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segunda-feira, 5 de março de 2012

A Igreja Católica e o mundo atual




Não é a primeira vez, nestes 20 séculos, que a Igreja Católica parece perder relevância, fiéis e atualidade na mensagem. Isso aconteceu na queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C) e do Oriente (1453 d.C.), na invasão da Europa pelos mouros (711 d.C), na invasão dos povos bárbaros, na crise da Renascença, com o aparecimento dos diversos ramos do protestantismo (Lutero, Calvino, Zwinglio), no Iluminismo, nas Revoluções Francesa, Mexicana ou Espanhola, na perda dos Estados Pontifícios e mesmo durante a 21 Guerra. Voltaire tinha certeza de que acabaria com a religião católica e Nietzsche proclamava que Deus morrera.

Tem, porém, sempre ressurgido, com força maior e santos renovadores, como São Francisco de Assis, São Bernardo, Santo Inácio de Loyola, São José Maria Escrivã, mostrando a permanência de uma mensagem que não necessita de marketing, pois penetra no íntimo dos homens de boa vontade, dispostos a viver valores familiares, profissionais e sociais.
Mesmo a grande crítica que se fez à Idade Média não se sustenta, se tivermos presente que graças à Igreja Católica, criou-se o maior instrumento de cultura da civilização ocidental, que é a Universidade. Quase todas as ciências evoluíram a partir de cientistas sacerdotes, desde a astronomia à física, matemática ou genética.

O próprio processo de Inquisição - a história demonstra que o número de condenados, em séculos de Inquisição, foi muito menor do que os mortos em qualquer batalha sem expressão daquela época - permitiu a evolução do direito processual moderno, com a eliminação das ordálias, substituídas pelo contraditório. O certo é que a Igreja Católica tem conhecido um renascer fantástico, como as últimas jornadas da juventude em Madrid demonstraram.
Por outro lado, as figuras dos dois últimos Papas (João Paulo II e Bento XVI), quando se pensava que a Igreja Católica estaria desaparecendo, levaram e levam multidões, que acolhem com entusiasmo a figura de Sua Santidade por onde passa.
É bem verdade que vivemos período de múltiplos choques, que procurei retratar no meu livro A era das contradições. Hoje, o egoísmo e a autorrealização, alimentados por uma expansão da desfiguração familiar, do avanço das drogas, da corrupção e da falta de fidelidade, tanto na família quanto nos negócios, fizeram com que muitos se afastassem da religião católica, que não transige no que há de permanente em seus valores.

O homem tem, todavia, uma necessidade fantástica de Deus e, quando não busca o verdadeiro, elege outros deuses, como ocorreu com o nacional socialismo ou os deuses do cotidiano (dinheiro, sexo, poder, drogas etc.).
Tal choque entre o mundo das virtudes e o mundo do egocentrismo é algo que permanecerá até o fim dos séculos. Mas, como as estações se renovam, renova-se, de igual forma, a mensagem de Cristo, que se torna sempre nova, apesar de seus 2.000 anos. Essa é a razão pela qual, nada obstante as críticas e ataques que recebe de todos os lados, a nave da Igreja singra buscando os homens, não como uma empresa busca clientes, mas, desinteressadamente, para que encontrem um sentido de vida que Ihes dê a verdadeira dimensão da existência.


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Ives Gandra da Silva Martins - Advogado tributarista, professor e jurista

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O papel da fé na política internacional

ZP11090401 - 04-09-2011 Permalink: http://www.zenit.org/article-28754?l=portuguese Religião e conflitos globais ROMA, domingo, 4 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – No décimo aniversário do 11 de setembro, permanece vivo o debate sobre o papel da religião nos conflitos e na política. O recente livro Religion, Identity and Global Governance: Ideas, Evidence and Practice (University of Toronto Press) traz uma valiosa contribuição ao debate, recopilando muitas atas de uma conferência de outubro de 2007. John F. Stack, professor na Universidade Internacional da Flórida, analisa num dos capítulos o desafio à teoria das relações internacionais. Antes mesmo dos acontecimentos da última década, estava claro que a religião, longe de ter desaparecido, é uma poderosa força global, afirma Stack. Nos Estados Unidos, por exemplo, as influências protestantes e evangélicas tiveram importante papel na política interior. A religião voltou aos países da antiga União Soviética desde a queda do comunismo, e a influência do islã tem sido evidente na África, Ásia e Europa. Mas Stack observa que a teoria das relações internacionais ignora o papel da religião. Em muitos casos, durante o século XX, os pensadores influentes em ciências sociais teorizaram que a religião não só é irrelevante, mas ainda que desapareceria de modo gradual. A sobrevivência da religião e sua evidente influência na política forçou, depois, a mudança de perspectiva. A religião é importante, explica Stack, e é uma dimensão básica da vida humana que influencia cultura, tradição e visões do mundo. “As crenças religiosas podem não agradar aos estudiosos sociais do Ocidente, que analisam o comportamento dos indivíduos, grupos, movimentos sociais, estados, mas ressoam profundamente nos valores e nas opções mais básicas”. Stack admite que é difícil avaliar o papel concreto da religião e discernir se ela é uma mera manifestação de outros fatores étnicos, culturais ou de afirmação de um grupo. Reação laicista Na última década, vivemos uma verdadeira explosão de estudos sobre religião e assuntos internacionais, escreveu Ron E. Hassner em seu capítulo. Hassner, professor adjunto na Universidade da Califórnia em Berkeley, diz que foram publicados mais livros sobre o islã e a guerra desde o 11 de setembro do que desde a invenção da imprensa até aquela data. Ele deplora o que chama de “reação laicista e borbulhante”, que caracterizou um bom número de livros. “Rejeitar a religião como se fosse apenas uma forma perigosa de demência de grupo não é só irracional, mas também inútil, porque não se pode rejeitar a religião e ao mesmo tempo querer entendê-la”. Hassner acusa escritores como Richard Dawkins, Sam Harris e Christopher Hitchins de afirmar que há uma relação causal entre religião e guerra. Ao mesmo tempo, eles rejeitam como falsa qualquer associação com a promoção da moral, da cultura e da ciência. Em seu texto, Cecília Lynch, professora da Universidade da Califórnia, propõe uma postura de estudo da religião diferente da de Dawkins. É importante considerar a prática da religião e não unicamente a doutrina, afirma ela. Temos que entender também que a religião, embora proporcione diretrizes éticas, sempre deixa espaço para a interpretação. As doutrinas e tradições religiosas, segundo Lynch, não podem cobrir todas as possibilidades na hora de prescrever um comportamento. Devemos considerar a crença e a prática religiosa como moldadas pelas circunstâncias e tradições históricas, além de fatores econômicos e sociais contemporâneos. Um dos aspectos da religião em que Lynch se concentra é o compromisso com a atividade humanitária. Nos conflitos das últimas décadas, envolvendo tanto cristãos quanto muçulmanos, suas organizações humanitárias respectivas começaram a trabalhar juntas. As organizações laicas tiveram que se adaptar para trabalhar em sociedades de maioria muçulmana. Desde os acontecimentos de 2001, porém, alguns países olham com desconfiança para as organizações humanitárias islâmicas. Guerra justa James L. Heft, padre marianista e professor na Universidade do Sul da Califórnia, analisa a doutrina da guerra justa e como ela é interpretada por João Paulo II. Segundo Heft, João Paulo II desenvolveu uma compreensão dos ensinamentos sobre a guerra justa que tornou mais difícil justificar a guerra, e também as enquadrou num marco ético que privilegia os meios não violentos de resolução de conflitos. Esta tendência se iniciou muito antes de João Paulo II, diz Heft. Depois que a Igreja católica perdeu os Estados Pontifícios e seu poder temporal, ela se viu livre para defender melhor os direitos dos outros e passou a se opor à guerra com mais intensidade. Este desenvolvimento ficou especialmente evidente na encíclica de João XXIII Pacem in Terris, publicada em 1963. Em 4 de outubro de 1965, dirigindo-se às Nações Unidas, Paulo VI exclamou: “Basta de guerra, guerra nunca mais!”. Heft escreve que João Paulo II defendia os direitos humanos em suas encíclicas e discursos e se opunha repetidamente à guerra. Não descartava inteiramente o uso da força, mas o limitava cuidadosamente. Os acontecimentos de 1989, que determinaram a libertação sem guerra da Europa do Leste, confirmaram as convicções do papa na força dos métodos não violentos, afirma Heft. Ele tocaria no tema dois anos depois, na encíclica Centesimus Annus. Nos anos seguintes, João Paulo II se oporia com firmeza à invasão do Iraque. Heft observa, porém, que João Paulo II apoiou com cautela a derrocada do governo talibã do Afeganistão. Na mensagem para a Jornada Mundial da Paz de 2002, o papa afirmou que existe um direito a defender-se contra o terrorismo. Defendeu também a intervenção humanitária na antiga Iugoslávia. Em geral, a consciência de João Paulo II das consequências da guerra o fez rejeitar a violência, mas não é correto apresentá-lo como um pacifista, conclui Heft. Religião e Resolução de Conflitos Abordando a questão da paz, Robert B. Llloyd fala dos enfoques para a resolução de conflitos baseados na religião. Lloyd, professor associado da Universidade Pepperdine, assinala que personalidades, como a ex-secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright, tinham afirmado que a diplomacia baseada na religião era uma ferramenta útil de política externa. Lloyd concentrou sua atenção sobre o cristianismo. O mundo não tem carecido de mediadores – observa ele –, mas o mediador cristã difere devido à formação recebida em uma comunidade religiosa concreta. Lloyd fala da longa história de mediação da Igreja Católica. O Tratado de Tordesilhas, de 1494, patrocinado pelo Papa Alexandre VI, resolveu o conflito entre Espanha e Portugal pelo controle das terras recém-descobertas na Ásia, África e Américas. Mais recentemente, em 1984, um tratado foi assinado entre o Chile e a Argentina para resolver uma disputa sobre as ilhas do Canal de Beagle. A mediação da Igreja ajudou a resolver um conflito que levou os dois países à beira da guerra. Lloyd também se referiu à Comunidade de Sant’Egidio. Desempenhou um papel fundamental na mediação para acabar com uma guerra de 15 anos em Moçambique. Existe alguma coisa que distingue a mediação cristã? Lloyd identificou algumas diferenças. Os cristãos enfatizam a reconciliação ou a construção de novas relações onde não existiam. Outra preocupação é o resultado justo. A importante questão da justiça que é encontrada nas Escrituras fornece uma motivação adicional para os cristãos, quando comparados com outros mediadores. Uma terceira característica é a preferência pela negociação e, sobretudo, por estabelecer linhas de comunicação que não teriam existido entre as partes. Como seus colegas leigos, os mediadores cristãos nem sempre são bem sucedidos, mas Lloyd afirma que isso mostra como uma forte identidade religiosa não é apenas fonte de conflito, mas também um meio de paz e reconciliação.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Os países religiosos são pobres



Essa falácia já está na sua segunda edição. Durante muitos anos, num tempo a perder de vista, sem haver falsete no piscar dos olhos, se afirmava que os países de maioria protestante eram todos prósperos, e os de maioria católica eram inexoravelmente atrasados. Essa sentença levou tempo para ser desmontada. O perverso da afirmação consistia na insinuação de que ser católico seria sinônimo de atrasado, e ser protestante estaria garantido ser próspero. Isso levava à consideração de que Deus abençoava os protestantes, e entregava os católicos à sua própria sorte.

