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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ser cristão e cientista em perfeita unidade

Entrevista com Ricardo Ribeiro, físico e diretor da Licenciatura em Física da Universidade do Minho Quando se discute o equilíbrio entre Fé e Ciência são poucos os testemunhos de vida que o assumem tão inteiramente como Ricardo Mendes Ribeiro. Físico e atualmente diretor da Licenciatura em Física da Universidade de Minho, Ricardo Ribeiro é investigador em nanotecnologia, com especial relevância para o estudo do grafeno. Lecciona cadeiras de Física Contemporânea e, para melhor servir este propósito, publicou no ano passado um livro que vem colmatar um vazio na bibliografia dessa área. Este é o perfil pelo qual muitos o conhecem. Ricardo Ribeiro é também diretor do Centro Universitário do Minho, um local onde se promove uma formação integral para estudantes universitários, incluindo a vertente espiritual seguindo os ensinamentos de S. Jose Maria. Serão Fé e Ciência duas ruas compridas sem acessos, sem passeios comuns? Pode ser a Física uma ponte? Não existe qualquer contraposição entre a Ciência e a Fé (refiro-me à Fé Católica). A realidade é extraordinariamente rica e para a captarmos (nunca o faremos completamente) temos de a ver de diversas perspectivas, nas suas diversas dimensões. Neste sentido, a Ciência e a Fé são complementares, juntamente com outras formas de conhecimento que existem e não são nem ciência nem Fé. Por outro lado, ambas as formas de conhecimento são profundamente racionais e buscam a Verdade. Por isso não podem contradizer-se mutuamente. Além disso, têm objetos e métodos de estudo diferentes, o que torna impossível haver uma contradição entre os dois. Pode o grafeno falar de Deus? De que forma se pode ver Deus na investigação de materiais bi-dimensionais, no Centro de Física? A Física leva a Deus de uma forma muito especial, porque estudamos a Criação que Ele fez, onde depositou um carinho enorme, que encheu de belezas extraordinárias a todos os níveis... É de facto um modo de conhecer a Deus; Ele manifesta-se na Criação, da mesma maneira que o pensamento e a habilidade do escultor se manifestam na obra de arte. Um Físico conhece essas leis que são um lampejo da Inteligência divina, vê belezas que os outros não conseguem captar, e maravilha-se! Ele fez estas coisas para nós explorarmos, deliciar-nos, maravilhar-nos. É uma beleza puramente intelectual, racional. Que influência teve Josemaria Escrivá - Fundador do Opus Dei - na vida do físico e como continua hoje a influir no quotidiano do Diretor do Departamento de Física? Há muitos aspectos em que os ensinamentos de S. Jose Maria me influenciam. Talvez salientasse um: o amor à Liberdade. Amor que implica um respeito profundo pelos pensamentos e modos de ser dos outros. Uma verdadeira tolerância com as pessoas, acompanhada por um amor à verdade que não me permite dizer que está certo aquilo que está errado. Nisto há um grande paralelismo com o modo de funcionar dos Físicos. Buscamos a verdade, e fazemo-la passar pelo crivo da crítica construtiva, até ao extremo. Admitimos sempre alguém que pense de maneira diferente, mas tem de o fazer de uma forma congruente, sempre na busca do que é a verdade e não do ter ou não ter razão. Podia dar tantos exemplos! Que proposta apresenta o Opus Dei para contrariar a evanescência espiritual das comunidades académicas - os pequenos centros de investigação, os grandes laboratórios? Pode um investigador ser santo? Eu não falo em nome do Opus Dei, não tenho autoridade para isso. Mas o Opus Dei não apresenta mais soluções para os problemas da humanidade que a própria Igreja. Para responder a essa pergunta, é melhor ver o que o Papa disse na Alemanha há uns dias atrás: "Queridos amigos, o apóstolo São Paulo, em muitas das suas cartas, não tem receio de designar por «santos» os seus contemporâneos, os membros das comunidade locais. Aqui torna-se evidente que cada batizado - ainda antes de poder realizar boas obras ou particulares ações - é santificado por Deus. No Batismo, o Senhor acende, por assim dizer, uma luz na nossa vida, uma luz que o Catecismo chama a graça santificante. Quem conservar essa luz, quem viver na graça, é efetivamente santo. Queridos amigos, a imagem dos santos foi repetidamente objeto de caricatura e apresentada de modo distorcido, como se o ser santo significasse estar fora da realidade, ser ingénuo e viver sem alegria. Não é raro pensar-se que um santo seja apenas aquele que realiza ações ascéticas e morais de nível altíssimo, pelo que se pode certamente venerar mas nunca imitar na própria vida. Como é errada e desalentadora esta visão! Não há nenhum santo, à exceção da bem-aventurada Virgem Maria, que não tenha conhecido também o pecado e que não tenha caído alguma vez. Queridos amigos, Cristo não se interessa tanto de quantas vezes vacilastes e caístes na vida, como sobretudo de quantas vezes vos erguestes. Não exige ações extraordinárias, mas quer que a sua luz brilhe em vós. Não vos chama porque sois bons e perfeitos, mas porque Ele é bom e quer tornar-vos seus amigos. Sim, vós sois a luz do mundo, porque Jesus é a vossa luz. Sois cristãos, não porque realizais coisas singulares e extraordinárias, mas porque Ele, Cristo, é a vossa vida. Sois santos porque a Sua graça actua em vós." Isto aplica-se a qualquer cristão, e aos cientistas também. Voltando às duas ruas - Fé e Ciência - tenham elas os nomes Opus Dei e Física do Estado Sólido, como determina cada uma o sentido da vida do Ricardo? Eu não tenho uma vida esquizofrénica. Eu sou uma só pessoa que é cristã e cientista (e muitas coisas mais), em unidade de vida. Não deixo de ser Físico quando rezo nem deixo de ser cristão quando estou a investigar. Não há duas ruas. Há o meu caminho, a minha vocação, querida e amada por Deus, que inclui ser cristão e ser cientista, em perfeita unidade. Procuro que o meu trabalho seja oração, diálogo íntimo com Deus, imagem do que será no Céu, onde continuarei a ser Físico (e a maravilhar-me com as belezas da criação, nessa altura muito melhor compreendidas) e cristão (ou seja, apaixonado por Cristo) *** José Roberto Staliano blog: http://uneserinterativa.blogspot.com Texto foi retirado do site "Spe Deus", que por sua vez, retirou do site da "Opus Dei"

