
Recebi
no final da semana passada uma transcrição da entrevista feita por
Geraldo Samor, do Podcast Rio Bravo, com o autor do livro “História do
Brasil com Empreendedores”, Jorge Caldeira, lançado pela Editora
Mameluco no final do ano passado. Ele também foi autor do livro “Mauá,
empresário do Império”, publicado pela Companhia das Letras. Uma crônica
sobre a ascensão e queda do empresário Irineu Evangelista de Souza, a
construção de seu império e a bancarrota que resultou de sua perda de
apoio político.
Nessa entrevista mostra aspectos interessantes sobre o nascimento do
empreendedorismo no Brasil depois da colonização e põe em xeque a
história contada de que éramos um país baseado basicamente por produções
latifundiárias com mão de obra escrava. Um conteúdo interessante para
quem busca entender as raízes e origens do empreendedorismo brasileiro.
Para quem achar mais agradável ouvir a entrevista, basta entrar no link
www.riobravo.com.br/podcast/podcast140.mp3 para cair diretamente na página do podcast, ou ficar por aqui e ler a entrevista na integra… boa leitura!
Jorge, o título do seu livro me faz lembrar aquela época no
regime soviético em que os desafetos do regime eram apagados das fotos. O
empreendedor brasileiro foi expurgado dos livros de história ao logo do
tempo?
Olha, em alguma medida, é verdadeiro que a cultura brasileira é uma
cultura que não reconhece o papel do empreendedor. Esse livro, “História
do Brasil com Empreendedores”, trata basicamente do período colonial –
portanto, do período anterior ao capitalismo -, um período que o Marx
chama de acumulação primitiva, onde a economia era mercantilista, mas
aonde a figura do empreendedor era essencial. E essencial para entender o
que é o Brasil, pra gente pensar o que é o Brasil. Então, não é só uma
questão de economia, mas é uma questão de como pensamos em nós mesmos. E
as duas coisas estão muito interligadas, porque o livro trata de um
aspecto que é um conjunto de dados que economistas, que fazem história
econômica com métodos quantitativos em geral, foram reunindo ao longo
dos últimos setenta anos que mostram as seguintes tendências: primeiro
lugar, a economia da colônia Brasil entre 1500 e 1822 cresceu num ritmo
maior do que a economia da metrópole Portugal. A economia mercantil do
Brasil era nada em 1500, e era bem maior do que a de Portugal – ainda há
discussões sobre números precisos -, mas há certeza absoluta de que era
maior em 1800.
Num regime de monopólio comercial entre metrópole e colônia, só tem
um jeito do crescimento da economia da colônia ser maior do que o da
metrópole, que é: os setores não exportadores, na relação com a
metrópole, serem mais dinâmicos e terem taxas de crescimento maiores do
que aqueles que ligam a colônia à metrópole via exportação. Isso, eu
acho que nenhum historiador econômico hoje discorda desta primeira
característica. A segunda característica, que é quantitativa, medida, e
que eu também acho que é senso comum entre os historiadores de economia
hoje, é a de que a pequena unidade produtiva – não necessariamente
propriedade, porque havia gente que tinha pequenas rochas em propriedade
alheia, mas isso era reconhecido – era a forma dominante de produção
econômica e a forma dominante no mercado interno. Quantitativamente,
como que é isso? Por volta de 1800, 62% a 70% da população… Dependendo
se você considerar os índios uma população livre, e obviamente eles eram
assim considerados na época e eu acho que é correto, pois faziam parte
da economia brasileira… Então, 70% da população total, era população
livre. Esta população livre tinha um conjunto muito grande de unidades
produtivas, basicamente era uma coisa quase familiar – a dimensão de um
negócio típico de 1800, era uma dimensão familiar. Então, o grosso da
população brasileira dedicava-se a pequenas explorações sem escravo e,
entre 2/3 e ¾, todas as unidades produtivas eram unidades produtivas
familiares sem escravos. Ou seja, a produção brasileira básica de 1800
era desta gente. Todos, ou praticamente todos, empreendedores que
dominavam, tinham seus meios de produção – no jargão marxista -, e eram,
portanto, trabalhadores livres – no sentido marxista -, que produziam,
dominavam o circuito da sua produção e recebiam, como lucro, com a venda
da sua produção.
