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domingo, 6 de fevereiro de 2011

“Há lugares em que as universidades católicas atingiram uma qualidade exemplar” afirma o secretário da Congregação para a Educação Católica

Publicado 2011/02/04
Autor: Gaudium Press
Secção: Mundo
Cidade do Vaticano (Sexta-feira, 04-02-2011, Gaudium Press) O que distingue uma universidade católica das demais instituições de ensino? Qual o papel do Magistério pontifício, na Igreja e na sociedade civil? A moral cristã está em crise? O secretário da Congregação para a Educação Católica, arcebispo Dom Jean-Louis Bruguès esclarece para os leitores estas e outras questões da atualidade.
O cardeal Zenon Grocholewski recordou recentemente a necessidade das universidades católicas conservarem sua própria identidade. Poderia expor-nos as dificuldades que elas enfrentam para manter suas características em um mundo secularizado?
Dom Bruguès - Com frequência, pergunto-me qual é atualmente o primeiro desafio, ou o desafio mais importante, lançado ao ensino católico, tanto superior, nas universidades, quanto nas demais escolas. E respondo: vivemos em sociedades pluralistas. Pluralistas do ponto de vista cultural e religioso, e quanto mais se manifesta esse pluralismo, mais cada um de nós se volta para sua identidade: "Quem sou eu no meio de todos os outros?". A questão da identidade é pois, mais premente, mais relevante hoje do que há vinte ou mesmo quarenta anos.
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Portanto, nossas instituições têm diante de si uma escolha. Antes de tudo é necessário dizer que a maior parte delas goza de boa reputação, por sua excelência em matéria de formação, do acompanhamento pessoal, do nível científico atingido. As escolas e universidades católicas são apreciadas, um pouco por toda parte, no mundo inteiro, e isso é um motivo de ufania para nossa Congregação. Se elas, entretanto não visam senão a excelência, surge logo a pergunta: "O que diferencia uma escola ou universidade católica de outras escolas?".
Não se trata, portanto, de conservar a identidade, mas de reencontrá-la nesse novo contexto. No fundo, a identidade católica é essa mescla - magnífica, mas também difícil - entre a abertura para o universal e a confissão de uma Fé particular, que é a Fé Católica.
Segundo a Constituição apostólica "Ex Corde Ecclesiæ", as atitudes e os princípios católicos devem impregnar toda a vida das universidades católicas...
Dom Bruguès - Isso varia muito de acordo com os países. Diria eu que há dois pontos nos quais a identidade católica se manifesta com predileção.
O primeiro é o do ensino. Desejamos que todas as universidades católicas - nas quais ninguém é obrigado a matricular-se - deem de forma obrigatória a todos os seus alunos uma formação em antropologia cristã, em ética cristã e uma pequena iniciação à teologia. Não para forçá-los a se tornarem católicos - eles não se deixariam forçar -, mas para dizer-lhes: "Temos uma tradição, uma visão do mundo, da sociedade, da História, e a comunicamos a vocês. São livres para a aproveitarem como lhes parecer melhor". Respeitamos, portanto, a liberdade de consciência.
Há um segundo ponto, o qual eu denominaria de "pastoral": uma universidade católica é um local onde se deve poder rezar, deve-se poder celebrar o mistério cristão. Portanto, é preciso haver nela uma capela de acesso fácil e constante ao público que assinale o centro vital e simbólico ao mesmo tempo.
Eu acrescentaria que em toda universidade católica é necessário encontrar uma faculdade de teologia. A iniciação à cultura cristã e à visão cristã do mundo e da sociedade compete de modo privilegiado à faculdade de teologia, que deveria proporcionar ensinamentos a todas as outras faculdades da universidade.
A "Ex Corde Ecclesiæ" estimula uma íntima relação entre as atividades de uma universidade católica e a missão evangelizadora da Igreja. Não lhe parece haver ainda, sob este aspecto, um longo caminho a percorrer?
Dom Bruguès - Mais uma vez, isso depende dos lugares. Não sei se devo mencionar nações, mas, afinal, há um ano e meio viajei ao Chile, visitei cinco universidades católicas e fiquei fascinado pela qualidade daquilo que eu via. Ou seja, instituições que, do ponto de vista da competência profissional, figuravam entre as melhores do país, a tal ponto que, quando se preparava uma reforma educacional, de bom grado os ministros se dirigiam a elas para solicitar sua opinião.
Eram também instituições nas quais a identidade cristã estava marcada de modo imediato e simples. Chegando de improviso a uma delas, num dia de semana, quis presidir a celebração da Missa, sem que os alunos tivessem sido avisados. Havia 800 deles na capela... Portanto, há lugares onde nossas universidades católicas atingiram efetivamente uma qualidade que eu chamaria de exemplar.
Nem todas chegaram a esse grau, mas, nos meus quase três anos de trabalho na Congregação, constato que há um movimento geral - mais ou menos rápido, mais ou menos profundo, conforme o lugar - rumo à reafirmação da identidade cristã nas sociedades tais como hoje elas evoluem.
Quais são as principais qualidades que deveriam ornar o professor universitário em nossos dias?
Dom Bruguès - Veja, os docentes de uma universidade católica não são todos católicos. Então, devemos pedir-lhes que, no mínimo, tenham boa vontade em face da tradição católica e, por exemplo, não a critiquem. Mas, com relação aos professores que se apresentam como católicos, somos sensíveis não somente ao que dizem, mas também ao que fazem. O professor católico precisa, pois, aliar a qualidade do ensinamento transmitido à qualidade de vida, ao testemunho de vida e à confissão de sua fé pessoal.
O "Processo de Bolonha" tem exigido bastante atenção da Congregação para a Educação Católica nestes últimos anos. Em que consiste esse Processo?
Dom Bruguès - O Processo de Bolonha começou há quase dez anos e chegamos ao fim da primeira etapa, da primeira década. Em sua origem se restringia aos países da Europa, em número de 27, mas ao longo dos anos outras nações se interessaram por ele, de modo que hoje são 47 os países envolvidos.
Seus objetivos são simples de enunciar (quanto a realizá-los, já é outro problema): a padronização dos diplomas, de tal forma que em todos os países participantes do Processo de Bolonha - sobretudo os que assinaram a Convenção de Lisboa - os mesmos diplomas correspondam ao mesmo nível de estudo, e os estudantes possam, caso desejem, passar de um estabelecimento para outro, de uma universidade para outra ou de um país para outro. A primeira preocupação é portanto, a padronização dos diplomas, para chegar à segunda preocupação: a fluidez ou mobilidade, tanto dos estudantes quanto dos professores.
Pode-se dizer que, ao fim de dez anos, é notória a mobilidade dos estudantes, embora ela pudesse ser maior. A dos professores é mais problemática.
O que está em jogo aí para a Igreja? Quais as esperanças da Congregação a esse respeito?
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Dom Bruguès - A Igreja entrou nesse Processo não como Igreja, pois ele envolve apenas países, mas como Estado. Pois bem, o Estado da Santa Sé ingressou nele desde o início. Evidentemente, o proveito que esperamos tirar daí é, em primeiro lugar, que uma cultura de qualidade caracterize nossas universidades, como deve caracterizar as universidades dos países abrangidos. Só isso já representa uma vantagem e um estímulo para nós.
Esperamos também, evidentemente, que os estudantes formados em nossas universidades possam ter seus diplomas reconhecidos em outros países. Isto implica que o Processo de Bolonha seja concretizado por acordos de país a país. Por exemplo, a Santa Sé e a República Francesa assinaram em dezembro de 2008 um acordo de reconhecimento dos diplomas e dos títulos.
Há desafios especialmente notórios a destacar, para tornar efetivo esse plano?
Dom Bruguès - Estamos criando uma consciência em nível europeu, antes de chegar a uma consciência universal. Os estudantes entram de bom grado nesse Processo, mas os Estados são mais reticentes. Por quê? Porque possuíam mais ou menos, até agora, um verdadeiro monopólio dos diplomas. Ora, entrar nesse Processo é alienar uma parte de sua soberania em matéria educativa, e isso, evidentemente, não é fácil em países que têm - digamos assim - tradições jacobinas.
E os dirigentes de universidades, como correspondem às oportunidades oferecidas pelo "Processo de Bolonha"? Como acolhem as novas perspectivas?
Dom Bruguès - Nossas universidades caracterizam-se pela liberdade de pensamento e de expressão. Assim, perante o Processo de Bolonha, encontramos nelas um leque extremamente amplo de reações, desde o entusiasmo até a reserva.
Julgo que hoje a situação está mudando. Com efeito, nossos estabelecimentos começam a perceber o interesse dessa padronização, dessa fluidez, pois, por exemplo, a teologia - que aparecia anteriormente, digamos, como uma ciência de sacristia - tornou-se hoje uma ciência de interesse geral, como a medicina ou a engenharia. Percebe-se, pois, o mérito desse Processo. Mas, podem-se medir também as dificuldades de aplicação. É preciso, por exemplo, que os créditos sejam os mesmos por toda parte, com o mesmo número de horas, e isso implica revisões talvez difíceis de fazer.
Considerando encíclicas como a "Humanae vitae", de Paulo VI, e a "Veritatis splendor", de João Paulo II, como V. Excia. descreveria o papel do Magistério na ética das últimas décadas?
Dom Bruguès - Precisamos distinguir entre o papel do Magistério na Igreja e nas sociedades civis. O que se denomina doutrina social da Igreja é, na realidade, uma doutrina moral sobre a família, a vida econômica, política, social, e também a cultura. A Veritatis Splendor traz uma novidade considerável, pois é uma encíclica na qual, pela primeira vez na história da Igreja, são tratados os fundamentos da moral.
O papel do Magistério no interior da Igreja - apoiando-se evidentemente na palavra de Deus, mas também na lei natural - é de propor ao Povo de Deus, bem como a todos os homens de boa vontade, princípios gerais de conduta de vida, além de normas concretas e particulares. Este segundo aspecto é que havia dado matéria ao "dissentimento", ao "dissensões dos teólogos", nos anos 70-80, e a Encíclica procura precisamente dar resposta a esse dissensus. Nas sociedades civis - amplamente secularizadas e amiúde multiculturais, pluralistas, do ponto de vista religioso -, eu diria que o Magistério é quase sistematicamente criticado e questionado. Uma sociedade secularizada é aquela que não consegue admitir Magistério algum, sobretudo se ele é de natureza religiosa, pretendendo exprimir princípios e normas em nome de uma referência superior ao século, fazendo - digamos - apelo a uma transcendência, quer seja religiosa, quer seja metafísica. Portanto, ela não criticará o Magistério apenas por afirmar tal ou qual proposição que não lhe agrada, mas por se pronunciar como Magistério. Isto é o aspecto crítico e inevitável. Evidentemente, os órgãos da mídia, muitos dos quais se consideram o novo magistério das sociedades secularizadas, serão os mais críticos em face de qualquer magistério, em especial o religioso.
Ao mesmo tempo, porém, constato ser a Igreja hoje muito mais interrogada do que no passado, como se ela permanecesse uma referência nas gerações que se questionam sobre o sentido da vida; talvez mesmo a referência, que se pronuncia a respeito das questões fundamentais do sentido da vida.
Que relações podemos encontrar entre o "Catecismo da Igreja Católica" e a "Veritatis splendor", na via teológica e pastoral da Igreja?
Dom Bruguès - Uma encíclica procura dar resposta a problemáticas limitadas. Limitadas no tempo e por vezes no espaço. É este o caso da Veritatis splendor, dirigida, sobretudo às opiniões correntes no meio católico anglo-saxônico. Portanto, uma encíclica - exceto se tiver uma importância de primeiro plano - não durará por vários séculos. Seu objetivo é de fato a atualidade.
O catecismo é totalmente diferente: ele visa pôr à disposição do povo de Deus, e de todos os homens interessados na cultura cristã, o patrimônio moral acumulado ao longo dos séculos, e mesmo dos milênios, e que engloba também o patrimônio de sabedoria da humanidade. No fundo, o catecismo é um compendium - é este o termo que tinha sido escolhido -, um compendium de sabedoria, não somente para os cristãos, mas também para os não cristãos. Um catecismo deve durar muito tempo, como foi o caso do catecismo anterior. Logo, se nele forem introduzidas noções muito atuais, em pouco tempo ele estará ultrapassado.
Como deveria ser abordado hoje o ensino da Teologia Moral, nos seminários e em nível pastoral?
Dom Bruguès - Penso que estamos passando de um modelo para outro. Diz-se por vezes que a moral cristã está em crise. Não creio tratar-se de uma crise, pois a crise assinala um paroxismo após o qual as coisas se restabelecem. Ora, o que aqui se denomina "crise" é na realidade um fenômeno já muito longo, de vários decênios... Prefiro falar de ruptura.
No fim do século XVI e início do século XVII instalou-se - primeiro na Igreja, depois nas outras confissões cristãs, mas também mais tarde, com Kant, nas sociedades - um modelo, denominado o modelo das morais de obrigação: "Por que proceder de tal ou tal maneira?". "Porque isso é necessário em nome do Bem". Parece-me que esse modelo - o qual, repito, reinou tanto na Igreja quanto nas sociedades modernas - está desaparecendo, e andamos à procura de um novo. Se eu retomasse expressões de Michel Foucault, diria que estamos passando de uma ética do código para uma ética da construção de si. No fundo, a moral é aquilo que permite ao homem aceitar-se a si mesmo, construir-se, depois dar-se, numa sociedade mais justa e fraterna. E creio que vivemos um período difícil e apaixonante ao mesmo tempo, pois mudamos de modelo e, evidentemente, é preciso tempo e tato para apreender esse novo modelo.
Portanto, eu desejaria que nos seminários se apresentasse a moral não apenas sob o ângulo das obrigações, mas também sob o da arte de viver, de uma estética da existência, digamos, de uma sabedoria.
Pe. Louis Goyard, EP