Portanto, a religião verdadeira seria a de linha protestante. Hoje nem os nossos irmãos evangélicos (como hoje os protestantes preferem ser chamados), seguem essa teoria absurda. Dentro dessa chave de leitura atualmente as religiões aprovadas por Deus seriam as do Japão, da China, e das  religiões dos tigres asiáticos. Porque por lá é que está o sumo do progresso... "Do trabalho de tuas mãos comerás" (Sl  128, 2). Só quem trabalha (com inteligência), é que pode "ver a prosperidade todos os dias"  (Sl 128, 5).

Nos dias atuais aparece uma teoria requentada. Agora o sucesso econômico tem outra causa. Está definitivamente garantido - dizem os fautores da nova teoria - que os países prósperos são geridos por povos sem religião, frios no fervor religioso, que "não vão à igreja". As populações piedosas, as que tem vida comunitária, estariam fadadas a patinar no atraso  e deglutir o pó que os países prósperos levantam. O ensinamento falso dessa afirmação está em dizer que os povos que se voltam para o alto, não tem iniciativa, são parcos de inteligência, e não acreditam em si. Portanto, fadados ao marasmo e à pobreza. Mas os agnósticos, não. Esses estariam com tudo, pois acreditam em si, e por isso são prósperos. Essa audácia se derruba com um simples exemplo que nos vem à mente, e que deleta essa torpe teoria. Vejam o país - ainda o mais próspero do planeta - a América do Norte. É um país, cujo povo é muito religioso, e tem alto índice de praticantes. E conheço também uma região do nosso Brasil, com várias cidades, umas próximas às outras. E aí se vê exatamente o contrário: as cidades muito religiosas são as mais progressistas. E as menos religiosas são as mais fraquinhas. É preciso buscar outra teoria melhor. Essa não pegou. Está eivada de fanatismo.

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Dom Aloísio Roque Oppermann
arcebispo de Uberaba- MG




sábado, 11 de junho de 2011

Papa pede “revisão total” do enfoque sobre a natureza

ZP11060908 - 09-06-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28182?l=portuguese
A ecologia humana é “uma necessidade imperativa”, afirma a embaixadores

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 9 de junho de 2011 (ZENIT.org) - Bento XVI reafirmou nesta quinta-feira a “necessidade imperativa” de estabelecer a “ecologia humana”.
Segundo o pontífice, as prioridades políticas e econômicas devem ser “adotar em tudo uma maneira de viver respeitosa com o entorno e apoiar a pesquisa e o uso de energias limpas, que preservem o patrimônio da criação e não sejam perigosas para o homem”.
O Papa dirigiu-se em discurso a seis novos embaixadores que apresentavam suas credenciais no Vaticano hoje, de: Moldávia, Guiné Equatorial, Belize, Síria, Gana e Nova Zelândia.
O Papa falou da ecologia no discurso geral lido aos embaixadores, apesar de ter entregue a cada um deles um discurso específico sobre a realidade dos países representados.
Bento XVI afirmou que é necessário “revisar totalmente nosso enfoque da natureza”. “Esta não é unicamente um espaço a se explorar, ou lúdico. É o lugar de nascimento do homem, sua ‘casa’, por assim dizer. É essencial para nós”.
“A mudança de mentalidade neste âmbito, ainda com as contradições que carrega, deve permitir chegar rapidamente à arte de viver juntos, que respeite a aliança entre o homem e a natureza, sem a qual a família humana corre o risco de desaparecer.”
“Deve ser realizada, portanto, uma reflexão séria e devem ser propostas soluções precisas e viáveis. O conjunto dos governantes deve se comprometer a proteger a natureza e a ajudar a que desempenhe sua função essencial na sobrevivência da humanidade.”
O Papa indicou a ONU como “o marco adequado desta reflexão, que não deverá se obstaculizar por interesses políticos e econômicos cegamente partidários, para dar prioridade à solidariedade sobre o interesse particular”.
Bento XVI falou ainda sobre o “justo lugar da técnica” na atividade humana.
“A base do dinamismo do progresso corresponde ao homem que trabalha e não à tecnologia, que não é mais que uma criação humana.”
Apostar tudo na técnica e na tecnologia, ou acreditar que são o único agente do progresso ou da felicidade, implica uma “coisificação do homem, que conduz à cegueira e à miséria”.
“A técnica que domina o homem o priva da sua humanidade. O orgulho que gera faz nascer em nossas sociedades um economicismo intratável e certo hedonismo que determina os comportamentos.”
Segundo o Papa, o enfraquecimento da primazia do humano traz consigo uma confusão existencial e uma perda do sentido da vida.
“Porque a visão do homem e das coisas sem referência à transcendência desarraiga o homem da terra e, mais fundamentalmente, empobrece a própria identidade.”
“É, portanto, urgente chegar a conjugar a técnica com uma forte dimensão ética”, disse.
“A técnica deve ajudar a natureza a prosperar na linha querida pelo Criador. Trabalhando assim, o pesquisador e o cientista aderem ao desígnio de Deus, que quis que o homem seja o cume e o gestor da criação.“
“As soluções baseadas neste fundamento protegerão a vida do homem e sua vulnerabilidade, assim como os direitos das gerações presentes e as vindouras. E a humanidade poderá continuar beneficiando-se do progresso que o homem, pela sua inteligência, consegue realizar”, afirmou o Papa.
Bento XVI pediu que todos trabalhem na promoção de um humanismo respeitoso da dimensão espiritual e religiosa do homem.
“Porque a dignidade da pessoa humana não varia com a flutuação das opiniões. Respeitar sua aspiração à justiça e à paz permite a construção de uma sociedade que promove a si mesma, quando apoia a família ou rejeita, por exemplo, a primazia exclusiva das finanças”, disse.

“Ecologia humana” é base do desenvolvimento

ZP11061002 - 10-06-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28186?l=portuguese
Bento XVI recebe o novo embaixador da Nova Zelândia

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 10 de junho de 2011 (ZENIT.org) – O Papa Bento XVI desejou que a Nova Zelândia se envolva no desenvolvimento de “uma ecologia autenticamente humana”, no discurso dirigido ao novo embaixador desse país, George Robert Furness Troup, ao aceitar suas cartas credenciais ontem.
Devido à sua posição geográfica, a Nova Zelândia “pode assistir ao desenvolvimento de países menores, mais distantes e com menos recursos”, que a concebem “como fonte de assistência, incentivo e apoio para poder desenvolver suas próprias instituições”.
Isso, indicou, faz que o país tenha “uma responsabilidade moral concreta”, ao ser “chamado a usar sua posição de influência para a paz e a estabilidade da região, fomentar as instituições democráticas estáveis e maduras e a promoção de autênticos direitos humanos, bem como o desenvolvimento econômico sustentável”.
O desejo de desenvolvimento, reconheceu Bento XVI, “levanta uma série de desafios importantes com relação ao meio ambiente, alguns com sérias consequências para o bem-estar das pessoas e seus meios de vida, especialmente para os pobres”.
Neste contexto, incentivou “o trabalho que se está fazendo para promover modelos de desenvolvimento, tanto no interior como no exterior do país, que reflitam uma verdadeira ecologia humana, uma economia sustentável e que cumpram com nosso dever de protetores da criação”.
O Papa quis analisar o papel da Igreja Católica na nova Zelândia, sublinhando que ela “se esforça no desempenho da sua função para tecer juntos uma sociedade verdadeiramente multicultural, com um sentido de respeito mútuo, com um propósito e uma solidariedade compartilhados, para a paz e a prosperidade de todos”.
A Igreja “deseja servir ao bem comum, oferecendo a sabedoria moral e espiritual da fé nas questões éticas atuais importantes”.
O Pontífice sublinhou também que a Santa Sé busca “a promoção dos valores universais que estão baseados na mensagem do Evangelho: a dignidade que Deus dá a cada homem e mulher, a unidade da família humana e a necessidade de justiça e solidariedade para governar as relações entre os indivíduos, comunidades e nações”.
Estes valores, observou, “estão profundamente inscritos na cultura que deu vida às instituições políticas e legais da Nova Zelândia, herança cuja 'pedra angular' são os direitos de liberdade religiosa e liberdade de culto, para benefício de todos”.
“Estes direitos consagrados nas tradições legais, dos quais são herdeiros, são próprios de cada pessoa, porque são inerentes à humanidade que é comum a todos nós”, sublinhou.
“Através da promoção destas liberdades, a sociedade está melhor preparada para responder aos profundos desafios políticos e sociais de uma maneira que concorde com as aspirações mais profundas da humanidade.”
o Papa expressou, finalmente, sua solidariedade “para com aqueles que estão sofrendo ainda as consequências do devastador terremoto que atingiu Christchurch no último dia 22 de fevereiro”, afirmando que “a impressionante fonte de generosidade e os inúmeros atos de caridade e de bondade que se viram no foco do desastre contribuirão, em grande parte, para enfrentar os desafios morais e materiais desta atual e imensa tarefa”.

domingo, 20 de março de 2011

Artigo: O espírito da Igreja e sua ação social


Publicado 2011/03/18
Autor: Gaudium Press
Secção: Opinião

Quais pedras preciosas num precioso manto, as catedrais e abadias; castelos e pitorescos burgos ajaezados de belos jardins que se espalham por toda a Europa formam um conjunto variado e harmônico. Em sua solidez pétrea, secular e magnífica, estes monumentos dão a impressão de serem impassíveis à História.
A contemplação destas maravilhas da engenharia, crestadas tanto pelo rigor das intempéries quanto pelo irreparável dos séculos, gera em nosso espírito uma sensação de estabilidade, segurança e perenidade; pois, mais do que filhas do seu tempo, evocam em nosso espírito algo da ordem celestial e eterna.
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Tal como os prédios, os homens que lhes conceberam eram estáveis, serenos e contemplativos. No entanto, a plenitude deste estado de espírito que penetrava em toda a sociedade se dava na vida operosa, serena e meditativa de uma coorte inumerável de monges que abandonavam a tudo a fim de cogitar senão em Deus, Motor Imóvel.
Ao considerarmos aqueles tempos, seríamos levados a pensar que a estabilidade dos homens de outrora, que ao longo gerações habitavam nas mesmas terras; cuja vida "monótona", regulada pelo bimbalhar dos sinos que anunciavam os ofícios litúrgicos, não lhes capacitava às atividades das quais nossos contemporâneos tanto se ufanam.
Entretanto, como demonstra a História, os séculos da Europa Cristã coadunavam a vida rural e monástica com um intenso, abrangente e variado progresso humano.
A cultura da antiguidade pagã não apenas foi conservada das invasões bárbaras, mas se enriquecia com o aporte das universidades na verve ardente e penetrante de seus doutores.
O avanço não se restringia ao âmbito intelectual. A alta Idade Média e os séculos subseqüentes foram épocas de intenso progresso econômico. As selvas e pântanos da Europa se tornaram terras de cultivo; a fartura dos campos gerava a riqueza da indústria; estes, por sua vez, impulsionavam o crescimento das cidades; o comércio e as peregrinações impulsionavam a logística das estradas; enfim, a Europa Cristã sempre se caracterizou por uma intensa vitalidade.
Dir-se-ia que este imenso organismo social se formava sem planejamento e coordenação, mas com inegável e profunda harmonia. Esta unidade não se devia aos cacos da civilização clássica ou ao mosaico étnico dos povos invasores, mas sim, a uma espécie de princípio vital capaz de produzir extremos de estabilidade e contemplação, mas também de progresso e atividade.
A alma da civilização ocidental nascente era a Igreja de Cristo. O esplendor da antiga Europa - da qual a contemporânea ainda hoje colhe os frutos - nasceu em última análise da benéfica influência da Igreja na sociedade. A Esposa de Cristo, fonte de toda espécie de perfeição, foi a raiz de toda essa vida; impulsionou a ordem temporal à uma borbulhante vitalidade com tal serenidade, sabedoria e naturalidade que daria a impressão de irreflexão, mas o fez conservando a harmonia do corpo social através da contemplação.
Se a Igreja fosse falsa, incentivaria em demasia o eremismo ou o excesso de atividade, porque não possuiria em si o dom da santidade. Como a Igreja é verdadeira, estimula esses contrários harmônicos de maneira exímia, produzindo aquele equilíbrio de alma que é um dos frutos próprios à Igreja Católica.

