o aquecimento do planeta, ele afirma: "Quem diz que todo o problema é a população está errado". Segundo Cohen, a população nem sequer é o principal fator.
O pai do malthusianismo moderno é mais pessimista. Em 14 de janeiro, o jornal britânico Guardian noticiou que Paul Erlich, autor do livro The Population Bomb, de 1968, considera que a Terra já ultrapassou sua capacidade máxima de habitantes.
Apesar do fato de as predições-desastre do seu livro estarem demonstradamente erradas, Erlich se declara mais pessimista agora do que quando escreveu o livro.
Uma organização britânica, a Institution of Mechanical Engineers, publicou em 14 de janeiro um relatório com visão mais equilibrada. O estudo não minimiza os desafios de uma população em aumento, mas afirma que eles podem ser enfrentados.
Dominic Lawson, em coluna de opinião para o jornal britânico Independent, comenta que o nosso apetite pelas más notícias sempre minimiza as boas. Seu próprio jornal apresentou o relatório num espaço breve, enquanto outros o ignoraram completamente.
Em seu artigo de 18 de janeiro, Lawson observava que outro relatório publicado na semana anterior pelas agências nacionais francesas de agricultura e desenvolvimento também foi ignorado pelos meios de comunicação.
O estudo francês se perguntava se uma população mundial de 9 bilhões, que é o máximo prognosticado, seria capaz de ter uma dieta de 3.000 calorias por dia. E a conclusão foi afirmativa.
Excessivos?
Voltando ao estudo britânico Population: One Planet, Too Many People? (População: Um Planeta, Gente Demais?), ele começa dizendo que atender as necessidades de uma população que pode atingir cerca de 9 bilhões no fim do século "será um desafio significativo para os governos e para a sociedade em geral". Em seguida, examina quatro áreas-chave: alimento, água, urbanismo e energia.
Nas últimas décadas, houve enormes melhorias na qualidade e quantidade de alimentos produzidos, aponta o relatório. No começo do século XX, um granjeiro dos Estados Unidos produzia o suficiente para alimentar 2,5 pessoas. Um século depois, o mesmo granjeiro produz o suficiente para 97 norte-americanos e 32 pessoas que vivem no exterior.
Segundo o relatório, continuar aumentando a produção de alimentos não depende só de futuros desenvolvimentos tecnológicos. Um grande aumento pode ser obtido com a redução do desperdício. Nada menos do que 25% dos alimentos frescos comprados nos países desenvolvidos vai para o lixo.
Na Índia, por exemplo, perde-se a cada ano de 35% a 40% da produção de frutas e verduras antes de o produto chegar ao consumidor. Esta quantidade é maior que todo o consumo do Reino Unido e se deve ao deficiente armazenamento e a uma gestão inadequada.
A capacidade para produzir alimento suficiente não garante em si que não haverá fome. O estudo observa que a fome é, em geral, um problema político ou de pobreza, mais do que uma questão de capacidade produtiva.
Quanto à água, o relatório informa que muitas das tecnologias e técnicas necessárias para garantir o fornecimento já existem.
O relatório pede mais prioridade à água nos projetos de desenvolvimento. Há muitas possibilidades, que vão da dessalinização até a reciclagem da água. Outro projeto a ser implementado é o de separar os sistemas de águas residuais (esgoto) e o de captação da água da chuva. Isto significaria que a água da chuva, menos contaminada, poderia ser armazenada nas épocas de precipitações mais fortes para ser usada nas épocas mais secas.
Os autores também propõem a reconsideração da prática atual de oferecer água tratada para quaisquer usos, inclusive aqueles que não precisam de água particularmente  pura.
O desafio das cidades
Quase todo o crescimento das próximas décadas acontecerá em zonas urbanas de países em desenvolvimento.
"Como no caso de muitos outros temas relativos ao crescimento da população, não há tantas barreiras assim. Podemos achar soluções para uma urbanização crescente", opina o relatório.
É preciso planejar e garantir que as soluções escolhidas sejam as corretas e se adaptem às necessidades locais. Também é necessário encarar aspectos como o financiamento, a propriedade e a participação da comunidade.
Quanto à energia, o estudo ressalta que é difícil predizer a demanda futura, e observa que as estimativas sobre quanto petróleo ainda resta variam muito. Novas tecnologias de geração de energia estão sendo desenvolvidas, apesar do alto custo.
O informe, mais uma vez, afirma que não precisamos basear nossas esperanças em uma tecnologia futura. “É provável, no entanto, que, apesar dos prognósticos de um aumento na demanda futura, a tecnologia de engenharia, que atualmente se compreende relativamente bem e está em uma etapa madura ou em uma etapa avançada de desenvolvimento, poderá contribuir para a energia requerida ao longo do século XXI sem necessidade de novos avanços científicos de importância”.
O texto adverte no entanto que, ainda que estejam disponíveis as soluções, há dificuldades em áreas como a legislação, a economia e a política. Isso significa que terá de haver uma maior coordenação entre engenheiros, comunidades e governos.
O informe conclui repetindo a afirmação de que o aumento prognosticado de população pode-se enfrentar com as tecnologias existentes. As barreiras que existem não são tecnológicas. Algo que há de se ter em mente quando se está frente a cenários de desastres que o meios de comunicação costumam apresentar.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A ideologia que está por trás do controle populacional e dos grupos antivida




O Professor Michel Schooyans é sem dúvida o mais importante estudioso da ideologia que está por trás do controle populacional e os grupos favoráveis ao aborto. Esta é uma síntese de uma larga conversação que ACI IMPRENSA sustentou com o sacerdote e intelectual belga.
Por que a Santa Sé se opõe a alguns supostos "direitos" que promove a ONU?
A ONU há 30 ou 40 anos através de algumas de suas agências especializadas como o UNFPA, a OMS ou o CNUD (Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento) lançou um programa internacional de controle da natalidade, nitidamente maltusiano. Isto significa que a ONU quer propor o controle da natalidade como um meio, uma condição prévia para o desenvolvimento dos povos.
Esta postura merece algumas considerações. O primeiro que terá que ser enfático é que cientificamente nunca foi demonstrado que exista uma relação entre a densidade da população de um país e o desenvolvimento. Há países pouco povoados que são desenvolvidos, como a Austrália, e outros pouco povoados que são subdesenvolvidos; como é o caso dos países da África Central. Inversamente há países muito povoados que são desenvolvidos, como a Holanda que tem mais de 400 pessoas por quilômetro quadrado, e há países muito povoados subdesenvolvidos como o Paquistão. Quer dizer que não há relação entre as duas coisas, depende de cada caso.
Entretanto, a ONU se comporta como se houvesse uma relação determinante entre as duas coisas e diz aos países: "controlem sua população e vão se desenvolver". Mas os países pobres precisam de remédios, escolas, saneamento das águas, hospitais etc. Recursos que realmente favoreçam seu desenvolvimento e não um controle da população. A Igreja não pode e não quer promover uma política de desenvolvimento apoiada em uma mentira científica; em uma hipótese que nunca foi demonstrada...
Poderíamos dizer que é uma ideologia?
Sim, certamente é a ideologia maltusiana, e é muito importante destacar sua persistência. É uma ideologia discriminatória, eugenista, segregacionista. O centro de sua temática poderíamos expressá-lo dizendo: "nós os ricos do hemisfério norte precisamos controlar o crescimento da população dos países do sul porque temos medo desta população".
A Santa Sé é muito consciente de que já desde antes da queda do muro de Berlim houve uma reinterpretação da famosa guerra fria: já não era a guerra Leste x Oeste mas sim a guerra Norte x Sul, opondo os países ricos aos países pobres. Evidentemente a Igreja não pode aceitar esta oposição nem este diagnóstico tipicamente maltusiano. Ela procura uma autêntica solidariedade internacional apoiada na cooperação internacional, em uma distribuição mais eqüitativa dos recursos, na possibilidade concreta de que os países pobres possam acessar ao saber e às técnicas das quais depende seu desenvolvimento. Mas a ideologia maltusiana é muito útil aos países ricos porque apresenta as coisas como demonstradas quando pelo contrário todas as profecias de Malthus foram desmentidas; essa hipótese de que a população cresce mais rapidamente que os recursos alimentícios é uma farsa científica.
Mas há outro motivo pelo que a Igreja não pode admitir as posturas da ONU. Resulta óbvio que é pouco simpático e pouco plausível dizer: "os ricos devem conter o crescimento das populações pobres", e portanto se busca utilizar uma linguagem nova, mentirosa, ideológica: "a linguagem dos direitos humanos": "vocês os pobres têm direito à contracepção, ao aborto. Estes são os novos direitos humanos. Nós -os ricos- queremos ajudá-los a exercer esse direito novo e vamos ajudá-los a desenvolverem-se  enviando métodos anticoncepcionais e dispositivos intra-uterinos e aparelhos para realizar abortos com máquinas especializadas..." A Igreja não pode admitir este tipo de política.
Queria mencionar aqui uma coisa que muitas vezes não está sendo muito bem explicada ao público: além das considerações de ética privada, pessoal, a Igreja se opõe a estas campanhas por motivos de ética social.
O que propõe a Igreja frente a esta ideologia?
Continua proclamando que embora o homem seja pequeno, fraco e débil tem o mesmo valor intrínseco. A sociedade atual não faz isso, é uma sociedade de violência, de exclusão. Para os ideólogos do marxismo como para os do liberalismo a atitude cristã é inadmissível porque os que fazemos a opção de Jesus fazemos ao mesmo tempo a opção pelos pobres, porque Jesus fez esta revolução ao reconhecer os que não valiam nada na sociedade.
A crise que estamos vivendo é realmente uma crise de valores, é a crise da Verdade. Nos ambientes da ONU ou na problemática atual em matéria de democracia se diz: não é necessário querer descobrir a verdade, não somos capazes de descobri-la porque cada um tem a sua; e ocorre que as necessidades da prática nos fazem tomar decisões práticas e então terminamos fazendo o que recomenda John Rose, político norte-americano: discutimos caso por caso sem nos referir a princípios relativos à verdade (que é inacessível) e então tomamos uma decisão. É o que se chama a ética processual, que não considera o que é bom, justo, mau. Será justa a decisão que vamos tomar só porque vamos tomá-la.
Mas com este relativismo integral o respeito devido a todo ser humano desaparece, é condicionado, porque depende de uma decisão consensual sempre re-negociável. Assim, terminamos em uma sociedade de violência onde prevalece à vontade do mais forte.
Como se vincula a este problema o tema da globalização?
Quando se fala de "globalização" esta tocando dois temas. o da "mundialização" e o da "globalização".
Quando alguém fala de "mundialização" se insinua que estamos caminhando para um governo mundial, para uma sociedade sonhada por alguns autores ou políticos famosos -poderia mencionar dois deles como Willy Brandt, chanceler da Alemanha, e Jan Timberland, um holandês que ganhou o Nobel de Economia-. Eles desenvolvem esta idéia da mundialização em que a época das nações soberanas já passou. Convém que pouco a pouco a ONU se torne em um governo mundial e as agências da ONU nos ministérios deste governo. Nesta mundialização vejo uma nova tentativa de instaurar a famosa "Internacional" sonhada pelos marxistas do século passado.
A globalização é algo similar mas em uma perspectiva de ideologia liberal. O mundo é visto como um imenso mercado que devemos integrar. O problema se dá quando através do controle das coisas, das matérias primas, das indústrias, etc., chega-se ao controle dos homens.
No núcleo da ideologia moderna -tanto da de inspiração marxista como da neoliberal- o homem é interpretado de uma perspectiva monística, panteística e neste caso a única ética que se impõe ao homem é fatalista: se formos uma partícula no meio devemos admitir esta situação e se esta o exigir, vamos sacrificar homens à sobrevivência do meio ambiente. É a temática já desenvolvida no Rio do Janeiro em 1992 na reunião "Cume da Terra". Mas é uma ideologia que segue desenvolvendo-se e que submete ao homem ao meio ambiente. A ética aparece como uma submissão à mãe Gaia, a terra. Com este tipo de determinismo ético o homem deve admitir sua situação de mortalidade total e integral. Não há outra perspectiva da vida tal como a conhecemos na terra. Estamos encerrados neste mundo que nos oprime e devemos aceitar o que dizem e pensam os que supostamente entendem este meio ambiente. Por isso há pessoas como Jack Cousteau, que era um farsante de primeira, que junto com vários ideólogos deste tipo recomendavam a eliminação de 3 ou 4 milhões de habitantes da terra justamente para que não haja contaminação porque o homem é o maior contaminador.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O envelhecimento da população brasileira e seus desafios

