ROMA, quinta-feira, 10 de março de 2011 (ZENIT.org)
– "Muitos de nós se cansam de imaginar Deus como um criador que está
trabalhando incansavelmente 24 horas por dia. Eu o imagino mais como um
ator afastado do palco e relegado a um show dominical para um público
cada vez menor.”
"Por isso, falar sobre a fé ativa no local de
trabalho pode parecer excêntrico. Mas, se percebêssemos que nosso
trabalho é precioso para Deus, não faríamos outra coisa a não ser levar a
fé para o trabalho."
Quem disse estas palavras não foi um
sacerdote, nem um bispo, nem um religioso, mas o diretor de um banco,
cujo nome é Ken Costa e que recentemente escreveu um livro intitulado
“Al trabajo con Dios” ("Trabalhando com Deus", ed. Messaggero Padova),
que está gerando comentários consideráveis.
Ken Costa é um dos
dirigentes bancários mais importantes da nossa geração, conhecido por
sua paixão, criatividade, liderança e pensamento estratégico em sua vida
profissional; também é uma pessoa de profunda fé cristã.
Acredita-se
que Deus e os negócios não se misturam. No entanto, o autor do livro
explica que "o Deus que criou e sustenta o mundo é também o Deus do
local de trabalho" e que, "se a fé cristã não for relevante no trabalho,
não será relevante em lugar nenhum”.
A partir da leitura do
Evangelho, Costa se convenceu de que “o capitalismo democrático, apesar
de todos os seus defeitos, era o sistema econômico que melhor servia o
bem comum e que melhor refletia os princípios do Novo Testamento de
justiça, de liberdade individual”.
"A economia de mercado -
observou ele - é um bom servo, mas um amo ruim: é necessário trabalhar
dentro de um contexto moral mais amplo, que considere preciosos todos os
seres humanos e preciosos todos os recursos do mundo, precisamente
porque têm valor para Deus."
"Sem uma estrutura baseada em valores - afirmou -, a economia de mercado é fraca em seus próprios alicerces."
Sobre
a presença de Deus e seu espaço no trabalho cotidiano, Costa disse que
"a vida do cristão no trabalho é uma tensão em direção ao bem. Dia a
dia, podemos perceber a vida de Deus, enquanto evitamos a escuridão. Nós
tentamos caminhar ao longo deste estreito limite, procurando alcançar a
luz".
"Algumas pessoas pensam que a fé nos torna imunes a fazer
escolhas erradas... Eu gostaria que fosse assim. Deus nos dá os recursos
espirituais para crescer através da fraqueza e recuperar-nos quando
sucumbimos às tentações onipresentes", acrescentou.
Quando
perguntado sobre "por que trabalhamos?”, Costa respondeu com muitas
razões contidas na Bíblia, ou seja: criar riqueza, sustentar a nós
mesmos e nossas famílias, sentir-nos realizados e ter um objetivo,
evitar ser um fardo para outros, ser novas pessoas, através de um
esforço colaborativo.
O autor afirma estar convencido de que "Deus
tem no coração o bem da sociedade" e, por isso, quando questionado
sobre sua fé, responde: "Meu local trabalho é o meu lugar de oração".
(Antonio Gaspari)
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terça-feira, 31 de janeiro de 2012
VISÃO CRISTÃ DA ECONOMIA
Artigo para dia 1º de fevereiro de 2012, quarta-feira:
Dom Fernando Arêas Rifan*
Acabo de participar, de 24 a 28 de janeiro, nos Estados Unidos, de um Congresso para Bispos, com a presença de 2 cardeais e 50 Bispos de 18 nacionalidades, promovido pelo Acton Institute, instituição universitária voltada para estudos de economia e sociologia à luz da Doutrina social da Igreja. O congresso deste ano intitulou-se “Economias e culturas em transição: a resposta da Igreja na era secular”.
Na palestra inicial, o Cardeal George Pell, de Sydney, Austrália, falou sobre o papel do Bispo Católico na Sociedade Secular atual, explanando sobre a tensão básica que existe entre a cosmovisão judaico-cristã e o secularismo, resultando dela uma grande ameaça para a cultura. O hedonismo, as drogas, o jogo e a pornografia geram enormes mercados. Na nova era tecnológica, a elite cultural que lidera o mundo e são formadores de opinião, desestima a religião, considerando-a antiquada. Ele frisou que as palavras secularismo e laicismo acabam sendo eufemismos para significar ateísmo. Mostrando que a Igreja tem uma visão coerente dos problemas sociais, ele insistiu na fidelidade ao Magistério, lembrando que não podemos ser católicos de “buffet”, escolhendo só o que nos agrada da Doutrina católica.
Entre as muitas palestras, ressalto a de Dr. Samuel Gregg, doutor em Filosofia da Universidade de Oxford e autor de vários livros, que versou sobre a crise econômica e cultural da Europa, sugerindo que a Igreja não deve se envolver no diagnóstico das causas nem se ocupar da promoção de soluções econômicas específicas, mas atacar a crise nas áreas da moral e da cultura, recordando às pessoas que vivem na mentira, que isto tem consequências no mundo, inclusive na economia.
Discorrendo sobre os efeitos culturais do capitalismo, o Dr. Michael Matheson Miller, graduado em várias universidades e pesquisador em países da Europa, Ásia e África, falou sobre a retidão da economia de mercado, as críticas aos efeitos negativos do capitalismo, dos quais muitas vezes ele não é a causa, mas a ocasião, dando a fórmula para a crise: a razão reabilitada e purificada pela Fé, o progresso temperado pela Esperança e a liberdade purificada e orientada para o Amor.
O Padre Roberto Sirico, diretor, tratou do tema solidariedade e subsidiariedade, dois conceitos inseparáveis da visão social cristã, sobretudo no trato com a pobreza.
Muito interessante foi a palestra do Sr. Frank Hanna, banqueiro e empresário, falando sobre a sua visão cristã do capital e da empresa. Em sua explanação, ele disse que tem 50 milhões de dólares, perguntando-nos quantos de nós seriam tão ricos como ele. Todos riram. E ele disse que essa nossa admiração era devido ao fato de que se costuma definir riqueza como sinônimo de bens materiais, uma visão de fundo marxista. Discorreu sobre o que é realmente riqueza, falando sobre o pecado contra a esperança, que destrói a riqueza, mesmo material. As virtudes e não os vícios são a maior riqueza que podemos ter.
*Bispo da Administração Apostólica Pessoal
São João Maria Vianney
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sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Quo vadis, Europa?
ZP11100703 - 07-10-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-29009?l=portuguese
A Grécia segue longe dos objetivos da UE e do FMI
Paul De Maeyer
ROMA, sexta-feira, 7 de outubro de 2011 (ZENIT.org) – Os 17 países da zona do euro deram um breve suspiro de alívio: mais dois países ratificaram o chamado “fundo salva-países”. Em 29 de setembro, o Bundestag, Câmara Baixa do parlamento alemão, aprovou com gritante maioria (523 votos contra 85 e 3 abstenções) a ampliação do fundo. Foi acompanhado pelo parlamento austríaco. Assim, os países que ratificaram a reforma são agora 14.
O fundo em questão é o EFSF, ou European Financial Stability Facility, mecanismo de estabilização financeira criado em maio de 2010 para ajudar os países membros em dificuldades, como Grécia e Portugal, e manter a estabilidade na zona do euro. A sociedade, com sede em Luxemburgo, dispunha inicialmente de um teto máximo de 440 bilhões de euros de garantias concedidas pelos estados membros, e podia emitir materialmente até 250 bilhões de euros em bônus de qualificação “triplo A”. A confirmação do EFSF aumenta as garantias para 780 bilhões de euros, permitindo uma capacidade efetiva de intervenção de 440 bilhões.
Na Alemanha, a proposta foi acolhida com pouco entusiasmo. A população da primeira economia europeia, que “sacrificou”o marco pela moeda única, está se revelando cada vez menos disposta a pagar pelos erros dos outros. O EFSF implica, além disso, obrigações arriscadas para a Alemanha, que vê aumentar o volume das garantias fornecidas por Berlim de 123 para 211 bilhões de euros.
O reforço do fundo europeu era apoiado pelas duas grandes formações da oposição no Bundestag, o Partido Social Democrático (SPD) e o Partido Verde (Die Grünen), mas a chanceler Angela Merkel temia uma rebelião dentro do próprio partido, o CDU, especialmente no partido gêmeo bávaro, o CSU, cujo líder, o ministro-presidente da Baviera, Horst Seehofer, se mostrava muito crítico.
Merkel, no entanto, superou amplamente a maioria necessária de 311 votos favoráveis no Bundestag, que conta com 620 cadeiras. Ela manteve a “maioria do chanceler” (Kanzlermehrheit), com 315 votos favoráveis nas filas dos 330 deputados da sua coalizão (CDU/CSU) e dos liberais (FDP), evitando uma crise de governo. Um dos 15 dissidentes, Wolfang Bosbach (CDU), foi criticado tão duramente por seu colega Ronald Pofalla, que não descarta retirar-se da política em 2013 (Domradio, 30 de setembro).
Segundo as últimas projeções, com 8,5% do PIB, o déficit público grego será este ano superior ao objetivo de 7,6% estabelecido com a UE e o FMI para a liberação das ajudas. A agênciaReuters (2 de outubro) recorda que nem em 2012 Atenas conseguirá o objetivo de uma relação déficit/PIB de 6,5%. Ficará em torno de 6,8%.
O governo do primeiro-ministro Georgios Papandreou continua tomando medidas drásticas, como “mandar à reserva” 30.000 funcionários públicos e cortar em 20% as pensões que superam 1.200 € mensais. Mas muitos analistas consideram a insolvência do país inevitável. “A Grécia já fracassou”, afirma Nicholas Economides, consultor financeiro do governo grego (Carta 43, 29 de setembro). Segundo Economides, que dá aulas nos Estados Unidos, os planos da UE “servem para salvar os institutos bancários europeus, mas não a Grécia”.
O fracasso e a conseguinte saída da Grécia da zona do euro seria um golpe tremendo. Segundo os cálculos do ministro de Economia da Polônia, Jacek Rostowski, cujo país ostenta atualmente a presidência de turno da UE, o custo da exclusão de um país da zona do euro equivaleria a 25% do PIB no primeiro ano e a 10% nos anos seguintes, e faria o índice de desemprego da zona do euro subir para 15%.
Os próprio gregos temem o pior. Segundo pesquisa publicada no jornal To Vima, 67% da população prevê a insolvência da Grécia. Enquanto 70% não quer que Atenas saia da moeda única, apenas um quinto espera uma volta à velha moeda, a dracma. Como revela o Spiegel Online (2 de outubro), outra pesquisa, do sensacionalista Ethnos, diz que 57% dos gregos quer acima de tudo a paz social, e quase 50% pedem um governo de unidade nacional.
Convém recordar algumas palavras e reflexões dedicadas à economia e às finanças pelo papa Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate (29 de junho de 2009). “Toda decisão econômica tem uma consequência de caráter moral. Reta intenção, transparência e busca de bons resultados são compatíveis e não devem se separar”.
Voando para Madri, Bento XVI voltou ao tema. “A economia não pode ser medida segundo a máxima do benefício, mas segundo o bem de todos”, explicou o papa aos jornalistas a bordo do avião, recordando que isto “inclui a responsabilidade pelo outro”, “responsabilidade pela própria nação e não só por si mesmos, responsabilidade pelo mundo, já que uma nação não está isolada, nem a Europa está isolada” (Rádio Vaticano, 18 de agosto). Palavras que podem , talvez, inspirar os políticos que lidam com as consequências da crise e acalmar as bolsas, que estão tempestuosas por medo de um fracasso grego.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Papa: lição da crise econômica, responsabilidade
ZP11081813 - 18-08-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28624?l=portuguese
Não só responsabilidade nacional e mundial, mas com o futuro
Por Jesús Colina
A BORDO DO VOO PAPAL, quinta-feira, 18 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Bento XVI considera que a atual crise econômica deixa uma lição clara: responsabilidade.
Em uma conversa com os jornalistas que o acompanhavam no voo Roma-Madri, na manhã desta quinta-feira, o pontífice esclareceu que a responsabilidade econômica não é só nacional, mas também mundial, e com o próprio futuro.
Atualmente – reconheceu – “confirma-se, na atual crise econômica, o que já se viu na grande crise precedente: a dimensão ética não é algo alheio aos problemas econômicos, mas uma dimensão interior e fundamental”.
A economia precisa de uma razão ética
Segundo o Papa explicou, “a economia não funciona somente com uma autorregulamentação mercantil, mas tem necessidade de uma razão ética para funcionar para o homem”.
“O homem deve ser colocado no centro da economia”; “a economia não deve ser medida segundo o maior lucro possível, mas segundo o bem de todos, e inclui a responsabilidade pelo outro.”
A economia “funciona bem somente se funcionar de maneira humana, no respeito pelo outro, em suas diversas dimensões: responsabilidade com a própria nação, e não somente consigo mesmo, responsabilidade com o mundo”.
Três dimensões da responsabilidade
“A nação não está isolada, nem sequer a Europa está isolada, mas é responsável por toda a humanidade e deve pensar sempre em enfrentar os problemas econômicos a partir dessa ótica de responsabilidade, em particular com as demais partes do mundo, com as que sofrem, têm sede e fome e não têm futuro.”
Esta responsabilidade implica também o futuro – sublinhou. “Se os jovens de hoje não encontram perspectivas em sua vida, também o nosso hoje está equivocado, está mal”.
Portanto, “a Igreja, com sua doutrina social, com sua doutrina sobre a responsabilidade diante de Deus, abre a capacidade de renunciar ao máximo lucro e a ver nas realidades a dimensão humanística e religiosa, isto é, estamos feitos um para o outro”.
“Isso é fundamental para o nosso futuro”, disse.
Permalink: http://www.zenit.org/article-28624?l=portuguese
Não só responsabilidade nacional e mundial, mas com o futuro
Por Jesús Colina
A BORDO DO VOO PAPAL, quinta-feira, 18 de agosto de 2011 (ZENIT.org) – Bento XVI considera que a atual crise econômica deixa uma lição clara: responsabilidade.
Em uma conversa com os jornalistas que o acompanhavam no voo Roma-Madri, na manhã desta quinta-feira, o pontífice esclareceu que a responsabilidade econômica não é só nacional, mas também mundial, e com o próprio futuro.
Atualmente – reconheceu – “confirma-se, na atual crise econômica, o que já se viu na grande crise precedente: a dimensão ética não é algo alheio aos problemas econômicos, mas uma dimensão interior e fundamental”.
A economia precisa de uma razão ética
Segundo o Papa explicou, “a economia não funciona somente com uma autorregulamentação mercantil, mas tem necessidade de uma razão ética para funcionar para o homem”.
“O homem deve ser colocado no centro da economia”; “a economia não deve ser medida segundo o maior lucro possível, mas segundo o bem de todos, e inclui a responsabilidade pelo outro.”
A economia “funciona bem somente se funcionar de maneira humana, no respeito pelo outro, em suas diversas dimensões: responsabilidade com a própria nação, e não somente consigo mesmo, responsabilidade com o mundo”.
Três dimensões da responsabilidade
“A nação não está isolada, nem sequer a Europa está isolada, mas é responsável por toda a humanidade e deve pensar sempre em enfrentar os problemas econômicos a partir dessa ótica de responsabilidade, em particular com as demais partes do mundo, com as que sofrem, têm sede e fome e não têm futuro.”
Esta responsabilidade implica também o futuro – sublinhou. “Se os jovens de hoje não encontram perspectivas em sua vida, também o nosso hoje está equivocado, está mal”.
Portanto, “a Igreja, com sua doutrina social, com sua doutrina sobre a responsabilidade diante de Deus, abre a capacidade de renunciar ao máximo lucro e a ver nas realidades a dimensão humanística e religiosa, isto é, estamos feitos um para o outro”.
“Isso é fundamental para o nosso futuro”, disse.
domingo, 3 de julho de 2011
O melhor presidente do século XX
por Thomas Woods, sexta-feira, 8 de maio de 2009
Warren G. Harding (1921-1923) foi o único que soube como acabar com uma depressão
Quando Barack Obama exigiu rapidez na aprovação de mais um pacote de estímulo em fevereiro - atitude essa que vem sendo emulada por quase todos os países do mundo - ele afirmou que somente uma ação ousada do governo iria impedir que a economia caísse em uma profunda depressão. Ao fazer esse argumento, ele estava apenas papagaiando o pensamento convencional dominante, o qual afirma que os mercados não se autocorrigem - exceto em um prazo muito longo - e que a intervenção estatal é necessária para reativar a atividade econômica.
Nós, os seguidores da sólida teoria econômica (isto é, a teoria austríaca), sabemos por que esse pensamento é errôneo, bem como também sabemos por que mesmo uma eventual aparente prosperidade que tais medidas possam produzir causam danos ainda maiores e levam a uma correção ainda mais severa no longo prazo.
Mas para aqueles que não se contentam apenas com a teoria - e por isso exigem exemplos práticos - podemos mostrar um testemunho da história. Em particular, a depressão americana de 1920-1921, sobre a qual a maioria das pessoas nunca ouviu falar, é um ótimo exemplo de retomada de prosperidade na ausência de estímulos governamentais. Se, como dizem os bem-pensantes, uma economia não pode se recuperar na ausência de intervenções estatais, então o que ocorreu em 1920-1921 não poderia ter sido possível. Mas foi.
Durante e após a Primeira Guerra Mundial, o Federal Reserve (o Banco Central americano) inflacionou a oferta monetária substancialmente. Quase toda a economia americana estava voltada para o esforço da guerra. Com o fim desta - e com os preços em alta - a economia precisava se reorganizar. E foi aí que começou o período de correção (recessão). O Fed passou a aumentar a taxa de redesconto - a taxa à qual ele fazia empréstimos para os bancos - e a economia desacelerou, começando a se reajustar para a realidade. Já em meados de 1920, a recessão havia se tornado severa, com a produção caindo 21% durante os doze meses seguintes. O número de pessoas desempregadas saltou de 2,1 milhões em 1920 para 4,9 milhões em 1921. A taxa de desemprego subiu de 5,2% em 1920 para 12% em 1921.
De 1929 em diante, Herbert Hoover e depois Franklin Roosevelt tentaram combater uma depressão econômica encarecendo os custos da mão-de-obra. Warren G. Harding, por outro lado, disse em 1920, durante seu discurso de aceitação após ser confirmado como o candidato Republicano à presidência dos EUA: "Eu estaria cego às responsabilidades que marcam esse momento decisivo se eu não advertisse os assalariados americanos de que aumentos salariais conjugados com o declínio da produção podem levar apenas à ruína econômica e industrial". Em outro momento, Harding explicou que salários, assim como os preços, precisariam cair para refletir as realidades econômicas do pós-bolha.
Poucos presidentes americanos são mais impopulares entre historiadores do que Harding, que é rotineiramente retratado como um bobo desajeitado que caiu de pára-quedas na presidência. Entretanto, quaisquer que tenham sido suas deficiências intelectuais - e elas foram grotescamente exageradas, como recentes estudiosos vêm admitindo - e quaisquer que tenham sido seus defeitos morais (seu gabinete sofreu acusações de corrupção), ele compreendeu os fundamentos da expansão econômica, da recessão e da recuperação melhor do que qualquer outro presidente do século XX.
Harding semelhantemente condenava a inflação: "A brutal expansão da moeda e do crédito levaram a uma depreciação do dólar assim como a expansão e a inflação desgraçaram as moedas do resto do mundo. Inflacionamos precipitada e apressadamente, e agora precisamos deflacionar cautelosamente. Enfraquecemos o dólar com políticas monetárias negligentes, agora precisamos recuperá-lo honestamente".
E ao invés de prometer gastar somas inauditas, ele defendia o corte de gastos:
Tentaremos uma deflação inteligente e corajosa, e atacaremos a prática do endividamento governamental, algo que só aumenta o infortúnio e a nocividade, e atacaremos o alto custo do governo com todos meios e energia inerentes à capacidade republicana. Prometemos o alívio que advirá da interrupção do gasto e da extravagância, e a renovação da prática da economia política, não apenas porque isso irá aliviar o fardo tributário, mas também porque será um exemplo para se estimular a poupança e a economia na esfera privada.A economia, explicou Harding em seu discurso de posse no ano seguinte, "sofreu os choques e tremores relativos à demanda anormal, à inflação do crédito e ao distúrbio nos preços." E agora o país estava sofrendo o inevitável processo de ajuste. Nenhum atalho era possível:
As penalidades não serão leves e tampouco serão igualmente distribuídas. E não há como fazer com que assim o seja. Não há uma transição instantânea da desordem para a ordem. Precisamos enfrentar uma realidade amarga, dar baixa em nossos prejuízos e começar novamente. Esta é a lição mais antiga da civilização... Nenhuma modificação no sistema poderá operar um milagre. Qualquer experimento aventureiro irá apenas adicionar mais confusão. Nossa melhor garantia jaz na administração eficiente de nosso já fundamentado sistema.Harding foi fiel às suas palavras, executando cortes orçamentários que haviam começado sob o debilitado governo de Woodrow Wilson. Os gastos federais declinaram de $6,3 bilhões em 1920 para $5 bilhões em 1921 e $3,3 bilhões em 1922. Simultaneamente, os impostos também foram cortados - para todos os grupos de renda. E durante o curso da década de 1920, a dívida nacional americana foi reduzida em 33%.
Contrariamente ao Japão, que incorreu em uma maciça intervenção governamental em 1920 que paralisou sua economia e contribuiu para uma severa crise bancária sete anos depois, os EUA permitiram que sua economia se reajustasse. "Em 1920-21," disse o economista Benjamin Anderson,
Encaramos nossos prejuízos, reajustamos nossa estrutura financeira, suportamos nossa depressão, e em agosto de 1921 recomeçamos nosso crescimento. ... A reação ocorrida na produção e no emprego, que começou em agosto de 1921, foi solidamente baseada em uma limpeza drástica do crédito malfeito, em uma drástica redução nos custos de produção, e na livre concorrência da iniciativa privada. A reação não se baseou em nenhuma política governamental criada para subsidiar os negócios.Eis os números: o PIB real - que foi de $146.4 bilhões em 1919, depois caindo para $140.0 em 1920 e finalmente despencando para $127.8 em 1921 - subiu para $148.0 em 1922 e $165.9 em 1923. A taxa de desemprego - que havia sido de 1.4% em 1919, 5,2% em 1920 e 11,7% em 1921% - caiu para 6,7% em 1922 e 2,4% em 1923. Tudo isso concomitante a um aumento nos juros (veja mais aqui).
Isso supostamente não poderia acontecer - ou pelo menos não tão rápido - na ausência de estímulos fiscais e monetários. Mas em quem você vai acreditar: em Paul Krugman ou nos seus próprios olhos?
Naturalmente, alguns economistas modernos que analisaram o assunto ficaram estupefatos. Como pode ter ocorrido uma recuperação econômica na ausência de suas estimadas propostas? Robert Gordon, um keynesiano, admite que "as políticas governamentais para moderar a depressão e acelerar a recuperação foram mínimas. As autoridades do Federal Reserve foram amplamente passivas. ... Apesar da ausência de uma política governamental de estímulo, a recuperação não demorou." Kenneth Weiher, um historiador econômico, observa que "não obstante a severidade da contração, o Fed não utilizou seus poderes para aumentar a oferta a monetária e lutar contra a contração." Daí ele rapidamente concede que "a economia recuperou-se rapidamente da depressão de 1920-1921 e adentrou um período de crescimento bastante vigoroso." Porém (assim como a maioria desses historiadores), ele prefere não se estender muito nesse fenômeno e nem extrair dele qualquer aprendizado.
Na realidade, Weiher, com ares superiores, diz que "isso foi em 1921, muito antes do conceito de política anticíclica ser aceito ou mesmo compreendido". Hum... sim, e desprovida destas ferramentas 'indispensáveis', a economia americana recuperou-se mesmo assim.
O leitor provavelmente já notou que as recomendações e as ações de Harding são exatamente opostas à sabedoria convencional reinante nos círculos políticos, midiáticos e acadêmicos de hoje. "O governo precisa fazer algo!", gritam todos. Obama, o líder da turma, disse que declínios econômicos degeneram-se em depressões duradouras porque os governos deixam de agir com o vigor suficiente para impedi-los.
Não se trata de uma mera coincidência que a economia tenha retornado à normalidade de modo relativamente rápido após a depressão de 1920, ao passo que, diferentemente desta, as condições depressivas persistiram durante toda a década de 1930, uma década de intenso ativismo governamental. Foi exatamente porque medidas de estímulos fiscais e monetários não foram tentadas, que a recuperação e o posterior e sólido progresso econômico ocorreram no início dos anos 1920. E essa foi a última vez que um governo se absteve de intervir na economia em épocas de recessão.
A ideia de que estímulos fiscais e monetários são necessários para se curar uma depressão advém de um diagnóstico equivocado das causas das depressões econômicas. Consequentemente, os remédios ministrados são completamente errados. Por exemplo, a causa da recessão não é a ocorrência de um nível inadequado de gastos, mas sim o fato de que, no rastro de uma expansão econômica artificial induzida pelo banco central, a estrutura do capital fica em desacordo com as demandas dos consumidores. A recessão é o período em que esse descompasso é retificado através da realocação do capital para empreendimentos mais apropriados. Estímulos fiscais e monetários irão apenas interferir nesse rearranjo, atrasando esse processo de limpeza (dos investimentos errados) e reajuste (da estrutura do capital).
Harding, ao contrário da classe política atual, de fato entedia isso. Desta forma, um dos mais odiados presidentes do século XX permitiu que os EUA enfrentassem uma recessão bem pior do que a atual pela qual estamos passando simplesmente deixando que o livre mercado fizesse os ajustamentos necessários. E Harding, como seus comentários indicam, seguiu sua política de não fazer nada não por uma questão de inércia ou por ser incapaz de conceber abordagens alternativas; essa figura menosprezada era de fato um economista muito melhor do que a maioria dos gênios que presunçosamente querem nos instruir atualmente.
Atualmente, políticos de todos os cantos do mundo insistem que devemos aprender as lições da história - e de fato há lições para serem aprendidas. Mas para o estado e seus intelectuais comprados, a história é um mero instrumento a ser colocado a serviço das propagandas exigidas pelo momento, e não uma fonte imparcial de sabedoria ou instrução.
É por isso que observar o desenvolvimento dos eventos atuais é como observar um trem indo vagarosamente para o precipício. Você sabe que vai acabar em desastre, mas você é incapaz de fazer algo para pará-lo. Sabemos que os políticos não irão aprender absolutamente nenhuma lição econômica que a história venha a ensinar. Mas se eles não irão aprendê-las, nós teremos de. Nem que seja para nos prepararmos para o desastre vindouro.
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Thomas E. Woods
A economia da tragédia
por Thomas Woods, terça-feira, 10 de março de 2009
Os pacotes de estímulo e outras intervenções governamentais seguem sendo implantadas a um ritmo alucinante em todo o mundo. Os gênios que nos governam insistem em crer que confiscar a riqueza produzida pela economia voluntária e redirecioná-la para projetos arbitrários irá fazer com que todos fiquem mais ricos.
Infelizmente, grande parte daqueles que criticam essas medidas preferiu atacar a qualidade ou a "eficiência" (como se isso fosse possível) dos gastos públicos. Com argumentos assim, a estatização do mundo estará completa em dois anos.
A principal falácia desse modo trágico de pensar a economia é a própria idéia de que a saúde da economia é produto dos gastos governamentais, os quais são financiados tanto por empréstimos contraídos pelo governo (o que deixa ao setor privado uma menor fatia do conjunto total da poupança disponível para mais empréstimos), ou pela simples e irrestrita impressão de dinheiro, ou pelo confisco direto da população (impostos). Sempre que o governo gasta dinheiro em alguma coisa, tanto o volume do gasto como o seu destino serão necessariamente arbitrários, pois o governo não segue o mesmo mecanismo de lucros e prejuízos que impede o setor privado de desperdiçar recursos e de empregar seus fatores de produção de maneira tal que não atenda os desejos dos consumidores. O governo pode confiscar os recursos das pessoas sem o consentimento delas, e não faz diferença para o governo se as pessoas querem ou não - ou se elas irão ou não - utilizar as coisas que ele irá produzir. Enquanto isso, a economia fica sem os bens que teriam sido produzidos pelo setor voluntário caso o governo não tivesse confiscado esses recursos para seu próprio uso.
Os keynesianos mais sofisticados - perdão pelo paradoxo - irão reagir dizendo que, embora eles de fato concordem com esse argumento para a situação em que a economia está vivenciando um "pleno emprego", seu ponto não é válido para quando há "recursos ociosos". Nesse caso, dizem eles, pode-se "estimular" esses recursos ociosos, colocando-os em ação sem que isso esteja retirando recursos de outros empregos, já que esses recursos ociosos atualmente não possuem nenhum emprego alternativo.
Boa tentativa. Mas não importa quais sejam os projetos que os sábios planejadores inventem para empregar esses "recursos ociosos", eles estarão inevitavelmente retirando recursos complementares de empregos alternativos que são mais urgentemente desejados do que qualquer projeto inventado pelo governo. Vários recursos correntemente utilizados serão inevitavelmente retirados de seus empregos atuais a fim de se estimular os "recursos ociosos". Portanto, o argumento dos "recursos ociosos" realmente não consegue se esquivar do problema do custo de oportunidade. (Para uma refutação mais completa, veja este artigo).
Além disso, os proponentes desse tipo de estímulo mostram uma notável falta de interesse em saber por que estes "recursos ociosos" estão de fato ociosos. Eles estão ociosos por causa de erros de cálculo empreendedorial cometidos na fase da expansão econômica. E o que pode ter causado esses erros sistêmicos de cálculo? Seria a manipulação das taxas de juros feita pelos bancos centrais, o que leva os investidores a fazer estimações incorretas sobre a lucratividade dos empreendimentos, provocando assim expansões econômicas artificiais? F.A. Hayek ganhou o Prêmio Nobel em 1974 por explicar - trabalhando em cima dos ensinamentos de Mises - como isso ocorre.
Imagine uma cidade. Agora imagine que um circo venha para essa cidade fazer apresentações por algumas semanas. O dono de um restaurante poderá expandir sua capacidade na falsa esperança de que o circo e o concomitante aumento na demanda por sua comida que tal evento irá acarretar irão durar para sempre. Mas quando o circo encerrar suas apresentações na cidade, esse dono de restaurante perceberá que está com "recursos ociosos" em suas mãos. Nesse cenário, não devemos tentar inventar maneiras de se empregar esses recursos ociosos. Se fizermos isso, estaríamos apenas retirando mão-de-obra e outros recursos de outros setores da economia, onde eles estão correntemente empregados de modo a melhor satisfazer a demanda real dos consumidores. O fato é que a expansão desse restaurante jamais deveria ter ocorrido. Por isso, o certo é deixar que essa bolha ocorrida murche de volta para seu tamanho anterior, o que irá liberar recursos e permitir que outras atividades da economia - atividades que não sejam bolhas - possam correspondentemente se fortalecer. (É preciso entender que os recursos de uma economia não são infinitos. Por isso eles precisam ser liberados de alguns setores para poderem ser utilizados por outros setores. Veja mais aqui).
Após o estouro da bolha econômica - bolha essa gerada por um crescimento econômico insustentável criado pela expansão monetária feita pelo banco central - a economia de mercado e seu sistema de preços, se deixados livres, irão adotar um novo arranjo de recursos que irá empregar os fatores de produção disponíveis de modo que eles produzam os bens e serviços que correspondam à real demanda dos consumidores. Durante essa recessão (rearranjo econômico), indivíduos interagindo livremente dentro do mercado irão classificar quais projetos e empreendimentos em andamento são sólidos e sustentáveis, e quais são apenas bolhas incapazes de se manter sem um constante e artificial aumento na oferta monetária, e que por isso não podem (e nem devem) sobreviver agora que realidade se reafirmou.
Foi isso que deixaram o mercado fazer durante a já esquecida depressão americana de 1920-1921. Ao invés de criar um pacote de "estímulo fiscal", o governo cortou seu orçamento. O Fed (o banco central americano), por sua vez, não fez nada. Enquanto isso, a economia pôde limpar os investimentos erroneamente empreendidos durante o falso crescimento econômico ocorrido nos anos anteriores (anos da Primeira Guerra Mundial), possibilitando assim uma robusta recuperação econômica (Ver mais aqui).
Nos EUA atual, o boom artificial ocorrido no mercado imobiliário fez com que os americanos se sentissem mais ricos do que de fato eram. Como resultado, eles consumiram mais do que teriam consumido caso essa bolha imobiliária, totalmente criada pela expansão monetária promovida pelo Fed, não tivesse distorcido seu discernimento sobre o real valor de seu patrimônio líquido. Os americanos compraram mais imóveis do que poderiam bancar, e por causa da aparentemente infinita apreciação desses imóveis (causada pelo estímulo creditício fornecido pelo Fed), os americanos podiam renegociar suas hipotecas e sair comprando mais bens de consumo. E eles compraram mais bens - e só agora perceberam isso - do que deveriam ter comprado. O que a economia americana precisa agora, portanto, não é de mais "gastos" per se. Gastos e endividamentos excessivos causaram o problema inicial. Os americanos estão com mais dívidas do que podem pagar - o que significa que calotes nos cartões de crédito irão gerar uma nova rodada de socorros financeiros.
Agora me expliquem: como é que mais "gastos" irão resolver esse problema?
Foi em parte por causa disso que a taxa de poupança dos americanos atingiu, nos últimos anos, a taxa mais baixa da história. Poupar parecia algo supérfluo. Afinal, eles possuíam um ativo que garantidamente iria se apreciar constantemente. Foi isso, aliás, que os especialistas lhes disseram. Os próprios economistas do Fed, formados e com titulações nas melhores universidades da área, garantiram que o aumento dramático ocorrido nos preços dos imóveis não era uma bolha insustentável que inevitavelmente estouraria. Tratava-se de um aumento sustentável baseado em fatores reais.
Oops!
Uma economia que se baseava no endividamento e no consumo excessivo não deve ser "estimulada" para voltar a ser assim. Ela deve ser re-estruturada seguindo-se diretivas sustentáveis.
Por exemplo, só agora a população americana está percebendo que o modelo adotado pela rede Starbucks - que tinha uma loja em cada esquina - era de fato uma bolha. Com o estouro da bolha imobiliária, as pessoas puderam fazer uma estimativa mais acurada de seu real nível de riqueza. Consequentemente, elas agora estão menos dispostas a pagar $5 por um copo de café - ou $6 por uma casquinha de sorvete, como estava ocorrendo na hoje moribunda rede Cold Stone Creamery. Estes agora são recursos que precisam ser liberados para que outras empresas que estejam fazendo empreendimentos genuínos, empreendimentos que não são resultantes de bolhas, possam se fortalecer e, com isso, acelerar a recuperação econômica.
Em uma recente coletiva, o presidente Barack Obama citou o caso do Japão como evidência para seu argumento a favor dos estímulos. O presidente precisa urgentemente trocar seus assessores econômicos, pois a verdade é outra: o Japão fez exatamente aquilo que o governo americano já fez e segue ameaçando fazer com ainda mais intensidade - e não obteve resultado algum. Desde uma estatização parcial do sistema bancário até pacotes de "estímulo" totalizando trilhões de ienes, desde socorros financeiros a empresas zumbis até o corte da taxa básica de juros para zero, eles tentaram de tudo. (Leia um relato completo sobre o que foi feito no Japão aqui).
Naturalmente, a resposta keynesiana é que o Japão simplesmente não gastou o suficiente. Hein? Graças aos pacotes - incorretamente classificados como "estímulo" - que o governo japonês impôs sobre seu povo, o Japão é hoje o país mais endividado do mundo desenvolvido. Assim sendo, será que se tornar o país mais endividado do mundo desenvolvido - e isso é um grande feito - ainda não significa "gastos suficientes" para os keynesianos?
O que seria suficiente, então? Um quatrilhão de dólares? Um googol de dólares? Infinito menos um dólar? Realmente gostaria muito de saber qual a cifra para um pacote de "estímulo" que faria um keynesiano dizer, "Bom, agora esse valor já é demais!"
Se há algum consolo nessa crise, é que cada vez mais pessoas estão percebendo que a chamada opinião respeitável está totalmente errada, e há muito tempo. A profissão econômica, em sua grande maioria, se constrangeu a si própria com um keynesianismo tão rude, que sequer conseguiria convencer um aluno de sexta série. Aqueles que eram propagados como grandes especialistas, que foram incapazes de ver os sinais evidentes da crise e que não têm idéia de como ela ocorreu - "as pessoas incorreram em riscos excessivos!", dizem eles, em uma não-explicação que simplesmente foge da pergunta - não têm a mínima idéia de como solucioná-la.
Foi por isso que escrevi meu novo livro Meltdown, que fornece um panorama de livre mercado sobre o que causou o problema, onde a economia se encontra agora e como sair da crise. As pessoas estão prontas para ouvir idéias racionais e previamente negligenciadas, principalmente se as pessoas que as defendem foram as que previram a atual crise - como de fato os economistas seguidores da Escola Austríaca o fizeram. Depende de nós levar a elas essas idéias.
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Thomas E. Woods
Verdade e Caridade - ou, o que é realmente a ciência econômica
por Thomas Woods, sexta-feira, 14 de agosto de 2009
"Papa clama por governo global", diziam as manchetes no início de julho. E então, assim como a noite se segue ao dia, os defensores conservadores do Papa se prontificaram a condenar a mídia por estar distorcendo o que o Papa quis dizer . Esses malditos liberais - como se atrevem a distorcer as palavras do Pontífice dessa forma?
Não é exatamente a primeira vez que esse tipo de coisa acontece. O padrão, ao longo das últimas décadas, tem sido este: a mídia descreve de maneira relativamente correta algo que o Papa disse ou fez, e então seus defensores conservadores - ansiosos para justificar tais declarações ou gestos atípicos - inventam explicações pra lá de convolutas, na esperança de convencer as pessoas de que o Papa realmente quis dizer outra coisa.
Vale a pena reproduzir a passagem relevante da nova encíclica papal, Caritas in Veritate:
Na realidade, eu nem queria escrever nada sobre essa encíclica papal. Em 2007, escrevei um livro, Sacred Then and Sacred Now: The Return of the Old Latin Mass, em defesa do ato papal que reinstituiu a tradicional missa em latim, uma área na qual Bento XVI é profundamente versado e tem muitas coisas valorosas a dizer. Eu gosto do atual Papa. Ele é esperto e sério, e não é frívolo nem vaidoso. Ele representa, de várias maneiras, uma melhora substancial em relação ao seu antecessor. (E cito como evidência o fato de que a mídia pensa exatamente o contrário). E tendo sido violentamente vituperado e ridicularizado por algumas pessoas extremamente desprezíveis, ele certamente tem todos os inimigos que uma pessoa correta deve ter.
Relutantemente acabei cedendo à insistência de alguns poucos correlatos e escrevi alguns pensamentos. Então aqui vão eles: Caritas in Veritate me pareceu, na melhor das hipóteses, uma reformulação relativamente desinteressante de alguns temas familiares contidos nas encíclicas sociais anteriores. Na pior das hipóteses, ela é embaraçosamente ingênua, e suas recomendações políticas não irão atrair ninguém para Igreja - ao contrário, certamente irão repelir.
A resposta à encíclica da parte de todos os católicos que se encontram à direita foi tristemente previsível: com poucas exceções, foi uma performance digna do Politburo soviético, repleta de oba-obas desenfreados.
Uma coisa é receber uma declaração do Papa com o respeito que é devido ao homem e ao seu cargo. Outra coisa, bem diferente, é tratar cada uma de suas missivas como ipso facto brilhantes, como se a fé católica dependesse disso. Se seus defensores estão ansiosos para dar razão à esquerda, que vive dizendo que o catolicismo é um culto de um bilhão de pessoas, dificilmente poderiam ter feito um trabalho melhor.
faz uma distinção entre aqueles aspectos da economia sobre os quais o
Papa - na sua função de instrutor de questões de fé e moral - está
perfeitamente equipado para palpitar, e aqueles que não. Vou repetir
aqui essa tese como prelúdio para os meus comentários.
Os fenômenos estudados pela ciência econômica - os quais incluem dinheiro, sistema bancário, preços, salários, teoria do monopólio e vários outros tópicos - estão repletos de implicações morais. Porém, declarações concretas e científicas sobre esses fenômenos que constituem a disciplina da ciência econômica são necessariamente de valor neutro. (Por "científico" me refiro unicamente ao fato de que as declarações envolvem relações de causa e efeito; em momento algum estou dizendo que a economia se assemelha às ciências físicas). Descrever o funcionamento do sistema bancário de reservas fracionárias é uma tarefa positiva (de caráter prático), e não uma normativa. Agora, discutir se tal sistema é desejável já é uma tarefa normativa, e qualitativamente separada da explicação da mecânica desse sistema. Uma pessoa não pode fazer um comentário inteligente sobre questões normativas caso ela não entenda as questões mecânicas do sistema. E é apenas com esse último aspecto que a ciência econômica lida. Repetindo: a ciência econômica é positiva, e não normativa. Ela não faz juízo de valor.
Da mesma forma, uma política econômica pode possuir uma dimensão moral, mas não há uma única afirmação da teoria econômica que tenha alguma pretensão moral. Por exemplo, Frank Knight imaginou o capital como sendo uma unidade homogênea cujos processos individuais ocorrem de modo sincronizado. Sendo assim, o capital poderia ser entendido sem que se introduzisse o fator tempo na teoria do capital. Já F.A. Hayek, bem como a Escola Austríaca de economia à qual Hayek pertencia, concebe o capital como sendo uma série temporal de etapas de produção. Nessa série, há etapas de ordens mais altas e etapas de ordens mais baixas, sendo que as etapas de ordem mais alta são aquelas que estão mais distantes do consumidor final (mineração e matérias-primas, por exemplo) e a etapa de ordem mais baixa é aquele que vem imediatamente antes da venda do produto final. [Para entender tudo sobre esse processo, um dos itens mais importantes da teoria econômica, e que explica o mecanismo dos ciclos econômicos, veja esse excelente PowerPoint em português].
Não há nada em termos de fé religiosa que sequer chegue perto de decidir se essa e outras incontáveis (e importantes) questões econômicas são as mais corretas ou não. Nem mesmo a mais incompreensiva ou exagerada atribuição de infalibilidade papal poderia permitir ao Papa deliberar controvérsias como essas. Entretanto, confusão e ignorância acerca de tais aparentemente abstrusos pontos abundam no núcleo das recomendações políticas que as conferências episcopais propõem e as encíclicas papais podem aparentemente sugerir.
Obviamente, não se trata de "dissidência" meramente dizer que as relações de causa e efeito que constituem o edifício teórico da ciência econômica não são uma questão de fé e moral. Elas simplesmente não estão dentro do escopo de assuntos sobre os quais um prelado católico é dotado de autoridade ou discernimento especiais. Os católicos não podem fazer petições contra elas, pois elas são fatos da vida. E fatos não podem ser contestados, desafiados ou repreendidos; tudo o que podemos fazer é aprender e agir de acordo com eles. De nada adianta cerrar os punhos e protestar contra o fato de que o controle de preços gera escassez de produtos. Tudo o que podemos fazer é compreender o fenômeno, e certificarmo-nos de ter essa e outras verdades econômicas em mente se quisermos fazer declarações econômicas racionais e proveitosas.
Ademais, aqueles que posam de defensores da doutrina social católica geralmente não reconhecem que as propostas que defendem implícita ou explicitamente podem trazer apenas conseqüências desfavoráveis para todos. Nessas propostas, não se considera, por exemplo, que haja uma troca, um equilíbrio, entre maiores salários e desemprego. Naturalmente, nenhum espaço para objeções pode existir quando a própria possibilidade da objeção é excluída pelo modo como o argumento é moldado: por exemplo, segundo essas pessoas, se queremos maiores salários, então simplesmente devemos exigir maiores salários. Qualquer um que não faça coro a essa exigência é porque não deve estar querendo maiores salários. Isso, obviamente, é uma ignorância econômica. Afinal, salários maiores não podem ser produzidos por simples decretos, mas, sim, por meio da acumulação de capital. E essa é precisamente a questão.
Por exemplo, a ideia de um "salário-mínimo digno" para os chefes de família é um exemplo de uma política que eu instituiria apenas se, (1) eu não soubesse quais são os fatores que fazem com que os salários reais aumentem por conta própria, sem o uso da coerção; ou (2) eu quisesse prejudicar as pessoas, tornando-as menos empregáveis. (Por que não oferecer um salário mínimo de $100.000.000 por mês, já que é tão fácil aumentar salários por meio de decretos?) Não tenho aqui o espaço para me alongar nesse quesito, de modo que peço aos leitores interessados que consultem meu capítulo sobre o assunto em um livro chamado Catholic Social Teaching and the Market Economy, publicado em 2007 pelo Institute of Economic Affairs de Londres e disponível para download gratuito.
Certamente é possível - conquanto bastante improvável - que um católico contra-argumente da seguinte forma: "A Igreja insiste que o salário mínimo (e tudo o mais) deve ser instituído porque a justiça exige que assim o seja, mesmo sabendo que tal ato irá fazer com que as pessoas, principalmente aquelas que tal política tenciona ajudar, acabem ficando materialmente piores". Entretanto, jamais vi algum documento eclesiástico assumindo essa posição. Esses documentos são eivados da suposição de que suas sugestões irão atingir os fins declarados e aumentar o bem-estar das pessoas. Essa suposição, por sua vez, sugere que o único obstáculo entre o presente e um futuro mais próspero é aquilo que chamam de "vontade política" - e não as restrições impostas pela própria natureza das coisas.
Novamente, é uma questão de ignorância econômica declarar que, se a autoridade falou, a questão acabou - afinal, o que está em jogo é saber se esses assuntos são de uma natureza de tal modo qualitativa que os permita ser suscetíveis a resoluções eclesiásticas. Por exemplo, se a lei dos retornos marginais é um fato objetivo da natureza (e é), então o Papa não pode declarar que tal lei é falsa, ou esperar que políticas que ignorem tal lei irão obter algum êxito. Seria o mesmo que esperar que ele pudesse modelar um círculo quadrado. Não é nenhum insulto à autoridade papal negar a sua capacidade de moldar círculos quadrados. (Aliás - deixando de lado a famosa e quase sempre mal interpretada divergência de São Pedro Damião -, o consenso entre os escolásticos, antes do triunfo do nominalismo, era que nem o próprio Deus poderia violar a lei da não-contradição - por exemplo, criando um círculo quadrado).
Uma coisa, por exemplo, é identificar o bem-estar da família como sendo um importante ingrediente de uma sociedade saudável. Outra coisa, bem diferente, é propor medidas políticas planejadas especificamente para ajudar as famílias. Afinal, saber se essas políticas irão gerar os efeitos intencionados é algo que envolve uma análise causal. E uma análise causal - e isso deveria ser desnecessário enfatizar - é analiticamente separada de questões de fé e moral.
A encíclica Populorum Progressio
(1967) do Papa Paulo VI, por exemplo, foi além das observações morais
que se pode fazer sobre o desenvolvimento do Terceiro Mundo e passou a
de fato sugerir recomendações políticas, colocando dessa forma os
católicos na injusta posição de aparentar "dissidência" em relação ao
Papa ao proporem alternativas. Peter Bauer,
o profético economista que alertou durante décadas sobre os efeitos
perniciosos que os programas de ajuda internacional teriam sobre as
nações do Terceiro Mundo, observou que não havia nada de particularmente
católico, ou mesmo cristão, na encíclica, e que ela estava meramente
repetindo, com algumas nuanças religiosas, o pensamento convencional.
Hoje sabemos o quão desastrosas foram as recomendações da Populorum: as ajudas internacionais fortificaram os piores regimes políticos , atrasaram indefinidamente as reformas necessárias e destroçaram dezenas de países, com vários grupos étnicos e raciais recorrendo à violência para tentar se apropriar de parte do dinheiro das ajudas internacionais. A própria ideia da ajuda internacional introduziu incentivos perversos a essas sociedades; tornou-se insensato criar coisas que satisfizessem os desejos de seus conterrâneos, pois era mais racional dedicar esforços improdutivos para fazer campanhas que lhe garantissem mais dinheiro externo. Por outro lado, Hong Kong, Chile e Coréia do Sul só se tornaram prósperos depois que a ajuda internacional foi interrompida e eles foram forçados a adotar políticas econômicas racionais e sensatas.
Paulo VI também adotou a badalada tese de Raul Prebisch e Hans Singer que dizia que uma deterioração secular dos termos de troca entre o mundo desenvolvido e o mundo em desenvolvimento - sempre em detrimento deste último - era uma inevitabilidade, pois havia a suposta tendência de os preços dos bens manufaturados (especialidade dos países desenvolvidos) subirem e, ao mesmo tempo, os preços das commodities (especialidade dos países em desenvolvimento) caírem. Entretanto, essa suposta deterioração dos termos de troca nunca ocorreu, como o economista Gottfried Haberler já vinha argumentando dez anos antes da Populorum Progressio, se alguém se deu ao trabalho de escutar. Entretanto, foi baseando-se nessa tese errônea que Paulo VI condenou o livre comércio, negando que este fosse um caminho para a prosperidade do mundo em desenvolvimento. (Curiosamente, hoje são os países desenvolvidos que condenam o livre comércio, argumentando que ele é prejudicial para os países ricos e benéfico para os países pobres). Os países que seguiram a tese Prebisch/Singer ficaram muito atrás daqueles que se integraram à divisão internacional do trabalho. Não há como negar isso.
Teria sido uma "dissidência" dizer que o erro factual do Papa acerca dos termos de troca era realmente um erro factual? Seria "dissidência" ter apontado que essas recomendações não lograriam o efeito a que se propunham? Deveríamos acreditar que a autoridade papal sobre assuntos de fé e moral se estende também a análises de causa e efeito aplicadas a programas de ajuda internacional? Essas perguntas se respondem a si próprias.
Após a publicação da nova encíclica, deparei-me com algumas referências depreciativas feitas por católicos conservadores à Populorum Progressio de Paulo VI, contra a qual esses críticos (bem implausivelmente, na minha opinião) desejavam contrastar a mais sóbria e sensata Caritas in Veritate. O interessante é que não me lembro de nenhum desses críticos, alguns dos quais estavam vivos durante o pontificado de Paulo VI, oferecer tais comentários à época. Se os conselhos da Populorum eram imponderados a ponto de terem sido completamente refutados pela experiência já em 2009, então eles ao menos estavam abertos para discussão em 1967. Onde estava essa discussão? Por que a Populorum está sendo criticamente examinada apenas agora, após todo o estrago que ela fez?
Repito: somente o mais desavisado ou supersticioso católico poderia pensar que a autoridade papal sobre questões de fé e moral garantem a ele algum tipo de discernimento mágico acerca do melhor modelo a ser adotado para o desenvolvimento do Terceiro Mundo. Fosse isso verdade, então a ciência econômica em geral e as teorias do desenvolvimento em particular deveriam ser abandonadas imediatamente, uma vez que simples consultas ao Papa forneceriam todas as respostas necessárias.
É por isso que o Papa Leão XIII certa vez declarou,
Se essas questões morais lhe interessam, sugiro o brilhante trabalho de Jörg Guido Hülsmann, The Ethics of Money Production, ou meu já citado livro The Church and the Market. (O primeiro título foi recebido com grande entusiasmo por Paul Likoudis, da revista The Wanderer, um bom homem que eu classificaria como um redistribucionista da terceira via, o que significa que o apelo do livro se estende para muito além dos tradicionais círculos misesianos).
Hülsmann mostra que, dentro da tradição católica, há um amplo testemunho das perversidades causadas pela desvalorização monetária, pelo sistema bancário de reservas fracionárias, e por várias outras instituições rotineiras das quais raramente nos lembramos. Como argumenta Hülsmann, é impossível haver qualquer defesa moral ou econômica do sistema monetário sob o qual somos forçados a viver - um sistema que jamais foi introduzido voluntariamente, mas que sempre foi impingido e aplicado coercivamente, com a polícia apoderada e autorizada a suprimir todas as formas alternativas. A insidiosa natureza do monopólio estatal da moeda se torna extremamente clara quando a moeda se degenera em hiperinflação, sendo que todos os exemplos disso ocorreram exatamente sob sistemas de papel-moeda monopolizado pelo estado. Tal sistema monetário, completamente gerido pelo estado, está tão distante de um livre mercado quanto se possa imaginar.
O sistema monetário mundial atual envolve bancos centrais que, sob privilégios garantidos pelos respectivos governos, não apenas detêm o monopólio da criação de papel-moeda de curso forçado, como também possuem a função de proteger um cartel de bancos comerciais, tanto privados quanto estatais. A contínua desvalorização monetária que tais bancos centrais executam conjuntamente impossibilita que as pessoas possam poupar para o futuro sem que tenham de recorrer a algum tipo de atividade especulativa. Por outro lado, um sistema monetário sólido, do tipo padrão-ouro, permitia ao indivíduo comum poupar para sua vida futura simplesmente acumulando moedas de metais preciosos, as quais, durante a época em que serviram como dinheiro, mantinham ou até mesmo aumentavam seu poder de compra ao longo do tempo. Quem hoje em dia é louco o suficiente para poupar apenas estocando papel-moeda fiduciário? Os indivíduos mais vulneráveis de uma sociedade precisam ou entrar no mercado financeiro ou assumir outros tipos de risco apenas para manter sua atual riqueza. Isso não seria uma questão moral?
O atual sistema monetário é o responsável pela criação dos ciclos econômicos, os quais ocorrem quando o governo tenta manipular as taxas de juros para níveis abaixo do seu valor de livre mercado. A descoordenação resultante dentro da estrutura de produção coloca a economia em um caminho no qual ela não pode se manter indefinidamente. A inevitável recessão, quando chega, leva distúrbio e aflição a milhares de famílias, e inevitavelmente estimula o mais desprezível e predatório dos comportamentos empresariais: a procura por socorro governamental.
Um banco central monopolista institucionaliza o problema do risco moral. Não há qualquer limitação física para a criação de papel-moeda adicional. Por essa razão, os grandes agentes de mercado sabem que não há restrições físicas que possam impedir seu salvamento em situações emergenciais. O único obstáculo, facilmente dominado, é a vontade política. Já deveria estar mais do que óbvio como um sistema como esse promove um nível artificialmente elevado de tolerância ao risco e beneficia os privilegiados em detrimento do cidadão comum.
Todos esses argumentos, além de vários outros, são desenvolvidos em maiores detalhes no livro de Hülsmann e nos meus Meltdown e The Church and the Market. A encíclica infelizmente negligencia esses problemas morais em detrimento de alertas triviais sobre materialismo e cobiça, os quais podemos encontrar fartamente nas publicações seculares de qualquer veículo de comunicação. Tivesse o Papa abordado as sérias questões morais que delineei aqui, ele teria emprestado seu prestígio ao início de um muito necessário questionamento das práticas financeiras que há muito aceitamos como naturais. Ao invés disso - e muito embora Bento XVI certamente não tenha pensado dessa forma - a encíclica acabou dizendo aos que detêm o poder exatamente aquilo que queriam ouvir: materialismo e cobiça precisam ser disciplinados pelos planejadores econômicos. (Quis custodiet ipsos custodes?, alguém pode pensar). Em outras palavras, a lamentavelmente convencional recomendação contida em Caritas in Veritate parece ser mais regulação do sistema já existente.
Ademais, como esses fatores institucionais são negligenciados, falta à encíclica qualquer tipo de compreensão sistemática dos ciclos econômicos, os quais por clara implicação o leitor é levado a crer serem causados pela soma agregada de atos individuais de malícia. A questão fundamental - a saber, por que esses atos de malícia ocorrem todos repentinamente, formando um conjunto agregado de erros que perpassa toda a economia - não é levantada.
Aos católicos, resta a pergunta: o que fazer? Não há necessidade de fornecer evidências ainda mais contundentes para o fato de que o Papa não é (e nunca pensou ser) um monarca absolutista cujos pronunciamentos devem ser todos saudados com bajulações servis. Qualquer católico instruído sabe disso. Durante grande parte da vasta história da Igreja, o culto à personalidade - vamos chamar pelo nome certo - que rodeou o Papa João Paulo II seria considerado pelos católicos como algo absolutamente bizarro.
São Tomás de Aquino afirmava que um leigo podia repreender seu prelado, mesmo em público, caso este praticasse alguma desonra. Sob o tópico "Se um homem tem a obrigação de corrigir seu prelado", São Tomás escreve: "Deve ser observado, entretanto, que, se a fé for posta em perigo, um discípulo tem de repreender seu prelado até mesmo publicamente. Desta forma, Paulo, que era discípulo de Pedro, repreendeu-o em público, por causa do perigo iminente de desonra em relação à fé".
Novamente, eu gosto de Bento XVI, e creio que ele fez mudanças importantes, e para melhor, na vida da Igreja. Mas certas passagens essenciais de Caritas in Veritate, além de serem inúteis ou inadequadas, erigem obstáculos gratuitos à conversão de parte dos incontáveis protestantes e outros não-católicos. Se a argumentação de São Tomás não se aplica a esse caso, a qual outro se aplicaria?
"Papa clama por governo global", diziam as manchetes no início de julho. E então, assim como a noite se segue ao dia, os defensores conservadores do Papa se prontificaram a condenar a mídia por estar distorcendo o que o Papa quis dizer . Esses malditos liberais - como se atrevem a distorcer as palavras do Pontífice dessa forma?
Não é exatamente a primeira vez que esse tipo de coisa acontece. O padrão, ao longo das últimas décadas, tem sido este: a mídia descreve de maneira relativamente correta algo que o Papa disse ou fez, e então seus defensores conservadores - ansiosos para justificar tais declarações ou gestos atípicos - inventam explicações pra lá de convolutas, na esperança de convencer as pessoas de que o Papa realmente quis dizer outra coisa.
Vale a pena reproduzir a passagem relevante da nova encíclica papal, Caritas in Veritate:
Perante o crescimento incessante da interdependência mundial, sente-se a imensa - mesmo no meio de uma recessão igualmente mundial - urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitetura econômica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações. De igual modo, sente-se a urgência de encontrar formas inovadoras para implantar o princípio da responsabilidade de proteger e para atribuir também às nações mais pobres uma voz eficaz nas decisões comuns. Isto revela-se necessário precisamente no âmbito de um ordenamento político, jurídico e econômico que incremente e guie a colaboração internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos. Para governar a economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e em consequência maiores desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios urge a presença de uma verdadeira autoridade política mundial, delineada já pelo meu predecessor, o Beato João XXIII. A referida autoridade deverá ser regulada pela lei, ater-se coerentemente aos princípios de subsidiariedade e solidariedade, estar orientada para a consecução do bem comum, comprometer-se na realização de um autêntico desenvolvimento humano integral inspirado nos valores da caridade na verdade. Além disso, tal autoridade deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efetivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça e o respeito aos direitos. Obviamente, deve gozar da faculdade de fazer com que as partes respeitem as próprias decisões, bem como as medidas coordenadas e adotadas nos diversos fóruns internacionais. Sem isso, não obstante os grandes progressos realizados nos vários campos, o direito internacional correria o risco de ser condicionado pelos equilíbrios de poder entre os mais fortes. O desenvolvimento integral dos povos e a colaboração internacional exigem que seja instituído um grau superior de ordenamento internacional - marcado pela subsidiariedade - para o governo da globalização. Isto também exige a construção de uma ordem social que finalmente se conforme à ordem moral, à interligação entre as esferas moral e social, e ao elo entre a política e as esferas econômica e civil, como contemplado pelo Estatuto das Nações Unidas. [ênfases no original]O que quer que digamos dessa passagem, será que ela realmente está tão ininteligível de modo a confundir a mídia?
Na realidade, eu nem queria escrever nada sobre essa encíclica papal. Em 2007, escrevei um livro, Sacred Then and Sacred Now: The Return of the Old Latin Mass, em defesa do ato papal que reinstituiu a tradicional missa em latim, uma área na qual Bento XVI é profundamente versado e tem muitas coisas valorosas a dizer. Eu gosto do atual Papa. Ele é esperto e sério, e não é frívolo nem vaidoso. Ele representa, de várias maneiras, uma melhora substancial em relação ao seu antecessor. (E cito como evidência o fato de que a mídia pensa exatamente o contrário). E tendo sido violentamente vituperado e ridicularizado por algumas pessoas extremamente desprezíveis, ele certamente tem todos os inimigos que uma pessoa correta deve ter.
Relutantemente acabei cedendo à insistência de alguns poucos correlatos e escrevi alguns pensamentos. Então aqui vão eles: Caritas in Veritate me pareceu, na melhor das hipóteses, uma reformulação relativamente desinteressante de alguns temas familiares contidos nas encíclicas sociais anteriores. Na pior das hipóteses, ela é embaraçosamente ingênua, e suas recomendações políticas não irão atrair ninguém para Igreja - ao contrário, certamente irão repelir.
A resposta à encíclica da parte de todos os católicos que se encontram à direita foi tristemente previsível: com poucas exceções, foi uma performance digna do Politburo soviético, repleta de oba-obas desenfreados.
Uma coisa é receber uma declaração do Papa com o respeito que é devido ao homem e ao seu cargo. Outra coisa, bem diferente, é tratar cada uma de suas missivas como ipso facto brilhantes, como se a fé católica dependesse disso. Se seus defensores estão ansiosos para dar razão à esquerda, que vive dizendo que o catolicismo é um culto de um bilhão de pessoas, dificilmente poderiam ter feito um trabalho melhor.
O Papa Não é um Monarca Absolutista
Meu livro The Church and the Market: A Catholic Defense of the Free Economy Os fenômenos estudados pela ciência econômica - os quais incluem dinheiro, sistema bancário, preços, salários, teoria do monopólio e vários outros tópicos - estão repletos de implicações morais. Porém, declarações concretas e científicas sobre esses fenômenos que constituem a disciplina da ciência econômica são necessariamente de valor neutro. (Por "científico" me refiro unicamente ao fato de que as declarações envolvem relações de causa e efeito; em momento algum estou dizendo que a economia se assemelha às ciências físicas). Descrever o funcionamento do sistema bancário de reservas fracionárias é uma tarefa positiva (de caráter prático), e não uma normativa. Agora, discutir se tal sistema é desejável já é uma tarefa normativa, e qualitativamente separada da explicação da mecânica desse sistema. Uma pessoa não pode fazer um comentário inteligente sobre questões normativas caso ela não entenda as questões mecânicas do sistema. E é apenas com esse último aspecto que a ciência econômica lida. Repetindo: a ciência econômica é positiva, e não normativa. Ela não faz juízo de valor.
Da mesma forma, uma política econômica pode possuir uma dimensão moral, mas não há uma única afirmação da teoria econômica que tenha alguma pretensão moral. Por exemplo, Frank Knight imaginou o capital como sendo uma unidade homogênea cujos processos individuais ocorrem de modo sincronizado. Sendo assim, o capital poderia ser entendido sem que se introduzisse o fator tempo na teoria do capital. Já F.A. Hayek, bem como a Escola Austríaca de economia à qual Hayek pertencia, concebe o capital como sendo uma série temporal de etapas de produção. Nessa série, há etapas de ordens mais altas e etapas de ordens mais baixas, sendo que as etapas de ordem mais alta são aquelas que estão mais distantes do consumidor final (mineração e matérias-primas, por exemplo) e a etapa de ordem mais baixa é aquele que vem imediatamente antes da venda do produto final. [Para entender tudo sobre esse processo, um dos itens mais importantes da teoria econômica, e que explica o mecanismo dos ciclos econômicos, veja esse excelente PowerPoint em português].
Não há nada em termos de fé religiosa que sequer chegue perto de decidir se essa e outras incontáveis (e importantes) questões econômicas são as mais corretas ou não. Nem mesmo a mais incompreensiva ou exagerada atribuição de infalibilidade papal poderia permitir ao Papa deliberar controvérsias como essas. Entretanto, confusão e ignorância acerca de tais aparentemente abstrusos pontos abundam no núcleo das recomendações políticas que as conferências episcopais propõem e as encíclicas papais podem aparentemente sugerir.
Obviamente, não se trata de "dissidência" meramente dizer que as relações de causa e efeito que constituem o edifício teórico da ciência econômica não são uma questão de fé e moral. Elas simplesmente não estão dentro do escopo de assuntos sobre os quais um prelado católico é dotado de autoridade ou discernimento especiais. Os católicos não podem fazer petições contra elas, pois elas são fatos da vida. E fatos não podem ser contestados, desafiados ou repreendidos; tudo o que podemos fazer é aprender e agir de acordo com eles. De nada adianta cerrar os punhos e protestar contra o fato de que o controle de preços gera escassez de produtos. Tudo o que podemos fazer é compreender o fenômeno, e certificarmo-nos de ter essa e outras verdades econômicas em mente se quisermos fazer declarações econômicas racionais e proveitosas.
Ademais, aqueles que posam de defensores da doutrina social católica geralmente não reconhecem que as propostas que defendem implícita ou explicitamente podem trazer apenas conseqüências desfavoráveis para todos. Nessas propostas, não se considera, por exemplo, que haja uma troca, um equilíbrio, entre maiores salários e desemprego. Naturalmente, nenhum espaço para objeções pode existir quando a própria possibilidade da objeção é excluída pelo modo como o argumento é moldado: por exemplo, segundo essas pessoas, se queremos maiores salários, então simplesmente devemos exigir maiores salários. Qualquer um que não faça coro a essa exigência é porque não deve estar querendo maiores salários. Isso, obviamente, é uma ignorância econômica. Afinal, salários maiores não podem ser produzidos por simples decretos, mas, sim, por meio da acumulação de capital. E essa é precisamente a questão.
Por exemplo, a ideia de um "salário-mínimo digno" para os chefes de família é um exemplo de uma política que eu instituiria apenas se, (1) eu não soubesse quais são os fatores que fazem com que os salários reais aumentem por conta própria, sem o uso da coerção; ou (2) eu quisesse prejudicar as pessoas, tornando-as menos empregáveis. (Por que não oferecer um salário mínimo de $100.000.000 por mês, já que é tão fácil aumentar salários por meio de decretos?) Não tenho aqui o espaço para me alongar nesse quesito, de modo que peço aos leitores interessados que consultem meu capítulo sobre o assunto em um livro chamado Catholic Social Teaching and the Market Economy, publicado em 2007 pelo Institute of Economic Affairs de Londres e disponível para download gratuito.
Certamente é possível - conquanto bastante improvável - que um católico contra-argumente da seguinte forma: "A Igreja insiste que o salário mínimo (e tudo o mais) deve ser instituído porque a justiça exige que assim o seja, mesmo sabendo que tal ato irá fazer com que as pessoas, principalmente aquelas que tal política tenciona ajudar, acabem ficando materialmente piores". Entretanto, jamais vi algum documento eclesiástico assumindo essa posição. Esses documentos são eivados da suposição de que suas sugestões irão atingir os fins declarados e aumentar o bem-estar das pessoas. Essa suposição, por sua vez, sugere que o único obstáculo entre o presente e um futuro mais próspero é aquilo que chamam de "vontade política" - e não as restrições impostas pela própria natureza das coisas.
Novamente, é uma questão de ignorância econômica declarar que, se a autoridade falou, a questão acabou - afinal, o que está em jogo é saber se esses assuntos são de uma natureza de tal modo qualitativa que os permita ser suscetíveis a resoluções eclesiásticas. Por exemplo, se a lei dos retornos marginais é um fato objetivo da natureza (e é), então o Papa não pode declarar que tal lei é falsa, ou esperar que políticas que ignorem tal lei irão obter algum êxito. Seria o mesmo que esperar que ele pudesse modelar um círculo quadrado. Não é nenhum insulto à autoridade papal negar a sua capacidade de moldar círculos quadrados. (Aliás - deixando de lado a famosa e quase sempre mal interpretada divergência de São Pedro Damião -, o consenso entre os escolásticos, antes do triunfo do nominalismo, era que nem o próprio Deus poderia violar a lei da não-contradição - por exemplo, criando um círculo quadrado).
Uma coisa, por exemplo, é identificar o bem-estar da família como sendo um importante ingrediente de uma sociedade saudável. Outra coisa, bem diferente, é propor medidas políticas planejadas especificamente para ajudar as famílias. Afinal, saber se essas políticas irão gerar os efeitos intencionados é algo que envolve uma análise causal. E uma análise causal - e isso deveria ser desnecessário enfatizar - é analiticamente separada de questões de fé e moral.
A Recomendação do Papa Paulo VI para as Nações em Desenvolvimento
Hoje sabemos o quão desastrosas foram as recomendações da Populorum: as ajudas internacionais fortificaram os piores regimes políticos , atrasaram indefinidamente as reformas necessárias e destroçaram dezenas de países, com vários grupos étnicos e raciais recorrendo à violência para tentar se apropriar de parte do dinheiro das ajudas internacionais. A própria ideia da ajuda internacional introduziu incentivos perversos a essas sociedades; tornou-se insensato criar coisas que satisfizessem os desejos de seus conterrâneos, pois era mais racional dedicar esforços improdutivos para fazer campanhas que lhe garantissem mais dinheiro externo. Por outro lado, Hong Kong, Chile e Coréia do Sul só se tornaram prósperos depois que a ajuda internacional foi interrompida e eles foram forçados a adotar políticas econômicas racionais e sensatas.
Paulo VI também adotou a badalada tese de Raul Prebisch e Hans Singer que dizia que uma deterioração secular dos termos de troca entre o mundo desenvolvido e o mundo em desenvolvimento - sempre em detrimento deste último - era uma inevitabilidade, pois havia a suposta tendência de os preços dos bens manufaturados (especialidade dos países desenvolvidos) subirem e, ao mesmo tempo, os preços das commodities (especialidade dos países em desenvolvimento) caírem. Entretanto, essa suposta deterioração dos termos de troca nunca ocorreu, como o economista Gottfried Haberler já vinha argumentando dez anos antes da Populorum Progressio, se alguém se deu ao trabalho de escutar. Entretanto, foi baseando-se nessa tese errônea que Paulo VI condenou o livre comércio, negando que este fosse um caminho para a prosperidade do mundo em desenvolvimento. (Curiosamente, hoje são os países desenvolvidos que condenam o livre comércio, argumentando que ele é prejudicial para os países ricos e benéfico para os países pobres). Os países que seguiram a tese Prebisch/Singer ficaram muito atrás daqueles que se integraram à divisão internacional do trabalho. Não há como negar isso.
Teria sido uma "dissidência" dizer que o erro factual do Papa acerca dos termos de troca era realmente um erro factual? Seria "dissidência" ter apontado que essas recomendações não lograriam o efeito a que se propunham? Deveríamos acreditar que a autoridade papal sobre assuntos de fé e moral se estende também a análises de causa e efeito aplicadas a programas de ajuda internacional? Essas perguntas se respondem a si próprias.
O Papa Bento XVI a as Ajudas Internacionais
Já nos anos 1980 e 1990, o consenso entre os observadores de todo os
tipos era que Bauer estava certo e que tais programas haviam feito mais
mal do que bem. Mesmo os mais obstinados oponentes do bom senso, como o
The New York Times e o FMI, foram forçados a essa conclusão. E, ainda assim, em 2009, temos de ler o Papa Bento XVI em sua Caritas in Veritate:Na procura por soluções para a crise econômica atual, a ajuda ao desenvolvimento dos países pobres deve ser considerada como verdadeiro instrumento de criação de riqueza para todos. Que projeto de ajuda pode abrir perspectivas tão significativas para o crescimento - mesmo do ponto de vista da economia mundial - quanto o apoio a populações que ainda se encontram ainda numa fase inicial ou pouco avançada do seu processo de desenvolvimento econômico? Nesta linha, as nações economicamente mais desenvolvidas deveriam fazer o possível para destinar quotas maiores do seu produto interno bruto para as ajudas internacionais, respeitando dessa forma as obrigações às quais a comunidade internacional se comprometeu. [ênfases no original]Muito bem, serei direto: isso está errado em todos os seus aspectos. Por mais bem intencionado que o Papa esteja, ele está absolutamente errado. Os católicos podem expressar sua insatisfação com essas declarações de maneira respeitosa e não-impertinente, mas ficar em silêncio quanto a elas dá a falsa impressão de aceitação de propostas obviamente contestáveis.
Após a publicação da nova encíclica, deparei-me com algumas referências depreciativas feitas por católicos conservadores à Populorum Progressio de Paulo VI, contra a qual esses críticos (bem implausivelmente, na minha opinião) desejavam contrastar a mais sóbria e sensata Caritas in Veritate. O interessante é que não me lembro de nenhum desses críticos, alguns dos quais estavam vivos durante o pontificado de Paulo VI, oferecer tais comentários à época. Se os conselhos da Populorum eram imponderados a ponto de terem sido completamente refutados pela experiência já em 2009, então eles ao menos estavam abertos para discussão em 1967. Onde estava essa discussão? Por que a Populorum está sendo criticamente examinada apenas agora, após todo o estrago que ela fez?
Repito: somente o mais desavisado ou supersticioso católico poderia pensar que a autoridade papal sobre questões de fé e moral garantem a ele algum tipo de discernimento mágico acerca do melhor modelo a ser adotado para o desenvolvimento do Terceiro Mundo. Fosse isso verdade, então a ciência econômica em geral e as teorias do desenvolvimento em particular deveriam ser abandonadas imediatamente, uma vez que simples consultas ao Papa forneceriam todas as respostas necessárias.
É por isso que o Papa Leão XIII certa vez declarou,
Se eu tivesse de me pronunciar sobre qualquer aspecto de um problema econômico vigente, estaria interferindo na liberdade de os homens lidarem com seus próprios afazeres. Certos casos devem ser resolvidos no campo dos fatos, caso por caso, na medida em que vão ocorrendo.... [O]s homens precisam realizar tais afazeres através de suas próprias obras, tal princípio estando além de qualquer questionamento.... [E]ssas coisas devem ser solucionadas ao longo do tempo e da experiência.
Os Pecados da Omissão
Além de algumas outras declarações mais infelizes, Caritas in Veritate
também representa uma enorme perda de oportunidade. Há questões morais
legítimas a serem levantadas sobre os sistemas monetários mundiais, mas
Bento XVI não as discute.Se essas questões morais lhe interessam, sugiro o brilhante trabalho de Jörg Guido Hülsmann, The Ethics of Money Production, ou meu já citado livro The Church and the Market. (O primeiro título foi recebido com grande entusiasmo por Paul Likoudis, da revista The Wanderer, um bom homem que eu classificaria como um redistribucionista da terceira via, o que significa que o apelo do livro se estende para muito além dos tradicionais círculos misesianos).
Hülsmann mostra que, dentro da tradição católica, há um amplo testemunho das perversidades causadas pela desvalorização monetária, pelo sistema bancário de reservas fracionárias, e por várias outras instituições rotineiras das quais raramente nos lembramos. Como argumenta Hülsmann, é impossível haver qualquer defesa moral ou econômica do sistema monetário sob o qual somos forçados a viver - um sistema que jamais foi introduzido voluntariamente, mas que sempre foi impingido e aplicado coercivamente, com a polícia apoderada e autorizada a suprimir todas as formas alternativas. A insidiosa natureza do monopólio estatal da moeda se torna extremamente clara quando a moeda se degenera em hiperinflação, sendo que todos os exemplos disso ocorreram exatamente sob sistemas de papel-moeda monopolizado pelo estado. Tal sistema monetário, completamente gerido pelo estado, está tão distante de um livre mercado quanto se possa imaginar.
O sistema monetário mundial atual envolve bancos centrais que, sob privilégios garantidos pelos respectivos governos, não apenas detêm o monopólio da criação de papel-moeda de curso forçado, como também possuem a função de proteger um cartel de bancos comerciais, tanto privados quanto estatais. A contínua desvalorização monetária que tais bancos centrais executam conjuntamente impossibilita que as pessoas possam poupar para o futuro sem que tenham de recorrer a algum tipo de atividade especulativa. Por outro lado, um sistema monetário sólido, do tipo padrão-ouro, permitia ao indivíduo comum poupar para sua vida futura simplesmente acumulando moedas de metais preciosos, as quais, durante a época em que serviram como dinheiro, mantinham ou até mesmo aumentavam seu poder de compra ao longo do tempo. Quem hoje em dia é louco o suficiente para poupar apenas estocando papel-moeda fiduciário? Os indivíduos mais vulneráveis de uma sociedade precisam ou entrar no mercado financeiro ou assumir outros tipos de risco apenas para manter sua atual riqueza. Isso não seria uma questão moral?
O atual sistema monetário é o responsável pela criação dos ciclos econômicos, os quais ocorrem quando o governo tenta manipular as taxas de juros para níveis abaixo do seu valor de livre mercado. A descoordenação resultante dentro da estrutura de produção coloca a economia em um caminho no qual ela não pode se manter indefinidamente. A inevitável recessão, quando chega, leva distúrbio e aflição a milhares de famílias, e inevitavelmente estimula o mais desprezível e predatório dos comportamentos empresariais: a procura por socorro governamental.
Um banco central monopolista institucionaliza o problema do risco moral. Não há qualquer limitação física para a criação de papel-moeda adicional. Por essa razão, os grandes agentes de mercado sabem que não há restrições físicas que possam impedir seu salvamento em situações emergenciais. O único obstáculo, facilmente dominado, é a vontade política. Já deveria estar mais do que óbvio como um sistema como esse promove um nível artificialmente elevado de tolerância ao risco e beneficia os privilegiados em detrimento do cidadão comum.
Todos esses argumentos, além de vários outros, são desenvolvidos em maiores detalhes no livro de Hülsmann e nos meus Meltdown e The Church and the Market. A encíclica infelizmente negligencia esses problemas morais em detrimento de alertas triviais sobre materialismo e cobiça, os quais podemos encontrar fartamente nas publicações seculares de qualquer veículo de comunicação. Tivesse o Papa abordado as sérias questões morais que delineei aqui, ele teria emprestado seu prestígio ao início de um muito necessário questionamento das práticas financeiras que há muito aceitamos como naturais. Ao invés disso - e muito embora Bento XVI certamente não tenha pensado dessa forma - a encíclica acabou dizendo aos que detêm o poder exatamente aquilo que queriam ouvir: materialismo e cobiça precisam ser disciplinados pelos planejadores econômicos. (Quis custodiet ipsos custodes?, alguém pode pensar). Em outras palavras, a lamentavelmente convencional recomendação contida em Caritas in Veritate parece ser mais regulação do sistema já existente.
Ademais, como esses fatores institucionais são negligenciados, falta à encíclica qualquer tipo de compreensão sistemática dos ciclos econômicos, os quais por clara implicação o leitor é levado a crer serem causados pela soma agregada de atos individuais de malícia. A questão fundamental - a saber, por que esses atos de malícia ocorrem todos repentinamente, formando um conjunto agregado de erros que perpassa toda a economia - não é levantada.
Aos católicos, resta a pergunta: o que fazer? Não há necessidade de fornecer evidências ainda mais contundentes para o fato de que o Papa não é (e nunca pensou ser) um monarca absolutista cujos pronunciamentos devem ser todos saudados com bajulações servis. Qualquer católico instruído sabe disso. Durante grande parte da vasta história da Igreja, o culto à personalidade - vamos chamar pelo nome certo - que rodeou o Papa João Paulo II seria considerado pelos católicos como algo absolutamente bizarro.
São Tomás de Aquino afirmava que um leigo podia repreender seu prelado, mesmo em público, caso este praticasse alguma desonra. Sob o tópico "Se um homem tem a obrigação de corrigir seu prelado", São Tomás escreve: "Deve ser observado, entretanto, que, se a fé for posta em perigo, um discípulo tem de repreender seu prelado até mesmo publicamente. Desta forma, Paulo, que era discípulo de Pedro, repreendeu-o em público, por causa do perigo iminente de desonra em relação à fé".
Novamente, eu gosto de Bento XVI, e creio que ele fez mudanças importantes, e para melhor, na vida da Igreja. Mas certas passagens essenciais de Caritas in Veritate, além de serem inúteis ou inadequadas, erigem obstáculos gratuitos à conversão de parte dos incontáveis protestantes e outros não-católicos. Se a argumentação de São Tomás não se aplica a esse caso, a qual outro se aplicaria?
Thomas Woods
é um membro sênior do Mises Institute, especialista
em história americana. É
o autor de nove livros, incluindo os bestsellers da lista do New York
Times The Politically Incorrect Guide to
American History e,
mais recentemente, Meltdown: A Free-Market Look at Why the Stock
Market Collapsed, the Economy Tanked, and Government Bailouts Will Make Things
Worse. Dentre seus outros livros de sucesso,
destacam-se Como
a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental (leia um capítulo aqui),
33
Questions About American History You're Not Supposed to Ask e The
Church and the Market: A Catholic Defense of the Free Economy (primeiro
lugar no 2006
Templeton Enterprise Awards). Visite seu novo website.
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Thomas E. Woods
sábado, 12 de março de 2011
Editorial: A nova encíclica do Papa fala contra, e não a favor de, um Governo Mundial e uma Nova Ordem Mundial
8 de julho de 2009 (LifeSiteNews.com)
– Jornais, blogs, programas de rádio e de televisão estão repletos de
discussões sobre o suposto convite do Papa Bento XVI para uma “Nova
Ordem Mundial” ou um “Governo Mundial” [one-world government]. Estas idéias, no entanto, não estão baseadas nem na realidade nem numa leitura clara da última encíclica do Papa, Caritas in Veritate, cuja publicação ontem [07 de julho] acendeu a discussão inflamada.
O Papa, na verdade, fala diretamente
contra um Governo Mundial e, como deveria ser esperado por aqueles que
leram os seus escritos anteriores, convida a uma massiva reforma das
Nações Unidas. A confusão parece ter surgido do parágrafo 67 da
encíclica, que teve algumas citações [pull-quotes] escolhidas para apimentar [have spiced]
as páginas dos jornais mundo afora, do New York Times àqueles bloggers
de teorias da conspiração que vêem o Papa como o Anticristo.
A citação chave que leva a esta acusação
diz: “Para gerenciar a economia global; para reviver as economias
atingidas pela crise; para evitar qualquer deterioração na presente
crise e maiores desigualdades que dela podem resultar; para proporcionar
um integral e conveniente [timely] desarmamento, segurança
alimentar e paz; para garantir a proteção do meio-ambiente e regular a
migração; para tudo isso, há uma urgente necessidade de uma verdadeira
autoridade política mundial, como o meu predecessor, o Bem-Aventurado
João XXIII, indicou alguns anos atrás”.
Entretanto, no parágrafo 41, o Santo Padre diferencia especificamente o seu conceito de uma autoridade política mundial [a world political authority] daquele de um Governo Mundial [a one-world government].
“Nós devemos”, ele diz, “promover uma autoridade política dispersa”.
Ele explica que “a economia integrada do presente não faz com que o
papel dos Estados seja redundante; mas, ao invés disso, faz com que os
governos precisem de uma maior colaboração mútua. Ambas, sabedoria e
prudência, sugerem que não sejamos tão precipitados em declarar o fim do
Estado. Em termos de solução da presente crise, o papel do Estado
parece destinado a crescer, conforme ele recupere muitas de suas
competências. Em algumas nações, no entanto, a construção ou
reconstrução do Estado permanece um fator chave de seu desenvolvimento”.
Mais adiante na encíclica (57), ele fala
no conceito oposto de um Governo Mundial – subsidiariedade (o princípio
da Doutrina Social da Igreja que estabelece que as questões devem ser
resolvidas pela menor, mas baixa e menos centralizada autoridade
competente) – como sendo essencial. “A fim de não produzir um perigoso
poder universal de natureza tirânica, o governo da globalização deve ser
marcado pela subsidiariedade”, diz o Papa.
Outra das citações chaves que foram
extraídas da encíclica por causa do seu potencial chocante é esta: “em
face ao inesgotável crescimento da interdependência global, há um forte
sentimento da necessidade, mesmo no meio de uma recessão global, de uma
reforma da Organização das Nações Unidas, e igualmente das instituições
econômicas e financeiras internacionais, de modo que o o conceito de
Família das Nações possa se tornar realidade [can acquire real teeth]“.
Desde muito antes do seu papado, Joseph
Ratzinger lutou vigorosamente contra a visão das Nações Unidas de uma
“Nova Ordem Mundial”. Já em 1997, e repetidas vezes depois disso,
Ratzinger fez de tal visão seu objetivo público [took public aim at such a vision], notando que a filosofia vinda das conferências da ONU e o Millenium Summit
“propunha estratégias para reduzir o número de convidados à mesa da
humanidade, a fim de que a presumida felicidade que [nós] atingimos não
seja afetada”.
“Na base desta Nova Ordem Mundial”, ele
falou que está a ideologia do “fortalecimento das mulheres”, que
equivocadamente vê “os principais obstáculos para a plenitude [das
mulheres] [como sendo] a família e a maternidade”. O então cardeal
avisou que “neste estado do desenvolvimento da nova imagem do novo
mundo, os cristãos – não somente eles; mas, em qualquer caso, eles mais
do que os outros – têm o dever de protestar”.
Bento XVI de fato repetiu estas críticas em sua nova encíclica. Na Caritas in Veritate,
o Papa condena as “práticas de controle demográfico, da parte de
governos que freqüentemente promovem a contracepção e chegam até mesmo a
ponto de impôr o aborto”. Ele também denuncia os corpos econômicos
mundias como o FMI e o Banco Mundial (sem os nomear especificamente) por
suas práticas de empréstimo que visam ao assim chamado “planejamento
familiar”. “Há razões para suspeitar que a ajuda ao desenvolvimento está
às vezes ligada a específicas políticas de saúde pública que de fato
envolvem a imposição de fortes medidas de controle de natalidade”, diz a
encíclica.
Qualquer visão de uma adequada ordenação
do mundo, de economia ou cooperação política internacional, sugere o
Papa, deve estar baseada em uma “ordem moral”. Isto inclui primeiro e
principalmente “o direito fundamental à vida” da concepção à sua morte
natural, o reconhecimento da família baseada no casamento entre um homem
e uma mulher como base da sociedade e liberdade religiosa e a
cooperação entre todas as pessoas com base nos princípios da Lei
Natural.
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sexta-feira, 11 de março de 2011
Como ser banqueiro e cristão
ZP11031009 - 10-03-2011
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Em “Al trabajo con Dios”, Ken Costa explica como conciliar fé e trabalho
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Em “Al trabajo con Dios”, Ken Costa explica como conciliar fé e trabalho
quinta-feira, 3 de março de 2011
“Caritas in veritate”, manual de sobrevivência para século 21
ZP11030301 - 03-03-2011
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Presidente do IOR apresenta nova edição do livro “Dinheiro e Paraíso”
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Presidente do IOR apresenta nova edição do livro “Dinheiro e Paraíso”
ROMA, quinta-feira, 3 de março de 2011 (ZENIT.org)
- "A encíclica Caritas in veritate, de Bento XVI, deve servir para o
homem do século 21 como um manual de sobrevivência", para superar mais
do que uma simples crise econômica mundial, pois "as raízes desta se
encontram em uma crise moral".
Este foi um dos pensamentos centrais apresentadas pelo banqueiro Ettore Gotti Tedeschi, presidente do Instituto para Obras Religiosas (IOR), durante a apresentação do livro "Dinheiro e Paraíso: os católicos e a economia global", realizada na terça-feira, 1º de março, no Centro Internacional de Comunhão e Libertação.
O livro do qual Gotti Tedeschi é autor, junto ao escritor Rino Camilleri, foi publicado pela primeira vez em 2004. Agora, a nova edição foi enriquecida com os ensinamentos da encíclica Caritas in Veritate e com a experiência da crise econômica mundial que começou em 2006, o que torna o livro ainda mais interessante.
"O mundo católico - lamentou Gotti Tedeschi - não sabe fazer apologética, não consegue defender seus próprios valores nem a história da Igreja." Mas não só isso: "Quando se trata de economia, acontece algo semelhante, não sabem que o capitalismo tem origem católica e que foi corrompido pelo mundo protestante", nem que "Marx não sabia sequer o que era o capitalismo católico".
"Nem todo mundo sabe - continuou ele - que as grandes leis econômicas foram elaboradas pela Escola de Salamanca, depois da descoberta da América. Ninguém sabe que a lei da oferta e da procura e a licitude do dinheiro e dos empréstimos com juros nasceram no âmbito católico. Foram elaboradas pelos monges franciscanos, dominicanos e jesuítas dessa Escola."
"No livro - indica o autor -, explico por que o mercado não é ilícito, por que o capitalismo e a globalização são bons e por que todas estas coisas, que são ferramentas, se tornam más quando são mal utilizadas pelos homens. E isso também está na Caritas in Veritate."
Sobre a riqueza, disse que "o que importa não é ser rico ou não rico e, como dizia São Clemente de Alexandria no século III, a riqueza em si não é boa nem má, depende de como é feita e do uso que se faz dela. Se alguém tem vocação à criação de riqueza, por que não criá-la, se pode ser bem criada e usada? E se não for criada, distribui-se a pobreza".
"Vocês acham que há mérito em ser pobre? Também não. Há mérito em ser rico e desapegado dos bens" e, "como a pobreza não é boa nem má, que mérito tem ser pobre? Pode-se ser pobre e invejoso ou pouco esforçado".
Ele lembrou que, "nos últimos tempos, uma mensagem forte, que cresce no mundo católico, é que não deixaram os padres ensinarem a doutrina e, assim, o homem perdeu o contato com a verdade, o sentido da vida, o sentido das ações e, como consequência, surgiu a crise econômica".
Na conclusão, o presidente da Associação Bancária Italiana (ABI), Mussari, tomou a palavra e disse que "não estamos diante de uma crise, mas de um novo ciclo econômico. Não existe um amanhã no qual se possa voltar a fazer o que se fazia antes. Será necessário fazer coisas muito diferentes. Existe o problema demográfico, do trabalho, da competitividade e da subsidiariedade em um Estado muito invasivo".
O diretor do L'Osservatore Romano, Gian Maria Vian, também presente no ato, lembrou que, no final da parábola de Mateus sobre a providência e os lírios do campo, Jesus diz: "Vosso Pai que está nos céus sabe que precisais de tudo isso". Portanto, "a economia é importante. Porque a riqueza é indiferente; o que conta é o que está no coração e como ela é usada. Se a pessoa é rica, pode demonstrar muito amor aos outros".
Este foi um dos pensamentos centrais apresentadas pelo banqueiro Ettore Gotti Tedeschi, presidente do Instituto para Obras Religiosas (IOR), durante a apresentação do livro "Dinheiro e Paraíso: os católicos e a economia global", realizada na terça-feira, 1º de março, no Centro Internacional de Comunhão e Libertação.
O livro do qual Gotti Tedeschi é autor, junto ao escritor Rino Camilleri, foi publicado pela primeira vez em 2004. Agora, a nova edição foi enriquecida com os ensinamentos da encíclica Caritas in Veritate e com a experiência da crise econômica mundial que começou em 2006, o que torna o livro ainda mais interessante.
"O mundo católico - lamentou Gotti Tedeschi - não sabe fazer apologética, não consegue defender seus próprios valores nem a história da Igreja." Mas não só isso: "Quando se trata de economia, acontece algo semelhante, não sabem que o capitalismo tem origem católica e que foi corrompido pelo mundo protestante", nem que "Marx não sabia sequer o que era o capitalismo católico".
"Nem todo mundo sabe - continuou ele - que as grandes leis econômicas foram elaboradas pela Escola de Salamanca, depois da descoberta da América. Ninguém sabe que a lei da oferta e da procura e a licitude do dinheiro e dos empréstimos com juros nasceram no âmbito católico. Foram elaboradas pelos monges franciscanos, dominicanos e jesuítas dessa Escola."
"No livro - indica o autor -, explico por que o mercado não é ilícito, por que o capitalismo e a globalização são bons e por que todas estas coisas, que são ferramentas, se tornam más quando são mal utilizadas pelos homens. E isso também está na Caritas in Veritate."
Sobre a riqueza, disse que "o que importa não é ser rico ou não rico e, como dizia São Clemente de Alexandria no século III, a riqueza em si não é boa nem má, depende de como é feita e do uso que se faz dela. Se alguém tem vocação à criação de riqueza, por que não criá-la, se pode ser bem criada e usada? E se não for criada, distribui-se a pobreza".
"Vocês acham que há mérito em ser pobre? Também não. Há mérito em ser rico e desapegado dos bens" e, "como a pobreza não é boa nem má, que mérito tem ser pobre? Pode-se ser pobre e invejoso ou pouco esforçado".
Ele lembrou que, "nos últimos tempos, uma mensagem forte, que cresce no mundo católico, é que não deixaram os padres ensinarem a doutrina e, assim, o homem perdeu o contato com a verdade, o sentido da vida, o sentido das ações e, como consequência, surgiu a crise econômica".
Na conclusão, o presidente da Associação Bancária Italiana (ABI), Mussari, tomou a palavra e disse que "não estamos diante de uma crise, mas de um novo ciclo econômico. Não existe um amanhã no qual se possa voltar a fazer o que se fazia antes. Será necessário fazer coisas muito diferentes. Existe o problema demográfico, do trabalho, da competitividade e da subsidiariedade em um Estado muito invasivo".
O diretor do L'Osservatore Romano, Gian Maria Vian, também presente no ato, lembrou que, no final da parábola de Mateus sobre a providência e os lírios do campo, Jesus diz: "Vosso Pai que está nos céus sabe que precisais de tudo isso". Portanto, "a economia é importante. Porque a riqueza é indiferente; o que conta é o que está no coração e como ela é usada. Se a pessoa é rica, pode demonstrar muito amor aos outros".
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
ECONOMIA NA VISÃO CRISTÃ
Dom Fernando Arêas Rifan*
No início desse ano, participei em San Diego, Califórnia, de um Congresso sobre doutrina social da Igreja, com a participação de 40 Bispos de 18 nacionalidades, promovido pelo Acton Institute, dado por professores de economia e sociologia vindos de diversos países. Interessante que, em muitos pontos, coincidiu com o tema da conferência no final do seminário “Economia social de mercado: uma nova visão”, proferida em uma das sedes da Câmara dos Deputados, em Roma, pelo economista italiano Dr. Ettore Tedeschi, presidente do Instituto para Obras Religiosas (IOR), que trata da crise econômica, suas raízes, a lei natural ignorada e a criação de um bem-estar somente material.
O orador recordou que a economia de mercado foi definida pelo economista italiano Luigi Einaudi como “uma terceira via entre o capitalismo e o socialismo, que garante a liberdade individual freando seu instinto egoísta, através de critérios de subsidiariedade e de solidariedade. Nem estatismo nem capitalismo exagerado. Mas, para que funcione tem que ser baseada na doutrina social da Igreja, porque ela tem experiência e valor. A doutrina social da Igreja foi a forma mais eficaz de tornar o amor efetivo, apesar de que, como diz Bento XVI a caridade desvinculada da verdade não pode subsistir”.
Existem, porém, algumas condições: “A doutrina da Igreja, para poder funcionar, requer um Estado que não seja ávido. A economia social de mercado, como primeiro objetivo, deve usar os recursos disponíveis de maneira eficiente e obter resultados mais eficazes. Segundo, tem de assegurar o progresso integral, tendo presente a unidade corpo-alma do homem. E precisa distribuir a riqueza criada, não só por caridade, mas também por sustentabilidade”.
O que há hoje é uma crise de sentido. “A encíclica diz que, se a liberdade vem antes da verdade, o homem imaturo raramente chegará à verdade e, portanto, não saberá distinguir entre meios e fins e confundirá o uso dos instrumentos. E os instrumentos são neutros. Não existe banco ético nem finanças éticas; existe o homem ético, que faz as finanças de maneira ética e moral, ou seja, dando sentido às suas ações. É o homem que dá sentido ao uso dos instrumentos”.
“E Bento XVI, na Caritas in veritate, lembra: não se pode prescindir das ações humanas e do pleno respeito pela vida e não se pode fazer um plano de desenvolvimento econômico se o progresso é apenas material, porque o homem não é apenas um animal material”.
“Temos negado a dignidade da vida e estamos fazendo progressos apenas materiais. E agora está em discussão a lei sobre a eutanásia. Para provocar, direi: é uma lei econômica, porque não se podem manter os velhos, que custam muito quando não nascem crianças; é uma questão de orçamento. Este é o paradoxo da globalização consumista. É o que o Papa chamou de ‘desenvolvimento econômico não-integrado'. Porque o homem se esqueceu de que tem uma alma; considera somente um corpo, pela influência do niilismo e do relativismo”.
*Bispo da Administração Apostólica Pessoal
São João Maria Vianney
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As bençãos da tecnologia
June 22, 2008
by Samuel Gregg
Nos últimos trinta anos, um certo grau de ceticismo sobre os méritos da tecnologia vieram à tona nas reflexões e escritos de muitos cristãos. Sem dúvida, os bons cristãos têm razão para estarem preocupados com os usos que muitas vezes são dados à tecnologia. Quando Hannah Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, não se referia à mentalidade burocrática que, com relativa eficiência, tratava de matar os judeus europeus. Ela também tinha em mente o modo pelo qual a tecnologia moderna fazia com que a matança em série de seres humanos parecesse menos enlouquecida, menos sanguinária, e até mesmo um tanto desapaixonada.
Cada vez mais os acontecimentos tecnológicos quotidianos, tais como a popularização do e-mail e da Internet, são, por vezes, retratados por alguns cristãos como facilitadores da despersonalização da vida humana e dos relacionamentos. Outros cristãos parecem suspeitar da associação da tecnologia com a emergência da modernidade, ou seja, um período da história no qual as exigências da Revelação são, muitas vezes, vistas como se fossem desafiadas pelos avanços da ciência.
Certa vez, Karl Marx argumentou que a sociedade tecnológica facilitava o ateísmo. Sem dúvida, há um tanto de verdade nessa afirmativa. Os avanços tecnológicos criam para nós um mundo cercado de produtos feitos pelo homem. Muitos de nós vivemos numa cultura repleta de aparelhos mecânicos pelos quais moldamos nossas vidas, e em estruturas sem precedentes na história, dominadas por certas características construídas pelo homem. Como resultado, a tecnologia nos dá uma imagem de nossas obras. Essa auto-imagem é o que muitos seres humanos consideram, admiram e, às vezes, cultuam.
O problema do auto-consumo e do culto idólatra de si mesmo têm, no entanto, atormentado o homem desde o princípio. Ocorreu em todas as culturas e em todas as épocas, não importando o grau de desenvolvimento tecnológico. No mundo romano atingiu uma espécie de apogeu com a auto-atribuição de divindades por parte dos Césares.
Será possível, então, que os cristãos pensem em tecnologia de alguma forma que evite, ao mesmo tempo, tanto a romantização do mundo pré-moderno e natural, mas também o “cientificismo” que nos faz crer que que a percepção da verdade é essencialmente limitada ao conhecimento da técnica?
Devemos ter em mente que o mal não procede da tecnologia em si. O mal deriva do pecado original e das livres escolhas dos seres humanos que preferem o mal ao bem. Portanto, o problema geralmente não é a tecnologia, mas como ela é usada. Dificilmente esse é um novo dilema.
Leonardo Da Vinci, que também era um engenheiro, desistiu de publicar os planos de um submarino que projetou porque considerava injusto atacar, sem aviso prévio, um adversário que não pudesse ver quem o atacava. Poderíamos supor que a decisão de Da Vinci foi ditada por um estranho código de cavalheirismo renascentista. O raciocínio de Da Vinci, entretanto, pressupunha simplesmente que a tecnologia estava sujeita a uma ordem maior: os ditames da lei moral divina, a única ordem que poderia dar à tecnologia um significado apropriado e determinar os fins para os quais poderia ser usada. Assim, devemos considerar que os submarinos não precisam ser empregados somente para fins violentos. Eles, de fato, têm servido para revelar ao homem muitas das glórias, anteriormente ocultas aos homens, como o mundo submarino criado por Deus.
Na verdade, é difícil pensar em algo que nos dê uma imagem mais poderosa da manifestação da Criação de Deus do que os imensos espaços solares que a astronomia nos permite vislumbrar. Em outras palavras, a tecnologia permitiu perceber uma parte do mistério complexo e interligado do universo de um modo nunca antes imaginado por Galileu ou Ptolomeu.
E nisso reside a maior de todas as ironias. Foi precisamente por realizar o mandato do livro do Gênesis de preencher a Terra e subjugá-la, que os seres humanos não só participam da ampliação do ato criador, mas também adquirem maior percepção das maravilhas da Criação. Por intermédio da tecnologia, cada vez um número maior de cientistas começa a vislumbrar o projeto e a ordem das coisas, onde muitos de seus ancestrais só viam a escuridão e o caos.
Nesse sentido, a tecnologia pode ajudar a desmistificar e “des-divinizar” o mundo material ao nos despertar para a majestade dAquele que o criou.
Jean Daniélou, um jesuíta estudioso da Patrística, certa vez observou que o homem primitivo identificava o sobrenatural em todos os lugares, mas isso se devia, em grande parte, à sua ignorância. Dessa forma, percebeu Daniélou, a tecnologia pode ajudar a “libertar a religião e a percepção humana do sobrenatural do incômodo fardo do pseudo-sobrenatural e do pseudo-religioso”.
Tudo isso nos leva a reconhecer que não há necessidade de denegrir Bill Gates para exaltar Santo Agostinho, da mesma forma que também não precisamos degradar a tecnologia humana para exaltar as obras de Deus. Quanto maiores as conquistas da tecnologia humana, segundo o divino ordenamento moral, escreveu Daniélou, Deus se mostra ainda maior ao homem.
Nesse sentido, não devemos ser excessivamente temerosos das conquistas tecnológicas do homem. Certamente, o cristão deve exigir que o uso que o homem dê à tecnologia, como a todas as outras escolhas, se conforme à Lei moral de Deus, uma lei possível de ser conhecida pela fé e pela razão. Mas, quanto maior o homem e suas conquistas tecnológicas, mais os cristãos devem perceber que ainda maior Ele deve ser – o Deus feito homem, o Alfa e o Ômega de todos os tempos, Jesus Cristo – de quem herdamos nossa própria grandeza.
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Como os clérigos entendem o mundo dos negócios: realidade versus caricatura
June 22, 2008
Ex-Diretor do Center for Entrepreneurial Stewardship do Acton InstituteHá pouco tempo, enviei uma pesquisa para os pastores protestantes de grandes igrejas, a maioria com mais de mil fiéis por domingo. A pesquisa fazia uma série de perguntas sobre economia, negócios, governo, e vários assuntos sociais. Apesar de ainda estar trabalhando numa série de estatísticas, as respostas a duas perguntas em particular foram impressionantes.
Setenta por cento dos líderes religiosos que responderam a afirmação: Sem supervisão cerrada do governo as grandes empresas irão abusar dos seus poderes, indicaram os seguintes quesitos como resposta: “concordo plenamente com”, “concordo com” ou “não tenho opinião formada sobre”.
Trinta e nove por cento, ao responder a afirmação: Porque os negócios normalmente não funcionam dentro de um padrão moral, cada vez mais a regulação governamental é necessária, indicaram como resposta: “concordo plenamente com”, “concordo com” ou “não tenho opinião formada sobre”.
Talvez os colapsos no mundo dos negócios como o caso da Enron e da Worldcom ainda estejam frescos nas mentes, e façam com que esses pastores protestantes olhem de modo suspeito para a maioria das pessoas do mundo dos negócios. Em alguns casos, a suspeita é, sem dúvida, justificada. Talvez, no entanto, haja um motivo diferente, menos justificável para essa suspeita – uma tendência a caricatura.
As caricaturas dos homens de negócios são tão antigas quanto as próprias corporações. Não é um fenômeno da era pós-Enron. Desde Ebeneezer Scrooge de Charles Dickens, passando pelo ganancioso banqueiro Mr. Potter do clássico “A felicidade não se compra” e chegando à Montgomery Burns dos Simpsons, a personagem é a mesma: os líderes dos negócios. Os homens de negócio são seres com uma insaciável fome de poder que querem dominar o mundo.
Recentemente, num fim de semana, tive uma oportunidade única de passar três dias com os CEOs, CFOs, COOs, presidentes e vice-presidentes de empresas de médio porte a multinacionais. Estavam presentes empresas dos seguintes países: Holanda, Alemanha, França, Itália, Austrália, África do Sul, Índia, Grã Bretanha, Suíça, Brasil, Singapura, Luxemburgo, Tailândia, Áustria e Estados Unidos.
Os líderes religiosos que responderam a minha pesquisa imaginariam que a maior parte das conversas, palestras e painéis de debate focalizavam a questão do domínio e expansão do poder. Talvez os pastores mais cínicos acreditem que quando tais tipos empresariais se juntam, a conversa gira em torno de iates, automóveis luxuosos e mansões. Essa é a caricatura.
A realidade é diferente. O foco da conferência era a criação de valores. Mais especificamente, os participantes discutiram como não ser meramente lucrativo, mas como adicionar valor econômico em suas empresas para beneficiar os acionistas, empregados, fornecedores, consumidores e a sociedade. Como um observador, posso testemunhar que os comentários feitos poe essas pessoas poderosas e bem-sucedidas foram o extremo oposto da caricatura.
Os líderes empresariais experimentam uma tremenda pressão porque o bem estar de muitas pessoas depende das capacidades de tomar a decisão correta, no momento certo. Os participantes da conferência condenaram práticas tais como: pensar a curto prazo para ganhos financeiros rápidos, manipulação de balanços financeiros, comportamento não ético, uso do dinheiro dos acionistas para adquirir negócios que não acrescentam valor e tratar os empregados como commodities.
Falaram da absoluta necessidade de uma ética forte, não só como meio, mas como fim e uma forma de honrar a todos com quem fazem negócios. Tópicos como transparência, honestidade, trabalho árduo, e tomada de decisões firmes sempre voltavam à tona.
Talvez o fato mais surpreendente – dadas as recentes controvérsias sobre os salários e bônus dos executivos – esse grupo pleiteava uma compensação dos executivos afixada não só pelas perdas e lucros, mas que pudessem ser manipuladas por uma variedade de meios. Em vez disso, propuseram a idéia de que como o valor total da empresa sobe e desce, assim deveria variar a compensação dos executivos. Advogaram a necessidade de fixar os salários e bônus dos empregados ao valor acrescido ou ao valor perdido, de modo que o empregado tenha interesse no futuro da corporação. Quando a empresa cresce e se torna mais valiosa (um critério maior do que meras perdas e ganhos), todos os executivos e empregados ganham.
Debates como esses renovaram a minha admiração pelo peso que essas pessoas carregam. Nenhum deles pareceu não estar levando a sério suas responsabilidades. Não houve indicação de que estavam nos negócios somente para benefício próprio. Pareciam entender o papel abrangente e substancial que possuem na construção das empresas, que, com o passar do tempo, valorizam suas sociedades.
Será que todos os líderes de empresas são tão conscientes assim sobre seus negócios? É claro que não. Em todos as posições sociais há aqueles que abusam do poder dado ou ajem de modo pouco ético e destrutivo. Apesar da presença de pessoas imorais nas grandes empresas, não creio, no entanto, que tais pessoas são a norma. Infelizmente, um alto percentual de meus colegas no clero têm uma visão diferente e preferem a caricatura à realidade.
O mistério e a moralidade do mercado – explicados!
June 22, 2008
Uma mãe pede ao filho para ir ao mercado e comprar um pouco de pão. Um banqueiro de investimentos pede ao colega para informar como está o mercado de ações. Um fabricante pergunta ao consultor se há um mercado
para um determinado produto novo. Dados os diferentes usos da palavra
mercado, não é de se admirar que as pessoas sempre se confundam com o
significado do termo “o mercado”?Ronald Nash (professor de filosofia no Seminário Teológico Reformado em Orlando, na Flórida), no livro Pobreza e riqueza, define o mercado como “um conjunto de procedimentos ou arranjos que prevalecem numa sociedade que permite as trocas voluntárias”. Explicado de outro modo, segundo Nash, “o mercado é a estrutura de hábitos e regras na qual cada troca voluntária específica, em cada mercado específico, acontece”. O mercado não é “um lugar ou uma coisa específica”, nem é “simplesmente a coletânea de mercados particularesnos quais os bens e serviços são trocados”. Em vez disso, segundo Nash, aquilo que chamamos de “o mercado” é uma “ordem espontânea e impessoal na qual os seres humanos individuais fazem escolhas econômicas”.
Nash explica que o mercado é como um modelo de tráfego urbano. Ao longo do tempo a cidade cresce, e o modelo de tráfego emerge, na medida em que os motoristas respondem às grades postas nas ruas, aos sinais de trânsito, às placas de sinalização, dentre outros. É algo impessoal, se considerarmos que se aplica a todos igualmente,contudo, é espontâneo, pois envolve um processo de erros e acertos. Além disso “ao passo que o padrão de tráfego estabelece regras, as pessoas ainda têm um certo grau de liberdade na forma como e para onde dirigem”. Dessa forma o padrão de tráfego produz ordem, previne acidentes e permite a liberdade. O mercado funciona da mesma forma. Certas regras – proibindo a coerção, a força, a fraude, o roubo, dentre outros – estabelecem o contexto das transações econômicas, e o mercado desenvolve na medida dem que as pessoas compram e vendem.
Raramente se compreende de forma clara o que significa uma economia de mercado. O mercado, ainda que possua virtudes práticas, permanece moralmente neutro em essência, e assim, precisa de uma estrutura moral maior para operar de modo ético. O termo “o mercado” na realidade é uma metáfora. A rede de trocas que chamamos de mercado é, na verdade, um processo enraizado na ação e escolha humanas, e reflete a variação e os valores subjetivos que os atores do mercado possuem.
Dessa forma, o mercado se torna uma ferramenta potente para a difusão do conhecimento ao comunicar os verdadeiros custos dos bens e serviços. No entanto, seria um erro pensá-lo como detentor de uma ética própria.
João Paulo II expressa tal compreensão do relacionamento entre moral e mercado na carta encíclica Centesimus Annus. Explica o papa “a atividade econômica, em particular a da economia de mercado, não se pode realizar num vazio institucional, jurídico e político” (48). Dessa maneira o papa afirma um “sistema econômico que reconhece o papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no setor da economia”, mas rejeita categoricamente “um sistema onde a liberdade no setor econômico não está enquadrada num sólido contexto jurídico que a coloca ao serviço da liberdade humana... cujo centro seja ético e religioso” (42). Em outras palavras, o livre mercado, para permanecer adequado à pessoa humana deve ser mediado por uma ordem política e uma cultura saudável.
É fundamental para os defensores do livre mercado entenderem essa conexão entre cultura e mercado. O mercado não funciona no vácuo. Requer um contexto jurídico, cultural e social. Por exemplo, muitos críticos advertiram a respeito do perigo da libertinagem numa sociedade de livre mercado. Em geral, esses críticos apontam que vivemos numa época em que tudo está à venda, até mesmo coisas como o corpo humano – e isso não deveria ocorrer. Essa libertinagem, contudo, não deriva da natureza do mercado, mas de nossa situação cultural e histórica particular. Assim, a aparente aliança entre livre mercado e libertinagem pode ser substituída por uma aliança entre o livre mercado e uma filosofia adequada da pessoa humana – que leve em conta a dimensão valorativa moral e espiritual da pessoa humana.
Por definição, não podemos escolher viver num mundo sem mercados. Mas podemos escolher que tipo de mercados iremos desenvolver. Serão livres ou planejados? Promoverão um ambiente favorável para a virtude ou oferecerão oportunidade para a violência e a corrupção? Responder a tais questões e esforçar-se para estabelecer mercados que sejam livres e virtuosos são tarefas válidas para todos os cristãos preocupados com a justiça e a correção dos mercados, da política e da cultura.
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