Marcos Eduardo Melo dos Santos

terça-feira, 15 de março de 2011

Alastrar-se da violência sinaliza desorientação cultural

ZP11031503 - 15-03-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27492?l=portuguese
“A conduta reta, ou o seu contrário, depende da educação”, diz cardeal Scherer

SÃO PAULO, terça-feira, 15 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Os abundantes episódios de violência no convívio social “denotam uma radical desconsideração pela dignidade da pessoa humana, pelos seus mais elementares direitos e pelos valores éticos que devem orientar as decisões na vida”.
É o que afirma o arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Scherer, em artigo publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, nesse sábado.

Segundo o cardeal, “a violência é dos brutos e denota uma lamentável inconsciência diante da dignidade da pessoa, dos seus direitos fundamentais. É ausência de sensibilidade, ou desprezo pelos valores básicos da conduta”.

Dom Odilo afirma que certamente todos esperam “que os responsáveis cumpram o seu dever e as leis sejam mais conhecidas e respeitadas, porém não é por falta de leis que os crimes acontecem”.

“E, se a grande garantia para a inibição do crime fosse a autoridade que representa a lei, estaríamos muito mal e não haveria policiais em número suficiente para vigiar todos os potenciais criminosos. A ausência da autoridade encarregada da aplicação lei não legitima o crime.”

De acordo com o arcebispo, o alastrar-se da violência “está sinalizando para uma desorientação cultural, em que há pouca adesão a referenciais éticos compartilhados, ou mesmo a falta deles”.

“Valores altamente apreciáveis, como a vida humana, a dignidade da pessoa, o bem comum, a justiça, a liberdade e a honestidade caem por terra quando outros ‘valores’ lhes são sobrepostos, como a vantagem individual a qualquer custo, a satisfação das paixões cegas, como o ódio, a avareza, a luxúria, a vaidade egocêntrica...”

“Princípios éticos tão elementares quanto essenciais, como ‘não faças aos outros o que não queres que te façam’, ou os da inviolabilidade da vida humana, do respeito pela pessoa, do senso da justiça e da responsabilidade compartilhada perdem cada vez mais seu espaço para algo que se poderia qualificar como ‘pragmatismo individualista sem princípios’.”

Dom Odilo assinala que, “se cada um elabora os referenciais para seu agir de acordo com os impulsos das paixões, as conveniências ou ganhos do momento, perdemos os referenciais comuns da conduta no convívio social”.

A conduta reta, ou o seu contrário – prossegue o cardeal –, “depende da educação; virtude e vício têm mestres e currículos próprios”.

“Valores e princípios são ensinados e apreendidos; e a inteligência humana é capaz de reconhecê-los, de distinguir entre o que é bom e o que é mau. Por sua vez, a consciência pessoal e a vontade, quando bem esclarecidas e motivadas, inclinam-se para o bem e rejeitam o mal.”

“A lei exterior, por si, é constritiva, porque vem acompanhada pela ameaça, não muito eficaz, do castigo e da pena. Eficácia maior da lei é garantida pela adesão interna e livre ao valor protegido por ela. É a lei moral inscrita no coração.”

Dom Odilo reconhece que nesse ponto há muito para se fazer. “Sabemos que, atualmente, os tradicionais agentes de educação, como a família, a escola e as organizações religiosas, estão conseguindo fazer isso de maneira muito limitada e seu papel na educação é até dificultado, quando se dedicam a fazê-lo”.

“Por outro lado, há uma progressiva desconstrução dos referenciais éticos da conduta pessoal e coletiva”, afirma.

Dom Odilo cita vário fatores que contribuem para a erosão dos valores e para a desorientação da ética no convívio social.

Por exemplo, “a exaltação dos ‘heróis bandidos’ e do ‘valentão mau caráter’; a espetacularização da violência; o mau exemplo que vem do alto; a impunidade, que leva a crer que o crime compensa; e também a exploração econômica da corrupção dos costumes e a capitulação do poder constituído diante do crime organizado, que ganha muito dinheiro com o comércio letal da droga.”

“O alastrar-se da violência gratuita é uma consequência natural”, afirma o arcebispo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Igreja Católica, mãe da civilização moderna

 Por Fernando Nascimento

Toda vez que um protestante, um comunista, ateu ou qualquer outro inimigo da Igreja, que gosta de erroneamente chamar a Idade Média de “trevas”, citar redondamente enganado, que a Igreja é “primitiva”, é “medieval” e que eles mesmos são da era do celular, televisão, DNA, Genética, Genoma, Física, fibra ótica, viagens espaciais ou energia nuclear, deveriam receber dos católicos a resposta:
“Nós não tivemos essas coisas na Idade Média porque estávamos ocupados em inventá-las e descobri-las para que as tenhas hoje.” – e indagar-lhes - “os que pensam como ti, o que oferecerão ás futuras gerações?”

Hoje, há professores como Thomas Woods graduado na Universidade de Harvard e é doutor em História pela Universidade de Columbia, Edward Grant escrevendo livros editados pela Universidade de Cambridge, Thomas Goldstein, A.C.Crombie, David Lindberg e muitos outros. E todos eles concordam que, você mente, quando alega que a Igreja foi uma oponente das ciências. Pelo contrário, há aspectos do pensamento católico que foram indispensáveis para o desenvolvimento da ciência.
Confira como a Igreja Católica construiu a Civilização Moderna e a livrou da ignorância e do massacre dos Bárbaros:

- A Igreja Católica teve de empreender a tarefa de introduzir a lei do Evangelho e o Sermão da Montanha entre os povos Bárbaros, que tinham o homicídio como a mais honrosa ocupação e a vingança como sinônimo de justiça. (Christopher Dawson);
- A Igreja Católica forneceu mais ajuda e apoio financeiro ao estudo da Astronomia, por mais de seis séculos – da recuperação do saber antigo da Baixa Idade Média ao Iluminismo -, do que qualquer outra e, provavelmente, todas as outras instituições. (J.L.Heilbron – Universidade da Califórnia, em Berkeley);
- A Igreja funda a primeira universidade do mundo, em Bolonha, na Itália. A criação da instituição dá à Europa o impulso intelectual que desembocaria no Renascimento no século XIV, e na Revolução Científica, entre os séculos VXI e XVII.
- Reginald Grégoire (1985), afirma: “os monges deram a toda a Europa… uma rede de fábricas, centros de criação de gado, centros de educação, fervor espiritual, … uma avançada civilização emergiu da onda caótica dos bárbaros”. Ele afirma que: “Sem dúvida alguma S. Bento (o mais importante arquiteto do monarquismo ocidental) foi o Pai da Europa. Os Beneditinos e seus filhos, foram os Pais da civilização Européia”;
- O nosso padrão de contar o tempo foi criado por um monge católico chamado Dionísio, por volta do início do século 4;
- Foram os católicos escolásticos que criaram a Ciência Econômica Moderna. Foram eles que criaram a economia, e não os secularistas do Iluminismo;
- São Mesrob, sacerdote católico, foi o criador do alfabeto armênio.
- Os Jesuítas – da Companhia de Jesus – foram tão exímios nas ciências que, neste exato momento, 35 crateras lunares têm o nome de cientistas jesuítas;
- São Cirilo e Metódio, no século IX, desenvolveram um alfabeto para o velho idioma eslavo, este se tornou o precursor do alfabeto russo “cirílico”. Em 885, são Metódio traduziu a Bíblia inteira neste idioma;
- O católico franciscano Roger Bacon (séc 13), que lecionava na Universidade de Oxford, é considerado o precursor da revolução científica;
- O monge matemático Jordanus Nemorarius, além dos conhecimentos que contribuiu à matemática introduzindo os sinais de “mais” e de “menos”, iniciou a investigação dos problemas da mecânica, superando a visão dos problemas do equilíbrio. Foi o fundador da escola medieval de mecânica, foi o primeiro em formular corretamente a “lei do plano inclinado” e pesquisou sobre a conservação do trabalho nas máquinas simples.
- Os Jesuítas estão entre os maiores matemáticos da história;
- O abade Nicolau Copérnico foi o astrônomo e matemático que desenvolveu a teoria heliocêntrica do Sistema Solar. Sua teoria do Heliocentrismo, que colocou o Sol como o centro do Sistema Solar, contrariando a então vigente teoria geocêntrica (que considerava, a Terra como o centro), é tida como uma das mais importantes hipóteses científicas de todos os tempos, tendo constituído o ponto de partida da astronomia moderna.
- O padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685 -1724), foi um cientista e inventor nascido no Brasil Colônia. Famoso por ter inventado o primeiro aeróstato operacional, era chamado de “o padre voador”, é uma das maiores figuras da história da aeronáutica mundial. Ele também é o inventor de uma “máquina para a drenagem da água alagadora das embarcações de alto mar.”
- Papa Gregório XIII, foi quem nos deu o Calendário Gregoriano, que é o calendário utilizado na maior parte do mundo, e em todos os países ocidentais. A China o aprovou em 1912.
- Jean Buridan (1300-1358) foi um filósofo e padre francês, que desenvolveu e popularizou a “teoria do Ímpeto”, que explicava o movimento de projéteis e objetos em queda livre. Essa teoria pavimentou o caminho para a dinâmica de Galileu e para o famoso princípio da Inércia, de Isaac Newton;
- Nicole d’Oresme (c.1323-1382) era teólogo dedicado e Bispo de Lisieux, foi um gênio intelectual e talvez o pensador mais original do século XIV. Foi um dos principais propagadores das ciências modernas. Na“Livre du ciel et du monde” (1377), Oresme se opôs à teoria de uma Terra estacionária como proposto por Aristóteles e, neste trabalho, ele propôs a rotação da Terra, cerca de 200 anos antes de Copérnico. No entanto, ele estragou um pouco este belo pedaço de pensamento, rejeitando suas próprias idéias, no final dos trabalhos e assim, como Clagett escreve, não pode ser considerada como a reivindicação de que a Terra girava antes de Copérnico. Ele escreveu “Questiones Super Libros Aristotelis de Anima lidar”, com a natureza da luz, reflexão da luz e da velocidade da luz, discutidos em detalhes.
- O monge Luca Bartolomeo de Pacioli é considerado o pai da contabilidade moderna. Um dos seus alunos foi Leonardo da Vinci;
- O padre paraibano Francisco João de Azevedo, é reconhecido como inventor e construtor da máquina de escrever. O que temos certeza é que a máquina realmente existiu, funcionava, foi exposta ao público, ganhou medalhas, e, o mais importante, em dezembro de 1861, portanto antes que Samuel W. Soule e seus dois parceiros, em 1868, recebessem a formalização da patente nos Estados Unidos;
- De acordo com o Dicionário de Biografia Científica, santo Alberto Magno, que ensinou na Universidade de París, era habilidosos em todos os ramos da ciência, “foi um dos mais famosos precursores da Ciência Moderna na Alta Idade Média”. Desde 1941 ele é declarado o “patrono de todos que cultivam as ciências naturais”;
- O padre Nicolas Steno é considerado o pai da Estratigrafia, que estuda as camadas de rochas sedimentares formadas na superfície terrestre. Um geólogo precisa conhecer os princípios de Steno.
- Jean-Antoine Nollet, foi abade e físico francês, se constitui como um grande divulgador da física e da eletricidade em particular. Construiu alguns dos primeiros eletroscópios, a sua própria máquina eletrostática, e também uma versão “seca” da garrafa de Leiden.
- Os jesuítas no século 18 contribuíram para o desenvolvimento do relógio de pêndulo, pantógrafos, barômetros, telescópios e microscópios refletores para campos científicos variados como: magnetismo, ótica e eletricidade. Eles observaram, às vezes antes que de qualquer outro, as faixas coloridas dos anéis na superfície de Júpiter, a Nebulosa de Andômeda e anéis de Saturno. Eles teorizaram sobre a circulação do sangue, independentemente de Harvey, a possibilidade teórica de vôo, o modo como a lua afeta as marés e a natureza ondular da luz, mapas estelares de hemisfério sul, lógica simbólica e medidas de controle de enchentes. Tudo isso foi realização típica dos jesuítas.
- O padre Giabattista Riccioli foi a primeira pessoa a calcular a velocidade com que um corpo em queda livre acelera até o chão,
- O padre Francesco Grimaldi descobriu e nomeou o fenômeno de difração da luz. Ele também participou de uma descrição detalhada de um mapa da superfície da lua. Esse mapa chamado de Selenógrafo, adorna até hoje a entrada do Museu Nacional do Ar e Espaço, em Washington D.C.;
- O padre Roger Boscovich, falecido em 1787, é louvado por cientistas modernos por ter apresentado a primeira descrição coerente de teoria atômica, bem mais de um século antes que a teoria atômica moderna emergisse. Ele foi considerado “o maior gênio que a Iugoslávia produziu”;
- Nos séculos 17 e 18 as catedrais de Bolonha, Florença, París e Roma funcionavam como observatórios solares superiores;
- O padre Athanasius Kircher é considerado o pai da Egiptologia. Foi graças ao trabalho deste padre que encontrou-se a Pedra Rosetta, que decifrou os símbolos egípcios. Ele foi chamado de “Mestre das cem artes”. Seu trabalho em química ajudou a desbancar a alquimia, que era um tipo de falsa ciência, que até Isaac Newton e Boyle levavam a sério. Foi esse padre que jogou água fria nisso.
- Foi um Jesuíta quem escreveu exatamente o primeiro livro sobre Sismologia nos Estados Unidos. Era o padre J.B. Macelawane. Todo ano, a União Geofísica Americana, prêmia com uma medalha com o nome deste padre, um jovem geofísico inspirador.
O padre J.B. Macelawane também foi o primeiro presidente da União Geofísica Americana. Por isso o estudo dos terremotos é conhecido como “A Ciência Jesuíta”;
- Foi um astrônomo católico chamado Giovanni Cassini quem usou a Catedral de São Petrônio, em Bolonha, para verificar as teorias de movimentos planetários de Johannes Kepler.
- Foram os monges católicos que desenvolveram a “minúscula carolígia”, ou seja as letras minúsculas, o espaçamento entre palavras e a acentuação, já que o mundo só escrevia em letras maiúsculas, sem espaçamentos e sem acentuação.
- O ensino superior na Idade Média era ministrado por iniciativa da Igreja;
- O documento mais antigo que contém a palavra “Universitas” (universidade), utilizada para um centro de estudo, é uma carta do Papa Inocêncio III ao “Estúdio Geral de Paris”;
- A universidade de Oxford, na Inglaterra, surgiu de uma escola monacal católica organizada como universidade por estudantes da Sorbone de Paris. Foi apoiada pelo Papa Inocêncio IV (1243-1254) em 1254;
- O historiador francês Henri Daniel – Ropes no século 20 disse: “graças as repetidas intervenções do papado, a educação superior foi habilitada a expandir suas fronteiras; a Igreja, na verdade, foi a matriz que produziu a universidade, o ninho de onde esta tomou vôo.”;

- Os papas estabeleceram mais universidades do que qualquer outra pessoa na Europa;
- Até 1440 foram erigidas na Europa 55 Universidades e 12 Institutos de ensino superior, onde se ministravam cursos de Direito, Medicina, Línguas, Artes, Ciências, Filosofia e Teologia. Todos fundados pela Igreja;
- Os monges católicos introduziram safras e indústrias e métodos de produção que não se conheciam antes;
- O monge italiano católico Guido d’Arezzo (992 -1050), criou as 7 notas musicais dó, ré, mi, fá, sol, lá, si utilizando ás sílabas iniciais de uma estrofe de um hino a São João para denominá-las. Ele também apresentou pela primeira vez a Pauta Musical de quatro linhas. O sistema ainda é usado até hoje.
- Os monges católicos foram pioneiros em maquinaria e mecanização. Eles usavam a energia da água para todos os tipos e propósitos;
- O primeiro relógio de que tivemos notícia foi construído pelo futuro papa Silvestre II, em 996;
- No século 11, um monge beneditino inglês, chamado Eilmer de Malmesbury, voou aproximadamente 600 metros por meio de um planador sustentado no ar por cerca de quinze segundos. Ele consta no site da Força Aérea Americana – USAF, como pioneiro do vôo do homem, tendo feito isso 1000 anos antes dos irmãos Wright e de Santos Dumont;
- Em 1688, Dom Perignon, do mosteiro de São Pedro, Hautvillieres-on-the-Marne, descobriu a Champanhe através de experimentação misturando vinhos;
- Disse o estudioso francês Reginald Gregoire: “De fato, seja na extração de sal, chumbo, ferro, alume ou gipsita, ou na metalurgia, extração de mármore, condução de cutelarias e vidrarias, ou forja de placas de metal, também conhecidas como rotábulos, não há nenhuma atividade em que os monges não mostrassem criatividade e um fértil espírito de pesquisa. Utilizando sua força de trabalho, eles instruíram e treinaram à perfeição. O conhecimento técnico monástico se espalharia pela Europa.”;

- O Jesuíta espanhol Baltasar Gracián (1601-1658), com seus livros, impressionou e inspirou filósofos, escritores e pensadores ao longo de mais de trezentos e cinqüenta anos, entre estes estavam: Nietzsche, Schopenhauer, Voltaire e Lacan, que foram leitores entusiasmados dos livros deste jesuíta. O filósofo Arthur Schopenhauer considerava seu livro “El Criticón”, “um dos melhores livros do mundo.”
Friedrich Nietzsche declarou sobre a obra de Gracián: “A Europa nunca produziu nada mais refinado em questão de sutileza moral.” “Absolutamente único … um livro para uso constante … um companheiro na vida. Estas máximas são especialmente adequadas àqueles que desejam prosperar no grande mundo”.

- Foram os monges católicos, que na Inglaterra, no século 16, desenvolveram a primeira caldeira para produção de larga escala de ferro fundido;
- O padre Gregor Mendel (1822-1884), é considerado no meio científico como “o pai da genética”. Graças a Mendel, o troca-troca genético de que a gente tanto ouve falar se tornou possível. Os transgênicos (animais e plantas que recebem genes de outras espécies de seres vivos), hoje são uma realidade! O homem hoje é capaz de modificar o gene de uma planta para torná-la mais resistente às pragas, por exemplo. Ou então, fazer experiências trocando genes de animais, para tentar desenvolver novos medicamentos.
- Diz um historiador protestante: “se não fosse pelos monges e monastérios, o dilúvio bárbaro poderia ter varrido completamente os traços da civilização romana. O monge foi o pioneiro da civilização e da cristandade na Inglaterra, Alemanha, Polônia, Boêmia, Suécia, Dinamarca. Com o incessante estrondo das armas a sua volta, foi o monge em seu claustro mesmo nas remotas fortalezas, por exemplo, no Monte Athos, quem, perseverando e transcrevendo manuscritos antigos, tanto cristãos como pagãos, assim como registrando suas observações de eventos contemporâneos, foi repassando a tocha do conhecimento intactas às futuras gerações e amealhando estoques de erudição para as pesquisas de uma área mais esclarecida. Os primeiros músicos, pintores, fazendeiros, estadistas da Europa após a queda da Roma imperial sob o ataque violento dos bárbaros, eram monges”. (A Protestant Historian)
- Albert Einstein declarou: “Só a Igreja se pronunciou claramente contra a campanha hitlerista que suprimia a liberdade. Até então a Igreja nunca tinha chamado minha atenção; hoje, porém, expresso minha admiração e meu profundo apreço por esta Igreja que, sozinha, teve o valor de lutar pelas liberdades morais e espirituais”. (Albert Einstein, The Tablet de Londres);
- Padre Francisco de Vitória, que foi professor na Universidade de Salamanca, foi quem nos deu o exato primeiro Tratado de Direito Internacional da história;
- A Pontífice Academia de Ciências do Vaticano, atualmente, conta com 61 acadêmicos, dos quais 29 são vencedores do Prêmio Nobel. Trata-se de uma relação de notáveis cientistas premiados por suas pesquisas no campo da medicina, química, física, etc., entre os quais figuram Marshaw Nerimberg, o descobridor do Código Genético de todos os seres, e nada mais nada menos que, Francis Collins, o mapeador do DNA humano e diretor do Projeto Genoma;
- A invenção dos mais modernos e imprescindíveis meios de comunicação, deve-se a um membro da Igreja, o brasileiro padre Landell, inventor pioneiro do rádio, do telefone sem fio, do telégrafo sem fio, da televisão e do teletipo usado pela imprensa. Nas patentes são agregados vários avanços técnicos como a transmissão por meio de ondas contínuas, através da luz, princípio da fibra óptica e por ondas curtas; e a válvula de três eletrodos, peça fundamental no desenvolvimento da radiodifusão e para o envio de mensagens. Ainda em 1904 o padre Landell inicia os testes precursores de transmissão da imagem. Em outras palavras, testava aquilo que viria a ser a televisão. Ele também testou a transmissão de textos, sendo precursor do teletipo, tão utilizado nos telejornais para envio de notícias pelas agências internacionais. Ambas as experiências eram feitas à distância, por ondas que, segundo um jornal paulista, eram denominadas de Ondas Landeleanas. Confira em:http://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_Landell_de_Moura
- O cosmólogo padre Michael Heller, é o ganhador do mais polpudo prêmio acadêmico já pago pela ciência moderna. Ele provou matematicamente a existência de Deus;
- Um dos princípios mais importantes que a Igreja legou ao desenvolvimento das ciências vem de um verso bíblico! Um verso bíblico que foi um dos mais citados durante toda a Idade Média. Esse verso é: Sabedoria 11, 21, esse verso diz: que “ Deus dispôs tudo com medida, quantidade e peso”. Daí a ciência ter conseguido tanto êxito por crer que vivemos num universo ordenado. É tudo matemático e ordenado de acordo com padrões. Por isso Santo Agostinho (354-430), já afirmava: “Deus é um grande Geômetra.”