Então, isto é a imensa maioria da população em 1800.
Eram empreendedores principalmente agrícolas?
De todos os tipos: agrícolas, de transportes, com tropas, de
artesanatos, de várias profissões… As unidades não eram muito maiores do
que uma família, então, tudo que a família conseguia fazer, em geral,
entrava na produção e era um pouco de tudo – era pouco especializado.
Mas esta era a base produtiva da colônia, a base da dinâmica da
economia colonial. Segundo lugar: alguma coisa como 1/3 das unidades
produtivas tinham escravos, só que, na imensa maioria dessas unidades,
eram de cinco escravos para menos. A média de escravos por proprietários
na economia colonial era de cinco. O que quer dizer que, ao lado da
família ou do empreendedor que produziam sem escravos, tinha o que
tinha: um ou dois escravos e uma unidade econômica pequena. Isso chega a
90% do total das unidades produtivas e é nessas unidades – basicamente,
empreendedoras – que estava a dinâmica toda da economia colonial. E era
uma dinâmica mercantil. Não era capitalista, no sentido que você não
tinha trabalho assalariado, mas era mercantil; era produção para o
mercado. Todas essas unidades produziam para o mercado – em grau maior
ou menor – e esta produção somada é que dava a dinâmica imensa da
economia colonial brasileira. Não era o setor exportador.
Você tinha também toda a acumulação de capital dentro desse circuito.
A acumulação ia do índio que trocava o machado de ferro por algodão, ou
o que seja, até a economia monetizada. Tudo era troca de mercadorias.
Então, você tem uma economia mercantil ativa e é aí que está a dinâmica
real da economia colonial. E você tinha grande propriedade com muito
escravo em lugares muito limitados, e algumas ligadas ao setor
exportador. Outras, não necessariamente. Tinha muita coisa ligada ao
transporte, porque tinha grande escravidão em algumas unidades
mineradoras – que não exportavam ouro, mas o produziam para virar moeda
da economia colonial.
Então, isto é o retrato de uma dinâmica econômica baseada numa figura
que era o empreendedor, aquele que veio para a América para enriquecer,
e não, um membro da sociedade feudal, porque estamos falando de um
período em que a Europa era feudal, onde as pessoas morriam na posição
social em que nasciam. E esse, que vinha de fora, se juntava a outro
igualmente empreendedor que era, basicamente, o índio que deixava de
lado sua cultura local para se associar via casamento ou via aliança com
esse que chegava de fora. Os dois juntos, com o sentido empreendedor:
você aceitar o de fora é você aceitar novidade na vida, aceitar crescer,
subir na vida.
Este encontro propiciou um Brasil empreendedor. Isso é o primeiro
cenário do livro, que é o cenário que trata de economia. O segundo ponto
que o livro trata é: as interpretações que nós brasileiros fazemos de
nós mesmos. Nós nos interpretamos de um modo soviético. De uma realidade
econômica que é dinâmica e empreendedora, nós recortamos fora essa
figura, por algum processo. Que processo é esse? Aí, eu estudo
interpretações do Brasil que foram criadas durante o século XIX e século
XX. Eu paro tudo em uma interpretação criada no século XX pelo Caio
Prado Júnior, que é considerado o fundador da interpretação marxista de
história do Brasil, e que basicamente diz o seguinte: o primeiro é um
livro que se chama “Evolução política do Brasil”, onde ele diz que o
atraso central do Brasil se deve ao fato de ter sido uma sociedade
organizada em latifúndios de grande produção – onde o trabalho escravo
era central -, e aonde a produção para o mercado ainda era marginal. O
mercado interno ainda existia e era marginal. E, num segundo livro,
chamado “Formação do Brasil Contemporâneo”, que é de 1942, ele introduz
um acréscimo a ideia do latifúndio, transformando no latifúndio o
agrário exportador e um conceito de sentido da colonização que, além de
latifundiária, a produção era organizada para fornecer mercadorias
baratas para o mercado externo – o que deixava o mercado interno
marginal, que nunca se desenvolveu. E o atraso posterior ao período
colonial se deve à herança colonial que teria sido, esta, de uma
organização latifundiária da produção.
