ESCRITO POR OLAVO DE CARVALHO | 26 FEVEREIRO 2013 ARTIGOS - MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO
Certas controvérsias surgidas dias atrás a propósito da blogueira Yoani Sanchez, uns considerando-a uma heroína, os outros uma perigosa agente camuflada dos irmãos Castro, podem ser resolvidas facilmente se a ânsia de julgar ceder o passo ao desejo de compreender.
Os próprios dados do problema trazem a sua solução, bastando ordená-los de maneira razoável.
1. Desde logo, é insensato pensar que as denúncias da blogueira possam fazer algum bem ao regime cubano. Mais do que ninguém nos últimos tempos, ela tem contribuído para divulgar crimes e atrocidades que mancham de uma vez para sempre a reputação dos irmãos Castro. Quando, por exemplo, os horrores da ditadura cubana foram expostos no nosso Congresso Nacional com a visibilidade que lhes deu a visita de Yoani Sanchez? Imaginar que o governo cubano se alegre com isso é levar longe demais a conjeturação de planos secretos.
2. Igualmente insensato é supor que, para fazer o que faz, Yoani tenha de ser uma direitista ou conservadora ou deva satisfações ideológicas aos que assim se definem. Ela nunca foi direitista nem conservadora, e não faz o menor sentido julgar a confiabilidade, a idoneidade ou a utilidade do seu trabalho por um imaginário dever de fidelidade a uma corrente política à qual ela nunca pertenceu.
3. Yoani é uma protegida de George Soros, o que basta para situá-la historicamente como um instrumento -- voluntário ou involuntário, pouco importa -- do grande processo de renovação interna do movimento revolucionário, empenhado em desfazer-se de sua antiga casca bolchevista para assumir feições mais sedutoras e lançar-se a novas e mais ambiciosas conquistas.
4. Nesse processo, os velhos bolchevistas que não puderem se adaptar às novas condições serão sacrificados, como ciclicamente acontece na história das revoluções, que progridem e crescem por autodestruição, limpando-se na sua própria sujeira cuja existência negavam até a véspera. Nessas transições, o movimento revolucionário se renova e se fortalece, mas torna-se temporariamente vulnerável, de modo que suas contradições internas podem ser aproveitadas pelos seus adversários, se estes não caírem nas duas esparrelas opostas: ou imaginar que os dissidentes internos do socialismo se converteram todos às idéias democráticas e conservadoras ou, inversamente, condená-los como falsos conservadores e agentes infiltrados quando seu discurso não coincide com aquilo que em outras nações se entende como conservadorismo “autêntico”.
5. Malgrado todas as ambigüidades e hesitações no curso do processo, em última instância é impossível que Yoani sirva igualmente ao novo e ao velho esquema revolucionário. A opção dela está feita, na prática. Como ela encara isso subjetivamente é irrelevante no momento. Seus motivos íntimos só se revelarão mais tarde, e até lá toda tentativa de julgá-la moralmente, seja para aplaudi-la, seja para condená-la, é ejaculação precoce.
6. A destruição do regime cubano é um bem em si, independentemente do seu futuro aproveitamento pelo movimento revolucionário, cuja nova encarnação terá de ser combatida num outro quadro de condições, totalmente diverso da luta contra a ditadura castrista.
7. Os conceitos descritivos e categorias mentais em que se expressa o conflito interno em Cuba não coincidem com os da luta politica no resto do continente latino-americano nem muito menos no Brasil em especial ou no quadro geral do mundo. Como diria um trotsquista, historicamente esses fenômenos pertencem a “fases” diferentes. Numa ditadura socialista totalitária, não é muito urgente saber se seus dissidentes são conservadores, liberais ou apenas socialistas com pretensões democráticas desiludidos com algo que lhes parece um pseudo-socialismo – diferenças que, no quadro de uma democracia, ou mesmo de um regime meramente autoritário como o brasileiro, podem se tornar essenciais. O “novo” socialismo do sr. George Soros só existe hoje fora de Cuba. Nesse quadro, ele representa o inimigo número um da democracia tradicional e de todos os conservadores. Dentro de Cuba, ele aparece junto com estes como a quintessência do direitismo reacionário – assim como, mutatis mutandis, no Brasil o socialismo light dos tucanos é pintado pelo governo com as cores da “extrema direita”. A diferença é que no Brasil algo à direita dos tucanos ainda pode subsistir em relativa liberdade, o que não acontece em Cuba. Se o governo cubano concede a Yoani Sanchez a margem de ação que nega a seus concorrentes de direita é por dois motivos: teme o apoio internacional que ela desfruta e, não excluindo a possibilidade de uma mudança de regime amanhã ou depois, embora lute para evitá-la, está preparado para aceitá-la com a condição de que ela não destrua de todo a idéia socialista, mas apenas lhe dê novo formato.
8. No presente momento, o trabalho de Yoani é da mais alta importância e não cabe depreciá-lo sob pretexto nenhum. O que importa é estar preparado para combater, mais tarde, as tentativas de aproveitar os resultados dele em favor do “novo” movimento revolucionário. Transformar isso numa luta pró e contra Yoani Sanchez, do ponto de vista da fidelidade ou infidelidade da blogueira a valores democráticos tradicionais que objetivamente nunca foram os dela, é processar o cão em vez do dono que o atiçou. Revelar os compromissos de Yoani com o movimento revolucionário é decerto útil e necessário, mas fazer disso um motivo para fulminá-la com anátemas ideológicos é extemporâneo e contraproducente.
ESCRITO POR HEITOR DE PAOLA | 18 FEVEREIRO 2013 ARTIGOS - DESINFORMAÇÃO
Para hoje, 18 de fevereiro, foi anunciada a chegada ao Brasil, via Recife, da mais famosa blogueira cubana, tida como de oposição ao regime comunista, Yoani Sánchez.
Esta señorita é certamente o maior sucesso da desinformatzia cubana e, como sempre acontece com os agentes de desinformação comunista, encanta os idiotas úteis de todo o mundo. É desnecessário re-escrever o que já publiquei anteriormente sobre esta mentirosa e falsa oposicionista cubana. Faz-se, no entanto, necessário comentar a montagem de mais uma manobra de desinformação para dar mais credibilidade à impostora: a invenção de uma vasta operação de espionagem sobre sua visita ao Brasil por parte dos serviços de informação de Cuba em conluio com o governo brasileiro.
É claro que existiu uma vasta operação que envolveu os dois governos comunistas, de Raúlzito e Dilmita, mas foi uma operação tipicamente comunista de desinformação exatamente para atrair a mídia nacional, e, via idiotas úteis como o acima mencionado, escandalizar a população. Dilma, Lula, os irmãos Castro e demais comunas devem estar rindo à socapa da imbecilidade da mídia nacional!