Cristãos devem defender a fé e atuar nas universidades

 Leonardo Meira e Nicole Melhado

Da Redação

Professor Felipe Aquino e padre Paulo Ricardo falam sobre importância de cristãos estarem presentes nas universidades
A Universidade molda a cultura de um povo, pois é dela que saem os profissionais que ajudam a formar o rosto da sociedade. Por isso o apresentador do programa Escola da Fé da TV Canção Nova e escritor, professor Felipe Aquino, defende que os cristãos não apenas podem, mas devem marcar presença nos bancos universitários.

“É muito importante que essas pessoas sejam formadas também pela óptica cristã. Se nós não evangelizarmos a universidade os profissionais saem dela adversos a Igreja, alguns até anti-cristãos, combatendo a Igreja”, enfatiza o professor.

Acesse
.: Podcast: Entrevista com o professor Felipe Aquino

A falta de conhecimento ou uma leitura equivocada da história faz com que muitos jovens tomem uma posição hostil perante a Igreja. Segundo o professor Aquino, muitos professores, especialmente nas áreas das ciências humanas, mostram muitas vezes os erros dos filhos da Igreja como a Inquisição, o caso de Joana d'Arc, de Galileu Galilei, as Cruzadas, fora de um contexto histórico, analisando o passado com a mentalidade do presente, o que é um erro histórico crasso, onde se comete uma injustiça muito grande.

Além disso, muitos professores universitários esquecem de mencionar as maravilhas que a Igreja fez e os grande cientistas da Igreja  e  os grandes homens que salvaram o ocidente como São Leão Magno e como São Gregório Magino.

“Ai a importância dos cristãos atuarem nas universidades de modo a mostrar o que de fato é a Igreja: A instituição que mais fez caridade na história do ocidente, que fundou as universidade e que salvou a civilização ocidental depois que o Império Romano desabou nas mãos dos bárbaros”,  explica Aquino.

