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sábado, 12 de março de 2011

História dos Jesuítas




O carisma apostólico da Companhia não é um fato isolado na vida da Igreja. Faz parte de um movimento profundo do Espírito de Deus, que renova constantemente a vida da Igreja.
Podemos dividir a História da Companhia em duas grandes épocas: 1) a Antiga Companhia e 2) a Companhia Restaurada.
1. A Companhia Antiga
(1540-1773)
1.1. Crescimento e Expansão
(1540-1687)
A Companhia de Jesus foi aprovada pelo Papa Paulo III, em 1540. Aquela época estava caracterizada por:
uma situação de divisão e conflito dentro da Igreja (a Reforma Protestante);
a expansão das fronteiras geográficas, com a descoberta da América e a abertura de novas rotas comerciais na Ásia;
uma autêntica revolução, no campo das ciências e das letras.
A Companhia antiga tentou dar uma resposta positiva a esses desafios, atuando em quatro campos:
1.1.1. Serviço ao povo cristão na defesa e promoção da fé
A Igreja do século XVI, sacudida pela Reforma Protestante, tomou consciência do abandono espiritual em que se encontrava o povo cristão. Nesse contexto, os primeiros Jesuítas dedicaram-se aos ministérios sacerdotais tradicionais (pregação, confissões, catequese...), junto com novas iniciativas e estratégias pastorais: os Exercícios Espirituais, as Missões populares, Associações de leigos (Congregações Marianas), e o uso do teatro na pregação, liturgia e catequese.
1.1.2. Propagação da fé nos territórios de Missão
Aproveitando o esforço expansionista dos grandes impérios da época (Espanha e Portugal), os Jesuítas estão presentes, desde a primeira hora, nos novos mundos que se abrem à atividade missionária da época. São Francisco Xavier percorre a Índia, Indonésia, Japão e chega às portas da China; Manoel da Nóbrega e José de Anchieta ajudam a fundar as primeiras cidades do Brasil (Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro); João Nunes Barreto e Andrés de Oviedo empreendem a fracassada missão da Etiópia, etc. Acima das inevitáveis ambigüidades, as missões dos Jesuítas impressionam pelo espírito de inculturação (adaptação à cultura do povo a quem se dirigem). As Reduções do Paraguai e a adoção dos ritos malabares e chineses são os exemplos mais significativos.
1.1.3. A educação da juventude
Imprevista ao nascer a Companhia, a atividade educativa tornou-se logo a principal tarefa dos Jesuítas. A gratuidade do ensino da antiga Companhia favoreceu a expansão dos seus Colégios. Em 1556, à morte de Santo Inácio, eram já 46. No final do século XVI, o número de Colégios elevou-se a 372. A experiência pedagógica dos Jesuítas sintetizou-se num conjunto de normas e estratégias, chamado a "Ratio Studiorum" (Ordem dos Estudos), que visa a formação integral do homem cristão, de acordo com a fé e a cultura daquele tempo.
1.1.4. A ciência e a cultura
Os primeiros Jesuítas participaram ativamente do esforço de renovação teológica da Igreja Católica, frente à Reforma Protestante. No Concílio de Trento, destacaram-se dois companheiros de Santo Inácio (Laínez e Salmerón). Desejando levar a fé a todos os campos do saber, os Jesuítas dedicaram-se às mais diversas ciências e artes: Matemática, Física, Astronomia... Entre os nomes de crateras da Lua há mais de 30 nomes de Jesuítas. No campo do Direito, Suarez e seus discípulos desenvolveram a doutrina da origem popular do poder. Na Arquitetura, destacaram-se muitos Irmãos Jesuítas, combinando o estilo barroco da época com um estilo mais funcional.
1.2. Crise e Supressão
(1687-1773)
A Companhia de Jesus nasceu em meio a uma situação de conflito e nunca esteve alheia aos conflitos históricos. Seu fundador queria que fosse um grupo móvel, disponível para acudir aos lugares em que a necessidade fosse maior. Mas, entre todos os períodos de sua história, o mais dramático foi o que terminou com a supressão da própria Companhia, em 1773, pelo Papa Clemente XIV.
É difícil resumir o complexo de circunstâncias que levaram o Papa àquela decisão extrema. Foi o desfecho de um longo processo de lutas e sofrimentos, que poderíamos reduzir assim:
1.2.1. A luta contra o jansenismo
Jansen ou Jansênio foi um bispo belga que exerceu enorme influência na França do século XVII. Seus seguidores (jansenistas) defendiam de tal modo o papel da graça que chegavam a negar o livre arbítrio. O homem já nascia predestinado à salvação ou à condenação. Na vida cristã eram rigoristas, pregando uma religião de temor e de inflexível disciplina moral. Os Jesuítas opuseram-se a tais idéias, ganhando a odiosidade dos jansenistas. O grande pensador Pascal colocou-se do lado destes, nas célebres "Cartas Provinciais", desmoralizando os Jesuítas. Não adiantou que a Igreja colocasse o livro de Pascal no "Índice de Livros Proíbidos". Na França da época, o gênio literário valia mais do que a autoridade de Roma. Os Jesuítas ganharam fama de intrigantes, "hipócritas", donos de imensas riquezas, etc.
1.2.2. O conflito com as monarquias absolutistas
No século XVIII, os Reis consideravam absoluto o poder do Estado. Na França, o "galicanismo" defendia as liberdades da Igreja Galicana, frente à autoridade do Papa. Os Jesuítas, fiéis defensores deste, eram considerados como "obscurantistas" e "ultramontanos" intolerantes. Um atentado contra o rei de Portugal, José I, foi a desculpa para expulsar todos os Jesuítas de Portugal e suas colônias, incluindo o Brasil (1761). A Companhia de Jesus foi expulsa também da França (1764) e da Espanha e suas colônias (1767). A pressão da casa dos Bourbons, reinantes nesses países, acabaram levando o Papa Clemente XIV a ceder. A Companhia de Jesus foi dissolvida em todo o mundo, menos na Prússia e na Rússia Branca.
1.2.3. Conflitos dentro da própria Igreja
Nem todos compreendiam as tentativas de inculturação e adaptação do Evangelho às culturas asiáticas, empreendidas por Jesuítas competentes e corajosos, como Mateus Ricci (na China) e Roberto De Nobili (na Índia). Os que não entendiam o cristianismo fora das normas culturais ocidentais acusaram os Jesuítas de paganismo, idolatria e superstição. E o Secretariado romano para a Propagação da Fé levou a sério tais acusações.
1.2.4. Os erros dos próprios Jesuítas
Alguns Jesuítas, vítimas de injustas perseguições, como Antônio Vieira ou Gabriel Malagrida, no ambiente luso-brasileiro, são considerados hoje grandes missionários. Outros Jesuítas, porém, contribuíram, com seus erros, para desacreditar a Companhia. Por exemplo, Antoine Lavalette, ecônomo da Missão da Martinica, metido a esperto em operações comerciais, que terminaram endividando a Missão e a Companhia.
O Superior Geral da Companhia na época da extinção, Lourenço Ricci, com 70 anos de idade, ficou preso no Castelo de Sant'Angelo. Antes de morrer, dois anos depois, declarou solenemente que a Companhia de Jesus não tinha dado motivo nem ocasião para sua supressão, e que ele pessoalmente não dera o menor pretexto para ser preso e humilhado.
Os Noviços, Estudantes e Irmãos Jesuítas foram despedidos. Aos Sacerdotes deu-se-lhes a escolher entre viver como Padres diocesanos ou entrar em outras Congregações religiosas.
2. A Companhia Restaurada (1814-1986)
A 7 de agosto de 1814, o Papa Pio VII restaurou a Companhia em todo o mundo. O quadro histórico era bem diferente daquele de 1773. Napoleão acabava de ser derrotado. O Papa retornava a Roma, depois de ter sido exilado pelo Imperador francês. A velha Europa sonhava com voltar às antigas tradições, depois da tormenta revolucionária. O renascimento da Companhia aconteceu num contexto conservador e antiliberal.
2.1. O Século XIX
(até 1914)
A Companhia de Jesus no primeiro século da sua restauração:
reinicia as suas atividades educativas, embora sem a originalidade da Companhia antiga;
desenvolve os grandes movimentos de piedade: os Exercícios Espirituais divulgados entre o clero, religiosos e leigos; a devoção ao Sagrado Coração de Jesus; o Apostolado da Oração; as Missões populares; as Congregações Marianas;
insere-se na Pastoral Operária, embora com os métodos da época, hoje considerados paternalistas (círculos operários, obras sociais, escolas populares);
continua o esforço de pesquisa e publicação em todos os campos das ciências e letras;
participa da nova atividade missionária da Igreja. Ao Brasil chegam, a partir de 1842, Jesuítas espanhóis, italianos e alemães.
Na política do século passado, alternavam-se governos conservadores e liberais. A maioria dos católicos identificavam sua fé com o antigo regime (monárquico). Muitos Jesuítas participavam dessa mentalidade. Assim, em época de governos conservadores, os Jesuítas eram chamados e exaltados; mas quando os liberais subiam ao poder, os Jesuítas eram novamente perseguidos e expulsos. Não deixa de ser uma ironia da História o fato de que a maioria dos Jesuítas do século passado tivessem saudade do antigo regime, que no século XVIII os tinha perseguido e dissolvido.
2.2. O Século XX
Durante o longo generalato do P. W. Ledochowski (1915-1942), a Companhia cresceu em número de membros (até chegar a 26.000) e na qualidade das suas obras (aos colégios unem-se numerosas Universidades, nos Estados Unidos, América Latina e nas Missões). Neste período e no seguinte (P. Janssens, 1946-1964), a Companhia acompanhou de perto os grandes conflitos internacionais: duas guerras mundiais, a revolução russa e sua expansão nos países da Europa oriental, que abalou dez Províncias ou vice-Províncias da Companhia; o triunfo de Mao-Tsé-Tung, na China, arrasou a estrutura missionária construída durante um século de trabalho; o nacionalismo dos povos da África e Ásia, lutando contra as potências colonizadoras, cria dificuldades para os missionários estrangeiros.

