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domingo, 7 de abril de 2013

A FÉ É O MOTOR DA HISTÓRIA



Hoje é o domingo da oitava da Páscoa, completando os oito dias da grande Festa da Ressurreição do Senhor.  É o domingo da FÉ, tema que nos inspira uma importante reflexão sobre o seu papel ao longo dos séculos. Sempre existiram pessoas descrentes, mas nunca houve um povo ateu na história, o que nos demonstra a fundamentação religiosa na construção da memória histórica coletiva.  Marx dizia que a história é movida pela luta de classes e assim tem sido interpretada pelos historiadores. Na verdade é a superestrutura que determina a história, sendo a religião um dos seus elementos essenciais. A história até agora tem sido movida pela Fé, a fonte inspiradora das relações humanas e das principais realizações da humanidade.
Que grandes obras foram produzidas pela mentalidade materialista ateia? Nenhuma. Aliás, o esquecimento de Deus, o materialismo e o egoísmo estão na origem de todos os conflitos, de todas as guerras.  Ao contrário, sem a Fé provavelmente não existiriam as grandiosas obras como as Catedrais, as Universidades, as escolas, os grandes santos, as grandes obras de arte, nem as pirâmides do Egito. O próprio progresso científico se desenvolveu a partir de uma Filosofia cristã que considerava o mundo racional e, portanto possível de ser conhecido nas suas leis físicas através do uso da razão.
E o Cristianismo é o ápice do processo histórico e a realização mais perfeita da Fé religiosa, pois está fundamentado na Revelação do próprio Deus através do seu único Filho, Jesus Cristo, que veio ao mundo e com sua Paixão e Morte resgatou a humanidade. O historiador Jônatas Serrano afirmou que o Nascimento de Cristo é de fato o divisor de águas da história, o fato mais importante, que modificou os rumos da vida humana sobre a Terra.  E ao longo destes seus dois mil anos de história o Cristianismo tem sido o elemento determinante na construção da cultura Ocidental em todos os seus aspectos: econômicos, sociais e políticos.
A Fé cristã convenceu o Império Romano, que de pagão e perseguidor dos cristãos durante mais de 300 anos adotou o Cristianismo como religião oficial a partir do ano 380, com o imperador Teodósio. Converteu os povos germânicos destruidores do Império Romano e guiou o processo histórico da Idade Média, onde a sociedade era governada pelos princípios do Cristianismo. O espírito de fé cristalizou as relações humanas, aperfeiçoando a família, a forma de governar, as relações econômicas guiadas por regras mais justas e construiu lentamente todos os valores que fundamentam a nossa sociedade.  A Fé era um patrimônio daquela sociedade e a Igreja e o Estado estavam unidos, cuidando do espiritual e do temporal, respectivamente, mas juntos para atingir o mesmo fim, a salvação das almas. É verdade que existiam conflitos, guerras, disputas pelo poder, interferência excessiva do poder temporal na Igreja, corrupção de membros da hierarquia da Igreja, mas tudo isso exagerado pela historiografia marxista, que inspirada nas fontes protestantes desde a época da Reforma e nas fontes iluministas, ambas detratoras da Igreja Católica, pretendeu ridicularizar e desprestigiar o Catolicismo. E vale destacar que o ser humano é contingente, imperfeito, muitas vezes egoísta e sujeito a cometer erros.
Essa mesma Fé motivou a expansão marítima europeia. Portugal e Espanha navegaram para descobrir novas terras, chegar ao Oriente, ainda muito influenciados pelo espírito cruzadista, fruto das Guerras da Reconquista, que duraram oitocentos anos para expulsar os muçulmanos do seu território. Pretenderam expandir o Cristianismo e conter o avanço Islâmico, que constantemente ameaçava invadir a Europa.  O que motivou Colombo não foi o ouro, mas o desejo sincero da conversão dos povos à Fé. E toda a legislação dos reinos europeus no tocante ao processo de colonização da América, o incentivo às missões e o heroico trabalho dos jesuítas e de tantas outras ordens religiosas no Novo Continente demonstram a centralidade da ideia da expansão cristã, da importância da Fé como elemento motivador do processo citado.
Diz o historiador Hilário Franco Júnior que muito do que temos na nossa sociedade contemporânea é fruto da Idade Média cristã. São as permanências históricas, os resquícios de valores do Cristianismo que ainda de alguma forma norteiam a nossa civilização. Por outro lado, a Fé tem sido o alvo dos ataques das ideologias revolucionárias desde o Iluminismo, ou melhor, desde a Reforma e o Renascimento. A mentalidade racionalista e humanista, colocando a razão como única fonte do conhecimento e o homem como centro e medida de todas as coisas iniciou o processo de decadência da pureza da Fé.  A Revolução Francesa, a difusão das ideologias liberais e das Filosofias agnósticas, ateias, relativistas e materialistas dos séculos XIX e XX acentuaram o processo da autossuficiência do ser humano, da crença no progresso, no cientificismo e descristianização e perda da Fé.  No século XX Capitalismo e comunismo se encontraram no que diz respeito à ideia da construção de um paraíso sem Deus. A visão utilitarista, imediatista, relativista e hedonista passou a ser determinante como sentido da vida, ou vida sem sentido, uma vez que os resultados de tal mentalidade produziram uma crise civilizacional sem precedentes, que afeta todos os aspectos da vida humana e  deteriora as relações sociais.
Nestas circunstâncias a centralidade da Fé é a proposta mais viável para reverter a situação de caos social e parece que de certa forma a sociedade vem percebendo a necessidade de resgatar os valores tradicionais, derivados da Fé. Quando se chega ao fundo do poço não há outra opção que não a busca de saídas. Há um lento retorno das pessoas para a prática da Religião, embora muitos estejam perdidos, desorientados, buscando uma espiritualidade que atenda os seus anseios imediatos, sem muitos critérios para a busca da verdade. A Fé é o caminho fundamental para a realização do ser humano como pessoa, da construção da felicidade e da paz social.
JOSÉ ANTÔNIO DE FARIA

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Marxismo: uma ideologia religiosa



"Como em toda seita, no marxismo, a correção lógica, a rigidez filosófica ou a comprovação dos dados oferecidos são simplesmente dispensáveis.

Não é possível negar a expansão que as ideias marxistas tiveram por todo o mundo. Além dos países que viveram ou ainda vivem sob governos explicitamente comunistas, há tantos outros que, sob bandeiras aparentemente menos extremas, como a da social-democracia, do trabalhismo ou até de democratas, continuam avançando a ideologia de Karl Marx a conquistas cada vez mais amplas.
Como, porém, uma ideologia fundamentada em textos de um pensador medíocre, que errou praticamente todas suas previsões, que cometeu fraude intelectual na apresentação de vários dados que corroboravam suas teses e que criou uma filosofia que é, no máximo, um arremedo materialista do idealismo hegeliano, pôde obter tamanha inserção em boa parte das cabeças deste mundo?
A resposta dada pelo escritor Heraldo Barbuy, em seu livro ‘Marxismo e Religião’ é direta: o marxismo se mantém cada vez mais forte simplesmente porque possui aspectos maiores do que ideológicos; é, na verdade, uma verdadeira seita religiosa. Mesmo com os erros de previsão, mesmo com as análises eivadas de incongruências, o marxismo permanece porque o cerne de sua força não está em suas ideias, mas em seu espírito - um espírito de seita.
Como em toda seita, no marxismo, a correção lógica, a rigidez filosófica ou a comprovação dos dados oferecidos são simplesmente dispensáveis. Se houverem, servirão para corroborar suas teses. Se não existirem, mais importante é a manutenção do fervor religioso e do apego emocional àquilo que é mais do que uma corrente de pensamento, mas uma verdadeira expressão religiosa.
Considerando que Marx, segundo bem demonstra Richard Wurmbrand, no livro ‘Era Karl Marx Satanista?’, possui todas as características e ideias de um, no mínimo, apreciador do demônio e, considerando também, que o diabo é um perpétuo imitador das coisas divinas, não é difícil imaginar como o marxismo desenvolveu seus aspectos miméticos, os quais estão contidos nos fundamentos, na cultura e nas ideias que professa.
Há também no marxismo, como é comum nas seitas, os seus profetas. No caso da ideologia fundamental do esquerdismo mundial, estes são Marx e Friedrich Engels – este amigo e provedor daquele. Eles, como os profetas de qualquer religião, transmitiram suas visões sobre os tempos futuros, apontaram as mazelas do presente e, de alguma maneira, prognosticaram sobre os últimos dias. Se erraram quase tudo que disseram, o que importa? Pelo contrário, o criador da teoria da Dissonância Cognitiva, Leon Festinger, já demonstrara como as seitas se fortalecem exatamente sobre seus erros mais importantes.
Outra imitação diabólica contida no marxismo, e que o caracteriza ainda mais como uma cópia religiosa, está na sua promessa de um paraíso vindouro. À semelhança do céu cristão, o futuro marxista é o tempo quando os males cessarão, a harmonia prevalecerá e os aspectos opressores do tempo presente não mais terão força. Até um certo saudosismo de uma Era de Ouro, nesse caso em uma interpretação tosca do paraíso adâmico, existe nos escritos de Marx, Engels e outros de seus apóstolos. Para eles, também com alguma semelhança com o Reino celeste de Cristo, o futuro paradisíaco comunista será um tempo além da história, quando os aspectos que afetam o presente não mais terão efeito.
Além de possuir sua própria Bíblia - no caso, o livro ‘O Capital’, do próprio Marx, o marxismo possui também o seu diabo. Enquanto que, para o cristão, o diabo representa aquele que age com o intuito principal de afastar o homem da comunhão e compreensão da verdade divina, no marxismo é o capitalismo e seus burgueses (como Lúcifer e os demônios), aqueles que afastam o homem da verdade. Da mesma maneira que o diabo obscurece o entendimento do homem, para que não perceba sua condição de pecador necessitado de redenção e cura, o proletariado oprimido é alienado pelo capitalista que, por meio de seus métodos, impede que ele perceba o seu estado de alienação e busque a redenção por meio da consciência de sua posição e pela luta contra essa classe opressora.
A imitação parece que foi tão ampla que inclusive as falhas da cristandade se repetem no seio do marxismo. Basta ver como ele progrediu dividindo-se em novas seitas, variações, partidos e dissensões que, a despeito de cindirem, de alguma maneira, a homogeneidade ideológica, mantiveram um núcleo de fé inabalável.
Por isso, torna-se tão difícil convencer um marxista que a ideologia que ele professa é uma fraude. Por mais que se apresente para ele que, por exemplo, previsões como a pauperização ininterrupta do proletariado e o colapso do capitalismo não ocorreram de forma alguma (pelo contrário, os trabalhadores vivem em condições cada vez melhores e o capitalismo apenas experimentou um fortalecimento desde os tempos daqueles dois pensadores alemães), isso não afetará em nada sua crença.
Como escreve o professor Barbuy, "o marxismo não era ciência, e sim religião; indiferente aos fatos que o contradizem, progrediu como fé". Assim, não resta nada mais senão combatê-lo como heresia, não como ideia.

Fabio Blanco é advogado e teólogo.

terça-feira, 17 de abril de 2012

O DISCURSO DO ÓDIO E O GENOCÍDIO ARMÊNIO.