A Igreja fundou as grande universidades do mundo como Bolonha na Itália, Oxford e Cambridgena Inglaterra, Sorbonia na França, La Sapienza na Itália, entre outras. Mas infelizmente, salienta o professor, as universidades foram dominadas por muito acadêmicos que são contra a Igreja  e o racionalismo, o iluminismo, o positivismo penetraram no meio acadêmico, e a cultura marxista do século XVII e XIX  tomou conta das universidade. “Uma cultura materialista e ateísta que não se coaduna com a fé católica de forma alguma, transformando as universidades em ambientes anti-católicos”, ressalta.

O que o professor Felipe Aquino propõe não é uma guerra santa, mas mostrar o lado importante da Igreja na história do mundo. Ele lembra que exitem boas universidades católicas, mas muitas só permanecem católicas no nome. Mas para avivar o cristianismo no meio acadêmico o professor destaca o grande contributo da atuação do movimento Universidades Renovadas e de encontros como aquele que a Canção Nova promove neste fim semana.

Este é o terceiro ano consecutivo que a Canção Nova sedia um Aprofundamento para Universitários. O tema do encontro deste ano é "A quem você quer servir?". Além do professor Felipe Aquino, outra presença confirmada no Aprofundamento é a do vigário judicial da Arquidiocese de Cuiabá (MT) e apresentador do programa Oitavo Dia da TV CN, padre Paulo Ricardo.

O objetivo desse evento é auxiliar esse público a entender que entre fé e razão não há nenhuma barreira, mas uma harmonia natural.

Aquino ressalta que que fé e razão vieram de Deus, pois Ele criou as leis da natureza e deu a fé aos homens, dessa forma um aspecto complementa o outro. “Durante 40 anos fui professor universitário, fiz mestrado, doutorado, pós doutorado, na Unesp, USP e ITA, e nunca senti uma oposição entre a fé e a razão, muito pelo contrário, uma fazia crescer a outra”, testemunha o professor.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A UNIVERSIDADE À LUZ DA FILOSOFIA CRISTÃ Côn. José Geraldo Vidigal de Carvalho



Introdução


O objetivo deste texto é enfocar a Universidade hoje, segundo os valores evangélicos que permitam uma orientação que obvie as funestas distorções conducentes a uma neo-escravização do ser racional, as quais impedem uma ordem que favoreça o desenvolvimento integral do homem, nem propiciam condições para que ele se situe no mundo a fim de, com  seu agir e operar, transformá-lo, humanizando-o.
O pensador cristão tem uma tarefa específica na sociedade, donde ser urgente que ele se conscientize de sua missão no que tange à elaboração de um projeto para um novo contexto histórico.
O impacto tecnológico exige uma retomada dos princípios que embasam a autêntica dignidade da pessoa humana, postergada em função de bens materiais. Uma reavaliação ontológica do homem é que se impõe e um crédito nas suas possibilidades. Vancourt cita Heidegger que, na obra Kant e o problema da metafísica, afirma: “Nenhuma época acumulou sobre o homem conhecimentos tão numerosos e tão diversos como a nossa. Mas também nenhuma época soube menos o que é homem”.1
A filosofia Cristã, além de estabelecer os fundamentos metafísicos da pessoa humana, leva o homem a aderir às realidades últimas, o que imprime ritmo a uma existência que visualiza uma meta: porvir em construção.
Tudo isto conseqüências imediatas para a organização universitária, à qual fazer entrever opções que ensejem a plena humanização do meio no qual o homem atua.

O papel do intelectual cristão


Muito se discute qual seja o lídimo múnus do intelectual.
Francis Bacon2 lançou uma idéia cuja aplicação utilitária suscita uma posição profundamente danosa e que desvirtua a incumbência daquele que é culto. Conforme o filósofo inglês o conhecimento implica em poder. Sob este prisma a cultura estaria a serviço da superioridade nacional e sob o jugo de ideologias. Não poderia, portanto, jamais conduzir o magno empreendimento a que os mais talentosos são realmente chamado. A Universidade estaria atrelada a estruturas político-econômicas e o poder tecnológico arrastaria a um endeusamento das ciências que mais diretamente proporcionam domínio econômico do universo e daí levaria à supervalorização da máquina.
Sócrates opõe-se diametralmente a Bacon. Para o filósofo grego a sabedoria se liga à virtude (areté)3. Platão e Aristóteles desenvolveram este pensamento e almejaram atingir a Verdade, o Belo, o Bem. Ideal válido, sem dúvida, mas vago, pouco operativo, posicionamento por demais intelectualista, que aliena do concreto, o que não se coaduna com uma situação funcional e realistica.
Outros julgam ser encargo do sábio, através do emprego do método científico, sujeitar não apenas o setor não-humano, mas ainda o humano. Assim raciocinam: que adianta ao homem poder controlar o átomo, percorrer fantásticas distâncias no espaço sideral, subjugar a natureza biológica, se ele não sabe como controlar suas paixões, suas angústias, suas fobias, seus conflitos. Opinião ponderável, mas lacunosa, pois omite o aspecto social do problema que resta, assim, mal equacionado.
A visão correta do ofício especial de quem se dedica à cultura flui de uma maneira democrática de conceber a educação e o ensino, firmada na filosofia cristã que leva a uma formação humanística, voltada para o praticável. O homem, cônscio de seu valor, preparado para o exercício autônomo e criativo de suas ações sociais. Serviço universal no qual não obstaculiza nem a ciência, nem a técnica. Como, porém, de si, nem uma, nem outra podem estruturar a práxis, elas são apenas direcionadas para uma sociedade, de fato, humana dentro de uma perspectiva antropológica que habilita para a organização de uma genuína comunidade. Isto decorre de uma concepção cristã do homem.

Visão cristã do homem


A dignidade da pessoa humana


Os maiores filósofos da antigüidade não tiveram uma exata imagem do homem. Acidente de uma idéia eterna para Platão, membro de uma espécie para Aristóteles, o sentido perfeito de pessoa humana era-lhes impossível. Predomina na mentalidade grega o indivíduo. No pensamento filosófico cristão, como fruto opimo doutrina pregada por Cristo, surgiu a conceituação precisa da pessoa humana. Como mostra Louis Lavelle, “com o cristianismo tudo muda. A consideração do ser é substituída pela de pessoa”.4 Daí corolários muito bem sintetizados por Jean Mourroux: “como espírito que enforma um corpo, a pessoa segue as condições da criatura espiritual: exprime relação direta a Deus e ultrapassa a espécie feita para ela”.5 Donde resulta que a pessoa humana não pode ser absorvida no coletivo, nem estar sob qualquer pressão externa que induz, de modo subliminar, um modus vivendi. Toda ordem econômica deve estar em sua órbita, sendo inconcebível um ser dotado de alma sujeito ao que é material. É todo um posicionamento que cumpre seja revisto. Seu valor extraordinário, a Pessoa não o recebe nem de sua família, nem de sua fortuna. Todo homem vale por si mesmo, seja qual for sua origem ou condição social. O que interessa é o estar-bem no mundo e não o bem-estar outorgado pelo mundo. O bem-estar identifica-se com algo passageiro, efêmero, temporâneo, propiciado por um conforto exterior. O estar-bem é um valor permanente, instalado dentro de cada um e independe do meio físico, das coisas perecíveis. O bem-estar pode ser conseguido com dinheiro, o estar-bem só se obtém com a reflexão. O bem-estar lisonjeia a carne, o estar-bem inebria o espírito. Para o bem-estar é o lugar que faz o homem, para o estar-bem é o homem quem faz o lugar. O bem-estar consome bens, o estar-bem espalha valores. O bem-estar é um compromisso com o corpo, o estar-bem é uma obrigação com a alma. Para o bem-estar é preciso que haja energia que passem pelos circuitos corporais, para o estar-bem as forças passam pelas vias espirituais. Bem-estar é ter, estar-bem é ser e viver. Com efeito, ser e viver é estar-bem com a consciência, voz que fala no âmago de cada um; com Deus no qual tudo está imerso; com os outros que estão do outro lado da porta e batem sequiosos daquela riqueza que cada um pode intuir, quando, colocando entre parênteses o mundo sensível, depara, pela razão, o Bem, a Verdade, o Belo.
Estar-bem é possuir e vivenciar tudo isto. Valores buscados pela mente que abre regiões interiores que se iluminam e se exteriorizam em comportamentos que edificam. Aliás, pertinente o dito socrático, “vida sem reflexão não merece ser vivida”.
É a procura do aperfeiçoamento do próprio ser no pensar, no querer, no sentir e no operar. É o crescimento do todo do ser racional em todas as suas dimensões. O ato de valorar tem influições transordinárias, uma vez que pode fazer ver aos outros a bondade, a verdade, o amor. Os valores que moram no coração são atemporais e, por isto, sua base está na categoria do que valem e, assim, justamente por valerem é que trazem benefícios práticos e existenciais. Nem todos os conhecem, vivem e intuem.
É mister descobri-los lá no íntimo pela via da contemplação, isto leva a dar uma orientação à vida e conduz à venturosa atuação que redunda na autoformação. Donde a eutimia, vida plenificada, conjuntura prevista por São Paulo6 de sucesso total e gratificante. Cristo falou claramente: “O homem bom, do bom tesouro de seu coração tira o bem”7 e o bem no dizer de Santo Tomás de Aquino, é de si difusivo. Eis porque Jacques Maritain sentenciou com razão: “a procura da felicidade na terra é a procura não das vantagens materiais, porém da retidão moral, do vigor e perfeição da alma, com condições materiais e sociais que isto implica”.8 É que o homem está no mundo, mas não está nele contramurado. Tem um destino transcendente. Nossa era, porém, tende a despersonalizar, a desumanizar, a desespiritualizar o homem, pois as estruturas para as quais, como suporte, estão poderosos meios de comunicação, manipulam, massificam. Assim, mentalizar o homem de sua importância ontológica é obra educacional inadiável que resulta na preservação dos bens sobrenaturais. É esta colocação metafísica da natureza da pessoa humana, tal como a apresenta a filosofia cristã, a única capaz de sustentar a valia do ser humano em todos os setores.