Como você pode ver, essa é uma interrelação que confronta os dados de
conhecimentos atuais. Quando ela foi feita, em 1933, não existiam esses
dados de pesquisas que eu dei, de pequena propriedade, tamanho, volume,
capacidade de produção, o PIB do Brasil… Nada disso era conhecido. Mas a
hipótese pegou. E a interpretação é vigente. Hoje, é quase a língua
oficial; é como nós entendemos a história da colônia.
A ideia de que a herança colonial transformou o brasileiro num povo menos empreendedor.
Não só isso, como que o mercado externo e a escravidão eram os
fundamentos, e não o trabalho do empreendedor e a economia livre –
mercantil, ainda, mas livre.
Você descreveu o europeu que veio para o Brasil como um
empreendedor. Ele e o índio, juntos, formaram essa cultura de
empreendedorismo. Mas, em que medida, também, havia muitos europeus no
Brasil que vieram para cá em busca de um cartório?
Como se pode definir de maneira mais ampla o que é o empreendedor? É
alguém que quer, durante a sua vida, construir algo que seja seu próprio
destino. Quer dizer, ele não se conforma com o destino de nascimento e
constrói algo melhor para si mesmo, constrói seu próprio destino,
construindo uma obra que, em geral, gera uma posição melhor, gera
enriquecimento – que seja do espírito ou material.
Esse é o conceito amplo de empreendedor. Em 1500, para qualquer
pessoa que saía da sociedade feudal e vinha fazer a vida em outro lugar,
estava empreendendo. Comparada à época medieval – onde não existia
cartório, aliás -, você mudar de vida era muita coisa. Você veio
recomeçar e veio fazer alguma coisa para enriquecer. Do mesmo modo, isso
vale igualmente para os índios que aceitavam a chegada dessa outra
pessoa; está mudando o seu destino tradicional e trocando por um destino
que vai ser construído naquele momento que eu estou vivendo por uma
aliança.
Então, é isto que dá dinâmica para a economia brasileira até hoje. O
importante disso é perceber que isso não é só uma questão de ideias. É o
PIB, a composição da economia, a economia real, o existente,
imensurável.
O livro estabelece uma relação entre a produção intelectual
do Caio Prado Júnior, um dos grandes historiadores brasileiros, morto em
1990, e o de Oliveira Vianna, um historiador conservador. Que
semelhanças são essas e por quê elas são importantes do ponto de vista
histórico?
O que é real é empreendedor, pequena propriedade e uma grande
mercantilização da economia, se comparada à de Portugal. Isto é ao
contrário da percepção que latifúndio, classe dominante, escravidão e
desigualdade social… O ponto, aí, que eu analiso é: de onde veio essa
ideia? São ideias dominantes sobre o passado que não têm nada a ver com a
realidade conhecida hoje.
Então, a primeira ideia dominante no passado, mais conhecida, é essa
vertente do Caio Prado que atribui esta ideia, que atribui a latifúndio,
que diz o seguinte: isso é uma análise marxista da história; o
conhecimento de Marx gerou esta interpretação. Isso diz o Caio Prado, de
si mesmo, e assim ele é reconhecido. Como essa interpretação não batia
com a realidade, pensei: “Espera aí, o Marx não tem um pensamento que
gere esse tipo de coisa”. Então, fui lá ver o que o Caio Prado conhecia
de Marx. Quase nada, quando escreveu o primeiro livro. Mas então, como
que ele inventou uma interpretação do Brasil? Nasceu sabendo? Foi uma
intuição genial? Aí, fui ver com quem que ele tinha estudado e ele, na
verdade, o Caio Prado foi discípulo do Oliveira Vianna, que é um
pensador conservador. “Conservador” no sentido claro do conservadorismo
do império: alguém que pensa que o Estado está acima da sociedade; que a
sociedade, no Brasil, não tem forma; que tudo que acontece de
civilizado no Brasil, foi o Estado que fez. Este senhor, Oliveira
Vianna, em 1922, escreveu um livro chamado “Evolução do povo
brasileiro”. Desse livro – que existe em dois capítulos separados – vem
dele a ideia de que o senhor local, que é o inimigo do Estado central, é
o problema do Brasil. Porque ele é o coronel, o mandão, o
latifundiário. Ele criou a figura do latifundiário como a explicação do
Brasil, durante a República Velha, para dizer que o federalismo, o
empreendedorismo, liberdade de capitais – que eram os perigos da
República Velha – eram não as razões do progresso do Brasil, mas as
fontes do atraso do Brasil.