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os limites do método científico

ZP11082302 - 23-08-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28674?l=portuguese
Curso de verão sobre o padre Jaki, físico falecido em 2009

MADRI, terça-feira, 23 de julho de 2011 (ZENIT.org) – A importância de reconhecer os limites do método científico, que impede a ciência experimental de tratar de realidades não quantificáveis, foi exposta como uma das principais contribuições do sacerdote e físico húngaro Stanley Jaki.
Especialistas abordaram o tema Ciência e Fé em Stanley Jaki, em curso de verão no Colégio Maior San Pablo CEU, neste julho, em  Madri, cidade onde o padre faleceu há dois anos.
Os expoentes destacaram, como aspectos principais do pensamento de Jaki, os limites do método científico, a diferença entre ciência experimental e saber humanístico e a importância de distinguir ciência e fé sem opô-las.
Participaram, entre outros, Jacques Vauthier, matemático e professor de Filosofia da Ciência da Sorbonne; Manuel Maria Carreira, físico e filósofo da Universidade de Comillas, Espanha, e Paul Haffner, professor do Ateneu Regina Apostolorum, de Roma.
As instituições organizadoras do Congresso foram a Universidade CEU San Pablo e o Ateneu Regina Apostolorum.
Questão metodológica
Stanley Jaki se preocupou com os limites do método científico tentando continuamente separar o objeto da ciência e o objeto da religião. Em entrevista de 1991, ele citava Maxwell: “Uma das provas mais difíceis para uma mente científica é conhecer os limites do método científico”.
À pergunta sobre quais são esses limites, Jaki respondia: “Os limites da ciência (e ao falar de ciência me refiro aqui à física) são fixados pelo seu próprio método”.
“O método da física versa sobre os aspectos quantitativos das coisas em movimento. Só podemos aplicar legitimamente o método científico-experimental quando captamos aspectos quantitativos nas coisas. Mas quando nos surgem perguntas como ‘isso é belo?’, ou ‘existe isto?’, ou ‘esta ação é moralmente boa?’, estamos nos perguntando coisas que a ciência não pode responder”.
Segundo os expoentes do congresso, esta é uma ideia fundamental e “muito sadia”, e há unanimidade na epistemologia atual, não só entre os católicos.
Ciências e humanidades
Em razão dos limites do método científico, o cientista e sacerdote húngaro afirmou que a ciência experimental não é capaz de tratar de realidades que não são quantificáveis ou medíveis, e que pertencem ao saber humanístico.
Sobre a distinção entre saber humanístico e ciência experimental, Jaki afirmava: “Os estudos humanísticos e os científicos têm que ser feitos por separado. Não se deve tentar fundi-los, porque eles partem de premissas diferentes e empregam métodos diferentes”.
“Nos estudos humanísticos, por exemplo, quando estudamos Dante, não perguntamos quantas letras existem na obra dele. Mas é uma pergunta que no campo científico seria lógica”.
Jaki indicou que “devemos cultivar tanto os aspectos quantitativos das coisas quanto aqueles que não são mensuráveis”.
Contra o cientificismo
Os expoentes também destacaram que o padre Jaki denunciou o cientificismo como um enfoque da ciência que não reconhece os limites do seu próprio método.
Jaki afirmou que o grande crime deste século é dizer que o único verdadeiro conhecimento é aquele que pertence ao campo do mensurável quantitativamente.
Perguntado sobre as consequências mais relevantes, o padre húngaro respondia: “É um crime porque estas aplicações unilaterais do método quantitativo chegam a privar o ser humano da sua compreensão dos aspectos incomensuráveis da existência”.
Segundo Jaki, “a principal consequência é a relativização dos pontos de vista morais”.
“Em vez de agirmos numa perspectiva moral, segundo a qual uma ação é intrinsecamente boa ou intrinsecamente má, agora seguimos um modelo behaviorista”, explicava.
Para o cientista, “esta é a base do relativismo moderno, que se fundamenta na crença de que existem vários padrões de comportamento ou estilos de vida alternativos. E não se fazem mais perguntas a respeito”.
Complementaridade
O coordenador do curso, Leopoldo Prieto, afirma que “assistimos a uma nova onda de pressões de uma pretensa ciência biológica militante ateia”.
“Diante de um dogma clássico do cientificismo, que afirma que ciência e fé são incompatíveis, o padre Jaki reitera uma doutrina clássica da Igreja”, diz Prieto. “Ou seja, que existe uma distinção de métodos entre elas, mas nenhuma oposição, e sim perfeita complementaridade”.
Para o padre Jaki, ciência e fé são dois modos de aproximação, ambos racionais, com métodos diferentes.
Padre e cientista
Stanley Jaki nasceu em 1924 em Győr, Hungria. Sacerdote beneditino, foi professor de História e Filosofia da Ciência na Universidade Seton Hall de South Orange, Nova Jersey.

sábado, 11 de junho de 2011

Discurso do Papa a seis novos embaixadores

ZP11060906 - 09-06-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28180?l=portuguese
“A técnica que domina o homem o priva da sua humanidade”, adverte

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 9 de junho de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, o discurso que Bento XVI dirigiu hoje aos novos embaixadores da Moldávia, Guiné Equatorial, Belize, República Árabe da Síria, Gana e Nova Zelândia, ao recebê-los em audiência no Vaticano por ocasião da apresentação das suas cartas credenciais.
***
Senhora e senhores embaixadores:
Recebo-vos com alegria nesta manhã, no Palácio Apostólico, para a apresentação das cartas que vos acreditam como embaixadores extraordinários e plenipotenciários dos vossos respectivos países ante a Santa Sé: Moldávia, Guiné Equatorial, Belize, República Árabe da Síria, Gana e Nova Zelândia. Agradeço-vos pelas amáveis palavras que me dirigistes da parte dos vossos respectivos Chefes de Estado. Por gentileza, transmiti-lhes minha cordial saudação e meus votos respeitosos pelas suas pessoas e pela alta missão que cumprem ao serviço dos seus países e do seu povo. Também desejo saudar, através de vós, todas as autoridades civis e religiosas das vossas nações, assim como ao conjunto dos vossos compatriotas. Minhas orações e meus pensamentos se dirigem também, naturalmente, às comunidades católicas presentes em vossos países.
Como tive a oportunidade de encontrar-me com cada um de vós de maneira particular, desejo agora falar-vos de maneira mais ampla. O primeiro semestre deste ano esteve marcado por inúmeras tragédias que atingiram a natureza, a tecnologia e as pessoas. A magnitude dessas catástrofes nos interroga. O homem é o primeiro, é bom recordar isso. O homem, a quem Deus confiou a boa gestão da natureza, não pode ser dominado pela tecnologia e tornar-se seu súdito. Esta consciência deve levar os Estados a refletirem juntos sobre o futuro a curto prazo do planeta, frente às suas responsabilidades sobre a nossa vida e a tecnologia. A ecologia humana é uma necessidade imperativa. Adotar em tudo uma maneira de viver respeitosa do ambiente e apoiar a pesquisa e a exploração de energias limpas que preservem o patrimônio da criação e não sejam perigosas para o homem devem ser prioridades políticas e econômicas. Neste sentido, é necessário revisar totalmente nosso enfoque da natureza. Esta não é unicamente um espaço por explorar ou lúdico. É o lugar de nascimento do homem, sua “casa”, por assim dizer. É essencial para nós. A mudança de mentalidade neste âmbito, ainda com as contradições que carrega, deve permitir chegar rapidamente à arte de viver juntos, que respeite a aliança entre o homem e a natureza, sem a qual a família humana corre o risco de desaparecer. Deve ser realizada, portanto, uma reflexão séria e devem ser propostas soluções precisas e viáveis. O conjunto dos governantes deve se comprometer a proteger a natureza e a ajudar a que desempenhe sua função essencial na sobrevivência da humanidade. Nas Nações Unidas me parece que são o marco adequado desta reflexão, que não deverá se obstaculizar por interesses políticos e econômicos cegamente partidários, para dar prioridade à solidariedade sobre o interesse particular.
Convém também perguntar-se sobre o justo lugar da técnica. As proezas das quais é capaz caminham lado a lado com desastres sociais e ecológicos. Ao ampliar-se o aspecto relacional do trabalho no planeta, a técnica imprime à globalização um ritmo especialmente acelerado. No entanto, a base do dinamismo do progresso corresponde ao homem que trabalha e não à tecnologia, que não é mais que uma criação humana. Apostar tudo nela ou acreditar que é o único agente de progresso ou de felicidade entranha uma coisificação do homem que conduz à cegueira e à miséria quando ele mesmo lhe atribui e delega a ela poderes que não tem. Basta constatar os “estragos” do progresso e os perigos que apresenta à humanidade uma técnica todo-poderosa e finalmente não controlada. A técnica que domina o homem o priva da sua humanidade. O orgulho que gera faz nascer em nossas sociedades um economicismo intratável e certo hedonismo que determina os comportamentos de maneira subjetiva e egoísta. O enfraquecimento da primazia do humano entranha uma confusão existencial e uma perda do sentido da vida. Porque a visão do homem e das coisas sem referência à transcendência desarraiga o homem da terra e, mais fundamentalmente, empobrece a própria identidade. É, portanto, urgente chegar a conjugar a técnica com uma forte dimensão ética, já que a capacidade que o homem tem de transformar e, de certa forma, de criar o mundo através do seu trabalho se baseia sempre no primeiro dom original das coisas, realizado por Deus (João Paulo II, Centesimus annus, 37). A técnica deve ajudar a natureza a prosperar na linha querida pelo Criador. Trabalhando assim, o pesquisador e o cientista aderem ao desígnio de Deus, que quis que o homem seja o cume e o gestor da criação. As soluções baseadas neste fundamento protegerão a vida do homem e sua vulnerabilidade, assim como os direitos das gerações presentes e as vindouras. E a humanidade poderá continuar beneficiando-se do progresso que o homem, pela sua inteligência, consegue realizar.
Conscientes do risco que a humanidade corre frente a uma técnica vista como uma “resposta” mais eficiente que a vontade política ou o paciente esforço educativo por civilizar os costumes, os governantes devem promover um humanismo respeitoso da dimensão espiritual e religiosa do homem. Porque a dignidade da pessoa humana não varia com a flutuação das opiniões. Respeitar sua aspiração à justiça e à paz permite a construção de uma sociedade que promove a si mesma, quando apoia a família ou rejeita, por exemplo, a primazia exclusiva das finanças. Um país vive da plenitude da vida dos cidadãos que o compõem, cada um sendo consciente das suas próprias responsabilidades e podendo fazer valer suas próprias convicções. Por outro lado, a tensão natural ao verdadeiro e ao bem é fonte de um dinamismo que gera a vontade de colaborar para realizar o bem comum. Assim, a vida social pode se enriquecer constantemente, integrando a diversidade cultural e religiosa através da partilha de valores, fonte de fraternidade e de comunhão. A vida em sociedade deve ser considerada, antes de tudo, como uma realidade de ordem espiritual, e os responsáveis políticos têm a missão de guiar os povos rumo à harmonia humana e à sabedoria tão desejadas, que devem culminar na liberdade religiosa, autêntico rosto da paz.
Ao começar vossa missão ante a Santa Sé, eu vos asseguro, excelências, que encontrareis sempre em meus colaboradores a escuta atenta e a ajuda que podeis necessitar. Sobre vós, vossas famílias, os membros das vossas missões diplomáticas e sobre todas as nações que representais, invoco a abundância das bênçãos divinas.
[Tradução: Aline Banchieri.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