O homem inserido na história


Diante deste modo de ver a pessoa humana, surge esta realidade: enquanto corpo, está o homem na esfera do tempo; espírito, o cronos é sua história. Há no mais profundo de cada homem uma tensão, porque possui um viver que lhe exige uma decisão para realizar a plenitude de seu ser. Segundo Lima Vaz, “é a historicidade da consciência que permite a projeção de um sentido histórico ou inteligilidade histórica na experiência temporal do ser”.9 Aí, exatamente, o papel da educação que é o processo pelo qual se organiza o homem como ser histórico. Creuza Capalbo escreveu que “educação não é uma obra já feita mas a ser feita”.10 Não é a existência em si, mas como deve ser. O homem é chamado, no decorrer de sua vida, a alcançar perfeição crescente, sendo o progresso pessoal uma sucessão ininterrupta de esforços para esta meta da autoperfeição. De fato, o homem pode sempre se aprimorar. Está colocado entre o que foi e o porvir. O instante presente está prenhe do passado e refletirá irreversivelmente no futuro. Bernard Häring assegura: “a herança do passado (herança biológica, cultural, ético-religiosa) representa a trama já tecida e a tecer ainda, a qual solicita agora a liberdade humana”.11 O livre arbítrio está empenhado num fado histórico. É esta a conclusão de Lapassade12 na sua tese na qual vislumbra o homem como um ser inacabado, revelando como, por ser temporal, sua educação é a primeira maneira para administrar a temporalidade vivida, para que seja completa e autenticamente significativa. Dotado de liberdade, ele pode atuar sobre a sua vida pretérita. Dá rotas à sua história. O que virá depende precisamente deste procedimento. Cada um é responsável pelo que há de lhe advir. Eis por que a cada momento se constrói o futuro. Cada decisão em direção ao bem influencia positivamente opções seguintes. O inverso se dá quando a metodologia empregada negou valores, pois isto representa acumular obstáculos. É apanágio do homem poder, por nova modalidade de pensar, influir no que lhe aconteceu. Isto vai depender das inspirações que dirigem seus anseios, sua captação de respostas às suas inquietantes perquirições. Deste modo, ele refaz posições anteriores e imprime segura marcha para frente. Por ser livre, cada um é senhor de sua sina, mas o uso desta prerrogativa está ligado a todo um conjunto de atitudes educacionais. Graças à alma, transcende o tempo. Impõe-se-lhe então tome consciência deste privilégio para dirigir com êxito o desenrolar de sua passagem terrena.
A Filosofia Cristã leva, assim, cada um ao contato com as questões escatológicas. É a solução à indagação incoercível: qual o fim de todo este processo? Cada módulo existencial ganha proporções que transpõem a contagem temporal. Há, portanto, um necessário liame com Aquele que É. Isto dá uma conotação peculiar à educação e informa in totum o comportamento, evitando tergiversações ante a ambivalência conatural perante o bem e o mal. Percebe-se que no apogeu do fenômeno histórico, quando Thanatos significará um aprimoramento ontológico, será no ritmo de uma vivência plena que cada um constatará que sua trajetória individual foi uma consumação feliz, porque Eros foi transfigurado através de Ágape, direcionado para riqueza mais alta.

Concepção cristã da universidade


Dentro deste prisma, a Universidade deve quebrar a divisão entre escolas humanistas e escolas técnicas, segmentação antidemocrática, que faz com que apareça estruturação em castas herméticas e hierarquizadas, e anti-social por impedir a muitos uma luz superior que salva, unifica, liberta e penhora um agir comunitário humanista. No caso desta dicotomia a Universidade não teria um sustentáculo viável que adestrasse aqueles que estejam aptos a orientar e a guiar, “homens de grande saber, preparados para enfrentarem tarefas de maior responsabilidade na sociedade…”.13 Trairia sua vocação educativa. Todas as vezes que isto ocorre, há um exclusivismo mutilador com o risco do predomínio do cientismo e surgem agressões tecnológicas. É que, quando há tal separação, o universitário é levado “a uma forma sofisticada de incultura e barbárie intelectual que é a especialização ciosamente fechada em seu próprio domínio”.14 Adolpho Crippa diagnosticou com precisão este ângulo, demonstrando que a Universidade precisa voltar a ser laboratório de humanismo: “É a partir de uma idéia exata e comum do Homem que as atividades universitárias recebem unidade e justificação. Fora do mundo criado por uma coerente do homem teremos multi-universidade ou di-versidade, jamais uni-versidade. A unidade deve nascer de um único foco iluminador, de uma fonte doadora de sentido. Somente o humanismo pode ser este foco e esta fonte”.15 Maritain que aponta como objetivo da Universidade “complementar a formação da juventude, conduzindo ao seu termo a aquisição da força e maturidade do raciocínio e das virtudes intelectuais”16, advoga este humanismo, patenteando que “a educação tem essência e finalidade próprias. Essa essência e estas finalidades se relacionam com a formação do homem e a libertação interior da pessoa humana e devem ser mantidas, quaisquer que seja as tarefas impostas”.17
Cabe à Universidade, de fato, nortear, harmonizando a ciência e a educação. Ainda agora, no dia 17 de outubro, o Editorial de La Nacion18, lançava de Buenos Aires um repúdio ao “homo tecnocraticus” e evidenciava que as Faculdades não podem apenas “preparar homens que fazem”. Os estudantes, apregoa este Editorial, devem deixar de serem “facultativos” para se tornarem “universitários”, homens que percebam problemas totais ainda que encargo seja a decisão sobre facetas parciais. Mais de uma vez se tem dito que os dirigentes devem sair das universidades. No atual governo britânico, 17 de seus 22 componentes são graduados em Oxford e Cambridge.
Eis por que é essencial que a Universidade cresça horizontal e verticalmente. Que focalize o homem em sua totalidade e unidade, isto é, “em sua inteireza ontológica, sujeito de ciência e consciência, de cultura e civilização, de trabalho e produção, de esperança e fé, de tempo e eternidade”.19 Expressivo o ensinamento do Papa Pio XI: “o assunto educação é o homem global e inteiro, alma unida ao corpo em unidade de natureza, com todas as suas faculdades naturais, tal como a razão justa e a revelação lhe mostraram que fosse …”20. Otávio Nicolás Derisi, com propriedade, denuncia que “tal foi o desvio fundamental da Universidade e, em geral, da educação na idade moderna: haver cultivado unilateralmente a profissão e a investigação, mas não havê-lo feito sobre a base de uma cultura autêntica integralmente humana, no sentido do desenvolvimento harmônico e total de todo o homem, na tríplice dimensão espiritual que constitui o âmbito de seu mundo humano e pessoal; haver preparado para a ciência, para a profissão, mas não haver preparado para a vida…”.21 Trata-se de apoiar “o desabrochar e o desenvolvimento do todo do homem em todas as suas dimensões”22 e é a Filosofia Cristã que entrevê a pessoa humana em sua uniformidade. Ora, também o universitário tem direito a esta educação integral, porque o homem é um ser inacabado, aperfeiçoável, perfectível que até o último sopro de vida está numa “metabléica” constante. Citando E. Bloch, Pierre Furter opina que a “educação é necessária porque o homem é um “ser de carência”23. Não há marca de chegada à maturação, pois a caminhada é diuturna até o momento final da permanência fora da eternidade. Se assim é, a formação científica não pode estar dissociada nunca da humanística, sob pena de haver uma desintegração com a prevalência do material sobre o espiritual, perdendo-se o significado, a diretriz histórica, o senso da existência. É, pois, imprescindível o ensino da iniciação filosófica, da história das idéias, da antropologia cultural, ministradas em consonância com as matérias especializadas.
Apenas a Universidade, que tem tal percepção, realiza seu múnus, encarnando, de fato, a cultura de um povo. Forma aqueles que fixam as novas veredas que ensejam a humanidade a obstar os males a serem urgentemente atalhados, os quais já mancham inditosamente uma fase da História, mas cujos reflexos se podem antever ainda mais terríveis nos campos físicos e morais. Missão libertadora que se compromete a uma atividade efetiva na certeza de que não basta SER, é preciso VIVER.