2.3. O Concílio Vaticano II
(de 1965 até o presente)
Alguns Jesuítas foram precursores no esforço de reconciliar a fé cristã com o mundo contemporâneo. O P. Teilhard de Chardin intuiu e defendeu que a idéia da evolução biológica, antes defendida apenas por cientistas descrentes, era perfeitamente compatível com a fé na Criação. Mas os livros do Pe. Teilhard só foram publicados e estimados depois de sua morte.
A Grande mudança de clima, na Igreja do nosso século, aconteceu em torno do Concílio Vaticano II (1962-1965). Dele participaram muitos Jesuítas, como bispos de regiões missionárias (uns 50) ou como teólogos (alguns de grande prestígio, como Danielou, De Lubac, Karl Rahner). A Congregação Geral 31a., levou à Companhia de Jesus este novo espírito eclesial. Nela foi eleito superior geral o P. Pedro Arrupe, que governou a Companhia nos anos difíceis do pós-Concílio. Durante seu generalato, o número de Jesuítas diminuiu de 36.000 para 26.000.
Para enfrentar os desafios do nosso tempo, a Companhia tem revitalizado os princípios espirituais das suas origens (prática dos Exercícios Espirituais; criação de um Centro Inaciano de Espiritualidade, em Roma). Seguindo o espírito do Concílio, tem prestado especial atenção aos problemas do diálogo com o mundo (relação entre ciência e fé; estudo do ateísmo e indiferença religiosa, a pedido do Papa Paulo VI). Querendo adaptar o seu apostolado aos grandes problemas do mundo de hoje, a Companhia assume, hoje, o compromisso com os pobres e a luta contra as estruturas injustas. Isso tem atraído sobre muitos dos seus membros novas perseguições. Na América Latina, diversos Jesuítas foram assassinados, por estarem levando à prática as opções do Episcopado latino-americano, nas Conferências de Medellin (1968) e Puebla (1979): João Bosco Penido Burnier (Brasil, 1976), Rutílio Grande (El Salvador, 1977), Luis Espinal (Bolívia, 1980), Carlos Alonso (Guatemala, 1981).
A Congregação Geral 32a. revisou, em 1975, a caminhada da Companhia nestes anos do pós-Concílio, e enfatizou o objetivo prioritário da Companhia: "Comprometer-se, sob o estandarte da Cruz, na luta crucial do nosso tempo: a luta pela Fé e a luta pela Justiça, que a fé exige". "Serviço da fé e promoção da justiça" é a expressão mais atual do carisma inaciano.
2.4. A Companhia nos anos 80
A 7 de agosto de 1981, uma trombose cerebral incapacitou o P. Pedro Arrupe de continuar à frente da Companhia. Dois meses depois, o Papa João Paulo II nomeou o P. Paolo Dezza como Delegado Pontifício para o governo provisório da Companhia, até a convocação de uma Congregação Geral, que elegeria o novo Superior Geral. A intervenção do Papa no governo da Companhia foi de caráter extraordinário. O Delegado Pontifício cumpriu sua tarefa com muita discrição, convocando a Congregação Geral 33a. Reunida em Roma, nos meses de setembro-outubro de 1983, a Congregação aceitou a renúncia do P. Arrupe e elegeu seu sucessor, P. Peter-Hans Kolvenbach, atual Superior Geral da Companhia.
O principal decreto da Congregação Geral 33a. intitulado "Companheiros de Jesus, enviados ao mundo de hoje", está escrito "sob o signo da continuidade e da esperança".
"Nos últimos anos surgiu em toda a Companhia uma nova consciência da nossa vida religiosa. Os decretos das CC. GG. 31a. e 32a., bem como os escritos do P. Arrupe, desenvolveram um ensinamento espiritual solidamente baseado no Evangelho e nas fontes de nossa tradição, capaz de responder aos desafios de nosso tempo. Esta renovação se manifesta sobretudo no novo impulso dado aos Exercícios Espirituais e ao discernimento apostólico. O compromisso pela fé e pela justiça, o serviço dos pobres e a participação em sua vida constituíram-se em apelo a todo o corpo da Companhia para assumir um modo de vida mais evangélico".
"Reconheçemos, por outro lado, deficiências na maneira de viver a nossa vocação. As dificuldades resultam muitas vezes do excesso de trabalho, da rotina na prática religiosa, da falta de dinamismo espiritual de nossas comunidades. Tudo isso enfraquece o nosso relacionamento com Deus. Importa, pois, redobrar os nossos esforços para perceber mais a fundo o sentido de nossa vida, que consiste em buscar a maior glória de Deus e o serviço dos homens". (CG 33a., decreto 1º, nº 10)
Um claro sinal de esperança é o aumento das vocações à Companhia. No ano de 1972, havia, em toda a Companhia 706 Noviços; em 1985, os Noviços eram 1154. Se o número de Padres e Irmãos formados ainda está diminuindo, o número de Jesuítas em formação aumenta: de 1984 a 1985 houve um aumento de 106 Noviços escolares e 15 Noviços coadjutores.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A história dos jesuítas no Brasil



Paulo Suess

Em meados do século XVI, quando o nome Brasil começou a prevalecer sobre o de Terra de Santa Cruz, o cronista João de Barros considerou essa “mudança inspirada pelo demônio, pois a vil madeira que tinge o pano de vermelho não vale o sangue vertido para a nossa salvação”. A familiaridade, da época, com demônios e santos permitiu projetar o bem e o mal na direção certa. Para expulsar demônios e trazer santos padroeiros, os jesuítas vieram de Portugal ao Brasil.

Os inacianos não foram os primeiros missionários na Terra de Santa Cruz. “Os primeiros religiosos que vieram ao Brasil foram da ordem de São Francisco, os quais aportaram em Porto Seguro não muito depois da povoação daquela capitania, e fizeram sua habitação com zelo da conversão do gentio”, escreve Anchieta numa crônica de 1584. Os mendicantes já trouxeram a experiência missionária de 250 anos da Europa e Ásia; para os jesuítas, que chegaram ao Brasil, não só o país, também a missão com tal era terra incógnita. Mesmo assim, deixaram sinais indeléveis de sua presença no continente e no país. Com velocidade e zelo procuraram recuperar seu atraso. Em dez anos, desde o reconhecimento papal da Companhia, em 1540, se fizeram presentes no sul da Índia, em 1542; no Congo, desde 1547, no Japão, em 1549, e no Brasil, a partir de 1549.

1. Três épocas: Missão, educação, libertação

Pode-se distinguir três épocas da Companhia de Jesus, com diferentes centros de gravidade operacional que repercutiram sobre seu projeto de evangelização no Brasil. Foram marcadas pelo viés da missão (1549-1759/1760), da educação (1841/42) e da libertação (a partir de 1965).

A primeira época começa com a Bula de fundação da Companhia, Regimini Militantis Ecclesiae, de 1540, de Paulo III, e termina com o Breve de Clemente XIV, Dominus ac Redemptor Noster, de 1773, que extinguiu a Companhia de Jesus. No Brasil, essa época corresponde à chegada de Nóbrega e seus companheiros e à expulsão da Companhia com mais de 600 inacianos, por Pombal, da Amazônia e da Bahia, em 1759/1760, deixando aldeias, colégios e paróquias abandonados.

A segunda época começa com a Bula de restauração da Companhia, de Pio VII, Sollicitudo Omnium Ecclesiarum, de 1814. No Brasil, a partir de 1841/42, os jesuítas começam a voltar: alemães, e também espanhóis vindo da Argentina, no Sul; italianos no Sudeste; portugueses, a partir de 1910, no Nordeste. É um tempo, mormente, marcado pela educação nos colégios, não mais pela missão junto aos povos indígenas. Em 1867, é fundado em Itu/SP o colégio São Luís, hoje funcionando no centro de São Paulo. Em Porto Alegre, em 1890, foi fundado o colégio Anchieta. Outros seguiram nas principais capitais: Rio de Janeiro, Florianópolis, Salvador, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza e Teresina. Desde 1940, os inacianos atuam no campo do ensino superior com a PUC do Rio de Janeiro, a Faculdade São Luís, em São Paulo, a UNICAP, em Recife/PE, e a UNISINOS, em São Leopoldo/RS. Em 1929, assumem, não por opção, mas por imposição, o vasto território da recém-criada Prelazia de Diamantino/MT (107.495 Km2). Começaram desde então uma tímida retomado do trabalho indigenísta que, a partir dos anos 60, sofreu profundas transformações.

O início da terceira época está marcado pela eleição, em maio de 1965, do basco Pedro Arrupe (1907-1991) para superior geral da Companhia. Arrupe, que ainda como estudante, em 1932, sofreu os efeitos do decreto de dissolução da Companhia, pelo governo republicano da Espanha e, em 1945, como missionário e médico no Japão, assiste na periferia de Hiroshima a explosão da bomba atômica, fez ressoar no centro da Companhia o grito de Francisco de Xavier, de 1544: “Muitas vezes estou pensando ir às Universidades e gritar como um louco frente aos que desfrutam os estudos para si e não os fazem frutificar para os outros”. Depois de sua eleição, Arrupe aproveitou ainda a última sessão do Concílio Vaticano II (1962-1965) para intervir no debate sobre a missão onde lançou o desafio da inculturação. Em sua carta de renúncia, de 1983, forçada por pressões internas da Igreja e por uma trombose cerebral, recomenda aos jesuítas: equilíbrio de vida, não no trabalho, mas em Deus, com uma atenção especial aos pobres, aos refugiados e aos milhões que ignoram Deus. Arrupe redefiniu a missão para os inacianos. Centrada em Deus, essa missão se aproxima à humanidade através de uma presença inculturada no cotidiano e da prática profética de justiça.