Introdução:
Até a pouco, em termos demográficos, o adjetivo “jovem” vinha quase que automaticamente conjugado com o que se denominava de  “Terceiro Mundo”. E Terceiro Mundo vinha associado à subdesenvolvimento. Subdesenvolvimento, por sua vez,  trazia à tona  outra expressão carregada de negativismo e até ameaças: “explosão demográfica”. Já o que se denominava de “Primeiro Mundo” vinha conjugado com equilíbrio populacional e até com “cabelos brancos” como símbolos de maturidade e de progresso. Assim sendo, deste confronto entre Primeiro e Terceiro Mundos, parecia emergir uma conclusão lógica e premente: para resolver seus problemas sócio-econômicos e políticos o Terceiro Mundo deveria ser subsidiado para assumir o mais rapidamente possível os pressupostos ideológicos que estariam dando certo no Primeiro Mundo. Desenvolvimento só seria viável com controle da natalidade.    
Pelo rápido crescimento demográfico e  seus problemas  sócio-econômicos e políticos o Brasil se enquadrava perfeitamente no estereótipo terceiromundista. Com isso se apresentava como campo propício para a implantação de uma política que na prática equivalia à uma freada busca no crescimento da população. Os fatos demonstram que já a partir da década de 1960, sobretudo com a implantação do que se denominou de Aliança para o Progresso,  tanto a ideologia quanto as práticas contraceptivas passaram a ser patrocinadas, assimiladas e rigorosamente executadas. Os resultados não se fizeram esperar. Desaparecem as famílias numerosas e se dá uma redução drástica no número de filhos.
Com esse quadro de fundo se compreende que  nações até há pouco denominadas “jovens”, entre as quais se destaca o Brasil, já não podem mais ostentar esse pomposo adjetivo sem que sejam feitas  algumas importantes distinções.  Ao mesmo tempo em que  cresce a pressão dos jovens para ocupar seu lugar na sociedade, cresce também o número de pessoas idosas que se sentem descartadas não só do mercado de trabalho, mas da própria sociedade. À insegurança sentida pelos jovens no que se refere ao seu futuro, corresponde a insegurança das pessoas que ultrapassam a idade produtiva. Essa nova configuração  levanta logo uma série de questionamentos, seja na linha de identificação dos fatores que a provocaram e a continuam mantendo, seja na linha  dos desafios e medidas que se colocam com premência em relação ao presente e ao futuro não muito distante.   Toda essa problemática tem profunda incidência de cunho ético e pastoral.

I) Demografia: uma realidade complexa e diversificada

De uma maneira ou de outra questões demográficas acompanham a história das sociedades organizadas. Ora a preocupação aponta para o excesso, ora para a escassez de habitantes. Na medida em que a demografia se transforma em ciência, a questão demográfica vai   manifestando um grande número de fisionomias diferentes, de acordo com as diversas coordenadas históricas e culturais. Afinal os idosos são sujeitos do seu tempo. São vistos e se vêem de acordo com o imaginário social ( Ricardo de Azevedo, in Idosos no Brasil. Vivências, desafios e expectativas na terceira idade, SESCSP , Editora Fundação Perseu Abramo. São Paulo 2007, 11-12). Há mesmo quem, com propriedade, fale de “construção social da velhice” ( Edmundo de Drummond Alves Junior, Aspectos sociodemográficos de um país que envelhece: o exemplo brasileiro, in Envelhecimento de vida saudável,  Apicuri, RJ, 2009, 16s). Dessa forma o que  se evidencia com sempre maior clareza é que a questão demográfica não pode ser enunciada apenas no singular, uma vez que carrega consigo muitas questões conexas.
Essas questões conexas se conjugam com palavras muito significativas como: trabalho, emprego-desemprego, infra-estrutura, saúde, educação, violência, estabilidade ou  instabilidade  sociais, segurança ou insegurança, e assim por diante. Ademais, se no século XX a tônica parecia apontar mais para a administração de altas taxas da natalidade sobretudo nos países e regiões mais pobres, o século XXI traz consigo outro aspecto nem sempre devidamente contemplado ao menos no contexto da nações emergentes: o do rápido e expressivo envelhecimento da população.
E esse novo componente demográfico levanta logo algumas questões fundamentais no  sentido de se discernir entre  o que há em comum e o que há de original na nossa realidade brasileira; os fatores que determinam essa originalidade;  os desafios daí decorrentes para que a longevidade não seja vista como peso e ameaça, mas como dom e riqueza para o verdadeiro progresso humano. Um paralelo entre nações consideradas desenvolvidas e nações emergentes, ajudará a compreender melhor nossa originalidade com seus desafios específicos. A tudo isso subjazem naturalmente questões éticas e pastorais.

1) Nações desenvolvidas: envelhecimento mais lento e mais amparado
Apesar do fenômeno da globalização que há muito vai se configurando e a cada dia se acentuando mais, é quase impossível avaliar de maneira mais precisa qualquer aspecto da sociedade. Pois sempre são encontradas muitas variáveis. Assim também ocorre com o processo de envelhecimento. Tomando como exemplo a denominada Europa Central, as grandes guerras do século passado simplesmente ceifaram a juventude. E o próprio processo de reconstrução levou a uma cautela em relação ao número de filhos. A isso naturalmente se devem acrescentar fatores culturais, crescente tendência ao secularismo, ao consumismo e ao hedonismo, tendências mais acentuadas justamente  nas nações mais ricas.
Mesmo tendo-se muito presentes as variáveis, não se pode deixar de anotar ao menos  três  constantes complementares no que se refere à população do denominado Primeiro Mundo. A primeira se refere ao fato de o processo de envelhecimento haver sido relativamente lento; a segunda é a de que todas essas nações investiram e continuam investindo muito  em estruturas que favorecem a qualidade de vida das pessoas de idade; a terceira é a de que, de uma forma ou de outra, praticamente todas essas nações sentem o crescente peso do envelhecimento da população nativa. Neste particular muitas  dessas nações já caíram abaixo da simples taxa de reposição e outras se encontram muito próximas disso.  Daí a necessidade de importar mão de obra para manter a máquina produtiva em atividade, sobretudo no que se refere aos trabalhos considerados “sujos” . E o que é mais
As conseqüências disso há muito se evidenciam em vários países, sobretudo nos da denominada Europa Central. Não apenas os imigrantes e seus descendentes se tornam cada dia mais numerosos, como passam a ser considerados como um problema de segurança nacional.  Daí a contradição entre os ideais da União Européia, por exemplo, de derrubar fronteiras, e a realidade de estrangeiros serem empurrados para a ilegalidade e como tais serem perseguidos e deportados. Em vez de uma política de integração o que se percebe, ao menos em algumas nações, é uma política de exclusão truculenta, nos moldes de outros períodos da história dos quais todos nos envergonhamos. Justamente a região do mundo que parecia mais próxima  de encarnar os sonhos da derrubada de todas as fronteiras, dá mostras de regressão inesperada.