Conclusões


A Filosofia Cristã ostenta o verdadeiro papel do intelectual que é o de induzir outros à total realização pessoal e social. E na medida em que cada um abre espaços interiores para os valores, tenta intuí-los e vivê-los, é que poderá levar a comunidade à participação nesta riqueza que promana de um autêntico humanismo.
É através da educação cristã que se restaura a conscientização da nobreza da pessoa humana, “tração essencial de uma civilização digna deste nome”24, baluarte supremo contra as manipulações da tecnocracia e que leva àquela responsabilidade no pensar, no obrar, no sentir e no querer que Goytisolo25 preconiza como única defesa de cada um contra a massificação. Isto é tanto mais premente quando se considera que o transcendente é colocado de forma subjacente no alicerce da atual era tecnológica e, assim, facilmente, é preterido e ignorado. Aliás, Eduardo Prado de Mendonça, em 1968, proclamou: “Nunca se valorizou tanto o culto do irracional. Nunca se estudou tanto, e, contudo, a civilização da máquina desnorteou o homem com relação ao discernimento e controle racional de sua vida”.26 Cirigliano, que enfatiza tanto a função da sociedade como transmissora “de formas culturais vivificadas”27, expressou sua decepção com o que está acontecendo: “Uma sociedade tão poderosa é a nossa para o grande desalojamento do homem! Para que esbarre na vida. Para que seja um frustrado”.28 É que o homem está sendo massacrado dentro de um sistema. Será, porém, o humanismo cristão que o porá no seu lugar, pois, à proporção que o homem se sente senhor de sua sorte, é que se aproxima do auge de sua auto-realização e consegue se precaver contra investidas espúrias.
A Filosofia Cristã dá os fundamentos para que a Universidade apresente o legítimo projeto de uma época pós-tecnológica, eideticamente humana, porque oferece ao mesmo os recursos para que educadores e educandos deparem idéias valorativas que, realmente, humanizem e, assim, usufruam sabiamente das valiosas conquistas obtidas pela ciência hodierna, numa união coerente da concepção científica do universo e do homem, produto do antropocentrismo ontológico e gnosiológico.

Notas

  1   R. Vancourt, A Estrutura da Filosofia ‑ As origens do homem, São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1964.p.7.
  2   Bacon, Novum Organum, São Paulo, Abril S.A. Cultural e Industrial, 1979.p.13.
  3   G. Zuccante, Sócrates ‑ Fonti ambiente, vita e dottrina, Turin, Bocca, 1909.
  4   Louis Lavelle, Traité des valeurs, Paris, Presses Universitaires de France, 1951, T.I.p.60.
  5   Jean Mourroux, Vocação cristã do homem, São Paulo, Flamboyant, 1961.p.117.
  6   1 Romanos 2,2.
  7   Lucas 6,45.
  8   Jacques Maritain, Os direitos do homem, Livraria José Olympio Editora, 1947.p.111.
  9   Henrique C. Lima Vaz, Ontologia e História, São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1968.p.203.
10   Creuza Capalho, Ideologia e educação, São Paulo, Editora Convívio, 1978.p.111.
11   Bernard Häring, La Loi du Christ, Belgium, Desclée & Cie. Éditeurs, 1956.p.129.
12   G. Lapassade, L’entrée dans la vie. Essai sur I’inachèvement de I’homme, Paris, Ed. Minuit, 1963.
13   Concílio Ecumênico Vaticano II, Declaração Gravissimum Educationis, n.10.
14   Henrique C. Lima Vaz in apresentação da obra de D. H. Salman, O lugar da Filosofia na Universidade, Petrópolis, Editora Vozes Ltda., 1970.p.7.
15   Adolpho Crippa, O Problema da Universidade, São Paulo, Editora Convívio, 1966.p.63.
16   Jacques Maritain, Rumos da Educação, Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1968.p.126.
17   Idem, ibidem.p.147.
18   La Nacion, Buenos Aires, 17.10.1979.p.8.
19   José Newton Alves de Sousa, Perspectivas cristãs da Universidade, Salvador, 1o vol., Editora Mensgeiro da Fé Ltda.p.15.
20   Pio XI, sobre a Educação Cristã da Juventude, Petrópolis, Ed. Vozes, 1956.p.2.
21   Octávio Nicolás Derisi, Valores Básicos para a construção de uma Sociedade realmente Humana, São Paulo, Mundo Cultural Ltda., 1977.p.81.
22   Creuza Capalho, op.cit.p.104.
23   P. Furter, Educação e Reflexão, Petrópolis, Editora Vozes Ltda., 1970.p.70.
24   Jacques Maritain, Os direitos do homem, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1947.p.10.
25   Juan Vallet Goytisolo, O perigo da desumanização através do predomínio da tecnocracia, São Paulo, Mundo Cultural Ltda.,1977,p.258 - 261.
26   Eduardo Prado de Mendonça, O Mundo precisa de Filosofia, Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1968.p.81.
27   Gustavo F.G. Cirigliano, Fenomenologia da Educação, Petrópolis, Editora Vozes Ltda., 1972.p.87.
28   Idem, ibidem.p.221.

Bento XVI: A ciência não pode ignorar a dimensão transcendente do ser humano

ZP06111308 - 13-11-2006
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Discurso na Universidade Pontifícia Gregoriana de Roma
CIDADE DO VATICANO, segunda-feira, 13 de novembro de 2006 (ZENIT.org).- Publicamos o discurso que Bento XVI pronunciou ao visitar a Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, no dia 3 de novembro passado.


* * *



Senhores Cardeais
Venerados Irmãos
no Episcopado e no Sacerdócio
Estimados Professores
e queridos estudantes!


Sinto-me feliz por me encontrar hoje convosco. A primeira saudação dirijo-a precisamente a vós, estudantes, que vejo tão numerosos neste elegante e austero quadripórtico, mas sei que também estão presentes em diversas salas e em contacto connosco através dos écrans e dos altofalantes.

Queridos jovens, agradeço-vos os sentimentos que expressastes através do vosso representante e por vós próprios. Num certo sentido a Universidade é precisamente vossa. Ela, desde o longínquo ano de 1551, quando Santo Inácio de Loyola a fundou, existe para vós, estudantes. Todas as energias empregadas pelos vossos Professores e Docentes, no ensinamento e na pesquisa, são para vós. São para vós as preocupações e os esforços quotidianos do Magnífico Reitor, do Vice-Reitor, dos Decanos e dos Directores. Disto vós estais conscientes e tenho a certeza de que também estais gratos.

