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domingo, 3 de julho de 2011

O Regime Militar de 64 é a muleta moral dos intelectuais — eles o acusam de todos os crimes para melhor acobertarem os próprios

José Maria e Silva

“A revolução é biófila, é criadora de vida, ainda que, para criá-la, seja obrigada a deter vidas que proíbem a vida.”
Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido, defendendo os fuzilamentos sumários comandados por Che Guevara e Fidel Castro
Com quantas vidas se faz uma ditadura? Na belíssima novela de John Boyne, O Menino do Pijama Listrado, essa pergunta é respondida pelo espanto de Bruno, um menino de nove anos. Sempre que ele se surpreende com o mundo do Fúria à sua volta, seus olhos se arregalam, sua boca faz o formato de um O e seus braços caem ao longo do corpo. A obra, uma elegia à inocência da vida que não sabe da morte, deveria ser lida — e meditada — pelos 3.949 intelectuais que, até agora, assinaram um manifesto contra a Folha de S. Paulo, repudiando o editorial “Limites a Chávez”, publicado em 17 de fevereiro último, no qual a ditadura militar brasileira é indiretamente chamada de “ditabranda”. O Menino do Pijama Listrado (o livro, não vi o filme) demonstra, metaforicamente, a abissal diferença entre um regime autoritário (circunscrito à esfera política) e um regime totalitário (que permeia todas as instâncias sociais).
As primeiras reações ao editorial da Folha partiram da socióloga Maria Victória Benevides, professora da Faculdade de Educação da USP, e do advogado Fábio Konder Comparato, professor aposentado pela mesma instituição. Esquecendo-se que a universidade que representam arrasta até hoje um cadáver insepulto (o do estudante de medicina morto num trote em 1999), Benevides e Comparato encenaram uma indignação que jamais sentiram diante das quase 100 mil mortes perpetradas pela Trindade Cubana (Fidel, Guevara e Raúl Castro) — 17 mil na boca dos fuzis, em execuções sumárias, e 80 mil nos dentes dos tubarões, em fuga para os Estados Unidos. Como a Folha de S. Paulo chamou a atenção para essa dúbia moral de Benevides e Comparato, lembrando que eles jamais protestaram contra a ditadura cubana, os dois intocáveis uspianos se sentiram feridos e, em resposta, fizeram o que os intelectuais de esquerda mais sabem fazer quando são pegos sem argumentos — conclamaram o rebanho para um manifesto.
O inefável Antonio Candido, decano dos intelectuais de esquerda, encabeça o repúdio à Folha, que também conta com figuras como o indefectível Emir Sader, intelectual que, diante de Che Guevara, cai de joelhos por terra, parafraseando a missa: “Guevara, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo”. Quem duvida que Emir Sader é capaz dessa oração diante do guerrilheiro argentino, leia o que ele escreveu num artigo publicado em Carta Maior: “Não vou gastar palavras inúteis para falar do Che. Basta reproduzir algumas das suas frases, que selecionei para o livro Sem Perder a Ternura”. Também diante de Marx e Fidel, Sader emudece: “O que falar de Marx que permaneça à sua altura? O que escrever sobre Fidel?”
Se o ensino superior no Brasil, público e privado, não fosse mero aparelho ideológico da esquerda, Emir Sader jamais teria virado doutor em ciência política pela USP e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de orientador de teses e dissertações. Sem dúvida, estaria até hoje tentando passar no vestibular e sendo reprovado sempre, por não ter argumentos para retratar personagens da história. Que universidade isenta aceitaria um aluno que, ao ouvir falar de Marx, Guevara e Fidel, não fosse capaz de articular uma só palavra e se comportasse feito os silvícolas do Anhangüera, embriagado pelo álcool incandescente da revolução? Já imaginaram se um intelectual de “direita” dissesse não ter palavras diante de Karl Popper? Seria acusado de ignorante e charlatão. Emir Sader é um paradigma da universidade brasileira. Ele é a prova cabal de que, por trás da cantilena de “produção do conhecimento”, o que há nos mestrados e doutorados do país é uma usina de produção de marxismo e derivados.
Estou plenamente convicto de que a universidade brasileira não é solução para nada — ela é parte essencial do problema. As principais mazelas do Brasil são fomentadas artificialmente pela universidade, que, desde a década de 50, na ânsia de criar um novo mundo, especializou-se em destruir o existente. Isso fica muito claro quando se estuda a origem social dos guerrilheiros que pegaram em armas contra o regime militar. Eles vieram, em sua maioria, das universidades. Não tinham o menor apoio popular. Como é que o povo podia apoiar um bando de tresloucados que, de arma em punho, pregavam a derrubada de uma ditadura imaginária? Porque até o final de 1968, com a edição do AI-5, só havia ditadura na imaginação dos universitários.
Foi exatamente durante os propalados “Anos de Chumbo” que o Brasil viveu uma das maiores efervescências culturais de sua história, com os festivais, a imprensa alternativa, a Tropicália, o Cinema Novo, Chico e Vandré, Caetano e Gil. Ao contrário de Cuba, onde Chico Buarque seria fuzilado ou condenado a 20 anos de prisão se falasse mal de Fidel Castro, no Brasil, o máximo que lhe aconteceu foi ser admoestado pelos militares, o que lhe garante até hoje uma conta bancária maior do que seu indiscutível talento. Num ambiente assim, existe alguma razão plausível para se pegar em arma ou até para se perpetrarem atentados terroristas, como fizeram muitos grupos guerrilheiros? Obviamente, não. Em toda guerra, os primeiros sacrificados são os inocentes, portanto, a opção pela luta armada para derrubar um regime só se justifica quando esse regime é sanguinário e opressivo, incidindo sobre toda a vida social e não apenas sobre a esfera política. Era o que acontecia na terra do Menino do Pijama Listrado, daí o Levante do Beco de Varsóvia, em 1943, quando judeus desesperados — não tendo senão uma morte horrenda como alternativa — preferiram abreviar a vida numa luta suicida contra as tropas nazistas.
Mas esse não era o caso do Brasil dos militares. Aqui, os guerrilheiros eram homens e mulheres bem nascidos que, por puro espírito de aventura, jogavam fora o futuro como médicos, engenheiros e advogados e se arvoravam a libertadores da pátria, sem notar que a maioria esmagadora da população — provavelmente mais de 90 por cento — não se sentia oprimida nem pedia para ser libertada. Pelo contrário, o regime instalado em 1964 teve forte apoio popular e quando começou a ser repudiado nas urnas, em 1974, com a expressiva vitória do velho MDB, esse repúdio era mais de caráter econômico que político. A inflação estava recomeçando e os pobres votaram contra a “carestia”, que é como chamavam a inflação na época.
Já escrevi repetidas vezes, mas a ocasião me obriga a escrever de novo: quem acha que no Brasil houve uma ditadura sanguinária, totalitária, nos moldes nazistas (é essa a visão que se tem dos militares nas escolas) deve ler Pedagogia do Oprimido, o panfleto de auto-ajuda marxista do pedagogo Paulo Freire. Esse livro — que faz uma defesa explícita da luta armada e santifica Che Guevara, Fidel Castro e Mao Tsé-Tung — foi publicado em pleno ano de 1970, no Rio de Janeiro, pela Editora Paz e Terra, ligada aos padres da Teologia da Libertação. Em 1981, Pedagogia do Oprimido já estava na 10ª edição. Um verdadeiro best-seller, levando em conta que não é um livro comercial e o Brasil tinha muito menos estudantes universitários do que tem hoje. Ora, se o regime militar foi o período “mais sombrio da nossa história”, como dizem os intelectuais de esquerda, como se explica o sucesso editorial de uma obra que o combatia? Em Havana seria possível publicar um livro do gênero contra Fidel Castro, o santo fardado de Buarques e Sáderes?
Mas nem é preciso recorrer à ditadura cubana para demonstrar que os intelectuais brasileiros mentem descaradamente quando dizem que o regime militar de 64 foi uma ditadura sanguinária. A própria história recente do Brasil — contada mentirosamente por eles — mostra a contradição em que incorrem. É só comparar a “Revolução de 30” com a “Ditadura Militar” (ponho as expressões entre aspas para remeter ao modo como os dois períodos costumam ser chamados nos livros de história). Qual a diferença entre os dois períodos? A rigor, nenhuma. Salvo o fato de que Getúlio Vargas era um ditador civil, obviamente apoiado por militares, porque toda ditadura precisa de armas.
Sob o ponto de vista da repressão, Vargas foi muito pior do que os militares. O seu período, sim, foi literalmente “anos de chumbo”. Enquanto os militares procuraram preservar as instituições, garantindo eleições legislativas e a independência do Judiciário, Vargas centralizou todos os poderes em suas mãos, destituindo governadores e nomeando interventores em seu lugar. São Paulo se rebelou, na chamada Revolução Constitucionalista de 32, e Vargas bombardeou o Estado — o episódio mais sangrento da história brasileira no século passado, apesar de ofuscado pela preferência dos intelectuais pela Guerrilha do Araguaia. Todavia, mesmo quem não pegava em armas, não ficava ileso. O escritor Graciliano Ramos, individualista nato, incapaz de arregimentar qualquer movimento político, acabou sendo preso durante quase um ano, num presídio comum, sem julgamento. Seu único crime: escrever o romance São Bernardo, entre outros escritos tidos como comunistas. Bem que merecia, mas não teve indenização alguma pelo arbítrio de que foi vítima. Ao contrário dos fanfarrões que pegaram em armas contra os militares, o Velho Graça tinha vergonha na cara.
Se a sanguinária ditadura de Getúlio Vargas merece, nos livros de história, o epíteto de “Revolução de 30” (justificadamente, por sinal), por que os governos militares não podem ser chamados de “Revolução de 64”, levando em conta que também mudaram a face do Brasil? Vargas já era ditador desde o início de seu governo, antes mesmo da implantação do Estado Novo, em 1937, quando a tresloucada Intentona Comunista de 35 levou ao recrudescimento do regime. Já os militares só foram verdadeiramente ditadores a partir de 12 de dezembro de 1968, quando editaram o AI-5, obrigados pelos atos de terror da esquerda armada, treinada e financiada por Fidel Castro e abençoada por intelectuais como Paulo Freire. Mesmo assim, foi uma ditadura cirúrgica, circunscrita aos inimigos declarados do regime. Tanto que não chegou a matar nem 500 pessoas, como reconhecem os próprios autores de esquerda nos balanços que fizeram do período. As vítimas inocentes, em sua maioria, tombaram por terem sido usadas como escudo pelos adversários do regime.
Um dos argumentos de Maria Victoria Benevides para criticar o editorial da Folha é que não se mede ditadura com estatísticas: “Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar ‘importâncias’ e estatísticas”. Em artigo publicado, na terça-feira, 24, o jornalista Fernando de Barros e Silva, editor de Brasil da Folha, corrobora a tese da socióloga: “Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante. Devemos agora contar cadáveres para medir níveis de afabilidade ou criar algum ranking entre regimes bárbaros?” Claro que devemos — respondo eu. Todo crime só se iguala em repugnância para aquele que é sua vítima, mas para quem o analisa de fora, especialmente se esse alguém for um historiador, há uma enorme diferença entre matar 100 pessoas ou matar 100 mil. Se Hitler tivesse matado apenas uma centena de judeus, o nazismo seria a encarnação do mal no imaginário do mundo contemporâneo?
Só não vê que ditadura também se mede com estatísticas aqueles que têm medo dos números. Ao ver que nenhuma ditadura capitalista até hoje conseguiu igualar os mais de 100 milhões de mortos do comunismo no mundo, a esquerda inventou esse argumento falacioso de que uma só morte perpetrada por uma ditadura diminui toda a humanidade, como se o homem-massa da revolução marxista tivesse lugar na poesia metafísica de John Donne. Justamente a esquerda, que não faz conta do individuo de carne e osso, só da massa de manobra da revolução. O regime militar não apenas matou muito menos gente do que outros regimes autoritários — também foi capaz de criar um modelo de ditadura que deveria ser exportado. Toda ditadura costuma ser encarnada por um homem só, que se torna escravo do poder que concentra, perdendo inclusive os freios morais. Daí a profusão de ditadores sádicos, pessoalmente sedentos de sangue humano.
No Brasil isso não ocorreu. Os militares criaram uma espécie de ditadura institucional, em que o poder não era encarnado por nenhum homem, mas pela instituição — as Forças Armadas. Nem o principio federativo foi quebrado num primeiro momento, como ocorreu de imediato com a ditadura de Getúlio Vargas. Antes do recrudescimento da luta armada, ainda houve eleição para governadores e, mesmo depois que elas foram suspensas, o legislativo continuou funcionando. Essa quase normalidade institucional propiciou até o surgimento e fortalecimento de uma oposição que jamais houvera em toda a história do Brasil — a oposição institucional, criada e mantida pelas próprias entranhas do Estado.
Boa parte do chamado movimento social — que hoje alimenta o PT e demais partidos de esquerda — começou a ser construído graças a esse processo de institucionalização do país gestado pelos militares. Começando pelas próprias universidades federais — cobras a quem os militares deram asas. A Reforma Universitária feita pelos militares em 1968 profissionalizou o ensino superior no país, instituindo antigas reivindicações da própria comunidade acadêmica, como dedicação exclusiva de docentes, introdução de vestibular unificado e implantação de mestrados e doutorados. Valendo-se dessa estrutura, os intelectuais de esquerda se infiltraram nas universidades e, a partir delas, forjaram em todo o país um movimento social de proveta, destinado não a resolver problemas, mas a fomentá-los.
Um exemplo são os quase 50 mil homicídios que ocorrem anualmente no país. Eles decorrem, em grande parte, da irresponsabilidade doentia dos intelectuais brasileiros, que, à força de pressionar o Congresso Nacional, levaram à completa lassidão das leis penais, hoje irreversível, já que a mentalidade pueril da esquerda parece ter contaminado até os ministros do Supremo. Não é a toa que o ministro Gilmar Mendes deixa entrever que, a qualquer momento, pode soltar nas ruas 189 mil dos cerca de 440 mil presos do país, muitos deles homicidas e estupradores. Aí, sim, teremos um verdadeiro genocídio da população indefesa, em parte porque a esquerda, com o objetivo de demonizar os militares, transformou o falacioso conceito de direitos humanos num dogma divino. Como se vê, a criminalização paranóica dos militares só atende a um objetivo — esconder que os intelectuais de esquerda forjaram um país muito pior que o deles.
Publicado no Jornal Opção, de Goiânia, em 1º de março de 2009.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