No Brasil corresponde essa época à reformulação profunda do trabalho missionário junto aos povos indígenas, que envolveu, na época, muitos jovens jesuítas, não só na definição dos rumos do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), fundado, em 1972, como organismo anexo à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mas já antes, na reorganizaram de sua própria missão indígena de Utiariti, no interior da Prelazia de Diamantino (MT); desativaram o internato indígena ali existente, onde, por volta de 1967, havia ainda perto de 300 crianças internadas e hoje, simbolicamente, só restam ruínas; ajudaram na criação e transformação da Missão Anchieta, um organismo operacional da Prelazia de Diamantino, e na fundação da Operação Anchieta (OPAN), um organismo de leigos indigenistas, originalmente ligados aos jesuítas. Muitos dos primeiros membros do Cimi, sobretudo leigos, vieram desta efervescência indigenista de jovens inacianos no centro e no sul do país; pregaram a convivência despojada junto aos povos indígenas para valorizar suas culturas e demarcar suas terras como parte integrante de uma nova evangelização.

Um destes jovens indigenista era Vicente Cañas, Irmão jesuíta de origem espanhol. Seu primeiro contato foi com o povo indígena apelidado “Beiço-de-Pau”, moradores entre os rios Sangue e Arinos, ao norte do Estado de Mato Grosso. Por causa de um contato mal feito pela Funai, em 1969, foram dizimados de mais de 600 que eram, a 40 indivíduos. Cañas cuidou da saúde dos 40 sobreviventes. Depois conviveu por cinco anos com o povo Pareci, no noroeste de Mato Grosso. Em 1971, participou do primeiro contato com o povo Mynky, na época apenas 23 pessoas. Em 1974, participou dos primeiros contatos com os Enawene-Nawe, no rio Juruena, com uma população de 100 pessoas, aos quais dedicou os próximos anos de sua vida. Vicente era considerado pelos Enawene-Nawe como um deles. Participava dos seus trabalhos e rituais, era enfermeiro, mecânico, pescador e dentista. Os índios o adotaram como filho e parente segundo suas próprias regras de parentesco. Na prática da religião dos Enawene-Nawe procurou viver a sua fé cristã. Nos últimos 10 anos de sua vida, Vicente viveu inteiramente inserido na vida do povo Enawene-Nawe. No processo que levaria, em 1996, à demarcação da terra desse povo foi assassinado e encontrado morto só um mês depois, em 16 de maio de 1987, ao lado do seu barraco na margem esquerda do rio Juruena. Contrariando com sua presença a cobiço por terra e madeira, Vicente sabia que estava jurado de morte. Os próprios índios o haviam alertado: “Se cuida. As picadas dos jagunços já estão perto do teu barraco”. Por causa do assassinato de Vicente Cañas foram indiciados os fazendeiros Pedro Chiquette e Carlos Camilo Obici, o ex-delegado da polícia civil na cidade de Juína (MT), Ronaldo Antônio Osmar, na ação penal apontado como um dos mandantes do crime, e o Martinez Abadio e José Vicente como executores do crime. Até hoje, nenhuma condenação. Depois de ser periciado pelo IML do Estado de Mato Grosso, o crânio do missionário foi enviado para novas perícias ao IML do Estado de Minas Gerais. De lá, em 1989, o crânio do Ir. Vicente desapareceu misteriosamente. Depois foi encontrado por um engraxate de sapatos, numa caixinha que declarava seu conteúdo, perto da rodoviária de Belo Horizonte, fato até hoje não explicado. O fim da missão, às vezes, resgata sua origem.

2. Nóbrega e Anchieta

Em 1549, quando Francisco Xavier chega sem a proteção do Padroado Régio ao Japão, Manoel da Nóbrega, um jovem com 31 anos, aporta, na armada do primeiro Governador Geral do Brasil, Tomé de Sousa, com mais de 1000 homens entre soldados, funcionários, 400 degregados, na Bahia. Na Europa, Nóbrega por ser gago ("tardo na fala"), foi duas vezes preterido em concursos acadêmicos. No Brasil, tornou-se o missionário do aportuguesamento. Que a cultura dos tupí era demoníaca e, portanto, “sem graça”, Nóbrega e Anchieta já sabiam pelos seus manuais teológicos, antes de chegar ao Brasil. Somos “guerreiros contra o diabo e a carne” constata Anchieta em seu “Sermão da Conversão de São Paulo”. A “perdição” do Outro era o pressuposto da empresa missionária.

Diferentemente de Nóbrega, Anchieta tinha o dom da língua. Como poeta e catequista escreveu em espanhol, língua de sua pátria, em português para os colonos, em tupi para os índios e em latim para os eclesiásticos. Depois de três anos no Brasil, onde chegou em 1553, com 19 anos, já tinha composto uma gramática cujo manuscrito 1556 serviu meio século para o ensino do tupi nos colégios da Companhia. Com facilidade ele decodificou os eixos culturais dos seus interlocutores indígenas. De Gil Vicente Anchieta aprendeu a arte dos "Autos", onde os diabos vestem a cultura tupi. Os anjos e os santos são representantes da cultura do colonizador.

No "Auto na Festa de São Lourenço", por exemplo, o rei dos demônios, Guaixará, é o ex-chefe tamoio, na época, aliado dos franceses e adversário do governador geral, Mem de Sá. As expressões significativas da cultura tupinambá para o olhar missionário -- guerrear, beber cauim, dançar, vingar -- são ridicularizadas na fala do ex-chefe vestido de diabo. Cultura indígena é cultura do diabo. São Lourenço e São Sebastião, ajudantes do Anjo da Guarda da aldeia, prendem os diabos. A escolha dos santos mártires já é uma crítica aberta à cultura tupí: São Sebastião, mártir da fidelidade, vive no imaginário religioso cravado de flechas. São Lourenço, martirizado na perseguição do imperador Valeriano, foi colocado numa grelha sobre brasas. Os santos do colonizador apontam para os "pecados" da cultura indígena, a inconstância, as flechadas que simbolizam a guerra, e a antropofagia.

Nóbrega e Anchieta participaram da conquista espiritual com as armas que lhes eram peculiares: Anchieta com o conhecimento da língua e com a arte do poeta e escritor; Nóbrega contribui com sua capacidade organizacional e seu conhecimento jurídico. Neles a racionalidade do político e canonista, que visa ordem, progresso e aportuguesamento, como pressupostos da governabilidade das terras conquistadas, se junta à arte do escritor e à intuição do poeta, que fez da língua tupí a “Língua Brasílica”.

Para Nóbrega, a libertação dos indígenas precisa de planificação em todos os níveis. Com a experiência de nove anos de catequese no Brasil, Nóbrega elaborou junto a Mem de Sá um "Plano Colonizador" [8.5.1558]. O “Plano Colonizador” representa a síntese programática que norteou o trabalho missionário daquele momento histórico junto "ao mais vil e triste gentio do mundo". Com a colonização disciplinadora, segundo Nóbrega, se ganha “muitas almas” (n.5) e “muito ouro e prata” (n.5). “Ordem” produz “progresso”. Por falta de sujeição, pouco se pode fazer na conversão do gentio. Sujeitar os índios significa “fazendo-lhes guardar a lei natural” (n. 1), proibir a poligamia, a nudez e o nomadismo (n. 11). Os feiticeiros devem ser retirados das aldeias. Para o abastecimento do Colégio da Bahia, Nóbrega pede “duas dúzias de escravos de Guiné” (n. 24) e para a Igreja encomenda “sino”, “relógio” e “campas” (n. 27). A civilização transforma o tempo do diabo, que é o tempo desordenado de ócio, em tempo de graça, cronometrado para oração e trabalho.

Ao atravessar o Equador, quase 150 anos mais tarde que Nóbrega, no dia 22 de fevereiro de 1691, o jesuíta Antônio Sepp anota em sua carta-diário: “Costuma-se mudar tudo sobre o equador. A agulha magnética da bússola, porém, não se desloca. Ela continua apontando “fiel e exatamente para a Estrela Polar. A diferença está toda em nós mesmos, que precisamos modificar nosso conceito. Quando é meio-dia na Europa, é meia-noite aqui entre nós. (...)Em dezembro e janeiro, quando na Europa tudo gela, comemos figos e colhemos lírios. Numa palavra, tudo aqui é diferente, e está a cunhar a expressão, chamando a América de ‘mundo às avessas’. (...) No dia 28 de fevereiro entramos para o jejum quaresmal, aliás de acordo com o calendário, e não com a realidade.”

Como organizar calendários supostamente universais de acordo com a realidade, ao mesmo tempo cosmológica e local? Como aprender que o “mundo às avessas” é um mundo culturalmente diferente que participa de um universalismo moral com toda a humanidade? Como transformar o imaginário do visitante para que caiba nele o “bárbaro” como outro e o outro como irmão? Essas pergunta surgirão, provavelmente, só mais tarde, na cabeça de um Vicente Cañas, cujo crânio foi encontrado por um engraxate de Belo Horizonte, numa caixa de sapatos.

3. O mito do jesuíta “língua”

Em sua “Breve informação do Brasil”, de 1584, Anchieta caracteriza a situação lingüística que os missionários enfrentam, como unidade atravessada por uma grande diversidade: “Todo este gentio desta costa, que também se derrama mais de 200 léguas pelo sertão, e os mesmos Carijós que pelo sertão chegam até às serras do Peru, têm uma mesma língua que é grandíssimo bem para a sua conversão”. Essa língua era usada na primeira catequese oral de Piratininga, na Capitania de São Vicente, nos catecismos escritos e na comunicação diária entre indígenas, colonos e missionários. Anchieta que reduziu a língua tupi à Arte de Gramática, elaborou também para a primeira comunicação, um vocabulários em tupi, uma Doutrina Cristã e um Catecismo.