Dirijo agora uma saudação especial ao Cardeal Zenon Grocholewski. Como Prefeito da Congregação para a Educação Católica, ele é o Grão-Chanceler desta Universidade e nela representa o Romano Pontífice (cf. Statuta Universitas, art. 6 2). Precisamente por isto o meu predecessor Pio XI, de venerada memória, declarava a Universidade Gregoriana "plenissimo iure ac nomine" pontifícia (cf. Carta Apost. Gregorianam studiorum, em AAS 24 [1932], 268). A própria história do Colégio Romano e da Universidade Gregoriana, sua herdeira, como recordou o Pe. Reitor na saudação que me dirigiu, é o fundamento deste estatuto totalmente particular. Saúdo o Rev.do Pe. Peter-Hans Kolvenbach, S.J., que, como Prepósito-Geral da Companhia de Jesus, é o Vice-Gão-Chanceler da Universidade e tem a solicitude mais directa desta obra, que não hesito em qualificar como um dos maiores serviços que a Companhia de Jesus presta à Igreja universal.

Saúdo os benfeitores aqui presentes. O Freundeskreis der Gregoriana da Alemanha, a Gregorian University Foundation de Nova Iorque, a Fundação "La Gregoriana" de Roma, e outros grupos de benfeitores. Caríssimos, estou-vos grato por quanto generosamente fazeis para apoiar esta obra que a Santa Sé confiou e continua a confiar à Companhia de Jesus. Saúdo os Padres Jesuítas que desempenham aqui o seu ensinamento com louvável espírito de abnegação e austeridade de vida; com eles saúdo os outros Professores, fazendo o meu pensamento extensivo também aos Padres e aos Professores do Pontifício Instituto Bíblico e do Pontifício Instituto Oriental, que, juntamente com a Gregoriana, formam um consortium académico (cf. Pio XI, M.p. Quod maxime, 30 de Setembro de 1928) prestigioso no que se refere não só ao ensinamento, mas também ao património livreiro das três bibliotecas, fornecidas de fundos especializados incomparáveis. Por fim, saúdo o pessoal não docente da Universidade, que quis fazer ouvir a própria voz através da voz do Secretário-Geral, ao qual agradeço. O pessoal não docente desempenha quotidianamente um serviço escondido, mas muito importante para a missão que a Gregoriana está chamada a cumprir por mandato da Santa Sé. A cada um deles dirijo o meu cordial encorajamento.

É com alegria que me encontro neste quadripórtico. Recordo-me particularmente da defesa da tese do Padre Lohfink durante o Concílio, na presença de muitos Cardeais e também de pobres padres como eu. Apraz-me recordar de modo particular o tempo em que, sendo professor Ordinário de Dogmática e de História na Universidade de Regensburg, fui convidado em 1972 pelo então Reitor Hervé Carrier, S. J. a ensinar aos estudantes do II Ciclo da especialização de Teologia Dogmática.

Dei um curso sobre a Santíssima Eucaristia. Com a familiaridade de então, digo a vós, queridos Professores e estudantes, que a fadiga do estudo e do ensino, para ter sentido em relação ao Reino de Deus, deve ser apoiada pelas virtudes teologais. De facto, o objecto imediato da ciência teológica, nas suas diversas especificidades, é o próprio Deus, que se revelou em Jesus Cristo, Deus com um rosto humano. Também quando, como no Direito Canónico e na História da Igreja, o objecto imediato é o Povo de Deus na sua dimensão visível e histórica, a análise aprofundada da matéria leva de novo à contemplação, na fé, do mistério de Cristo ressuscitado. É Ele que, presente na sua Igreja, a conduz entre os acontecimentos do tempo rumo à plenitude escatológica, uma meta para a qual caminhamos amparados pela esperança. Mas, não é suficiente conhecer Deus; para o poder realmente encontrar, devemos também amar. O conhecimento deve tornar-se amor. O estudo da Teologia, do Direito canónico e da História da Igreja não é só conhecimento das proposições da fé na sua formulação histórica e na sua aplicação prática, mas é também e sempre inteligência delas na fé, na esperança e na caridade. Só o Espírito perscruta as profundezas de Deus (cf. 1 Cor 2, 10), por conseguinte só na escuta do Espírito se pode perscrutar a profundeza da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus (cf. Rm 11, 33). O Espírito ouve-se na oração, quando o coração se abre à contemplação do mistério de Deus, que se revelou no Filho Jesus Cristo, imagem do Deus invisível (cf. Cl 1, 15), constituído Chefe da Igreja e Senhor de todas as coisas (cf. Ef 1, 10; Cl 1, 18).

A Universidade Gregoriana, desde as suas origens com o Colégio Romano, distinguiu-se pelo estudo da filosofia e da teologia. Seria muito longo elencar os nomes dos insignes filósofos e teólogos que se sucederam nas cátedras deste Centro académico; a eles deveríamos acrescentar os nomes de famosos canonistas e de historiadores da Igreja, que empregaram as suas energias dentro destes muros prestigiosos. Todos contribuíram em grande medida para o progresso das ciências por eles cultivadas e portanto ofereceram um precioso serviço à Sé Apostólica no cumprimento da sua função doutrinal, disciplinar e pastoral. Com a evolução dos tempos necessariamente mudam as perspectivas. Hoje não se pode deixar de ter em consideração o confronto com a cultura secular, que em muitas partes do mundo tende cada vez mais não só para a negação de qualquer sinal da presença de Deus na vida da sociedade e do indivíduo, mas com vários meios, que desorientam e ofuscam a recta consciência do homem, procura corroer a sua capacidade de se pôr à escuta de Deus. Não se pode prescindir, depois, da relação com as outras religiões, que se revela construtiva unicamente se evita toda a forma de ambiguidades que de qualquer forma enfraqueça o conteúdo essencial da fé cristã em Cristo único Salvador de todos os homens (cf. Act 4, 12) e na Igreja sacramento necessário de salvação para toda a humanidade (cf. Decl. Dominus Iesus, nn. 13-15; 20-22; AAS [2000], 742-756).

Neste momento não posso esquecer as outras ciências humanas que nesta insigne Universidade são cultivadas, no seguimento da gloriosa tradição académica do Colégio Romano. É do conhecimento de todos o grandioso prestígio que o Colégio Romano assumiu no campo da matemática, da física, da astronomia. Basta recordar que o calendário, chamado "Gregoriano", porque foi querido pelo meu predecessor Gregório XIII, actualmente usado em todo o mundo, foi elaborado em 1582 pelo Pe. Cristóvão Clávio, professor do Colégio Romano. É suficiente também mencionar o Pe. Matteo Ricci, que levou até à distante China, juntamente com o seu testemunho de fé, o saber adquirido como discípulo do Pe. Clávio. Hoje, estas disciplinas já não são cultivadas na Gregoriana, mas sucederam-lhe outras ciências humanas, como a psicologia, as ciências sociais, a comunicação social. Com elas pretende-se compreender mais profundamente o homem quer na sua dimensão pessoal profunda, quer na sua dimensão externa de construtor da sociedade, na justiça e na paz, e de comunicador da verdade. Precisamente porque estas ciências se referem ao homem não podem prescindir da referência a Deus. De facto, o homem, quer na sua interioridade quer na sua exterioridade, não pode ser plenamente compreendido se o não reconhecermos aberto à transcendência.

Privado da sua referência a Deus, o homem não pode responder às perguntas fundamentais que agitam e agitarão sempre o seu coração em relação ao fim e, por conseguinte, ao sentido pleno da sua existência. Consequentemente, nem sequer é possível inserir na sociedade aqueles valores éticos, os únicos que podem garantir uma convivência digna do homem. O destino do homem sem a sua referência a Deus só pode ser a desolação da angústia que conduz ao desespero. Só em referência ao Deus-Amor, que se revelou em Jesus Cristo, o homem pode encontrar o sentido da sua existência e viver na esperança, mesmo se na experiência dos males que ferem a sua existência pessoal e a sociedade na qual vive. A esperança faz com que o homem não se feche num niilismo paralisante e estéril, mas se abra ao compromisso generoso que Deus confiou ao homem ao criá-lo à sua imagem e semelhança, uma tarefa que confere a cada homem a maior dignidade, mas também uma enorme responsabilidade.