2) Características da realidade brasileira: freada brusca
Considerando-se que o envelhecimento da população é uma realidade constatada num grande número de nações de hoje, não é surpreendente que ele venha se colocando com sempre maior intensidade como desafio  também  no Brasil ( R.C.S. Oliveira, Terceira idade: do repensar dos limites aos sonhos possíveis. São Paulo, Paulinas, 1999, pp. 17 e 129)Dadas as melhorias em vários aspectos da realidade brasileira também não surpreendem os fatos da queda do índice de mortalidade infantil e o aumento da longevidade. Só  que a compreensão da nossa realidade  demanda atenção para um traço original e decisivo: a freada brusca no índice de natalidade que se encontra na raiz de uma mudança  rápida e problemática no quadro populacional.  Ainda que, por serem abordados por outros conferencistas, dados não sejam o objeto direto no  presente estudo, a busca de uma compreensão mais adequada da situação, e sobretudo a possibilidade de se evidenciar mais claramente onde se encontram os maiores desafios e como enfrentá-los, pede ao menos alguns leves acenos para alguns dados.
Sabidamente não há unanimidade quando se tenta definir quem são as pessoas idosas. Enquanto em algumas nações se estabelece como parâmetro 60 anos, em outras a linha divisória é estabelecida pelos 65. E a crescente longevidade, com seus desafios,  sobretudo na linha previdenciária,  faz com que já se pense em elevar ainda mais a data limite. Enquanto para alguns estudiosos é preciso distinguir entre os denominados idosos “jovens” e a partir dos 80 anos os idosos “idosos”, aos poucos se evidencia que o segmento populacional denominado de idoso apresenta uma acentuada heterogeneidade resultante seja de condições pessoais seja de condições sociais, que por sua vez podem ser desdobradas numa multiplicidade de aspectos diferentes.
Mas seguramente ao se tratar do envelhecimento no contexto brasileiro o que logo chama a atenção é a brusca freada que se fez sentir sobretudo a partir da década de 1960.  Se em 1940 os maiores de 60 anos não  representavam mais do que 4% da nossa população, já em 1996 eles representavam 8% e hoje ultrapassam os 12%, devendo até 2020 alcançar os 15%. A taxa de fecundidade total ( TFT) por sua vez,  passou dos 5.8 de 1970 para 2.3 no ano 2.000 e hoje, de acordo com o IBGE, ela estaria em 1.8 . Disso se deduz  que  já foi superada a taxa de reposição populacional, com toda a problemática dali resultante em termos de equilíbrio social. Ademais um comparativo entre crianças e maiores de 65 anos nos revela que para   100 crianças de 0 a 14 se devem contar 172,7 mais idosos. A cada ano somam-se à população brasileira nada menos do que 700 mil pessoas acima dos 65 anos. E as projeções para o futuro indicam que em 2050 essas pessoas seriam aproximadamente 50 milhões, perfazendo nada menos do que 25% do total da população. Desses nada menos do que 6.7% terão ultrapassado a faixa dos 80 anos. ( Envelhecimento e vida saudável, Vida e tempo, Organização Edmundo de Drumond Alves Junior, Apicuri, 2009, 24).  Em contraposição, no lugar das atuais quase 50 milhões de crianças, em 2050 teríamos apenas  28 milhões (  Problemas Brasileiros. Em ritmo de envelhecimento.  Encarte limite da sustentabilidade, Washington Novaes,  1-7). Em outros termos, já não há como negar a presença sempre mais acentuada de pessoas idosas no Brasil. Como veremos mais adiante esse fato revela  ganhos, mas também grandes desafios.
3) Planejamento familiar não se confunde com controle imposto da natalidade .
Que o planejamento familiar  tenha se imposto como uma necessidade não há dúvidas. A própria Igreja católica que em outros contextos incentivava as famílias numerosas há muito apregoa o planejamento familiar e demográfico, desde que sejam realmente responsáveis. Pois não apenas as famílias, como também as sociedades apresentam limites que, em nome da responsabilidade pessoal e social, não devem ser ultrapassados. Esses limites apontam na direção dos recursos necessários para garantir condições básicas em vista de uma vida digna. Muitas dessas condições há muito fazem parte de uma lista conhecida. Basta lembrar a alimentação, a habitação,  higiene e assim por diante. Outras condições para que se possa falar em qualidade de vida foram surgindo em decorrência  do próprio desenvolvimento. Fica sempre mais evidente que para a realização das pessoas e das sociedades não bastam as condições mínimas acima lembradas. As exigências vão se alargando no sentido do nível de educação escolar, do aprimoramento profissional, da acessibilidade às comunicações e  muitas outras exigências 
Os questionamentos de cunho ético, com reflexos econômicos e sociais,   emergem das motivações de fundo e dos métodos que se contrapõem à  humanização das pessoas e das sociedades. Uma coisa é planejamento que os casais e as sociedades julgam dever assumir diante das exigências sempre maiores decorrentes das novas condições históricas em que vivem. Outra é ser forçado por uma ideologia anti natalista e por outras formas de pressão, como se a abertura para a vida representasse uma ameaça para seu bem estar e até mesmo o da nação. Ora o que ocorreu no Brasil e em outros países até há pouco considerados “jovens”, e que hoje se deparam com um alto índice de pessoas idosas sem condições estruturais adequadas para acolhê-las,  não foi fruto de um processo de amadurecimento. Essa situação desconfortável resulta de uma freada brusca imposta por forças externas que não apenas foram implantando uma mentalidade contraceptiva, mas até oferecendo todo tipo de contraceptivos.
Uma análise objetiva do que ocorreu no Brasil coloca em ressalto que entre os métodos apregoados e assimilados destacam-se a esterilização e o aborto. No primeiro caso, o que é mais preocupante é o fato de a eventual esterilização não ser decorrência de indicação médica no sentido estrito da palavra, mas o método considerado mais eficaz e mais acertado para todas as idades. No segundo caso, o do aborto, a estratégia teve um primeiro momento impulsionado pelas mais diversas justificativas de cunho ideológico. O resultado se faz sentir nos presumíveis 1 milhão de abortamentos provocados por ano.  Como se isso não fosse suficiente, agora encontra-se em andamento o segundo momento: o da liberação pura e simples, expediente que para muitos se confundirá com  justificativa ética. Ora todos esses processos representam altos custos não apenas em termos estritamente éticos, como também em termos de equilíbrio demográfico, e conseqüentemente de equilíbrio social. Assim se evidencia que a batalha contra o aborto não é uma bandeira da Igreja católica: é uma decorrência lógica para quem analisa a questão populacional com lucidez, e muito mais para quem apregoa os direitos humanos como salvaguarda da segurança de todos.