Ao lado da unidade lingüística havia entre os Carijó “diversas nações de outros bárbaros de diversíssimas línguas a que estes índios chamam Tapuias, que quer dizer escravos, porque todos os que não são de sua nação têm por tais e com todos têm guerra”. Anchieta não falava nenhuma língua destes “outros bárbaros”. Ele e a Companhia concentraram seu trabalho missionário em torno dos grupos tupi. Os Tapuia que pertenceram ao grupo lingüístico Gê e a outros grupos, viveram, segundo Anchieta, principalmente, da caça e “por isso têm uma natureza tão inquieta que nunca podem estar muito tempo num lugar, que é o principal impedimento para sua conversão”.

A virtuosidade lingüística de Anchieta não deve encobrir a precariedade das línguas realmente faladas pelos jesuítas quinhentistas no Brasil. Em 1552, Nóbrega admite essa precariedade pelo conjunto dos inacianos e justifica: “sabermos-lhe mal falar em sua língua”, porque eles são muitos e nós poucos. Uma solução veio de alguns civis que passaram um bom tempo no meio dos índios e ofereceram seus conhecimentos dos costumes e da língua aos missionários. Neste grupo teve particular importância o náufrago Diogo Álvares Correia, o Caramuru, que, por volta de 1510, chegou às costas da Bahia. Viveu no mundo indígenas e se tornou o tradutor das primeiras orações.

Outra solução veio de pessoas com experiência entre os índios e se integraram à Companhia, como vocações adultas. Logo depois da chegada ao Brasil, em 1549, Nóbrega mandou o padre Leonardo Nunes e o irmão Diogo Jácome à Capitania de São Vicente. Anchieta destaca a vida exemplar do padre Leonardo Nunes que “convertia mais com obras que com palavras”. As “obras” mais importantes do padre Nunes foram seus recrutamentos de vocações adultas para a Companhia. Depois de pouco tempo, Leonardo Nunes aceitou Pero Correia na Companhia, colono aventureiro, desde 1534 no Brasil, “envolvido em luta com os índios donde resultaram mortes”, antes de se tornar Irmão. Em carta ao provincial de Portugal, Correia pede livros para poder estudar as coisas elementares da fé, “porque meu estudo neste mundo nunca foi para servir a Deus, mas para ofendê-lo”. Ambos morreram cedo, em 1554. Nunes naufragou em junho. Correia, alguns meses mais tarde, foi morto pelos Carijó.

Outra vocação adulta conquistada por Nunes foi Manuel de Chaves, com uma longa experiência no país, antes da chegada dos jesuítas. Ambos, Correia e Chaves, foram aceitos na Companhia ainda em 1550. No mesmo ano entrou, em São Vicente, João Rodrigues, e, três anos mais tarde, António Rodrigues que sabia cantar e tocar flauta. Todos eram excelentes “línguas”, mas tinham pouco ou nenhum preparo teológico para seu trabalho catequético. Também Mateus Nogueira, um ferreiro e ex-combatente da África, se juntou nesta época aos jesuítas de São Vicente. Este já não falava a língua “destes brasis”, mas, como “metalúrgico” foi muito importante para missionários e índios.
Uma outra “solução” para a questão da língua foi a evangelização através de crianças, e, sobretudo, através de órfãos vindos de Portugal. Com o segundo grupo de jesuítas que chegou em Salvador, em 1550, vieram com quatro padres também sete meninos do orfanato da Companhia de Lisboa. Foram destinados para se confraternizarem com as crianças indígenas e mestiças. Cumpriram seu papel missionário com entusiasmo. Impressionaram com seus cânticos catequéticos, aprenderam tupi e ensinaram noções de português aos coleguinhas nativos. Um pouco mais tarde, os órfãos foram encarregados de servir como intérpretes nas confissões. Em carta a Simão Rodrigues, provincial de Lisboa, Nóbrega relata de Bahia, em julho de 1552, que, enquanto não chegam padres para administrar as confissões dos índios, alguns meninos continuam ajudar como intérpretes nas confissões: “Nesta casa estão meninos da terra feitos à nossa mão, com os quais confessávamos alguma gente da terra que não entende a nossa fala, nem nós a sua”. Nóbrega defende a prática dos meninos tradutores para as confissões, porque “não há muitos Padres que saibam bem a língua”. Esses tradutores produzem bons resultados sem causar “nenhum prejuízo ao sigilo da confissão”. O provincial do Brasil raciocina como pastor, não como canonista que era, quando escreve: “privá-los da graça do sacramento por não saberem a língua e da glória por não terem contrição bastante, e outros respeitos (...), devia-se bem de olhar”. Na Bahia, quando o padre João de Azpilcueta Navarro estava no sertão, nenhum padre na cidade falava tupi. E Navarro faleceu cedo, em 30 de abril de 1557.

Ainda em 1560, não havia mais do que dois ou três sacerdotes jesuítas que conseguiram fluentemente conversar com os índios no Brasil. A este respeito, o padre António Pires escreve aos seus ex-colegas do Colégio de Coimbra que em “esta Bahia estavam as coisas algum tanto feias” e o novo provincial, o padre Luis da Grã, que chegou em agosto de 1560 no Brasil, “deu ordem a que todos os Irmãos se dessem a aprender a língua, coisa que até ali ninguém havia feito, tirando alguns que andavam fora; e assim deu ordem que viesse a escravaria a aprender a doutrina na nossa igreja, coisa que havia muito tempo que se não fazia”. O provincial não deixou ninguém ensinar aos índios, sem falar a sua língua: “Creio que o faz para nos envergonhar e para nos fazer inveja, como na verdade a mim me envergonha, que há 12 anos que cá ando e não sei nada. Agora começo pelos nominativos (...)”. Luis da Grã ordenou, concretamente, “que houvesse cada dia uma hora de lição da língua brasílica, que cá chamamos grego”.

Ainda em 1585, Manuel Viegas que falava tupi e maromomi, lamenta a situação precária do aprendizado da língua dos colegas. Viegas agradece ao padre Geral Aquaviva, porque ordenou, através do seu visitador, o padre Cristóvão de Gouveia, que todos aprendam a língua da terra, e a “nenhum consente que se ordene de ordens sacras, ainda que sejam muito para isso, sem que primeiro saibam e aprendam a língua da terra (...) porque muito poucos a queriam aprender e saber e dar-se a ela: tudo era darem-se às letras e serem pregadores dos portugueses, e subir ao púlpito a pregar aos brancos e não se lembravam desta pobre gente de lhe pregar em sua língua”. E a língua, escreve o padre Viegas, é mais importante que a teologia. O conhecimento da língua dos índios é a primeira teologia. Ao comparar a situação missionária do Brasil com a o Japão, onde há “gente de melhor saber e subtil engenho”, afirma que “para esta gente do Brasil, poucas letras bastam. E quem nesta terra sabe a língua dela é aqui teólogo. E muitos Padres, que vêm de lá teólogos, nos dizem que, se pudesse ser, dariam metade da sua teologia pela língua. E eu digo a V. P. que não darei a minha língua por toda a sua teologia.” O secretário do visitador Manuel de Lima, o padre Jácome Monteiro observa em sua Relação da Província do Brasil, de 1610, que em sua visita aos Maromomi não havia ninguém entre os missionários que entendeu a língua deles: “Valem-se os Nossos de intérpretes”.

Quase um século mais tarde, Antônio Vieira (1608-1687), em seu Sermão da Epifania, aponta entre as dificuldades para a catequese dos índios a questão lingüística. "Na antiga Babel houve setenta e duas línguas; na Babel do rio das Amazonas já se conhecem mais de cento e cinqüenta, tão diversas entre si como a nossa e a grega; e assim, quando lá chegamos, todos nós somos mudos e todos eles surdos".

4. Catequese em Piratininga

As experiências iniciais da catequese mostraram que a região de beira-mar, com a presença de aventureiros, traficantes e donos de escravos, e com a lei a serviço do mais forte, não era propícia para a conversão dos índios. Manuel da Nóbrega, primeiro provincial dos jesuítas recém-chegados ao Brasil, escolheu a Capitania de São Vicente, e nela fundou Piratininga. Ao inaugurar a “Casa de Piratininga”, no dia de conversão do apóstolo dos gentios, fizeram da data, do local e do evento o lema de sua empreita missionária: educar e converter.

Próximo ao rio Tietê, na confluência dos rios Tamanduateí e Anhangabaú, instalou-se a missão no meio de 12 aldeias indígenas que regularmente foram visitadas. Com o tempo, as 12 aldeias se transformaram em dois aldeamentos. As aldeias, precursores das Reduções, eram núcleos que procuravam fixar os índios a um determinado território mais restrito e mais ao alcance dos missionários. Piratininga, no início ainda sem os vícios da colonização, era um lugar privilegiado para estabilizar e converter os índios e para instruir os estudantes e noviços da Companhia.

As atividades missionárias, na “Casa de Piratininga”, eram diversificadas. O catecismo e as primeiras letras foram ensinados para as crianças indígenas, que moravam nas casas de seus pais ou parentes. Aprenderam também como cantar e servir na missa. Os inacianos perceberam cedo a fascinação dos índios pela música e festividade litúrgica. Por isso, as entradas dos missionários nas aldeias foram precedidas por uma procissão, com canções e danças das crianças. A alegria do cenário facilitou a aceitação da mensagem. As crianças-catequistas imitavam a maneira de os índios cantarem. Com algumas orações elementares, com canções e os maracá das crianças, os missionários correram de aldeia para aldeia. Em seus sermões, traduzidos pelos “língua”, falavam dos mistérios principais, da devoção da cruz, da ameaça do juízo final e de alguns episódios da vida de Jesus.

Na escola de Piratininga, os meninos índios são "bem instruídos em leitura, escrita e em bons costumes", de maneira que já "aborrecem muito os costumes de seus pais", relata o mestre Anchieta da altura dos seus 21 anos. O ensino dos meninos indígenas “nos consola”, enquanto nos entristece “a dureza obstinada dos pais que (...) parece quererem voltar ao vômito dos antigos costumes”, celebrando “aquelas miseráveis cerimônias da morte dos contrários”.