Vale lembrar que num documento do KGB chamado Manual do Diretório RT, desinformatzia era definida como‘a aberta apresentação ao inimigo de falsa informação ou materiais e documentos especialmente preparados com a finalidade de enganá-lo e induzi-lo a decisões e ações que correspondem aos interesses da URSS’ [[i]]. Antes o KGB e o GRU já haviam plantado com sucesso dezenas de falsas informações, das quais duas devem ser referidas aqui.
A primeira foi a criação de um grupo de resistência interna ao governo comunista chamado Trust, usado para desorientar os inimigos de fora e de dentro da URSS. Incluía vários ardis – falsos líderes de resistência e exércitos imaginários para confundir com a verdadeira e autêntica resistência que estava presa e sofrendo o diabo. Até parece que Yoani é pura imitação cubana, pois os verdadeiros dissidentes cubanos ao invés de fazer compras em feiras maravilhosas às quais os cubanos não têm acesso (ver abaixo as fotos da Veja; deve ser nas áreas de acesso exclusivo dos membros do partido) ou beberem alegremente com os amigos, dormem sobre seus próprios excrementos nas masmorras.
O projeto WIN, desenvolvido na Polônia em 1941 era outro grupo ‘de oposição’ para ser visto pelo ocidente [[ii]].
Republico abaixo o artigo ‘De Cuba con cariño - un regalo de los hermanitos castro a los idiotas útiles de Brasil', e forneço links para outros. Leiam a vejam se esta señorita merece a credibilidade que lhe está sendo dada pela mídia brasileira.
Notas:
[i] Political Intelligence the Territory of USSR, Andropov Institute of the KGB, Moscou, 1989
[ii] WIN é a abreviatura para o lema polonês ‘Liberdade e Independência’. Segundo o relatório para Moscou: ‘Desinformar o inimigo envolveu fornecer alguma informação autêntica (para estabelecer credibilidade) junto com puros engodos’. (Operação César, publicação do Partido Comunista Polonês, 1954)
ESCRITO POR HEITOR DE PAOLA | 31 OUTUBRO 2009 ARTIGOS - DESINFORMAÇÃO
Não é ao menos estranho que um regime que faz o que bem entende com os opositores, conta com quase total apoio internacional inconteste para prender, matar, raramente exilar qualquer um dos cidadãos, que tem leis estritas sobre o uso da internet, proíbe computadores pessoais, principalmente laptops e notebooks, permita que esta moça continue impunemente comandando um blog oposicionista?
Será lançado hoje (29), no Auditório d'O Globo, o livro De Cuba com Carinho, de Yoani (ou Yoanis) Sánchez, a 'superblogueira' cubana que consegue burlar todas as diretivas do Partido Comunista Cubano quanto ao uso da Internet. Consegue mesmo? É autêntica a moça? Ou não passa de uma impostora e seu blog Generación Y de um embuste genialmente montado pelo aparelho de desinformação da DGI - Dirección General de Investigaciones - o KGB cubano?
Cada noticia sobre la "ciudadana bloguera" Yoani Sánchez me deja más confundida, y repito que no es porque tenga nada en su contra personalmente, sino porque sus posibilidades y libertad de movimientos llegan a poner en duda a cualquier persona por imberbe que sea, imagínense a un opositor o periodista independiente cubano que haya sufrido o sufra en carne propia la represión, el acoso, la humillación y la tortura psicológica que el régimen castrista aplica a los que disienten de sus dictámenes.
Adela Soto Álvarez
Não existe nesta maldita história escrita com o sangue dos mártires há cinqüenta anos, nenhum FATO semelhante ao desta blogueira que tivesse ficado impune. A forma arrogante como ela refere ter deixado a delegacia quando foi intimada "apenas" para ser notificada de que não poderia realizar o encontro dos blogs é por si só, um fato alarmante. Não se conhece um só opositor que tivesse sido tão desaforado com os interrogadores e que não tivesse - no mínimo - levado uns bofetões de arrancar os dentes e em seguida jogado no calabouço da Villa Marista. Mas Yoani disse o que quis e saiu ilesa, inclusive saudada pela rede inteira como "heroína". Agora afronta ninguém menos que a filha do ditador hereditário substituto e não passa nada?
Graça Salgueiro
Adela Soto Alvarez sabe do que está falando. É licenciada em Filologia, Jornalista, Escritora, Poeta. Fundou a Imprensa Independente em Cuba e foi condenada a um ano de prisão domiciliar na Primavera Negra de 2003, por suas atividades contestatórias. Reside atualmente em Miami como refugiada política. Autora da novela-testemunho "O Império da Simulação" (Miami 2005) e outros livros sobre a realidade cubana.
Graça Salgueiro dispensa apresentações, vale dizer apenas que na minha opinião, na de Alejandro Peña Esclusa, Olavo de Carvalho e vários outros estudiosos da Iberoamérica, Graça é a pessoa que mais entende do assunto no Brasil, talvez em mais ampla área, mormente nas questões cubanas, a cujos mártires vem dedicando sua vida há anos, adquirindo reconhecimento e respeito internacional.
No mesmo dia em que recebi o primeiro aviso do lançamento do livro, o Diário Exterior anunciava com o TítuloSentenciado a dos años de prisión:
Dos días después de la visita de Moratinos (Ministro do Exterior da Espanha) se ratifica la condena de cárcel a otro opositor cubano (El miembro del Movimiento Cristiano de Liberación (MCL) y coordinador del Proyecto Varela en el este de Cuba, Agustín Cervantes). Los miembros de la oposición cubana habían advertido que a la excarcelación de un preso de conciencia y el decreto de libertad a otro opositor que se encontraba fuera de prisión con licencia extrapenal, seguirían nuevas condenas y encarcelamientos a disidentes. Tan sólo dos días después de esas medidas, tomadas tras la visita de Miguel Ángel Moratinos a La Habana, el régimen castrista ha ratificado la sentencia de dos años de prisión al primer demócrata sometido a juicio sumario desde 2003.
2003 é exatamente o ano da 'Primavera Negra' em que o governo comunista prendeu 75 pessoas, entre eles médicos, jornalistas, professores. Submetidos a julgamento sumário a maioria foi condenada a penas de prisão de 15 a 20 anos por "atentarem contra a segurança do Estado e difundir idéias contrárias ao sistema comunista cubano'.
Não é ao menos estranho que um regime que faz o que bem entende com os opositores, conta com quase total apoio internacional inconteste para prender, matar, raramente exilar qualquer um dos cidadãos, que tem leis estritas sobre o uso da internet, proíbe computadores pessoais, principalmente laptops e notebooks, permita que esta moça continue impunemente comandando um blog oposicionista?
Segundo levantamento feito pelo site de oposição NOTICUBA, Yoanis vive em Nuevo Vedado numa confortável residência com telefone e serviço de internet, única cubana com liberdades para utilizar o serviço de internet sem interrupções, e que jamais foi objeto de perseguição ou maltrato e muito menos detida, pelo que desconhecem o porquê de sua presença como opositora.
Nuevo Vedado é considerado um dos melhores bairros de Havana, onde estão hotéis de 4 a 5 estrelas e alugam-se residências bastante amplas comparada aos miseráveis cortiços em que vivem os cubanos comuns.
O mesmo Editorial afirma o que confirmei pessoalmente em detalhada pesquisa pela Internet: (Jornalistas cubanos independentes) afirmaram que a conheciam de ouvir falar, outros que nem a conheciam porque ela não é membro de nenhum grupo opositor, que somente souberam pela imprensa estrangeira que havia feito um ato de presença no caso do roqueiro Gorki, e sobre as demais participações no estrangeiro. (...) Depois de muita sondagem soubemos que em Cuba ninguém sabe o porquê da fama de Yoanis Sánchez, nem o porquê do Prêmio Ortega y Gasset de Jornalismo Digital 2008, nem a viagem à Espanha suspensa pelo governo de Cuba. Muito menos a participação em vídeo na SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) (...) Isto, porém não corresponde com Yoanis Sánchez, pois ela não responde pela imprensa independente cubana, não foi detida, nem perseguida politicamente, nem sequer, como afirma a oposição, pertence a nenhum grupo organizado. Apenas criou um blog em 2007, chamado "Generación Y" com o objetivo, segundo ela, de poder dizer o que sente e para que o mundo conheça [seus pensamentos].
Como Yoanis mora neste lugar? Como paga o aluguel - ou é proprietária (o que seria uma aberração em Cuba)? Segundo ela mesma em seu site é 'Licenciada en Filologia, Reside en La Habana y combina su pasión por la informática con su trabajo en el Portal Desde Cuba'. Como se sustenta? Como pode usar a Internet sem interrupções? São perguntas que permanecem sem resposta.
YOANIS E GENERACIÓN Y COMO OPERAÇÃO DE DESINFORMAÇÃO?
Uma das principais armas do movimento comunista internacional é a desinformação (do russodesinformatsiya). Ela difere da propaganda convencional porque suas verdadeiras intenções são secretas e as operações sempre envolvem alguma ação clandestina. Significa a disseminação de informação falsa ou provocativa. Inclui a distribuição de documentos, cartas, fotos forjadas, propagação de rumores enganosos e inteligência errada. Segundo Biezmenov o KGB gastava 85% dos seus recursos em medidas ativas e de influência (lavagem cerebral) (O Eixo do Mal Latino-Americano e a Nova Ordem Mundial, p. 57-59).
A DGI, discípula fiel do KGB, segue os mesmos passos. Uma de suas operações mais bem sucedidas foi convencer o mundo todo de que após a revolução cubana houve uma melhora imensa na educação e na saúde, mentiras deslavadas, pois antes da revolução Cuba apresentava os melhores níveis educacionais das Américas, melhores inclusive que os da Itália e da Suécia. E sua medicina que era de ponta virou uma mixórdia com alguns centros de sub-excelência baseados em estudos nos EUA e que só estão à disposição para ricos turistas. Fidel, quando passa mal, vai para Isla de Margarita, Venezuela, onde Chávez montou um hospital de primeira linha. Os hospitais para os cubanos comuns são horríveis, sujos, sem médicos (pudera, ganhando 5 dólares por mês!).
Conseguido este intento é bem possível que a DGI passasse a atacar um ponto negativo para os ocidentais: a falta de liberdade individual e de imprensa. Ora, o que haveria de melhor do que uma mulher jovem, bonita, bem falante e boa escritora, com toda a liberdade de escrever o que queira (talvez passando antes pelo crivo da DGI), com acesso total à internet e morando muito bem?
A parte clandestina da desinformação são as mensagens subliminares para criar dúvidas nas mentes ocidentais (lavagem cerebral):
- não se vive tão mal em Cuba
- esta moça diz o quer, até mesmo interpela em público Mariela, a filhade Raúl Castro e não vai presa! Ora, Cuba não é tão repressiva assim!
- quando é chamada à polícia é tratada com delicadeza inusitada e sai livre, leve e solta! A polícia cubana não é o que a propaganda direitista fala, é melhor até que a PM do Rio!
- compartilha festinhas com seu marido e amigos livremente, ouvem música e bebem bebidas estrangeiras, igual aqui, ora!
A fábrica de mitos comunista produz dissidentes
No mesmo livro (PP 168-173) mostro como o KGB fabricou um dissidente muito mais importante que uma menina boba como Yoani: Andreiï Sakharov, o 'Pai da Bomba H soviética'. O estrago causado por ele na intelectualidade ocidental foi devastador!
A entrevista na imigração - negativa para sair do país
Foi amplamente divulgado um vídeo pelo Youtube onde Yoani comparece na Imigração cubana e lhe é negado sair do país. Assistam o vídeo: a gravação interrompe o vídeo e só fica o áudio, as vozes mudam. Obviamente falso! Montagem!
Você acredita em Papai Noel? Em Coelhinho da Páscoa que põe ovos? Em mula sem cabeça? OK, se a resposta é sim para qualquer uma das perguntas, você deve acreditar que Cuba é um paraíso que permite uma blogueira desancar los hermanitos – y la hijita de uno de ellos – sem nenhum problema.
O jornal Folha de São Paulo noticiou em 07 out 2007 que o
guerrilheiro “Che Guevara vira símbolo oficial na Venezuela e na
Bolívia”, com direito a estátuas e homenagens. Mas quem foi Che Guevara,
que foi morto há 40 anos? Quem foi Ernesto Guevara Lynch de
la Serna, argentino de Rosário, o Che?
A Revista VEJA (N. 2028 DE 03 OUT 2007) trouxe uma esclarecedora
reportagem sobre o guerrilheiro Che, que se tornou um mito em todo
mundo, fabricado pela “cultura marxista” muito presente nas
universidades, especialmente a públicas.
No ensejo dos 40 anos da morte do Che Guevara ( 08 out 1967) na
Bolívia, onde fazia guerrilha, a Revista elaborou uma matéria com base
histórica. Diz a matéria que “VEJA conversou com historiadores,
biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha e no governo cubano
na tentativa de entender este apologista da violência, voluntarioso e
autoritário…”
Seu retrato clássico – feito pelo fotógrafo cubano Alberto Korda em 1960 – é a fotografia mais reproduzida de todos os tempos.”