II) Fatores determinantes no processo de envelhecimento

Já vimos que hoje, com razão, se distinguem os idosos “jovens” dos idosos, “idosos”. Ou seja, além da idade cronológica é preciso ter presentes as várias etapas e as diferentes circunstâncias que marcam a vida das pessoas de mais idade. Na busca de uma melhor compreensão dos fatores determinantes, ainda que sabidamente todos eles habitualmente atuem de forma conjugada, talvez convenha sinalizar alguns que se colocam com maior evidência e outros que nem sempre são devidamente avaliados. No tocante aos primeiros bastam alguns acenos. No que se refere aos segundos convém fazer algumas distinções e considerações um pouco mais desenvolvidas.
Entre os fatores em maior evidência em nossos dias se coloca naturalmente o patrimônio genético. Embora haja uma forte tendência para o reducionismo, no sentido de remeter ganhos e perdas automaticamente e quase que exclusivamente para a genética, não há como negar sua influência na provável longevidade. E naturalmente junto com os fatores genéticos não podem ser negados os fatores biológicos, que, de uma maneira ou de outra vão imprimindo suas marcas físicas e psíquicas mais ou menos acentuadas.
Tão ou mais importantes do que os fatores assinalados, são aqueles que nem sempre são devidamente avaliados, e que no entanto exercem um peso importante na configuração de uma velhice bem, ou então mal sucedida. Entre esses fatores sobressaem alguns de cunho pessoal, na linha da psicologia e da afetividade, e outros de cunho mais social e na linha das denominadas políticas públicas. De qualquer forma, uma adequada abordagem  da velhice exige que se supere uma compreensão homogênea de uma fase da vida que como todas as outras carrega consigo as marcas de uma grande heterogeneidade. Daí a conveniência de acenar para as diferentes expressões dos rostos das pessoas de idade.
1) As diferentes expressões no rosto  dos idosos
A originalidade do processo de envelhecimento da população brasileira  não se manifesta apenas por coordenadas histórico-culturais, nem somente pela freada brusca da natalidade. Uma análise serena que propicie uma serena busca de superação dos problemas não pode esquecer muitos outros fatores que remetem para a história das pessoas, naturalmente sempre entendidas dentro de um contexto sócio-político e cultural. Concretamente isso significa que a história pessoal, com sua multiplicidade de variáveis, pode ser marcada de maneira predominante por emoções e afetos positivos ou negativos. O cultivo de emoções positivas propicia um mais alto grau de auto estima. Essa contribui para que as pessoas se sintam impelidas a comportamentos saudáveis, que por sua vez vão impulsionar um envelhecimento mais bem sucedido. Entre os fatores pessoais não podem igualmente ser esquecidas as convicções religiosas e o maior ou menor cultivo da espiritualidade. A abertura à transcendência e as relações saudáveis com Deus e com o próximo, com certeza asseguram um envelhecimento bem sucedido, ainda que nem sempre livre de provações e contradições. Pois é a espiritualidade que vai propiciar o encontro com um sentido de vida, indispensável para uma vida saudável, justamente quando se acentua a perda da força física e eventualmente também das forças psíquicas ( A. Grün. A sublime arte de envelhecer, Vozes 2007). Daqui decorre a urgência de uma pastoral muito mais atenta para que a idade não seja compreendida como decadência, mas como matu-ridade. Ou seja: à luz de uma espiritualidade verdadeira a conjugação da longevidade com  qualidade de vida abre-se um vasto campo de atuação pastoral, com repercussão sobre a vida social.
As diferentes expressões no rosto das pessoas de idade por si só já nos convidam a fazermos uma distinção básica entre dois grandes grupos. De alguma forma podemos dizer que doenças ou debilidades físicas, bem como desânimo e dependência física são para a maioria o principal sinal de que a velhice chegou ( Gustavo Venturi e Vilma Bockany, A velhice no Brasil: contrastes entre o vivido e o imaginado, in Idosos no Brasil..., 25 e 26). Como também são características comuns a centralidade dos problemas de saúde (Anita Líberalesso Néri, Atitudes e preconceitos em relação à velhice, Idosos no Brasil... 19   ). Mas as diferentes expressões no rosto das pessoas de idade por si só já nos convidam a fazermos uma distinção básica entre dois grandes grupos.   O primeiro é constituído pelos que envelhecem sendo um peso para si próprios, seu círculo familiar e para a sociedade. O segundo grupo é constituído pelos que se enquadram dentro do que se poderia denominar de envelhecimento bem sucedido. No primeiro caso nos encontramos diante de pessoas cujo rosto expressa amargura e o corpo todo expressa dor e fracasso. No segundo nos deparamos com pessoas que cheias de ânimo, mesmo em meio a eventuais limitações de toda ordem. O que as caracteriza é a ausência de doenças ou o menor risco de contraí-las; funcionalidade física e mental; engajamento social; autonomia e independência; vontade de viver e se comunicar. Com razão se diz que entre as pessoas idosas muitas não temem tanto a morte quanto a dependência, a perda da dignidade, a solidão e o sofrimento que pode anteceder à morte.
Claro que a tentativa de enquadrar as pessoas num ou no outro grupo é sempre precária e por vezes até arbitrária. Mas essa tentativa se torna útil na medida em que  levanta a questão sobre as causas do êxito ou do fracasso. Acima já deixamos entender que há inegáveis aspectos da história pessoal que sempre devem ser levados em consideração. Umas carregam consigo traumas de etapas anteriores da vida; outras, ao contrário, são sustentadas na velhice pelos frutos colhidos ao longo da vida. Umas pessoas preparam uma velhice bem sucedida, e outras preparam uma velhice sofrida para si e para as pessoas que as cercam. Na avaliação entre êxito e fracasso nunca se pode perder de vista que os vários estágios da vida se entrelaçam e se reforçam uns aos outros, tanto num sentido negativo, quanto positivo. Mas também não se pode negligenciar o peso do fator econômico e o da presença ou ausência de políticas públicas adequadas.
2) O peso do fator econômico
O que dissemos sobre os fatores ligados à história pessoal, facilmente cairia na abstração, se não se levar em consideração os aspectos econômicos. A economia não somente movimenta a vida social e política, como também movimenta a vida das pessoas, sejam consideradas em sua individualidade, sejam consideradas em suas relações no círculo familiar e no circulo social. Ao se falar de um substrato econômico como indispensável para a realização pessoal, naturalmente não se está sugerindo o volume dos bens pressupostos. Há pessoas e grupos que se realizam com muito pouco, e há  quem, embora sendo extremamente poderoso de um ponto de vista econômico financeiro, é  frustrado não só ao longo da vida que normalmente se denomina de “útil”, como também e sobretudo no processo de envelhecimento. Pois é nesse processo que as pessoas passam a perceber mais nitidamente que o dinheiro não é tudo. O fraquejar das forças físicas e psíquicas vai coincidindo com um crescente processo de solidão de quem não conseguiu se firmar pelo cultivo de outros valores, que não podem ser comprados.
Entretanto, uma vez feitas essas ressalvas, não há como negar a necessidade de um substrato mínimo  para a realização humana. E isso se faz tanto mais notável quanto mais mergulhamos num mundo onde a economia, juntamente com necessidades reais, se especializa na criação de necessidades artificiais. Abundância ou carência de recursos materiais vai significar maior ou menor acessibilidade aos recursos alimentares, habitacionais, condições propícias ou não para a mobilidade, para investimentos culturais e para o lazer. Tudo isso pode parecer supérfluo e de fato era mais ou menos supérfluo até a  revolução industrial, com a conseqüente urbanização e tudo o mais que daí decorre. Num contexto agrário não só as necessidades básicas eram mais facilmente garantidas, mas também a família, no sentido extensivo da palavra, preenchia outras necessidades, sobretudo no sentido de relacionamentos e de lazer. E aqui não se pode esquecer de ressaltar a importância de uma concepção cristã da vida, da família e da própria morte: por si só ela assegurava todo um clima diferente em relação às pessoas de idade. A perda da dimensão religiosa tem muito a ver com a carência sentida em todos os campos quando se trata de pessoas consideradas não produtivas.
Mas quando se fala da importância dos recursos econômicos para garantir um envelhecimento com qualidade de vida, se tem em vista sobretudo um outro aspecto, que é o decorrente das limitações e doenças próprias de pessoas de mais idade. Recursos econômico-financeiros significam sobretudo acesso aos mais sofisticados expedientes para prever, prevenir e eventualmente debelar um grande número de doenças. A geriatria não apenas vai conquistando maior espaço no campo da medicina, como se encontra estreitamente vinculada ao poder aquisitivo das pessoas. Procedimentos terapêuticos mais sofisticados e medicamentos próprios para a terceira idade são sempre os mais onerosos. Como são onerosos os custos que decorrem do auxílio de profissionais  para acompanhar quem já não tem auto suficiência. Por isso tudo se compreende que a qualidade de vida das pessoas idosas tem muito a ver com a classe social à qual pertencem, e mais diretamente com o poder aquisitivo. Enquanto uns dispõem de  todos os recursos necessários, outros são o retrato de uma carência total. Embora que haja pessoas com parcos recursos que possam ter vida longa, sem condições econômicas mínimas, dificilmente essa vida será marcada pela qualidade sonhada.
3) O peso das estruturas e das políticas sociais
Ainda que não possam ser negligenciados os dados da história pessoal e os fatores econômicos,  é forçoso reconhecer que êxito e sucesso pessoais remetem também para estruturas políticas  e sociais que favorecem ou dificultam a vida das pessoas e das famílias. E é nesta altura que se percebe a grande diferença entre o envelhecimento em países e regiões que oferecem infra-estrutura adequadas, e outros países e regiões marcados por estruturas inadequadas. Em se tratando do Brasil não se pode deixar de reconhecer a existência das duas realidades simultâneas. Por um lado foram criadas instituições que, teoricamente garantiriam a todos a tão sonhada qualidade de vida. Afinal temos um Plano de Ação Governamental para o desenvolvimento da Política Nacional do Idoso, que prevê atendimento asilar; centros de convivência; casas-lar; oficinas abrigada de trabalho; Universidade aberta para a terceira idade; grupos de convivência; centros de cuidados diurnos; atendimento domiciliar; cuidadores de idosos.... Belos projetos teóricos. Por outro, são palpáveis as deficiências. No Brasil não faltam disposições legais para garantir condições de um envelhecimento saudável. Além do que determinam a Constituição e seus desdobramentos, merece destaque o Estatuto do Idoso. Existe mesmo um Plano Nacional Integrado, para conjugar os vários organismos e as múltiplas instituições. Conselhos Estaduais e Municipais devem zelar para que todo esse complexo institucional  cumpra a missão para a qual foi criado. Entretanto, como em outros campos, também nesse a realidade fica bem longe do que se deveria esperar. Há uma série de carências que não podem passar desapercebidas.
Teoricamente talvez se poderia distinguir entre carências estruturais, mais dificilmente superadas, e outras conjunturais, que poderiam ser supridas num curto espaço de tempo. As estruturais remeteriam para fatores histórico – culturais associados aos caóticos processos de urbanização, que resultaram em grandes e pequenas cidades mas nunca propriamente planejadas. E mesmo as que eventualmente foram planejadas, há muito ultrapassaram os limites previstos. De qualquer forma poucas apresentam condições aceitáveis de saneamento básico, de transportes e de áreas de lazer. E no que diz respeito à população de mais idade a tudo isso vem se somar a falta de acessibilidade, no sentido mais amplo da palavra: urbanístico, arquitetônico, de comunicação, e mormente de transporte. Para uma pessoa de idade, mesmo que não seja portadora de necessidades especiais, subir uma escada, atravessar uma rua ou tomar um transporte coletivo é quase sempre uma aventura perigosa.  Os riscos de atropelamentos e de quedas parecem mais acentuados do que os mecanismos de amparo para facilitar a locomoção.
No tocante à saúde propriamente dita, ao lado de um notável déficit de políticas adequadas, o que se constata a olhos vistos são espaços físicos inadequados, que se conjugam com profissionais mal preparados, em decorrência  da multiplicação de Instituições de ensino precárias sob todos os aspectos. Até mesmo o pomposo título de “Doutor”, associado à uma profissão historicamente equiparada ao “sacerdócio”, hoje pouco significa. De alguma forma as deficiências estruturais remetem para uma história onde questões de saúde dependiam mais da Casas de Misericórdia, normalmente sustentadas por instituições religiosas, do que do empenho do Poder Público. A questão não se localiza propriamente na carência de verbas: ela se localiza muito mais numa burocracia que, conjugada à corrupção, faz com que esses recursos poucas vezes cheguem ao seu destino. E com isso os denominados “lares para idosos” já no seu aspecto externo acompanham os “postos de saúde”, onde espaços inadequados se conjugam com um déficit acentuado e permanente do material mais necessário para um bom atendimento.
                 