A desilusão do jovem Anchieta está presente em seu relatório a Inácio de Loyola, onde ele pede o envio de “muitos cristãos” para que “sujeitem os índios ao jugo da escravidão e os obriguem a acolher-se à bandeira de Cristo”. No caso das festas antropofágicas profundamente enraizadas na cultura tupi, Anchieta considera a demonstração de força indispensável para a evangelização. Cinco anos mais tarde, Anchieta escreve ao Geral da Companhia que os irmãos de Piratininga batizaram dois cativos, antes de serem sacrificados pelos índios. Descreve o evento como o martírio dos primeiros cristãos nas arenas romanas. No terreiro “chega-se o que o havia de matar, usando primeiro de suas cerimônias e ritos. Diz-lhe a palavra solene: Morrerás!”  Gritaram-lhe os irmãos que se pusesses de joelhos, o que ele logo cumpriu, levantando os olhos e mãos para o céu e invocando o santíssimo nome de Jesus. Quebrou-lhe a cabeça com um pau, e voou sua ditosa alma para gozar de gloria imortal nos céus”.

Causa perdida ou meio caminho andado? Os Irmãos intérpretes, Manuel de Chaves e Gonçalo d´Oliveira, que acompanham o padre Afonso Braz, participam do ritual. Lembram os participantes de seu batismo, batizam a vítima e o amparam. Contracenam com o matador e seu “morrerás”, gritando, através do língua: “viverás!”, e carregam o mártir para a Igreja de Piratininga, porque os já “não comam carne humana”. O martírio é sempre algo transitório. A “vitória” é uma questão de tempo. A catequese de Piratininga exige dos índios abandonar sua tradição cultural. O convertido é um ex-índio, relata Anchieta satisfeito: "Está conosco um principal dos índios chamados Carijós (…). Digo-vos, caríssimos Irmãos, que é um mui bom cristão, homem mui discreto e nem parece ter cousa alguma de índio".

Voltando um século mais tarde para Bahia, quase na hora da expulsão dos jesuítas, encontramos a capital do Brasil numa certa prosperidade que dependia da mão-de-obra dos escravos que trabalhavam nos engenhos de açúcar. A Bahia é um retrato daquele Brasil, onde o escravo negro era considerado uma necessidade e o índio um estorvo. A Companhia não se opôs à escravidão negra. Participou dela, como também outras ordens religiosas, e prosperou. Viajantes descrevem a Igreja dos jesuítas pomposa, revestida de mármore da Europa.

4. Os jesuítas na Amazônia

Em 1759, os 115 jesuítas do então Estado do Grão-Pará e Maranhão, foram expulsos, roubados dos seus bens, vaiados pelos colonos e aprisionados num pequeno navio, que os desembarcou na costa do Estado da Igreja, na Itália. Sua presença na Amazônia se dá quase um século mais tarde que na Bahia e em Piratininga.

Os primeiros inacianos chegaram na Amazônia provenientes de Quito, emissários do Vice-Reinado de Peru e do El-Rei da Espanha. Pelo Tratado de Tordesilhas (1494) pertencia todo o curso do Amazonas à Espanha. Somente no século XVII, a linha divisória avançou em favor dos portugueses para além da confluência do Rio Negro. No vai e vem desta época se situa a expedição de Pedro Texeira de Belém a Quito (1637/38) e a descida do jesuíta Samuel Fritz de Quito a Belém (1689/90).

A presença jesuítica a serviço de Portugal começa em 1639, quando chegou do Ceará o padre Luis Figueira, visitando os rios Tocantins, Pacajá e Xingu. De volta à Europa, expôs as prioridades missionárias perante o Conselho Ultramarino: organizar e moralizar os colonos, amparar e converter os índios e criar um bispado no Maranhão/Pará, até então subordinado ao arcebispado de Lisboa.

Em 1652, no meio de um tumulto dos colonos, que se revoltaram contra uma nova lei que proibia a escravidão dos índios, chegam os padres João de Souto Maior e Gaspar Fragoso em Belém. Lá construíram uma modesta palhoça e fundaram, mais tarde, o Colégio de Sto. Alexandre. Imediatamente, o padre Souto foi obrigado assinar um termo na Câmara de não intervir na questão dos escravos e nem pretender administrar os “índios livres”. A incompatibilidade da presença jesuítica com os interesses imediatos dos colonos, que reclamavam escravos indígenas para suas fazendas, foi camuflada pelas aulas de latim e doutrina.

Em janeiro de 1653, chegou Antônio Vieira em São Luis, onde encontra o mesmo clima de hostilidade como seus companheiros em Belém. Como superior das missões do Maranhão faz concessões; reconhece causas legítimas de escravidão, como os índios cativados em “guerra justa”, e admite os “escravos do Estado”. Mesmo assim é hostilizado pelos que se aproveitaram da mão indígena. Foi obrigado a embarcar para Lisboa, de onde volta com poderes extraordinários sobre os índios. Com sua tropa de 20 companheiros organizados em redor de 11 aldeias no Maranhão, 6 no Pará, 7 no Tocantins e 28 no Amazonas, luta contra aqueles que não queriam aceitar as novas leis. Os habitantes de Gurupá, que fizeram do tráfico indígena sua principal fonte de sustento, prenderam dois jesuítas e os mandaram voltar ao Pará. “Temos contra nós o povo, as religiões, os donatários das capitanias-mores e, igualmente, todos que nesse reino e neste Estado são interessados no sangue e suor dos indígenas”, escreve Vieira, em 1655.

Mesmo com essas dificuldades, conseguiram avançar no seu objetivo. Em 1655, mais de mil Tupinambá são descidos à Missão do Tocantins. Houve também missões/expedições “bem-sucedidas” ao rio Negro, em 1657, onde se fez 600 escravos. Os missionários sobem os rios Xingu e Tapajós. Vieira reduz finalmente os Nheengaibas. À Câmara de Belém, Vieira expõe o balanço positivo dos últimos anos: mais de 3000 índios livres e 1800 cativos; pelo resto, somente escravos de Angola podiam solucionar o problema. “Pela atividade pacífica dos missionários havia o rei ganho grande número de novos súditos, a igreja novas almas; os índios de Marajá, diante dos quais Belém tantas vezes havia tremido, estavam pacificados; a Oeste, todo curso do Amazonas, a Leste, as solidões do Piaui e Ceará, estavam abertos ao domínio português, à colonização e ao comércio”, escrevia Vieira em 1661. Os colonos pensaram diferentemente. Afastados os jesuítas, teriam mão-de-obra abundante para suas fazendas. Em 1661 estourou em São Luis e Belem uma nova revolta contra os jesuítas, cujos colégios foram assaltados; juízes do povo mandaram prender os missionários e, junto com Vieira, deportar ao Reino. Já no ano seguinte, voltaram continuando a luta pela liberdade dos índios.

Em 1680, Vieira conseguiu em Lisboa novas reformas legais, favoráveis aos índios e à Companhia. Mas, os novos decretos produziram insatisfação geral. O fazendeiro Manuel Beckmann, do Maranhão, soube articular um levante contra os jesuítas. A esperança de conseguir bastante índios escravos mobilizou os colonos: prenderam autoridades civis e militares, expulsaram os jesuítas novamente, destituíram o governador e selaram a vitória com um Te-Deum na Matriz (1684).

Punidos os responsáveis do levante, os jesuítas foram reconduzidos aos colégios e às missões. Através do Regimento das Missões, de 1686, consolidaram sua atuação, juntando ao governo espiritual também o temporal e político das aldeias. A partir de 1693, Cartas Régias redistribuíram o território missionário. À Companhia de Jesus foi confiado todo o distrito do sul do Amazonas com os rios Tocantins, Xingu, Tapajós e Madeira.

Os jesuítas da Amazônia se opuseram cada vez menos à escravidão indígena. Sugeriram melhoramentos legislativos, acompanharam as tropas nas entradas e, como árbitros, procuraram o maior número de índios cativos passar para as suas aldeias. O fácil acesso à mão-de-obra enriqueceu a Companhia. No Pará, a Companhia possuía 9, em Maranhão 6 fazendas de gado além de muitos outros projetos de agricultura. Os religiosos não pagavam dízimos ao Estado e gozavam isenção de impostos da alfândega. Várias vezes, o próprio Geral da Companhia e, finalmente, uma Bula Papal proibiram o comércio e qualquer espécie de escravização pelos jesuítas. Em Seu sermão da Epifania, de 1662, Vieira já tinha feito seu mea culpa: “Como defendeu Cristo os Magos? Defendeu-os de tal maneira que não consentiu que perdessem a pátria, nem a soberania, nem a liberdade: e nós não só consentimos que os pobres gentios que convertemos, percam tudo isto, senão que os persuadimos a que o percam, e o capitulamos com eles, só para ver se se pode contentar a tirania dos cristãos; mas nada basta”.

O Tratado de Madri, de 1750, reconheceu a expansão das fronteiras do domínio português. Agora se tratava de assegurar as fronteiras, para que no Norte não se repetissem os acontecimentos do Sul, onde índios das Missões enfrentavam as tropas espanholas e portuguesas (1752-57). Para isso era enviado o novo governador-geral Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e Mello, o Marquês de Pombal. Foi Pombal que, através de uma legislação afinada com a lógica do sistema mercantilista, articulou a necessidade da abolição da escravatura em Portugal com a “libertação” dos índios para o mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, incentivou a continuidade da escravidão africana no Brasil. As questões das fronteiras, dos índios, das Missões e do comércio tinham uma conexão lógica. Em nome da liberdade dos índios, Pombal mandou atacar a questão central, o poder temporal dos religiosos nas aldeias. Os missionários perdem o direito ao serviço dos índios e do comando sobre os índios. As missões são transformados em paróquias, os missionários em párocos.