Esse discurso do Oliveira Vianna foi, senão copiado, mas apropriado
pelo Caio Prado Júnior quase na íntegra. No meu livro tenho um capítulo
de dez páginas que são cinco páginas de parágrafos do Oliveira Vianna,
de “Evolução do povo brasileiro”, cinco páginas de parágrafos de
“Evolução política do Brasil”. Um posto do lado do outro para ver que a
argumentação é essencialmente semelhante num grau muito alto. O Caio
Prado já tinha citado Oliveira Vianna antes, e etc. Não é só o marxismo
que tem a ideia de que o passado é latifundiário: o pensamento
conservador brasileiro. E aí, a ideologia econômica conservadora
brasileira, que é uma ideologia econômica de restrição monetária, de
viver em um padrão ouro, não deixar manter o controle da vida financeira
no Estado ao modo do antigo regime. Esse aí é o ponto central. Eu vou
ao Oliveira Vianna, percorro desde o século XVIII, ao chamado pensamento
corporativo. Que a metáfora desse pensamento central é: a sociedade tem
uma cabeça, que é o Estado, e a sociedade é um corpo que cumpre as
ordens do Estado; tudo que é inteligente, vivo, humano, bom, da
sociedade, está no Estado e o resto é resto, para cumprir ordens do
Estado e obedecer aquilo que emana da cabeça. Esta metáfora é a base do
pensamento corporativa e é a base do pensamento do Oliveira Vianna. É
desta herança que o Caio Prado extraiu suas ideias.
Essa herança é antigo regime, é Aristóteles. A ideia de que o poder é
sagrado, de que o poder está acima da sociedade não tem nada a ver com o
poder do governo. Esta mistura entre pensamento conservador e marxismo
que é interpretação corrente do passado brasileiro hoje. E esse livro
ataca de frente isto, porque não corresponde a fatos observáveis; isto é
uma ficção ideológica, seja na sua vertente conservadora, seja na sua
vertente marxista.
E é disso que o livro trata. Primeiro, mostrar como era economia.
Segundo, por quê que essa interpretação que não tem nada a ver com os
fatos é tão dominante e por quê que isso é feito. Aí, tem a parte final
do livro que é analisar qual eram as articulações na sociedade
brasileira, na sua base, que faziam uma economia mercantil empreendedora
pujante. E aí, eu começo das sociedades nativas que participavam da
economia, participavam do sistema de troca, até passando pelos
sertanejos populares e muito esquecidos daquela época que faziam tudo
por fiado. Quer dizer, as pequenas unidades produtivas como o poceiro, o
agregado, os pequenos todos, se financiavam por fiado. Ou seja, era uma
economia de trocas mercantis, mas não de circulação de moeda. Tinha
muito mais troca mercantil do que circulação de moeda, mesmo depois da
presença do ouro na economia local. E com a presença do ouro, a partir
de 1700, isso se ampliou. Aí sim, ele já era quase empresário porque o
empreendedor, em geral, não tem capital nenhum; seu capital é o seu
trabalho.
A partir do século XVIII você já tem muito empresário que mistura a
posse de capital com o trabalho de empreender, que faz atividades de
maior porte. Então, é basicamente esse o escopo do livro.
Mesmo assim, o brasileiro sendo majoritariamente
empreendedor, o espírito de cada tempo afeta a propensão a empreender,
não? Por exemplo, hoje, tem muita gente estudando para passar em
concurso público porque um cargo no Estado ainda é visto como
estabilidade. Estas pessoas querem estar estáveis mesmo em uma economia
que muda a cada cinco anos, com a tecnologia e tudo. O futuro pertence a
esses que empreendem ou a esses que querem se juntar às tecnocracias?