III) Em busca de um envelhecimento bem sucedido

Sabidamente todas as fases da vida conhecem um período de transição, muitas vezes ressentido como “crítico”, pelo fato de as pessoas se sentirem mais vulneráveis. Em cada fase há uma série de “ritos”. Nas fases anteriores esses ritos normalmente vêm carregados de positividade: é um caminho que se abre, para a adolescência.... para a vida adulta.... Já no caso de velhice, os “ritos” em geral acenam na direção contrária, como sendo das despedidas e  o começo do fim. Poderíamos dizer que nessa etapa o processo crítico apresenta ao menos três riscos: o da perda identidade, o perda da autonomia e o da perda do sentido de pertença ( R.C.S. Terceira idade... pp. 24,105/6; CF 2003,60-61).  No primeiro caso, a questão se torna mais premente na medida em que as pessoas deixam suas funções sociais, para se depararem consigo próprias, despojadas de títulos, condecorações e funções, nuas diante do espelho de sua vida. No segundo caso a questão encontra-se intimamente ligada a certas circunstâncias resultantes de doenças ou de acidentes, que impedem a administração da sua vida e isso até nos atos mais simples do dia a dia. Com isso se vai também o sentido de pertença.
Por mais importante que seja o confrontar-se consigo próprio, a partir dos três ângulos acima sinalizados, é preciso deixar claro que isso não basta. As pessoas de idade, individualmente consideradas ou em grupos, vão se defrontar com algumas barreiras. A primeira delas é a dos preconceitos de cunho mais sócio cultural, mas que de uma forma ou de outra também se disseminam no  círculo familiar ( Anita Líberalesso Néri, Atitudes e preconceitos em relação à velhice, Idosos no Brasil... 15s. Esses preconceitos, por sua vez tendem a minar a auto imagem tanto das pessoas, quanto dos grupos sociais.  Uma imagem normalmente utilizada no contexto de quem perdeu seu companheiro ou sua companheira de vida pode ser aplicado nesse contexto mais amplo: a sensação do “leito vazio”. Quanto mais alguém avança em idade, mais vê reduzido o círculo de amizade e de atuação.
Mas há ainda outro aspecto a ser considerado: é aquele que remete para as estruturas familiares e sociais, que facilmente transformam preconceitos nas mais variadas formas de violência: física, psicológica, social. Esses vários tipos de violência vão como que empurrando as pessoas de idade para o canto ou até eliminando-as na sua identidade mais profunda. Só se poderá esperar um envelhecimento bem sucedido se as pessoas de idade, seja como pessoas, seja sobretudo como grupo social, se posicionarem devidamente  exigindo seus direitos.  Esse talvez seja o aspecto mais penoso e mais decisivo, pois, por vezes, impõe uma postura “guerreira”, quando os objetivos não são alcançados pelos meios convencionais. A passividade certamente se constitui numa virtude quando se trata da defesa e promoção de direitos fundamentais. Neste contexto é preciso reconhecer que não poucas vezes uma falsa espiritualidade contribuiu para o aumento da passividade e que uma pastoral para a terceira idade terá grande peso na reversão desse quadro.
1) A sublime arte de envelhecer ( Anselm Grün, A sublime arte de envelhecer, Vozes, 2007)
Claro que, de acordo com as coordenadas histórico – culturais, a velhice já foi pintada de muitas maneiras diferentes ao longo dos tempos. Embora não se possa idealizar nem o passado, nem o mundo agrário, com certeza há uma notável diferença daqueles contextos em relação aos que se seguiram à revolução industrial, urbanização e processo de secularização. Nos primeiros contextos sobressaía a velhice como processo “natural”, quando não como manifestação das bênçãos divinas. Já a ideologia decorrente da revolução industrial ressaltou a negatividade, uma vez que velhice passava a ser sinônimo de não produtividade e até de custos sociais. Em nossos dias, quando os mitos da “eterna juventude” carregam consigo uma espécie de endeusamento da “estética”,  os riscos de insucesso parecem provir de duas direções ao mesmo tempo: a da futilidade   e a da decepção  pela impossibilidade de acompanhar a onda do rejuvenecimento permanente.
De qualquer forma, cada uma das fases da vida representa  um forçoso e por vezes penoso processo de aprendizado. A criança tem que aprendem a manifestar suas necessidades, a andar, a falar, a se comunicar. A começar da expulsão do seio materno, cada passo em frente pode representar o risco de uma queda ou de um passo atrás. Da mesma forma, o advento da adolescência obriga a pessoa a se defrontar com as transformações profundas que vão ocorrendo no seu corpo, na sua mente, nos seus sentimentos. Por isso mesmo também a adolescência força a pessoa a colocar-se como homem, ou como mulher, como pessoa capaz de superar uma série de barreiras. Ao que tudo indica, respeitados os traços próprios de cada pessoa e de cada história, a entrada progressiva para a velhice se apresenta como a mais desafiante. Isso por que enquanto nas fases anteriores tudo aponta para um futuro cheio de sonhos, a velhice aponta para um presente onde o futuro se torna cada vez mais próximo e os sonhos cada vez menos fascinantes. A sensação básica de quem avança em idade é a de que na sua frente se encontra um muro, cada vez mais próximo  e que deve ser ultrapassado, sem que se saiba exatamente o que se vai encontrar do outro lado.
É neste contexto que se evidencia que a longevidade bem sucedida não acontece por acaso, mas que deve ser construída passo a passo em todos os sentidos: no sentido  físico, no sentido intelectual, no sentido dos hábitos e costumes, e sobretudo no sentido espiritual. A palavra chave e quase que mágica para percorrer a última etapa da vida é exatamente essa: “ sentido”. Só será capaz de se preparar devidamente quem encontra um sentido último para seu viver, e por que não, um sentido último também para o seu morrer. Em compensação, na medida em que as pessoas encontram esse sentido em todas as direções, mesmo em meio a eventuais limites que vão se impondo com o tempo, a velhice passa a ser vivida como um período tão ou mais promissor do que os períodos anteriores, e até com certas vantagens. Significativamente a Bíblia, que apresenta uma visão realista da velhice, ressaltando tanto aspectos negativos quanto positivos, ressalta a velhice como a oportunidade de se chegar à sabedoria. Se  vida for comparada com uma montanha, a criança se encontra no sopé, e por isso seu horizonte é muito pequeno; o adolescente e o adulto, vão subindo degrau por degrau, com a possibilidade de descortinar horizontes mais amplos. Mas são as pessoas de idade as que chegam ao cimo da montanha, de onde podem ser descortinadas as mais belas paisagens. E é isso que se pode denominar de felicidade, que não tem idade ( B. TONETO, Idoso, com muito prazer: felicidade não tem idade. São Paulo, Salesiana, 2002). E nessa mesma compreensão se pode até considerar a velhice não mais como um simples processo, mas como uma meta. Isso naturalmente revoluciona toda uma compreensão anterior e negativa da velhice. Ela passa a ser vista como o melhor período pra o cultivo de si mesmo, de sua alma e de seus sentimentos ( Marcelo Santana Ferreira, Reflexões sobre o processo de envelhecimento a partir de Michel Foucould, in Envelhecimento e vida saudável, 16s). Isso se evidencia ainda mais à luz da fé, quando a morte, embora quase sempre penosa, não emerge como uma tragédia, mas como passagem para outra vida em plenitude.
2) Os dolorosos ritos de passagem para a velhice
De alguma forma já acenamos acima para os “ritos” de passagem, que simultaneamente carregam consigo a dor do abandono de uma fase e a alegria do descortinar uma nova paisagem. Depois de havermos ressaltado os ângulos positivos, agora chegou o momento de iluminarmos a insegurança e eventuais dores resultantes dos novos desafios que se apresentam na velhice. Esses desafios são tão profundos e tão difusos que há fale em uma “verdadeira conspiração contra a velhice” ( R.C.S Oliveira, Terceira idade: do repensar dos limites aos sonhos possíveis., São Paulo , Paulinas 1999,  71-80 Três palavras resumem esses desafios quase que inerentes à condição de ser pessoa de mais idade: preconceitos, violências, autodestruição. De alguma forma podemos afirmar que são os preconceitos que se encontram na raiz das várias formas de violência e na eclosão de mecanismos de auto destruição.  Além daqueles que as pessoas têm que enfrentar por sua raça, sua situação econômica, sua fisionomia, sua estatura, há uma série de estereótipos sobre as pessoas de idade, que facilmente se transformam numa pedra de tropeço. Esses preconceitos são tantos e tão pouco consistentes que basta simplesmente elencar alguns deles: velhice seria um processo cronológico progressivo e universal de decadência; desinteresse pelo presente e pelo futuro; senilidade; enfermidade; deteriorização da inteligência; incapacidade de novos aprendizados; tendência ao isolamento, ou relações limitadas a outras pessoas de idade; peso para a sociedade; morte próxima ( CF 2003, pp. 17ss.). A urbanização, industrialização com os avanços da tecnologia científica e da informática parecem estar reforçando ainda mais a distância das gerações: até crianças pequenas sabem mais do que pessoas de idade, e isso sob os mais diversos assuntos ( Maria Eliane Catunda de Siqueira, Velhice e políticas públicas, in Idosos no Brasil..., 212; Sara Nigri Goldman, Envelhecimento e exclusão digital: uma questão de política pública, in Envelhecimento e vida saudável, 297ss). Entre todos esses preconceitos um merece maior atenção por se constituir num pressuposto totalmente falso e por isso mesmo causador de mágoas profundas: a improdutividade. Pessoas de idade seriam um peso para si, para a família e para a sociedade. Ora, justamente no quadro brasileiro um grande número de famílias vive do salário dos aposentados. Isso sem esquecer que são numerosas as famílias monoparentais, ou seja, mantidas por um dos cônjuges, e muitas vezes justamente os de mais idade. Não se pode esquecer ainda a feme
nelização da velhice: não só as mulheres têm vida mais longa, mas parecem mais produtivas e são o sustentáculo de filhos e netos.
A segunda vertente da dor vem estabelecida pelas múltiplas formas de violência que se volta de modo particular contra as pessoas de idade. Essas deixaram de ser vistas como guardiões de valores, mestres em trabalhos manuais,  e conselheiros sábios para momentos difíceis, seja a nível familiar, seja a nível social ( James Hillman. A força do caráter e a poética de uma vida longa, Objetiva, 1999, 33s). Antes passam a ser uma espécie de saco de pancadas, sofrendo todo tipo de violências. E por incrível que pareça, um primeiro foco se aninha onde menos se esperaria: no seio da própria família. Para uma melhor compreensão dos mecanismos próprios da violência ter presente uma distinção entre a física, estrutural e simbólica ( CF2009, p. 47- 48). Numa conjugação pérfida círculo familiar e social vão se reforçando mutuamente. A violência familiar não procede apenas de eventuais conflitos, oriundos de causas múltiplas, como também por um processo de  exclusão, que vai colocando “os velhos” de lado. Essa exclusão é por vezes sutil, mas nem por isso menos dolorosa, no sentido de as pessoas de idade irem se sentido inúteis e vistas como um peso para a família e para a sociedade. A violência que remete mais diretamente para a sociedade aponta naturalmente para uma infra estrutura já sinalizada acima. Basta lembrar as condições dos postos de saúde e o funcionamento da assistência social.  Contudo, neste contexto convém destacar aqui a denominada violência simbólica. “ Esse tipo de violência é menos perceptível no meio social, mas nem por isso seus efeitos são menos nocivos. A ação acontece por coação através da força de símbolos, situações, constrangimento, ameaças; pela exploração de fatos ou de situações; pela negação de informações ou de um bem de necessidade imediata ou irrevogável; por chantagens e pela cultura do medo... pela humilhação” ( CF 2009, p. 48). Para completar o quadro de violência de cunho institucional convém lembrar as condições de funcionamento de um grande número de clínicas e asilos, onde com freqüência se conjugam péssimas condições físicas, incompetência profissional e abandono familiar. É notável nesses ambientes o que se poderia denominar de “infantilização”. Muitas pessoas que desempenharam funções mais ou menos importantes na sociedade, se vêem constrangidas a seguir uma rotina despersonalizante, onde elas não passam de um número a mais, aguardando apenas a hora da morte.
Quando se têm presentes esses e outros elementos que compõem o panorama dominante quando se trata de pessoas idosas, se compreende melhor o porque tantas delas passam a vivenciar um processo cada vez mais intenso de auto- destruição. Esse processo parece ter início no campo da linguagem. Enquanto a criança vai assimilando a linguagem dos adultos e com isso vai sendo acolhida num círculo cada vez mais amplo, os mais velhos são conduzidos ao processo inverso: “... são excluídos do enriquecimento semântico das palavras e, logo, sentem-se desambientados e pressionados a perder o sentido da linguagem, instrumento indispensável para o desenvolvimento das funções mentais superiores” ( Agostinho Both, Gerontologia, educação e longividade, Editora Imperial, Passo Fundo, 2001, 66). Esse processo não remete apenas para as marcas dos anos que vão se estampando nas fisionomias, como remete sobretudo para marcas psíquicas e espirituais. De uma forma ou de outra a pessoa, já fragilizada seja pelos anos, seja pelas enfermidades e limitações próprias da idade, passa a assimilar uma imagem que originariamente não era a sua. É a imagem que vai sendo esculpida  ora pelo círculo familiar, ora pelos asilos, ora pelo círculo social. O desaparecimento progressivo dos amigos e a falta de amparo carinhoso por parte das pessoas com as quais se vêem obrigadas a conviver, as pessoas de idade facilmente vão entrando num processo depressivo. Claro que ao falarmos em depressão iremos  nos deparar com muitos quadros diferentes. Entretanto, não raro as formas mais profundas vão semeando no coração dessas pessoas o desejo de morrer, quando não a tentação do suicídio.
3) Abrindo caminho para uma nova realidade
Como observamos desde a introdução, ainda que nunca e em nenhum contexto seja fácil conjugar envelhecimento e qualidade de vida, convém ter presente a originalidade do nosso quadro brasileiro. Enquanto em várias nações a consciência do fato levou à políticas sociais que amparam as pessoas de idade, no Brasil ainda nos encontramos longe disso. E é por essa razão que abrir caminho para uma nova realidade se torna um imperativo primordial para as próprias pessoas, para o círculo familiar e para a sociedade no seu todo. Para isso acontecer vão se impondo certas exigências, que talvez possam ser resumidas na palavra “estimulação”.. Existem vários ângulos a serem considerados quando se fala de estimulação. Devemos ressaltar ao menos três: o nível físico, o nível intelectual, e o nível psíquico-afetivo e espiritual. Aqui não vem ao caso descrever o que pode ser feito em cada um desses ângulos. Basta ter presente que se trata de exercitar, instigar, animar, encorajar as pessoas idosas para, de acordo com os limites de sua condição pessoal incrementar ainda mais aquilo que eventualmente já vinha executando em fases anteriores. Ademais a toda uma série de atividades que conjugam realização e prazer e que encontram nessa altura da vida um espaço mais propício. Esse é o caso, por exemplo da arteterapia ( Ligia Diniz, O alcance da arteterapia aplicado em projetos sociais, in  Envelhecimento e vida saudável, 285s; Sara Paín, Os fundamentos da arteterapia, Vozes, Petrópolis 2009).
Entretanto, para que isso tudo seja possível, antes de mais nada a própria pessoa deve ter consciência de que jovem e velho não são termos antagônicos, mas simplesmente fases diferentes da vida. De alguma forma se pode dizer que ser jovem é uma questão de postura ( Hermógenes de Andrade Filho, Saúde na terceira idade. Ser jovem é uma questão de postura, Editora Nova Era, 1996. Reio de Janeiro). Por essa razão, embora a pessoa idosa tenha que aceitar as limitações próprias da idade ou de sua condição resultante de algum acidente, ela deverá, antes de mais nada cultivar a certeza de que para uma pessoa normal a idade em si mesma não altera a personalidade. O que pode decorrer da idade é uma maior ou menor flexão de características já anteriormente existentes. E ainda mais: até mesmo em se tratando de perdas, em geral elas podem ser compensadas através dos mais diversos exercícios. Assim, por exemplo, em se tratando da perda da memória ela pode abrir caminho para uma maior racionalidade e maior pragmático. O importante é buscar manter-se sempre atualizado, e na medida do possível abrir até novas frentes de exercícios intelectuais.  Da mesma forma, se tomarmos como referência o aspecto afetivo: as emoções, a idade pode dar novos coloridos, o que não significa anular a capacidade de amar e de criar novos laços. Da mesma forma, quando nos voltamos para o ângulo espiritual nos deparamos com uma oportunidade ímpar de crescimento no amor a Deus e no amor ao próximo. Uma comparação pode ajudar a entender esse aspecto do crescimento. A vida é como uma montanha. A criança se encontra no sopé, o que lhe possibilita uma percepção bastante limitada da realidade; o adolescente vai percebendo um alargamento de horizontes; quando mais vivemos mais vamos subindo os degraus da montanha. Ora, quem chega a uma idade mais avançada, encontra-se no alto da montanha, o que possibilita a vista de um horizonte mais amplo ( CF. 2003, pp. 65ss).
Nessa altura  a pessoa de idade normalmente irá se defrontar com questões que remetem para a espiritualidade e se constituem num convite para o cultivo de uma série de virtudes mais facilmente encontradas nessa etapa da vida ( Anselm Grün, A sublime arte de envelhecer, Vozes 2007, 79s) . Na exata medida em que uma pessoa normal vai envelhecendo, vão se colocando questões de maior profundidade sobre seu futuro. Questões que se referem de imediato sobre onde e como iremos viver a última fase da vida. Mas as questões mais prementes vão na direção do sentido do sofrimento, da vida, e naturalmente da morte. É nesta altura, quando já não há como negar as limitações, que os desafios são maiores, no sentido de uma compreensão mais profunda  da realidade. E com isso se abre a perspectiva da sabedoria, com razão muitas vezes associada à idade mais avançada, ao menos em certas civilização mais antigas e em certas religiões. Neste contexto convém lembrar o “Conselho dos anciãos”, existente no antigo Israel e em muitos povos orientais e povos indígenas. Aliás, esse é o sentido original do “Senado”: os senadores deveriam ser pessoas experientes para enfrentar momentos e problemas mais complexos da sociedade. A sabedoria de quem sabe aproveitar o envelhecimento vai fazer com que haja uma reavaliação de tudo, inclusive da própria vida. E na medida em que a sabedoria vai sendo cultivada, a própria morte deixa de ser entendida como algo de apavorante, para ser entendida como uma nova etapa da vida ( SCHOTSMANS, P., A vida como plenitude: contribuição dos idosos para uma civilização digna do homem. Concilium 235 (1991), 326-339)