Segundo a matéria “exceto na revolução cubana, sua vida foi uma
seqüência de fracassos. Como guerrilheiro, foi derrotado no Congo e na
Bolívia… Segundo a reportagem, Che Guevara tinha “sua maníaca
necessidade de matar pessoas, sua crença inabalável na violência
política e a busca incessante da morte gloriosa, foi um ser
desprezível.” “Ele era adepto do totalitarismo até o último pêlo do
corpo”, escreveu sobre ele o jornalista francês Régis Debray, que por
alguns meses conviveu com Che na Bolívia.
A Revista diz que: “Por suas convicções ideológicas, Che tem seu
lugar assegurado na mesma lata de lixo onde a história já arremessou há
tempos outros teóricos e práticos do comunismo, como Lenin, Stalin,
Trotsky, Mao e Fidel Castro.”
A matéria diz que “Centenas de homens que ele [Che Guevara] fuzilou
em Cuba tiveram sua sorte selada em ritos sumários cujas deliberações
muitas vezes não passavam de dez minutos.” A que o guerrilheiro foi
“Incapaz de compreender a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto
a eliminar a tiros os adversários – mesmo os que vestiam a mesma farda
que ele –, Guevara é responsável direto pela morte de 49 jovens
inexperientes recrutas que faziam o serviço militar obrigatório na
Bolívia… Politicamente dogmático, aferrado com unhas e dentes à rigidez
do marxismo-leninismo em sua vertente mais totalitária, passa por
livre-pensador.”
Eis mais alguns fatos históricos arrepiantes narrados pela Revista sobre Che Guevara:
“Seus ex-companheiros lembram-se dele como um comandante imprudente,
irascível, rápido em ordenar execuções e mais rápido ainda em liderar
seus camaradas para a morte, em guerras sem futuro no Congo e na
Bolívia.”
“Nomeado comandante da fortaleza
La Cabaña, para onde eram levados presos políticos, Che Guevara a
converteu em campo de extermínio. Nos seis meses sob seu comando, duas
centenas de desafetos foram fuzilados, sendo que apenas uma minoria era
formada por torturadores e outros agentes violentos do regime de
Batista. A maioria era apenas gente incômoda.”
“Napoleon Vilaboa, membro do Movimento 26 de Julho e assessor de Che
em La Cabaña, conta agora ter levado ao gabinete do chefe um detido
chamado José Castaño, oficial de inteligência do Exército de Batista.
Sobre Castaño não pesava nenhuma acusação que pudesse produzir uma
sentença de morte. Fidel chegou a ligar para Che para depor a favor de
Castaño. Tarde demais. Enquanto dava voltas em torno de sua mesa e da
cadeira onde estava o militar, Che sacou a pistola 45 e o matou ali
mesmo com balaços na cabeça.”
“Em outra ocasião, Che foi procurado por uma mãe desesperada, que
implorou pela soltura do filho, um menino de 15 anos preso por pichar
muros com inscrições contra Fidel. Um soldado informou a Che que o jovem
seria fuzilado dali a alguns dias. O comandante, então, ordenou que
fosse executado imediatamente, “para que a senhora não passasse pela
angústia de uma espera mais longa”.”
“Em seu diário da campanha
em Sierra Maestra, Che antecipa o seu comportamento
em La Cabaña. Ele descreve com naturalidade como executou Eutímio
Guerra, um rebelde acusado de colaborar com os soldados de Batista:
“Acabei com o problema dando-lhe um tiro com uma pistola calibre 32 no
lado direito do crânio, com o orifício de saída no lobo temporal
direito. Ele arquejou um pouco e estava morto. Seus bens agora me
pertenciam”. Em outro momento, Che decidiu executar dois guerrilheiros
acusados de ser informantes de Batista. Ele disse: “Essa gente, como é
colaboradora da ditadura, tem de ser castigada com a morte”. Como não
havia provas contra a dupla, os outros rebeldes presentes se opuseram à
decisão de Che. Sem lhes dar ouvidos, ele executou os dois com a própria
pistola. Essa frieza e a crueldade sumiram atrás da moldura romântica
que lhe emprestaram, construída pelos mesmos ideólogos que atribuíram a
ele a frase famosa – “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura
jamás”. Frase criada pela propaganda esquerdista. “’
“O jornalista americano Jon Lee Anderson, autor da mais completa
biografia de Che, escreveu que ele era um fatalista – e esse fatalismo
aguçou-se depois que se juntou aos guerrilheiros cubanos. “Para ele, a
realidade era apenas uma questão de preto e branco. Despertava toda
manhã com a perspectiva de matar ou morrer pela causa”, afirma Anderson.
Algumas frases de Che Guevara:”Fuzilamos e seguiremos fuzilando
enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até a morte.” (Discurso
na Assembléia-Geral da ONU, em 11 de dezembro de 1964) “O ódio
intransigente ao inimigo (…) converte (o combatente) em uma efetiva,
seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim.”
(Revista cubana Tricontinental, em maio de 1967) A matéria da VEJA
termina dizendo que “Apesar de tentar exportar sua revolução, a ilha
[Cuba] tornou-se a vitrine de seu fracasso. Sem liberdade política nem
econômica, o país é um museu de prédios, carros e dirigentes decrépitos,
onde comida, combustíveis e energia são racionados.”
É incrível como os adeptos do marxismo cultural conseguiram, através
de uma propaganda enganosa, criar o mito Che Guevara, e injetar no
sangue de muitos jovens, especialmente os universitários, a mentira de
que foi um herói, quando na verdade foi um visionário frio, criminoso e
assassino como mostra a sua história.
Isto mostra muito bem quão mal anda a nossa universidade, que por
natureza deve ser o panteão da verdade, da sobriedade e da boa educação.
Ao contrário, faz de um guerrilheiro frio, assassino, um mito para a
juventude, ousando equipará-lo a Jesus Cristo. É muito cinismo!
Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br
"Não disparem. Sou Che.
Valho mais vivo do que morto." Há quarenta anos, no
dia 8 de outubro de 1967, essa frase foi gritada por um guerrilheiro
maltrapilho e sujo metido em uma grota nos confins da Bolívia.
Nunca mais foi lembrada. Seu esquecimento deve-se ao fato
de que o pedido de misericórdia, o apelo desesperado
pela própria vida e o reconhecimento sem disfarce da
derrota não combinam com a aura mitológica criada
em torno de tudo o que se refere à vida e à
morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, argentino de Rosário,
o Che, que antes, para os companheiros, era apenas "el chancho",
o porco, porque não gostava de banho e "tinha cheiro
de rim fervido".
Diogo Schelp e Duda Teixeira
Foto Antonio Nunez Jimenez/AFP
ÀS
VÉSPERAS DO GOLPE
Che em Caballete de Casas, em Cuba, em 1958: exceto na
revolução cubana, sua vida foi uma seqüência
de fracassos. Como guerrilheiro, foi derrotado no Congo
e na Bolívia
Essa é a realidade esquecida.
No mito, sempre lembrado, ecoam as palavras ditas ao tenente
boliviano Mário Terán, encarregado de sua execução,
e que parecia hesitar em apertar o gatilho: "Você vai
matar um homem". Essas, sim, servem de corolário perfeito
a um guerreiro disposto ao sacrifício em nome de ideais
que valem mais que a própria vida. Ambas as frases
foram relatadas por várias testemunhas e meticulosamente
anotadas pelo capitão Gary Prado Salmón, do
Exército boliviano, responsável pela captura
de Che. Provenientes das mesmas fontes, merecem, portanto,
idêntica credibilidade. O esquecimento de uma frase
e a perpetuação da outra resumem o sucesso da
máquina de propaganda marxista na elaboração
de seu maior e até então intocado mito. Che
tem um apelo que beira a lenda entre os jovens dos cinco continentes.
Como homem de carne e osso, com suas fraquezas, sua maníaca
necessidade de matar pessoas, sua crença inabalável
na violência política e a busca incessante da
morte gloriosa, foi um ser desprezível. "Ele era adepto
do totalitarismo até o último pêlo do
corpo", escreveu sobre ele o jornalista francês Régis
Debray, que por alguns meses conviveu com Che na Bolívia.
Por suas convicções
ideológicas, Che tem seu lugar assegurado na mesma
lata de lixo onde a história já arremessou há
tempos outros teóricos e práticos do comunismo,
como Lenin, Stalin, Trotsky, Mao e Fidel Castro. Entre a captura
e a execução de Che na Bolívia, passaram-se
24 horas. Nesse período, o governo boliviano e os americanos
da CIA que ajudaram na operação decidiram entre
si o destino de Guevara. Execução sumária?
Não para os padrões de Che. Centenas de homens
que ele fuzilou em Cuba tiveram sua sorte selada em ritos
sumários cujas deliberações muitas vezes
não passavam de dez minutos. VEJA conversou com historiadores,
biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha
e no governo cubano na tentativa de entender como o rosto
de um apologista da violência, voluntarioso e autoritário,
foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço
de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e
camisetas. Seu retrato clássico – feito pelo fotógrafo
cubano Alberto Korda em 1960 – é a fotografia
mais reproduzida de todos os tempos. O mito é particularmente
enganoso por se sustentar no avesso do que o homem foi, pensou
e realizou durante sua existência. Incapaz de compreender
a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto a eliminar
a tiros os adversários – mesmo os que vestiam
a mesma farda que ele –, Che é, paradoxalmente,
visto como um símbolo da luta pela liberdade. Guevara
é responsável direto pela morte de 49 jovens
inexperientes recrutas que faziam o serviço militar
obrigatório na Bolívia. Eles foram mobilizados
para defender a soberania de sua pátria e expulsar
os invasores cubanos, sob cujo fogo pereceram. Tendo ajudado
a estabelecer um sistema de penúria em Cuba, Che agora
é apresentado como um símbolo de justiça
social. Politicamente dogmático, aferrado com unhas
e dentes à rigidez do marxismo-leninismo em sua vertente
mais totalitária, passa por livre-pensador. O regime policialesco de Fidel
Castro não permite que aqueles que conviveram com Che
e permanecem em Cuba possam ir além da cinzenta ladainha
oficial. Por isso, apesar do rancor que pode apimentar suas
lembranças, os exilados cubanos são vozes de
maior credibilidade. O movimento que derrubou o ditador Fulgencio
Batista, em 1959, não foi uma ação de
comunistas, como pretende Fidel Castro. Boa parte da liderança
revolucionária e dos comandantes guerrilheiros tinha
por objetivo a instauração da democracia em
Cuba. Mas foi surpreendida por um golpe comunista dentro da
revolução. Acabaram presos, fuzilados ou deportados.
Desde o início, Che representou a linha dura pró-soviética,
ao lado do irmão de Fidel, Raul Castro. Na versão
mitológica, Che era dono de um talento militar excepcional.
Seus ex-companheiros, no entanto, lembram-se dele como um
comandante imprudente, irascível, rápido em
ordenar execuções e mais rápido ainda
em liderar seus camaradas para a morte, em guerras sem futuro
no Congo e na Bolívia.
The New York Times
A
"MALDIÇÃO DE SATURNO"
Com Fidel em Havana, em 1959: "Que esta revolução
não devore seus próprios filhos", dizia
Fidel. Ele fez o contrário. As últimas transmissões
de rádio de Che na Bolívia foram ignoradas
em Havana
Huber Matos, que lutou sob as ordens do argentino em Cuba,
falou a VEJA sobre o fracasso de Che como comandante: "A luta
foi difícil na primavera de 1958. A frente de comportamento
mais desastroso foi a de Che. Mas isso não o afetou,
porque era o favorito de Fidel, que nos impedia de discutir
abertamente o trabalho pífio de seu protegido como
guerrilheiro". Pouco depois do triunfo da guerrilha, ao perceber
os primeiros sinais de tirania, Huber renunciou a seu posto
no governo revolucionário e informou que voltaria a
ser professor. Preso dois dias depois, passou vinte anos na
cadeia. Vive hoje em Miami. À moda soviética,
sua imagem foi removida das fotos feitas durante a entrada
solene em Havana, em que aparecia ao lado de Fidel e Camilo
Cienfuegos, outro comandante não comunista desaparecido
em circunstâncias misteriosas nos primórdios
da revolução. Nomeado comandante da fortaleza
La Cabaña, para onde eram levados presos políticos,
Che Guevara a converteu em campo de extermínio. Nos
seis meses sob seu comando, duas centenas de desafetos foram
fuzilados, sendo que apenas uma minoria era formada por torturadores
e outros agentes violentos do regime de Batista. A maioria
era apenas gente incômoda. Napoleon Vilaboa, membro do
Movimento 26 de Julho e assessor de Che em La Cabaña,
conta agora ter levado ao gabinete do chefe um detido chamado
José Castaño, oficial de inteligência
do Exército de Batista. Sobre Castaño não
pesava nenhuma acusação que pudesse produzir
uma sentença de morte. Fidel chegou a ligar para Che
para depor a favor de Castaño. Tarde demais. Enquanto
dava voltas em torno de sua mesa e da cadeira onde estava
o militar, Che sacou a pistola 45 e o matou ali mesmo com
balaços na cabeça. Em outra ocasião,
Che foi procurado por uma mãe desesperada, que implorou
pela soltura do filho, um menino de 15 anos preso por pichar
muros com inscrições contra Fidel. Um soldado
informou a Che que o jovem seria fuzilado dali a alguns dias.
O comandante, então, ordenou que fosse executado imediatamente,
"para que a senhora não passasse pela angústia
de uma espera mais longa". Em seu diário da campanha
em Sierra Maestra, Che antecipa o seu comportamento em La
Cabaña. Ele descreve com naturalidade como executou
Eutímio Guerra, um rebelde acusado de colaborar com
os soldados de Batista: "Acabei com o problema dando-lhe um
tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio,
com o orifício de saída no lobo temporal direito.
Ele arquejou um pouco e estava morto. Seus bens agora me pertenciam".
Em outro momento, Che decidiu executar dois guerrilheiros
acusados de ser informantes de Batista. Ele disse: "Essa gente,
como é colaboradora da ditadura, tem de ser castigada
com a morte". Como não havia provas contra a dupla,
os outros rebeldes presentes se opuseram à decisão
de Che. Sem lhes dar ouvidos, ele executou os dois com a própria
pistola. Essa frieza e a crueldade sumiram atrás da
moldura romântica que lhe emprestaram, construída
pelos mesmos ideólogos que atribuíram a ele
a frase famosa – "Hay que endurecerse, pero sin perder
la ternura jamás". Frase criada pela propaganda
esquerdista. Como o jovem aventureiro que
excursionou de motocicleta pelas Américas se tornou
um assassino cruel e maníaco? O jornalista americano
Jon Lee Anderson, autor da mais completa biografia de Che,
escreveu que ele era um fatalista – e esse fatalismo
aguçou-se depois que se juntou aos guerrilheiros cubanos.
"Para ele, a realidade era apenas uma questão de preto
e branco. Despertava toda manhã com a perspectiva de
matar ou morrer pela causa", afirma Anderson. Ernesto Guevara Lynch de la
Serna nasceu em 14 de maio de 1928, em uma família
de esquerdistas ricos na Argentina. Sofreu de asma a vida
inteira. Antes de se formar em medicina, profissão
que nunca exerceu de fato, viajou pela América do Sul
durante oito meses. Depois de terminada a faculdade, saiu
da Argentina para nunca mais voltar. Encontrou-se com Fidel
Castro no México, em 1955, onde aprendeu técnicas
de guerrilha. No ano seguinte, participou do desembarque em
Cuba do pequeno contingente de revolucionários. Depois
de dois anos de combates na Sierra Maestra, Fidel tomou o
poder em Havana. Che ocupou-se primeiro dos fuzilamentos e,
depois, da economia, assunto do qual nada entendia. José
Illan, que foi vice-ministro de Finanças antes de fugir
de Cuba, contou a VEJA que o argentino "desprezava os técnicos
e tratava a nós, os jovens cubanos, com prepotência".
No comando do Banco Central e depois do Ministério
da Indústria, Che começou a nacionalizar a indústria
e foi o principal defensor do controle estatal das fábricas.
"Che era um utópico que acreditava que as coisas podiam
ser feitas usando-se apenas a força de vontade", diz
o historiador Pedro Corzo, do Instituto da Memória
Histórica Cubana, em Miami. Como resultado de sua "força
de vontade", a produção agrícola caiu
pela metade e a indústria açucareira, o principal
produto de exportação de Cuba, entrou em colapso.
Em 1963, em estado de penúria, a ilha passou a viver
da mesada enviada pela então União Soviética.
AFP
CASADO
COM SI PRÓPRIO
Che com sua segunda mulher, Aleida March, no dia de seu
casamento, em Havana, em 1959. Elas não podiam
competir com o "chamado da aventura"
Não havia mais o que Che
pudesse fazer em Cuba. Era ministro da Indústria, mas
divergia de Fidel em questões relativas ao desenvolvimento
econômico. De maneira simplista, ele acreditava que
incentivos morais tinham maiores probabilidades de estimular
o trabalho. Che também se tornou crítico feroz
da União Soviética, da qual o regime cubano
dependia para sobreviver. Não por discordar do Kremlin,
mas porque julgava os soviéticos tímidos na
promoção da revolução armada no
Terceiro Mundo. Para se livrar dele, Fidel o mandou como delegado
à Assembléia-Geral das Nações
Unidas em 1964. No ano seguinte, Che foi secretamente combater
no Congo, à frente de soldados cubanos. Ali, paralisado
por incompreensíveis rivalidades tribais, derrotado
no campo de batalha e abatido pela diarréia, Che propôs
a seus comandados lutar até a morte. Mas foi demovido
do propósito pela soldadesca, que não aceitou
o sacrifício numa guerra sem sentido.
Daí em diante o argentino
tornou-se uma figura patética. Em Havana, Fidel divulgara
a carta em que ele renunciava à cidadania cubana e
anunciava sua disposição de levar a guerra revolucionária
a outras plagas. Pego de surpresa pela leitura prematura do
documento, Che ficou no limbo, sem ter para onde voltar. "Sua
vida foi uma seqüência de fracassos", disse a VEJA
o historiador cubano Jaime Suchlicki, da Universidade de Miami.
"Como médico, nunca exerceu a profissão. Como
ministro e embaixador, não conseguiu o que queria.
Como guerrilheiro, foi eficiente apenas em matar por causas
sem futuro." Na falta de opções, Che escolheu
a Bolívia para sua nova aventura guerrilheira. Ele
lutaria em território montanhoso e inóspito,
imerso na selva, sem falar o dialeto indígena dos camponeses
bolivianos. O plano original era adentrar, pela fronteira,
a província argentina de Salta. Mas um contigente exploratório
foi aniquilado rapidamente pelo exército daquele país.
A missão boliviana era, de todos os pontos de vista,
suicida. Ainda assim, Fidel a apoiou, a ponto de designar
alguns soldados de seu exército para o destacamento
guerrilheiro. O ditador cubano também equipou e financiou
a expedição, com a qual manteve contato até
que seu fracasso se tornou evidente.
Além da falta de apoio
do povo boliviano, que tratou os cubanos chefiados por Che
como um bando de salteadores, a expedição fracassou
também pela traição do Partido Comunista
Boliviano. VEJA perguntou a um de seus mais altos dirigentes
dos anos 60, Juan Coronel Quiroga: "O PCB traiu Che Guevara?".