Meu bom e velho amigo Luís Carlos Bresser escreveu na Folha de
São Paulo artigo em que tece considerações sobre a  decisão da
França de proibir a negação de existência de um genocídio dos
armênios pelos turcos, algo que, no passado, a França fizera
também com o Holocausto, visto que o reconhecimento do
genocídio judeu foi seguido de legislação proibitiva de revisão
histórica e de punição para os que não o reconhecessem.
Alguns anos atrás, examinando a tese de doutoramento de
Samantha Pflug Meyer (Discurso do Ódio, PUC-SP), em que
analisava a conformação de legislações inibidoras de pesquisas
históricas e manifestações públicas, tendo eu arguido a candidata
sobre se o reconhecimento de um fato deveria ser elemento
suficiente para que houvesse vedação a pesquisas sobre o mesmo,
pois que o fato histórico permite sempre novos estudos, que quase
sempre terminam fortalecendo seu reconhecimento. A pesquisa não
pode ser inibida nunca. A examinanda concordou com  a
observação e na edição de seu livro fez questão de  realçar este
aspecto.
Tenho para mim que, na primeira metade do século passado, os
dois mais clamorosos casos de genocídio político foram o dos
armênios pelos turcos e dos judeus por Hitler.  Não há como negá-
los. Ficarão como uma mácula na história da humanidade.
O que me parece, sem a necessidade que o caro amigo Bresser teve
de atacar a França, que, como todas as nações teve  e tem seus

Análise do Discurso Fundante de Varnhagen, no Brasil Império




Antes de adentrarmos a análise do discurso fundante de Varnhagen propriamente dito, é necessário deixar bem claro aqui neste artigo, que a minha análise partirá do olhar feito por "José Carlos Reis", em "As Identidades do Brasil de Varnhagen a FHC". Não tomo a obra de Reis como referencial determinante, nem tão pouco como uma cópia a ser seguida em minha análise sobre o discurso fundante, mas como uma proposta historiográfica que foi discutida em sala deaula, e que aguça a sensibilidade do leitorsobre o contexto da escrita de Varnhagen e a sua configuração de um projeto de nacionalidade e identidade para o Brasil no século XIX.
E é justamente esta inquietação que parte da minha leitura, que me leva a analisar a originalidade do discurso fundante, os interesses e críticas que o mesmo sofre no decorrer do século XIX e XX, e que ainda hoje é objeto de pesquisa para historiadores(as). Dentro desta perspectiva, José Carlos Reis diz o seguinte:
"Francisco Adolfo de Varnhagen(1816 – 78) é considerado o Heródoto brasileiro, portanto o fundador da história do Brasil, mesmo se antes dele entre outros, Pero de Magalhães Gândavo, Frei Vicente do Salvador, Sebastião da Rocha Pita, Robert Southy escreveram, respectivamente,(...) Southey disputa comVarnhagen, sem nunca ter estado no Brasil, aquele título historiográfico. Ele pintou em sua História do Brasil um quadro sombrio quanto às possibilidades futuras da colonização comercial portuguesa no Brasil: degredação dos costumes, da religião e da moral, causada pela escravidão e pela falta de agricultura – miséria, fome, turbulências, crimes, doenças... ."( REIS, 2000, P. 23)
Esta citação retirada da parte 1, O "Descobrimento do Brasil", é altamente pertinente para a análise, pois "José Carlos Reis" cita Varnhagen como Heródoto do Brasil, mesmo reconhecendo que antes dele existiam escritores respectivos. Mas o que a torna digno de ser chamado de Heródoto Brasileiro? Ora, se "Southey" mesmo sem nunca ter estado no Brasil, vê a colonização do Brasil como uma degeneração dos costumes, da religião e da moral, portuguesa. Varnhagen faz o caminho oposto em suas análises, ele percebe o Brasil como uma obra divina e ilumina por Portugal, contendo um grande futuro pela frente, onde a elite nacional branca católica, encabeçada pela casa de Bragança, garantirá os conceitos de "progresso", "civilização" e "evolução" do Brasil, conceitos altamente influentes no imaginário do século XIX, o século dos nacionalismos europeus.
Varnhagen lança mão nesta perspectiva do início do século XIX, á concepção e idéia de "identidade nacional brasileira", daí a origem do discurso fundante. A obra, "História Geral do Brasil(1854 – 57)", é a sua principal síntese de descrição em relação ao Brasil, e o seu projeto nacional.Descreverei mais detalhadamente a obra, "História Geral do Brasil", na parte final do artigo, pois agora me prenderei a um ponto que acho central, o lugar social e as influências teóricas do contexto de Varnhagen que nos ajudaram a entender melhor o seu pensamento. Pois como nos chama a atenção Michel de Certeau, toda "representação" do passado, seja ela qual for, não parte de um "não lugar social e temporal" , muito pelo contrário, toda representação parte de um "lugar social e temporal" carregado de interesses, e influências. Na sua "Escrita da História", Certeau aponta que:
"De toda maneira, a pesquisa está circunscrita pelo lugar que define uma conexão do possível e do impossível. Encarando-a apenas como um "dizer", acabar-se-ia por reintroduzir na história a lenda, quer dizer, a substituição de um não-lugar ou de um lugar imaginário pela articulação do discurso com um lugar social, Pelo contrário, a história se define inteira por uma relação da linguagem com o corpo (social) e, portanto, também pela sua relação com os limites que o corpo impõe, seja à maneira do lugar particular de onde se fala, seja à maneira do objeto outro (passado, morto) do qual se fala." ( CERTEAU, 1982, p. 68 – 69)
A partir da pergunta que nos historiadores(as) formulamos sobre o passado, com as influências, interesses e discursos do nosso contexto, é que nos atrevemos a fabricar "história", sempre na minha concepção entendida como representação do real.É por isto que insisto no aprofundamento analítico do contexto social de Varnhagen, para que não caiamos na ingenuidade de cometermos "anacronismos" que distorcem a análise historiográfica comprometida em perceber as especificidades temporais e sociais que configuram qualquer contexto. Esses destaques de José Carlos Reis reforçam o pensamento de que:
"... A influência alemã sobre o seu pensamento deve ser forte também em virtude de sua origem paterna. Ele estará bem adaptado á produção de sua época. Não só estava atualizado com o que se fazia na Europa, como foi um dos pioneiros da pesquisa arquivística e do método crítico que o século XIX redescobriu e aprimorou. Tanto quanto Ranke, Varnhagen é um historiador típico do século XIX. (Canabrava, 1971 Odália 1979)"(REIS, 2000, p. 24)
Fiz questão de expor esta citação acima para ratificar o peso do lugar social na produção de Varnhagen, e sobre a sua concepção histórica em relação ao Brasil do século XIX. Filho de um oficial engenheiro metalúrgico alemão e uma portuguesa, Varnhagen tem em sua formação na Europa, contato com o "método crítico e erudito" de "Leopold Von Ranke", que tem como objetivo formular a "realidade histórica e científica", separada da filosofia da história de Hegel, queespecula através da metafísica o saber histórico."AAlemanha produziu a filosofia da historia e seu antídoto: Hegel e Ranke são, respectivamente, os maiores representantes da filosofia da história e da história científica"(REIS, 1999. P. 15). Tal método erudito rankiano que visa dar sustentabilidade a história como ciência, ainda hoje, como cita o próprio José Carlos Reis é confundido com o "positivismo" que cresce na França, após a guerra (Franco – Prussiana) em 1870, e principalmente a partir de 1876, com a fundação da "Révue Historique", que influencia pesquisadores franceses como Monad, Lavisse e Seignobos por exemplo.
Tais positivistas carregam explicitamente o espírito iluminista em direção a moral, igualdade e fraternidade universal em suas concepções. Tal confusão, ainda segundo Reis, em relação a método "erudito" e "positivismo", se deve por conta das grandes críticas feitas pelos "annales" com "Febre" e "Bloc", historiadores com grandes espírito patriota francês, que chamam de positivista os historiadores vencidos de 1870, que passam a ser associados, inclusive ainda hoje, ao método crítico e científico proposto por Ranke. "Porém, herdeiros desse tema, os pensadoresda Alemanha romântica, antes de o retransmitir a nossos historiadores seus discípulos, o ornamentaram, por sua vez, com os prestígios de muitas seduções ideológicas novas."( BLOCH, 2001, p. 57)
Delimitar o método erudito rankiano é importante aqui no artigo para podermos entender o porque e como se sustenta o discurso fundante de Varnhagen e quais as suas resonâncias no campo no social e administrativo do Brasil Império. Desde a década de 30 do século XIX, o IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), já lançará mão da concepção de uma história do Brasil a ser feita. Em 1845 o prêmio ganho por "Karl Philipp VonMartins", como sua monografia, "como se deve escrever a história do Brasil", mas o próprio Von Martins não se propôs a dar continuidade aos alicerces lançados por ele como o do, "mito da democracia racial brasileira", que lhe deu o prêmio do concurso lançado pelo IHGB em 1840. Sinteticamente, o que Reis quer dizer é que:
"...Varnhagen tomará para si esta tarefa e se tornara o primeiro grande "inventor do Brasil". As sínteses anteriores sobre o Brasil foram válidas em sua época e continuavam e continuaram ainda válidas. Mas a grande síntese do Brasil do século XIX será a de Varnhagen." (REIS, 2000, P. 28)
Atualizado com a produção teórica de sua época, seja na busca arquivística, organização, catalogação e descrição narrativa dos documentos que visam como vimos nométodo erudito, trazer os eventos ao presente do analista tal como aconteceram, onde o pesquisador não modifica e nem altera o resultado bruto do documento que está pronto para descrever o fato como aconteceu de forma objetiva e científica. "O acto de categorização, quando consegue fazer-se reconhecer ou quando é exercido por uma autoridade reconhecida, exerce poder por si..."(BOURDIEU, 1989, p. 116).
Além desta capacidade de "dizibilidade" e "visibilidade" dos documentos minunciosamente analisados, o caminho encontra-se aberto para Varnhagen como vimos na citação acima. Trata-se de uma grande deficiência de uma produção historiográfica brasileira, que dê visibilidade e dizibilidade, aos vultos, heróis, datas, eventos, reis, rainhas, e uma continuidade do mito da democracia racial deixado precocemente por Von Martius, em fim, um projeto que fortaleça a identidade nacional brasileira como um outro Portugal aqui nos trópicos.
Com o lugar e as influências sociais de Varnhagen contextualizadas, retomarei a discussão em torno da obra, "História Geral do Brasil" dos anos de 1850, pois ela é a síntese do discurso fundante de Varnhagen ao meu ver, e que ainda hoje desperta o interesse, críticas e admirações, como é o caso da posição do historiador " J. H. Rodrigues, citado por Reis " ninguém pode graduar-se em história do Brasil sem ter lido Varnhagen" (REIS, 2000, p. 29). Talassertiva de Rodrigues é pertinente, pois o ofício do(a) historiador(a) é pesquisar em suas fontes disponíveis, o máximo possível de indícios que o leve a fabricar a sua concepção sobre seu objeto de pesquisa.
Chamo atenção para isto, porque não podemos cobrar de Varnhagen uma identificação com a idéia de República por exemplo, já que o seu lugar ideológico é a monarquia por ideologia. Logo o olhar de N. Odália cai terra ao querer analisar História Geral do Brasil, com o olhar de sua época. " Para Odália, o interesse da leitura da sua obra, hoje, é muito restrito. Seria um autor superado não só por suas limitações, mas porque a história do Brasil é outra hoje."(REIS, 2000, p. 29). Perceber historiograficamente a síntese de Varnhagen é procurar entender pelo contrário do arbítrio de Odália, a consciência histórica, teórica e metodológica de sua época, e é esta a minha proposta no artigo.
Em "História Geral do Brasil", de forma explícita, o comando político e administrativo do Brasil deve ser feito pela família real, liderada pelo Imperador D. João VI, uma vez que Varnhagen só admite a Independência do Brasil por conta da sua liderança estar nas mãos do sangue real. O Brasil deve favores a Portugal por conta de sua colonização que lhe trouxe a civilização. O bandeirante é visto como um herói que desbrava os sertões e povoa as áreas mais afastadas do poder central, garantindo a unidade geográfica e espacial do Brasil. O catolicismo como ponta de lança evangelizadora da " gente nômade", é o carro chefe que determina e legitima a colonização, pois Deus é quem envia Portugal para salvar da barbárie tal gente vagabunda, promíscua, imoral, antropofágica, e em muitos casos infiel ao seu salvador, o que legitima o massacre de várias tribos indígenas por suas rebeldias.
Varnhagen também sustenta que os índios deveriam sim trabalhar como mão-de-obra serviu, ao contrário do que pretendiam alguns evangelizadores como os Jesuítas. Desde 1760, o marquês de Pombal, então primeiro ministro D. José I de (1750 – 1777), já tinha suas discórdias para com os jesuítas, os expulsando do Brasil nesta data. A visão de Varnhagen já para os negros era outra. "Para ele, os traficantes negreiros fizeram um grande mal ao Brasil entulhando as suas cidades do litoral e engenhos de negrarias."(REIS, 2000, p. 42).
Para Varnhagen os traficantes negreiros cometeram o grande erro de entulharem as suas cidades com as negrarias trazidas do continente africano. Varnhagen ironicamente reconhece que os escravos não possuíam laços de identidade aqui do ladro do Atlântico, pois suas raízes encontravam-se todas do lado de lá, família, cultos religiosos e etc, mesmo reconhecendo que os negros tiveram sorte de terem tido contato com o cristianismo e a civilização. Na minha concepção após a leitura de Reis, compreendo o olhar de Varnhagen contrário a entrada de negro no Brasil, numa perspectiva de querer o embraquecimento da nação, uma vez que o negro foi a contra-mão da evolução racial para o Brasil, trata-se de percebermos a concepção epistemológica da historiografia de Varnhagen, que pretendem equiparar o Brasil com as nações européias em plena direção de uma suposta evolução. Trata-se de um discurso que quer a verdade histórica é científica.
"Varnhagen quis produzir a "verdade histórica" do Brasil com uma "histórica científica", isto é, documentada conforme o método, afastando o lendário e o maravilhoso e evitando os juízos de valor. Sua história, ele pretende que seja movida pelo amor à verdade e, assim como Ranke, ele quis narrar os eventos tal como se passaram. (REIS, 2000, p. 48)
Para concluir o artigo, como foi dito no seu início, problematizar e especificar a originalidade do discurso fundante de Varnhagen apesar de qualquer crítica que se faça, antes devemos reconhecer a sua configuração é importância historiográfica do século XIX. Confesso que, ao ter contato pela primeira vez com a síntese do discurso fundante de Varnhagen, mesmo sendo feito por um comentador, no caso José Carlos Reis, com "As Identidades do Brasil de Varnhagen a FHC", fiquei inquieto como o seu projeto de identidade nacional para o Brasil, órfão no início do século XIX de uma produção histórica que lhe dê credibilidade e unidade nacional.
À creditei de inócua, preconceituosa, racista, vazio de teoria e inconseqüente. Mas, a partir da minha inquietação por tal escrita, me dispus a analisá-la, e a minha sensibilidade do historiador falou mais alto, e pude perceber realmente que Varnhagen é digno do título, "Heródoto Brasileiro".Capistrano conclui enfaticamente sua avaliação da História geral do Brasil: "mãos a bolos! É preciso reconhecer nele o mestre da história do Brasil"(Abreu, 1975a)" (REIS, 2000, p. 30).
"Capistrano de Abreu" sofre grande influência do contexto e da obra de Varnhagen e é considerado como um dos seus maiores críticos, além de ser também um grande inovador da historiografia do Brasil, na segunda metade do século XIX, onde inaugura a hermenêutica que visa analisar de forma mais profunda o conhecimento das ciências sociais. Mas como não poderia deixar de ser e pela sensibilidade historiográfica que possuía, reconhece o discurso fundante de Varnhagen como ponto de partida para qualquer análise sobre história do Brasil.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA
  • BLOCH, March Leopold Banjamim. Apologia da história, ou, O ofício de historiador; prefácio, Jacques Lê Goff; apresentação à edição brasileira, Lilia Moritz Schwarcz; tradução, André Telles. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001. pp. 51 – 68.
  • BOURDIEU, Pierre. " Capítulo V: A identidade e a representação – Elementos para uma reflexão crítica sobre a idéia de região". In.: "O poder simbólico". Lisboa, Difel/Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1989. pp. 107 – 132.
  • CERTEAU, Michel de. A Escrita da história; tradução de Maria de Lourdes Menezes ;*revisão técnica [de] Arno Vogel. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982. p. 68 – 69.
  • REIS, J. C. Anos 1850: "Varnhagen: o elogio da colonização portuguesa". In: REIS, J. C. "As identidades do Brasil: de Varnhagen à FHC". Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2000.
  • REIS, José Carlos. A história, entre a filosofia e a ciência. 2º ed. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. pp. 15 – 32.