Conclusão:

Quando se trata das condições dos envelhecidos no Brasil, não se pode fugir a uma dupla constatação. A primeira é que, por fatores múltiplos, o número dos que atingem uma idade mais avançada é expressivo e tende a ser ainda maior. A segunda é que esse próprio fato é surpreendente, dadas as condições de vida que uma grande maioria da população tem que enfrentar para nascer, para sobreviver nos primeiros anos de vida, e sobretudo para chegar a uma idade mais avançada, apesar de tantas provações e privações. Como procuramos demonstrar, um envelhecimento bem sucedido não depende apenas das políticas públicas de saúde. Mas com certeza é nessa direção que se deve investir com maior insistência, para que o poder público ofereça melhor estrutura, melhor atendimento, e colabore eficazmente para a derrubada de todo tipo de preconceitos. Entretanto, só isso não basta. O que está ocorrendo no Brasil é um verdadeiro desperdício, no sentido de a força da experiência das pessoas de mais idade não ser devidamente canalizada para a construção de uma sociedade mais humana para todos. Os mais jovens podem adquirir um saber internetizado, mas a sabedoria pressupõe arranjos afetivos e cognitivos que resultam de uma história local e um coração particular. Essa sabedoria de vida é mais facilmente encontrada em pessoas que envelhecem com qualidade de vida ( Agostinho Both, Gerontologia, educação e longevidade, Editora Imperial, Passo Fundo,2001, 38). Há muitas pessoas que apresentam uma vida longeva e saudável e que podem contribuir de múltiplas formas e em múltiplas direções, beneficiando os outros, e com isso a si próprias. Uma nação que despreza essa força intelectual, moral e espiritual, nunca será uma nação forte e bem estruturada.