O Diretório das Missões, de 1757, substituiu o poder temporal dos missionários pelo poder temporal do diretor dos índios que como tutor acumulou todos os poderes nas antigas aldeias e, segundo Tavares Bastos, se tornou o ladrão oficial dos índios. Os índios pagam a sua liberdade declarada com o dízimo ao Estado e com o sexto ao diretor. O serviço obrigatório dos índios para os colonos por um determinado pagamento continuou. Os inacianos rejeitaram o papel de pároco da aldeia. Pouco tempo depois, a tentativa de assassinato do rei D. José Manuel, serviu de pretexto para o decreto de expulsão dos jesuítas (3.9.1759). No século que seguiu à “emancipação pombalina” dos índios e à expulsão da Companhia de Jesus, os índios que eram maioria na Amazônia, se tornaram minoria.

[As fontes ver: P. Suess, Nóbrega e Anchieta - lei e língua. Perspectiva Teológica XXXI/85 (set./dez. 1999) 383-396. – Idem, A catequese nos primórdios da cidade de São Paulo. Piratininga revisitado por ocasião dos 450 anos de sua fundação. REB LXIV/256 (out. 2004) 903-930. – Este texto foi publicado em: História Viva, Temas Brasileiros (Nov. 2005), Edição Especial n. 2: A Igreja Católica no Brasil, p. 9-15].

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Pedagogia dos Jesuitas


A Companhia dos Jesuítas, fundada por Santo Inácio de Oyola, teve um impacte significativo nas escolas europeias durante os séculos XVI, XVII e XVIII, estando, ainda hoje, presente no ideário pedagógico de muitas escolas ligadas à Igreja Católica. Há dois acontecimentos que marcam o princípio e a decadência da pedagogia dos jesuítas: a inauguração do colégio de Mesina, em 1548, e o fecho do colégio de Clermont, em 1762. Durante esses dois séculos, temos ainda a considerar a expansão da pedagogia dos jesuítas pela América Latina e pela Ásia, conduzida por importante figuras missionárias, de que o português, Padre António Vieira, é o maior exemplo.
A pedagogia dos jesuítas é inseparável do ambiente cultural da contra reforma e do percurso espiritual de Inácio de Loyola (1491-1556). A passagem de Loyola pelas Universidades de Alcalá, Salamanca e Paris deram-lhe a conhecer a necessidade de a ordem por ele fundada centrar o esforço de evangelização na criação de escolas católicas em todo o lado onde a ortodoxia estivesse em perigo ou a ignorância da fé católica fosse um facto.
A estada de Loyola na Universidade de Paris, onde o movimento reformista era forte e se fazia sentir a influência ideológica de Calvino, levou o fundador dos jesuítas a meter mãos á obra na criação de uma rede de instituições educativas capazes de combaterem o novo movimento, pugnando, em contrapartida, por uma reconciliação entre o pensamento de Erasmo e a filosofia de S. Tomás de Aquino. Após a sua passagem por Paris, Loyola conseguiu que o Papa Paulo III aprovasse, em 1541, a regra de quarenta e nove pontos que previa a constituição de seminários, chamados colégios, nas cidades que possuíssem universidades e onde os futuros jesuítas seriam formados. A partir de 1540, Inácio de Loyola começou a enviar, para a Universidade de Paris, os primeiros dirigentes da Companhia recém-criada e que iriam ser os futuros directores dos colégios a criar. E os primeiros colégios abriram as portas, entre 1541 e 1546, em Lisboa, Pádua, Coimbra, Lovaina e Colónia.
À medida que o protestantismo alastrava a sua influência pela Europa, mais sentido ia ganhando a frase do Padre Bonifácio: "a educação das crianças é a renovação do mundo". Um momento importante na expansão dos colégios jesuítas foi "a criação, em 1550, do colégio romano, cujo primeiro reitor foi o padre Pelletier. Tal colégio chegará a ser, não somente o que Paris foi para a primeira geração de jesuítas - a escola normal onde se formaram os futuros professores -, e ainda mais: o centro onde desembocam, para serem submetidas a uma confrontação fecunda, todas as experiências instituídas nas diferentes casas da ordem" (1).
A partir daqui, estava lançada uma semente que iria estar na base do sucesso educativo e cultural dos jesuítas durante dois séculos. "No final do pontificado de Gregório XIII (1585), os jesuítas já possuíam, em França, quinze colégios com muitos alunos: 1300 alunos em Paris (1581), 1500 em Billom (1581), 800 em Dôle (1585). Pese embora os esforços dos protestantes que tinham criado, na Segunda metade do século XVI, os colégios de Metz, Chatillon, Montargis, Montpellier, Tours, La Rochelle, Castres, Montbéliard, Montauban, Orthez, Pau, Niort, Nérac e Bergerac, a balança começava a inclinar-se a favor dos jesuítas" (2).
A expansão dos colégios foi tão grande que, em 1626, já havia 444 colégios espalhados pela Europa. Antes de morrer, Loyola escreveu uma carta ao rei Filipe II, dando conta do reconhecimento da importância dos colégios jesuítas: "vê-se diariamente quanto é difícil aos que envelheceram no vício e nos maus costumes converterem-se num novo homem e consagrarem-se a Deus, e até que ponto todo o bem da cristandade e da sociedade depende de uma boa educação da juventude; esta macia como a cera, recebe a impressão da forma que se quer. Mas, como para procurá-la se encontram muito poucos professores virtuosos e letrados que sigam o exemplo da doutrina, a Companhia, com o zelo que Cristo nosso Redentor nos inspirou, resolveu assumir essa parte menos honrosa mas não menos frutuosa, da instrução das crianças e dos jovens. Assim, entre os outros ofícios que exerce, não é o menor dos seus deveres manter colégios nos quais, não somente os seus, mas também os de fora, recebam gratuitamente, os conhecimentos necessários a um cristão, as ciências humanas, dos rudimentos da gramática até às mais altas faculdades, segundo os recursos que podem oferecer os distintos colégios".
A organização pedagógica dos colégios jesuítas foi influenciada pela cultura barroca. Ordem, disciplina e método constituíam as três características predominantes da pedagogia dos jesuítas. A gramática, a filosofia, a lógica, a teologia ocupavam lugar central no plano de estudos. A metodologia mais vulgar consistia numa subtil mistura de exposições do professor, leitura de textos, exercícios e disputas orais.
As famílias delegavam os seus poderes nos responsáveis pelos colégios: "pelo facto de levarem os seus filhos aos jesuítas, um pai de família compromete-se a aceitar os princípios e a disciplina do colégio. No que se refere ao internato, os jesuítas esforçar-se-ão até onde for possível para oferecer aos educandos uma atmosfera familiar e alegre; mas exercerão sobre a criança a autoridade do pai ausente. Encarregados pelos pais de darem aos alunos uma educação cristã, não toleram que esse fim seja comprometido pela dissolução - facto frequente na época - em certos ambientes aristocráticos. Assim, não queriam ver degradar-se, no curso das suas vocações, pela preguiça e má conduta, os bons costumes que souberam inculcar nos jovens. Muito generosos na liberdade concedida aos alunos no
interior do colégio (um dia de descanso por semana, dois recreios de uma hora depois das refeições, muitas distracções, jogos, desportos, conferências, teatro), reduziam ao mínimo o tempo passado fora do colégio. As férias anuais duravam um mês no Verão...Até os alunos externos eram objecto de uma vigilância discreta: deviam abster-se de participarem na vida mundana, e as famílias que esquecessem os seus compromissos eram advertidas com severidade" (3).
A disciplina era entendida como uma forma de envolvimento de todo o colégio num ambiente de respeito, ordem e hierarquia. Na base da disciplina, estava o regulamento do colégio, onde se estipulavam, com rigor, a missão, os objectivos, os direitos e os deveres. No topo da hierarquia estava o reitor, eleito pelos professores mais antigos. De seguida, vinha o perfeito dos estudos, em cujos ombros caía a responsabilidade pela inspecção do ensino, a socialização dos novos professores e a supervisão do trabalho dos professores. Por último, em cada classe havia um professor principal que seria o responsável pelos estudos de cada aluno, assumindo-se como um amigo de cada aluno, cheio de compreensão e de autoridade. Com um ambiente tão ordeiro e respeitador da hierarquia, não admira que os colégios jesuítas raramente recorressem aos castigos. Em contrapartida, a pedagogia dos jesuítas fazia apelo aos reforços positivos, nomeadamente os quadros de honra e às competições académicas.
O plano de estudos dos colégios jesuítas eram muito completos. A forte componente académica era complementada como uma igualmente forte componente recreativa e desportiva. Os jesuítas centravam o currículo numa formação académica, baseada no estudo dos clássicos. Nos primeiros anos de escolaridade, a ênfase era colocada no domínio da língua materna, da gramática e da escrita e só depois os alunos eram iniciados no estudo de um leque de disciplinas que incluía a filosofia, a teologia, a matemática, o latim, o grego, as ciências da natureza, a história e a geografia. "O que os jesuítas procuram alcançar, à saída do colégio, é formar jovens cultos, que possuíssem aquilo que Montaigne e Pascal chamavam de arte de dissertar, isto é, fossem capazes de um discurso brilhante e conciso acerca dos temas da condição humana...Os jovens formados desta maneira na cultura geral, através de um sólido ensino secundário, ficam aptos para entrar nas universidades e para prosseguir carreiras" (4).
O latim era, na época da contra reforma, a língua franca da Europa. Como língua erudita, tinha, na época, uma função idêntica á que o inglês tem hoje. Não admira, por isso, que o latim fosse a língua utilizada a partir do ensino secundário no estudo de todas as disciplinas. Devido à divisão da classe em decúrias, o jovem decurião recitava, todas as manhãs, a lição aos restantes companheiros. Durante esse tempo, o professor concluía a correcção das cópias. A aula começava com um ditado. Depois o professor fazia uma
prelecção com base num texto. De seguida, os melhores alunos faziam, para os colegas, a mesma prelecção.
A gramática tinha um lugar especial no plano de estudos, uma vez que os jesuítas pretendiam formar jovens eloquentes e capazes de escrever bem. Um bom conhecimento de gramática constituía a base dos conhecimentos superiores de retórica. A formação literária do jovem assentava na leitura dos grandes autores, com particular destaque para os gregos e os romanos. No final do ensino secundário, era dada uma grande importância ao estudo da retórica e da poética de Aristóteles. "Por último, como a retórica devia desembocar no mundo, o seu ensino acolhia a erudição cada vez mais copiosa sobre a história política e social dos povos, dos autores com verdadeira autoridade e de todas as ciências, mas sem esquecer a capacidade dos alunos" (5).
A prelecção (praelectio) era o exercício fundamental que coroava o estudo da gramática. Com a prelecção, o aluno mostrava dominar a complexidade da explicação literária. "Antes de tudo era necessário situar o texto (argumentum); depois, mediante uma explicação de palavras, precisa, profunda e reduzida, devia referir-se às expressões mais notáveis e difíceis (explanatio). Depois vinha a análise prpriamente técnica do texto, de acordo com as regras da retórica, da poética e da gramática (rethorica); depois, a elucidação histórica, geográfica e científica dos factos (eruditio). Por último, a transposição da exégesis literária do que o ramalhete espiritual constitui na meditação religiosa, a apreciação geral do trecho escolhido, mediante um cotejo com os demais textos do mesmo autor ou com o grandes modelos de Cícero (latinitas)" (6).
A pedagogia dos jesuítas partilhava com a cultura barroca o apreço pela teatralidade e pela realização cénica: "cada classe estava dividida em duas fracções, romanos e cartagineses: os melhores alunos estavam investidos com a magistratura soberana; outros postos menos importantes constituíam, dentro dos dois grupos, um valoroso estado maior que tomava parte na disciplina da classe (recordemos os decuriões). Em cada fracção os alunos estavam hierarquizados em ordem decrescente. Cada um deles tinha na coluna da outra fracção um homólogo de igual força, o seu émulo. Era o seu adversário oficial, cujas faltas e inexactidões deviam ser denunciadas. Assim, segundo os alunos de uma das duas fracções ganhasse ou não aos seus émulos, uma das partes era proclamada vencedora ou vencida e saía da luta coberta de honra ou de vergonha. Este método tinha como resultado eficaz manter a emulação, não só entre os melhores alunos, mas também entre os últimos da classe, porque a vitória sobre o émulo inimigo ou um desafio vitorioso com um companheiro melhor situado, podia levar a uma vantagem visível na classificação geral" (7).
A filosofia ocupava um espaço importante no plano de estudos do ensino secundário. Os estóicos, em particular Séneca e Cícero, Tomás de Aquino e, em lugar cimeiro, Aristóteles, eram os autores
mais apreciados. O estudo da Lógica, da Metafísica, da Alma e da Ètica de Aristóteles ocupavam grande parte do tempo do estudante de Filosofia. O ensino da Filosofia era simples e eficaz: consistia na leitura e na explicação dos textos dos filósofos. Era dado um grande realce à compreensão filológica dos textos e á realização de disputas sobre as teses dos autores.
O ensino da História dava uma grande importância à Antiguidade Grega e Latina. Apesar da erudição ser um objectivo importante a perseguir, havia uma preocupação de conhecer e comentar as obras dos grandes autores, conhecidos como grandes historiadores da antiguidade greco-romana, nomeadamente Heródoto, Tucídides, Tito Lívio, Floro, Valério Máximo e Salústio. A metodologia utilizada não se distancia da metodologia das restantes disciplinas: havia uma explicação dos autores (lectio), seguida de comentários e disputas.
As ciências físicas e matemáticas não tinham o mesmo espaço no plano de estudos que o latim, o grego, a gramática, a retórica, a história e a filosofia. A física era estudada a partir das obras dos autores clássicos, como se fosse uma filosofia natural ligada á história do pensamento grego. A Física e os tratados Do Céu e Dos Meteoros, de Aristóteles, ocupavam um lugar importante, sobretudo através do estudos dos comentários à obra do estagirita.
Vejamos, por último, os cuidados na formação dos professores.
Santo Inácio de Loyola teve sempre uma grande preocupação com a formação académica dos membros da Companhia de Jesus. Ao princípio, resolveu o problema enviando os jesuítas para a Universidade de Paris que ele conhecia bem por tê-la frequentado. À medida que a Companhia de Jesus se ia expandindo, apostou na criação de universidades na Europa central. Os jesuítas formados nessas universidades estiveram na base da criação de muitas centenas de colégios. Em 1579, havia 144 colégios jesuítas e em 1749, eram 669.
A Companhia de Jesus encarou de frente o problema da formação contínua dos professores destes colégios, com a criação de uma publicação, intitulada o Diário, onde eram publicados artigos em defesa da ortodoxia pedagógica, filosófica e teológica. Publicaram, nessa publicação, como membros correspondentes, alguns dos melhores intelectuais da Europa daquele tempo.
Notas
1) Mesnard, P. (1992). "La Pedagogia dos Jesuítas", in Jean Château. Los Grandes Pedagogos. México: Fondo de Cultura Económica, p. 61
2) Idem, p. 62
3) Ibid., p.67-68
4) Ibid., p. 70