As bençãos da tecnologia



Diretor do Center for Academic Research do Acton Institute
Nos últimos trinta anos, um certo grau de ceticismo sobre os méritos da tecnologia vieram à tona nas reflexões e escritos de muitos cristãos. Sem dúvida, os bons cristãos têm razão para estarem preocupados com os usos que muitas vezes são dados à tecnologia. Quando Hannah Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, não se referia à mentalidade burocrática que, com relativa eficiência, tratava de matar os judeus europeus. Ela também tinha em mente o modo pelo qual a tecnologia moderna fazia com que a matança em série de seres humanos parecesse menos enlouquecida, menos sanguinária, e até mesmo um tanto desapaixonada.
Cada vez mais os acontecimentos tecnológicos quotidianos, tais como a popularização do e-mail e da Internet, são, por vezes, retratados por alguns cristãos como facilitadores da despersonalização da vida humana e dos relacionamentos. Outros cristãos parecem suspeitar da associação da tecnologia com a emergência da modernidade, ou seja, um período da história no qual as exigências da Revelação são, muitas vezes, vistas como se fossem desafiadas pelos avanços da ciência.
Certa vez, Karl Marx argumentou que a sociedade tecnológica facilitava o ateísmo. Sem dúvida, há um tanto de verdade nessa afirmativa. Os avanços tecnológicos criam para nós um mundo cercado de produtos feitos pelo homem. Muitos de nós vivemos numa cultura repleta de aparelhos mecânicos pelos quais moldamos nossas vidas, e em estruturas sem precedentes na história, dominadas por certas características construídas pelo homem. Como resultado, a tecnologia nos dá uma imagem de nossas obras. Essa auto-imagem é o que muitos seres humanos consideram, admiram e, às vezes, cultuam.
O problema do auto-consumo e do culto idólatra de si mesmo têm, no entanto, atormentado o homem desde o princípio. Ocorreu em todas as culturas e em todas as épocas, não importando o grau de desenvolvimento tecnológico. No mundo romano atingiu uma espécie de apogeu com a auto-atribuição de divindades por parte dos Césares.
Será possível, então, que os cristãos pensem em tecnologia de alguma forma que evite, ao mesmo tempo, tanto a romantização do mundo pré-moderno e natural, mas também o “cientificismo” que nos faz crer que que a percepção da verdade é essencialmente limitada ao conhecimento da técnica?
Devemos ter em mente que o mal não procede da tecnologia em si. O mal deriva do pecado original e das livres escolhas dos seres humanos que preferem o mal ao bem. Portanto, o problema geralmente não é a tecnologia, mas como ela é usada. Dificilmente esse é um novo dilema.
Leonardo Da Vinci, que também era um engenheiro, desistiu de publicar os planos de um submarino que projetou porque considerava injusto atacar, sem aviso prévio, um adversário que não pudesse ver quem o atacava. Poderíamos supor que a decisão de Da Vinci foi ditada por um estranho código de cavalheirismo renascentista. O raciocínio de Da Vinci, entretanto, pressupunha simplesmente que a tecnologia estava sujeita a uma ordem maior: os ditames da lei moral divina, a única ordem que poderia dar à tecnologia um significado apropriado e determinar os fins para os quais poderia ser usada. Assim, devemos considerar que os submarinos não precisam ser empregados somente para fins violentos. Eles, de fato, têm servido para revelar ao homem muitas das glórias, anteriormente ocultas aos homens, como o mundo submarino criado por Deus.
Na verdade, é difícil pensar em algo que nos dê uma imagem mais poderosa da manifestação da Criação de Deus do que os imensos espaços solares que a astronomia nos permite vislumbrar. Em outras palavras, a tecnologia permitiu perceber uma parte do mistério complexo e interligado do universo de um modo nunca antes imaginado por Galileu ou Ptolomeu.
E nisso reside a maior de todas as ironias. Foi precisamente por realizar o mandato do livro do Gênesis de preencher a Terra e subjugá-la, que os seres humanos não só participam da ampliação do ato criador, mas também adquirem maior percepção das maravilhas da Criação. Por intermédio da tecnologia, cada vez um número maior de cientistas começa a vislumbrar o projeto e a ordem das coisas, onde muitos de seus ancestrais só viam a escuridão e o caos.
Nesse sentido, a tecnologia pode ajudar a desmistificar e “des-divinizar” o mundo material ao nos despertar para a majestade dAquele que o criou.
Jean Daniélou, um jesuíta estudioso da Patrística, certa vez observou que o homem primitivo identificava o sobrenatural em todos os lugares, mas isso se devia, em grande parte, à sua ignorância. Dessa forma, percebeu Daniélou, a tecnologia pode ajudar a “libertar a religião e a percepção humana do sobrenatural do incômodo fardo do pseudo-sobrenatural e do pseudo-religioso”.
Tudo isso nos leva a reconhecer que não há necessidade de denegrir Bill Gates para exaltar Santo Agostinho, da mesma forma que também não precisamos degradar a tecnologia humana para exaltar as obras de Deus. Quanto maiores as conquistas da tecnologia humana, segundo o divino ordenamento moral, escreveu Daniélou, Deus se mostra ainda maior ao homem.
Nesse sentido, não devemos ser excessivamente temerosos das conquistas tecnológicas do homem. Certamente, o cristão deve exigir que o uso que o homem dê à tecnologia, como a todas as outras escolhas, se conforme à Lei moral de Deus, uma lei possível de ser conhecida pela fé e pela razão. Mas, quanto maior o homem e suas conquistas tecnológicas, mais os cristãos devem perceber que ainda maior Ele deve ser – o Deus feito homem, o Alfa e o Ômega de todos os tempos, Jesus Cristo – de quem herdamos nossa própria grandeza.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

As ciências naturais e suas limitações




Por Joaquim Blessmann
 
 
 
Ao contrário do que pensam muitas pessoas, também pesquisadores, nenhum conhecimento científico é definitivo. Basta conhecer um pouco de História da Ciência para perceber que teorias que pareciam estar mais que provadas em outros tempos, são completamente ridículas para o homem moderno.
 
 
 
A respeito do conceito do tempo, comentou Santo Agostinho: “O que é o tempo? Se ninguém me fizer esta pergunta, eu sei o que o tempo é. Mas se eu desejar explicar a quem me fizer a pergunta, eu não sei mais respondê-la”.

Cremos que com relação ao conceito de ciência pode-se fazer comentário análogo. É difícil defini-la, e muitos livros foram escritos sobre esse tema. Inicialmente, vejamos o que apresenta o dicionário Houaiss:

Ciência: Cada um dos ramos particulares e específicos do conhecimento, caracterizados por sua natureza empírica, lógica e sistemática, baseada em provas, princípios, argumentações ou demonstrações que garantam ou legitimem a sua validade”.
        
Entre os diversos livros que procuram definir ou ao menos explicar o que seja ciência, vejamos o que diz Chalmers 1. Ele começa o Prefácio da 1ª edição (1976) informando que seu livro pretende ser uma introdução simples, clara e elementar das opiniões modernas sobre a natureza da ciência. E apresenta diversas dessas “opiniões” (que, a rigor, partem de um pré-conceito), em um crescendo de complexidade, terminando com sua própria visão do que seja ciência.

Limitar-nos-emos a algumas das considerações iniciais de Chalmers 2:

“Em uma concepção do senso comum do que seja conhecimento científico poder-se-ia dizer que conhecimento científico é conhecimento confiável porque é conhecimento provado objetivamente, sendo as teorias científicas derivadas de maneira rigorosa a partir de dados obtidos por observação e experimento”.
        

A CIÊNCIA NÃO É VERDADE

De um modo já mais rigoroso, Chalmers considera que conhecimento científico não é conhecimento comprovado, mas sim que é provavelmente verdadeiro, pois, “por maior que seja, o número de observações ou experimentos é sempre limitado. Em virtude desta limitação, as conclusões devem ser consideradas não como certeza absoluta, mas como provavelmente verdadeiras” 3.

Vejamos, como um exemplo das muitas manifestações dos cientistas, o que escreveram Hawking e Medinow 4:

Qualquer teoria física é sempre provisória, no sentido de ser apenas uma hipótese: nunca é possível prová-la. Não importa quantas vezes os resultados dos experimentos estejam de acordo com alguma teoria, você nunca poderá ter certeza de que, na próxima vez, o resultado não a contradirá. Por outro lado, você pode desacreditar uma teoria encontrando uma única observação que seja discordante de suas previsões.

Do mesmo ponto de vista é o matemático Stewart 5:

Nunca se pode ter certeza de que uma teoria é absolutamente correta, ainda que ela resista a um milhão de testes experimentais; pois – quem sabe? – poderá fracassar no milionésimo primeiro. Assim, às vésperas do 3º milênio d.C., os cientistas começam a abandonar a busca da verdade [...]. Estamos aprendendo, de maneira penosamente lenta, a não nos levar demasiado a sério.
        
Cremos que a concepção de teoria científica apresentada por Tomás de Aquino em sua Suma Teológica é mais correta e encaixa-se nas considerações de Stewart. Ela deixa bem claro que a realidade física, o fenômeno observado, é uma coisa; e outra coisa são as teorias científicas que tentam explicá-lo:

“Uma teoria deve salvar as aparências sensíveis [ou seja, deve estar de acordo com o que aparece aos sentidos, com a realidade física]. Isto, entretanto, não constitui uma prova suficiente e decisiva, porque talvez pudéssemos salvar as aparências sensíveis com uma teoria diferente e mais simples”.

Com o que Hawking está plenamente de acordo, ao dizer:

“Não peço a uma teoria que corresponda à realidade, porque não sei o que ela é [...]. Apenas peço que uma teoria preveja os resultados de experiências” 6.

Em outras palavras: uma teoria científica não pretende corresponder à realidade, mas apenas explicá-la. Exemplifiquemos:

– A teoria do contínuo, na engenharia. Admite-se que a matéria seja contínua, sem falhas, fissuras, vazios, poros, espaços entre cristais ou moléculas. É mais do que evidente que isso não corresponde à realidade. Mas as teorias baseadas neste postulado explicam satisfatoriamente o comportamento dos materiais e facilitam enormemente os cálculos, quer se trate de uma ponte, torre, barragem ou outra estrutura qualquer, quer se trate do movimento e das forças existentes nos líquidos e nos gases, tais como: sustentação de um avião, bolas com “efeito” (futebol, tênis, pingue-pongue) e mesmo no movimento do sangue nas veias e artérias, etc.

Isaac Newton, em sua lei da gravitação universal: “Tudo se passa como se a matéria atraísse a matéria na razão direta das massas e na razão inversa dos quadrados das distâncias”. Não afirma, categórico: “a matéria atrai a matéria...”, mas, modestamente, sugere que “tudo se passa como se...”.

Owen Gingerich, astrônomo de Harvard: “Os átomos, como os imaginamos, não podem ser comprovados de um modo absoluto. O máximo que podemos dizer é que o universo age como se fosse feito de átomos”. Novamente um modesto “como se”, indicando que se pretende apenas explicar a realidade, sem a pretensão de afirmar que é assim e que não pode ser diferente.

– O mesmo vale para o mundo psíquico: uma teoria pode explicar o comportamento humano, mas nada assegura que ela indique a razão real deste comportamento. Penso nas teorias de Freud, Adler, Jung e tantos outros; teorias estas conflitantes entre si. Cada autor rejeita explicações diferentes da sua, que, no seu entender, exprime perfeitamente as razões do comportamento humano.
        
A concepção de Tomás de Aquino, em que se baseia um princípio fundamental do pensamento científico da atualidade (“em ciência nada é definitivo”), encontra corroboração pacífica no mundo científico. Por exemplo, encontramos o seguinte em Morris:

“Hoje em dia escreve-se muito sobre o caráter bizarro e supostamente paradoxal da mecânica quântica [...]. Os físicos que usam a mecânica quântica em seu trabalho não têm que se preocupar com seu sentido. A teoria funciona, e funciona muito bem. Mas, se quisermos saber precisamente o que a mecânica quântica nos diz sobre a natureza da realidade [o grifo é nosso] depararemos com problemas que nunca foram resolvidos, ou que, pelo menos, estão sujeitos a interpretações diferentes” 7.

Em resumo, uma teoria científica não quer ser a realidade, mas apenas explicá-la, como muito bem expõe o mesmo autor 8: “É a imaginação criativa que amplia nossa compreensão, descobrindo ligações entre fenômenos aparentemente não relacionados e formando teorias lógicas e coerentes para explicá-los” [o grifo é nosso]. Especificamente, Morris cita a teoria das cordas de dez dimensões (nove no espaço e uma no tempo). Essa teoria pode ter coerência matemática – e é isto que se exige de uma teoria científica – mas não há garantia de que as entidades teóricas correspondam a alguma coisa que exista na realidade 9.

Uma teoria deve ter pelo menos uma prova do que ela afirma, além de uma proposição lógica, coerente. Se não houver prova, não passa de uma hipótese, que pode ser um passo inicial para uma futura teoria caso venha a ser confirmada por observações e / ou experimentos. Pode-se ainda falar de uma simples proposta, quando se trata de uma idéia arrojada e ainda sem uma estrutura suficiente para ser uma hipótese. Pode ser, por assim dizer, um lampejo que aparece na mente de um cientista, como fruto, em geral, de muita meditação e outro tanto de genialidade.

A rigor, pode-se dizer que quando uma teoria é completamente comprovada, sem sombra de dúvida, deixa de ser uma teoria: é um fato. A Terra esférica (aproximadamente), por exemplo. A prova definitiva foi obtida pelas fotografias tiradas do espaço por astronautas. Comentando este ponto, Thuillier conclui que “as teorias só se tornam verdadeiramente verdadeiras quando não são mais teorias”. Vejamos o que escreveu:

“Os cientistas utilizam os fatos, i.e., certo número de observações e de resultados experimentais [...]. Seu desejo é produzir teorias válidas para uma infinidade de fenômenos. Mas, na prática, nunca podem estar certos de que reuniram todos os «fatos» úteis; e as teorias mais bem comprovadas continuam, por isso mesmo, precárias e frágeis [...]. Ao apresentar os «fatos» como uma espécie de prova maciça da verdade da ciência, dão a esta última uma publicidade exagerada 10.

“A afirmação de que a Terra é esférica (ou quase esférica) teve de início o estatuto de teoria: foi a partir da reflexão e da especulação que os sábios antigos chegaram a esta idéia. Depois, a teoria foi confirmada brilhantemente. Todos já vimos, em nossa época, fotografias que mostram literalmente a esfericidade (ou a quase esfericidade) de nosso planeta. Mas este é o paradoxo: não se trata mais de uma teoria! Para nós, é um fato, [...] nos lembra (este resultado) que as teorias só se tornam completamente verdadeiras quando não são mais teorias...”
        
Aí está, em nosso entender, umas das razões da condenação de Galileu pela Inquisição: deu como certo o que na época não deveria passar de uma hipótese. Não tinha prova alguma do que defendia, como ardoroso divulgador do trabalho de Copérnico. O seu maior mérito esteve em refutar brilhantemente as objeções ao heliocentrismo. A rotação da Terra em torno de seu eixo, no tempo de Galileu, não passava de uma hipótese, e Galileu não conseguiu provar esta rotação. A prova que apresentou, das marés, estava completamente errada, e só contribuiu para que sua “teoria” fosse fortemente combatida, inclusive pela maioria dos astrônomos de sua época. É verdade que acenou para os ventos alísios como prova desta rotação, mas não conseguiu quantificar este fenômeno que, de fato, está ligado à rotação de nosso planeta.

A primeira prova de que a Terra gira em torno de seu eixo foi obtida por Foucault, em 1851, com o pêndulo que fixou na cúpula do Panteão de Paris. Dizem que se Galileu tivesse observado por mais tempo o movimento pendular de um candelabro numa igreja (quando constatou que o período era sempre o mesmo, independentemente da amplitude de oscilação), teria conseguido a prova que tão ansiosamente procurava.

Ben-Dov, físico e Professor da História da Ciência e de Filosofia da Ciência, exprime muito bem o que se pode esperar da ciência hoje em dia:
        
“Diante dos sucessos obtidos pela física desde o século XVII, muitos viam na ciência um método que permitia desvelar a verdade última da realidade, os que consideravam que a validade de uma teoria física decorre do fato de todos concordarem em reconhecer que ela fornece uma descrição «verdadeira» da natureza [...].

“Este «realismo científico» animou a ciência até o século XIX [...]. No século XIX certas teorias científicas vieram substituir outras que não eram, contudo, menos científicas: a teoria do calórico (natureza fluida do calor) foi abandonada em proveito da teoria mecânica do calor, e a teoria ondulatória da luz destronou a teoria corpuscular. Assim uma vez que o método científico não garante que uma teoria forneça uma descrição realista da natureza, surgiu a necessidade de indagar sobre o tipo de saber gerado pela ciência, uma vez que ela não é um saber sobre a realidade.

“No final do século XIX, muitos pensadores, como Ernst Mach, afirmaram que o papel da ciência não é descrever a realidade [...]. A física deve se limitar unicamente a descobrir modelos matemáticos que expliquem dados experimentais” 11 [os grifos são nossos].

Como o leitor deve ter percebido, estas conclusões estão perfeitamente de acordo com o que apresentou Tomás de Aquino em sua Suma Teológica.

E, mais adiante, afirma Ben-Dov:

“A partir do século XVII a mecânica de Newton foi vista como o emblema de uma teoria «verdadeira», de uma teoria que proporcionava uma descrição genuína do mundo real. É verdade que o século XIX havia fornecido exemplos de teorias perfeitamente científicas – como a teoria do calórico ou a teoria corpuscular da luz – às quais havia sido necessário finalmente renunciar, e já se podia supor que os saberes adquiridos da física não são jamais definitivos12 [o grifo é nosso].

Vamos insistir nestas considerações sobre as limitações das teorias científicas. Assim, como mais um exemplo, apresentaremos as ponderações que a respeito faz Thuillier:

“A própria noção de teoria implica a incerteza. Mesmo uma teoria eficaz (no sentido em que o foi e ainda é a teoria newtoniana da gravitação) não é necessariamente uma teoria verdadeira [...].

“Uma boa teoria não é uma teoria definitivamente irrefutável e absolutamente verdadeira: é uma teoria coerente e que possui uma certa eficácia nas condições vigentes. O mal-entendido começa quando divulgadores ardorosos (às vezes os próprios cientistas) empreendem uma glorificação excessiva da certeza e da objetividade do saber experimental. E quando esquecem, entre outras coisas, que alguns dos famosos fatos podem ser explicados por várias teorias diferentes...” 13 [os grifos são nossos].

E, mais adiante, prossegue:

“Não é raro o fornecimento de «provas» experimentais se revele extremamente delicado. O próprio Darwin sabia do que estava tratando: ele não afirmava que sua teoria estivesse «comprovada», contentando-se em dizer que ela tornava inteligível grande número de «fatos» (o que é muito diferente...)” 14.


AS NOVAS TEORIAS

Um outro ponto que desejamos salientar é sobre a aceitação de novas teorias. Elas sempre foram contestadas e só pouco a pouco foram ganhando adeptos. Vejamos o que diz a respeito Freeman Dyson, matemático, físico e Professor Emérito do “Institute for Advanced Studies”, em Princeton (2000, p.315):

“O dever profissional de todo cientista diante de uma teoria nova e instigante é tentar refutá-la. É assim que a ciência funciona e se mantém honesta. Toda nova teoria deve lutar por sua existência contra críticas veementes e, muitas vezes, acerbas. Na maioria das vezes, acaba-se descobrindo que a nova teoria é incorreta e as críticas são absolutamente necessárias para tirá-las do caminho e dar lugar a teorias melhores. A rara teoria que sobrevive às críticas sai reforçada e melhorada e vai se incorporando gradualmente ao conjunto crescente de conhecimentos científicos” 15.

Eis alguns exemplos:

– No século XIX a teoria do eletromagnetismo de Hermann von Helmholtz tinha muito mais adeptos entre os cientistas que a de Maxwell. E, no final, esta foi plenamente adotada.

– Einstein nunca aceitou os conceitos de Niels Bohr relativos à teoria quântica, amplamente usados em nossos dias.

– O mesmo Einstein chegou a apresentar uma “prova” teórica de que os buracos negros não podiam existir. Atualmente sua existência é, pode-se dizer, ponto pacífico.

– Por outro lado, as teorias da relatividade especial e da relatividade geral de Einstein inicialmente foram muito contestadas. E só tiveram uma aceitação geral quando foram comprovadas por observações e experimentos.

– A própria existência dos átomos, quando lançada a teoria atômica por Dalton, no início do século XIX, foi considerada por muitos físicos apenas como “uma ficção útil, sem nenhuma base concreta na realidade” 16.

Vejamos como se manifestaram alguns “entendidos” no assunto: Em 1837, o químico Jean Baptiste Dumas: “Se eu pudesse, apagaria a palavra átomo da ciência, pois estou convencido de que ela ultrapassa a experiência”. Sainte-Claire Deville, na segunda metade do século XIX: “Não admito nem a lei de Avogadro [pertinente à teoria atômica] nem os átomos, nem as moléculas; recuso-me a crer naquilo que não posso ver nem imaginar. E na Inglaterra, Edmund J. Mills, em 1871 declarou o seguinte: “Os átomos são ainda mais inacreditáveis do que era o flogístico, esse fluido imaginário graças ao qual Stahl pretendia explicar a combustão” 17.

Na verdade, os átomos não passam de criação de nossas mentes. E o que serão, na realidade, o que conceituamos como elétrons, neutrinos, prótons e nêutrons? E os quarks que formam nêutrons e prótons? Talvez nem sejam partículas, mas nodos de ondas (de que tipo? com que propriedades?) ou de energia; ou algo que até agora a mente humana não conseguiu imaginar (e talvez nunca o consiga). De um modo análogo, o que constitui a luz: partículas (fotons) ou ondas? Ora ela se comporta como partícula, ora como onda. Talvez, na realidade, não seja nenhuma das duas coisas. Como comentam Hawking e Mlodinow 18, ondas e partículas “são conceitos de autoria humana, não necessariamente conceitos que a natureza é obrigada a respeitar, fazendo com que todos os fenômenos caiam numa categoria ou outra”.

Outro exemplo. Em 1915, Alfred Wegener, meteorologista alemão, publicou As origens dos continentes e oceanos, em que tratava da deriva dos continentes: eles podem se deslocar tanto horizontal como verticalmente. Wegener pacientemente coletou informações que se transformaram em argumentos a favor de sua teoria. Apresentou informações biológicas, geodésicas, geológicas, paleontológicas, paleoclimáticas, etc. Apesar de tudo, sua teoria foi duramente atacada por geólogos e geofísicos. Além de não aceitarem suas provas, seus opositores justificavam sua posição alegando que não havia força conhecida capaz de mover continentes. Além disso, ele não era geólogo profissional: era um amador.

Wegener morreu em 1930 e sua teoria, em face da até agressiva contestação, caiu no esquecimento. Somente na década de 1950, com novos instrumentos, capazes de medir campos magnéticos muitíssimo fracos de antigas formações rochosas, é que foi comprovada e aceita por muitos a deriva dos continentes. E a prova final apareceu em 1962, com a teoria do geólogo da Universidade de Princeton, Harry S. Hess, sobre o movimento do solo marinho. Esta teoria foi confirmada no ano seguinte, com as medições do magnetismo das rochas do leito do oceano feitas pelos oceanógrafos britânicos Frederick J. Vine e Drummond H. Mathews.

Algo que faz pensar sobre a confiabilidade da ciência é o que comenta Thuillier 19 a respeito da teoria de Wegener:

“Hoje em dia é fácil declarar que as peças de defesa de Wegener eram «insuficientes» e que só depois, com a teoria das placas tectônicas, os pesquisadores foram «racionalmente» persuadidos. Mas a partir de que momento os fatos podem e devem ser considerados como concludentes? Na realidade, as preferências pessoais influenciaram: havia aqueles que eram «a favor» e aqueles que eram «contra», sem qualquer critério absoluto para servir de base”.

O fato de a propagação da luz não ser instantânea foi combatido durante muito tempo. Eis uma das “provas” (que com os conhecimentos atuais parece ridícula) de sua instantaneidade: “Quando fechamos os olhos e os abrimos para o céu estrelado a luz estelar atinge imediatamente os nossos olhos, o que prova a sua instantaneidade”. Até pessoas de alto nível intelectual, tais como Johannes Kepler e René Descartes consideravam que a luz se propagava instantaneamente.

Em 1960, com os estudos de Edward Lorenz, foram lançados os fundamentos de um novo ramo da ciência, a chamada Ciência do Caos. A maioria dos cientistas com alguma ligação com os temas nela tratados julgou-a insensata e nada científica. “Idéias superficiais podem ser assimiladas; idéias que exigem reorganização da imagem que se faz do mundo provocam hostilidade”, escreveu a respeito Gleick 20. E a mesma hostilidade, inclusive por um grande número de astrônomos, provocou a teoria do heliocentrismo. Esta teoria, sem dúvida alguma, foi a causadora de uma imagem totalmente nova do universo, tanto do ponto de vista religioso como filosófico e astronômico. Lembremos que, de acordo com um criterioso estudo, entre 1543 (lançamento do livro de Copérnico) e 1600, apenas dez astrônomos foram encontrados que aceitavam a teoria de Copérnico como correspondendo à realidade física; para os demais que a aceitavam, não passava de uma hipótese útil para cálculos e previsões.

Concluindo, podemos dizer que é muito fácil (e muito comum!) criticar concepções do passado com os conhecimentos atuais (muitas vezes também profundamente alterados no decorrer do tempo; lembremos que em ciência nada é definitivo). Para sermos corretos em nossas avaliações e críticas, devemos integrar-nos, de corpo e alma, aos conhecimentos, costumes e “bom senso” da época e região que estamos estudando. Lembramos que Aristarco de Samos, no século III a.C, já havia lançado a teoria heliocêntrica, mas as fortes objeções que sofreu fizeram-na cair no esquecimento, até que Nicolaus Copérnico relançou-a, mais elaborada, no século XVI. Como muito bem comenta Ben-Dov:

Esta aparente cegueira em relação ao que hoje consideramos a «verdade», é perfeitamente compreensível [...]. No contexto da física antiga a hipótese do movimento da Terra conduzia a complicações inúteis. A hipótese da Terra imóvel no centro do universo era, portanto, justificada [...]. Além disso, ela havia dado origem a uma astronomia bastante sofisticada, desenvolvida pelos gregos e seus sucessores, que tinham conseguido descrever o movimento dos planetas com boa precisão” 21.

Afinal, o que se espera das teorias científicas é que elas expliquem os fenômenos e permitam prever os resultados de futuros experimentos e observações.


REFERÊNCIAS

(1) A. F. Chalmers, O que é ciência afinal?, Brasiliense, São Paulo, 2000.

(2) Idem, pág. 23.

(3) Idem, pág. 41.

(4) Stephen Hawking & Leonard Mlodinow, Uma nova história do tempo, Ediouro, Rio de Janeiro, 2005, pág. 23.

(5) Ian Stewart, Será que Deus joga dados?, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1991, pág. 190.

(6) Stephen Hawking & Roger Penros, A natureza do espaço e do tempo, GRADIVA, Lisboa, 1996, pág. 137.

(7) Richard Morris, O que sabemos sobre o universo, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2001, pág. 187.

(8) Idem, pág. 179.

(9) cf. Idem, pág. 208.

(10) Pierre Thuillier, De Arquimedes a Einstein, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1998, pág. 9.

(11) Yoav Ben-Dov, Convite à Física, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1996, págs. 102-103.

(11) Idem, pág. 128.

(13) Pierre Thuillier, op. cit., pág. 9.

(14) Idem, pág. 12.

(15) Freeman Dyson, Infinito em todas as direções, Companhia das Letras, São Paulo, 2000, pág. 14.

(16) Richard Morris, op. cit., pág. 174.

(17) Pierre Thuillier, op. cit., pág. 175.

(18) Stephen Hawking & Leonard Mlodinow, op. cit., pág. 82.

(19) Pierre Thuillier, op. cit., pág. 12.

(20) J. Gleick, Caos: A criação de uma nova ciência, Editora Campus, Rio de Janeiro, 1989, pág. 34.

(21) Yoav Ben-Dov, op. cit., pág. 19.
 
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Joaquim Blessmann
Engenheiro Civil, Mestre e Doutor em Ciências pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Professor Emérito da UFRGS. Professor Honorário da Universidade Austral, Buenos Aires. Membro Correspondente da Academia Nacional de Ingeniería da Argentina

domingo, 29 de agosto de 2010

A Tecnologia salva a humanidade?

A tecnologia é fundamental para o progresso e o desenvolvimento da humanidade. O ser humano, dotado de racionalidade por Deus, cria tecnologia para facilitar o seu viver. Foi assim ao longo da história da humanidade. Desde as cavernas até os modernos arranha-céus do século XX, desde a descoberta do fogo até a invenção do chipp, o homem buscou aprimorar sua vida sobre a terra.
Mas a tecnologia que cria o progresso, salva vidas, nem sempre foi utilizada para o bem estar da humanidade. Quantas vezes modernas técnicas serviram para matar, basta ver como as guerras do seculo XX, em especial as duas guerras mundiais, aprimoraram a arte de matar. O século XX produziu 100 milhões de mortos. Outro aspecto que vale destacar é a questão da tecnologia como meio de inserção social e redução das desigualdades sociais, o que de certa forma tem acontecido a passos lentos. Ocorre toda uma exclusão digital que alimenta a exclusão social, uma vez que quem não tem acesso a era digital acaba por se excluir do mercado de trabalho.
A tecnologia salva a humanidade? Depende. Se utilizada para o bem é capaz de salvar vidas e desenvolver a qualidade de vida. Mas, mal utilizada, usada para o mal ou sem princípios da ética e da moralidade é prejudicial para a sociedade. Como é o caso da pesquisa com células tronco embrionárias, autorizadas recentemente nos Estados Unidos, que mata embriões humanos em nome da "ciência". Diz o Papa Bento XVI na sua nova Encíclica, Caridade na Verdade, que um dos graves erros modernos é a absolutização da técnica, compreender a teconologia como capaz de resolver todos os problemas da humanidade. A ciência não resolve tudo, o homem não pode prescindir da família, dos valores morais e de Deus.
professor Faria.