Por outro lado, por mais que se insista no papel do poder público, não se pode negligenciar o ângulo da educação, seja das próprias pessoas de idade, seja dos seus familiares, seja de toda a sociedade. No que se refere à própria pessoa como pessoa, ela precisa ser educada desde cedo para não deixar a velhice acontecer, mas prepará-la com todo o carinho, como se preparou para as outras fases da vida. Ainda no que se refere às pessoas como pessoas, elas devem ser educadas para não aceitar a invasão de sua privacidade e dos limites dos seus direitos inalienáveis. Ou seja: elas têm que aprender a superar todas as barreiras de caráter discriminatório. E para tanto não podem contar apenas consigo própria, mas como qualquer categoria social, têm que lutar para conseguir uma organização capaz de os  direitos que cabem a todos os idosos. Eles nem sempre apresentam necessidades especiais, mas sempre apresentam necessidades específicas.

Por fim, fica cada vez mais claro que, em grande parte, somos aquilo que imaginamos ser. Quem se imagina inútil, será inútil. Quem, no entanto, busca por todas formas preencher o vazio existencial com sempre novas atividades e sempre novos projetos a curto, médio e longo prazo, não tem o que temer na velhice. Ainda que tenha de conviver com certos limites, sempre sobrará muito espaço para uma série de atividades, de ordem física, psíquico-afetiva e espiritual. Em suma, o envelhecimento bem sucedido é uma arte, que pode ser resumida em algumas expressões, como: viver intensamente todas as idades; cultivar todos os talentos; saber articular limites com a certeza de que sempre se pode dar mais um passo adiante. O envelhecimento bem sucedido é aquele das pessoas que sabem colher flores mesmo entre espinhos. Todas as etapas da vida são belas e produtivas para quem, em vez de entregar os pontos, vai estendendo sempre mais a faixa dos limites que à primeira vista parecem intransponíveis. Pois o ser humano pode muito mais do que imagina, desde que, movido pela auto confiança e a confiança dos seus semelhantes, coloque sua esperança naquele que o enviou a essa terra para cumprir uma missão. E a longevidade com qualidade de vida, com certeza, revela como nenhuma fase anterior, o rosto das pessoas realizadas por terem cumprido sua missão até o fim.
obs.: Artigo publicado Revista Eclesiástica Brasileira número 277 de janeiro/2010 Vozes.

domingo, 10 de outubro de 2010

Declaração do CCEE sobre a Demografia e a Família

Os presidentes das Conferências Episcopais dos Países europeus, reunidos na Croácia, em Zagreb, para a 40ª Assembleia Plenária do CCEE (Conselho das Conferências Episcopais da Europa) reflectiram sobre o tema da demografia e da família.

O questionário, feito junto das Conferências Episcopais, relativo a 47 países, confirma um claro decréscimo demográfico. Para que tal aconteça, tem, certamente, influência o tipo de políticas familiares que os diversos países estabelecem, mas isso não parece ser suficiente para explicar a pesada e generalizada queda da natalidade, a que já se chama “inverno demográfico”.

O clima cultural generalizado, de facto, incide, e não pouco, sobre os comportamentos pessoais e sociais. Por parte dos católicos é necessário crescer numa fé mais consciente e mais informada para poder avaliar com sentido crítico a cultura dominante que pôs em discussão valores como o da vida humana, desde o seu início até ao seu fim natural, a pessoa na sua estrutura objectiva, a liberdade como responsabilidade moral, a fidelidade, o amor, a família.

É muito preocupante, por exemplo, o debate destes dias junto do Conselho da Europa, que quer limitar o direito de objecção de consciência dos profissionais de saúde para tornar mais fácil o acesso ao aborto. Tudo isto torna claro que, além de ser preciso ter uma fé viva e bem enraizada, seja necessário acreditar na capacidade da razão em descobrir a verdade das coisas em si mesmas e da ética. A presença da Igreja Católica, neste contexto, deve inspirar-se na esperança: a nossa esperança é Jesus Cristo, e deve saber colher os sinais de atenção e de confiança, mesmo que estes se exprimam de forma discreta.



Estamos certos de que a consciência humana é capaz de abrir-se aos valores presentes na nossa natureza, criada e redimida por Deus através de Jesus Cristo. A Igreja, consciente da sua missão de servir o homem e a sociedade com o anúncio de Cristo Salvador, recorda as implicações antropológicas e sociais d'Ele derivadas.

Por essa razão, não cessa de afirmar os valores fundamentais da vida, do matrimónio entre um homem e uma mulher, da família, da liberdade religiosa e educativa: valores nos quais se alicerçam e pelos quais se pode garantir qualquer outro valor declinado sobre o plano social e político.

As muitas famílias que acolhem a presença de Jesus e vivem segundo a verdade da família, não cessam de dar testemunho da beleza e da correspondência ao coração humano de quanto a Igreja proclama, mostrando que é possível viver em família como Cristo convida a fazer.



À luz do tema emergiu ainda, com toda a sua urgência, o empenho educativo segundo o milenar património da Igreja: tarefa essa que encontra em Cristo – verdadeiro Deus e homem perfeito – o Mestre, o modelo e a fonte de graça.

Conselho das Conferências Episcopais da Europa

domingo, 26 de setembro de 2010

CINCO PRECONCEITOS CONTRA O AUMENTO DA POPULAÇÃO

(Dom Estêvão Bettencourt. Pergunte e Responderemos, n.º 511, janeiro 2005, p. 29 a 33)

Em síntese: Quem percorre a bibliografia referente à questão demográfica, verifica haver cinco principais preconceitos contra o aumento da população, preconceitos mais imaginários do que realistas, a saber: 1) as previsões de Tomás Roberto Malthus; 2) o esgotamento dos recursos; 3) a escassez de alimentos; 4) a superpopulação como causa de pobreza; 5) a defesa do futuro.

* * *

O advogado argentino Jorge Scala em seu livro "IPPF: A multinacional da morte" (ver PR 505/2004, p. 294), apresenta sete slogans ou sentenças sobre aumento demográfico, mal fundamentadas, que os meios de comunicação social difundem, suscitando amedrontamento ou mesmo pânico.Também cita fatos que desmentem tais preconceitos oferecendo ao público aspectos da questão geralmente silenciados; ver pp. 277-287. Examinaremos, a seguir, cinco desses preconceitos.

1. As previsões malthusianas

Em 1798 o pastor (ou ministro do culto anglicano) Tomás Roberto Malthus publicou o livro "Ensaio sobre o Princípio da População", em que afirmava ser o crescimento da população infinitamente maior do que a capacidade da terra para produzir alimentos.

Para tanto recorria ao confronto de um numerador fixo com denominador variável.O primeiro (numerador fixo) seriam os recursos naturais finitos (o mesmo campo, com os sucessivos cultivos produz cada vez menos); o denominador variável seria a população do globo que vai crescendo em forma exponencial ou geométrica. Na base de seus cálculos, Malthus previu que, um século depois, em 1898, a Inglaterra teria 112 milhões de habitantes e alimentos apenas para 35 milhões; ora em nossos dias a Inglaterra ainda está nos 58 milhões de habitantes! A nível mundial Malthus calculou que em 1998 haveria 128 bilhões de habitantes, quando na verdade estamos entre 6 e 7 bilhões.

Malthus não levou em conta a inteligência e a liberdade do homem, que não está sujeito a ritmos de comportamento inexoráveis e que pode aplicar sua inteligência à descoberta de novos meios tecnológicos para prover às suas necessidades.

Refletindo sobre esses dados, verificamos que não é possível submeter a pessoa humana a esta medição matemática, "Porque cada ser humano é distinto dos demais e, além disso, cada pessoa é livre, não se podem predizer nem projetar seus comportamentos, já que nem sequer cada um de nós é capaz de prevê-los para si mesmo. Por isso, falham todas as predições demográficas. Por exemplo, um Boletim do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou em 1969, com dados das Nações Unidas, que a população mundial chegaria no ano 2000 a 7.500 milhões. Em 1974 o FNUAP afirmou que essa quantidade seria de 7.200 milhões. Em 1976, que seria 'aproximadamente' de 7.000 milhões. Seu prognóstico em 1978 foi de 5.800 milhões" (p. 279).

2. O esgotamento dos recursos

A Conferência das Nações Unidas para a Conservação dos Recursos previu para 1975 o fim das reservas de chumbo, cromo, zinco e cobre neste mundo. Ora, em vez de se esgotar, tais reservas aumentaram respectivamente 115%, 675%, 61% e 179% durante o período focalizado. Em nossos dias após novas pesquisas e explorações as reservas mais ainda aumentaram. Nenhum mineral foi esgotado no decorrer da história.

Arauto do esgotamento de recursos foi Paul Erhlich em seu livro "A Bomba da População", datado de 1968. Afirmava que a Inglaterra desapareceria no ano 2000. E acrescentava:

"A batalha para alimentar toda a humanidade terminou. Em 1970 o mundo sofrerá privações, centenas de milhões de pessoas morrerão de fome, apesar dos programas de emergência que se estabeleçam agora. Nestes momentos, já nada pode impedir um incremento substancial na taxa de mortalidade mundial" (615). Obviamente nada disso ocorreu. Sem embargo, em 1990, Paul Erhlich animou-se a escrever "A Explosão Demográfica", outro livro-catástrofe, com erros similares, mas sem o êxito editorial do anterior.

"Global 2000": Tratou-se de um relatório ao Presidente Carter, redigido em 1980. Esse trabalho foi refutado em 1984, por um grupo de especialistas encabeçados por Julian L. Simon e Herman Kahn, em um estudo intitulado "The ResourcefuI Earth", onde seus autores afirmam, entre outras teses, que: "1. A expectativa de vida aumentou aceleradamente em todo o mundo, como resultado dos avanços demográficos, científicos e econômicos... o abastecimento de alimentos (pelo menos desde a II Guerra Mundial) tem melhorado, se medido pelo preço dos grãos, pela produção para o consumo e pelas taxas de mortalidade por fome... 12. Os recursos minerais se estão convertendo em menos e não em mais escassos", etc. (cf. pp. 281 s).

3. Escassez de alimentos

O Prêmio Nobel Teodoro Schultz afirmou que o solo se está desgastando, os recursos naturais vão acabando, a terra cultivável já não produz os alimentos necessários à população, que vai crescendo no mundo inteiro e não tardará a sofrer cruciante fome...

Ora entre 1950 e 1980 a produção de alimentos per capita aumentou em 49%. Respeitáveis estudos julgam que há possibilidade de alimentar 39 bilhões de habitantes sobre a Terra, mesmo que as atuais técnicas agrícolas não sejam ainda mais aperfeiçoadas. Se existe fome no mundo, ela se deve a guerras, à má distribuição de riquezas, à falta de solidariedade entre os homens.

Aliás, há quem julgue que os recursos que a natureza oferece aos homens são, de certo modo, inesgotáveis. Com efeito, o ser humano, aplicando sua inteligência, está sempre a melhorar o rendimento de tais recursos; assim, por exemplo, um hectare de terra produz hoje muito mais do que há três mil anos. Com outras palavras: o homem explora cada vez mais o potencial dos elementos que o cercam.

Além disto, é de notar que muitos recursos de antigas civilizações foram substituídos por outros mais recentes e mais eficazes.

4. Superpopulação como causa de pobreza

O Prêmio Nobel de Economia, Hayek, em seu livro "Nossa Herança", observa:

"Não é certo que o aumento de população conduz ao empobrecimento. Não temos traço algum de história que o comprove... Não se conhece caso em que o aumento demográfico tenha levado ao empobrecimento" (p. 283).

Esta sentença pode apoiar-se sobre numerosos casos reais como, por exemplo, o de Taiwan: entre 1964 e 1973 registrou-se nesta ilha um crescimento demográfico anual médio de 2,57 (o que é catastrófico para o desenvolvimento econômico, segundo Malthus).Eis, porém, que nesse mesmo período a renda per capita cresceu 203%; a poupança líquida 796%; o PIB 260% e o valer das exportações 1.040%.

Em Hong Kong, entre 1960 e 1980 a população cresceu 2,8% ao ano e o PIB 7% ao ano; a população aumentou 50%, mas os salários duplicaram.

"A lei econômica segundo a qual a uma maior população corresponde proporcionalmente uma maior riqueza, que cobre com acréscimos o crescimento demográfico, tem uma explicação vital: É lei de vida que os pais de uma família numerosa - em geral - trabalhem mais do que os de uma família pequena, para cobrir suas maiores necessidades. Por sua vez, é freqüente que ao entrar na adolescência, muitos filhos de famílias numerosas comecem a trabalhar (uma boca a mais são também dois braços e uma inteligência a mais para trabalhar). Isso que acontece em nível de famílias, sucede também em nível de países, e explica que as nações com maior crescimento demográfico (subdesenvolvidas ou não) sejam as que têm um crescimento econômico proporcionalmente mais alto" (p. 283).

5. A suposta defesa do futuro

Os defensores do controle da natalidade argumentam que, baixando as taxas de natalidade, defendem o futuro da humanidade. Comprovou-se o contrário. Ao longo de 30 anos de políticas antinatalistas, os países "desenvolvidos" estão envelhecendo a níveis insustentáveis. Pierre Chaunu sintetiza assim: "O vazio que se formou na pirâmide de idades da quarta parte mais inteligente do mundo não tem precedentes. Mesmo se tudo voltasse à ordem no ano próximo, a perturbação provocada por essa mutilação da carne de uma quarta parte do mundo supera, em muito, as perdas provocadas pelas duas grandes guerras mundiais" (624).

"Chama-se envelhecimento (da população) o crescimento da relação entre o número de velhos e o da população total. Uma população inicia o processo de envelhecimento quando, segundo Tabla de Diviliard, cruza a fronteira dos 5,6% de pessoas com mais de 65 anos e 8,8% de pessoas com mais de 60 anos... Como aponta Sauvy, 'o crescimento da população de anciãos não se tem feito, em geral, em detrimento da população adulta... É sobre os jovens que repercute aquele crescimento, ocasionando seu descenso... A estreita relação entre o envelhecimento e a esterilidade voluntária tem uma importância sociológica. Justificada ou não, a negativa de dar a vida tem reduzido a vitalidade das populações... O antídoto é claro: não deixar debilitar-se a natalidade; acautelar-se com a nova situação, dirigir voluntariamente o olhar ao porvir" (625). Falando de toda a Europa, Zurfluh nos diz que "com uma taxa de 1,87 filho por mulher, os menores de 20 anos já são menos que os maiores de 60 anos. Acima desta cifra a situação se torna cada vez mais extrema. A Alemanha, com uma taxa de 1,3 filho por mulher, terá, dentro de pouco tempo, duas vezes mais pessoas maiores que jovens" (626). Atualmente, "os dados mais preocupantes fazem referência à queda de natalidade na Europa, cujo crescimento demográfico segue uma linha descendente desde 1984, cada ano mais acelerada e cuja taxa de crescimento natural (descontando a imigração) situa-se em 1,1 por mil. Em 1993 nasceram no Espaço Econômico Europeu (a Europa dos 17) 4,19 milhões de crianças, 110.000 a menos que em 1992, o que supõe uma taxa de fecundidade (filhos por mulher em idade fértil) de 1,5, muito abaixo do limite mínimo para que se renovem as gerações (2,1). As taxas de natalidade passaram de 11,5 por mil em 1992 a 11,2 em 1993. Apesar disso, no último ano a população européia experimentou um ligeiro crescimento de 0,39% (1,5 milhão de pessoas a mais), devido principalmente às migrações... A baixa taxa de natalidade chegou a tal ponto que em 1993, pela primeira vez desde 1960, há dois países europeus em que houve mais mortes que nascimentos. Trata-se da Alemanha (com um balanço de + 96.000 falecimentos) e Itália (+ 3.600) (627).

Em 1994, a situação da Itália piorou. Com efeito; "o futuro do país europeu se apresentará cheio de problemas se não se conseguir reverter o rápido envelhecimento da população em um Estado onde, em 1994, morreram 584.081 pessoas. Paradoxalmente, a expectativa de vida não pára de crescer entre os italianos. Este fenômeno do aumento do número de mortos em um marco de prolongamento dos anos de vida, é conseqüência de que a porcentagem de anciãos é cada vez maior, comparada com o total da população. Em 1994 houve 20.675 mais mortes que nascimentos (628).

A população do Japão está batendo um dos recordes mais temidos no mundo ocidental: o envelhecimento. Segundo os últimos dados, no ano 2025 será o país com mais velhos do mundo. A população japonesa chegará a seu nível máximo no ano 2007 e estará composta por 20% de pessoas com mais de 65 anos, estima o Instituto de Investigação Demográfica de Nihon... A proporção de pessoas com mais de 65 anos ascenderá de 12% em 1990 a 17% em 2000 e se situará em 20% em 2007, a porcentagem mais alta do mundo. Além disso, a maioria dos anciãos viverá sozinha no futuro. De 11% em 1990, passar-se-á a 18% em 2025... Para burlar este destino fatídico, Siroku Kajiyhama, secretário do partido liberal-democrata, atualmente no poder, pediu aos matrimônios japoneses que tenham como mínimo três filhos a partir de agora, único remédio que pode salvar a próxima geração de japoneses de perder seu tradicional 'espírito de competência', indispensável em uma economia de mercado. 'Vocês não precisam ter dez filhos, mas somente entre três e cinco', pediu Kajiyhama, referindo-se a seu exemplo pessoal, pois ele mesmo é pai de dez filhos. Segundo o secretário geral, as famílias numerosas desenvolvem o espírito de competência entre as crianças" (pp. 284s).

Estas e muitas outras informações, sobre o assunto podem ser colhidas no livro de J. Scala "IPPF. A Multinacional da Fonte" editado pelo Comitê Pró-Vida de Anápolis, C.P. 456, 75024-970 Anápolis (GO); tel. (62) 321-2102 - Telefax (62) 321-0900.