É nesta perspectiva que vós, Professores e Docentes da Gregoriana, sois chamados a formar os estudantes que a Igreja vos confia. A formação integral dos jovens é um dos apostolados tradicionais da Companhia de Jesus desde as suas origens; por isso, é uma missão da qual desde o início o Colégio Romano se encarregou. Confiar aos cuidados da Companhia de Jesus, em Roma junto da Sé Apostólica, o Colégio Germânico, o Seminário Romano, o Colégio Húngaro, o Colégio Inglês, o Colégio Grego, o Colégio Escocês e o Colégio Irlandês, tinha a intenção de garantir uma formação do clero daquelas nações, onde estava infringida a unidade da fé e a comunhão com a Sé Apostólica. Ainda hoje estes Colégios enviam, quase exclusivamente ou um bom número, os seus alunos para a Universidade Gregoriana, em continuidade com aquela missão originária. A estes colégios mencionados, ao longo da história, juntaram-se muitos outros. Como é empenhativa a tarefa que pesa sobre os vossos ombros, queridos Professores e Docentes!

Portanto, depois de uma profunda reflexão redigistes oportunamente uma "Declaração de Intenções", fundamental para uma instituição como a vossa, porque indica sinteticamente a sua natureza e missão. Com base nela estais portanto a terminar a renovação dos Estatutos da Universidade e dos Regulamentos Gerais, assim como dos Estatutos e dos Regulamentos das diversas Faculdades, Institutos e Centros. Isto contribuirá para definir melhor a identidade da Gregoriana, permitindo a redacção de programas académicos mais adequados para o cumprimento da missão que lhe é própria. Uma missão que é fácil e difícil ao mesmo tempo. Fácil, porque a identidade e a missão da Gregoriana são claras desde as suas primeiras origens, com base nas indicações recordadas por muitos Romanos Pontífices, entre os quais dezasseis foram alunos desta Universidade. Missão ao mesmo tempo difícil, porque exige fidelidade constante à própria história e tradição, para não perder as suas raízes históricas, e ao mesmo tempo a abertura à realidade actual para responder, depois de um atento discernimento, com espírito criativo, às necessidades da Igreja e do mundo de hoje.

Como Universidade eclesiástica pontifícia, este Centro académico está comprometido a sentire in Ecclesia et cum Ecclesia. Trata-se de um compromisso que nasce do amor à Igreja, nossa Mãe e Esposa de Cristo. Nós devemos amá-la como o próprio Cristo a amou, assumindo sobre nós os sofrimentos do mundo e da Igreja para completar o que falta aos sofrimentos de Cristo na nossa carne (cf. Cl 1, 24). Assim podem-se formar as novas gerações de sacerdotes, de religiosos e de leigos comprometidos. De facto, é obrigatório perguntar-se para que tipo de sacerdote, de religioso, de religiosa, de leigo ou leiga se pretende formar os estudantes. Certamente, queridos Professores e Docentes, é vossa intenção formar sacerdotes doutos, mas ao mesmo tempo prontos para consumir a sua vida ao serviço de quantos o Senhor confiar ao seu ministério, com um coração indiviso, na humildade e da austeridade da vida. Assim, pretendeis oferecer uma formação intelectual sólida a religiosos e religiosas, para que saibam viver na alegria a consagração com que Deus os premiou, e propor-se como sinal escatológico daquela vida futura à qual todos estamos chamados. De igual modo, vós desejais preparar leigos e leigas, que saibam desempenhar com competência serviços e cargos na Igreja e, antes de tudo, ser fermento do Reino de Deus na esfera temporal. Nesta perspectiva, precisamente este ano a Universidade deu início a um programa interdisciplinar para formar os leigos a viver a sua vocação especificamente eclesial de compromisso ético no âmbito público.

Mas, queridos estudantes, a formação é também responsabilidade vossa. O estudo exige certamente ascese e abnegação constantes. Mas precisamente por este caminho a pessoa forma-se para o sacrifício e para o sentido do dever. De facto, o que hoje aprendeis é o que amanhã comunicareis, quando vos for confiado pela Igreja o ministério sagrado ou outros serviços e cargos em benefício da comunidade. Aquilo que em qualquer circunstância poderá ser motivo de alegria para o vosso coração será a consciência de ter sempre cultivado a rectidão de intenções, graças à qual se tem a certeza de ter procurado e feito unicamente a vontade de Deus. Sem dúvida, tudo isto exige purificação do coração e discernimento.

Queridos filhos de Santo Inácio, mais uma vez o Papa vos confia esta Universidade, obra tão importante para a Igreja universal e para muitas Igrejas particulares. Ela constitui desde sempre uma prioridade entre as prioridades dos apostolados da Companhia de Jesus. Foi no ambiente universitário de Paris que Santo Inácio de Loyola e os seus primeiros companheiros amadureceram o desejo fervoroso de ajudar as almas amando e servindo Deus em tudo, para sua maior glória. Estimulado pela moção interior do Espírito, Santo Inácio veio a Roma, centro da Cristandade, sede do Sucessor de Pedro, e aqui fundou o Colégio Romano, primeira Universidade da Companhia de Jesus. A Universidade Gregoriana é hoje o ambiente universitário no qual se realiza de modo pleno e evidente, ainda à distância de 456 anos, o desejo de Santo Inácio e dos seus primeiros companheiros de ajudar as almas a amar e servir Deus em tudo, para sua maior glória. Diria que aqui, dentro destes muros, se realiza quanto o Papa Júlio III, a 21 de Julho de 1550, fixou na "formula Istituti", estabelecendo que cada membro da Companhia de Jesus é obrigado a "sub crucis vexillo Deo militare, et soli Domino ac Ecclesia Ipsius sponsae, sub Romano Pontifice, Christi in terris Vicario, servire", comprometendo-se "potissimum... ad fidei defensionem et propagationem, et profectum animarum in vita et doctrina christiana, per publicas praedicationes, lectiones et aliud quodcumque verbi Dei ministerium..." (Carta apost. Exposcit debitum, 1).

Esta especificidade carismática da Companhia de Jesus, expressa institucionalmente no quarto voto de disponibilidade total ao Romano Pontífice em tudo o que ele queira comandar "ad profectum animarum et fidei propagationem" (ibid., n. 3), tem a sua concretização também no facto que o Prepósito-Geral da Companhia de Jesus chama de todo o mundo os Jesuítas mais adequados para que desempenhem a tarefa de Professores nesta Universidade. A Igreja, bem consciente de que isto pode incluir o sacrifício de outras obras e serviços, válidos para as finalidades que a Companhia se propõe alcançar, está-lhe sinceramente grata e deseja que a Gregoriana conserve o espírito inaciano que a anima, expresso no seu método pedagógico e na organização dos estudos.

Caríssimos, com afecto de Pai confio todos vós, que sois os componentes vivos da Universidade Gregoriana Professores e Docentes, estudantes, pessoal não docente, benfeitores e amigos à intercessão de Santo Inácio de Loyola, de São Roberto Bellarmino e da Bem-Aventurada Virgem Maria, Rainha da Companhia de Jesus, que no brasão da Universidade está indicada com o título de Sedes Sapientiae. Com estes sentimentos concedo a todos a Bênção Apostólica, propiciadora de abundantes favores celestes.