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

História dos Jesuítas


Podemos dividir a História da Companhia em duas grandes épocas: 1) a Antiga Companhia e 2) a Companhia Restaurada.



1. A Companhia Antiga


(1540-1773)

1.1. Crescimento e Expansão


(1540-1687)

A Companhia de Jesus foi aprovada pelo Papa Paulo III, em 1540. Aquela época estava caracterizada por:

uma situação de divisão e conflito dentro da Igreja (a Reforma Protestante);

a expansão das fronteiras geográficas, com a descoberta da América e a abertura de novas rotas comerciais na Ásia;

uma autêntica revolução, no campo das ciências e das letras.

A Companhia antiga tentou dar uma resposta positiva a esses desafios, atuando em quatro campos:

1.1.1. Serviço ao povo cristão na defesa e promoção da fé

A Igreja do século XVI, sacudida pela Reforma Protestante, tomou consciência do abandono espiritual em que se encontrava o povo cristão. Nesse contexto, os primeiros Jesuítas dedicaram-se aos ministérios sacerdotais tradicionais (pregação, confissões, catequese...), junto com novas iniciativas e estratégias pastorais: os Exercícios Espirituais, as Missões populares, Associações de leigos (Congregações Marianas), e o uso do teatro na pregação, liturgia e catequese.

1.1.2. Propagação da fé nos territórios de Missão

Aproveitando o esforço expansionista dos grandes impérios da época (Espanha e Portugal), os Jesuítas estão presentes, desde a primeira hora, nos novos mundos que se abrem à atividade missionária da época. São Francisco Xavier percorre a Índia, Indonésia, Japão e chega às portas da China; Manoel da Nóbrega e José de Anchieta ajudam a fundar as primeiras cidades do Brasil (Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro); João Nunes Barreto e Andrés de Oviedo empreendem a fracassada missão da Etiópia, etc. Acima das inevitáveis ambigüidades, as missões dos Jesuítas impressionam pelo espírito de inculturação (adaptação à cultura do povo a quem se dirigem). As Reduções do Paraguai e a adoção dos ritos malabares e chineses são os exemplos mais significativos.

1.1.3. A educação da juventude

Imprevista ao nascer a Companhia, a atividade educativa tornou-se logo a principal tarefa dos Jesuítas. A gratuidade do ensino da antiga Companhia favoreceu a expansão dos seus Colégios. Em 1556, à morte de Santo Inácio, eram já 46. No final do século XVI, o número de Colégios elevou-se a 372. A experiência pedagógica dos Jesuítas sintetizou-se num conjunto de normas e estratégias, chamado a "Ratio Studiorum" (Ordem dos Estudos), que visa a formação integral do homem cristão, de acordo com a fé e a cultura daquele tempo.

1.1.4. A ciência e a cultura

Os primeiros Jesuítas participaram ativamente do esforço de renovação teológica da Igreja Católica, frente à Reforma Protestante. No Concílio de Trento, destacaram-se dois companheiros de Santo Inácio (Laínez e Salmerón). Desejando levar a fé a todos os campos do saber, os Jesuítas dedicaram-se às mais diversas ciências e artes: Matemática, Física, Astronomia... Entre os nomes de crateras da Lua há mais de 30 nomes de Jesuítas. No campo do Direito, Suarez e seus discípulos desenvolveram a doutrina da origem popular do poder. Na Arquitetura, destacaram-se muitos Irmãos Jesuítas, combinando o estilo barroco da época com um estilo mais funcional.

1.2. Crise e Supressão


(1687-1773)

A Companhia de Jesus nasceu em meio a uma situação de conflito e nunca esteve alheia aos conflitos históricos. Seu fundador queria que fosse um grupo móvel, disponível para acudir aos lugares em que a necessidade fosse maior. Mas, entre todos os períodos de sua história, o mais dramático foi o que terminou com a supressão da própria Companhia, em 1773, pelo Papa Clemente XIV.

É difícil resumir o complexo de circunstâncias que levaram o Papa àquela decisão extrema. Foi o desfecho de um longo processo de lutas e sofrimentos, que poderíamos reduzir assim:

1.2.1. A luta contra o jansenismo

Jansen ou Jansênio foi um bispo belga que exerceu enorme influência na França do século XVII. Seus seguidores (jansenistas) defendiam de tal modo o papel da graça que chegavam a negar o livre arbítrio. O homem já nascia predestinado à salvação ou à condenação. Na vida cristã eram rigoristas, pregando uma religião de temor e de inflexível disciplina moral. Os Jesuítas opuseram-se a tais idéias, ganhando a odiosidade dos jansenistas. O grande pensador Pascal colocou-se do lado destes, nas célebres "Cartas Provinciais", desmoralizando os Jesuítas. Não adiantou que a Igreja colocasse o livro de Pascal no "Índice de Livros Proíbidos". Na França da época, o gênio literário valia mais do que a autoridade de Roma. Os Jesuítas ganharam fama de intrigantes, "hipócritas", donos de imensas riquezas, etc.