Detalhe: o protestantismo, fundado em 1517 retirou o Livro da Sabedoria de suas bíblias. O desprezo protestante a Copérnico e à ciência, ficou documentado nas palavras de Lutero, que dizia: “O abade Copérnico surgiu, pretendendo que a terra girasse em torno do Sol … lê-se na Bíblia que Josué deteve o Sol; não foi a Terra que ele deteve. Copérnico é um tolo.” (Funck-Brentano, Martim Lutero, Casa Editora Vecchi, 1956, 2a. ed. Pág. 145).
Lutero não sabia que o que Josué narrava foi o que lhe pereceu a seus olhos, naquele grande milagre de Deus.
Sobre a ciência, chamada de “razão” naquele tempo, dizia Lutero: “A razão é a prostituta, sustentáculo do diabo, uma prostituta perversa, má, roída de sarna e de lepra, feia de rosto, joguemos-lhe imundícies na face para torná-la mais feia ainda.” (Funck-Brentano, Martim Lutero, Casa Editora Vecchi, 1956, 2a. ed. Pág. 217).
Eis o grande legado da Igreja Católica à Civilização Moderna e a verdadeira aversão grotesca à ciência, externada pelo pai do protestantismo.
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Referências Bibliográficas:
- Woods, Thomas Jr, “How the Catholic Church Built Western Civilization”; Regury Publishing Inc., Washington, DC, 2005.Wright, Jonathan, “The Jesuits: Missions, “Myths and Histories”, London: Harper Collins, 2004, pp. 18-19.
- White Jr., Lynn, “Eilmer de Malmesbury: um aviador século XI,” Tecnologia e Cultura, II, n. 2 (Spring 1961). 2 (Primavera 1961).
Maxwell Woosnam, Eilmer: Eleventh Century Monk of Malmesbury (Malmesbury, UK: Friends of Malmesbury Abbey, 1986). Maxwell Woosnam, Eilmer: monge do século XI de Malmesbury (Malmesbury, Reino Unido: Amigos da Abadia de Malmesbury, 1986).


- http://culturadavida.blogspot.com/2008/04/academia-de-cincias-do-vaticano.html

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http://www.colegiosaofrancisco.com.br/alfa/dna/marshall-o-homen-do-codigo.php

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http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=43539&cat=Artigos&vinda=S

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http://www.comshalom.org/noticias/exibir.php?not_id=1518

- Baltasar Gracián, “A Arte da Sabedoria” – Edição completa, Editora Best Seller.

- Schumpeter, Joseph, “ A History of Economic Analysis”, N. Y., Oxford University Press, 1954, p. 97.
- Gregor Mendel: cienciahoje.uol.com.br

- Guido d’Arezzo: http://reflexaoemmusica.blogspot.com/2009/05/guido-darezzo.html

- São Cirilo e Metódio – Warren H. Carroll, The Building of Christendom (Christendom College Press, 1987) pp. 359, 371, 385.

- COSTA, Ricardo da. A Educação na Idade Média. A busca da Sabedoria como caminho para a Felicidade: Al-Farabi e Ramon Llull. In: Artigo publicado em Dimensões – Revista de História da UFES 15. Dossiê História, Educação e Cidadania. Vitória: Ufes, Centro de Ciências Humanas e Naturais, EDUFES, 2003, p. 99-115 (ISSN 1517-2120).
- Nollet – Enciclopédia Católica

- Copérnico no Museu de Frauenburgo/Frombork

- http://www.frombork.art.pl/Ang01.htm

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http://www.calendario.cnt.br/MAQUINAESCREVER.htm

-
http://pt.wikipedia.org/wiki/Luca_Pacioli

- Hughes, Barnabas B. (editor). 1981. Jordanus de Nemore. De Numeris Datis. Berkeley, CA: University of Califórnia Press.

- Nicole Oresme, School of Mathematics and Statistics University of St Andrews, Scotland.
- Edição especial do [[Correio da Manhã]] – “Os Papas – De São Pedro a João Paulo II” – Fascículo X, “Gregório XIII, o Papa que acertou o calendário”, página 219, ano 2005.

- ARRUDÃO, Matias. Bartolomeu Lourenço de Gusmão. São Paulo: Fundação Santos Dumont, 1959.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

“Cristianismo: presença estranha ou fundação do Ocidente?”

ZP10021002 - 10-02-2010
Permalink: http://www.zenit.org/article-24057?l=portuguese 
Conferência do cardeal Schönborn na Catholic University of America
Por Kirsten Evans
WASHINGTON, quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010 (ZENIT.org).- O gelo e a neve não conseguiram impedi-los de ir. Em meio a uma tempestade de neve, o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, dirigiu-se a um auditório lotado de estudantes, professores, representantes do clero e fiéis leigos na Catholic University of America (CUA).
A conferência – uma iniciativa conjunta da Escola CUA de Teologia e Estudos Religiosos, da Faculdade de Filosofia e da Faculdade de Direito Canônico – estava aberta ao público. E o público chegou. A assistência foi tão grande, que alguns estudantes reclamaram por ter de voltar para casa, porque não havia espaço sequer para ficar em pé na sala.
O cardeal Schönborn, religioso dominicano, foi ordenado sacerdote em 1970. Antes de ser nomeado arcebispo de Viena em 1995, foi professor de Teologia Dogmática em Friburgo (Suíça). Mais tarde, foi elevado a cardeal, em 1998.
Ele dedicou sua conferência do dia 3 de fevereiro ao tema “Cristianismo: presença estranha ou fundação do Ocidente?”.
Alternativa fascinante
O cardeal Schönborn começou seu discurso delineando os três legados que ele considera fundamentais para a herança da cultura cristã no Ocidente: um senso de integridade moral, pelo qual os cristãos são reconhecidos frequentemente não só pelo que fazem, mas também pelo que não fazem; o conceito da humanidade como uma família unida, universal; e a ideia de que a liberdade torna o homem mais parecido com Deus e que é a maior possessão do ser humano.
O cardeal prosseguiu perguntando-se: “É verdade que o homem moderno ganhou sua liberdade através de uma amarga luta contra a Igreja? É verdade que o Iluminismo trouxe a liberdade e a dignidade humana à humanidade, e não o cristianismo?”. Isso, segundo ele, é a grande hipótese da história moderna. Mas ele não está convencido disso.
Schönborn sugeriu que grande parte da Igreja primitiva nasceu e surgiu de um mundo greco-romano plural há 2 mil anos, e hoje o cristianismo oferece uma alternativa fascinante para o mundo secular moderno.
“A posição do cristianismo na Europa moderna é paradoxal – afirmou. É, ao mesmo tempo, um corpo estranho e uma raiz da Europa. Apesar de ser visto como uma entidade estrangeira, ainda evoca um sentimento de lar e nostalgia para muitos na Europa.”
“A Europa tem um crescente número de pessoas que, depois de ter vivido um estilo de vida plenamente secular, encontram o caminho de uma fé cristã coerente. E têm uma maneira de descrever sua descoberta do cristianismo como um ‘caminho a casa’ ou um ‘encontrar o lar’.”
Do céu e da terra
Aludindo a Santo Agostinho, o cardeal Schönborn explicou que “aqui reside a força característica e inconfundível do cristianismo: em sua dupla cidadania. Ao mesmo tempo terrena e celestial, convida à participação leal na sociedade, assumindo a responsabilidade da cidadania do homem, sem querer der derrocá-lo a fim de criar uma sociedade utópica. Este compromisso com o temporal se baseia no fato de uma cidadania menos perigosa na cidade de Deus”.
O cardeal Schönborn esclareceu que a exigência dos cristãos de pertencer não somente a uma cidadania terrena, mas a uma celestial, é o que faz que o cristianismo seja odiado pelos sistemas totalitários, muito especialmente no século XX. “O cristão é livre – disse. Livre com relação ao Estado, porque nunca é só um cidadão do Estado. Nunca antes esta liberdade cristã se expressou mais claramente que durante a época do fascismo, do comunismo e do nazismo durante o século passado, quando o testemunho cristão autêntico produziu milhões e milhões de mártires.”
O prelado considera que este fundamento da liberdade é precisamente o que o cristianismo tem a oferecer à Europa moderna. “É a liberdade das exigências da maioria, da correção política, ou simplesmente da pressão das últimas modas. A liberdade cristã”, descreveu.
Liberdade radical
Como testemunho do poder da liberdade cristã, o cardeal recordou os movimentos espirituais que se converteram em movimentos culturais na história ocidental. “Este ano se cumprem exatamente 1.100 anos desde a reforma monástica de Cluny – recordou. Esta reforma monástica criou na Europa mais de 4 mil mosteiros em um período de 200 anos. Uma rede fantástica em toda a Europa, com uma energia econômica, social, artística e espiritual enorme.”
Explicou que, quando Cluny começou a declinar, iniciou-se outra grande renovação espiritual com Bernardo de Claraval; depois, novamente com os cistercienses, e a história se repetiu de novo com as ordens mendicantes de Francisco e Domingos. Cada uma destas renovações espirituais ofereceu enormes contribuições às sociedades culturais e civis da sua época.
“Considera-se suficientemente a liberdade feita possível por estes movimentos de renovação, e a influência destes movimentos na Europa? – perguntou. Desde o seu início, o cristianismo permitiu que as pessoas saíssem da sua ordem temporal e política. A ideia de que o homem deve obedecer a Deus antes de obedecer ao homem trouxe um elemento de enorme liberdade à sociedade”, continuou.
O cardeal sustentou que, ao longo dos séculos, a liberdade de seguir Cristo radialmente possibilitou uma enorme energia criativa em todo o mundo ocidental e é “uma das fontes permanentes da vitalidade europeia”.
Schönborn também expressou sua alegria pelo ressurgimento de movimentos espirituais na Igreja de hoje. “Por que a história não haveria de se repetir hoje? – questionou. Por que não haveriam de ser o tipo de surpresa, surpresa inimaginável, diante de nós, que Francisco de Assis trouxe à Europa há 800 anos?” Descreveu os movimentos leigos na Igreja como “um sinal muito importante” e afirmou que apontam para o mesmo espírito criativo que uma vez trouxe à vida a renovação cristã espiritual e cultural de séculos anteriores. O cardeal mencionou em particular o Opus Dei, o Caminho Neocatecumenal e Comunhão e Libertação.
Convite à purificação
Mas o cardeal não deixou de indicar que a relação moderna entre laicismo e cristianismo serve ao necessário propósito da purificação e amadurecimento da cristandade: “O cristianismo também precisa da voz crítica da Europa leiga, fazendo perguntas difíceis, algumas vezes perguntas desagradáveis, perguntas às quais não devemos tentar evadir ou evitar”.
“Isso torna o cristianismo bom para escutar as perguntas da sociedade leiga e assumir o desafio de respondê-las. Isso desperta os cristãos e os desafia. Também põe em dúvida a credibilidade do cristianismo. E o cristianismo precisa ser questionado.”
“É bom para nós ter de prestar contas”
Explicou que o questionamento crítico do mundo leigo obriga o cristianismo a ser o que está chamado a ser e ajuda a purificar o que não é coerente entre suas palavras e fatos. “E por quê? – perguntou. Porque, no fundo, o Ocidente leigo deseja um cristianismo autêntico e espera um cristianismo que seja crível através da sua vida.”
O cardeal Schönborn concluiu a tarde com um convite à fé: “A liberdade cristã tem uma fonte inesgotável: ‘Recordai que eu estou convosco até o fim dos tempos’. Estas palavras de Jesus Cristo são o recurso mais poderoso do cristianismo! – exclamou. Por si só explicam o inesgotável poder de regeneração no cristianismo que uma e outra vez experimenta sua ressurreição, no poder d’Aquele que ressuscitou.”