Autor: Luciano Agra

sábado, 26 de novembro de 2011

Trecho de Guia Politicamente Incorreto da América Latina, de Leandro Narloch e Duda Teixeira

Como deixar de ser latino-americano Foram os franceses os primeiros a usar a expressão “América Latina”. Por volta de 1860, o imperador Napoleão III tentava aumentar sua influência no México, na época um país tumultuado por revoltas e guerras entre políticos liberais e conservadores. Um bom jeito de aproximar culturalmente os dois países era destacando o que eles tinham em comum, como a mesma origem do idioma. Tanto o francês quanto o espanhol e o português são línguas derivadas do latim – essa semelhança não só deixava a influência francesa mais natural como isolava os imperialistas britânicos e seu idioma anglo-saxão.1 “América Latina” se tornou assim uma ideia tão vazia quanto abrangente. Reúne sujeitos e povos dos mais diversos: o que há em comum entre ribeirinhos amazônicos, vaqueiros gaúchos, executivos da Cidade do México, índios das ilhas flutuantes do lago Titicaca e haitianos praticantes de vodu? Eles falam línguas derivadas do latim, mas... e daí? Colocar todos em um mesmo saco não seria o mesmo que igualar sujeitos tão diferentes quanto um xeque radical egípcio, um fazendeiro branco da África do Sul e um pigmeu do Congo? São todos africanos, é certo, mas pouca gente fala em uma única identidade para a África. Talvez a principal semelhança entre os latino-americanos não seja algo que venha de nossos longínquos antepassados, como a língua, e sim em um traço recente, forjado lentamente ao longo de séculos. Bolivianos, mexicanos, brasileiros e todos os demais, quando vislumbram o próprio passado, contam exatamente a mesma história. É como se ingredientes de sabores, cores e tamanhos diferentes entrassem todos numa grande batedeira para criar uma massa homogênea; e é como se essa massa fosse recortada por um mesmo molde de biscoito, dando origem a seres graciosos com o mesmo formato e o mesmo discurso. Tão parecidas são suas narrativas, e tão importante é a história para a identidade de um povo, que é possível tirar dessa massa algumas regras para ser um típico habitante da nossa região. Na receita para se preparar um bom latino-americano, parece ser necessário: 1. Lamentar. Todo latino-americano nutre uma obsessão por episódios tristes de sua história: o massacre dos índios, os horrores da escravidão, a violência das ditaduras. Além dessas histórias de opressão, nada de bom aconteceu. 2. Encarar a cultura local como uma forma de resistência. Fica proibido ligar na tomada instrumentos musicais típicos e populares e passa a ser um requisito moral usar ponchos e saias coloridas – ou pelo menos desfilar com um colar de artesanato indígena. 3. Condenar o capitalismo. O latino-americano que honra o nome acredita que o comunismo foi uma ideia boa, só que mal implantada. E, se já não luta para implantar esse falido modelo por aqui, ao menos defende sistemas mais “sociais”, “solidários”, “justos” e “comunitários”. 4. Denunciar a dominação externa. Se a responsabilidade pelos problemas do continente não pode ser atribuída à Espanha, à França ou a Portugal, então certamente tem alguma mão da Inglaterra ou dos Estados Unidos. Ou, como prega o livro As Veias Abertas da América Latina, clássico desse pensamento simplista, “a cada país dá-se uma função, sempre em benefício do desenvolvimento da metrópole estrangeira do momento”. 5. Cultuar heróis perversos. Quanto mais bobagens eles falarem e quanto mais sabotarem seu próprio país, mais estátuas equestres e estampas em camisetas serão feitas em sua homenagem. Tudo neste livro é contra essas regras tão batidas para se contar a história da América Latina. Não nos sentimos representados por guerrilheiros ou por indignados líderes andinos e suas roupas coloridas. Não há aqui destaque para veias abertas do continente, mas para feridas devidamente tratadas e curadas com a ajuda de grandes potências. Conhecemos bem as tragédias que nossos antepassados índios e negros sofreram, mas, honestamente, estamos cansados de falar sobre elas. E acreditamos que todos os povos passaram por desgraças semelhantes, inclusive aqueles que muitos de nós adoramos acusar. Por isso, quando vítimas da história aparecerem nesta obra, é para revelarmos que elas também mataram e escravizaram – e como elas se beneficiaram com ideias e costumes vindos de fora. Figuras ilustres da América Latina também passam neste livro, mas longe de nós mostrar somente que elas não são tão admiráveis quanto se diz. Na história de quase todo país, é comum abrilhantar as palavras de figuras públicas e até inventar virtudes de seu caráter – e não passa de chatice ficar insistindo numa realidade menos interessante. Acontece que na América Latina se vai além: escolhem-se como heróis justamente os homens que mais atrapalharam a política, mais arruinaram a economia, mais perseguiram os cidadãos. Não importam as tragédias que Salvador Allende, Che Guevara e Juan Perón tenham tornado possíveis. Importantes são o carisma, o rosto fotogênico, a morte trágica, os discursos inflamados contra estrangeiros. Por isso, não há como escapar: é ele, o falso herói latino-americano, o principal alvo deste livro. Nota: 1 John Charles Chasteen, Born in Blood & and Fire: A Concise History of Latin America, W. W. Norton & Company, 2011, página 156.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Resenha crítica – “Guia politicamente incorreto da América Latina”