"ANOS DE CHUMBO': A DITADURA DA MENTIRA *

O Regime Militar de 64 é a muleta moral dos intelectuais — eles o acusam de todos os crimes para melhor acobertarem os próprios



José Maria e Silva * *    

"A revolução é biófila, é criadora de vida, ainda que, para criá-la, seja obrigada a deter vidas que proíbem a vida."
Paulo Freire, em "Pedagogia do Oprimido", defendendo os fuzilamentos sumários comandados por Che Guevara e Fidel Castro


Para o sociólogo e jornalista José Maria, a universidade brasileira, na ânsia de criar um novo mundo, especializou-se em destruir o existente.
     Com quantas vidas se faz uma ditadura? Na belíssima novela de John Boyne, O Menino do Pijama Listrado, essa pergunta é respondida pelo espanto de Bruno, um menino de nove anos. Sempre que ele se surpreende com o mundo do Fúria à sua volta, seus olhos se arregalam, sua boca faz o formato de um O e seus braços caem ao longo do corpo.
     A obra, uma elegia à inocência da vida que não sabe da morte, deveria ser lida — e meditada — pelos 3.949 intelectuais que, até agora, assinaram um manifesto contra a Folha de S. Paulo, repudiando o editorial "Limites a Chávez", publicado em 17 de fevereiro último, no qual a ditadura militar brasileira é indiretamente chamada de "ditabranda". O Menino do Pijama Listrado (o livro, não vi o filme) demonstra, metaforicamente, a abissal diferença entre um regime autoritário (circunscrito à esfera política) e um regime totalitário (que permeia todas as instâncias sociais).
     As primeiras reações ao editorial da Folha partiram da socióloga Maria Victória Benevides, professora da Faculdade de Educação da USP, e do advogado Fábio Konder Comparato, professor aposentado pela mesma instituição. Esquecendo-se que a universidade que representam arrasta até hoje um cadáver insepulto (o do estudante de medicina morto num trote em 1999), Benevides e Comparato encenaram uma indignação que jamais sentiram diante das quase 100 mil mortes perpetradas pela Trindade Cubana (Fidel, Guevara e Raúl Castro) — 17 mil na boca dos fuzis, em execuções sumárias, e 80 mil nos dentes dos tubarões, em fuga para os Estados Unidos. Como a Folha de S. Paulo chamou a atenção para essa dúbia moral de Benevides e Comparato, lembrando que eles jamais protestaram contra a ditadura cubana, os dois intocáveis uspianos se sentiram feridos e, em resposta, fizeram o que os intelectuais de esquerda mais sabem fazer quando são pegos sem argumentos — conclamaram o rebanho para um manifesto.
     O inefável Antonio Candido, decano dos intelectuais de esquerda, encabeça o repúdio à Folha, que também conta com figuras como o indefectível Emir Sader, intelectual que, diante de Che Guevara, cai de joelhos por terra, parafraseando a missa: "Guevara, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e serei salvo". Quem duvida que Emir Sader é capaz dessa oração diante do guerrilheiro argentino, leia o que ele escreveu num artigo publicado em Carta Maior: "Não vou gastar palavras inúteis para falar do Che. Basta reproduzir algumas das suas frases, que selecionei para o livro Sem Perder a Ternura". Também diante de Marx e Fidel, Sader emudece: "O que falar de Marx que permaneça à sua altura? O que escrever sobre Fidel?"
     Se o ensino superior no Brasil, público e privado, não fosse mero aparelho ideológico da esquerda, Emir Sader jamais teria virado doutor em ciência política pela USP e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de orientador de teses e dissertações. Sem dúvida, estaria até hoje tentando passar no vestibular e sendo reprovado sempre, por não ter argumentos para retratar personagens da história. Que universidade isenta aceitaria um aluno que, ao ouvir falar de Marx, Guevara e Fidel, não fosse capaz de articular uma só palavra e se comportasse feito os silvícolas do Anhangüera, embriagado pelo álcool incandescente da revolução? Já imaginaram se um intelectual de "direita" dissesse não ter palavras diante de Karl Popper? Seria acusado de ignorante e charlatão. Emir Sader é um paradigma da universidade brasileira. Ele é a prova cabal de que, por trás da cantilena de "produção do conhecimento", o que há nos mestrados e doutorados do país é uma usina de produção de marxismo e derivados.
     Em Cuba, Chico Buarque seria fuzilado ou condenado a 20 anos de prisão se falasse mal de Fidel Castro. No Brasil, o máximo que lhe aconteceu foi ser admoestado pelos militares, o que lhe garante até hoje uma conta bancária maior do que seu indiscutível talento
     Estou plenamente convicto de que a universidade brasileira não é solução para nada — ela é parte essencial do problema. As principais mazelas do Brasil são fomentadas artificialmente pela universidade, que, desde a década de 50, na ânsia de criar um novo mundo, especializou-se em destruir o existente. Isso fica muito claro quando se estuda a origem social dos guerrilheiros que pegaram em armas contra o regime militar. Eles vieram, em sua maioria, das universidades. Não tinham o menor apoio popular. Como é que o povo podia apoiar um bando de tresloucados que, de arma em punho, pregavam a derrubada de uma ditadura imaginária? Porque até o final de 1968, com a edição do AI-5, só havia ditadura na imaginação dos universitários.
     Foi exatamente durante os propalados "Anos de Chumbo" que o Brasil viveu uma das maiores efervescências culturais de sua história, com os festivais, a imprensa alternativa, a Tropicália, o Cinema Novo, Chico e Vandré, Caetano e Gil. Ao contrário de Cuba, onde Chico Buarque seria fuzilado ou condenado a 20 anos de prisão se falasse mal de Fidel Castro, no Brasil, o máximo que lhe aconteceu foi ser admoestado pelos militares, o que lhe garante até hoje uma conta bancária maior do que seu indiscutível talento. Num ambiente assim, existe alguma razão plausível para se pegar em arma ou até para se perpetrarem atentados terroristas, como fizeram muitos grupos guerrilheiros? Obviamente, não. Em toda guerra, os primeiros sacrificados são os inocentes, portanto, a opção pela luta armada para derrubar um regime só se justifica quando esse regime é sanguinário e opressivo, incidindo sobre toda a vida social e não apenas sobre a esfera política. Era o que acontecia na terra do Menino do Pijama Listrado, daí o Levante do Beco de Varsóvia, em 1943, quando judeus desesperados — não tendo senão uma morte horrenda como alternativa — preferiram abreviar a vida numa luta suicida contra as tropas nazistas.
     Mas esse não era o caso do Brasil dos militares. Aqui, os guerrilheiros eram homens e mulheres bem nascidos que, por puro espírito de aventura, jogavam fora o futuro como médicos, engenheiros e advogados e se arvoravam a libertadores da pátria, sem notar que a maioria esmagadora da população — provavelmente mais de 90 por cento — não se sentia oprimida nem pedia para ser libertada. Pelo contrário, o regime instalado em 1964 teve forte apoio popular e quando começou a ser repudiado nas urnas, em 1974, com a expressiva vitória do velho MDB, esse repúdio era mais de caráter econômico que político. A inflação estava recomeçando e os pobres votaram contra a "carestia", que é como chamavam a inflação na época.
     Já escrevi repetidas vezes, mas a ocasião me obriga a escrever de novo: quem acha que no Brasil houve uma ditadura sanguinária, totalitária, nos moldes nazistas (é essa a visão que se tem dos militares nas escolas) deve ler Pedagogia do Oprimido, o panfleto de auto-ajuda marxista do pedagogo Paulo Freire. Esse livro — que faz uma defesa explícita da luta armada e santifica Che Guevara, Fidel Castro e Mao Tsé-Tung — foi publicado em pleno ano de 1970, no Rio de Janeiro, pela Editora Paz e Terra, ligada aos padres da Teologia da Libertação. Em 1981, Pedagogia do Oprimido já estava na 10ª edição. Um verdadeiro best-seller, levando em conta que não é um livro comercial e o Brasil tinha muito menos estudantes universitários do que tem hoje. Ora, se o regime militar foi o período "mais sombrio da nossa história", como dizem os intelectuais de esquerda, como se explica o sucesso editorial de uma obra que o combatia? Em Havana seria possível publicar um livro do gênero contra Fidel Castro, o santo fardado de Buarques e Sáderes?
     Mas nem é preciso recorrer à ditadura cubana para demonstrar que os intelectuais brasileiros mentem descaradamente quando dizem que o regime militar de 64 foi uma ditadura sanguinária. A própria história recente do Brasil — contada mentirosamente por eles — mostra a contradição em que incorrem. É só comparar a "Revolução de 30" com a "Ditadura Militar" (ponho as expressões entre aspas para remeter ao modo como os dois períodos costumam ser chamados nos livros de história). Qual a diferença entre os dois períodos? A rigor, nenhuma. Salvo o fato de que Getúlio Vargas era um ditador civil, obviamente apoiado por militares, porque toda ditadura precisa de armas.
     Se a sanguinária ditadura Vargas merece, nos livros de história, o epíteto de 'Revolução de 30' (justificadamente, por sinal), por que os governos militares não podem ser chamados de 'Revolução de 64', uma vez que também mudaram a face do Brasil?
     Sob o ponto de vista da repressão, Vargas foi muito pior do que os militares. O seu período, sim, foi literalmente "anos de chumbo". Enquanto os militares procuraram preservar as instituições, garantindo eleições legislativas e a independência do Judiciário, Vargas centralizou todos os poderes em suas mãos, destituindo governadores e nomeando interventores em seu lugar. São Paulo se rebelou, na chamada Revolução Constitucionalista de 32, e Vargas bombardeou o Estado — o episódio mais sangrento da história brasileira no século passado, apesar de ofuscado pela preferência dos intelectuais pela Guerrilha do Araguaia. Todavia, mesmo quem não pegava em armas, não ficava ileso. O escritor Graciliano Ramos, individualista nato, incapaz de arregimentar qualquer movimento político, acabou sendo preso durante quase um ano, num presídio comum, sem julgamento. Seu único crime: escrever o romance São Bernardo, entre outros escritos tidos como comunistas. Bem que merecia, mas não teve indenização alguma pelo arbítrio de que foi vítima. Ao contrário dos fanfarrões que pegaram em armas contra os militares, o Velho Graça tinha vergonha na cara.
     Se a sanguinária ditadura de Getúlio Vargas merece, nos livros de história, o epíteto de "Revolução de 30" (justificadamente, por sinal), por que os governos militares não podem ser chamados de "Revolução de 64", levando em conta que também mudaram a face do Brasil? Vargas já era ditador desde o início de seu governo, antes mesmo da implantação do Estado Novo, em 1937, quando a tresloucada Intentona Comunista de 35 levou ao recrudescimento do regime. Já os militares só foram verdadeiramente ditadores a partir de 12 de dezembro de 1968, quando editaram o AI-5, obrigados pelos atos de terror da esquerda armada, treinada e financiada por Fidel Castro e abençoada por intelectuais como Paulo Freire. Mesmo assim, foi uma ditadura cirúrgica, circunscrita aos inimigos declarados do regime. Tanto que não chegou a matar nem 500 pessoas, como reconhecem os próprios autores de esquerda nos balanços que fizeram do período. As vítimas inocentes, em sua maioria, tombaram por terem sido usadas como escudo pelos adversários do regime.
     Um dos argumentos de Maria Victoria Benevides para criticar o editorial da Folha é que não se mede ditadura com estatísticas: "Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar 'importâncias' e estatísticas". Em artigo publicado, na terça-feira, 24, o jornalista Fernando de Barros e Silva, editor de Brasil da Folha, corrobora a tese da socióloga: "Algumas matam mais, outras menos, mas toda ditadura é igualmente repugnante. Devemos agora contar cadáveres para medir níveis de afabilidade ou criar algum ranking entre regimes bárbaros?" Claro que devemos — respondo eu. Todo crime só se iguala em repugnância para aquele que é sua vítima, mas para quem o analisa de fora, especialmente se esse alguém for um historiador, há uma enorme diferença entre matar 100 pessoas ou matar 100 mil. Se Hitler tivesse matado apenas uma centena de judeus, o nazismo seria a encarnação do mal no imaginário do mundo contemporâneo?
     Só não vê que ditadura também se mede com estatísticas aqueles que têm medo dos números. Ao ver que nenhuma ditadura capitalista até hoje conseguiu igualar os mais de 100 milhões de mortos do comunismo no mundo, a esquerda inventou esse argumento falacioso de que uma só morte perpetrada por uma ditadura diminui toda a humanidade, como se o homem-massa da revolução marxista tivesse lugar na poesia metafísica de John Donne. Justamente a esquerda, que não faz conta do individuo de carne e osso, só da massa de manobra da revolução. O regime militar não apenas matou muito menos gente do que outros regimes autoritários — também foi capaz de criar um modelo de ditadura que deveria ser exportado. Toda ditadura costuma ser encarnada por um homem só, que se torna escravo do poder que concentra, perdendo inclusive os freios morais. Daí a profusão de ditadores sádicos, pessoalmente sedentos de sangue humano.
     Boa parte do chamado movimento social — que hoje alimenta o PT e demais partidos de esquerda — começou a ser construído graças a esse processo de institucionalização do país gestado pelos militares. Começando pelas próprias universidades federais — cobras a quem os militares deram asas
     No Brasil isso não ocorreu. Os militares criaram uma espécie de ditadura institucional, em que o poder não era encarnado por nenhum homem, mas pela instituição — as Forças Armadas. Nem o principio federativo foi quebrado num primeiro momento, como ocorreu de imediato com a ditadura de Getúlio Vargas. Antes do recrudescimento da luta armada, ainda houve eleição para governadores e, mesmo depois que elas foram suspensas, o legislativo continuou funcionando. Essa quase normalidade institucional propiciou até o surgimento e fortalecimento de uma oposição que jamais houvera em toda a história do Brasil — a oposição institucional, criada e mantida pelas próprias entranhas do Estado.
     Boa parte do chamado movimento social — que hoje alimenta o PT e demais partidos de esquerda — começou a ser construído graças a esse processo de institucionalização do país gestado pelos militares. Começando pelas próprias universidades federais — cobras a quem os militares deram asas. A Reforma Universitária feita pelos militares em 1968 profissionalizou o ensino superior no país, instituindo antigas reivindicações da própria comunidade acadêmica, como dedicação exclusiva de docentes, introdução de vestibular unificado e implantação de mestrados e doutorados. Valendo-se dessa estrutura, os intelectuais de esquerda se infiltraram nas universidades e, a partir delas, forjaram em todo o país um movimento social de proveta, destinado não a resolver problemas, mas a fomentá-los.
     Um exemplo são os quase 50 mil homicídios que ocorrem anualmente no país. Eles decorrem, em grande parte, da irresponsabilidade doentia dos intelectuais brasileiros, que, à força de pressionar o Congresso Nacional, levaram à completa lassidão das leis penais, hoje irreversível, já que a mentalidade pueril da esquerda parece ter contaminado até os ministros do Supremo. Não é a toa que o ministro Gilmar Mendes deixa entrever que, a qualquer momento, pode soltar nas ruas 189 mil dos cerca de 440 mil presos do país, muitos deles homicidas e estupradores. Aí, sim, teremos um verdadeiro genocídio da população indefesa, em parte porque a esquerda, com o objetivo de demonizar os militares, transformou o falacioso conceito de direitos humanos num dogma divino. Como se vê, a criminalização paranóica dos militares só atende a um objetivo — esconder que os intelectuais de esquerda forjaram um país muito pior que o deles.
     _________

     * Artigo publicado no Jornal Opção, de Goiânia, em 1º de março de 2009.
     * * José Maria e Silva. Jornalista e sociólogo, com graduação em Jornalismo (1995) e mestrado em Sociologia (2003) pela Universidade Federal de Goiás. Foi redator-chefe do Jornal Opção, de Goiânia.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Síntese do livro “A grande mentira”, do general Agnaldo Del Nero Augusto

Introdução
Diz um provérbio citado por Alexandre Solzhenitsyn no início do livro Arquipélago Gulag “Não se deve remexer no passado! Aquele que recorda o passado perde um olho”. Mas o provérbio tem um complemento: “Aquele que o esquece perde os dois”. Vamos remexer. Enquanto tivermos um olho seremos capazes de obter a conformidade entre o sujeito (inteligência) e o objeto (fatos ou situações). Só assim chegaremos à verdade, que consiste na perfeita conformidade da inteligência com o objeto.
Por outro lado, Jean Brunhes ensina que, por um estranho abuso de palavras, fala-se na veracidade de um fato. Um fato possui dimensões, cor, duração, mas não a verdade. Verdade (ou não) será a percepção que temos do fato, assim como mais ou menos justo pode ser o juízo que sobre ele formamos.
Estes ensinamentos podem servir como introdução às considerações que são tecidas a seguir, sobre os fatos em torno da ditadura militar que durou 21 anos.
O tema volta ao palco dos debates, e traz um fato recente: a destruição de arquivos do regime militar, descobertos na Base Aérea de Salvador.
As forças armadas brasileiras sempre combateram o totalitarismo, fosse de esquerda ou de direita. Participaram da II Guerra Mundial, onde tiveram papel de destaque, principalmente na tomada de Monte Castelo. Combateram o comunismo e o venceram em todas as ocasiões em que este tentou tomar o poder.
Porém, tais fatos são deturpados pela história, na medida em que esta é construída de forma unilateral pelos derrotados, com suas versões distorcidas dos fatos.
No Brasil, a ditadura militar foi o coroamento do enfrentamento, em três ocasiões, da tentativa de tomada do poder pelos comunistas. Todas foram impedidas pelas Forças Armadas, que livraram a população brasileira dos horrores do totalitarismo comunista, um dos mais bárbaros registrados pela História.
A primeira tentativa (Intentona Comunista – 1935)
Em março de 1919 foi realizado em Moscou o Congresso de Fundação da III Internacional, que ficaria conhecida como Internacional Comunista, ou IC. A finalidade era unificar e orientar o processo revolucionário mundial. Incentivava a criação de partidos comunistas em todos os países, partidos esses que ficariam subordinados ao PC russo. Lenin acreditava que a revolução russa era o primeiro passo para a adoção do internacionalismo proletário.
Em março de 1922 foi fundado o Partido Comunista – seção Brasileira da Internacional Comunista (PC-SBIC), registrado legalmente como entidade civil. Três meses depois, foi colocado na ilegalidade em decorrência do estado de sítio resultante da revolta tenentista.
Na década de 30 o Brasil vivia uma intensa agitação política. Julio Prestes, governador de São Paulo, era apoiado para a presidência da república. Getúlio Vargas, governador do Rio Grande do Sul, e Antonio Carlos de Andrade, de Minas Gerais, também aspiravam à sucessão presidencial. Os entendimentos políticos levaram à união em torno do nome de Vargas, e surgiu a Aliança Liberal.
Nessa época, Luiz Carlos Prestes, um respeitado líder tenentista, estava exilado na Argentina. Prestes não apoiou Getulio Vargas, porque não acreditava nas possibilidades da revolução apregoada pelos aliancistas, especialmente por Antonio Carlos, que afirmara: “Façamos a revolução, antes que o povo a faça”.
Em abril de 1935 Luiz Carlos Prestes voltou para o Brasil, acompanhado de Olga Benário, comunista alemã que tinha a missão de ser sua sombra, controlá-lo e protegê-lo.
Em 1934 o PC-SBIC mudara o nome para Partido Comunista do Brasil (Seção da IC), que passou a pregar a luta antifascista, organizada como uma “frente popular contra os integralistas”. Em 1935 foi fundada a Aliança Nacional Libertadora, que chegou a ter mais de cem mil militantes. Porém, o caráter marxista-leninista da Aliança logo a jogou na ilegalidade, decretada pelo governo Vargas. A Aliança passou a atuar na absoluta clandestinidade. Nesse mesmo ano aconteceu a Intentona Comunista, com combates confusos e mal liderados, em Natal, Recife e Rio de Janeiro. Houve, por parte dos insurretos, tiroteios desordenados, assassinatos covardes e saques a estabelecimentos comerciais e bancários.
A Intentona previa a insurreição nas capitais, porém, ficou restrita a essas três cidades, fracassando no mesmo dia.
Prestes estava em segurança no seu QG, porém, a derrota e a prisão de líderes comunistas desestruturaram o partido, ao qual foram imputados vários assassinatos, inclusive de correligionários acusados de traição.
O Brasil vencera a primeira tentativa de instauração do comunismo.
A segunda tentativa - Revolução de 1964
Em 1941 as tropas nazistas invadiram a Rússia, mudando radicalmente o mapa político do mundo. Stalin se apressou em ganhar o apoio das democracias ocidentais contra o nazismo. O PCB apoiou incondicionalmente o governo Vargas nessa luta. Ao final da II Guerra, o governo Vargas decretou a anistia e legalizou todos os partidos políticos. Prestes foi anistiado. Em 1946 teve início a chamada Guerra Fria. A Rússia dominara mais de uma dezena de países do Leste Europeu e continuava apoiando os movimentos revolucionários em todo o mundo. O Brasil rompeu relações diplomáticas com a Rússia e cassou o registro do PCB, que caiu mais uma vez na ilegalidade. Porém, sua estrutura não foi tocada.
Em 1950, o PCB lançou o Manifesto de Agosto, que defendia a revolução como a única solução viável e progressista dos problemas brasileiros, defendendo a luta armada. Porém, apesar desse manifesto, a classe operária votou mais uma vez em Getúlio Vargas, que suicidou em 1954.
Nessa época, em muitas universidades ocidentais predominava uma visão social esquerdista, sendo que grande parte do Terceiro Mundo aclamava o modelo soviético como a estrada para a justiça social. Muitos intelectuais se declaravam marxistas. Essa situação, porém, era apenas uma conseqüência de anos de propaganda calcada na Grande Mentira. Assim, a conjuntura era altamente favorável ao comunismo, o que provocou uma expansão dramática do comunismo. No final da década de 1950, o comunismo já aportara na América com a vitória da revolução cubana.
Entretanto, o mundo estava dividido pelo jogo de poder entre as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, a chamada Guerra Fria. Nesse jogo, o Brasil despertou o interesse das grandes potências. Sendo um país de dimensões imensas, fronteiriço com quase todos os países da América Latina, seria também um elemento estratégico no cenário mundial, fazendo pender o fiel da balança estratégica para o lado desejado.
Em agosto de 1961, o Presidente Jânio Quadros renunciou. Deveria assumir João Goulart, contra o que se insurgiram os ministros militares, por considerarem que Jango apoiava o comunismo internacional. Assumiu Ranieri Mazzilli, então presidente da Câmara dos Deputados. Leonel Brizola lançou um movimento legalista – a “campanha da legalidade” - pela posse de Jango, seu cunhado. O impasse terminou no Congresso, que aprovou a Emenda Parlamentarista, dando posse a João Goulart.
Segundo Gorender, “finalmente ocupava a presidência da República um político ao qual o PCB tinha acesso direto e que poderia considerar aliado”.
Outras organizações de esquerda começaram a surgir, divergindo da linha política do PCB, tais como os trotskistas (que chegaram a criar várias organizações filiadas à Quarta Internacional, algumas ligadas a J.J. Posadas, porém sem maior expressão), a POLOP (Organização Revolucionária Marxista Política Operária), que defendia a implantação imediata do socialismo, ao contrário do PCB, que havia optado pelo chamado “etapismo”, com uma primeira etapa democrático-burguesa para cooptar a burguesia nacionalista, e somente depois seria desencadeada a revolução socialista, a AP (Ação Popular, uma criação da esquerda católica mas com grande influência maoísta), a Frente de Libertação Nacional (lançada por Leonel Brizola e Mauro Borges (então Governador de Goiás), um mês após a posse de Goulart, enfatizava a ação exploradora do capital estrangeiro e a necessidade de nacionalização de empresas e da reforma agrária) e o Master (Movimento dos Agricultores sem Terra).
Enquanto isso, Goulart governava o país de uma forma pendular, ora pendia para o lado dos comunistas, ora para o lado dos conservadores. O país vivia agitações e greves nos grandes centros industriais. O sistema presidencialista foi restaurado no início de 1963. Porém as greves continuaram, sendo difícil calcular os prejuízos de toda ordem que ocasionaram ao país. Jango continuou governando de forma pendular. Em setembro de 1963, tudo indicava que o país caminhava para uma revolução de esquerda, principalmente com a rebelião dos sargentos de Brasília. Estes, liderados pelo sargento da Força Aérea Antonio Prestes de Paula, apossaram-se do Ministério da Marinha, da Base Aérea, da Área Alfa, do Aeroporto civil, da Estação rodoviária e da Rádio Nacional. Prenderam um ministro e o presidente da Câmara Federal. Porém, o movimento foi debelado e os seus líderes foram presos. Houve apenas um confronto do qual resultaram um marinheiro morto e dois feridos. Porém, um clima “pré-golpe de estado” foi se definindo, objetivando derrubar as instituições democráticas, supostamente lideradas pelo próprio João Goulart, que buscou o apoio das forças sindicais, agarrando-se às reformas de base como tábua de salvação, o que subverteria de vez todo o país.
No início de março de 1964, a conturbada situação nacional exigia medidas drásticas para solução da crise. Jango e o PCB mantinham entendimentos constantes. No dia 13, um comício realizado no Rio de Janeiro, ficou conhecido como o Comício das Reformas, realizado com recursos das empresas estatais e dos sindicatos. Mais de cem mil pessoas participaram, pedindo reformas, legalização do PCB e entrega de armas ao povo para a luta. No palanque, Jango, Arraes e Brizola. Parecia que Jango levava a melhor. Porém, na mesma noite, o Rio de Janeiro se iluminou de velas nas janelas, em demonstração do descontentamento de grande parte da população com os rumos que tomava a situação nacional, principalmente devido à impressionante demonstração de força, o tom radical dos discursos de Arraes e Brizola e a profusão de cartazes com a foice e o martelo.
No dia 19 aconteceu a primeira Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu oitocentas mil pessoas, em oposição ao comício do dia 13.
Em 20 de março, AMFNB (Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil) reuniu-se, declarando um motim. Seus dirigentes foram todos presos por ordem do Ministro da Marinha. No dia 26, os marinheiros amotinados fizeram exigências para o fim do movimento, entre as quais o seu reconhecimento legal. O ministro da marinha destacou um grupo de fuzileiros navais para prender os amotinados.
O CGT expediu um aviso de estado de alerta, denunciando o golpe da elite da marinha contra o povo, contra as reformas e contra o Presidente da República. Brizola apoiou o movimento dos marinheiros e fuzileiros navais.
Na manhã do dia 27, a Marinha soube que havia outros movimentos rebeldes em alguns navios da esquadra. No dia 29, centenas de oficiais da Marinha reuniram-se, em flagrante protesto contra a quebra da disciplina e da hierarquia. Ninguém mais aceitava os desmandos do presidente que, à surdina, preparava um golpe esquerdista, com início previsto para primeiro de maio.
De contatos entre o General Castello Branco, Chefe do Estado Maior do Exército, com outros oficiais generais, formou-se um grupo que passaria a ter importante papel no preparo da contra-revolução. As Forças Armadas estavam divididas, tanto que, no comício do dia 13, Jango foi prestigiado pela presença dos três ministros militares.
No dia 30 de março, finalmente desencadeou-se a contra-revolução, que inicialmente estava marcada para o dia 2 de abril. Tropas sediadas em Minas Gerais se dirigiram ao Rio de Janeiro, e se encontraram com as tropas do I Exército, que pretendiam barrar as forças atacantes. O confronto foi esgotado em diálogos de persuasão e em gestos de confraternização. No eixo Rio – São Paulo, confrontos semelhantes ocorreram. Na tarde de 1º de abril, tudo estava terminado. Ruíra o dispositivo militar do presidente. Ninguém se moveu nem esboçou resistência em defesa de Goulart. No dia 2 de abril, mais de um milhão de pessoas lotaram as ruas e praças do Rio de Janeiro, para comemorar a vitória da democracia sobre o comunismo. Foi a segunda vitória sobre a tentativa de tomada de poder pelos comunistas.
(*) Livro publicado pela Biblioteca do Exército Editora, RJ, 2001, recomendado pelo FDR no tema “Movimento Cívico-Patriótico de 1964”.
VALTER MARTINS DE TOLEDO
Magistrado aposentado e Membro da Academia de Cultura de Curitiba

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Época: entrevista com Marco Antonio Villa



26/05/2008 por Luiz Felipe Fustaino  - Época
A Época dessa semana tem mais de 200 páginas: edição dupla de aniversário, lançamento do novo projeto gráfico, retrospectiva dos dez anos que se passaram e uma série de artigos sobre os dez anos que virão. Mas as duas páginas mais interessantes ficaram escondidas, separadas por uma propaganda da Fast Shop.
Texto completo
A entrevista com o historiador Marco Antonio Villa resume a sua cruzada contra a vitimização das esquerdas armadas durante a ditadura militar no Brasil. A leitura equivocada que os jovens fazem da esquerda daquele período, o desinteresse das “vítimas” na abertura dos arquivos, tudo o que Villa costuma escrever em artigos de jornal está reunido ali. Leia a entrevista:

O historiador Marco Antonio Villa não gosta dos cuidados do politicamente correto. Em seu livro Jango, um Perfil, Villa deixa de lado teorias conspiratórias para mostrar como Jango foi um mau político e um administrador incompetente. Na semana passada, Villa comprou outra briga histórica. Num artigo, criticou a romantização dos grupos armados que teriam lutado pela liberdade e ajudado a derrubar a ditadura militar (1964-1985). Bateu também nas indenizações milionárias pagas a pessoas supostamente afetadas por perseguição política e tortura. Segundo Villa, há uma versão mistificada da luta contra os militares, difundida por ex-militantes e hoje predominante no ensino da História e na mídia. Nesta entrevista, ele diz por que essa mistificação e as reparações em dinheiro aos atingidos são sinais de atraso para o Brasil.

ÉPOCA – Por que o senhor afirma que a luta armada não derrubou a ditadura militar (1964-1985)?
Marco Antonio Villa – Porque não houve nenhum movimento de massa de apoio à luta armada. Não houve, no caso da luta armada urbana, nenhuma movimentação de apoio, passeata, nada. Nenhuma mostra de simpatia. Ao contrário: houve mostra de perplexidade. Em relação à questão no campo, fora a guerrilha do Araguaia (movimento de luta armada no norte do país promovido pelo PCdoB no início da década de 70), o resto foi piada: Caparaó (a guerrilha na Serra do Caparaó, na divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais, promovida entre 1966 e 1967 por seguidores de Leonel Brizola), o Lamarca no Vale do Ribeira (a tentativa de montar um foco revolucionário no sul de São Paulo, organizada por Carlos Lamarca, capitão que desertou do Exército para juntar-se ao grupo armado Vanguarda Popular Revolucionária)…

ÉPOCA – O que derrubou a ditadura militar?
Villa – O que acabou com a ditadura foram os movimentos pela anistia, a Igreja Católica, a ação dos intelectuais, os movimentos sociais na periferia e a ação do MDB autêntico (grupo do MDB mais aguerrido na oposição ao regime militar). É incrível o esquecimento disto: pessoas como Lisâneas Maciel, Marcos Freire, Chico Pinto, Jarbas Vasconcelos (políticos integrantes do MDB). Pessoas que tiveram coragem, das quais ninguém fala. O Alencar Furtado (deputado federal pelo Paraná) foi cassado em 1977 porque, num programa do MDB, sob censura, fez uma referência às viúvas do “quem sabe” e do “talvez”, aquelas que buscavam maridos e filhos desaparecidos. Eles caíram no esquecimento e não tiveram lugar na Nova República. É um tipo de lembrança importante. Mas se construiu uma aura da luta armada. O ex-ministro José Dirceu, quando deixou a Casa Civil, mencionou os “companheiros de armas”. Ele não foi companheiro de arma de ninguém, não deu tiro nem de espoleta. Ele ficou treinando em Cuba, voltou clandestino… Não sei se a resistência dele deu-se no oeste do Paraná, dirigindo o Magazine do Homem (loja de roupas aberta por José Dirceu em Cruzeiro do Oeste, no Paraná, quando viveu clandestinamente com outra identidade no fim da década de 70). Cabe perguntar se a resistência foi aquela. Se foi, então a resistência foi uma farsa. Então, não pode se chamar de companheiro de armas. Foi um farsante. Ele e outros.

ÉPOCA – Como foram construídos esses mitos da luta armada?
Villa – A ditadura militar criou tamanho asco que todos eram contrários a qualquer manifestação da ditadura. Isso abriu espaço para tudo. A partir de 1979, com o retorno dos anistiados, passou-se a louvá-los sem entrar no mérito da luta travada. Quem fizesse qualquer crítica estaria sendo um aliado do regime, e isso era politicamente incorreto. Isso foi muito eficaz, porque a crítica ficou represada no momento da abertura, durante o governo Figueiredo (1979-1985). E foi péssimo. Se a reflexão tivesse sido feita naquele momento, teria facilitado o processo de abertura e de transição para a democracia.

ÉPOCA – O senhor diz que a esquerda não combateu a ditadura militar em nome da democracia, mas porque defendia uma ditadura do proletariado. Por que, então, prevalece a visão mais romântica, da luta pela liberdade?
Villa – Isso é uma leitura da História que acabou dominante. As pessoas mais jovens, que não vivenciaram ou não estudaram o período, acabam assimilando essa leitura, que fica como verdade absoluta. Quando os jovens vão estudar, encontram só uma leitura. E ai de quem falar o contrário…

ÉPOCA – Há uma vitimização de quem foi da luta armada?
Villa – Sim. Esse processo de vitimização desqualifica o debate político. Passa a ser questão de ordem pessoal, sentimental. Alguns usam a vitimização em busca de indenizações, especialmente os mais bem situados na política nacional, que receberam indenizações fabulosas. É curioso que os marinheiros, que se rebelaram em 1964, tenham sido esquecidos. Foi feita uma limpeza nas Forças Armadas. Na Marinha, uns 2 mil militares foram colocados para fora. O pessoal da Aeronáutica queria trabalhar na aviação civil, e não conseguia, porque as portas se fechavam. Estragaram suas vidas para sempre. Não tiveram direito a indenização – os filhos de alguns correm atrás disso até hoje. Eram pessoas que recebiam salários muito baixos e foram abandonadas. Criou-se uma situação terrível. Esses, sim, mereciam indenização – não os jornalistas. Alguns jornalistas viveram, inclusive, dessa figura de perseguidos e usaram isso em termos mercadológicos. O caso do Carlos Heitor Cony é uma coisa escandalosa, por ter usado o salário de editor para buscar indenização. A piada foi feita: ele resistiu à ditadura dirigindo a revista (erótica) Ele & Ela. É um verdadeiro absurdo. Enquanto isso, os que sofreram – dos dois lados, é bom lembrar – e tantos que passavam e eram atingidos sem ter nada a ver com a história ficaram sem nada.

ÉPOCA – O Brasil errou ao fazer uma lei de anistia para perdoar os envolvidos e indenizar os atingidos?
Villa – Distribuir dinheiro foi um belo “cala-boca”. Muita gente que poderia ajudar a exigir a abertura dos arquivos acabou ficando com esse “cala-boca”. Isso é péssimo. Vai passando o tempo, aquela pessoa que teve vinculação com o regime passa para o novo governo, e aí, quando alguém fala na ditadura, é acusado de revanchista e inconveniente. Por outro lado, muitos partidos de esquerda não querem a abertura dos arquivos. Veja o caso do PCdoB na guerrilha do Araguaia. Hoje, sabemos muita coisa do Araguaia graças ao vazamento de documentos das Forças Armadas. Do lado do PCdoB, sabemos pouquíssima coisa. Os arquivos viraram uma espécie de bode na política nacional. A tática é empurrar para o futuro.

ÉPOCA – O que pode ser feito para corrigir essas distorções?
Villa – O primeiro passo é abrir os arquivos com os documentos secretos da ditadura militar. Isso permitiria uma análise desse período. Sem a abertura dos arquivos, mantém-se aquela idéia de que este foi agente do regime ou aquele resistiu. Não se sabe efetivamente o que fizeram ou não.

ÉPOCA – Por que isso não é feito?
Villa – Há muito temor porque, de um lado, vai esbarrar nesse pessoal que conseguiu não deixar marcas. De outro, pode afetar gente que milita politicamente, faz discursos supostamente avançados. Com a abertura dos arquivos, seria possível ver que a história dessas pessoas foi um pouco diferente. Não se avança no acerto de contas democrático sem a abertura dos arquivos. A abertura poderia tornar inviável as aposentadorias, porque muitas delas foram construídas em cima de uma oposição que jamais existiu. Os arquivos deveriam ter sido abertos na transição da ditadura para a democracia, nos anos 1980. Essa história de esperar a poeira baixar é muito ruim.

ÉPOCA – Por que é tão importante revelar documentos?
Villa – Fazer o acerto de contas é fundamental para a construção de um Estado democrático. Os problemas que temos até hoje, a reforma política, o tipo de Estado, o Poder Judiciário, parte deles vem do velho regime. As pessoas da época da ditadura ainda estão aí. Você não deu aquela sacudida para começar uma nova era.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Um Herói de 64



ORGULHO-ME DE 1964
Neste ano, quando a Revolução de 31 de Março de 1964 completa 40 anos, mais me convenço do acerto do Povo Brasileiro ao incentivar e apoiar aquele Movimento Cívico Militar que, partindo de Minas Gerais, derrotou a investida comunista para tomar o Poder no Brasil.
Paixões à parte, em todos os países nos quais o "Comunismo Democrático" prevaleceu, o sistema de Governo foi e continua sendo Ditadura, com Partido Único, sem Liberdade de Ir e Vir e sem Liberdade de Imprensa e de Opinião.
A União Soviética, do "democrata" Carlos Prestes, foi uma Ditadura feroz que se despedaçou sob o peso de milhões de assassinatos na Rússia e nos países satélites.
Os recentes episódios ocorridos em Cuba, em pleno Século XXI, com prisão de 75 escritores por delito de opinião e fuzilamentos, em processo sumário, de cubanos que queriam fugir do País, destroem, antecipadamente, qualquer argumento contrario.
Fui e sou revolucionário de 1964. Este sentimento, talvez, tenha se aguçado em mim, devido ao que aprendi sobre a Intentona Comunista de 1935, quando, militares comunistas assassinaram companheiros de farda, enquanto dormiam. Segundo a Imprensa, o pai do jornalista cearense Dorian Sampaio, foi uma das vítimas.
Sou da Turma de 1951 e Aspirante no 10o GAT 75, depois 10º GO 105, unidade tradicionalmente revolucionária. O Comunismo tinha conquistado a China e parte da Europa. Assim, iniciei a minha carreira de oficial vivendo o clima da "Guerra Fria". Em 1954, vibrei com o "Manifesto dos Coronéis" e com a "República do Galeão", pelo que representaram em defesa da Pátria e da
dignidade das Forças Armadas.
Em 1963, Cuba já era comunista e exportava esta Ideologia para as Américas e, aqui no Brasil, o Presidente João Goulart estimulava e prestigiava, até com a sua presença, a subversão da Ordem Pública e a quebra da hierarquia nas Forças Armadas.
Eu cursava a EsAO e, à noite, ia ao Clube Militar para, com muitos outros companheiros das Forças Armadas, protestar contra aquelas afrontas inaceitáveis.
Deflagrada a Revolução, servindo em Itu, SP, marchei com um colega de turma, o Capitão Lótus Silva de Paula, num jipe, à frente do Destacamento Precursor do 2o RO 105, unidade com a Missão de se antepor às tropas do Rio de Janeiro, fieis a Jango, segundo o noticiário, que se deslocavam na direção de S.Paulo.
O combate de encontro das duas forças irmãs, do Exercito, não ocorreu porque o então Cmt da AMAN, Gen Médici, dispôs os cadetes em posição defensiva nas alturas de Barra Mansa, barrando a rodovia Rio-S. Paulo, frente ao Rio. Tive o privilégio de estar presente na ante - sala do Gabinete do Comando da AMAN, onde se deu o encontro do Cmt I Exercito, Gen Ancora ? representando o Ministro do Exército - com o Cmt II Exercito, Gen Kruel, presente o Gen Médici. Naquela ocasião, as forças legais aderiam à Revolução.
No regresso da AMAN, depois de alguns dias acantonado na cidade de São Paulo, SP, o povo de Itu foi às ruas para receber, festivamente, o 2o RO 105.
Assumiu a Presidência da República o Gen Castelo Branco e, após o afastamento dos corruptos e da prisão temporária dos envolvidos com a subversão, o País caminhava para a normalidade democrática, inclusive com as eleições, no Rio e em Minas Gerais, de Governadores não identificados com a Revolução.
Então, no dia 25.07.66, ocorreram três atentados à bomba. em Recife, PE, um deles no Aeroporto dos Guararapes, onde, além de diversos feridos, morreram um Almirante e o Jornalista Edson Regis de Carvalho. Faço questão de registrar o nome do jornalista, para que a Imprensa possa constatar a
veracidade do que digo.
Estes episódios impediram a volta à normalidade democrática desejada pelo Presidente Castelo Branco. E, em 1968, a partir da Revolução Cultural iniciada na França, desencadeou-se uma ofensiva de expansão comunista para a tomada do Poder pela Luta Armada, que envolveu o Mundo e, conseqüentemente, a América do Sul.
Iniciou-se, então, no Brasil, a Guerrilha Urbana, que é a prática coordenada de atos de Terrorismo como, assaltos a bancos, ataque a quartéis, assassinatos de militares brasileiros e estrangeiros e, até, seqüestro de embaixadores estrangeiros. Por revoltante, registro que o desertor do Exercito, ex-capitão Carlos Lamarca, amordaçou, para em seguida, assassinar a coronhadas, um tenente da PMSP, seu prisioneiro.
Eu cursava a Escola de Comando e Estado Maior do Exército e, por duas vezes, fui distinguido para cumprir missões de interesse da Revolução.
Fui designado para censurar as transmissões de uma estação de rádio e aqui, quero dar uma explicação para este tipo de controle do noticiário: os atentados se sucediam e, numa Guerra de Guerrilhas, o noticiário é um eficiente meio para a transmissão de ordens e avisos, em código.

Depois, fui mandado a São Paulo, junto com o meu colega da ECEME, Maj Art Gerson Mendonça de Freitas, da Turma de 1953. Eu fiquei no Exercito e o Gerson foi designado para a Divisão. Nesta oportunidade, tive a maior lição prática do que é o Comunismo Internacional. Tinham sido presos um homem e uma mulher, autores da explosão da bomba que estraçalhou o Sd Mario Kosel, um menino, que prestava serviço militar obrigatório no QG do II Exercito. Conversei com a assassina, acho que o seu codinome era "Dora", e ela me disse friamente: Pelo Partido, fiz e faria de novo.
Após a ECEME, como Oficial do Estado Maior da 10a RM, participei da organização do Batalhão que foi combater e derrotar a Guerrilha Rural no Araguaia e encerrar, definitivamente, a segunda aventura comunista no Brasil.
A Revolução de 1964 coroou a sua vitória com a Abertura Política, a Anistia e com a entrega do Governo a um Presidente Civil.
Quero finalizar, reproduzindo, abaixo, duas declarações da guerrilheira Vera Silva Magalhães, uma das seqüestradoras do Embaixador Americano, prestadas em depoimento feito, recentemente, na TV Câmara:
- Disse que o seu chefe imediato, nas operações de guerrilha, afirmara que se qualquer um dos guerrilheiros quisesse recuar, ele seria o primeiro a matá-lo.
- Disse que os guerrilheiros não eram contra a Ditadura Militar e sim, a favor da Ditadura do proletariado. E acrescentou que as esquerdas deviam assumir esta verdade.
Em duas frases, ela sintetizou do que a Revolução salvou o Brasil.
Salve a Revolução de 1964, da qual Deus me deu a honra de ser um soldado.
José Antonio Bayma Kerth Cel EB 100163020-9

1964 Que fique bem Claro



Grupo Ternuma
O 31 de março de 1964 foi uma contra-revolução, com a participação de mais de 80% da população e a luta armada, que mais tarde teve início, foi conseqüência, não da vontade dos esquerdistas em redemocratizar o País. Foi sim, fruto da luta ideológica vivida no mundo e o desejo dos comunistas em tornar o Brasil ,mais um satélite da então URSS. O modelo escolhido para o Brasil era o de uma outra Cuba. Não foi por acaso que vários brasileiros fizeram cursos de guerrilha na Ilha.
Com certeza, se em 64 a alternativa comunista fosse vencedora, sem retórica, as "cabeças iriam rolar " e o derramento de sangue poderia ter durado até hoje, a exemplo do que ocorreu e ocorre em Cuba e na China.
A outra alternativa provável e também terrível, é que sofreríamos uma intervenção militar dos EEUU, com apoio de Nações européias. Nosso território não seria o que é hoje e problemas muito sérios para a integridade e soberania nacional estariam acontecendo....
Pacificamente, as FFAA sustaram , mais uma vez, a marcha comunista. Com mais acertos do que erros projetaram e prepararam o País para se tornar a grande Nação que é hoje, a despeito de todos os problemas conjunturais. Pacificamente, também, como sempre foi a vocação dos militares, sem sangue, foi viabilizado o retorno à Democracia ! Isto é um fato !
Outra grande mentira esquerdista se diz respeito da participação do EEUU na contra revolução de 64. Uma correspondência, recém-divulgada, entre Lincoln Gordon e o governo de Washington. De um comunicado de 29 de março de 1964, em que o embaixador, confirmando a iminência da queda do presidente, insistia para que seus superiores dessem algum respaldo ao movimento que se preparava, tiraram a brilhante conclusão de que aí estava — enfim! — a prova, tão antecipadamente alardeada pela esquerda nacional durante quarenta anos, de que os americanos haviam tramado o golpe ou ao menos tomado parte no seu planejamento. A conclusão obvia, ao contrário, é que esses jornalistas não sabem ler ou não quiseram enxergar a data do documento. Na ocasião do comunicado, fazia mais de um ano que líderes civis e militares locais vinham tramando a derrubada de Jango. Se dois dias antes da eclosão do movimento o governo americano era convocado às pressas para fazer alguma coisa, o que isso prova é evidentemente o contrário do que a esquerda sempre alegou. Ninguém prepara um golpe com dois dias de antecedência. Os americanos acompanhavam a coisa de longe e, quarenta e oito horas antes de o general Mourão Filho colocar a tropa na rua, ainda estavam tentando decidir o que fazer. Acabaram, é claro, por não fazer nada.
http://www.ternuma.com.br

domingo, 12 de setembro de 2010

Tortura e terrorismo

Escrito por Jarbas Passarinho
Terça, 12 de Agosto de 2008 08:44

“Com razão tem sido sustentado que a prática de tortura não é limitada a algum específico sistema político ou regime, a determinada cultura ou religião, ou situação geográfica, desde as eras primitivas da história da humanidade” (prof. dr. Dionísio Spinellis, da Universidade de Atenas).

Destaco a universalidade da prática e a nenhuma exceção aos diferentes regimes. Seu irmão xifópago, o terrorismo, nasceu, como prática política, já no mundo moderno, a partir de Robespierre e seu “reino do terror”. Derivou, na história contemporânea, para a monstruosidade dos Estados totalitários, bem assim dos grupos terroristas da segunda metade do século 20, empenhados em abalar e derrubar regimes burgueses. Che Guevara deles discordou em seu manual Guerra de guerrilha, “porque perdem o apoio popular”. Ao contrário, Carlos Marighella defendia o terrorismo como forma de luta na guerrilha.

Na Constituinte de 1987 — 1988 a esquerda, sobretudo o PT, que abrigara terroristas anistiados, bateu-se pela condenação da tortura como crime hediondo. Nós, no plenário, Roberto Campos inclusive, aprovamos a emenda. A seguir, considerando igualmente hediondo o terrorismo, propusemos condená-lo também. Encontramos forte oposição de petistas seguidores de Carlos Marighella na luta armada, apologista dos seqüestros, atentados a bomba, assaltos de bancos e assassínios. Hoje, tortura e terrorismo estão no artigo 5º da Constituição, ambos considerados crimes inafiançáveis e desmerecedores de anistia.

Quando leio que o ministro Paulo Vannuchi declara publicamente que a Lei da Anistia deveria ser revogada, para que se punam os que, na luta armada contra os comunistas, ele atribui haverem torturado, dou-lhe o troféu de coerência. Revejo o plenário da Constituinte em 1987, quando discutíamos os direitos e deveres individuais e coletivos. Recordo a dicotomia no julgamento da tortura e do terrorismo.

O ministro dos Direitos Humanos foi da Aliança Libertadora Nacional liderada por Carlos Marighella cuja bíblia era o seu Manual do guerrilheiro urbano. Militante que foi da ALN, tem o dever de ser contra a tortura, mas não contra o terrorismo, cuja prática absolve ideologicamente como arma legítima de luta armada. De resto, a primeira ação da luta armada foi o atentado terrorista, em 1966, do Aeroporto Guararapes, no Recife. Estava lotado, não só de correligionários da Arena, que iam receber o general Costa e Silva, eleito indiretamente presidente da República. Anunciado que ele vinha de Aracaju por terra, a maioria dos presentes já se retirara quando a bomba explodiu. Matou cinco, feriu dezenas de inocentes. Três bombas mais falharam em pontos da cidade. O ministro Vannuchi é coerente com seu passado e hoje trata, no governo, dos Direitos Humanos, assimetricamente, o que lhe é muito adequado.

Khruschev, em seu discurso histórico no XX Congresso do Partido Comunista soviético, de 1956, comprovou, como comunistas leais haviam sido, no XVII Congresso do Partido, objeto de acusação forjada de “inimigos do povo” (o mais grave dos crimes), presos e submetidos a “brutais torturas” para assinarem confissão do crime que não haviam cometido. Um julgamento comprometido com Stalin e a NKVD os sentenciou à morte, o que levou a um genocídio entre 1937 e 1938.

Dos 139 candidatos ao Comitê Central, 98 foram mortos, vítimas de “culpas fabricadas”; e de 1966 delegados, 1.108 deles foram assassinados. Um dos mais qualificados disse ao fim do julgamento: “Reconheço que esta assinatura é verdadeira, mas não o é qualquer palavra dessa falsa confissão”. As torturas não acabaram depois da morte de Stalin. Não. Quando em 1968 os tanques soviéticos esmagaram a Primavera de Praga, os torturadores vieram da União Soviética para torturarem os tchecos presos.

Fidel imitou Stalin. Armando Valladares, jovem guerrillheiro desde Sierra Maestra, católico praticante, porque discordou verbalmente da adesão de Fidel ao comunismo em 1961, foi preso. Nas várias prisões, foi torturado e nelas sofreu 21 anos, até que, a pedido de Mitterrand, foi libertado. Em seu livro Contra toda a esperança, descreve as brutais torturas que sofreram todos os presos, desde simulação de fuzilamento à limpeza do excremento acumulado numa só latrina para muitos detidos, que um deles, aleatoriamente, tinha de desentupir com a mão nua. Lula, hóspede do Dops de Romeu Tuma por 30 dias, cavalheirescamente tratado, cometeu a repulsiva injustiça de chamar Valladares de “picareta”.

Nossos guerrilheiros treinaram em Cuba e na China de Mao, onde a tortura era a norma desde Stalin. Hoje mentem, dizendo que fizeram uma “resistência democrática”. É falso. Quem o afirma é um deles: Daniel Aarão Reis Filho, que foi preso e exilado. Em entrevista publicada, disse que essa versão surgiu para fortalecer a campanha da anistia. “Seu objetivo era implantar uma ditadura revolucionária.” Que moral têm para acusar aqueles que têm, na consciência, a mancha indelével da tortura?

Fonte: Correio Braziliense - 05/08/2008

Ditadura militar

Conversa com a doutoranda
Escrito por Jarbas Passarinho
Quarta, 04 de Julho de 2007 11:47

Aceitei a proposta, solicitando-lhe gravar o que eu diria, mas antecipei que tudo que eu afirmasse, na comparação das quatro décadas, eu me obrigava a acompanhar de provas. A primeira pergunta foi o porquê do golpe de 64, sua razão de ser, caso a tivesse, já que ela ouvira versão de que a alegação de ameaça comunista fora pretexto para os militares tomarem o poder. Lembrei-lhe que o mundo estava vivendo a Guerra Fria, dividido em dois hemisférios ideológicos: o comunismo e o anticomunismo. O primeiro avançava desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Além dos países da Europa central e oriental que a União Soviética anexara, Mao Tse Tung vencera na China, Ho Chi Min em parte da Indochina lutava contra os americanos no Vietnã, a descolonização da África aumentara os regimes comunistas e Fidel Castro fazia de Cuba a ponta de lança exportadora da revolução leninista na América Latina, com guerrilhas comunistas atuando nos nossos vizinhos, Venezuela e Colômbia. Irônico que lhe parecesse, nós militares éramos antigolpistas, preparando-nos para enfrentar a ameaça do golpe representada pelo governo João Goulart. Não que fosse ele comunista. Era um latifundiário pecuarista, com aliança com diversos tipos de esquerda, inclusive os comunistas. Mostrei-lhe a prova: o livro Prestes, lutas e autocríticas, por ele ditado em 1982 ao jornalista Dênis de Moraes. Nele, Prestes revela a aliança com Jango, visando a erigir um Estado de aliança da ''burguesia progressista'' com os comunistas. Em nome das ''reformas de base'', Brizola pregava o fechamento do Congresso e criara uma facção paramilitar, o ''grupo dos 11'', para atuar em força, se necessário. Jango tentou dominar o Congresso e os adversários políticos pelo estado de sítio. Acabou retirando a proposta dada a reação do Congresso. Tudo isso não passava, para nós, de veleidades políticas, até que sargentos armados em 1963 tomaram o quartel dos fuzileiros navais, prenderam um ministro e ocuparam parte de Brasília. Foram rechaçados por tropas legais do Exército, com mortos e feridos. Estava clara a ameaça militar, com o motim revolucionário e a quebra da disciplina e da hierarquia, o que se repetiu com os marinheiros e fuzileiros navais amotinados no Rio de Janeiro.

Então nós passamos de antigolpistas, preparados para nos opor à ameaça concreta, a golpistas e decidimos nos antecipar a ela. Prova? Outro livro de um comunista e escritor honesto: Combate nas trevas, de Jacob Gorender. No capítulo ''Pré-revolução e golpe preventivo'' ele descreve a revolução que estava em processo e o golpe de Estado, preventivo.

A doutoranda, limitando-se até então a ouvir e gravar meu testemunho, atacou: ''por que o ditatorial AI-5, de quem dizia defender a democracia?''. Respondi-lhe que em 1967 já atuavam guerrilhas comunistas no Brasil com dissidentes de Prestes. Se um Estado agredido pelas armas responde fogo contra fogo passa a autoritário. É o dilema que enfrenta. Se não reagir restringindo as liberdades democráticas, elas serão usadas pelos insurgentes para tomar o poder. Mas - insistiu ela - só se pode combater a insurgência pela ditadura? Passei então a outra prova: a Colômbia. Não restringiu as liberdades civis e políticas e o resultado foi que há 40 anos não vence a guerrilha comunista, as Farc, que já dominam mais de um terço do território colombiano. O Estado nesse caso é suicida.

Pediu-me então para comparar as realizações nas quatro décadas, afirmando desde logo que os resultados materiais foram inegáveis no ciclo militar, mas sob o autoritarismo. De fato, aduziu ela, o Brasil se modernizara, a economia atingira a oitava do mundo, as rodovias asfaltadas, as hidrelétricas construídas, uma em Tucuruí, a maior nacional, e a outra a de Itaipu, a maior do mundo. Mas não poderia isso ser realizado sem perda das liberdades durante 20 anos? Primeiro - respondi - só tivemos autoritarismo a partir do AI-5 que durou 10 e não 20 anos. Por quê? Para enfrentar as guerrilhas urbanas, todas de comunistas. A ameaça era concreta, os guerrilheiros financiados e treinados não só em Cuba. O mundo ainda não mudara. O Muro de Berlim ainda existia.

Os regimes autoritários tendem a tornar-se democráticos. Assim, com a Emenda Constitucional número 11, de outubro de 1978, o AI-5 foi revogado bem como todas as medidas de exceção. As liberdades fundamentais foram restauradas e em março de 1985 o governo foi passado pacificamente aos civis. Cuba continua ditadura cruel, que não se cansa de oprimir e matar.

Reconheço que viver em democracia é infinitamente preferível, ainda que nos 20 anos de democracia plena, em que estamos, a economia já seja a décima quinta do mundo, as rodovias estão abandonadas e os Correios que já foram reconhecidos pela eficiência, como um dos melhores do mundo, hoje são antro de corrupção. Reconheço ainda que a convocação da Constituinte, em 1987, foi instrumento de admiráveis conquistas de direitos civis e políticos e de caráter social, mas Fernando Henrique Cardoso, ao fim de seu segundo mandato, disse que ''o Funrural é o maior programa de renda mínima do mundo''. Só esqueceu de dizer que foi criado em 1969...

Não há, no que tange às liberdades, melhor regime que o democrático. No mundo atual não há nenhuma razão para ditadura. A globalização, desde o colapso da URSS, erigiu o regime universal democrático como princípio de forma de governo. Deus permita que assim seja, sempre.



Publicado no Jornal do Brasil - 7/6/2005

Apogeu e declínio do ciclo militar"

Jarbas Passarinho

em 21/12/2004

copyright Folha de S. Paulo, 19/12/04

"O 31 de março de 1964 foi resultado de um clamor popular para a deposição de João Goulart e hoje é tido como um golpe para usurpação do poder pelos militares. Por quê?

Manchetes, em letras garrafais, de ‘Basta!’ e ‘Fora João Goulart’, da grande imprensa nacional, são hoje substituídas, nos mesmos jornais, por ácidas críticas aos ‘anos de chumbo’ do ciclo militar. Por quê?

A massa humana de 1 milhão de pessoas, entre elas padres, bispos e o laicato católico, em passeatas nas ruas de São Paulo, rezando por Deus e pela liberdade, em março de 64, transformou-se no milhão de pessoas entusiásticas que exigiam ‘Diretas Já!’ em 1984. Por quê?

Nenhum democrata -e são tantos- pegou em armas contra o governo. Só os comunistas, treinados e financiados em Cuba, fizeram-no. Antes Fidel Castro, que os adestrava, era visto e repudiado como ponta-de-lança da União Soviética nesta parte do hemisfério Sul, na exportação da revolução comunista. Passou a ser venerado por Lula, antes de eleito nosso presidente, e aplaudido quando se permite nos visitar. Por quê?

A igreja, que maciçamente apoiou o golpe preventivo -como o chamou Jacob Gorender-, pouco a pouco se deixou dominar pela corrente da Teologia da Libertação. Dom Paulo Evaristo Arns, que em 31 de março de 1964 foi ao encontro dos mineiros, sublevados, para oferecer-lhes assistência religiosa, veio a se transformar no cardeal símbolo da resistência organizada aos governos dos generais. Por quê?

Os dominicanos, que em Conceição do Araguaia homenagearam-me, governador do Pará, em 1965, oferecendo-me pernoite, viriam a ter, na ordem, no Convento das Perdizes, em São Paulo, uma célula comunista, com frades subordinados ao líder Carlos Marighella. Por que tamanha mudança?

Os guerrilheiros e terroristas comunistas que desencadeavam a luta armada -e a perderam por falta de apoio popular- são agora reverenciados com nomes de ruas, placas comemorativas e indenizações bilionárias. Por quê?

Toda essa transformação terá ocorrido devido a sucessivos erros praticados no ciclo militar.

O apoio da imprensa, perdemo-lo quando lhe foi imposta a censura e, por cima disso, por censores despreparados, incapazes de distinguir uma notícia de um recado para a guerrilha. Como a liberdade é para a imprensa o mesmo que o oxigênio para a vida, a mídia não demorou a ficar contra o governo e a adubar, habilmente, terreno para os líderes de oposição.

A igreja, minada pelos padres e bispos partidários da Teologia da Libertação e da análise marxista do capital, não a perderíamos de todo se encarregados de IPM inteiramente despreparados não indiciassem, como indiciaram, padres e bispos como favoráveis à guerrilha, quando só os frades dominicanos tinham codinomes, agindo na clandestinidade na luta armada.

No ciclo militar, já em 1967, eclodiram as guerrilhas comunistas. O Estado respondeu fogo com fogo. Perdeu cerca de 200 combatentes. Filhos do povo, soldados e civis, seguranças de embaixadores ou de bancos foram mortos covardemente. Militares estrangeiros foram assassinados ‘por engano’. Na ‘guerra suja’, crueldades foram praticadas de ambos os lados, mas só vem a público a hediondez das torturas, que não eram uma política de governo, nas deformações dos que esqueceram a Convenção de Genebra, aprendida nas escolas militares. Preferiram seguir o exemplo dos pára-quedistas franceses na Argélia.

Tudo de bom que os militares fizeram pelo Brasil foi posto a perder: a modernização do país, a reforma universitária e de primeiro e segundo graus, a expansão do ensino público, as muitas rodovias construídas e asfaltadas, o espetacular crescimento da economia, alçada ao oitavo lugar do mundo, a geração de empregos, a eficiência dos Correios e Telégrafos, a transformação radical da telefonia -incapaz, em 64, de garantir uma linha urbana e que veio, com o auxílio de satélites, a garantir não só a linha urbana, como a DDD e a DDI. As hidrelétricas -Tucuruí, a maior do Brasil, e Itaipu, a maior do mundo-, as aposentadorias dos trabalhadores rurais, que FHC disse ser o maior projeto de renda mínima do mundo.

Por quê?

Primeiro, pela demora da devolução do poder aos civis, além de 1973. As guerrilhas urbanas tinham sido esmagadas. A do PC do B não ameaçava a segurança do Estado, isolada na floresta, com pequeno contingente e apoiada apenas pela ridícula Albânia, pela rádio de Tirana, sem nenhum valor. Serviu, porém, de pretexto para a continuação do ciclo militar.

Segundo, e especialmente, pela prática da tortura na repressão.

À vitória na luta armada, que prescindiria das atrocidades, seguiu-se a derrota da batalha das comunicações, ganha pelos que escondem as felonias que praticavam e hoje são quase deificados herdeiros de recompensas milionárias.

Jarbas Passarinho, 84, é coronel da reserva. Foi governador do Pará (1964-65) e senador pelo Estado em três mandatos (1967-74, 1975-82 e 1987-95), além de ministro da Educação (governo Médici), da Previdência (governo Figueiredo) e da Justiça (governo Collor)."

A Ditadura Militar no Brasil

A História oficial de 1964
Olavo de Carvalho
O Globo, 19 de janeiro de 1999

Se houve na história da América Latina um episódio sui generis, foi a Revolução de Março (ou, se quiserem, o golpe de abril) de 1964. Numa década em que guerrilhas e atentados espoucavam por toda parte, seqüestros e bombas eram parte do cotidiano e a ascensão do comunismo parecia irresistível, o maior esquema revolucionário já montado pela esquerda neste continente foi desmantelado da noite para o dia e sem qualquer derramamento de sangue.

O fato é tanto mais inusitado quando se considera que os comunistas estavam fortemente encravados na administração federal, que o presidente da República apoiava ostensivamente a rebelião esquerdista no Exército e que em janeiro daquele ano Luís Carlos Prestes, após relatar à alta liderança soviética o estado de coisas no Brasil, voltara de Moscou com autorização para desencadear – por fim! – a guerra civil no campo. Mais ainda, a extrema direita civil, chefiada pelos governadores Adhemar de Barros, de São Paulo, e Carlos Lacerda, da Guanabara, tinha montado um imenso esquema paramilitar mais ou menos clandestino, que totalizava não menos de 30 mil homens armados de helicópteros, bazucas e metralhadoras e dispostos a opor à ousadia comunista uma reação violenta. Tudo estava, enfim, preparado para um formidável banho de sangue.

Na noite de 31 de março para 1o. de abril, uma mobilização militar meio improvisada bloqueou as ruas, pôs a liderança esquerdista para correr e instaurou um novo regime num país de dimensões continentais – sem que houvesse, na gigantesca operação, mais que duas vítimas: um estudante baleado na perna acidentalmente por um colega e o líder comunista Gregório Bezerra, severamente maltratado por um grupo de soldados no Recife. As lideranças esquerdistas, que até a véspera se gabavam de seu respaldo militar, fugiram em debandada para dentro das embaixadas, enquanto a extrema-direita civil, que acreditava ter chegado sua vez de mandar no país, foi cuidadosamente imobilizada pelo governo militar e acabou por desaparecer do cenário político.

Qualquer pessoa no pleno uso da razão percebe que houve aí um fenômeno estranhíssimo, que requer investigação. No entanto, a bibliografia sobre o período, sendo de natureza predominantemente revanchista e incriminatória, acaba por dissolver a originalidade do episódio numa sopa reducionista onde tudo se resume aos lugares-comuns da "violência" e da "repressão", incumbidos de caracterizar magicamente uma etapa da história onde o sangue e a maldade apareceram bem menos do que seria normal esperar naquelas circunstâncias.

Os trezentos esquerdistas mortos após o endurecimento repressivo com que os militares responderam à reação terrorista da esquerda, em 1968, representam uma taxa de violência bem modesta para um país que ultrapassava a centena de milhões de habitantes, principalmente quando comparada aos 17 mil dissidentes assassinados pelo regime cubano numa população quinze vezes menor. Com mais nitidez ainda, na nossa escala demográfica, os dois mil prisioneiros políticos que chegaram a habitar os nossos cárceres foram rigorosamente um nada, em comparação com os cem mil que abarrotavam as cadeias daquela ilhota do Caribe. E é ridículo supor que, na época, a alternativa ao golpe militar fosse a normalidade democrática. Essa alternativa simplesmente não existia: a revolução destinada a implantar aqui um regime de tipo fidelista com o apoio do governo soviético e da Conferência Tricontinental de Havana já ia bem adiantada. Longe de se caracterizar pela crueldade repressiva, a resposta militar brasileira, seja em comparação com os demais golpes de direita na América Latina seja com a repressão cubana, se destacou pela brandura de sua conduta e por sua habilidade de contornar com o mínimo de violência uma das situações mais explosivas já verificadas na história deste continente.

No entanto, a historiografia oficial – repetida ad nauseam pelos livros didáticos, pela TV e pelos jornais – consagrou uma visão invertida e caricatural dos acontecimentos, enfatizando até à demência os feitos singulares de violência e omitindo sistematicamente os números comparativos que mostrariam – sem abrandar, é claro, a sua feiúra moral – a sua perfeita inocuidade histórica.

Por uma coincidência das mais irônicas, foi a própria brandura do governo militar que permitiu a entronização da mentira esquerdista como história oficial. Inutilizada para qualquer ação armada, a esquerda se refugiou nas universidades, nos jornais e no movimento editorial, instalando aí sua principal trincheira. O governo, influenciado pela teoria golberiniana da "panela de pressão", que afirmava a necessidade de uma válvula de escape para o ressentimento esquerdista, jamais fez o mínimo esforço para desafiar a hegemonia da esquerda nos meios intelectuais, considerados militarmente inofensivos numa época em que o governo ainda não tomara conhecimento da estratégia gramsciana e não imaginava ações esquerdistas senão de natureza inssurrecional, leninista. Deixados à vontade no seu feudo intelectual, os derrotados de 1964 obtiveram assim uma vingança literária, monopolizando a indústria das interpretações do fato consumado. E, quando a ditadura se desfez por mero cansaço, a esquerda, intoxicada de Gramsci, já tinha tomado consciência das vantagens políticas da hegemonia cultural, e apegou-se com redobrada sanha ao seu monopólio do passado histórico. É por isso que a literatura sobre o regime militar, em vez de se tornar mais serena e objetiva com a passagem dos anos, tanto mais assume o tom de polêmica e denúncia quanto mais os fatos se tornam distantes e os personagens desaparecem nas brumas do tempo.

Mais irônico ainda é que o ódio não se atenue nem mesmo hoje em dia, quando a esquerda, levada pelas mudanças do cenário mundial, já vem se transformando rapidamente naquilo mesmo que os militares brasileiros desejavam que ela fosse: uma esquerda socialdemocrática parlamentar, à européia, desprovida de ambições revolucionárias de estilo cubano. O discurso da esquerda atual coincide, em gênero, número e grau, com o tipo de oposição que, na época, era não somente consentido como incentivado pelos militares, que viam na militância socialdemocrática uma alternativa saudável para a violência revolucionária.

Durante toda a história da esquerda mundial, os comunistas votaram a seus concorrentes, os socialdemocratas, um ódio muito mais profundo do que aos liberais e capitalistas. Mas o tempo deu ao "renegado Kautsky" a vitória sobre a truculência leninista. E, se os nossos militares tudo fizeram justamente para apressar essa vitória, por que continuar a considerá-los fantasmas de um passado tenebroso, em vez de reconhecer neles os precursores de um tempo que é melhor para todos, inclusive para as esquerdas?

Para completar, muita gente na própria esquerda já admitiu não apenas o caráter maligno e suicidário da reação guerrilheira, mas a contribuição positiva do regime militar à consolidação de uma economia voltada predominantemente para o mercado interno – uma condição básica da soberania nacional. Tendo em vista o preço modesto que esta nação pagou, em vidas humanas, para a eliminação daquele mal e a conquista deste bem, não estaria na hora de repensar a Revolução de 1964 e remover a pesada crosta de slogans pejorativos que ainda encobre a sua realidade histórica?