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A Igreja contrária ao progresso e à civilização? - EB

Revista: PERGUNTE E RESPONDEREMOS D. Estevão Bettencourt, osb Nº 534 - Ano : 2006 - p. 537 Em síntese: Aos 8/12/1864 o Papa Pio IX promulgou o Silabo ou uma coletânea de erros filosófico-religiosos modernos condenados pela fé católica. Entre eles havia, como erro rejeitado, a afirmação de que o Papa se deve reconciliar com a civilização e o progresso. Este gesto condenatório se explica pelo contexto do século XIX e não se repetiria em nossos dias. É o que as páginas subseqüentes procuram demonstrar. Aos 8 de dezembro de 1864 o Papa Pio IX promulgou o Silabo (sumário) ou uma coletânea de 80 Proposições que refletem o pensamento da época em matéria filosófico-religiosa, condenando tais sentenças. Chama especialmente a atenção à última Proposição, que assim reza: "O Pontífice Romano pode e deve reconciliar-se e transigir com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna" (80ª Proposição). A conciliação da Igreja com o mundo moderno estaria peremptoriamente condenada. - O estudo do documento evidencia o caráter momentâneo de tal gesto, que por certo não equivale a uma afirmação ou condenação definitiva, como se verá através das páginas subseqüentes. O contexto histórico O quadro histórico no qual se insere o Silabo, começa a se delinear com a Revolução Francesa de 1789. Esta, frente ao absolutismo dos reis, proclamou a liberdade em todas as suas modalidades, aspirando à liberdade, à igualdade e à fraternidade. Inspirava-se, porém, no Racionalismo da chamada "Enciclopédia" (Voltaire, Diderot, d'A-Lembert...) e propugnava uma religiosidade natural, filosófica, incompatível com a fé cristã. Em conseqüência era hostil à Igreja e condenou muitos clérigos e leigos à pena capital. Ansiava por um Estado leigo. Tal programa ocasionou a Encíclica Mirari vos do Papa Gregório XVI em 1832, que foi a precursora do Silabo. O que a Revolução Francesa tinha de justo e correto era ofuscado pela sua têmpera anticristã, de modo que a renovação social não podia ser compreendida como um benefício. O Papa Pio IX (1848-1876) tomou consciência da necessidade de um pronunciamento mais enfático sobre tal problemática. Era instigado a tanto (como também dissuadido) por figuras importantes que o cercavam. O desenrolar de acontecimentos significativos na França e na Itália estimulou o desejo de tomada de posição clara frente a erros contemporâneos. Ei-los: Aos 24 de junho de 1863 foi publicada a Vie de Jésus (Vida de Jesus) de Ernest Renan. Tal obra obteve grande sucesso, penetrando nas diversas camadas da sociedade não somente na França, mas também em outros países. Com aparente aparelhagem crítica, Renan apresentava Jesus como personagem encantador, dotado de elevado ideal ético, não porém como Deus. Os intelectuais franceses se deixaram penetrar por tais concepções ou, ao menos, pelas premissas racionalistas e liberais que as inspiravam. Em agosto de 1863 realizou-se em Malines (Bélgica) um Congresso de Católicos Belgas desejosos de "consolidar a santa aliança dos filhos da Igreja". Foi então convidado o conde de Montalembert, francês, para tomar a palavra. Este, em seus discursos de 20 e 21 de agosto, rejeitou a aliança do trono e do altar (do Estado e da Igreja), defendendo a separação das duas instâncias; proclamou a liberdade de consciência e a liberdade dos cultos religiosos. Rejeitava a tese de que todas as religiões são equivalentes entre si, mas censurava com veemência a inquisição. Propunha assim o liberalismo, que naquela época era novidade. Montalembert recebeu os agradecimentos do Cardeal Sterckx de Malines e foi felicitado pelo rei Leopoldo. Publicou seus dois discursos sob a forma de um livro titulado L'Eglise libre dans I'Etat libre (A Igreja livre no Estado livre). Eis, porém, que o Núncio Apostólico na Bélgica enviou a Pio IX um relatório desfavorável a Montalembert. O bispo de Poitiers (França) Mons. Pio sugeriu ao Papa que interviesse oficialmente. Em Roma foi muito apreciada a posição do Conde du Val de Beaulieu que denunciava o liberalismo com o título: L'Erreur libre dans I'État libre (O Erro livre no Estado livre). Todavia o Bispo de Orleães Mons. Dupanloup interveio insistentemente junto ao Secretário de Estado o Cardeal Antonelli para que o livro de Montalembert não fosse posto no Index dos Livros Proibidos e Pio IX se contentasse com uma admoestação secreta a Montalembert. Em setembro de 1863 um Congresso de teólogos reunidos em Munique (Alemanha) aumentou o descontentamento do Papa. Vários intelectuais alemães, chefiados por Inácio (Doellinger, exprimiram desconfiança em relação à Teologia Escolástica (que era a Teologia apoiada pelo Magistério da Igreja), dando preferência a uma Teologia fundamentada sobre a história e a filosofia moderna. Reivindicava a liberdade de pesquisa sempre que não estivesse em jogo alguma verdade de fé. O Papa assim se via impelido a um pronunciamento solene. Contudo era intimado pelos Governos da França e da Bélgica, que receavam a publicação de uma encíclica que condenasse as bases das Constituições modernas. A hesitação do Papa foi superada pela instância dos Bispos ultramontanos (fiéis a Roma) da França, que pediam a condenação do liberalismo; além do quê, alguns Cardeais e o Santo Ofício estimulavam Pio IX a se manifestar com grande firmeza. Daí resultou o Silabo, cuja elaboração conheceu várias etapas. A lenta confecção do Silabo A preparação do Silabo, sujeita a oscilações diversas, durou quinze anos. O primeiro a propor a redação de um catálogo de erros contemporâneos foi Mons. Joaquim Pecci (futuro Papa Leão XIII), que em 1849 levou o Concílio regional de Espoleto a pedir a elaboração de tal documento. Era então Arcebispo de Perusia. Em 1852 a revista jesuíta La Civiltà Cattolica propôs ao Papa que anexasse à Bula destinada a definir o dogma da Imaculada Conceição de Maria essa coletânea de erros condenados, visto que Maria sempre foi tida como aquela que esmaga todas as heresias. Tendo aceito a proposta, Pio IX pediu ao Cardeal Fornari que consultasse Bispos e leigos capacitados a respeito de erros que merecessem condenação. Eis, porém, que dentre estes uma eminente figura propôs ao Papa que promulgasse uma Bula especial sobre a Imaculada Conceição, deixando os anátemas para outro documento. A essa altura dos acontecimentos, Mons. Gerbet, Bispo de Perpignan (França), aos 23 de julho de 1860 publicou um catálogo de 85 proposições errôneas. Ao recebê-lo, Pio IX resolveu mandá-lo como texto-base para a Comissão encarregada do Silabo. Esta condensou o documento de Dom Gerbert em 70 Proposições, anexando a cada uma a razão por que deveria ser condenada. O catálogo assim oriundo foi, sob segredo, apresentado aos 323 Bispos que em junho de 1862 foram a Roma para participar da canonização dos mártires japoneses. Ocorreu, porém, a violação do segredo de modo que o hebdomadário de Turim II Mediatore em outubro de 1862 o publicou, provocando o sarcasmo de certo público e ataques violentos contra a pretensa intransigência da Santa Sé. Pio IX então renunciou a levar adiante tal projeto. Os Bispos franceses o desestimulavam, alegando que o futuro documento da Santa Sé poderia parecer obra de um Bispo francês. Também era contrário ao projeto o Cardeal Antonelli, Secretário de Estado. Após tantas peripécias, o Papa resolveu vencer os entraves, atendendo ao Cardeal Bilio. Este propunha ao Papa que levasse a termo o projeto iniciado não mais procurando a colaboração de sábios distantes, mas recolhendo nos documentos do próprio Papa (alocuções, encíclicas, Cartas Apostólicas) as Proposições já condenadas a fim de formarem o Silabo. - O próprio Bilio se encarregou de facilitar o trabalho, de modo que este chegou a termo na forma em que ele hoje se acha, acompanhado da indicação de fontes e recomendado por uma carta do Cardeal Antonelli (o próprio Papa Pio IX não assinou pessoalmente o Silabo). O texto como tal O Sílabo foi publicado como Anexo à Encíclica Quanta Cura na data de 8 de dezembro de 1864, ou seja, dez anos após a definição do dogma da Imaculada Conceição. A encíclica começa denunciando o naturalismo, segundo o qual a sociedade humana deveria ser governada sem se levar em conta à religião; além disto, condena a total liberdade de consciência, a liberdade de imprensa, a laicização das instituições, a supressão das Ordens Religiosas Monásticas, o monopólio do ensino público, a total submissão da família ao Estado; o único objetivo da sociedade seria produzir riqueza. O Papa condena também o galicanismo, que subordina a igreja ao Estado e exige a confirmação do poder civil para que tenham vigência as leis da Igreja. Rejeita o racionalismo, que nega a Divindade de Jesus Cristo. Quanto ao Silabo, consta de Proposições tidas como inaceitáveis e reunidas em oito capítulos, que trazem a indicação das fontes respectivas. Eis algumas das mais significativas: Panteísmo, Naturalismo e Racionalismo absoluto (1-7) 1. Não existe Ser divino, supremo, perfeito em sua sabedoria e sua providência, que seja distinto da totalidade das coisas, por conseguinte Deus é sujeito a mudanças. Ele se faz no homem e no mundo. Todos os seres são Deus. Deus é uma só e mesma coisa com o mundo, o espírito com a matéria, a necessidade com a liberdade, o verdadeiro com o falso, o bem com o mal, o justo com o injusto. 2. Deve-se negar toda ação de Deus sobre os homens e sobre o mundo. 3. A razão humana, considerada sem referência a Deus, é o único árbitro do verdadeiro e do falso, do bem e do mal. Ela é a sua própria lei, ela basta, por suas forças naturais, para promover o bem dos homens e dos povos. Racionalismo moderado (8-14) São sete Proposições que reivindicam, para a Filosofia e a Teologia, total independência em relação ao magistério da Igreja. 8. Visto que a razão humana é igual à própria religião, as ciências teológicas devem ser tratadas como as ciências filosóficas. 11. Não somente a Igreja não deve, em hipótese alguma, insurgir-se contra a Filosofia, mas deve tolerar os erros da Filosofia e deixar que esta corrija a si mesma. Indiferentismo. Latitudinarismo (15-18) Latitudinarismo é a aceitação de normas morais laxistas ou poucas fundamentadas. 15. Todas as religiões são equivalentes entre si e toca ao homem escolher a que mais lhe agrade. 16. Os homens podem encontrar o caminho da salvação eterna e obtê-la seguindo qualquer religião. A Igreja e seus direitos (19-55) 20. O poder eclesiástico não deve exercer sua autoridade sem a permissão e o consentimento do governo civil. 26. A Igreja não tem direito próprio, nativo e legítimo de adquirir e possuir. 28. Não é permitido aos Bispos publicar Cartas Apostólicas sem o beneplático do governo. 30. A imunidade da Igreja e dos eclesiásticos tem sua origem no direito civil. 33. Não compete, unicamente por direito próprio e inato, à jurisdição eclesiástica dirigir o ensinamento das verdades teológicas. 39. O Estado, como origem e fonte de todos os direitos, goza de um direito que não é circunscrito por limite algum. 40. A doutrina da Igreja Católica é oposta ao bem e aos interesses da sociedade humana. 41. Em caso de conflito jurídico entre os dois poderes, o direito civil prevalece. 48. Mesmo nos Seminários dos clérigos, o método a seguir nos estudos está submetido à autoridade civil. 49. A autoridade leiga pode impedir os Bispos e os fiéis de se comunicar livremente com o Pontífice Romano. 54. Os reis e os príncipes não somente estão isentos da jurisdição da Igreja, mas são superiores a ela quando se trata de dirimir questões de jurisdição. Moral natural e Moral cristã (56-64) 61. Uma injustiça coroada de sucesso não prejudica em absoluto a santidade do direito. Casamento cristão (65-74) 65. Não há prova alguma de que Jesus Cristo tenha elevado o matrimônio à dignidade de sacramento. 74. As causas matrimoniais e os noivados, por sua própria índole, estão sujeitos unicamente à jurisdição civil. Principado civil do Pontífice Romano (75-76) 75. Os filhos da Igreja cristã e católica debatem entre si a compatibilidade temporal com o poder espiritual. 76. A extinção da soberania civil que goza a Santa Sé, muito serviria à liberdade e à felicidade da Igreja. Liberalismo moderno (77-80) 77. Em nossa época, já não convém que a Igreja Católica seja considerada a única religião do Estado, com exclusão de todos os outros cultos. 78. Por isto, a justo título, em alguns países católicos a lei permite que os estrangeiros aí de passagem ou residentes gozem do exercício público do respectivo culto religioso. 79. É falso que a liberdade civil de todos os cultos e que a plena liberdade para todos manifestarem aberta e publicamente todos os seus modos de pensar e opinar atiram mais facilmente os povos na corrupção dos costumes e propaguem a peste do indiferentismo. 80. O Pontífice Romano pode e deve reconciliar-se com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna. Comentando... O Silabo provocou debates; houve quem o apoiasse como também houve quem o contestasse. Na verdade, o Silabo não é um documento infalível. Condena autênticos erros como também proposições que, com o tempo, se tornaram aceitáveis. Na época de Pio IX o progresso e a civilização eram acompanhados por uma filosofia anticristã, que não é necessariamente ligada ao progresso. A fé cristã tranqüilamente a evolução tecnológica desde que não seja aplicada a deturpar ou destruir os valores do Evangelho. Aceita, e até proclama, a liberdade religiosa, que não significa a aprovação do indiferentismo ou do ateísmo, mas quer dizer que todo homem tem a obrigação de examinar a questão religiosa (existe ou não existe Deus? Se existe, onde pode ser encontrado?) sem ser constrangido a abraçar um determinado Credo ou a professar a descrença: é a dignidade humana que o postula. Isto não relativiza a verdade; existe uma única Religião revelada por Deus mediante Jesus Cristo, que vive na Igreja que Ele fundou e entregou a Pedro e seus sucessores. A verdade é uma só e sempre a mesma. Pode acontecer, porém, que cada época a encare sob diverso ângulo, de acordo com os parâmetros culturais do momento. Leve-se em conta, por exemplo, o vocábulo "democracia" - governo do povo pelo povo. Quando no século XIX se começou a falar de democracia, o vocábulo soou mal, pois foi identificado com "revolução sanguinolenta". Atualmente, porém, democracia representa a forma de governo ideal, em que cada cidadão guarda sua liberdade de expressão e de colaborar para o bem comum como prefere. Por conseguinte não se deve evocar o Silabo de Pio IX para contestar declarações do Concílio do Vaticano II.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O papel dos beneditinos na formação da civilização cristã