Na tentativa de repetir a fórmula de estrondoso sucesso que foi o livro “Guia politicamente incorreto da História do Brasil”, o jornalista Leandro Narloch preparou, um novo livro, utilizando o mesmo recurso da dessacralização de mitos enraizados em nossa história – agora transposta para a História das Américas. O “Guia politicamente incorreto da América Latina” (Editora Leya, 336 páginas), que além de Narloch tem o jornalista Duda Teixeira como co-autor, segue o mesmo caminho da “versão tupiniquim”, abordando personagens que povoam desde livros escolares, como também vêm frequentando o notíciario da atualidade, seja com descobertas recentes ou com o legado que proporcionam à latinidade.
Os personagens escolhidos que compõem este guia politicamente incorreto de nuestra america foram bem escolhidos, inclusive porque suas biografias acabam inserindo personagens que hoje são politicamente atuantes. Ao falar de Simón Bolivar, é inevitável que se mencione o presidente venezuelano Hugo Chávez. O bolivarismo está presente em todos os instantes nos discursos de Chávez, servindo como mola propulsora para a discussão da política externa daquele país, por exemplo. Outro personagem citado é Che Guevara, médico argentino qvirou guerrilheiro e acabou por se tornar um dos principais ideólogos da Revolução Cubana. Ao morrer, “Che” se transformou num ícone, ganhando o mundo em imagens. Eva e Juan Perón, o casal mais famoso de todos os tempos na Argentina também são lembrados, inclusive tendo papel importantíssimo na construção não somente do Peronismo, mas também como líderes trabalhistas e fundadores do Justicialismo, tendo como lemas, “Paz, Amor e Justiça Social”. O Peronismo virou religião na Argentina, a ponto de até hoje em dia possuir seguidores apaixonados. Compõem ainda o livro, as figuras do mexicano Pancho Villa, os astecas, os incas, os maias, o presidente chileno Salvador Allende – que tentou revolucionar o Chile pela via pacífica do socialismo e terminou por se suicidar no Palácio La Moneda, em Santiago, em meio aos bombardeios das Forças Armadas comandadas pelo general Augusto Pinochet -, além de figuras populares existentes no Haiti pré-independente e escravocrata, como Jean-François, Julien Raimond, Jean Kina, Toussaint L´Ouverture, Henri Christophe, entre outros líderes, originários das massas populares, que se auto-determinaram oficiais militares e exerceram papel importante na conquista da independência do Haiti e de São Domingos.
Prestou atenção ao parágrafo anterior? Muito bem: procure esquecer pelo menos metade de tudo que contaram a você, até hoje, sobre o heroísmo das personagens acima. Esse é o propósito do livro: dessacralizar, desmistificar, pormenorizar certos feitos, jogar luz a fatos que ficaram obscuros e que atenderam interesses particulares, a quem interessava um história direcionada para um determinado fim, que acabou por se transformar numa história oficial. A todo instante os autores se lançam à desconstruir os mitos. Não é propósito desta crítica avaliar se determinado mito realmente merece ser questionado, mas é importante ressaltar que os autores tiveram como base de apoio uma lista de fontes variadas. A revisão técnica da obra é do historiador Marco Antonio Villa, da Universidade Federal de São Carlos.
Entretanto, o que incomoda na obra é justamente perceber que o propósito é desconstruir – e não agregar esclarecimentos. Uma coisa é revisar conceitos, idéias e personagens históricos. Fazer isso, com o sentimento de desdém, do tipo “Fulano não foi ninguém” ou “Cicrano na verdade era bandido”, já é outra coisa – e aí não reside mais o ato de historicização. É calúnia mesmo. E isso fica bem claro quando o livro aborda Che Guevara, Salvador Allende e o casal Perón. É importante lembrar que os dois jornalistas trabalham no Grupo Abril (ambos trabalham na revista Veja e Narloch já comandou a Superinteressante e a Aventuras na História). Foi justamente essa a sensação que tive após ler o livro (em exatos cinco dias): a de ter acabado de ler a Veja da semana, tendo Allende, sido massacrado – será que se ainda fosse vivo, seria convocado para alguma CPI no Senado? Lembro mais uma vez que isso não quer dizer que os autores tenham não escrito verdades sobre as personagens – em grande parte escreveram sim coisas reais -, mas a forma como fizeram as sucessivas desconstruções incomodam – e muito. As únicas partes onde ocorreu uma brisa de independência de idéias foram nas abordagens dos astecas, maias e incas, e nas revoltas no Haiti. Nas personagens mais contemporâneas a má-vontade dos autores foi extrapolada a olhos vistos.
Os autores traçam um panorama sensacional sobre a Argentina antes da chegada de Perón ao poder. E acusam o presidente argentino de ser o único culpado da derrocada do país nos anos que se seguiram após assumir a presidência. “É só Perón aparecer para a Argentina começar a apontar para baixo”, escrevem em certa altura do texto. Trata-se, sem dúvida, de um erro crasso. Seria a mesma coisa que dizer que Vargas foi o grande culpado pelo fim do Estado Novo, ou então que Castello Branco foi o único responsável pelo golpe civil-militar de 1964 no Brasil. Ou ainda que a proclamação da República só aconteceu porque Marechal Deodoro da Fonseca, num ato heróico (?), ergueu sua espada e pôs fim à monarquia. Esse tipo de pensamento, pormenorizante, baseado numa história factual, é raso, superficial e tosco. É condição sine qua non para qualquer historiador (ou pesquisador de qualquer área) entender que um acontecimento tem por trás uma série de fatores, uma dinâmica de forças, relações, conflitos… um processo que desencadeia enfim, uma transformação na história. O próprio trabalho de investigação, que o historiador faz, leva a conhecer os caminhos e descaminhos que se traduzem, no fim das contas, nos acontecimentos.
O leitor mais atento e acostumado com a História saberá certamente fazer a distinção entre o que é História e o que é jornalismo histórico. Mas é justamente aí que reside o perigo: o livro claramente não é voltado para historiadores. O público-alvo abrange desde estudantes e profissionais que nada têm a ver com História e que aproveitando essa nova onda de obras de teor histórico publicadas por jornalistas (“1808 e 1822″, de Laurentino Gomes, e livros de Eduardo Bueno, entre outros). Pessoas que vão a uma Megastore qualquer , vêem o livro e pensam: “finalmente um livro de ‘História’ descomplicado, sem linguagem difícil e com diagramação fácil de ler!”. É aí que reside o perigo: da apropriação (indevida) que jornalistas fazem da História, transformando ela num produto que atenda a interesses de terceiros (grupos editoriais, por exemplo), colocando o conteúdo que produzem num patamar onde passem a ser referências no assunto. Por outro lado, é perceptível que existe também um certo preconceito por essa popularização da história. Prefiro acreditar que o preconceito ocorra justamente pela preocupação que expressei acima. Já que, enquanto historiadores ou interessados no constante aprendizado, devemos sempre estar atentos a tudo que é escrito e publicado – inclusive porque, para criticarmos ou argumentarmos, precisamos primeiro ler as obras.
Popularizar a História não é errado, muito pelo contrário: é preciso transpor os muros que separam a Academia da grande massa de leitores ávidos por aprender história. Só que pra fazer isso é importante fazer com responsabilidade, clareza e independência editorial.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Eusébio de Cesaréia

Por Bento XVI
Tradução: Zenit
Fonte: Vaticano/Zenit

Queridos irmãos e irmãs:
Na história do cristianismo antigo, é fundamental a distinção entre os primeiros três séculos e os sucessivos ao Concílio de Nicéia do ano 325, o primeiro ecumênico. Entre os dois períodos está a assim chamada «mudança de Constantino» e a paz da Igreja, assim como a figura de Eusébio, bispo de Cesaréia na Palestina.
Foi o expoente mais qualificado da cultura cristã de seu tempo, em contextos muito variados, da teologia à exegese, da história à erudição. Eusébio é conhecido sobretudo como o primeiro historiador do cristianismo, mas também como o filósofo maior da Igreja antiga.
Na Cesaréia, onde provavelmente nasceu em torno do ano 260, Orígenes se havia refugiado procedente da Alexandria, e lá havia fundado uma escola e uma ingente biblioteca. Precisamente com estes livros se teria formado, uma década depois, o jovem Eusébio. No ano 325, como bispo de Cesaréia, participou com um papel de protagonista no Concílio de Nicéia. Subscreveu o «Credo» e a afirmação da plena divindade do Filho de Deus, definido por este com «a mesma substância» do Pai («homooúsios tõ Patrí»). É praticamente o mesmo «Credo» que nós rezamos todos os domingos na santa liturgia.
Sincero admirador de Constantino, que havia dado paz à Igreja, Eusébio sentiu por ele estima e consideração. Celebrou o imperador, não só em suas obras, mas também em discursos oficiais, pronunciados no vigésimo e trigésimo aniversários de sua chegada ao trono, e depois de sua morte, ocorrida no ano 337. Dois ou três anos depois também morria Eusébio.
Estudioso incansável, em seus numerosos escritos, Eusébio busca refletir e fazer um balanço dos três séculos de cristianismo, três séculos vividos sob a perseguição, recorrendo em boa parte às fontes cristãs e pagãs conservadas sobretudo na grande biblioteca de Cesaréia. Deste modo, apesar da marca objetiva de suas obras apologéticas, exegéticas e doutrinais, a fama imperecedora de Eusébio continua estando ligada em primeiro lugar aos dez livros de sua «História eclesiástica». Foi o primeiro em escrever uma história da Igreja, que segue sendo fundamental graças às fontes que Eusébio põe à nossa disposição para sempre. Com esta «história» conseguiu salvar do esquecimento numerosos acontecimentos, personagens e obras literárias da Igreja antiga. Trata-se, portanto, de uma fonte primária para o conhecimento dos primeiros séculos do cristianismo.
Podemos nos perguntar como estruturou e com que intenções redigiu esta nova obra. Ao início do primeiro livro, o historiador apresenta os argumentos que pretende enfrentar em sua obra: «Eu me propus redigir as sucessões dos santos apóstolos desde nosso Salvador até nossos dias, quanto e quão grandes foram os acontecimentos segundo a história da Igreja e quem foi distinguido em seu governo e direção nas comunidades mais notáveis, inclusive também aqueles que, em cada geração, foram embaixadores da Palavra de Deus, seja por meio da escritura ou sem ela, e os que, impulsionados pelo desejo de inovação até o erro, anunciaram-se como promotores do falsamente chamado conhecimento, devorando assim o rebanho de Cristo como lobos rapazes… e também o número, o modo e o tempo dos pagãos que lutaram contra a palavra divina e a grandeza dos que em seu tempo atravessaram, por ela, à prova de sangue e tortura; assinalando também os martírios de nosso tempo e o auxílio benigno e favorável para com todos de nosso Salvador» (1, 1, 1-2).
Desta maneira, Eusébio envolve diferentes setores: a sucessão dos apóstolos, como estrutura da Igreja, a difusão da Mensagem, os erros, as perseguições por parte dos pagãos e os grandes testemunhos que constituem a luz desta «História». Em tudo isso, resplandecem a misericórdia e a benevolência do Salvador. Eusébio inaugura assim a historiografia eclesiástica, abarcando sua narração até o ano 324, ano no qual Constantino, depois da derrota de Licínio, foi aclamado como imperador único de Roma. Trata-se do ano precedente ao grande Concílio de Nicéia, que depois oferece a «summa» do que a Igreja — doutrinal, moral e inclusive juridicamente — havia aprendido nesses trezentos anos.
A reunião que acabamos de referir do primeiro livro da «História eclesiástica» contém uma repetição que certamente é intencional. Em poucas linhas, repete o título cristológico de «Salvador», e faz referência explícita à «sua misericórdia» e à «sua benevolência». Podemos compreender assim a perspectiva fundamental da historiografia de Eusébio: é uma história «cristocêntrica», na qual se revela progressivamente o mistério do amor de Deus pelos homens. Com genuína surpresa, Eusébio reconhece que «de todos os homens de seu tempo e dos que existiram até hoje em toda a terra, só Ele é chamado e confessado como Cristo [ou seja, 'Messias' e 'Salvador do mundo'], e todos dão testemunho d’Ele com este nome, seguidores, em toda a terra; é honrado como rei, é contemplado como sendo superior a um profeta e é glorificado como o verdadeiro e único sumo sacerdote de Deus; e, acima de tudo isso, é adorado como Deus por ser o Logos pré-existente, anterior a todos os séculos, e tendo recebido do Pai a honra de ser objeto de veneração. E o mais singular de tudo é que nós, que estamos consagrados a Ele, não honramos com a voz ou com os sons de nossas palavras, mas com uma completa disposição da alma, chegando inclusive a preferir o martírio por sua causa à nossa própria vida» (1, 3, 19-20).
Deste modo, aparece em primeiro lugar outra característica que será uma constante na antiga historiografia eclesiástica: a «intenção moral» que preside a narração. A análise histórica nunca é um fim em si mesmo; não só busca conhecer o passado, mas aponta com decisão à conversão, e a um autêntico testemunho de vida cristã por parte dos fiéis. É uma guia para nós mesmos.
Desta maneira, Eusébio interpela vivamente os fiéis de todos os tempos sobre sua maneira de enfrentar as vicissitudes da história, e da Igreja em particular. Interpela também a nós: qual é nossa atitude ante as vicissitudes da Igreja? É a atitude de quem se interessa por simples curiosidade, buscando o sensacionalismo e o escândalo a toda custa? Ou é mais a atitude cheia de amor e aberta ao mistério de quem sabe pela fé que pode perceber na história da Igreja os sinais do amor de Deus e as grandes obras da salvação por ele realizadas?
Se esta é nossa atitude, temos que sentir-nos interpelados para oferecer uma resposta mais coerente e generosa, um testemunho mais cristão de vida, para deixar os sinais do amor de Deus também às futuras gerações.
«Há um mistério», não se cansava de repetir esse eminente estudioso dos Padres, o Pe. Jean Daniélou: «Há um conteúdo escondido na história… O mistério é o das obras de Deus, que constituem no tempo a realidade autêntica, escondida detrás das aparências… Mas esta história que Deus realiza pelo homem, não a realiza sem Ele. Ficar na contemplação das ‘grandes coisas’ de Deus significaria ver só um aspecto das coisas. Ante elas está a resposta» («Ensaio sobre o mistério da história», «Saggio sul mistero della storia», Brescia 1963, p. 182).
Muitos séculos depois, também hoje Eusébio de Cesaréia nos convida a surpreender-nos ao contemplar na história as grandes obras de Deus pela salvação dos homens. E com a mesma energia, ele nos convida à conversão da vida. De fato, ante um Deus que nos amou assim, não podemos permanecer insensíveis. A instância própria do amor é que toda a vida se oriente à imitação do Amado. Façamos tudo o que estiver a nosso alcance para deixar em nossa vida um traço transparente do amor de Deus.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Mary del Priore resenha livro de Jorge Caldeira

Enviado por O Globo -
História do Brasil com empreendedores, de Jorge Caldeira. Editora Mameluco, 336 páginas Por Mary Del Priore
Apresentado, em geral, como "jornalista", "escritor", "ensaísta" ou qualquer outra fórmula que o afaste da disciplina histórica, Jorge Caldeira é, contra tudo e contra todos, um dos mais prolíficos e criativos historiadores brasileiros. Dono de uma pena ágil, capaz de pesquisas alentadas e hoje, se beneficiando do conhecimento adquirido na realização de uma obra importante - "Mauá, Empresário do Império", "A nação mercantilista", "O banqueiro do sertão", entre outros - ele surpreende com um livro que para muitos há de cheirar a enxofre: "História do Brasil com empreendedores". Na melhor tradição anglo-saxã o título revela o assunto de que trata: os atores centrais não são mitos. Mas figuras garimpadas através de documentos e que comprovam a existência de gente que, ao longo da chamada Colonização, foi capaz de criar riqueza por conta própria, abastecer o mercado interno, fomentar o consumo de produtos os mais variados - de arroz a couro, de cativos a manufaturados. Enfim, de gente que foi capaz de tornar a Colônia mais rica do que a metrópole. Autênticos empreendedores - palavra, que como demonstra Caldeira, já está presente na carta de Pero Vaz de Caminha e nos dicionários oitocentistas - eles deram um dinamismo nunca dantes estudado a nossa economia, tornando-a mais forte do que a de Portugal. Extraordinário: eram homens livres e, mais importante, mestiços. Totalizavam 62% da população.
E por que o cheiro de enxofre? Pois durante décadas, ai do jovem pesquisador ou historiador graduado que não se curvasse ao que Caldeira chama de "ideologia corporativa": a crença de que a colônia era absolutamente dependente da metrópole. De que toda sua riqueza seguia para Portugal. De que a exploração em benefício exclusivo da metrópole lançou o Brasil num ciclo de violência, pobreza e maus resultados econômicos que "explicariam" sua situação até os dias de hoje. Dividido em duas partes, primeiramente o livro desconstrói dois pensadores antagônicos, Caio Prado Júnior e Oliveira Vianna, demonstrando por meio de uma análise arguta que o primeiro, um marxista, bebe nas fontes do segundo, um conservador! O revolucionário se apropriou das teses do reacionário. Sempre apoiado em abundante documentação, inclusive no arquivo pessoal de Caio Prado, Caldeira revela simetrias e apropriações para a construção do conceito de "latifúndio agroexportador", idéia original de Oliveira Vianna. Reelaborado por Prado Júnior, o conceito centrava fogo na tese de que a economia resultava da relação de uma pequena elite branca com uma imensa população de escravos. E que tal relação de exploração resultaria em produção carreada direta e exclusivamente para os cofres lusitanos. Nada no meio...
Pois é sobre o "meio" que ele assesta as lentes de aumento, na segunda parte do livro: Construção. O título não é gratuito, pois é a partir daí que, graças a inúmeros exemplos extraídos de documentos de época, ele dá rosto aos personagens anônimos que edificaram o país. E não só lhes dá nomes, descreve os endereços e as atividades, mas explica as formas pelas quais os contratos comerciais eram celebrados: os adiantamentos financeiros, conhecidos como "armação", a introdução de uma escala no trabalho escravo para a manufatura mais eficiente de produtos, os dotes de casamento, a confiança entre parceiros comerciais sacramentada pelo "fio do bigode". E mais, ele revela como tais "produtores independentes, donos de seus meios de produção, capazes de produzir por conta própria," realizavam negócios de Norte a Sul e acumularam capital com capacidade para financiar tanto o crescimento interno quanto de dominar negócios em dois continentes: traficantes de escravos que o digam! Mereceram até choradeira das autoridades portuguesas, queixosas da concorrência. E isso porque aqui se estabeleceu uma economia baseada numa rede contratual entre agentes livres e independentes, com força suficiente para vencer barreiras, levando seus resultados em direção diversa daquela pretendida pelas autoridades. Esses agentes foram "empreendedores".
Caldeira demonstra que Brasil não dependia de Portugal como quiseram autores da década de 70. Nada de "sentido da colonização" apenas voltado para "fora" ou de "mercado interno ínfimo" como martelaram tantos. Tal explicação não tinha qualquer sentido histórico. Só ideológico. Ele comprova que, ao contrário, a Colônia cresceu mais do que o mercado metropolitano, mesmo numa realidade de monopólio comercial, subordinação política e pressões culturais destinados a fazer dela a parte explorada do Império. 
Viagem apaixonante pelas mãos de um grande e competente pesquisador, História do Brasil com empreendedores descortina novos horizontes de estudo, apresenta atores históricos desconhecidos, além de instigar a abordagem original da documentação. Trabalho rigoroso de pesquisa e reflexão, o livro há de encontrar eco entre acadêmicos cujas indagações também se aproximaram da mesma tese - a da acumulação interna - e que tiveram que enfrentar o antagonismo da "ideologia corporativa": Alcir Lenharo, Maria Odila Silva Dias, João Fragoso, entre outros. A cada novo livro, Jorge Caldeira se supera e comprova que aos epítetos já conhecidos, pode acrescentar o de historiador. E acrescento: dos melhores!


MARY DEL PRIORE é historiadora, sócia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Entrevista com Jorge Caldeira, autor de “História do Brasil com Empreendedores”


Recebi no final da semana passada uma transcrição da entrevista feita por Geraldo Samor, do Podcast Rio Bravo, com o autor do livro “História do Brasil com Empreendedores”, Jorge Caldeira, lançado pela Editora Mameluco no final do ano passado. Ele também foi autor do livro “Mauá, empresário do Império”, publicado pela Companhia das Letras. Uma crônica sobre a ascensão e queda do empresário Irineu Evangelista de Souza, a construção de seu império e a bancarrota que resultou de sua perda de apoio político.

Nessa entrevista mostra aspectos interessantes sobre o nascimento do empreendedorismo no Brasil depois da colonização e põe em xeque a história contada de que éramos um país baseado basicamente por produções latifundiárias com mão de obra escrava. Um conteúdo interessante para quem busca entender as raízes e origens do empreendedorismo brasileiro.
Para quem achar mais agradável ouvir a entrevista, basta entrar no link www.riobravo.com.br/podcast/podcast140.mp3 para cair diretamente na página do podcast, ou ficar por aqui e ler a entrevista na integra… boa leitura!
Jorge, o título do seu livro me faz lembrar aquela época no regime soviético em que os desafetos do regime eram apagados das fotos. O empreendedor brasileiro foi expurgado dos livros de história ao logo do tempo?
Olha, em alguma medida, é verdadeiro que a cultura brasileira é uma cultura que não reconhece o papel do empreendedor. Esse livro, “História do Brasil com Empreendedores”, trata basicamente do período colonial – portanto, do período anterior ao capitalismo -, um período que o Marx chama de acumulação primitiva, onde a economia era mercantilista, mas aonde a figura do empreendedor era essencial. E essencial para entender o que é o Brasil, pra gente pensar o que é o Brasil. Então, não é só uma questão de economia, mas é uma questão de como pensamos em nós mesmos. E as duas coisas estão muito interligadas, porque o livro trata de um aspecto que é um conjunto de dados que economistas, que fazem história econômica com métodos quantitativos em geral, foram reunindo ao longo dos últimos setenta anos que mostram as seguintes tendências: primeiro lugar, a economia da colônia Brasil entre 1500 e 1822 cresceu num ritmo maior do que a economia da metrópole Portugal. A economia mercantil do Brasil era nada em 1500, e era bem maior do que a de Portugal – ainda há discussões sobre números precisos -, mas há certeza absoluta de que era maior em 1800.
Num regime de monopólio comercial entre metrópole e colônia, só tem um jeito do crescimento da economia da colônia ser maior do que o da metrópole, que é: os setores não exportadores, na relação com a metrópole, serem mais dinâmicos e terem taxas de crescimento maiores do que aqueles que ligam a colônia à metrópole via exportação. Isso, eu acho que nenhum historiador econômico hoje discorda desta primeira característica. A segunda característica, que é quantitativa, medida, e que eu também acho que é senso comum entre os historiadores de economia hoje, é a de que a pequena unidade produtiva – não necessariamente propriedade, porque havia gente que tinha pequenas rochas em propriedade alheia, mas isso era reconhecido – era a forma dominante de produção econômica e a forma dominante no mercado interno. Quantitativamente, como que é isso? Por volta de 1800, 62% a 70% da população… Dependendo se você considerar os índios uma população livre, e obviamente eles eram assim considerados na época e eu acho que é correto, pois faziam parte da economia brasileira… Então, 70% da população total, era população livre. Esta população livre tinha um conjunto muito grande de unidades produtivas, basicamente era uma coisa quase familiar – a dimensão de um negócio típico de 1800, era uma dimensão familiar. Então, o grosso da população brasileira dedicava-se a pequenas explorações sem escravo e, entre 2/3 e ¾, todas as unidades produtivas eram unidades produtivas familiares sem escravos. Ou seja, a produção brasileira básica de 1800 era desta gente. Todos, ou praticamente todos, empreendedores que dominavam, tinham seus meios de produção – no jargão marxista -, e eram, portanto, trabalhadores livres – no sentido marxista -, que produziam, dominavam o circuito da sua produção e recebiam, como lucro, com a venda da sua produção.
Então, isto é a imensa maioria da população em 1800.
Eram empreendedores principalmente agrícolas?
De todos os tipos: agrícolas, de transportes, com tropas, de artesanatos, de várias profissões… As unidades não eram muito maiores do que uma família, então, tudo que a família conseguia fazer, em geral, entrava na produção e era um pouco de tudo – era pouco especializado.
Mas esta era a base produtiva da colônia, a base da dinâmica da economia colonial. Segundo lugar: alguma coisa como 1/3 das unidades produtivas tinham escravos, só que, na imensa maioria dessas unidades, eram de cinco escravos para menos. A média de escravos por proprietários na economia colonial era de cinco. O que quer dizer que, ao lado da família ou do empreendedor que produziam sem escravos, tinha o que tinha: um ou dois escravos e uma unidade econômica pequena. Isso chega a 90% do total das unidades produtivas e é nessas unidades – basicamente, empreendedoras – que estava a dinâmica toda da economia colonial. E era uma dinâmica mercantil. Não era capitalista, no sentido que você não tinha trabalho assalariado, mas era mercantil; era produção para o mercado. Todas essas unidades produziam para o mercado – em grau maior ou menor – e esta produção somada é que dava a dinâmica imensa da economia colonial brasileira. Não era o setor exportador.
Você tinha também toda a acumulação de capital dentro desse circuito. A acumulação ia do índio que trocava o machado de ferro por algodão, ou o que seja, até a economia monetizada. Tudo era troca de mercadorias. Então, você tem uma economia mercantil ativa e é aí que está a dinâmica real da economia colonial. E você tinha grande propriedade com muito escravo em lugares muito limitados, e algumas ligadas ao setor exportador. Outras, não necessariamente. Tinha muita coisa ligada ao transporte, porque tinha grande escravidão em algumas unidades mineradoras – que não exportavam ouro, mas o produziam para virar moeda da economia colonial.
Então, isto é o retrato de uma dinâmica econômica baseada numa figura que era o empreendedor, aquele que veio para a América para enriquecer, e não, um membro da sociedade feudal, porque estamos falando de um período em que a Europa era feudal, onde as pessoas morriam na posição social em que nasciam. E esse, que vinha de fora, se juntava a outro igualmente empreendedor que era, basicamente, o índio que deixava de lado sua cultura local para se associar via casamento ou via aliança com esse que chegava de fora. Os dois juntos, com o sentido empreendedor: você aceitar o de fora é você aceitar novidade na vida, aceitar crescer, subir na vida.
Este encontro propiciou um Brasil empreendedor. Isso é o primeiro cenário do livro, que é o cenário que trata de economia. O segundo ponto que o livro trata é: as interpretações que nós brasileiros fazemos de nós mesmos. Nós nos interpretamos de um modo soviético. De uma realidade econômica que é dinâmica e empreendedora, nós recortamos fora essa figura, por algum processo. Que processo é esse? Aí, eu estudo interpretações do Brasil que foram criadas durante o século XIX e século XX. Eu paro tudo em uma interpretação criada no século XX pelo Caio Prado Júnior, que é considerado o fundador da interpretação marxista de história do Brasil, e que basicamente diz o seguinte: o primeiro é um livro que se chama “Evolução política do Brasil”, onde ele diz que o atraso central do Brasil se deve ao fato de ter sido uma sociedade organizada em latifúndios de grande produção – onde o trabalho escravo era central -, e aonde a produção para o mercado ainda era marginal. O mercado interno ainda existia e era marginal. E, num segundo livro, chamado “Formação do Brasil Contemporâneo”, que é de 1942, ele introduz um acréscimo a ideia do latifúndio, transformando no latifúndio o agrário exportador e um conceito de sentido da colonização que, além de latifundiária, a produção era organizada para fornecer mercadorias baratas para o mercado externo – o que deixava o mercado interno marginal, que nunca se desenvolveu. E o atraso posterior ao período colonial se deve à herança colonial que teria sido, esta, de uma organização latifundiária da produção.
Como você pode ver, essa é uma interrelação que confronta os dados de conhecimentos atuais. Quando ela foi feita, em 1933, não existiam esses dados de pesquisas que eu dei, de pequena propriedade, tamanho, volume, capacidade de produção, o PIB do Brasil… Nada disso era conhecido. Mas a hipótese pegou. E a interpretação é vigente. Hoje, é quase a língua oficial; é como nós entendemos a história da colônia.
A ideia de que a herança colonial transformou o brasileiro num povo menos empreendedor.
Não só isso, como que o mercado externo e a escravidão eram os fundamentos, e não o trabalho do empreendedor e a economia livre – mercantil, ainda, mas livre.
Você descreveu o europeu que veio para o Brasil como um empreendedor. Ele e o índio, juntos, formaram essa cultura de empreendedorismo. Mas, em que medida, também, havia muitos europeus no Brasil que vieram para cá em busca de um cartório?
Como se pode definir de maneira mais ampla o que é o empreendedor? É alguém que quer, durante a sua vida, construir algo que seja seu próprio destino. Quer dizer, ele não se conforma com o destino de nascimento e constrói algo melhor para si mesmo, constrói seu próprio destino, construindo uma obra que, em geral, gera uma posição melhor, gera enriquecimento – que seja do espírito ou material.
Esse é o conceito amplo de empreendedor. Em 1500, para qualquer pessoa que saía da sociedade feudal e vinha fazer a vida em outro lugar, estava empreendendo. Comparada à época medieval – onde não existia cartório, aliás -, você mudar de vida era muita coisa. Você veio recomeçar e veio fazer alguma coisa para enriquecer. Do mesmo modo, isso vale igualmente para os índios que aceitavam a chegada dessa outra pessoa; está mudando o seu destino tradicional e trocando por um destino que vai ser construído naquele momento que eu estou vivendo por uma aliança.
Então, é isto que dá dinâmica para a economia brasileira até hoje. O importante disso é perceber que isso não é só uma questão de ideias. É o PIB, a composição da economia, a economia real, o existente, imensurável.
O livro estabelece uma relação entre a produção intelectual do Caio Prado Júnior, um dos grandes historiadores brasileiros, morto em 1990, e o de Oliveira Vianna, um historiador conservador. Que semelhanças são essas e por quê elas são importantes do ponto de vista histórico?
O que é real é empreendedor, pequena propriedade e uma grande mercantilização da economia, se comparada à de Portugal. Isto é ao contrário da percepção que latifúndio, classe dominante, escravidão e desigualdade social… O ponto, aí, que eu analiso é: de onde veio essa ideia? São ideias dominantes sobre o passado que não têm nada a ver com a realidade conhecida hoje.
Então, a primeira ideia dominante no passado, mais conhecida, é essa vertente do Caio Prado que atribui esta ideia, que atribui a latifúndio, que diz o seguinte: isso é uma análise marxista da história; o conhecimento de Marx gerou esta interpretação. Isso diz o Caio Prado, de si mesmo, e assim ele é reconhecido. Como essa interpretação não batia com a realidade, pensei: “Espera aí, o Marx não tem um pensamento que gere esse tipo de coisa”. Então, fui lá ver o que o Caio Prado conhecia de Marx. Quase nada, quando escreveu o primeiro livro. Mas então, como que ele inventou uma interpretação do Brasil? Nasceu sabendo? Foi uma intuição genial? Aí, fui ver com quem que ele tinha estudado e ele, na verdade, o Caio Prado foi discípulo do Oliveira Vianna, que é um pensador conservador. “Conservador” no sentido claro do conservadorismo do império: alguém que pensa que o Estado está acima da sociedade; que a sociedade, no Brasil, não tem forma; que tudo que acontece de civilizado no Brasil, foi o Estado que fez. Este senhor, Oliveira Vianna, em 1922, escreveu um livro chamado “Evolução do povo brasileiro”. Desse livro – que existe em dois capítulos separados – vem dele a ideia de que o senhor local, que é o inimigo do Estado central, é o problema do Brasil. Porque ele é o coronel, o mandão, o latifundiário. Ele criou a figura do latifundiário como a explicação do Brasil, durante a República Velha, para dizer que o federalismo, o empreendedorismo, liberdade de capitais – que eram os perigos da República Velha – eram não as razões do progresso do Brasil, mas as fontes do atraso do Brasil.
Esse discurso do Oliveira Vianna foi, senão copiado, mas apropriado pelo Caio Prado Júnior quase na íntegra. No meu livro tenho um capítulo de dez páginas que são cinco páginas de parágrafos do Oliveira Vianna, de “Evolução do povo brasileiro”, cinco páginas de parágrafos de “Evolução política do Brasil”. Um posto do lado do outro para ver que a argumentação é essencialmente semelhante num grau muito alto. O Caio Prado já tinha citado Oliveira Vianna antes, e etc. Não é só o marxismo que tem a ideia de que o passado é latifundiário: o pensamento conservador brasileiro. E aí, a ideologia econômica conservadora brasileira, que é uma ideologia econômica de restrição monetária, de viver em um padrão ouro, não deixar manter o controle da vida financeira no Estado ao modo do antigo regime. Esse aí é o ponto central. Eu vou ao Oliveira Vianna, percorro desde o século XVIII, ao chamado pensamento corporativo. Que a metáfora desse pensamento central é: a sociedade tem uma cabeça, que é o Estado, e a sociedade é um corpo que cumpre as ordens do Estado; tudo que é inteligente, vivo, humano, bom, da sociedade, está no Estado e o resto é resto, para cumprir ordens do Estado e obedecer aquilo que emana da cabeça. Esta metáfora é a base do pensamento corporativa e é a base do pensamento do Oliveira Vianna. É desta herança que o Caio Prado extraiu suas ideias.
Essa herança é antigo regime, é Aristóteles. A ideia de que o poder é sagrado, de que o poder está acima da sociedade não tem nada a ver com o poder do governo. Esta mistura entre pensamento conservador e marxismo que é interpretação corrente do passado brasileiro hoje. E esse livro ataca de frente isto, porque não corresponde a fatos observáveis; isto é uma ficção ideológica, seja na sua vertente conservadora, seja na sua vertente marxista.
E é disso que o livro trata. Primeiro, mostrar como era economia. Segundo, por quê que essa interpretação que não tem nada a ver com os fatos é tão dominante e por quê que isso é feito. Aí, tem a parte final do livro que é analisar qual eram as articulações na sociedade brasileira, na sua base, que faziam uma economia mercantil empreendedora pujante. E aí, eu começo das sociedades nativas que participavam da economia, participavam do sistema de troca, até passando pelos sertanejos populares e muito esquecidos daquela época que faziam tudo por fiado. Quer dizer, as pequenas unidades produtivas como o poceiro, o agregado, os pequenos todos, se financiavam por fiado. Ou seja, era uma economia de trocas mercantis, mas não de circulação de moeda. Tinha muito mais troca mercantil do que circulação de moeda, mesmo depois da presença do ouro na economia local. E com a presença do ouro, a partir de 1700, isso se ampliou. Aí sim, ele já era quase empresário porque o empreendedor, em geral, não tem capital nenhum; seu capital é o seu trabalho.
A partir do século XVIII você já tem muito empresário que mistura a posse de capital com o trabalho de empreender, que faz atividades de maior porte. Então, é basicamente esse o escopo do livro.
Mesmo assim, o brasileiro sendo majoritariamente empreendedor, o espírito de cada tempo afeta a propensão a empreender, não? Por exemplo, hoje, tem muita gente estudando para passar em concurso público porque um cargo no Estado ainda é visto como estabilidade. Estas pessoas querem estar estáveis mesmo em uma economia que muda a cada cinco anos, com a tecnologia e tudo. O futuro pertence a esses que empreendem ou a esses que querem se juntar às tecnocracias?
Acho que hoje a gente precisa começar a discutir esses dois objetivos. A ideia desse livro – não é aplicado a ele, porque o livro só trata de economia colonial… Mas, claramente, um entendimento novo do passado permite entender de um modo novo também os problemas atuais. Eu diria que a propensão a concurso público é protegida se você concorda com a ideologia de que o Estado está acima dos outros, então, ele arregimenta em condições melhores e dando privilégios porque ele está acima dos outros. Na versão conservadora ou na versão “de esquina”, porque só o Estado produz igualdade. Se não tiver isso, ele só tem desigualdade. A condição natural do capitalismo é fazer desigualdade. Essas duas coisas precisam ser mudadas, ser discutidas. É assim mesmo? É esta a proporção das coisas?
A sociedade brasileira de hoje tem 10% das pessoas formadas na universidade. É uma sociedade que vai ser definida como uma sociedade de dependentes? A população que está, finalmente, chegando perto dos 100% na escola é uma população incapaz de tomar decisões e reconhecer seus próprios interesses ou é uma população confiável? E, finalmente, acima de tudo, uma questão política: o governo está acima da sociedade, como dizia a filosofia política do antigo regime, ou o governo é representação da sociedade? O eleito recebeu um mandato que vem da sociedade e deve satisfações à ela; ele não passa a se fingir de rei ou populista. Essa é a pergunta.
Não te parece um contra senso que, em uma economia que tem crescido muito e que tem gerado e distribuído renda, que ainda tenha tanta gente fascinada com o Estado como provedor de tudo?
Acho que é muito mais fascinante se você pensar o contrário. Quer dizer, no começo dos anos 90 se dizia o seguinte: qualquer abertura da economia brasileira – dada o nosso baixo grau de educação, baixa capacidade do povo, etc. – ia levar a um desastre porque não teríamos condição de reagir à novas tecnologias e coisas do gênero. Fez-se uma abertura imensa que foi saudada por todo mundo que comprou um celular, por todo mundo que aproveitou a condição da moeda e quem lida com informática é o pobre na lan house, não é a elite. Quem tem mais Facebook e participação nas redes sociais? Brasileiros pobres… A ideia de que a gente não aguenta a globalização …ao contrário, o Brasil é uma nação globalizada por dentro. São raras as pessoas no Brasil que têm a virtude de saber que causas como: estabilidade, abertura, competição real e exposição ao progresso, são causas que o brasileiro comum abraça com a maior tranqüilidade. E quem apostava nessas coisas nos anos 90, viu um outro mundo acontecer com abertura e estabilidade.
O que a gente não entende é: de onde vêm esses valores? De onde vem essa crença? Porque as explicações sobre o Brasil conservadoras iam nesta vertente marxista, vindas pela ideia do latifúndio e o trabalho escravo são, amplamente majoritárias, da elite. Mas não na realidade.
Muita gente vê paralelos entre a trajetória do Barão de Mauá e a do empresário Eike Batista. Você escreveu o livro. Que paralelo você acha que existe?
Olha, eu não conheço a estrutura dos negócios do Eike Batista como eu conheci e estudei – e levei anos para entender – a estrutura dos negócios do Mauá.
O Mauá é uma figura que, em vida, foi personagem do Júlio Verne como um homem de visão. Quer dizer, em “Da Terra à Lua”, está lá escrito no livro, na época que o Mauá era vivo. Um visionário que queria ir para a lua e que precisa de financiamento. E aí, uma figura vai lá e avisa: “Olha, você vai conseguir financiamento com os homens que vêm o futuro, pois lá, doze homens que vêm do futuro e um deles é o Barão de Mauá, no Rio de Janeiro”.
Então, eu não sei se hoje as coisas têm esta dimensão, o maior problema é saber se ele vai, um dia, chegar a algo como isto. O Eike está construindo. E não se sabe aonde vai chegar essa construção. O Mauá já tinha construído quando isso foi escrito. Quer dizer, o império de Mauá era uma coisa que já tinha forma e alguma substância. Não eram coisas que estavam só em projeto, ainda.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A obra de Max Weber, por Otto Maria Carpeaux


Artigo foi publicado no 'Suplemento Literário' de 14 de abril de 1962


A inauguração do Instituto de Sociologia da Univeridade de Munique trouxe à tona o autor de 'A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo' e motivou a publicação, à época, do artigo de Carpeaux no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.
Otto Maria Carpeaux
No Instituto de Sociologia da Universidade de Munique acaba de ser inaugurado o Arquivo Max Weber, em que, além de documentos e manuscritos, serão conservados os livros e estudos que se escreveram sobre o grande erudito: até agora, aproximadamente, 3.500.
Um orgão tão responsavel e tão insular como o
"Times Literary Supplement" chamou-o, há pouco, de "a maior figura da sociologia do seculo XX".
Raymond Aron e Lorenzo Giusso dedicaram-lhe livros. O Fundo de Cultura Economica divulgou-lhe as obras no mundo de linguas ibericas. No Brasil, toda pessoa medianamente culta conhece o nome de Max Weber, pelo menos aqueles estudos que fundaram uma nova disciplina cientifica: estudando a influencia da ética protestante ou, mais exatamente, da ética calvinista sobre a formação da mentalidade capitalista, essa tese, embora muito discutida, é sua maior gloria e é o grande desmentido contra a idolatria da especialização: pois nunca teria nascido, se o economista e sociologo Weber, no ambiente estreito de uma cidadezinha universitaria alemã, não tivesse frequentado seus colegas da Faculdade de Teologia que ensinavam e estudavam a historia moderna da Igreja.
Mas tudo que Weber escreveu, continha germes e sugestões para outros estudos, de importancia muito grande, sempre maior do que aparentavam ser os assuntos. Seu primeiro trabalho, de 1891, sobre a historia da estrutura agraria do antigo Imperio Romano, esclareceu o papel historico do latifundio. Conquistou a catedra em Friburg com um estudo sobre a situação dos trabalhadores rurais na Alemanha oriental, então dominada pelos "junkers" prussianos. Combinou, em 1903, os dois assuntos, escrevendo um famoso verbete de enciclopedia sobre "Estrutura agraria na Antiguidade", responsabilizando o latifundio pelo declinio e pela catastrofe da civilização antiga, terminando com uma sombria perspectiva para o futuro da Prussia latifundiaria de 1908. Também foi Weber o unico sociologo ocidental que se dignou de estudar a revolução russa de 1905: todo o mundo considerava-a então como a derrota de uma revolução socialista; mas o professor de Freiburg explicou-a como o fracasso de uma revolução burguesa, acreditando que esse fracasso causaria a transição direta da Russia, do feudalismo ao socialismo, sem fase burguesa.
Durante a primeira guerra mundial, entre 1914 e 1918, estendeu Weber seus estudos sobre sociologia da religião ao mundo não-cristão. Escreveu sobre religião e sociologia do Islão, da China e do judaismo; mas, sobretudo, os famosos artigos sobre Amos, Hosea, Isaías, Jeremias, os profetas do judaismo antigo. Até então, esses profetas eram considerados como individualistas religiosos, que libertaram o judaismo do monopolio dos sacerdotes do Templo, preparando a transformação da religião nacional dos hebreus em religião nacional dos hebreus em religião universal. Mas Weber demonstrou que os profetas não pensavam na salvação individual das almas, e, sim, na salvação da nação ameaçada. Lutaram contra a burocracia do templo e contra a monarquia, já de prestigio decadente, para que a nação sobrevivesse às suas instituições obsoletas. - Foram estas as ultimas pedras para o grandioso monumento científico que Weber deixou. Depois da catastrofe de 1918, já professor em Munique, dedicou-se, episodicamente, a atividades politicas, contribuindo para o estabelecimento do parlamentarismo na Republica de Weimar. A morte prematura, em 1920, poupou-lhe amargas decepções.
Ainda não se aludiu, nestas linhas, à idéia determinante de Weber, quase um princípio de filosofia da história moderna: esta é caracterizada pela progressiva racionalização de todos os setores da vida. O Estado e o pensamento politico, a Administração e a Justiça, o Direito e as teorias e praticas economicas libertam-se, há 5 ou mesmo 6 seculos, cada vez mais, de mitologias, filosofemas, tabus de toda a especie, para reconhecer como supremo criterio só a eficiencia: é a racionalização da vida ocidental. O mesmo "trend" verifica-se na evolução das ciencias, pela exclusão gradual dos julgamentos de valor, oriundos de preconceitos tradicionais ou de fonte emocional. O testamento de Weber são as duas grandes conferencias muniquenses de 1920, "Politica e profissão" e "Ciencia como profissão", nas quais proclamou a objetividade total da ciencia e, portanto, sua independencia da politica que, por difinição, nunca pôde ser objetiva. Os valores, sendo elementos subjetivos, não devem entrar no estudo cientifico de problemas nem nos seus resultados. Mas Weber sabe que os valores subjetivos aceitos pelo estudioso têm determinada função psicologica: são eles que inspiram ao pesquisador a escolha dos seus temas. Têm função seletiva. Essa tese autoriza a pergunta seguinte: - quais foram os valores subjetivos que determinaram, para Max Weber, a seleção dos seus temas de estudo? Em toda a imensa bibliografia sobre o sociologo, só duas vezes - por Christoph Steding (1832) e por Wolfgang Mommsen (1959) - foi levantada aquela pergunta. Responderam, partindo de pontos de vista muito diferentes, chegando no entanto ao mesmo resultado: foram valores da vida politica; daquela politica que Weber quis tão radicalmente excluir da ciencia objetiva.
Filho da burguesia capitalista e industrial da Renania, e dedicando-se, como especialista, ao estado de problemas economicos, seria de supor-se que estes monopolizassem a atenção de Weber. Mas não aconteceu assim. Na mocidade recusou os mais vantajosos convites para entrar na direção de grandes trustes; mais, dos estudos especificamente economicos.
A inedita relação que Weber conseguiu estabelecer entre os ensinamentos morais do protestantismo calvinista e o estilo de vida do capitalismo, manda pensar em inspiração religiosa, talvez subconsciente; pois Weber era livre-pensador, descrente, mas filho de gerações de burgueses calvinistas. Mas a analise das suas reações revela logo que a inspiração não era de natureza religiosa e, sim, politica.
A burguesia calvinista renana, que tinha construido a grande industria da Alemanha ocidental é pequena minoria num país meio luterano e meio catolico. Seu destino foi o caso extremo do destino da burguesia alemã do seculo XIX em geral: ficou com liberdade para fazer seus grandes negocios, mas também ficou excluida da direção politica do país, confiada no rei da Prussia, quase absoluto, aos seus aristocratas prussianos, aos seus oficiais aristocraticos, à sua burocracia de juristas. Não foi possível organizar uma oposição eficiente. Os catolicos alemães, no seculo XIX, fecharam-se num "ghetto", não querendo participar de uma civilização predominantemente protestante. O luteranismo retirou-se para a pequena burguesia e para o Leste agrario, pois a etica luterana paternalista, é incompativel com a grande industria e com a comercialização; o estudo da diferença essencial entre essa etica e a do calvinismo é mesmo um dos meritos de Weber e do seu amigo Troeltsch. O proletariado? Como filho da grande burguesia industrial, Weber se preocupa mais com os sofrimentos dos trabalhadores rurais do que com as esperanças dos trabalhadores urbanos. Seu grande trabalho sobre a influencia da etica calvinista na mentalidade capitalista é vigoroso desmentido ao materialismo historico que explicara, ao contrario, pelo capitalismo as mudanças da mentalidade religiosa; o proprio Weber definiu esse seu trabalho como exemplo de "antimarxismo positivo"; naturalmente num outro nivel do que a antimarxismo barato e ignorante dos maccarthystas de hoje. Weber só quis demonstrar que "o espirito é mais poderoso que a natureza" (inclusive as forças inconscientes da economia). Nesse sentido, o trabalho de Weber sobre etica calvinista e mentalidade capitalista é o ato pelo qual a burguesia alemã conquistou a consciencia das suas origens e do seu destino. Mas essa classe, rica, culta e consciente, estava excluida do poder pelo imperador Guilherme II e seus aristocratas e burocratas e os latifundiarios da Alemanha oriental.
Eis os "valores seletivos" que inspiraram a Max Weber seus temas de estudo. Seus trabalhos sobre o operariado rural da Alemanha oriental atingem diretamente o inimigo agrario, o "junker" prussiano. Os estudos, aparentemente historicos, sobre o declinio da civilização antiga e a derrota do Imperio Romano pela força autodestruidora do latifundio predizem desastre semelhante ao Imperio da aristocracia latifundiaria prussiana; são de natureza complementar os artigos sobre o fracasso da revolução russa de 1905. Enfim, a guerra de 1914 e a direção incompetente dessa guerra pelas classes dominantes da Alemanha confirmaram as previsões do sociologo.
Fiel à sua convicção de que "a ciencia (social) tem a função de fazer compreender fatos incomodos", Weber começou a fazer oposição ao Kaiser. A censura não conseguiu impedir essa oposição. Nenhum evasionismo obrigou o sociologo a entrincheirar-se atrás de estudos historicos, cheios de alusões à atualidade. De sua livre vontade escolheu, durante os anos de guerra, o estudo dos profetas do judaismo antigo. Esses profetas lutaram contra uma monarquia impotente e contra os sacerdotes profissionais, especie de burocracia do Templo; assim como Weber lutou contra o imperador Guilherme II e sua burocracia administrativa e militar. Os profetas, conforme Weber, não se preocupavam com a salvação das almas individuais, mas da nação ameaçada. O sociologo também se preocupou, naqueles anos, só com o futuro da nação alemã em face da derrota iminente. Ao monarquismo decadente opôs a perspectiva de lideres saidos do povo e legitimados pela sua vocação, o "charisma"; e à burocracia opôs a reivindicação do regime parlamentarista, o regime proprio da burguesia, o triunfo da racionalização enfim também na politica.
Pela derrota de 1918, a monarquia foi abolida. A Republica de Weimar iniciou a experiencia parlamentarista. Weber morreu logo depois, em 1920. Não viveu, para assistir ao espectaculo de forças irracionalistas se apoderarem das suas esperanças. A preocupação exclusiva pelo futuro da nação virou nacionalismo fanatico. A substituição da monarquia pela liderança, "charismatica" degenerou em culto ao "Fuehrer". O fim eram as ruinas da Alemanha destruida e depois, sua reconstrução meramente economica.
Mas - "o espirito é mais poderoso que a natureza". Depois de tudo, a lição de Weber sobre a objetividade da ciencia venceu. Em meio das ruinas materiais do nazismo e das ruinas espirituais do "milagre economico" fica em pé o monumento de Max Weber: sua Obra.

Para entender o Gramscismo

Gramscismo

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Antonio Gramsci: novas táticas adicionadas aos velhos métodos comunistas de tomada do poder.

O socialismo proposto por Gramsci não passa pelos proletários e camponeses, e sim pela cultura e pelo efeito multiplicador dos meios de comunicação, buscando, através de métodos persuasivos, mudar a mentalidade vigente em uma sociedade.

O pensamento de Gramsci
por Carlos I.S. Azambuja em 28 de abril de 2005

© 2005 MidiaSemMascara.org

O italiano Antonio Gramsci, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano, foi o primeiro teórico marxista a compreender que a revolução na Europa Ocidental teria que se desviar muito do rumo seguido pelos bolcheviques russos. Nesse sentido, ofereceu um novo “Que Fazer” ao Ocidente desenvolvido. Aquilo que ele chamou de “sociedade civil” – rede de instituições educativas, religiosas e culturais que disseminam modos de pensar – era, na Rússia, incapaz de fornecer uma doutrinação moral e intelectual de caráter unitário, uma vez que o Estado czarista fundamentava-se na ignorância, na apatia e na repressão, e não no consentimento voluntário dos súditos. Na ausência de uma articulação complexa da “sociedade civil” em condições de absorver a insatisfação, a única defesa da velha ordem era constituída pelo aparelho do Estado, que Gramsci denomina de “sociedade política”. O conjunto difuso da “sociedade civil”, que propaga a ideologia da classe dominante, não existia na Rússia.

Segundo Gramsci, o objetivo da batalha pela mudança é conquistar, um após outro, todos os instrumentos de difusão ideológica (escolas, universidades, editoras, meios de comunicação social e sindicatos), uma vez que os principais confrontos ocorrem na esfera cultural e não nas fábricas, nas ruas ou nos quartéis.

Dessa forma, Gramsci abandonou a generalizada tese marxista de uma crise catastrófica que permitiria, como um relâmpago, uma bem sucedida intervenção de uma vanguarda revolucionária organizada. Ou seja, uma intervenção do Partido. Para ele, nem a mais severa recessão do capitalismo levaria à revolução, como não a induziria nenhuma crise econômica, a menos que, antes, tenha havido uma preparação ideológica.

Segundo a linguagem colorida de Gramsci, o proletariado precisa transformar-se em força cultural e política dirigente dentro de um sistema de alianças, antes de atrever-se a atacar o poder do Estado-burguês. E o Partido deve adaptar sua tática a esses preceitos, sem receio de parecer que não é revolucionário.

Lênin sustentava que a revolução deveria começar pela tomada do Estado para, a partir daí, transformar a sociedade. Gramsci inverteu esses termos: a revolução deveria começar pela transformação da sociedade, privando a classe dominante da direção da “sociedade civil” e, só então, atacar o poder do Estado. Sem essa prévia “revolução do espírito”, toda e qualquer vitória comunista seria efêmera.

Para tanto, Gramsci definiu a sociedade como “um complexo sistema de relações ideais e culturais” onde a batalha deveria ser travada no plano das idéias religiosas, filosóficas, científicas, artísticas, etc. Por essa razão, a caminhada ao socialismo proposta por Gramsci não passava pelos proletários de Marx e Lênin e nem pelos camponeses de Mao-Tsetung, e sim pelos intelectuais, pela classe média, pelos estudantes, pela cultura, pela educação e pelo efeito multiplicador dos meios de comunicação social, buscando, através de métodos persuasivos, sugestivos ou compulsivos, mudar a mentalidade, desvinculando-a do sistema de valores tradicionais, para implantar os valores ateus e materialistas.

O comunismo de Gramsci é a “versão ocidental” do comunismo, e ao proclamar o diálogo e aceitar o debate, próprios dos sistemas verdadeiramente democráticos, trabalha sobre todas as formas de expressão cultural, atuando sob a cobertura do pluralismo, com a contribuição de todos aqueles que por compartilhar a ideologia marxista, por snobismo, por conveniência ou por negligência, se somam voluntária ou involuntariamente a essa nova expressão do “frentismo”, chamando “fascistas” ou “retrógados” aqueles que se opõem a essa forma de pensar e atuar.

Nessa confusão de idéias, chega-se a substituir a contradição hegeliana de “burguês – proletário” (tese e antítese) pela de “fascista – anti-fascista”. O inimigo não é patrão e sim o fascista. Assim surge o mito do fascismo, que nada tem a ver com o fascismo histórico, sem dúvida questionável.

Quem quer que defenda os valores tradicionais da cultural ocidental é tachado de “fascista” e considerado genericamente como “um mal”. O grande erro dos comunistas, segundo Gramsci, foi o de crer que o Estado se reduz a um simples aparato político. Na verdade, o Estado atua não apenas com a ajuda do seu aparato político, como também por meio de uma ideologia que descansa em valores admitidos que a maioria dos membros da sociedade têm como supostos. A referida ideologia engloba a cultura, as idéias, as tradições e até o sentido comum. Em todos esses campos atua um poder no qual também se apóia o Estado: o poder cultural.

A necessidade de uma reforma intelectual e moral para lograr uma mudança de mentalidade nas sociedades ocidentais que foram constituídas por convicções, critérios, normas, crenças, pautas, segundo a concepção cristã da vida, é de suma importância para o triunfo da revolução mundial.

Porém, nesse propósito de formação de uma nova consciência proletária, o gramscismo encontra um obstáculo: a religião. De acordo com os estudos de Gramsci, a Igreja Católica, encarada como inimiga irreconciliável do comunismo, utiliza elementos fundamentais e comuns na sociedade, chegando a toda população, tanto urbana como rural. O catolicismo, segundo Gramsci, é uma doutrina geral simplificada a fim de ser entendida por todos. Analisando esse fato, Gramsci chegou à conclusão que uma das chaves da sobrevivência do catolicismo ao longo dos séculos foi o fato de que em seu seio conviveram harmonicamente humildes e elites, sentenciando que “a Igreja romana sempre foi a mais tenaz em impedir que oficialmente se formem duas religiões: a dos intelectuais e a das almas simples”.

Concluiu que é a Igreja Católica que inspira a formação desse sentido comum cristão e, por conseguinte, era preciso erradicá-lo mediante uma ação não violenta já que essa via seria repelida pelas sociedades ocidentais, onde influi e gravita o consenso e a vontade das maiorias. Gramsci afirmou que “os elementos principais do sentido comum são ministrados pelas religiões e, por isso, a relação entre o sentido comum e a religião é muito mais íntima do que a relação entre o sentido comum e os sistemas filosóficos dos intelectuais”. “Então - prossegue Gramsci – todo o movimento cultural que tenda a substituir o sentido comum e as velhas concepções do mundo deve repetir incansavelmente os próprios argumentos, variando suas ‘formas’”.

Dessa forma, as novas concepções se difundem utilizando sofismas, dando novas interpretações a fatos históricos e chegando a parafrasear o Evangelho em alguns casos, mostrando distintos “ensinamentos” de determinadas passagens bíblicas, tal como a expulsão dos mercadores do Templo de Deus, utilizando-os como argumentos para justificar a violência e fortalecer a imagem do “Cristo guerrilheiro”, criada pelos “cristãos revolucionários”.

Essas concepções, porém, não deverão ser apresentadas em formas puras, uma vez que o povo não as aceita na medida que provoquem uma mudança traumática. Para isso, devem ser apresentadas como combinações, explorando “a crise intelectual e a perda da fé na concepção que se deseja mudar”.

Por isso, diz Gramsci, não se deve enfrentar frontalmente a Igreja Católica, e sim criar os enfrentamentos em seu seio. Enfrentamentos que não sejam apresentados como provocados por causas exógenas e sim endógenas.

Acrescente-se que o marxismo de Gramsci se apresenta como uma interpretação “filosófica” distinta do marxismo conhecido. Não há filosofia e práxis; existe uma igualdade entre pensamento e ação ao ponto em que tudo é considerado ação. Em conseqüência, a “filosofia da práxis” deve ser elaborada partindo de uma equivalência entre filosofia e política, e deverá ser construída como ciência da história, posto que filosofia e história são indissociáveis. Diz Gramsci que “a filosofia da práxis supera as precedentes, por isso é original, especialmente porque abre uma via completamente nova, ou seja, renova totalmente o modo de conceber a filosofia mesma”.

Quanto ao papel dos intelectuais, ele deixa claro que a tarefa de agente da mudança na nova concepção de mundo não pode ser desenvolvida pelos intelectuais burgueses, considerados “o elo mais débil do bloco burguês”. Devem surgir “novos” intelectuais da massa do povo. Dessa forma, a tarefa a ser desenvolvida por essa “nova” elite será a de formar uma vontade coletiva e lograr a reforma moral e intelectual, agregando que uma reforma cultural que eleve os extratos submersos da sociedade não pode ocorrer sem uma prévia reforma econômica e uma mudança na sua posição social. Por isso, afirmou que “uma reforma intelectual e moral tem que ser vinculada forçosamente a um programa de reforma econômica”