Acho que hoje a gente precisa começar a discutir esses dois
objetivos. A ideia desse livro – não é aplicado a ele, porque o livro só
trata de economia colonial… Mas, claramente, um entendimento novo do
passado permite entender de um modo novo também os problemas atuais. Eu
diria que a propensão a concurso público é protegida se você concorda
com a ideologia de que o Estado está acima dos outros, então, ele
arregimenta em condições melhores e dando privilégios porque ele está
acima dos outros. Na versão conservadora ou na versão “de esquina”,
porque só o Estado produz igualdade. Se não tiver isso, ele só tem
desigualdade. A condição natural do capitalismo é fazer desigualdade.
Essas duas coisas precisam ser mudadas, ser discutidas. É assim mesmo? É
esta a proporção das coisas?
A sociedade brasileira de hoje tem 10% das pessoas formadas na
universidade. É uma sociedade que vai ser definida como uma sociedade de
dependentes? A população que está, finalmente, chegando perto dos 100%
na escola é uma população incapaz de tomar decisões e reconhecer seus
próprios interesses ou é uma população confiável? E, finalmente, acima
de tudo, uma questão política: o governo está acima da sociedade, como
dizia a filosofia política do antigo regime, ou o governo é
representação da sociedade? O eleito recebeu um mandato que vem da
sociedade e deve satisfações à ela; ele não passa a se fingir de rei ou
populista. Essa é a pergunta.
Não te parece um contra senso que, em uma economia que tem
crescido muito e que tem gerado e distribuído renda, que ainda tenha
tanta gente fascinada com o Estado como provedor de tudo?
Acho que é muito mais fascinante se você pensar o contrário. Quer
dizer, no começo dos anos 90 se dizia o seguinte: qualquer abertura da
economia brasileira – dada o nosso baixo grau de educação, baixa
capacidade do povo, etc. – ia levar a um desastre porque não teríamos
condição de reagir à novas tecnologias e coisas do gênero. Fez-se uma
abertura imensa que foi saudada por todo mundo que comprou um celular,
por todo mundo que aproveitou a condição da moeda e quem lida com
informática é o pobre na lan house, não é a elite. Quem tem mais
Facebook e participação nas redes sociais? Brasileiros pobres… A ideia
de que a gente não aguenta a globalização …ao contrário, o Brasil é uma
nação globalizada por dentro. São raras as pessoas no Brasil que têm a
virtude de saber que causas como: estabilidade, abertura, competição
real e exposição ao progresso, são causas que o brasileiro comum abraça
com a maior tranqüilidade. E quem apostava nessas coisas nos anos 90,
viu um outro mundo acontecer com abertura e estabilidade.
O que a gente não entende é: de onde vêm esses valores? De onde vem
essa crença? Porque as explicações sobre o Brasil conservadoras iam
nesta vertente marxista, vindas pela ideia do latifúndio e o trabalho
escravo são, amplamente majoritárias, da elite. Mas não na realidade.
Muita gente vê paralelos entre a trajetória do Barão de Mauá e
a do empresário Eike Batista. Você escreveu o livro. Que paralelo você
acha que existe?
Olha, eu não conheço a estrutura dos negócios do Eike Batista como eu
conheci e estudei – e levei anos para entender – a estrutura dos
negócios do Mauá.
O Mauá é uma figura que, em vida, foi personagem do Júlio Verne como
um homem de visão. Quer dizer, em “Da Terra à Lua”, está lá escrito no
livro, na época que o Mauá era vivo. Um visionário que queria ir para a
lua e que precisa de financiamento. E aí, uma figura vai lá e avisa:
“Olha, você vai conseguir financiamento com os homens que vêm o futuro,
pois lá, doze homens que vêm do futuro e um deles é o Barão de Mauá, no
Rio de Janeiro”.
Então, eu não sei se hoje as coisas têm esta dimensão, o maior
problema é saber se ele vai, um dia, chegar a algo como isto. O Eike
está construindo. E não se sabe aonde vai chegar essa construção. O Mauá
já tinha construído quando isso foi escrito. Quer dizer, o império de
Mauá era uma coisa que já tinha forma e alguma substância. Não eram
coisas que estavam só em projeto, ainda.