A IGREJA NA HISTÓRIA

A Regra de S. Bento, visando a observância plena do Evangelho em espírito de comunidade monasterial, passa a produzir um efeito moralizador imenso sobre os povos bárbaros

A. José G. C.
A. José G. C.
S. Bento
S. Bento, um dos pai do monaquismo e padroeiro da Europa
É fato histórico que a Igreja e o mundo Ocidental devem ao Monaquismo um fecundo foco de vida espiritual, de teologia e de cultura geral.
Ao escrever sua Regra em meados do século IV, S. Bento norteou as diretrizes dos monges em seu anseio por Deus tendo como alicerce o próprio Cristo e os Evangelhos como também o bom senso de equilíbrio e discrição dos romanos.
Com adaptações à sua época, a Regra de S. Bento contém elementos da tradição monástica ocidental e oriental. Sua disciplina é destituída de excessos místicos e penitências exageradas.
S. Bento soube dividir o dia moderadamente entre oração, trabalho (físico e intelectual) e repouso, o que fez de sua Regra um belo guia para nortear com segurança a ascese daqueles que buscam entregar-se a Deus sem maltratar a natureza.

Modelo de conduta e organização

Por sua discrição, espiritualidade e equilíbrio, a Regra de S. Bento transformou-se no modelo de conduta e organização que a Igreja assumiu nos tempos bárbaros, passando a atrair muitas vocações, como até hoje continua atraindo.
A simplicidade do lema de S. Bento "Ora et Labora" (Ora e trabalha) propunha a alternância entre o trabalho e a oração. Dava grande importância ao Ofício Divino, isto é, à oração oficial da Igreja (conhecida como Oração das Horas) rezada no coro sete vezes durante o dia e uma vez durante a noite. Assim, seu objetivo era impregnar toda a vida do monge no espírito de oração, inclusive durante o trabalho, que naquela época centrava-se na lavoura e nas oficinas.
A Itália do século IV, com freqüentes envolvimentos em guerras, via-se prejudicada na disseminação da educação. Os monges dessa época eram quase todos de pouca cultura. Nos mosteiros de S. Bento, no entanto, a atividade intelectual era originalmente a da "lectio divina", isto é, a da leitura meditada das Sagradas Escrituras.
O voto de Estabilidade proposto pela Regra beneditina fixava o monge física e juridicamente no seu mosteiro, o que impedia a divagação dos monges.
Assim, nas alternâncias entre trabalho e oração, construiu-se na prática um modelo de vida comunitária que decisivamente passou a gerar progresso e espiritualidade para o homem medieval.

Os mosteiros como núcleos de formação cultural e cristã

Mosteiro
Graças aos monges copistas, os tesouros da cultura greco-romana foram salvos através de seus códigos e obras de arte
Por sua estabilidade, bom-senso e espiritualidade, gradativamente os mosteiros beneditinos passaram a cumprir um papel missionário e cultural relevante na história da Igreja. Foram os monges beneditinos os responsáveis em grande parte pela evangelização dos anglo-saxões e outros povos germânicos (Inglaterra, Bélgica, Holanda, Norte da Alemanha, etc). Sua vida e conduta espiritual aos poucos foram sendo assimiladas pelos povos das aldeias que se formavam nos arredores dos mosteiros.
Assim, como uma corrente salutar que passou a diluir os costumes bárbaros, com esforço e consistência nasciam os princípios de uma nova cultura sob a luz do Cristianismo. As escolas "monasteriais" passam a ser núcleos de transmissão de conhecimentos científicos e formação cristã para as crianças e adolescentes.
Graças aos monges copistas, os tesouros da cultura greco-romana foram salvos através de seus códigos e obras de arte. Graças a esse esforço que estamos longe de avaliar essa herança cultural foi preservada dos ataques bárbaros, podendo chegar até nós.

O exemplo arrebata

A Regra de S. Bento, visando a observância plena do Evangelho em espírito de comunidade monasterial, passa a produzir um efeito moralizador imenso sobre os povos bárbaros. Esses povos começam a ver nos monges, que viviam uma vida salutar cotidianamente centrada no espírito da Regra, um exemplo superior a ser seguido.
Princípios cristãos estabelecidos pela Regra de S. Bento e vividos na prática pelos monges evangelizavam muito mais do que por palavras. Por exemplo, S. Bento ensinava que o verdadeiro monge deveria ser: "Não soberbo, não violento, não comilão, não dorminhoco, não preguiçoso, não murmurador, não detrator... mas casto, manso, zeloso, humilde, obediente" (2º Cap. da Regra). Nos mosteiros os monges viviam este ensino, ao pautarem suas vidas pela Regra.
A mentalidade contemporânea não possui o alcance para entender plenamente o quanto esse exemplo de vida monasterial efetivamente influenciou na unidade e na autenticidade de fé cristã do homem medieval. Aliás, embora rude, pelo exemplo dos monges o homem medieval passava a ter em Deus o centro de sua vida, de sua família, suas posses, sua arte, seus ideais.
Interessante que, a partir do momento em que o homem dissociou o trabalho da oração, a civilização perdeu-se na ansiedade vazia de falsos valores e conflitos.

A cruz e o arado

O símbolo monástico era composto pela cruz e o arado, representando a nova maneira de viver a vida cristã: oração e trabalho. Dessa forma teve início a edificação espiritual e material de uma nova sociedade, que se solidificaria sobre as ruínas do mundo romano.
Assim, o início do monaquismo ocidental surgia com S. Bento e doze pequenas comunidades de monges em Subiaco, lugarejo situado a 50 km de Roma, e a 96 km de Monte Cassino, que se tornou o grande mosteiro beneditino.
Cada mosteiro beneditino guardava sua independência de outro e tinha um Prior. O Abade (palavra que significa Pai, por ser o tutor no nascimento espiritual do monge) assumia sobre si a responsabilidade sobre a comunidade e seus filhos espirituais.
Subiaco
Mosteiro de S. Bento em Subiaco, Itália

Os beneditinos e a formação do continente europeu

O professor e historiador Dr. Antonio Linage, da Universidad San Pablo de Madrid, onde leciona História do Direito, cuja formação é de medievalista e em Salamanca foi professor de História da Idade Média, autor do notável livro intitulado Os Beneditinos e sua história, explica porque historicamente S. Bento é reconhecido como padroeiro da Europa.
Diz ele que "S. Bento é justamente o padroeiro da Europa porque, além de toda a importância cultural, deve-se considerar também todo o trabalho agrícola e os séculos em que os beneditinos ocuparam lugar central na história coincidem com os séculos de formação do continente, da formação da Europa como tal. Os beneditinos, embora tivessem vocação de claustro, há quem diga que foram fundados para o coro - propter chorum fundati - foram grandes educadores não só porque criaram cultura, mas também por transmiti-la: até a Baixa Idade Média, as escolas claustrais tiveram uma importância essencial. E na Baixa Idade Média - e mesmo ainda hoje — há mosteiros beneditinos que têm colégios — lembrando que os beneditinos estão agrupados em congregações: há congregações que têm colégios e outras não". (1)

A contribuição beneditina oferecida à Igreja

Modernos historiadores reconhecem que durante o longo período caótico resultante das invasões bárbaras, que duraram seis séculos, ou seja, do século V ao século X, as comunidades beneditinas foram verdadeiros oásis de paz e ordem. E, sobretudo, de progresso.
A contribuição que os beneditinos deram à Igreja chega a ser espantosa. Até o século XIV a Ordem de S. Bento já tinha dado a Igreja 24 papas, 200 cardeais, 7000 arcebispos, 15.000 bispos e 1500 santos canonizados, 37.000 mosteiros. Tinha inscrito na Ordem 20 imperadores, 10 imperatrizes, 47 reis e 50 rainhas. (Schuster, 1956). Nesse sentido, sua influência sobre a Civilização Ocidental é incontestável.

Hospitalidade beneditina — o recolhimento acolhedor

Os beneditinos são conhecidos por sua hospitalidade incondicional. S. Bento escreveu em sua Regra: "Todo hóspede que chega no mosteiro deve ser recebido como se fosse o próprio Cristo". Os monges, portanto, deixam as portas sempre abertas para todos e também seu pão é partilhado generosamente com cada hóspede que chega ao mosteiro.
Um exemplo do acolhimento beneditino destaca-se no monastério de Aubrac, localizado entre montanhas e onde havia um hospital criado no final do século VI. O espírito protetor de Cristo se fazia ali presente no soar de um sino especial que toda noite chamava os viajantes ou qualquer outro que precisasse de pousada. O povo o chamava de "o sino dos andarilhos" (Montalembert, 1896).
Os monges que viviam em mosteiros situados próximos do mar colocavam sinalização para prevenção de naufrágios ou para auxiliar barcos que naufragavam, dando provisões aos navegantes que sobreviviam. A cidade Copenhagen teve sua origem a partir de um mosteiro ali estabelecido por seu fundador, o bispo Alsalon, que forneceu socorro às vítimas de um barco que naufragara ali.
No Brasil, a contribuição beneditina através de seus tradicionais mosteiros é um legado histórico cultural-espiritual incontestável, como por exemplo, nas capitais de S. Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, etc.

Desenvolvimento e progresso à luz de Cristo

S. Bento e sua Regra
Não existiria nem mesmo esta Europa recoberta de glórias, sem as suas raízes cristãs e sem os seus monges
Impressionante é o legado dos monges beneditinos na agricultura, na arquitetura, na música, na literatura, nas descobertas científicas e tecnológicas, etc.
Uma interessante observação histórica faz o Prof. Léo Moulin, que foi cinqüenta anos docente da Universidade Maçônica de Bruxelas, Universidade fundada para fazer frente à Católica de Louvain. Moulin é filho de família agnóstica, anticlerical, voltada para o Socialismo. Em entrevista ao jornalista italiano Vittorio Messori, Moulin, falando como agnóstico, fez a seguinte consideração sobre o papel empreendedor dos monges na história:
"O século XIII, vértice da sociedade medieval, é um dos pontos mais altos e luminosos da história do Ocidente ou mesmo da humanidade. Em poucos decênios, tivemos Giotto, Dante, Tomás de Aquino, mil catedrais (...)"
Moulin desdenha o mito dos "séculos de trevas" ou "séculos obscuros" tão apregoados nos livros de História nas modernas escolas e universidades.
E ele próprio faz seu juízo objetivo:
"Eis um breve e incompleto elenco das invenções tecnológica (obras, quase todas, de monges beneditinos) do homem medieval, que, como se diz, a lenda, vivia na ignorância e na penitência, apenas à espera do fim do mundo: o moinho de água, a serra hidráulica, a pólvora preta, o relógio mecânico, o arado, a relha, o timão, a roda, o jugo para o cavalo, o canal com recusas e portas, a canga múltipla para os bois, a máquina para enovelar a seda, o guindaste, a dobradura, o tear, o cabrestante complexo, a bússola magnética, os óculos. Acrescentemos a imprensa, o ferro fundido, a técnica de refinação, a utilização do carvão fóssil, a química dos ácidos e das bases, etc. esse impulso ao conhecimento científico e tecnológico continuou nos séculos seguintes: no início do século XVII a Europa contava 108 Universidades, enquanto no resto do mundo não havia uma só...Isto põe um problema para o historiador. Por que é que o desenvolvimento ocorreu somente em área cristã, e não fora desta? Por que, hoje ainda, entre os dez países mais evoluídos e ricos do mundo, nove são de tradição cristã? Não há explicação senão a que já expus em livros dedicados à questão: há na mensagem cristã alguma coisa que leva os germes do desenvolvimento e do progresso. A antropologia da Bíblia exalta o homem e o põe no centro do universo. Além disto, pregando igualdades, ela cria uma sociedade livre, sem barreiras sociais ou de castas; não há, pois, como se surpreender se, alimentado por tal mensagem, o homem europeu conquistou o mundo... Por que as suas naves lhe permitiram dominar os mares? Por que ele, e ele só, sentiu a necessidade de expandir-se sobre a terra inteira, enquanto a África, a Ásia, a América pré-colombiana permaneciam imóveis nos seus confins? Sem esta nossa maravilhosa Europa, o mundo, como o conhecemos, não existiria. Mas não existiria nem mesmo esta Europa recoberta de glórias, sem as suas raízes cristãs e sem os seus monges." (Messori,1987). (2)

Silêncio orante

Oração
O Monaquismo: fonte da verdadeira espiritualidade cristã
Em sua Encíclica Orientale Lumen, no excerto intitulado O Monaquismo: fonte da verdadeira espiritualidade cristã, entre outros aspectos João Paulo II refere-se a importantes características da vida monástica, tais como sua exemplaridade de vida batismal, o modo de vida que se sustenta entre a Palavra e a Eucaristia, o olhar límpido na descoberta de si mesmo através da contemplação, a presença segura do Pai espiritual na figura do Abade, a constante comunhão com o Senhor mas com espírito de relação e serviço ao mundo.
João Paulo II atém-se também a uma característica essencial da vida do monge: o silêncio como meio de encontro com Deus.
Diz o sucessor de Pedro em sua carta que o mistério do Cristo que se deixa matar na cruz por um mundo que não O reconheceu, mas ressuscitado pelo Pai, prova que não se pode matar o amor requer, por sua transcendência, uma profunda atitude de contemplação silenciosa. E o mistério deste amor só pode ser verdadeiramente contemplado pela criatura através do silêncio. "Um silêncio que adora", define.
Por isso mesmo "o silêncio é um elemento essencial da espiritualidade monástica oriental". Neste silêncio que adora os monges souberam nutrir-se para levar a bom termo a obra de construção de nossa civilização.
E enfatiza: "devemos confessar que todos temos necessidade deste silêncio carregado de presença adorada: a teologia, para poder valorizar plenamente a sua própria alma sapiencial e espiritual; a oração, para que nunca se esqueça de que ver a Deus significa descer do monte com um rosto tão radiante que nos force a recobri-lo com um véu (Ex 34,33) e para que nossas assembléias possam dar espaço à presença de Deus, evitando celebrar a si próprias; a pregação, para que não se engane pensando que basta multiplicar as palavras para atrair os homens à experiência de Deus; o compromisso, para renunciar a fechar-se em uma luta sem amor e perdão".
Assim, João Paulo II exorta o atormentado homem contemporâneo, que por iniciativa própria decidiu apartar-se de Deus ao naufragar-se em suas utopias antropocentristas (que têm unicamente o homem como o centro de tudo) levando-o a refletir: "Desse silêncio tem necessidade o homem de hoje, que freqüentemente não sabe calar-se, por medo de encontrar-se consigo mesmo, de descobrir-se a si próprio, de sentir o vazio que se interroga por seu significado; o homem aturdido pelo ruído. Todos, tanto crentes como não crentes, necessitam aprender o silêncio que permite ao Outro falar, quando quiser e como quiser, e a nós, permite compreender essa palavra". (3)

Vivência transformadora

Verdade é que o homem moderno, desencantado de fátuas utopias, tem voltado seu olhar para a herança dos antigos monges e descoberto neles o testemunho de experiências interiores reais e transcendentes, que os tornam únicos e íntegros no domínio de si mesmos e na vivência cristocêntrica.
O monge beneditino Anselm Grün conta que um psicólogo amigo seu, que se encontrava em período de especialização e conhecia sempre novos modelos pelos quais todos estavam fascinados, disse-lhe certa vez: "Nós conhecemos constantemente novos métodos psicológicos e modelos de explicação, ninguém porém chega à idéia de vivê-los verdadeiramente. É que não sobra tempo para isso. E é por isso que me interessa vossa vida (a vida como monge beneditino). O que acontece quando alguém vive um tal modelo por vários decênios?"
A essa questão Grün lembra que as palavras, quando não vividas, são inúteis, lembrando o que pensava pai Jacó numa sentença dos patriarcas: "Não é só de palavras que se necessita. Pois existem muitas palavras entre as pessoas em nossa época. O que é necessário é a ação. E é isso que se busca e não palavras que não produzem nenhum fruto" (Apot 398).
Grün ainda afirma que a voz da Igreja primitiva nos chama no exemplo dos monges: "Reza incessantemente, pois somente a oração te tornará um homem completo e somente através da oração descobrirás a tua dignidade plena. Pois, de um modo muito especial, a oração aprofundará teu amor a Deus. E este há de tornar-se sempre mais forte até que um dia poderás contemplar aquilo que desejavas através da oração" (Evágrio, SobreOra 83s).
Em última instância o monge, na sustentação solitária e silenciosa de sua entrega voluntária e radical persegue uma única e obstinada meta em seu anseio por Cristo Senhor: "olhar incessantemente para a cruz e não desprezar todos os escândalos que se lhe apresentarem até alcançar o Crucificado" (Apot 1148). (4)
___________
Fontes consultadas e recomendadas:
1 Entrevista Antonio Linage Conde. Os Beneditinos e sua História. http://www.hottopos.com/notand2/linage.htm - acesso em 03/08/2008.
2 AQUINO, Felipe. Uma História que não é contada. O trabalho da Igreja Católica para salvar e construir a nossa civilização. Editora Cléofas. 2008. Várias transcrições desse artigo foram condensadas do capítulo IV A Força do Monaquismo e também O Monaquismo no Ocidente e a obra de São Bento, do mesmo livro. Convém lembrar que o prof. Felipe Aquino teve na pessoa do reconhecido monge beneditino D. Estêvão Bettencourt o seu diretor espiritual durante 40 anos.
3 JOÃO PAULO II. Encíclica Orientale Lumen. (Editrice Vaticana).
4 GRÜN, Anselm. O Céu começa em você. Editora Vozes. 2005.
Referências bibliográficas:
SUSTER, O.S.Br., Cardeal A. Ildefonso, "História de S. Bento e de Seu Tempo", Edições Lumen Christi, Mosteiro de S. Bento, Rio de Janeiro, 1956. Citado em "Uma História que não é contada", Felipe Aquino.
MONTALEMBERT, Charles, "The Monks of the West: From Saint Benedict to Saint Bernard", vol. 5, London, Nimno, 1896, p. 208.
MESSORI, Vittorio, "Questo meraviglioso Cristianesimo in cui non riesco a credere", Revista JESUS; setembro 1987, PP. 68-71. Citado em "Uma História que não é contada", Felipe Aquino.
Apot. Apotegmas dos padres do deserto (Sprüche der Väter. Apophthegmata Patrum, tradução de P. Bonifatius). Citado em O céu começa em você. Anselm Grün.
PÔNTICO, Evágrio. SobreOra. Sobre a oração (Praktikos. Über das Gebet, tradução e introdução de J. E. Bamberger. Citado em O céu começa em você. Anselm Grün.


Para citar este texto:
O papel dos beneditinos na formação da civilização cristã
Mensagens de Maria Santíssima e o último embate entre Igreja x anti-Igreja
http://www.mensagensdemaria.org/VerAIgrejaNaHistoria.php?codigo_artigo=106