1.2.2. O conflito com as monarquias absolutistas

No século XVIII, os Reis consideravam absoluto o poder do Estado. Na França, o "galicanismo" defendia as liberdades da Igreja Galicana, frente à autoridade do Papa. Os Jesuítas, fiéis defensores deste, eram considerados como "obscurantistas" e "ultramontanos" intolerantes. Um atentado contra o rei de Portugal, José I, foi a desculpa para expulsar todos os Jesuítas de Portugal e suas colônias, incluindo o Brasil (1761). A Companhia de Jesus foi expulsa também da França (1764) e da Espanha e suas colônias (1767). A pressão da casa dos Bourbons, reinantes nesses países, acabaram levando o Papa Clemente XIV a ceder. A Companhia de Jesus foi dissolvida em todo o mundo, menos na Prússia e na Rússia Branca.
1.2.3. Conflitos dentro da própria Igreja

Nem todos compreendiam as tentativas de inculturação e adaptação do Evangelho às culturas asiáticas, empreendidas por Jesuítas competentes e corajosos, como Mateus Ricci (na China) e Roberto De Nobili (na Índia). Os que não entendiam o cristianismo fora das normas culturais ocidentais acusaram os Jesuítas de paganismo, idolatria e superstição. E o Secretariado romano para a Propagação da Fé levou a sério tais acusações.

1.2.4. Os erros dos próprios Jesuítas

Alguns Jesuítas, vítimas de injustas perseguições, como Antônio Vieira ou Gabriel Malagrida, no ambiente luso-brasileiro, são considerados hoje grandes missionários. Outros Jesuítas, porém, contribuíram, com seus erros, para desacreditar a Companhia. Por exemplo, Antoine Lavalette, ecônomo da Missão da Martinica, metido a esperto em operações comerciais, que terminaram endividando a Missão e a Companhia.

O Superior Geral da Companhia na época da extinção, Lourenço Ricci, com 70 anos de idade, ficou preso no Castelo de Sant'Angelo. Antes de morrer, dois anos depois, declarou solenemente que a Companhia de Jesus não tinha dado motivo nem ocasião para sua supressão, e que ele pessoalmente não dera o menor pretexto para ser preso e humilhado.


Os Noviços, Estudantes e Irmãos Jesuítas foram despedidos. Aos Sacerdotes deu-se-lhes a escolher entre viver como Padres diocesanos ou entrar em outras Congregações religiosas.

2. A Companhia Restaurada (1814-1986)

A 7 de agosto de 1814, o Papa Pio VII restaurou a Companhia em todo o mundo. O quadro histórico era bem diferente daquele de 1773. Napoleão acabava de ser derrotado. O Papa retornava a Roma, depois de ter sido exilado pelo Imperador francês. A velha Europa sonhava com voltar às antigas tradições, depois da tormenta revolucionária. O renascimento da Companhia aconteceu num contexto conservador e antiliberal.

2.1. O Século XIX

(até 1914)

A Companhia de Jesus no primeiro século da sua restauração:

reinicia as suas atividades educativas, embora sem a originalidade da Companhia antiga;

desenvolve os grandes movimentos de piedade: os Exercícios Espirituais divulgados entre o clero, religiosos e leigos; a devoção ao Sagrado Coração de Jesus; o Apostolado da Oração; as Missões populares; as Congregações Marianas;

insere-se na Pastoral Operária, embora com os métodos da época, hoje considerados paternalistas (círculos operários, obras sociais, escolas populares);

continua o esforço de pesquisa e publicação em todos os campos das ciências e letras;

participa da nova atividade missionária da Igreja. Ao Brasil chegam, a partir de 1842, Jesuítas espanhóis, italianos e alemães.

Na política do século passado, alternavam-se governos conservadores e liberais. A maioria dos católicos identificavam sua fé com o antigo regime (monárquico). Muitos Jesuítas participavam dessa mentalidade. Assim, em época de governos conservadores, os Jesuítas eram chamados e exaltados; mas quando os liberais subiam ao poder, os Jesuítas eram novamente perseguidos e expulsos. Não deixa de ser uma ironia da História o fato de que a maioria dos Jesuítas do século passado tivessem saudade do antigo regime, que no século XVIII os tinha perseguido e dissolvido.

2.2. O Século XX

Durante o longo generalato do P. W. Ledochowski (1915-1942), a Companhia cresceu em número de membros (até chegar a 26.000) e na qualidade das suas obras (aos colégios unem-se numerosas Universidades, nos Estados Unidos, América Latina e nas Missões). Neste período e no seguinte (P. Janssens, 1946-1964), a Companhia acompanhou de perto os grandes conflitos internacionais: duas guerras mundiais, a revolução russa e sua expansão nos países da Europa oriental, que abalou dez Províncias ou vice-Províncias da Companhia; o triunfo de Mao-Tsé-Tung, na China, arrasou a estrutura missionária construída durante um século de trabalho; o nacionalismo dos povos da África e Ásia, lutando contra as potências colonizadoras, cria dificuldades para os missionários estrangeiros.


2.3. O Concílio Vaticano II

(de 1965 até o presente)

Alguns Jesuítas foram precursores no esforço de reconciliar a fé cristã com o mundo contemporâneo. O P. Teilhard de Chardin intuiu e defendeu que a idéia da evolução biológica, antes defendida apenas por cientistas descrentes, era perfeitamente compatível com a fé na Criação. Mas os livros do Pe. Teilhard só foram publicados e estimados depois de sua morte.

A Grande mudança de clima, na Igreja do nosso século, aconteceu em torno do Concílio Vaticano II (1962-1965). Dele participaram muitos Jesuítas, como bispos de regiões missionárias (uns 50) ou como teólogos (alguns de grande prestígio, como Danielou, De Lubac, Karl Rahner). A Congregação Geral 31a., levou à Companhia de Jesus este novo espírito eclesial. Nela foi eleito superior geral o P. Pedro Arrupe, que governou a Companhia nos anos difíceis do pós-Concílio. Durante seu generalato, o número de Jesuítas diminuiu de 36.000 para 26.000.

Para enfrentar os desafios do nosso tempo, a Companhia tem revitalizado os princípios espirituais das suas origens (prática dos Exercícios Espirituais; criação de um Centro Inaciano de Espiritualidade, em Roma). Seguindo o espírito do Concílio, tem prestado especial atenção aos problemas do diálogo com o mundo (relação entre ciência e fé; estudo do ateísmo e indiferença religiosa, a pedido do Papa Paulo VI). Querendo adaptar o seu apostolado aos grandes problemas do mundo de hoje, a Companhia assume, hoje, o compromisso com os pobres e a luta contra as estruturas injustas. Isso tem atraído sobre muitos dos seus membros novas perseguições. Na América Latina, diversos Jesuítas foram assassinados, por estarem levando à prática as opções do Episcopado latino-americano, nas Conferências de Medellin (1968) e Puebla (1979): João Bosco Penido Burnier (Brasil, 1976), Rutílio Grande (El Salvador, 1977), Luis Espinal (Bolívia, 1980), Carlos Alonso (Guatemala, 1981).

A Congregação Geral 32a. revisou, em 1975, a caminhada da Companhia nestes anos do pós-Concílio, e enfatizou o objetivo prioritário da Companhia: "Comprometer-se, sob o estandarte da Cruz, na luta crucial do nosso tempo: a luta pela Fé e a luta pela Justiça, que a fé exige". "Serviço da fé e promoção da justiça" é a expressão mais atual do carisma inaciano.

2.4. A Companhia nos anos 80

A 7 de agosto de 1981, uma trombose cerebral incapacitou o P. Pedro Arrupe de continuar à frente da Companhia. Dois meses depois, o Papa João Paulo II nomeou o P. Paolo Dezza como Delegado Pontifício para o governo provisório da Companhia, até a convocação de uma Congregação Geral, que elegeria o novo Superior Geral. A intervenção do Papa no governo da Companhia foi de caráter extraordinário. O Delegado Pontifício cumpriu sua tarefa com muita discrição, convocando a Congregação Geral 33a. Reunida em Roma, nos meses de setembro-outubro de 1983, a Congregação aceitou a renúncia do P. Arrupe e elegeu seu sucessor, P. Peter-Hans Kolvenbach, atual Superior Geral da Companhia.

O principal decreto da Congregação Geral 33a. intitulado "Companheiros de Jesus, enviados ao mundo de hoje", está escrito "sob o signo da continuidade e da esperança".

"Nos últimos anos surgiu em toda a Companhia uma nova consciência da nossa vida religiosa. Os decretos das CC. GG. 31a. e 32a., bem como os escritos do P. Arrupe, desenvolveram um ensinamento espiritual solidamente baseado no Evangelho e nas fontes de nossa tradição, capaz de responder aos desafios de nosso tempo. Esta renovação se manifesta sobretudo no novo impulso dado aos Exercícios Espirituais e ao discernimento apostólico. O compromisso pela fé e pela justiça, o serviço dos pobres e a participação em sua vida constituíram-se em apelo a todo o corpo da Companhia para assumir um modo de vida mais evangélico".
"Reconheçemos, por outro lado, deficiências na maneira de viver a nossa vocação. As dificuldades resultam muitas vezes do excesso de trabalho, da rotina na prática religiosa, da falta de dinamismo espiritual de nossas comunidades. Tudo isso enfraquece o nosso relacionamento com Deus. Importa, pois, redobrar os nossos esforços para perceber mais a fundo o sentido de nossa vida, que consiste em buscar a maior glória de Deus e o serviço dos homens". (CG 33a., decreto 1º, nº 10)

Um claro sinal de esperança é o aumento das vocações à Companhia. No ano de 1972, havia, em toda a Companhia 706 Noviços; em 1985, os Noviços eram 1154. Se o número de Padres e Irmãos formados ainda está diminuindo, o número de Jesuítas em formação aumenta: de 1984 a 1985 houve um aumento de 106 Noviços escolares e 15 Noviços coadjutores.

FONTE: