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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
G. K. Chesterton, o incomparável
Famosíssimo jornalista, novelista, poeta e crítico literário (1874-1935) é uma figura única e genial na literatura inglesa e um dos autores modernos mais freqüentemente citados. Sua perspicácia crítica era muito aguda, seu campo de ação universal, seu vigor invencível. Seu jornalismo exerceu uma atração magnética muito mais poderosa do que se poderia esperar de qualquer colunista ou apresentador de televisão hoje em dia.
O Popular
O sábio filósofo tomista Etienne Gilson gostava de relatar esta saborosa anedota: Dois personagens históricos apaixonaram o genial escritor inglês Gilbert Keith Chesterton: São Francisco de Assis e Santo Tomás de Aquino.
O "poverello", porque apelava à sua consciência social, e o santo dominicano porque para G.K. ambos compartilhavam em sua origem a mesma raiz normanda. Um dia decidiu escrever um livro sobre o Doutor "Angélico". Para isso, o prolífico autor, recorreu à sua técnica usual quando se tratava de redigir artigos sobre os temas mais díspares: puxava de sua extraordinária memória os conhecimentos necessários, e o resto deixar por conta de sua viva inspiração. Foi assim que Chesterton ditou a metade da anunciada obra.
Quando alguns alarmados amigos o advertiram de que conscientes eruditos haviam consumido suas vidas através dos séculos estudando Santo Tomás de Aquino, Chesterton fez um parênteses em seu ímpeto criativo e pediu a sua secretária que buscasse alguns livros especializados.
- Que classe de livros?, Perguntou sua colaboradora.
Chesterton respondeu despreocupado:
- Os que você quiser.
Com a ajuda de um sacerdote conhecido, a responsável secretária dedicou-se à busca de tratados e estudos sobre o Aquinate. Ao apresentar a Chesterton o fruto de suas pesquisas, G.K. inclinou seu jovial rosto, coroado de uma leonina melena branca, para permitir que seus olhinhos míopes os percorram à toda pressa, defendendo-se em algumas páginas. Ao dar-se por satisfeito após breve exame, os deixou de lado e terminou com o ditado.
Mais tarde um dos exemplares de "Santo Tomás de Aquino" chegou às mãos do reputado tomista.
- "Chesterton é desesperante" exclamou Gilson. "Estudei Santo Tomás toda minha vida, e nunca poderia ter escrito um livro como o seu. Só um gênio é capaz desta façanha".
"G.K" Chesterton - como ele gostava de assinar seus escritos - foi um dos mais extraordinários personagens que surgiram entre os católicos de fala inglesa neste século. E sem lugar á dúvidas, um dos menos convencionais. Polemista impetuoso e incansável, ensaísta, jornalista, poeta, dramaturgo, autor premiado e propagandista, passava de artigo humorístico, ao ensaio grave e erudito. De sua pluma saíram milhares de artigos e mais de noventa livros. Sua memória para reter os dados que lia tornou-se lendária. Um amigo relatava que podia absorver livros "como uma aspiradora".
"Sou acima de tudo um jornalista" escreveu em sua autobiografia. A este "jornalista" devem-se outras obras de extraordinária prosa como "Ortodoxia"; "Heréticos"; "O homem sempiterno"; "Magia"; "O julgamento do doutor Johnson"; "A pequena história da Inglaterra"; "O homem que era quinta-feira"; a série de aventuras e de mistérios na qual o principal protagonista é um sacerdote católico, o padre Brown; "O Napoleão de Nottin-hill" que se adianta às denúncias de Aldous huxley e George Orwell sobre uma sociedade dominada por um "superestado". Talvez a definição do Papa Pio XI seja a que melhor o classifique; quando o chamou de "defensor da fé" o primeiro inglês a receber tal título desde os escuros dias da reforma.
Chesterton não podia viver sem um constante fluir de idéias em sua cabeça. Inconformado e crítico de tudo o que via de negativo, seus escritos tentavam dar alternativas e soluções. O caso de sua inspiração para escrever "O Napoleão de Nottin-hill" é característico. Um dia estava passeando pelas ruas de um distinto bairro londrino, relatando-se mentalmente historietas de assaltos e assédios feudais, à maneira de Walter Scott, e tratar de aplicá-los vagamente ao "deserto de ladrilhos e concreto" que o rodeavam. Sua Londres natal havia se transformado em uma urbe despersonalizada, cheia de gente anônima.
Frente a seus olhos levantava-se um centro comercial vivamente iluminado que quebrava a monotonia. Uma pequena ilha que seguramente o imaginário inimigo devia conquistar. Alguns jogos de água próximos deveriam ser o alvo do ataque. "Ocorreu-me de repente -lembrará Chesterton mais tarde- que a captura desses jogos de água puderam significar, na verdade, e golpe militar de inundar o vale, e , com aquelas torrentes e cataratas de águas imaginárias, invadiu minha mente a primeira idéia de um conto chamado "O Napoleão de Nottin-hill".
Seus relatos expressam seus ideais, suas posturas políticas. "Nunca levei à sério meus livros; mas levo muito à sério minha opiniões", sentenciou em uma oportunidade.
G.K. Chesterton foi desde muito jovem um homem público. Sua pluma impetuosa, seu gosto pela polêmica e sua incomparável figura -pesava cento e vinte quilos e media 1.83 metros de altura- o transformaram em um dos personagens mais popular da Inglaterra.
Um testemunha presencial de seus debates com George Bernard Shaw, amigo íntimo mas com quem não concordava em nada, o descreve vivamente: "era um senhor gordo e de braço curto, abundante e franzido, que juntava as mãos sobre a barriga, retorcendo-as á medida em que ia se expressando, e que, entre lábios, borbulhava algo que se não chegava perceptivelmente aos demais, lhe produzia hilaridade de sobra ao emiti-lo para não poder sequer concluir as frases".
"Chesterbelloc"
Incrivelmente distraído para as questões práticas, nunca consegui (nem lhe importava muito) vestir-se com correção. Andava sempre desalinhada. Sua esposa Frances Blogg optou por cobri-lo com uma capaz e um chapéu de aba larga que, junto com seu sable-bastón, seu cachecol sobre os ombros e seus óculos de moldura metálica, tornaram-se sua marca registrada.
Foi justamente em uma polêmica onde conheceu outro personagem católico que seria decisivo em sua vida: Hillaire Belloc. Este já era famoso orador em Oxford. Depois de escutá-lo polemizar, ambos se retiraram a um pequeno e escuro café no Soho onde começou a amizade. Mais tarde publicariam juntos um jornal semanal de denúncias chamado "Eye Watch", o que para Chsterton revolucionou o jornalismo inglês.
Belloc e Chesterton formaram uma dupla de adailes em uma série de causas que iam desde a oposição sincera ás guerras dos ingleses contra os boers sul-africanos, uma diversidade de assuntos de tipo social e, quando este último se converteu ao catolicismo, a propagação da fé em um âmbito agnóstico e naturalista. Formaram um conjunto tão compacto na comunhão na das idéias, que o mordaz Shaw os batizou ironicamente "Chesterbelloc".
"Nada convencional"
Este personagem tão pouco dado ao formal nasceu, no seio de uma família ultra convencional, em 29 de maio de 1874. Seus pais pertenciam à classe média "um pouco antiquada", instalada em Kensing-ton onde seu pai dirigia um negócio de boas raízes.
O menino, vivia, aprendia rapidamente de memória as melhores páginas de literatura inglesa, tão extremamente que à idade de sete ou oito anos conhecia Shalkespeare sem entender bem o que significavam as palavras. Desde então, o costume de recitar ou contar de memória contos e relatos nos momentos mais inesperados.
Sua juventude está marcada por um percurso dos "ismos", sem maior convicção e quase à deriva. Aproxima-se ao socialismo, ao radicalismo, ao liberalismo. Seu inconformismo foi proverbial, "odiando o que a maioria das pessoas gostam" por convencionalismos vazios. Muito jovem iniciou como jornalista no "Daily News", carreira que lhe dará renome.
Descrente como a maioria dos jovens de sua geração, torna-se amigo do clérigo da "High Church" chamado Conrad Noel. "Havia - relata G.K. - certamente duas tendências no quel ele chamava emancipação da fé de credos e dogmas do passado". Este personagem, poeta e aristocrata excêntrico, se considerava "socialista cristão" e participava de um grupo chamado "Chritian Social Union", e apareceu quando Chesterton "não tinha religião".
Noel desperta no jornalista uma preocupação com o religioso e social que nunca o abandonará. Desde aquela plataforma anglicana se dirige aos operários de Nottingham tratando do que considerava o dever cristão ao problema moderno da pobreza industrial.
É uma etapa de busca para Chesterton. Estas indagações o conduzem ao deísmo, às sociedades teosóficas e éticas. Chega à conclusão de que não existiam as religiões novas. Somente "Israel esparramado pelos montes como borregos que perderam seu pastor, e vi um bom número de borregos sair correndo, balindo, veementemente para qualquer vizinhança onde acreditavam encontrar um pastor".
Caminho à Fé
O projeto religioso ia tomando forma em Chesterton. Começou a aprofundar na teologia cristã em geral, que muitos odiavam e poucos estudavam. Descobre que as teorias negativas e naturalista que estavam em moda naquela época, não encaixavam na experiência.
Publica nesta época "Heréticos", que reunia alguns estudos sobre escritores contemporâneos seus como Kipling, Shaw e Wells explicando como cada um deles "pecava por erro último ou religioso". As polêmicas se acirraram e Chesterton escreveu uma bem meditada explicação sobre a crença de que a doutrina cristã, resumida no credo dos Apóstolos "podia ser uma crítica melhor da vida que nenhum dos que eu havia criticado.
Chamou-se "Ortodoxia". Na sociedade moderna, refletia G.K., ralo de heresias inconsistentes, a única heresia imperdoável era a ortodoxia. "Uma defesa séria da ortodoxia era muito mais surpreendente para o crítico inglês que um ataque sério contra a ortodoxia para um censor russo".
O seguinte passo não foi surpreendente. Em 1922 G.K. Chesterton converteu-se ao catolicismo, associando seu nome a outros grandes conversos ingleses como Graham Greene e Christopher Dawson. Seu retorno ao seio da Igreja começou muitos anos antes, quando seu entusiasmo batalhador o levou a combater uma série de doutrinas que ele considerava repugnantes: o materialismo, a teosofia, os espíritas, o capitalismo plutocrata, o socialismo, o ceticismo e tudo aquilo manifestava a "desagregação espiritual e moral de nosso mundo".
Como ensaísta e pensador compreendeu que as verdades universais e perduráveis que ele buscava se encontravam no catolicismo. Depois, G.K. confessará, um tanto divertido, como se deu as tresloucadas buscas em clubes anarquistas ou babilônicos o que poderia ter encontrado no catecismo ou na paróquia mais próxima.
"Entre o Cardeal Newman e o Pe Brown"
Em suas idas e vindas o engenheiro escritor havia conhecido dois personagens que o ajudariam em sua conversão. O primeiro, o grande Cardeal John Henry Newman, quem o antecedeu na conversão e mostrou-lhe, através de suas obras, Santo Tomás. O outro foi um padre de um bairro pobre, o Padre John O´Connor, pároco de Bradford. G.K. o conheceu em 1907 quando visitou o povoado de Keghly.
Ao concluir uma conferência, o escritor foi abordado por um jovem sacerdote, jovial e comunicativo. A formosa campina convidada a dar um passeio. Enquanto caminhavam Chesterton foi narrando seus projetos para escrever uma obra crítica sobre as injustiças sociais. Enquanto isso o sacerdote o escutava pacientemente.
Ao concluir, o Padre O´Connor desaprovou várias de suas idéias por considerá-las muito vagas. "Foi para mim -narraria G.K. mais tarde- uma curiosa aventura a de encontrar-me com que aquele padre amável e tranqüilo havia sondado abismos mais profundos dos que eu conhecia, e havia descoberto no mundo ignomínias que eu jamais poderia imaginar".
Ao criar um personagem para sua série policial, onde tentava apresentar um sacerdote para quem cada caso significava, além de desmascarar o mal-feitor, um enfrentamento com a maldade e o engano representado pelo Maligno. G.K. pensou em O´Connor. Foi assim que nasceu este particular "Padre Brown", o detetive sacerdote a quem Chesterton descrevia como "um homem inteligentíssimo e humilde. Tão simples que um tonto pode tomá-lo como um tonto".
Quando lhe perguntavam por que tinha entrado para a Igreja Católica ele respondia: "Para desembaraçar-me de meus pecados. Pois não existe nenhum outro sistema religioso que faça, realmente desaparecer os pecados das pessoas". O perdão fascinava a este coração generoso. "Que eu saiba somente tenho uma virtude", explicou em certa oportunidade: "Eu poderia realmente perdoar até setenta vezes sete".
Promotor social
No ano de 1909 um grupo de sacerdotes fundou na Inglaterra a "Catholic Social Guild" a fim de despertar entre os católicos um maior interesse pelas questões sociais, chamando-os a cooperar na promoção de reformas a partir dos princípios católicos. A CSG não tinha planos tem programas detalhados.
Cada católico deveria promover o conhecimento dos princípios gerais e então aplicá-los situações concretas. G.K. Chesterton e seu amigo Hillaire Belloc participaram ativamente do movimento promovendo uma idéia que chamaram "Distributismo", a que se opunha ao Socialismo e ao capitalismo por igual, e pregava uma ampla distribuição da grande propriedade em favor da pequena, e a diminuição da concentração capitalista.
O ideal desta posição, promovida por Chesterton em seu próprio jornal chamado "G.K. Weekli", era um convite ao retorno a uma vida artesanal mais simples, afastada da extrema industrialização, onde o homem viveria em maior harmonia com a natureza. No fundo tudo partia de uma preocupação de G.K. pela pessoa concreta, pelos pobres e desvalidos. Um crítico diria dele: "Chesterton compreendia seu próximo".
A partida
Aquele 14 de junho de 1936 amanheceu triste e sombrio na casinha dos Chesterton em Beaconfield. G.K. havia partido para sempre. A Inglaterra perdeu uma de suas melhores plumas e com ela, algo de seu engenho e bom humor. Um dos melhores epílogos da vida de G.K. é uma frase de um latino-americano pouco formal como Chesterton, que teve a oportunidade de conhece-lo pessoalmente, o Padre Leonado Castellani: "Gritante proclamador da glória de Deus e da Santa Madre Igreja Romana, Chesterton abandona a glória terrena a seu contemporâneo e gêmeo espiritual Bernard Shaw, e prefere tranqüilamente servir com suas enormes faculdades à plebe de Cristo que não antes que o império ou a arte que pagam".
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Por que acredito no cristianismo[1]
G. K. Chesterton
Não tenho a intenção de desrespeitar o Sr. Blatchford dizendo que nossa dificuldade, em grande medida, está em que ele, como a maioria das pessoas inteligentes atualmente, não entende o que é Teologia. Equivocar-se em ciência é uma coisa, mas equivocar-se sobre a natureza da ciência é outra. Na medida em que leio “God and My Neighbour (Deus e o meu vizinho)”, cresce minha convicção de que ele pensa que Teologia é o estudo sobre se as diversas lendas que a Bíblia conta sobre Deus é historicamente demonstrável. É como se ele estivesse tentando provar a um sujeito que o Socialismo seria, na verdade, a sólida ciência da Economia Política[2] e começasse a perceber, no meio do caminho, que o sujeito considerava a Economia Política o estudo sobre se os políticos eram econômicos.
É muito difícil de explicar brevemente a natureza de todo um ativo campo de estudo, tanto quanto o é explicar o que é política ou ética. Pois, quanto maior e mais óbvia é uma coisa, e quanto mais ela te encara face a face, mais difícil é defini-la. Todo mundo pode definir concologia.. Ninguém pode definir a moral.
No entanto, toca-nos tentar explicar essa filosofia religiosa que era, e de novo será, o estudo dos maiores intelectuais e a fundamentação das mais fortes nações, mas que nossa diminuta civilização, há algum tempo, esqueceu, da mesma forma que esqueceu como dançar e como se vestir decentemente. Tentarei explicar porque eu considero necessária uma filosofia religiosa e porque eu considero o cristianismo a melhor filosofia religiosa. Mas, antes que eu faça isso, quero que você se lembre de dois fatos históricos. Não peço para que você tire deles as minhas conclusões ou mesmo qualquer conclusão. Peço que você se lembre deles como simples fatos, ao longo da discussão.
1. O cristianismo surgiu e se expandiu num mundo muito refinado e cínico – num mundo muito moderno. Lucrécio era tão materialista quanto Haeckel e um escritor muito mais persuasivo. O mundo romano tinha lido “God and My Neighbour”, e de uma maneira um tanto sonolenta o considerou verdadeiro. Vale a pena notar que as religiões quase sempre surgem nessas civilizações céticas. Um livro recente sobre a literatura pre-maometana da Arábia descreve uma vida inteiramente luxuosa e refinada. Foi assim com Buda, nascido em berço de ouro, numa antiga civilização. Foi assim com o Puritanismo na Inglaterra e com a Restauração Católica na França e Itália, ambas advindas do racionalismo da Renascença. É assim hoje, e será sempre assim. Vá a dois dos mais modernos centros do pensamento moderno, Paris e EUA, e você encontra-los-á cheios de anjos e demônios, de velhos mistérios e novos profetas. O racionalismo está lutando pela própria vida contra as novas e vigorosas superstições.
2. O cristianismo, que é uma religião muito mística, tem sido, contudo, a religião das porções mais práticas da humanidade. Ele tem mais paradoxos que as filosofias orientais, mas ele também constrói as melhores rodovias. O mussulmano tem uma concepção lógica e pura de Deus, o Alah monístico. Mas ele permanece bárbaro na Europa e a grama não renascerá por onde ele passar. O cristão tem um Deus Trino, “uma trindade oblíqua,” que parece uma caprichosa contradição em termos. Mas, em ação, ele abarca a terra e, mesmo, o mais inteligente oriental só pode com ele lutar, imitando-o a princípio. O Oriente tem sua lógica e vive do arroz. A cristandade tem seus mistérios – e seus automóveis. Não importa a inferência. Como eu disse, registremos os fatos.
Agora com essas duas coisas em mente, deixe-me tentar explicar o que é a Teologia Cristã.
O agnosticismo completo é a atitude óbvia para o homem. Todos somos agnósticos até descobrirmos que o agnosticismo não funciona. Então, adotamos alguma filosofia, a do Sr. Blachford ou a minha, ou alguma outra, pois, o Sr. Blatchford não é mais agnóstico que eu, é claro. O agnóstico diria não estar certo se o homem é responsável pelos seus pecados. O Sr. Blatchford diz que ele tem certeza de que o homem não é.
Aqui temos a semente de toda uma imensa árvore de dogmas. Por que o Sr. Blatchford vai além do agnosticismo e afirma que não há, certamente, livre arbítrio? Porque ele não pode desenvolver seu sistema moral sem afirmar a inexistência do livre arbítrio. Ele deseja que nenhum homem seja culpado de pecado. Portanto, ele tem de convencer seus discípulos de que Deus não os fizeram livres e, por conseguinte, culpáveis. Nenhuma mínima dúvida cristã pode passar pela mente do determinista. Nenhum demônio pode sussurrá-lo, numa hora de angústia, que, talvez, o promotor de vendas fraudulento foi o responsável por ele estar no asilo. Nenhum ataque de ceticismo deve sugeri-lo que, talvez, o professor primário foi o culpado pela surra de matar dada no pequeno garoto. A fé do determinista deve permanecer firme, senão a fraqueza da natureza humana, certamente, fará com que os homens se enfureçam quando são difamados ou devolvam o soco, quando são socados. Em resumo, o livre arbítrio parecerá, em princípio, pertencer ao Desconhecido. Mesmo assim, o Sr. Blatchford não conseguirá pregar o que a ele pareça mera caridade sem afirmar, sobre isso, um dogma. E eu não conseguirei pregar o que me parece ser mera honestidade, sem afirmar outro.
Aqui está a falha do agnosticismo. Que a nossa visão cotidiana das coisas que sabemos (do senso comum), realmente depende de nossa visão de coisas que não sabemos (do senso comum). Tudo bem dizer a um homem, como faz o agnóstico, “cultive seu jardim.” Mas, suponha que ele ignore tudo fora do seu jardim, inclusive o sol e a chuva?
Isso é fato real. Você não pode viver sem dogmas sobre as coisas. Você não pode agir vinte e quatro horas por dia sem decidir se as pessoas são responsáveis ou não. A Teologia é um produto muito mais prático que a Química.
Alguns deterministas imaginam que o cristianismo inventou um dogma como o livre arbítrio por diletantismo – uma simples contradição. Isso é absurdo. Você se confronta com contradições onde quer que você esteja. Os deterministas me dizem, com um grau de verdade, que o determinismo não faz diferença na vida diária. Isso significa que, apesar do determinismo saber que os homens não têm livre arbítrio, mesmo assim, ele continua tratando-os com se tivessem.
A diferença, então, é muito simples. O cristão coloca a contradição em sua filosofia. O determinista a coloca em seus hábitos diários. O cristão afirma, como um mistério declarado, o que o determinista chama nonsense. O determinista tem o mesmo nonsense em seu café da manhã, em seu almoço, em seu chá e em seu jantar, todos os dias de sua vida.
O cristão, repito, coloca o mistério em sua filosofia. Este mistério, pela sua escuridão, ilumina todas as coisas. Depois disso, vida é vida, pão é pão e queijo é queijo: ele pode sorrir e lutar. O determinista torna a questão lógica e lúcida: e à luz dessa lucidez, todas as coisas são obscurecidas, as palavras perdem o sentido, e as ações, o objetivo. Ele fez de sua filosofia um silogismo e dele próprio um lunático delirante. [3]
Essa não é uma questão entre misticismo e racionalidade. É uma questão entre misticismo e loucura. Pois, o misticismo, e somente o misticismo, tem mantido o homem são, desde o início dos tempos. Todos os caminhos retilíneos da lógica levam ao caos, à anarquia ou à obediência passiva, por tratar o universo como uma pura engrenagem material ou então como uma ilusão da mente. É somente o místico, o homem que aceita as contradições, que pode sorrir e caminhar livremente pelo mundo.
Você está surpreso pelo fato de que a mesma civilização que acreditou na Trindade descobriu a máquina a vapor? Todos as grandes doutrinas cristãs são deste tipo. Examine-as você mesmo, cuidadosa e justamente. Tenho espaço para apenas dois exemplos. O primeiro é a idéia cristã de Deus. Tal como temos todos sido agnósticos, também temos sido panteístas. Com uma ingenuidade infantil é fácil dizer, “Por que o homem não pode enxergar Deus num vôo de um pássaro e ser feliz?” Mas, vem o tempo em que, indo além, dizemos, “Se Deu está nos pássaros, sejamos não só bonitos como eles, mas sejamos cruéis como os pássaros, vivamos a vida louca e colorida da natureza.” E algo que mantém sua própria inteireza dentro de nós resiste e nos alerta, “Meu amigo, você está enlouquecendo.”
Então vem o outro lado e dizemos: “Os pássaros são odiosos, as flores são vergonhosas. Um universo com tais coisas não merece meu tributo.” E a coisa inteira em nosso íntimo diz: “Meu amigo, você está enlouquecendo.”
Então vem uma coisa fantástica e nos diz: “Você está certo de gostar dos pássaros, mas errado em copiá-los. Há uma coisa boa em todas essas coisas, mas todas essas coisas são menores que você. O Universo está certo, mas o Mundo está errado. A coisa por trás de tudo não é cruel como um pássaro, mas bondosa como um homem.” E a coisa inteira dentro de nós diz: “Encontrei o caminho da montanha.”
Assim, quando o cristianismo surgiu, o mundo antigo tinha acabado de chegar a esse dilema. Ele ouviu a Voz do Culto à Natureza que rezava, “Todas as coisas naturais são boas. A guerra é saudável como as flores. A luxúria é tão cândida como as estrelas.” E ele ouviu também o lamento dos desesperados Estóicos e Idealistas. “As flores estão em guerra: as estrelas estão maculadas: nada é certo além da consciência do homem e esta foi completamente vencida.”
Ambas as visões eram consistentes, filosóficas e exaltadas: suas únicas desvantagens eram que a primeira levava logicamente ao assassinato, e a segunda, ao suicídio. Depois de uma agonia do pensamento, o mundo descobriu um caminho saudável entre os dois. Era o Deus cristão. Ele fez a Natureza mas, Ele era Homem.
Finalmente, há uma palavra a dizer sobre a Queda. Só poderá ser uma palavra, e ela é esta. Sem a doutrina da Queda, toda a idéia do progresso é sem sentido. O Sr. Blatchford diz que não houve uma Queda, mas uma ascensão gradual. Mas, a própria palavra “ascensão” implica que você saiba em que direção está ascendendo. A menos que haja um padrão, você não pode se dizer em ascensão ou em queda. Mas o ponto principal é que a Queda, tal como todos os outros largos caminhos do cristianismo, está embebida, invisivelmente, na linguagem comum. Qualquer um pode dizer, “Muito poucos homens são realmente humanos.” Ninguém diria, “Muito poucas baleias são realmente, ‘baleiais’.”
Se você quisesse dissuadir um homem de beber sua décima dose de whisky, você bateria em suas costas e diria, “Seja homem.” Ninguém que desejasse dissuadir um crocodilo de comer seu décimo explorador, bateria nas costas da fera e diria, “Seja crocodilo.” Pois, não temos nenhuma noção de um crocodilo perfeito, nenhuma alegoria de uma baleia expulsa do Éden ‘baleial’. Se uma baleia viesse ao nosso encontro e dissesse: “Eu sou um novo tipo de baleia, eu abandonei a ‘baleiez’,” não deveríamos nos preocupar. Mas, se um homem viesse até nós (como muitos logo virão) e dissesse, “Eu sou um novo tipo homem. Eu sou o super-homem. Eu abandonei a misericórdia e a justiça;” deveríamos responder, “Sem dúvida você é novo, mas nem um pouco parecido com o homem perfeito, pois este sempre esteve na mente de Deus. Caímos com Adão e ascenderemos com Cristo; mas preferimos cair com Satã, que ascender com você.”
Publicado em The American Chesterton Society
[1]Reproduzido de The Religious Doubts of Democracy (1904) e de "The Blatchford Controversies" (in The Collected Works of G.K. Chesterton, Vol. 1) (N. do T.)
[2] Nome que a Economia tinha na época. (N. do T.)
[3] A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina. Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo? Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem (...) mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. (1 Cor. 1, 18; 20-21; 23;25) (N. do T.)
Não tenho a intenção de desrespeitar o Sr. Blatchford dizendo que nossa dificuldade, em grande medida, está em que ele, como a maioria das pessoas inteligentes atualmente, não entende o que é Teologia. Equivocar-se em ciência é uma coisa, mas equivocar-se sobre a natureza da ciência é outra. Na medida em que leio “God and My Neighbour (Deus e o meu vizinho)”, cresce minha convicção de que ele pensa que Teologia é o estudo sobre se as diversas lendas que a Bíblia conta sobre Deus é historicamente demonstrável. É como se ele estivesse tentando provar a um sujeito que o Socialismo seria, na verdade, a sólida ciência da Economia Política[2] e começasse a perceber, no meio do caminho, que o sujeito considerava a Economia Política o estudo sobre se os políticos eram econômicos.
É muito difícil de explicar brevemente a natureza de todo um ativo campo de estudo, tanto quanto o é explicar o que é política ou ética. Pois, quanto maior e mais óbvia é uma coisa, e quanto mais ela te encara face a face, mais difícil é defini-la. Todo mundo pode definir concologia.. Ninguém pode definir a moral.
No entanto, toca-nos tentar explicar essa filosofia religiosa que era, e de novo será, o estudo dos maiores intelectuais e a fundamentação das mais fortes nações, mas que nossa diminuta civilização, há algum tempo, esqueceu, da mesma forma que esqueceu como dançar e como se vestir decentemente. Tentarei explicar porque eu considero necessária uma filosofia religiosa e porque eu considero o cristianismo a melhor filosofia religiosa. Mas, antes que eu faça isso, quero que você se lembre de dois fatos históricos. Não peço para que você tire deles as minhas conclusões ou mesmo qualquer conclusão. Peço que você se lembre deles como simples fatos, ao longo da discussão.
1. O cristianismo surgiu e se expandiu num mundo muito refinado e cínico – num mundo muito moderno. Lucrécio era tão materialista quanto Haeckel e um escritor muito mais persuasivo. O mundo romano tinha lido “God and My Neighbour”, e de uma maneira um tanto sonolenta o considerou verdadeiro. Vale a pena notar que as religiões quase sempre surgem nessas civilizações céticas. Um livro recente sobre a literatura pre-maometana da Arábia descreve uma vida inteiramente luxuosa e refinada. Foi assim com Buda, nascido em berço de ouro, numa antiga civilização. Foi assim com o Puritanismo na Inglaterra e com a Restauração Católica na França e Itália, ambas advindas do racionalismo da Renascença. É assim hoje, e será sempre assim. Vá a dois dos mais modernos centros do pensamento moderno, Paris e EUA, e você encontra-los-á cheios de anjos e demônios, de velhos mistérios e novos profetas. O racionalismo está lutando pela própria vida contra as novas e vigorosas superstições.
2. O cristianismo, que é uma religião muito mística, tem sido, contudo, a religião das porções mais práticas da humanidade. Ele tem mais paradoxos que as filosofias orientais, mas ele também constrói as melhores rodovias. O mussulmano tem uma concepção lógica e pura de Deus, o Alah monístico. Mas ele permanece bárbaro na Europa e a grama não renascerá por onde ele passar. O cristão tem um Deus Trino, “uma trindade oblíqua,” que parece uma caprichosa contradição em termos. Mas, em ação, ele abarca a terra e, mesmo, o mais inteligente oriental só pode com ele lutar, imitando-o a princípio. O Oriente tem sua lógica e vive do arroz. A cristandade tem seus mistérios – e seus automóveis. Não importa a inferência. Como eu disse, registremos os fatos.
Agora com essas duas coisas em mente, deixe-me tentar explicar o que é a Teologia Cristã.
O agnosticismo completo é a atitude óbvia para o homem. Todos somos agnósticos até descobrirmos que o agnosticismo não funciona. Então, adotamos alguma filosofia, a do Sr. Blachford ou a minha, ou alguma outra, pois, o Sr. Blatchford não é mais agnóstico que eu, é claro. O agnóstico diria não estar certo se o homem é responsável pelos seus pecados. O Sr. Blatchford diz que ele tem certeza de que o homem não é.
Aqui temos a semente de toda uma imensa árvore de dogmas. Por que o Sr. Blatchford vai além do agnosticismo e afirma que não há, certamente, livre arbítrio? Porque ele não pode desenvolver seu sistema moral sem afirmar a inexistência do livre arbítrio. Ele deseja que nenhum homem seja culpado de pecado. Portanto, ele tem de convencer seus discípulos de que Deus não os fizeram livres e, por conseguinte, culpáveis. Nenhuma mínima dúvida cristã pode passar pela mente do determinista. Nenhum demônio pode sussurrá-lo, numa hora de angústia, que, talvez, o promotor de vendas fraudulento foi o responsável por ele estar no asilo. Nenhum ataque de ceticismo deve sugeri-lo que, talvez, o professor primário foi o culpado pela surra de matar dada no pequeno garoto. A fé do determinista deve permanecer firme, senão a fraqueza da natureza humana, certamente, fará com que os homens se enfureçam quando são difamados ou devolvam o soco, quando são socados. Em resumo, o livre arbítrio parecerá, em princípio, pertencer ao Desconhecido. Mesmo assim, o Sr. Blatchford não conseguirá pregar o que a ele pareça mera caridade sem afirmar, sobre isso, um dogma. E eu não conseguirei pregar o que me parece ser mera honestidade, sem afirmar outro.
Aqui está a falha do agnosticismo. Que a nossa visão cotidiana das coisas que sabemos (do senso comum), realmente depende de nossa visão de coisas que não sabemos (do senso comum). Tudo bem dizer a um homem, como faz o agnóstico, “cultive seu jardim.” Mas, suponha que ele ignore tudo fora do seu jardim, inclusive o sol e a chuva?
Isso é fato real. Você não pode viver sem dogmas sobre as coisas. Você não pode agir vinte e quatro horas por dia sem decidir se as pessoas são responsáveis ou não. A Teologia é um produto muito mais prático que a Química.
Alguns deterministas imaginam que o cristianismo inventou um dogma como o livre arbítrio por diletantismo – uma simples contradição. Isso é absurdo. Você se confronta com contradições onde quer que você esteja. Os deterministas me dizem, com um grau de verdade, que o determinismo não faz diferença na vida diária. Isso significa que, apesar do determinismo saber que os homens não têm livre arbítrio, mesmo assim, ele continua tratando-os com se tivessem.
A diferença, então, é muito simples. O cristão coloca a contradição em sua filosofia. O determinista a coloca em seus hábitos diários. O cristão afirma, como um mistério declarado, o que o determinista chama nonsense. O determinista tem o mesmo nonsense em seu café da manhã, em seu almoço, em seu chá e em seu jantar, todos os dias de sua vida.
O cristão, repito, coloca o mistério em sua filosofia. Este mistério, pela sua escuridão, ilumina todas as coisas. Depois disso, vida é vida, pão é pão e queijo é queijo: ele pode sorrir e lutar. O determinista torna a questão lógica e lúcida: e à luz dessa lucidez, todas as coisas são obscurecidas, as palavras perdem o sentido, e as ações, o objetivo. Ele fez de sua filosofia um silogismo e dele próprio um lunático delirante. [3]
Essa não é uma questão entre misticismo e racionalidade. É uma questão entre misticismo e loucura. Pois, o misticismo, e somente o misticismo, tem mantido o homem são, desde o início dos tempos. Todos os caminhos retilíneos da lógica levam ao caos, à anarquia ou à obediência passiva, por tratar o universo como uma pura engrenagem material ou então como uma ilusão da mente. É somente o místico, o homem que aceita as contradições, que pode sorrir e caminhar livremente pelo mundo.
Você está surpreso pelo fato de que a mesma civilização que acreditou na Trindade descobriu a máquina a vapor? Todos as grandes doutrinas cristãs são deste tipo. Examine-as você mesmo, cuidadosa e justamente. Tenho espaço para apenas dois exemplos. O primeiro é a idéia cristã de Deus. Tal como temos todos sido agnósticos, também temos sido panteístas. Com uma ingenuidade infantil é fácil dizer, “Por que o homem não pode enxergar Deus num vôo de um pássaro e ser feliz?” Mas, vem o tempo em que, indo além, dizemos, “Se Deu está nos pássaros, sejamos não só bonitos como eles, mas sejamos cruéis como os pássaros, vivamos a vida louca e colorida da natureza.” E algo que mantém sua própria inteireza dentro de nós resiste e nos alerta, “Meu amigo, você está enlouquecendo.”
Então vem o outro lado e dizemos: “Os pássaros são odiosos, as flores são vergonhosas. Um universo com tais coisas não merece meu tributo.” E a coisa inteira em nosso íntimo diz: “Meu amigo, você está enlouquecendo.”
Então vem uma coisa fantástica e nos diz: “Você está certo de gostar dos pássaros, mas errado em copiá-los. Há uma coisa boa em todas essas coisas, mas todas essas coisas são menores que você. O Universo está certo, mas o Mundo está errado. A coisa por trás de tudo não é cruel como um pássaro, mas bondosa como um homem.” E a coisa inteira dentro de nós diz: “Encontrei o caminho da montanha.”
Assim, quando o cristianismo surgiu, o mundo antigo tinha acabado de chegar a esse dilema. Ele ouviu a Voz do Culto à Natureza que rezava, “Todas as coisas naturais são boas. A guerra é saudável como as flores. A luxúria é tão cândida como as estrelas.” E ele ouviu também o lamento dos desesperados Estóicos e Idealistas. “As flores estão em guerra: as estrelas estão maculadas: nada é certo além da consciência do homem e esta foi completamente vencida.”
Ambas as visões eram consistentes, filosóficas e exaltadas: suas únicas desvantagens eram que a primeira levava logicamente ao assassinato, e a segunda, ao suicídio. Depois de uma agonia do pensamento, o mundo descobriu um caminho saudável entre os dois. Era o Deus cristão. Ele fez a Natureza mas, Ele era Homem.
Finalmente, há uma palavra a dizer sobre a Queda. Só poderá ser uma palavra, e ela é esta. Sem a doutrina da Queda, toda a idéia do progresso é sem sentido. O Sr. Blatchford diz que não houve uma Queda, mas uma ascensão gradual. Mas, a própria palavra “ascensão” implica que você saiba em que direção está ascendendo. A menos que haja um padrão, você não pode se dizer em ascensão ou em queda. Mas o ponto principal é que a Queda, tal como todos os outros largos caminhos do cristianismo, está embebida, invisivelmente, na linguagem comum. Qualquer um pode dizer, “Muito poucos homens são realmente humanos.” Ninguém diria, “Muito poucas baleias são realmente, ‘baleiais’.”
Se você quisesse dissuadir um homem de beber sua décima dose de whisky, você bateria em suas costas e diria, “Seja homem.” Ninguém que desejasse dissuadir um crocodilo de comer seu décimo explorador, bateria nas costas da fera e diria, “Seja crocodilo.” Pois, não temos nenhuma noção de um crocodilo perfeito, nenhuma alegoria de uma baleia expulsa do Éden ‘baleial’. Se uma baleia viesse ao nosso encontro e dissesse: “Eu sou um novo tipo de baleia, eu abandonei a ‘baleiez’,” não deveríamos nos preocupar. Mas, se um homem viesse até nós (como muitos logo virão) e dissesse, “Eu sou um novo tipo homem. Eu sou o super-homem. Eu abandonei a misericórdia e a justiça;” deveríamos responder, “Sem dúvida você é novo, mas nem um pouco parecido com o homem perfeito, pois este sempre esteve na mente de Deus. Caímos com Adão e ascenderemos com Cristo; mas preferimos cair com Satã, que ascender com você.”
Publicado em The American Chesterton Society
[1]Reproduzido de The Religious Doubts of Democracy (1904) e de "The Blatchford Controversies" (in The Collected Works of G.K. Chesterton, Vol. 1) (N. do T.)
[2] Nome que a Economia tinha na época. (N. do T.)
[3] A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina. Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo? Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem (...) mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. (1 Cor. 1, 18; 20-21; 23;25) (N. do T.)
Teoria Materialista da História[1]
G. K. Chesterton
A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma falácia, de fato, muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes. É como dizer que porque o homem pode andar somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos. O homem não pode viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas, sugerir que esses têm sido os motivos para todos os seus movimentos na história é como dizer que o objetivo de todas as suas marchas militares ou peregrinações religiosas deve ter sido a Perna Dourada da Senhora Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do Senhor Willoughby Patterne. Mas, são esses movimentos que constituem a história da espécie humana e sem eles não haveria praticamente história. Vacas podem ser puramente econômicas, no sentido de que não podemos ver que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas ações externas, pelo menos; mas, essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios, importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais ativo quadrúpede não inspirou um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes.
Mas, com relação a serem econômicos os movimentos que fazem a historia do homem, podemos dizer que a história somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena. Será difícil afirmar que os Cruzados saíram de suas casas em direção a uma horrível selvageria da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Ártico foram em direção ao norte imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o sul. E se deixarmos, de fora da história humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará de ser humana, mas deixará de ser história. O esboço da história é feito dessas curvas e ângulos decisivos, determinados pela vontade do homem. A história econômica não seria sequer história
Mas há uma falácia mais profunda além deste fato óbvio; os homens não precisam viver por comida meramente porque eles não podem viver sem comida. A verdade é que a coisa mais presente na mente do homem não é a engrenagem econômica necessária a sua existência, mas a própria existência; o mundo que ele vê quando acorda toda manhã e a natureza de sua posição geral nesse mundo. Há algo que está mais próximo dele que a sobrevivência e esse algo é a vida. Pois, tão logo ele se lembre qual trabalho produz exatamente seu salário e qual salário produz exatamente sua refeição, ele reflete dez vezes que hoje é um dia lindo, ou que este é um mundo estranho, ou se pergunta se a vida vale a pena ser vivida, ou se seu casamento é um fracasso, ou se ele está satisfeito ou confuso com seus filhos, ou se lembra de sua própria juventude, ou ele, de alguma forma, vagamente revê o destino misterioso do homem.
Isso é verdade para a maioria dos homens, mesmo para os escravos assalariados de nosso mórbido industrialismo moderno, que pelo seu caráter hediondo e sua desumanidade tem, realmente, posto a questão econômica em primeiro plano. É muito mais verdade para os numerosos camponeses, caçadores e pescadores que constituem a massa real da humanidade. Mesmo aqueles áridos pedantes, que pensam que a ética depende da economia, devem admitir que a economia depende da existência. E nossos devaneios e dúvidas cotidianos são sobre a existência; não sobre como podemos viver, mas sobre porque vivemos. E a prova disso é simples; tão simples quanto o suicídio. Vire o universo de cabeça para baixo em sua mente e você virará todos os economistas de cabeça para baixo. Suponha que um homem deseje morrer e que o professor de economia se torne um tédio com sua elaborada explicação de como ele deve viver. E todas as iniciativas e decisões que fazem do nosso passado humano uma história têm esse caráter de desviar o curso direto da pura economia. Tal como o economista deve ser desculpado por calcular o salário de um suicida, ele deve também ser desculpado por prover uma pensão de aposentadoria para um mártir. Tal como ele não precisa se preocupar com a pensão de um mártir, ele não deve se preocupar com a família de um monge. O plano do economista é modificado por insignificantes e variados detalhes como no caso de um homem ser um soldado e morrer pelo seu próprio país, de um homem ser um camponês e amar especialmente sua terra, de um homem ser mais ou menos influenciado por qualquer religião que proíba ou permita isso ou aquilo. Mas tudo isso se resume não a um cálculo econômico sobre despesas, mas a uma elementar consideração sobre a vida. Tudo isso se resume ao que o homem fundamentalmente sente, quando ele contempla, dessas janelas estranhas que ele chama os olhos, essa estranha visão que ele chama o mundo.
[1] Excerto do capítulo VII (‘The War of the Gods and Demons’ – A Guerra dos Deuses e Demônios) do livro ‘The Everlasting Man’ (O Homem Eterno). Quem se interessar pode ‘baixar’ uma cópia grátis desse livro, em inglês, do sítio The On-Line Books. Até onde eu sei, há uma tradução desse livro para o português, pela Editora Quadrante, que está fora de catálogo no momento. Eu não a conheço. (N. do T.)
A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma falácia, de fato, muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes. É como dizer que porque o homem pode andar somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos. O homem não pode viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas, sugerir que esses têm sido os motivos para todos os seus movimentos na história é como dizer que o objetivo de todas as suas marchas militares ou peregrinações religiosas deve ter sido a Perna Dourada da Senhora Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do Senhor Willoughby Patterne. Mas, são esses movimentos que constituem a história da espécie humana e sem eles não haveria praticamente história. Vacas podem ser puramente econômicas, no sentido de que não podemos ver que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas ações externas, pelo menos; mas, essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios, importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais ativo quadrúpede não inspirou um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes.
Mas, com relação a serem econômicos os movimentos que fazem a historia do homem, podemos dizer que a história somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena. Será difícil afirmar que os Cruzados saíram de suas casas em direção a uma horrível selvageria da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Ártico foram em direção ao norte imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o sul. E se deixarmos, de fora da história humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará de ser humana, mas deixará de ser história. O esboço da história é feito dessas curvas e ângulos decisivos, determinados pela vontade do homem. A história econômica não seria sequer história
Mas há uma falácia mais profunda além deste fato óbvio; os homens não precisam viver por comida meramente porque eles não podem viver sem comida. A verdade é que a coisa mais presente na mente do homem não é a engrenagem econômica necessária a sua existência, mas a própria existência; o mundo que ele vê quando acorda toda manhã e a natureza de sua posição geral nesse mundo. Há algo que está mais próximo dele que a sobrevivência e esse algo é a vida. Pois, tão logo ele se lembre qual trabalho produz exatamente seu salário e qual salário produz exatamente sua refeição, ele reflete dez vezes que hoje é um dia lindo, ou que este é um mundo estranho, ou se pergunta se a vida vale a pena ser vivida, ou se seu casamento é um fracasso, ou se ele está satisfeito ou confuso com seus filhos, ou se lembra de sua própria juventude, ou ele, de alguma forma, vagamente revê o destino misterioso do homem.
Isso é verdade para a maioria dos homens, mesmo para os escravos assalariados de nosso mórbido industrialismo moderno, que pelo seu caráter hediondo e sua desumanidade tem, realmente, posto a questão econômica em primeiro plano. É muito mais verdade para os numerosos camponeses, caçadores e pescadores que constituem a massa real da humanidade. Mesmo aqueles áridos pedantes, que pensam que a ética depende da economia, devem admitir que a economia depende da existência. E nossos devaneios e dúvidas cotidianos são sobre a existência; não sobre como podemos viver, mas sobre porque vivemos. E a prova disso é simples; tão simples quanto o suicídio. Vire o universo de cabeça para baixo em sua mente e você virará todos os economistas de cabeça para baixo. Suponha que um homem deseje morrer e que o professor de economia se torne um tédio com sua elaborada explicação de como ele deve viver. E todas as iniciativas e decisões que fazem do nosso passado humano uma história têm esse caráter de desviar o curso direto da pura economia. Tal como o economista deve ser desculpado por calcular o salário de um suicida, ele deve também ser desculpado por prover uma pensão de aposentadoria para um mártir. Tal como ele não precisa se preocupar com a pensão de um mártir, ele não deve se preocupar com a família de um monge. O plano do economista é modificado por insignificantes e variados detalhes como no caso de um homem ser um soldado e morrer pelo seu próprio país, de um homem ser um camponês e amar especialmente sua terra, de um homem ser mais ou menos influenciado por qualquer religião que proíba ou permita isso ou aquilo. Mas tudo isso se resume não a um cálculo econômico sobre despesas, mas a uma elementar consideração sobre a vida. Tudo isso se resume ao que o homem fundamentalmente sente, quando ele contempla, dessas janelas estranhas que ele chama os olhos, essa estranha visão que ele chama o mundo.
[1] Excerto do capítulo VII (‘The War of the Gods and Demons’ – A Guerra dos Deuses e Demônios) do livro ‘The Everlasting Man’ (O Homem Eterno). Quem se interessar pode ‘baixar’ uma cópia grátis desse livro, em inglês, do sítio The On-Line Books. Até onde eu sei, há uma tradução desse livro para o português, pela Editora Quadrante, que está fora de catálogo no momento. Eu não a conheço. (N. do T.)
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História da Igreja- Geral
Para entender a Idade Média
Por Gilbert Keith Chesterton
E por que homens que não conhecem a História... pensam que a conhecem?
É inteiramente razoável que os homens prósperos do nosso tempo não saibam História. Se a conhecessem, teriam de conhecer a história muito pouco edificante de como se tornaram prósperos...
É inteiramente razoável, digo, que não saibam História: mas por que raios pensam que sabem? Aqui está uma opinião, tomada a esmo do livro de um dos mais cultos dentre os nossos jovens críticos, obra muito bem escrita e inteiramente digna de confiança – quando trata do seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz esse escritor: “Na Idade Média, houve pouco ou nenhum avanço social ou político” até a Reforma e a Renascença.
Ora, eu poderia igualmente bem afirmar que, no século XIX, houve pouco avanço na ciência e na técnica até a vinda de William Morris (1), e depois justificar essa afirmação dizendo que não tenho nenhum interesse pessoal por teares a vapor ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Porque isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: que não tem nenhum interesse pessoal por arautos ou abades mitrados. Tudo isso está muito bem; mas por que, ao escrever sobre coisas que não existiam na Idade Média, esse autor sente a necessidade de dogmatizar sobre um assunto de que evidentemente nunca ouviu falar? E sobre o qual, apesar de tudo, talvez ainda se pudesse contar uma História muito interessante?
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(1) William Morris (1834-1896): Artista e escritor inglês, contribuiu com grande sucesso para a valorização e o aprimoramento das mais variadas formas de arte (desde a decoração até a arquitetura e a iluminura), chegando mesmo a fundar empresas bem-sucedidas nesse ramo (entre elas, a tipografia Kelmscott Press, em 1890). Ao fim da vida, deixou de lado os seus êxitos artísticos e empresariais para dedicar-se a difusão de idéias socialistas.
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Pouco antes da conquista pelos normandos (2), países como o nosso apresentavam um feudalismo ainda incipiente e completamente pulverizado, sulcado por contínuas ondas de bárbaros, bárbaros que nunca tinham montado um cavalo. Praticamente não havia casa de pedra ou de tijolo na Inglaterra; quase não havia estradas, apenas sendas batidas; praticamente não havia lei, apenas costumes locais. Essa era a Idade das Trevas, da qual surgiria a Idade Média.
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(2) A conquista da Inglaterra pelos normandos comandados por Guilherme o conquistador ocorreu no ano de 1066.
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Mas tomemos agora a Baixa Idade Média, duzentos anos depois da conquista normanda e praticamente outro tanto antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os cidadãos são privilegiados e importantes; os trabalhadores organizaram-se em Corporações de Ofício livres e responsáveis; os Parlamentos são poderosos e litigam com os próprios reis; a escravidão desapareceu quase por completo; abriram-se as grandes Universidades, que ministram esse programa de ensino tão admirado por Huxley (3); repúblicas tão orgulhosas e patrióticas como as dos antigos pagãos erguem-se como estátuas de mármore ao longo da costa mediterrânea; e por todo o norte os homens construíram igrejas tão grandiosas que os homens talvez nunca mais as igualem. E isso – que, na sua maior parte, foi realizado mais propriamente não em dois, mas em um século –, é a isso é o que o nosso crítico chama “pouco ou nenhum avanço social ou político”. Praticamente não há instituição moderna importante que tenha influenciado a sua vida – da escola em que estudou ao Parlamento que o governa –, que não teve os seus principais avanços na Idade Média.
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(3) Thomas Henry Huxley (1825-1895): biólogo inglês, amigo de Charles Darwin e um dos maiores defensores e divulgadores da teoria evolucionista, o que fez especialmente através do seu livro Man´s Place in Nature (“O lugar do homem na natureza”, 1863), em que pela primeira vez os princípios do evolucionismo são aplicados ao homem.
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Se alguém pensa que escrevo isso por pedantismo, espero poder mostrar-lhe em um momento que tenho um objetivo mais humilde e mais prático. Quero considerar a natureza da ignorância, e começo por dizer que, em qualquer sentido escolar e acadêmico, sou eu mesmo muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham (4) que tinha um grande conhecimento geral, eu diria que tenho uma grande ignorância geral.
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(4) Henry Peter, Lord Brougham (1778-1868): político britânico nascido em Edimburgo. Suas numerosas obras, às vezes contraditórias entre si, cobriram quase todos os ramos do conhecimento da época, tendo ele escrito sobre Filosofia, Teologia, Economia e até Matemática. Destacou-se também por ter fundado revistas e sociedades de difusão do conhecimento e por ter realizado reformas no Parlamento britânico.
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Só que este é exatamente o ponto a que pretendia chegar. É um conhecimento geral e uma ignorância geral: sei pouco de História, mas sei um pouco de quase toda a História. Não sei muito, digamos, sobre Martinho Lutero e sua Reforma, mas sei que ela fez uma diferença enorme; ora, não saber que o rápido progresso dos séculos XII e XIII fez uma diferença enorme é pelo menos tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Também não estou muito bem informado sobre os budistas, mas sei que se interessam por filosofia; não saber que os budistas se interessam por filosofia, acredite em mim, seria tão chocante como não saber que os medievais se interessavam pela experimentação e pelo progresso políticos.
Da mesma forma, não sei muito sobre Frederico o Grande. Na minha infância, a enorme coleção de volumes de Carlyle sobre o assunto inspirava-me medo: parecia haver tantas coisas a conhecer! No entanto, apesar desses receios, eu seria perfeitamente capaz de adivinhar, com uma razoável probabilidade de acerto, o tipo de assunto que esses volumes continham. Por exemplo, eu arriscaria (penso que não incorretamente) que os volumes deviam conter a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que, de tempos a tempos, se falaria de guerra; que se faria alguma menção de tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada caso se procurasse diligentemente, bem como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar de todos aqueles volumes, o seu grande autor diria se Frederico o Grande tivera um pai, se chegara a casar-se, se possuíra grandes amigos, se tivera algum hobby ou aficção literária de qualquer tipo, se havia morrido no campo de batalha ou na cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem suficiente para abrir um daqueles volumes, provavelmente teria encontrado alguma coisa, ao menos nessas linhas gerais.
Agora, troque a imagem; imagine o jornalista ou homem de letras comum, jovem e bem educado, recém-saído de uma escola pública ou faculdade, parado diante de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Digo-lhe que, de nove casos em dez, aquele jovem bem-educado não tem a menor noção do que iria encontrar naqueles volumes encadernados em couro. Pensa que irá encontrar discussões sobre as capacidades dos anjos de se equilibrarem sobre pontas de agulhas, e talvez o fizesse. Mas afirmo que ele não pensa – nem de longe – que irá encontrar um professor universitário a discutir quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade privada, comunismo, e todas as variadas idéias que, no nosso tempo, se dedicam a brigar em nome do futuro “socialismo”.
Igualmente, não sei muito sobre Maomé ou o maometanismo. Não levo o Alcorão para ler na cama toda noite. Mas, se em determinada noite o fizesse, há pelo menos um sentido em que sei o que não encontrarei nele. Suponho que a obra não transbordará de fortes encorajamentos ao culto dos ídolos; que não se cantarão ali em alta voz os louvores do politeísmo; que o caráter de Maomé não será submetido a nada que se parece com o ódio e o ridículo; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será enfatizada sem necessidade.
Mas troque novamente a imagem, e imagine o homem moderno (o pobre homem moderno) que tivesse levado um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que não há, um amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há.
Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará dormir – ou o fará acordar.
E por que homens que não conhecem a História... pensam que a conhecem?
É inteiramente razoável que os homens prósperos do nosso tempo não saibam História. Se a conhecessem, teriam de conhecer a história muito pouco edificante de como se tornaram prósperos...
É inteiramente razoável, digo, que não saibam História: mas por que raios pensam que sabem? Aqui está uma opinião, tomada a esmo do livro de um dos mais cultos dentre os nossos jovens críticos, obra muito bem escrita e inteiramente digna de confiança – quando trata do seu próprio tema, que é um tema moderno. Diz esse escritor: “Na Idade Média, houve pouco ou nenhum avanço social ou político” até a Reforma e a Renascença.
Ora, eu poderia igualmente bem afirmar que, no século XIX, houve pouco avanço na ciência e na técnica até a vinda de William Morris (1), e depois justificar essa afirmação dizendo que não tenho nenhum interesse pessoal por teares a vapor ou águas-vivas – o que certamente é o caso. Porque isto é tudo o que o escritor realmente quis dizer: que não tem nenhum interesse pessoal por arautos ou abades mitrados. Tudo isso está muito bem; mas por que, ao escrever sobre coisas que não existiam na Idade Média, esse autor sente a necessidade de dogmatizar sobre um assunto de que evidentemente nunca ouviu falar? E sobre o qual, apesar de tudo, talvez ainda se pudesse contar uma História muito interessante?
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(1) William Morris (1834-1896): Artista e escritor inglês, contribuiu com grande sucesso para a valorização e o aprimoramento das mais variadas formas de arte (desde a decoração até a arquitetura e a iluminura), chegando mesmo a fundar empresas bem-sucedidas nesse ramo (entre elas, a tipografia Kelmscott Press, em 1890). Ao fim da vida, deixou de lado os seus êxitos artísticos e empresariais para dedicar-se a difusão de idéias socialistas.
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Pouco antes da conquista pelos normandos (2), países como o nosso apresentavam um feudalismo ainda incipiente e completamente pulverizado, sulcado por contínuas ondas de bárbaros, bárbaros que nunca tinham montado um cavalo. Praticamente não havia casa de pedra ou de tijolo na Inglaterra; quase não havia estradas, apenas sendas batidas; praticamente não havia lei, apenas costumes locais. Essa era a Idade das Trevas, da qual surgiria a Idade Média.
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(2) A conquista da Inglaterra pelos normandos comandados por Guilherme o conquistador ocorreu no ano de 1066.
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Mas tomemos agora a Baixa Idade Média, duzentos anos depois da conquista normanda e praticamente outro tanto antes do início da Reforma. As grandes cidades surgiram; os cidadãos são privilegiados e importantes; os trabalhadores organizaram-se em Corporações de Ofício livres e responsáveis; os Parlamentos são poderosos e litigam com os próprios reis; a escravidão desapareceu quase por completo; abriram-se as grandes Universidades, que ministram esse programa de ensino tão admirado por Huxley (3); repúblicas tão orgulhosas e patrióticas como as dos antigos pagãos erguem-se como estátuas de mármore ao longo da costa mediterrânea; e por todo o norte os homens construíram igrejas tão grandiosas que os homens talvez nunca mais as igualem. E isso – que, na sua maior parte, foi realizado mais propriamente não em dois, mas em um século –, é a isso é o que o nosso crítico chama “pouco ou nenhum avanço social ou político”. Praticamente não há instituição moderna importante que tenha influenciado a sua vida – da escola em que estudou ao Parlamento que o governa –, que não teve os seus principais avanços na Idade Média.
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(3) Thomas Henry Huxley (1825-1895): biólogo inglês, amigo de Charles Darwin e um dos maiores defensores e divulgadores da teoria evolucionista, o que fez especialmente através do seu livro Man´s Place in Nature (“O lugar do homem na natureza”, 1863), em que pela primeira vez os princípios do evolucionismo são aplicados ao homem.
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Se alguém pensa que escrevo isso por pedantismo, espero poder mostrar-lhe em um momento que tenho um objetivo mais humilde e mais prático. Quero considerar a natureza da ignorância, e começo por dizer que, em qualquer sentido escolar e acadêmico, sou eu mesmo muito ignorante. Assim como dizemos de um homem como Lord Brougham (4) que tinha um grande conhecimento geral, eu diria que tenho uma grande ignorância geral.
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(4) Henry Peter, Lord Brougham (1778-1868): político britânico nascido em Edimburgo. Suas numerosas obras, às vezes contraditórias entre si, cobriram quase todos os ramos do conhecimento da época, tendo ele escrito sobre Filosofia, Teologia, Economia e até Matemática. Destacou-se também por ter fundado revistas e sociedades de difusão do conhecimento e por ter realizado reformas no Parlamento britânico.
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Só que este é exatamente o ponto a que pretendia chegar. É um conhecimento geral e uma ignorância geral: sei pouco de História, mas sei um pouco de quase toda a História. Não sei muito, digamos, sobre Martinho Lutero e sua Reforma, mas sei que ela fez uma diferença enorme; ora, não saber que o rápido progresso dos séculos XII e XIII fez uma diferença enorme é pelo menos tão extraordinário como nunca ter ouvido falar de Martinho Lutero. Também não estou muito bem informado sobre os budistas, mas sei que se interessam por filosofia; não saber que os budistas se interessam por filosofia, acredite em mim, seria tão chocante como não saber que os medievais se interessavam pela experimentação e pelo progresso políticos.
Da mesma forma, não sei muito sobre Frederico o Grande. Na minha infância, a enorme coleção de volumes de Carlyle sobre o assunto inspirava-me medo: parecia haver tantas coisas a conhecer! No entanto, apesar desses receios, eu seria perfeitamente capaz de adivinhar, com uma razoável probabilidade de acerto, o tipo de assunto que esses volumes continham. Por exemplo, eu arriscaria (penso que não incorretamente) que os volumes deviam conter a palavra “Prússia” em um ou mais lugares; que, de tempos a tempos, se falaria de guerra; que se faria alguma menção de tratados e fronteiras; que a palavra “Silésia” poderia ser encontrada caso se procurasse diligentemente, bem como os nomes de Maria Teresa e Voltaire; que em algum lugar de todos aqueles volumes, o seu grande autor diria se Frederico o Grande tivera um pai, se chegara a casar-se, se possuíra grandes amigos, se tivera algum hobby ou aficção literária de qualquer tipo, se havia morrido no campo de batalha ou na cama, e assim por diante. Se eu tivesse reunido coragem suficiente para abrir um daqueles volumes, provavelmente teria encontrado alguma coisa, ao menos nessas linhas gerais.
Agora, troque a imagem; imagine o jornalista ou homem de letras comum, jovem e bem educado, recém-saído de uma escola pública ou faculdade, parado diante de uma coleção ainda maior de livros ainda maiores das bibliotecas da Idade Média – digamos, todos os volumes de São Tomás de Aquino. Digo-lhe que, de nove casos em dez, aquele jovem bem-educado não tem a menor noção do que iria encontrar naqueles volumes encadernados em couro. Pensa que irá encontrar discussões sobre as capacidades dos anjos de se equilibrarem sobre pontas de agulhas, e talvez o fizesse. Mas afirmo que ele não pensa – nem de longe – que irá encontrar um professor universitário a discutir quase todas as coisas que Herbert Spencer discutiu: política, sociologia, formas de governo, monarquia, liberdade, anarquia, propriedade privada, comunismo, e todas as variadas idéias que, no nosso tempo, se dedicam a brigar em nome do futuro “socialismo”.
Igualmente, não sei muito sobre Maomé ou o maometanismo. Não levo o Alcorão para ler na cama toda noite. Mas, se em determinada noite o fizesse, há pelo menos um sentido em que sei o que não encontrarei nele. Suponho que a obra não transbordará de fortes encorajamentos ao culto dos ídolos; que não se cantarão ali em alta voz os louvores do politeísmo; que o caráter de Maomé não será submetido a nada que se parece com o ódio e o ridículo; e que a grande doutrina moderna da irrelevância da religião não será enfatizada sem necessidade.
Mas troque novamente a imagem, e imagine o homem moderno (o pobre homem moderno) que tivesse levado um volume de teologia medieval para a cama. Ele esperaria encontrar ali um pessimismo que não há, um fatalismo que não há, um amor à barbárie que não há, um desprezo pela razão que não há.
Aliás, seria na verdade muito bom que fizesse a experiência. Far-lhe-á bem de uma forma ou de outra: ou o fará dormir – ou o fará acordar.
A Filosofia para a Sala-de-Aula de Chesterton
Tradução e apresentação: Gabriele Greggersen
luna@spider.usp.br
O escritor britânico, nascido em 1874, Gilbert Keith Chesterton, que se tornou um dos maiores apologetas laicos do cristianismo, publicando mais de 60 livros em vida, destaca-se pela firmeza inabalável com que defendia suas idéias e atacava as contrárias, mostrando lógica, clareza e sobretudo, determinação. Dele diz a "The American Chesterton Society" (http://www.chesterton.org.):
Chesterton não foi apenas um criador de personagens interessantes: ele mesmo foi uma figura inegualável. Era um dos homens mais amados do seu tempo... Embora freqüentemente citado, Chesterton é amplamente negligenciado. Talvez seja de fato mais conveniente esquecê-lo, por ter conjurado tantos "ismos" que vieram a se realizar de fato: fatalismo, materialismo, relativismo moral, pouco caso por tudo que é religioso, censura pela imprensa (ao invés de censura da imprensa), depreciação estética das artes, crescimento dos males em detrimento dos benefícios trazidos pelos "grandes negócios" e dominação política, com os resultados nefastos, devidos à dependência de salários e a perda de liberdade individual. As palavras de Chesterton soam mais verdadeiras hoje do que quando foram escritas há mais de 60 anos atrás. Embora todos esses assuntos pareçam bastante sérios, é importante notar que Chesterton sempre os abordou com grande senso de humor. Os grandes dilemas mundiais tremem sob as suas sonoras risadas... Hoje ele nos oferece uma visão de sociedade saudável, baseada no sentimento do numinoso, de gratidão, e da dignidade humana dada por Deus. Mas sua singularidade e importância entre os críticos do Modernismo deve-se não só à profundidade de seu pensamento, mas também à acessibilidade de seu estilo - pelo fato de ter aplicado a linguagem comunicativa de jornalismo, recheada de senso crítico histórico, humor, graça, e bom senso, para expressar a sua visão... 'O que está errado com o mundo é que nós não perguntamos sobre o que está certo'.
Neste artigo, Chesterton elucida as razões da queixa do professor do famoso O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas(1), ou seja, o que está errado com essas escolas, que é precisamente a falta de ensino da lógica. Buscamos com esse exercício de tradução exemplificar ainda, como a nitidez da percepção clara desse clássico da literatura, veicula profundas lições intemporais, válidas especialmente para o educador cristão.
"The world will never starve for want of wonders, but only for want of wonder."
A Filosofia para a Sala-de-Aula
G.K. Chesterton (Daily News, 22 de junho de 1907)
O que o homem moderno precisa compreender é simplesmente que toda a argumentação começa com uma afirmação ponto-de-partida; isto é, com algo de que não se duvida. Pode-se, é claro, duvidar da afirmação base, mas, nesse caso, já estaria dando início a outra argumentação diferente, propondo que se parta de outra suposição. Todo argumento inicia por um dogma infalível, e esse dogma absoluto, por sua vez, só pode ser discutido, se recorrermos a outro dogma infalível: nunca se pode provar o primeiro ponto-de-partida (senão não seria ponto-de-partida).
Este é o be-a-bá do raciocínio lógico. E tem esta vantagem especial de que pode ser ensinado na escola, como qualquer outro be-a-bá. Não dar início a qualquer discussão sem antes declarar abertamente os postulados de cada um, é uma regra a ser ensinada tanto na filosofia, quanto na matemática de Euclides, ou em qualquer aula comum, usando giz e lousa. E penso que esse princípio poderia ser ensinado de forma simples e racional até mesmo ao jovem, antes de aventurar-se pelo mundo, à mercê da "lógica" e da filosofia imposta pela mídia.
Muitas das desorientações e dúvidas no campo religioso, surgem pelo fato de os céticos de hoje começarem sempre, falando sobre tudo aquilo em que eles não acreditam. Mas, mesmo de um cético, o que queremos saber primeiro é em que ele realmente acredita. Antes de começar a discutir, é preciso saber o que é que não se discute. Essa confusão aumenta infinitamente pelo fato de que todos os céticos de nosso tempo são céticos em diferentes graus dessa dissolução que é o ceticismo.
Agora, nós temos (espero), uma vantagem sobre todos esses novos filósofos sabidos: mantemo-nos em sã consciência. Acreditamos que existe, de fato, a catedral de São Paulo; e grande parte de nós acredita em São Paulo. É preciso deixar bem claro que acreditamos em muitas coisas que, embora façam parte de nossa existência, não podem ser demonstradas. Nem é preciso meter religião na história. Diria até que todos os homens de bom senso, acreditam firme e invariavelmente em umas quantas coisas que não foram provadas e que nem sequer podem ser provadas.
De forma resumida, são elas:
(1) todo ser humano em sã consciência acredita que o mundo e as pessoas ao redor dele são reais e não um produto da sua imaginação ou de um sonho. Ninguém começa a incendiar Londres, se está convencido de que seu criado logo o acordará para o café da manhã. Mas não temos provas, em nenhum momento, de que tudo não passa de um sonho. Que algo exista além de mim é uma afirmação que não está comprovada (nem se pode comprovar...).
(2) Todo homem em sã consciência, acredita não somente que este mundo existe, mas também que ele tem importância. Todo homem acredita que há, em nós, um tipo de obrigação de nos interessarmos por esta visão da vida. Não concordaria com alguém que dissesse, "Eu não escolhi esta farsa e ela me aborrece. Fiquei sabendo que uma senhora idosa está sendo assassinada no andar de baixo, mas eu vou é dormir ". O fato de que há um dever de melhorar coisas não feitas por nós é algo que não foi provado e não se pode provar.
(3) Todos os homens em sã consciência acreditam que existe uma certa coisa chamada eu, self ou ego e que é contínua. Não há nenhum centímetro de meu cérebro igual ao que era há dez anos atrás. Mas se eu salvei a vida de um homem numa batalha há dez anos atrás, fico orgulhoso; se me acovardei, sinto-me envergonhado. A existência desse "eu" axial nunca foi comprovada e não pode ser comprovada. Trata-se de uma questão mais do que "improvável" e que é muito debatida entre os metafísicos.
(4) Finalmente, a maioria dos homens em sã consciência acredita, e todos o admitem na prática, que têm um poder de escolha e responsabilidade por suas ações.
Seguramente é possível elaborar algumas afirmações simples como as acima, para que as pessoas possam saber a que se ater. E se os jovens do futuro não vão ter formação em religião, pode-se-lhes ensinar, pelo menos, de forma clara e firme, um pouco de bom senso, três ou quatro certezas do pensamento humano livre.
1. "- Lógica, disse o professor para si mesmo. – Por que não ensinam mais lógica nas escolas" (C.S. Lewis, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. São Paulo: Martins Fontes, 1997,p. 50) e, no final da história, o professor comenta novamente, agora em alto e bom tom:
" - Céus! O que é que estão ensinando às crianças na escola?" (Idem, p. 180).
luna@spider.usp.br
O escritor britânico, nascido em 1874, Gilbert Keith Chesterton, que se tornou um dos maiores apologetas laicos do cristianismo, publicando mais de 60 livros em vida, destaca-se pela firmeza inabalável com que defendia suas idéias e atacava as contrárias, mostrando lógica, clareza e sobretudo, determinação. Dele diz a "The American Chesterton Society" (http://www.chesterton.org.):
Chesterton não foi apenas um criador de personagens interessantes: ele mesmo foi uma figura inegualável. Era um dos homens mais amados do seu tempo... Embora freqüentemente citado, Chesterton é amplamente negligenciado. Talvez seja de fato mais conveniente esquecê-lo, por ter conjurado tantos "ismos" que vieram a se realizar de fato: fatalismo, materialismo, relativismo moral, pouco caso por tudo que é religioso, censura pela imprensa (ao invés de censura da imprensa), depreciação estética das artes, crescimento dos males em detrimento dos benefícios trazidos pelos "grandes negócios" e dominação política, com os resultados nefastos, devidos à dependência de salários e a perda de liberdade individual. As palavras de Chesterton soam mais verdadeiras hoje do que quando foram escritas há mais de 60 anos atrás. Embora todos esses assuntos pareçam bastante sérios, é importante notar que Chesterton sempre os abordou com grande senso de humor. Os grandes dilemas mundiais tremem sob as suas sonoras risadas... Hoje ele nos oferece uma visão de sociedade saudável, baseada no sentimento do numinoso, de gratidão, e da dignidade humana dada por Deus. Mas sua singularidade e importância entre os críticos do Modernismo deve-se não só à profundidade de seu pensamento, mas também à acessibilidade de seu estilo - pelo fato de ter aplicado a linguagem comunicativa de jornalismo, recheada de senso crítico histórico, humor, graça, e bom senso, para expressar a sua visão... 'O que está errado com o mundo é que nós não perguntamos sobre o que está certo'.
Neste artigo, Chesterton elucida as razões da queixa do professor do famoso O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas(1), ou seja, o que está errado com essas escolas, que é precisamente a falta de ensino da lógica. Buscamos com esse exercício de tradução exemplificar ainda, como a nitidez da percepção clara desse clássico da literatura, veicula profundas lições intemporais, válidas especialmente para o educador cristão.
"The world will never starve for want of wonders, but only for want of wonder."
A Filosofia para a Sala-de-Aula
G.K. Chesterton (Daily News, 22 de junho de 1907)
O que o homem moderno precisa compreender é simplesmente que toda a argumentação começa com uma afirmação ponto-de-partida; isto é, com algo de que não se duvida. Pode-se, é claro, duvidar da afirmação base, mas, nesse caso, já estaria dando início a outra argumentação diferente, propondo que se parta de outra suposição. Todo argumento inicia por um dogma infalível, e esse dogma absoluto, por sua vez, só pode ser discutido, se recorrermos a outro dogma infalível: nunca se pode provar o primeiro ponto-de-partida (senão não seria ponto-de-partida).
Este é o be-a-bá do raciocínio lógico. E tem esta vantagem especial de que pode ser ensinado na escola, como qualquer outro be-a-bá. Não dar início a qualquer discussão sem antes declarar abertamente os postulados de cada um, é uma regra a ser ensinada tanto na filosofia, quanto na matemática de Euclides, ou em qualquer aula comum, usando giz e lousa. E penso que esse princípio poderia ser ensinado de forma simples e racional até mesmo ao jovem, antes de aventurar-se pelo mundo, à mercê da "lógica" e da filosofia imposta pela mídia.
Muitas das desorientações e dúvidas no campo religioso, surgem pelo fato de os céticos de hoje começarem sempre, falando sobre tudo aquilo em que eles não acreditam. Mas, mesmo de um cético, o que queremos saber primeiro é em que ele realmente acredita. Antes de começar a discutir, é preciso saber o que é que não se discute. Essa confusão aumenta infinitamente pelo fato de que todos os céticos de nosso tempo são céticos em diferentes graus dessa dissolução que é o ceticismo.
Agora, nós temos (espero), uma vantagem sobre todos esses novos filósofos sabidos: mantemo-nos em sã consciência. Acreditamos que existe, de fato, a catedral de São Paulo; e grande parte de nós acredita em São Paulo. É preciso deixar bem claro que acreditamos em muitas coisas que, embora façam parte de nossa existência, não podem ser demonstradas. Nem é preciso meter religião na história. Diria até que todos os homens de bom senso, acreditam firme e invariavelmente em umas quantas coisas que não foram provadas e que nem sequer podem ser provadas.
De forma resumida, são elas:
(1) todo ser humano em sã consciência acredita que o mundo e as pessoas ao redor dele são reais e não um produto da sua imaginação ou de um sonho. Ninguém começa a incendiar Londres, se está convencido de que seu criado logo o acordará para o café da manhã. Mas não temos provas, em nenhum momento, de que tudo não passa de um sonho. Que algo exista além de mim é uma afirmação que não está comprovada (nem se pode comprovar...).
(2) Todo homem em sã consciência, acredita não somente que este mundo existe, mas também que ele tem importância. Todo homem acredita que há, em nós, um tipo de obrigação de nos interessarmos por esta visão da vida. Não concordaria com alguém que dissesse, "Eu não escolhi esta farsa e ela me aborrece. Fiquei sabendo que uma senhora idosa está sendo assassinada no andar de baixo, mas eu vou é dormir ". O fato de que há um dever de melhorar coisas não feitas por nós é algo que não foi provado e não se pode provar.
(3) Todos os homens em sã consciência acreditam que existe uma certa coisa chamada eu, self ou ego e que é contínua. Não há nenhum centímetro de meu cérebro igual ao que era há dez anos atrás. Mas se eu salvei a vida de um homem numa batalha há dez anos atrás, fico orgulhoso; se me acovardei, sinto-me envergonhado. A existência desse "eu" axial nunca foi comprovada e não pode ser comprovada. Trata-se de uma questão mais do que "improvável" e que é muito debatida entre os metafísicos.
(4) Finalmente, a maioria dos homens em sã consciência acredita, e todos o admitem na prática, que têm um poder de escolha e responsabilidade por suas ações.
Seguramente é possível elaborar algumas afirmações simples como as acima, para que as pessoas possam saber a que se ater. E se os jovens do futuro não vão ter formação em religião, pode-se-lhes ensinar, pelo menos, de forma clara e firme, um pouco de bom senso, três ou quatro certezas do pensamento humano livre.
1. "- Lógica, disse o professor para si mesmo. – Por que não ensinam mais lógica nas escolas" (C.S. Lewis, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. São Paulo: Martins Fontes, 1997,p. 50) e, no final da história, o professor comenta novamente, agora em alto e bom tom:
" - Céus! O que é que estão ensinando às crianças na escola?" (Idem, p. 180).
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