Resposta de Quiroga: "Sim". A explicação? "Nosso
partido era afinado com Moscou, onde a estratégia de
abrir focos de guerrilha como a de Che estava há muito
desacreditada." Quiroga era amigo pessoal do então
ministro da Defesa da Bolívia e conseguiu que as mãos
do cadáver de Che Guevara fossem decepadas, mantidas
em formol e entregues a ele. "Por anos guardei as mãos
de Che debaixo da minha cama em um grande pote de vidro. Um
dia meu filho deparou com aquilo e quase entrou em pânico",
conta Quiroga. Anos mais tarde, coube a Quiroga a missão
de entregar o lúgubre pote com as mãos de Guevara
à Embaixada de Cuba em Moscou.
A morte de Che foi central para
a estabilização do regime cubano nos anos 60,
de acordo com o polonês naturalizado americano Tad Szulc,
na sua celebrada biografia de Fidel. O fim do guerrilheiro
argentino ajudou o ditador a pacificar suas relações
com Moscou e ainda lhe forneceu um ícone de aceitação
mais ampla que a própria revolução. O
esforço de construção do mito foi facilitado
por vários fatores. Quando morreu, Che era uma celebridade
internacional. Boa-pinta, saía ótimo nas fotografias.
A foto do pôster que enfeita quartos de milhões
de jovens foi tirada num funeral em Havana, ao qual compareceram
o filósofo francês Jean-Paul Sartre – que
exaltou Che como "o mais completo ser humano de nossa era"
– e sua mulher, a escritora Simone de Beauvoir. A foto
de 1960 só ganhou divulgação mundial
sete anos depois, nas páginas da revista Paris Match.
Dois meses mais tarde, Che foi morto na selva boliviana e
Fidel fez um comício à frente de uma enorme
reprodução da imagem, que preenchia toda a fachada
de um prédio público cubano. Nascia o pôster.
Três fatos ajudaram a
consolidar o mito. O primeiro foi a morte prematura de Che,
que eternizou sua imagem jovem. Aos 39 anos, ele estava longe
de ser um adolescente quando foi abatido, mas a pinta de galã
lhe garantia um aspecto juvenil. O fim precoce também
o salvou de ser associado à agonia do comunismo. A
decadência física e política de Fidel
Castro, desmoralizado pela responsabilidade no isolamento
e no atraso econômico que afligem o povo cubano, dá
uma idéia do que poderia ter acontecido com Che, que
era apenas dois anos mais jovem que o ditador.
Reuters
PARA
IMPRESSIONAR "IKE" Guevara e Fidel
em jogo-treino de golfe para disputar uma partida, que
nunca houve, com Eisenhower em Washington: "Fidel ganhou,
mas Che o deixou ganhar"
O segundo fato foi a ajuda involuntária
de seus algozes. Preocupados em reunir provas convincentes
de que o guerrilheiro célebre estava morto, os militares
bolivianos mandaram lavar o corpo e aparar e pentear sua barba
e seu cabelo. Também resolveram trocar sua roupa imunda.
Tudo isso para poder tirar fotos em que ele fosse facilmente
identificado. O resultado é um retrato com espantosa
semelhança com as pinturas barrocas do Cristo morto
de expressão beatificada. A terceira contribuição
recebida pelos esquerdistas na construção do
mito veio do contexto histórico. Che morreu às
vésperas dos grandes protestos em defesa dos direitos
civis, da agitação dos movimentos estudantis
e da revolução de costumes da contracultura
– turbulências que marcaram o ano de 1968. Era
um personagem perfeito para ser símbolo da juventude
de então, que se definia pela "determinação
exacerbada e narcisista de conseguir tudo aqui e agora", como
escreveu o mexicano Jorge Castañeda, em sua biografia
de Che. A história, no entanto, mostra que o homem
era muito diferente do mito. Mas quem resiste? Neste mês,
nos Estados Unidos, o cubano Gustavo Villoldo, chefe da equipe
da CIA que participou da captura do guerrilheiro, vai leiloar
uma mecha de cabelo de Che.
Se houve um ganhador da Guerra
Fria, foi Che Guevara. Ele morreu e foi santificado antes
que seu narcisismo suicida e os crimes que decorreram dele
pudessem ser julgados com distanciamento, sob uma luz mais
civilizada, que faria aflorar sua brutalidade com nitidez.
Pobre Fidel Castro. Enquanto Che foi cristalizado na foto
hipnótica de Alberto Korda, ele próprio, o supremo
comandante, aparece cada dia mais roto, macilento, caduco,
enquanto se desmancha lentamente dentro de um ridículo
agasalho esportivo diante das lentes das câmeras da
televisão estatal cubana. O método de luta política
que Guevara adotou já era errado em seu tempo. No rastro
de suas concepções de revolução
pela revolução, a América Latina foi
lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição
ainda não inteiramente avaliada e, pior, não
totalmente assentada. O mito em torno de Che constitui-se
numa muralha que impediu até agora a correta observação
de alguns dos mais desastrosos eventos da história
contemporânea das Américas. Está passando
da hora de essa muralha cair.
A
FRASE MAIS FAMOSA ATRIBUÍDA A GUEVARA É...
"Há que endurecer-se,mas
sem jamaisperder a ternura."
...OUTRAS
MENOS CONHECIDAS REVELAM SUA REAL PERSONALIDADE:
"Estou
na selva cubana, vivo e sedento de sangue." Carta à esposa, Hilda Gadea, em janeiro
de 1957
Keystone/Getty Images
"Fuzilamos
e seguiremos fuzilando enquanto for necessário.
Nossa luta é uma luta até a morte." Discurso na Assembléia-Geral da ONU,
em 11 de dezembro de 1964
"O
ódio intransigente ao inimigo (...) converte
(o combatente)
em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar.
Nossos soldados têm de ser assim." Revista cubana Tricontinental, em maio
de 1967
O mundo tomou outro rumo
CUBA Apesar de tentar exportar sua revolução,
a ilha tornou-se a vitrine de seu fracasso. Sem
liberdade política nem econômica, o
país é um museu de prédios,
carros e dirigentes decrépitos, onde comida,
combustíveis e energia são racionados.
BOLÍVIA
O foco guerrilheiro de Guevara foi derrotado pela
população pobre da Bolívia,
que negou ajuda e ainda delatou o grupo.
CONGO
Guevara e um contingente de cubanos lutaram ao lado
do chefe tribal Laurent Kabila contra o coronel
Mobutu. Em 1997 Kabila finalmente derrubou Mobuto,
mas foi assassinado em 2001. Em seu curto governo,
3 milhões de pessoas foram mortas em guerras
tribais.
CHINA
A ideologia de Mao Tsé-tung, que Guevara citava
como modelo de comunismo, foi sepultada pelos chineses.
COMUNISMO Depois da queda do Muro de Berlim, a ideologia
será lembrada sobretudo como a responsável
pela morte de 100 milhões de pessoas. VIETNÃ Na frase famosa, Guevara propôs criar "dois,
três, muitos Vietnãs". Acertou. A globalização
da economia está criando Vietnãs pelo
mundo – países adeptos da economia de mercado,
com rápido crescimento econômico e aliados
dos Estados Unidos.
"A ordem de execução
veio pelo rádio"
Fotos divulgação
ção
O
ÚLTIMO DIA DO GUERRILHEIRO Maltrapilho
e sujo, Guevara posa com os soldados que o capturaram
na vila de La Higuera, onde seria morto. A seu lado,
assinalado, está o agente da CIA Felix Rodríguez.
À direita, Felix hoje, em Miami
Felix Rodríguez
foi uma das últimas pessoas a conversar com Che
Guevara. Mais do que isso, foi ele quem recebeu e transmitiu
a ordem para que o guerrilheiro
fosse executado. Cubano exilado nos Estados Unidos,
ele era o operador de rádio enviado à
Bolívia pela CIA para auxiliar na caçada
e, também, para ajudar a identificar
Guevara. Veterano da fracassada invasão da Baía
dos Porcos, em 1961, Rodríguez vive hoje em Miami,
aos 66 anos. Ele falou ao repórter Duda Teixeira.
COMO CHEGOU
A ORDEM PARA MATAR CHE? As instruções que recebi nos Estados
Unidos eram para poupar sua vida. A CIA sabia da divergência
de idéias entre Che e Fidel e acreditava que,
a longo prazo, ele poderia cooperar com a agência.
A ordem para sua execução veio por rádio,
de uma alta autoridade boliviana. Era uma mensagem em
código: "500, 600". O primeiro número,
500, significava Guevara. O segundo, que ele deveria
ser morto. Tentei em vão convencer os militares
bolivianos a permitir que ele fosse levado para ser
interrogado no Panamá. Eles negaram meu pedido
e me deram um prazo. Eu deveria entregar o corpo de
Guevara até as 2 horas da tarde. Perto das 11h30,
uma senhora aproximou-se de mim e perguntou quando iríamos
matá-lo, pois ouvira no rádio que Che
havia morrido em combate. Naquele momento compreendi
que a decisão de executá-lo era irrevogável.
COMO FOI
SUA ÚLTIMA CONVERSA COM ELE? Fui até o local de seu cativeiro e disse
a ele que lamentava, mas eram ordens superiores. Che
ficou branco como um papel. "É melhor assim.
Eu nunca deveria ter sido capturado vivo", falou. Tirou
o cachimbo da boca e me pediu para que o desse a um
dos soldados. Ofereci-me para transmitir mensagens à
sua família. "Diga a Fidel que esse fracasso
não significa o fim da revolução,
que logo ela triunfará em alguma parte da América
Latina", ele falou em tom sarcástico. Aí
lembrou da esposa. "Diga a minha senhora que se case
outra vez e trate de ser feliz." Foram suas últimas
palavras. Apertou a minha mão e me deu um abraço,
como se pensasse que eu seria o carrasco. Saí
dali e avisei a um tenente armado com uma carabina M2,
automática, que a ordem já tinha sido
dada. Recomendei a ele que atirasse da barba para baixo,
porque se supunha que Che havia morrido em combate.
Eram 13h10 quando escutei o barulho de tiros. Che Guevara
tinha sido morto.
COMO FOI
O SEU PRIMEIRO CONTATO COM CHE GUEVARA? Cheguei a La Higuera de helicóptero em 9
de outubro, um dia depois da captura de Che Guevara.
Eu o encontrei com os pés e as mãos amarrados,
ao lado dos corpos de dois cubanos. Sangrava de uma
ferida na perna. Era um homem totalmente arrasado. Parecia
um mendigo.
COMO FORAM
SUAS CONVERSAS COM CHE? Nós nos tratamos com respeito. Eu o chamava
de comandante. Falamos de Cuba e de outras coisas, mas
ele permanecia calado quando as perguntas eram de interesse
estratégico. Houve momentos em que não
consegui prestar atenção ao que ele dizia.
Ao olhar aquele homem derrotado, vinha-me à mente
sua imagem no passado, sempre altiva e arrogante.
COMO FORAM
AS RELAÇÕES DE CHE COM A POPULAÇÃO
NA BOLÍVIA? Para sobreviver, é essencial que uma força
guerrilheira conte com o apoio da população
local. A aventura de Che na Bolívia foi um caso
único em que uma guerrilha não conseguiu
recrutar um único morador da área onde
atuou. Só um agricultor ganhou a confiança
dos guerrilheiros, e mesmo esse acabou por passar informações
que permitiram ao Exército armar uma emboscada.
Os poucos bolivianos que participaram da guerrilha eram
dissidentes do Partido Comunista. Nenhum camponês.
POR QUE
O SENHOR FOI ENVIADO À BOLÍVIA? O Exército boliviano estava totalmente despreparado
para enfrentar uma guerrilha. A maior parte dos soldados
trabalhava na construção de estradas e
provavelmente jamais dera um tiro de fuzil. Nos primeiros
embates, os guerrilheiros aprisionavam os soldados,
tiravam suas roupas e os soltavam. Foi então
que o governo boliviano pediu ajuda aos Estados Unidos.
Limparam Che para a foto
No dia de sua morte, amarrado
ao esqui de um helicóptero militar, Che Guevara
foi levado do local da execução para um
vilarejo chamado Vallegrande. A brasileira Helle Alves,
repórter, e o fotógrafo Antonio Moura,
então trabalhando para o Diário da
Noite, de São Paulo, viram a chegada do corpo,
que foi levado para a lavanderia do hospital local (acima).
Ali, Moura foi o único jornalista a fotografar
o corpo de Guevara ainda sujo, vestido de trapos e calçado
com o que sobrou de uma botina artesanal de couro (abaixo).
Moura conseguiu fotografar o corpo antes da limpeza
e da arrumação. "Che usava um calço
em um dos calcanhares, provavelmente para corrigir uma
diferença de tamanho entre uma perna e outra",
lembra Helle. Ela contou pelo menos dez marcas de tiro
no corpo do argentino. "Os moradores tinham raiva dele
e invadiram a lavanderia, mas, quando viram o corpo,
passaram a dizer que ele parecia Jesus Cristo." Começara
o mito.