[Tradução distribuída pela Santa Sé
© Copyright 2006 - Libreria Editrice Vaticana]

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A formação em universidades e seminários


Ao iniciar a Assembléia Plenária da Congregação para a Educação Católica - da qual o Papa Bento XVI fez parte, quando era cardeal - o Santo Padre aponta a necessidade e oportunidade da reforma em curso dos estudos eclesiásticos e da formação nos seminários.
Desde sempre o setor da educação é particularmente querido à Igreja, chamada a fazer sua a solicitude de Cristo que - narra o evangelista -, vendo as multidões, "comoveu-se..., porque eram como ovelhas sem pastor, e pôs-se a ensinar-lhes muitas coisas" (Mc 6, 34). A palavra grega usada para exprimir esta atitude de "comoção" recorda as entranhas de misericórdia e remete para o amor profundo que o Pai celeste sente pelo homem. A Tradição viu no ensinamento e, mais geralmente, na educação, uma manifestação concreta da misericórdia espiritual, que constitui uma das primeiras obras do amor que a Igreja tem por missão oferecer à humanidade. É oportuno como nunca que, neste nosso tempo, se reflita sobre como tornar atual e eficaz esta tarefa apostólica da Comunidade Eclesial, confiada às universidades católicas e, de modo especial, às faculdades eclesiásticas. Portanto, alegro-me convosco por terdes escolhido para a vossa Plenária um tema de tanto interesse, assim como penso também que seja útil analisar atentamente os projetos de reforma que atualmente estão a ser estudados pela vossa Congregação, relativos às mencionadas universidades católicas e às faculdades eclesiásticas.
Reforma dos estudos eclesiásticos
Em primeiro lugar, refiro-me à reforma dos estudos eclesiásticos de Filosofia, projeto que já chegou à fase final de elaboração, na qual não deixará de ser ressaltada a dimensão metafísica e sapiencial da Filosofia, recordada por João Paulo II na Encíclica Fides et ratio (cf. n. 81). De igual modo, útil é avaliar a oportunidade de uma reforma da Constituição Apostólica Sapientia christiana. Querida pelo meu venerado predecessor, em 1979, ela constitui a magna carta das faculdades eclesiásticas e serve de base para formular os critérios de avaliação da qualidade dessas instituições, avaliação exigida pelo Processo de Bolonha, do qual a Santa Sé se tornou membro desde 2003. As disciplinas eclesiásticas, sobretudo a Teologia, são submetidas hoje a novos interrogantes, num mundo tentado, por um lado, pelo racionalismo, que segue uma racionalidade falsamente livre e separada de qualquer referência religiosa, e, por outro, pelos fundamentalismos, que absolutizam com violência as suas referências religiosas, afastando-se da razão.
Propor a perspectiva cristã num mundo globalizado e plural
Também a escola deve interrogarse sobre a missão que deve realizar no hodierno contexto social, marcado por uma evidente crise educativa. A escola católica, que tem como missão primária formar o aluno segundo uma visão antropológica integral, mesmo estando aberta a todos e respeitando a identidade de cada um, não pode deixar de propor a sua perspectiva educativa, humana e cristã. Eis então que se apresenta um desafio novo que a globalização e o pluralismo crescente tornam ainda mais agudo: isto é, o do encontro das religiões e das culturas na pesquisa comum da verdade. O acolhimento da pluralidade cultural dos alunos e dos pais encontra- se necessariamente em confron to com duas exigências: por um lado, não excluir alguém em nome da sua pertença cultural ou religiosa; por outro, quando esta diversidade cultural e religiosa for reconhecida e acolhida, não deter-se na mera constatação. Isto equivaleria, de fato, a negar que as culturas se respeitam verdadeiramente quando se encontram, porque todas as culturas autênticas estão orientadas para a verdade do homem e para o seu bem. Por isso, os homens provenientes de culturas diversas podem falar uns com os outros, compreender-se além das distâncias espaço-temporais, porque no coração de cada pessoa habitam as mesmas grandes aspirações ao bem, à justiça, à verdade, à vida e ao amor.
Formação dos futuros sacerdotes
Outro tema a ser estudado pela vossa Assembléia Plenária é a questão da reforma da Ratio fundamentalis institutionis sacerdotalis para os seminários. O documento-base, de 1970, foi atualizado em 1985, especialmente após a promulgação do Código de Direito Canônico de 1983. Nos sucessivos decênios, vários textos de especial relevo foram emanados, em particular a Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores dabo vobis (1992). A atmosfera atual da sociedade, com a máxima influência da mídia e a difusão do fenômeno da globalização, mudou profundamente. Portanto, parece necessário interrogar-se sobre a oportunidade da reforma da Ratio fundamentalis, que deverá ressaltar a importância de um correto desenvolvimento das diversas dimensões da formação sacerdotal na perspectiva da Igreja-comunhão, seguindo as indicações do Concílio Vaticano II. Isto exige uma sólida formação na fé da Igreja, uma verdadeira familiaridade com a Palavra revelada, doada por Deus à Sua Igreja. Além disso, a formação dos futuros sacerdotes deverá oferecer orientações e rumos úteis para dialogar com as culturas contemporâneas. A formação humana e cultural, portanto deve ser significativamente fortalecida e apoiada também com a ajuda das ciências modernas, dado que alguns fatores sociais desestabilizadores presentes hoje no mundo (por exemplo, a condição de tantas famílias separadas, a crise educativa, uma violência difundida, etc.) tornam frágeis as novas gerações. Ao mesmo tempo, é necessária uma formação adequada à vida espiritual, que torne as comunidades cristãs, em particular as paróquias, cada vez mais conscientes da sua vocação e capazes de corresponder de modo adequado à exigência de espiritualidade manifestada especialmente pelos jovens. Isto requer que não faltem na Igreja apóstolos e evangelizadores qualificados e responsáveis.
O cuidado das vocações envolve toda a comunidade eclesial
Por conseguinte, apresenta-se o problema das vocações, sobretudo para o sacerdócio e para a vida consagrada. Enquanto em certas partes do mundo se observa um florescimento de vocações, noutras o número diminui, sobretudo no Ocidente. O cuidado das vocações envolve toda a comunidade eclesial bispos, sacerdotes, consagrados, mas também as famílias e paróquias. Certamente será de grande ajuda para esta vossa ação pastoral também a publicação do documento sobre a vocação para o ministério presbiteral, que estais a preparar. Queridos irmãos e irmãs! Recordei há pouco que o ensino é expressão da caridade de Cristo e é a primeira das obras de misericórdia espiritual que a Igreja é chamada a realizar. Quem entra na sede da Congregação para a Educação Católica é acolhido por um ícone que mostra Jesus no gesto do lava- pés aos Seus discípulos durante a Última Ceia. Aquele que "nos amou até ao fim" (Jo 13, 1) abençoe o vosso trabalho ao serviço da educação e, com a força do Seu Espírito, o torne eficaz. Por meu lado, agradeço-vos por quanto estais a fazer quotidianamente com competência e dedicação e, enquanto vos confio à proteção materna de Maria Santíssima, Virgem Sábia e Mãe do Amor, concedo a todos de coração a Bênção Apostólica.
(Discurso aos participantes da Assembléia Plenária da Congregação para a Educação Católica, 21/1/2008)

domingo, 26 de dezembro de 2010

Igreja Católica: Mãe das Universidades




Os estudantes universitários normalmente têm um conhecimento pouco profundo sobre a Idade Média; e porque muitos são mal informados, acham que foi um período de ignorância, superstição e repressão intelectual por parte da Igreja católica. No entanto, foi exatamente na Idade Média que surgiu a maior contribuição intelectual para o mundo: o sistema universitário.
A universidade foi um fenômeno totalmente novo na história da Europa. Nada como ele existiu no mundo grego ou romano afirmam os historiadores.
O ensino superior na Idade Média era ministrado  por iniciativa da Igreja. A Universidade medieval não tem precedentes históricos; no mundo grego houve escolas públicas, mas todas isoladas. No período greco-romano cada filósofo e cada mestre de ciências tinham "sua escola", o que implicava justamente no contrário de uma Universidade. Esta surgiu na Idade Média, pelas mãos da Igreja Católica, e reunia mestres e discípulos de várias nações, os quais constituíam poderosos centros de saber e  de erudição.
Por volta de 1100, no meio de uma grande fermentação intelectual, começam as surgir as Universidades; o orgulho da Idade Média cristã, irmãs das Catedrais. A sua aparição é um marco na história da civilização Ocidental que nenhum historiador tem coragem de negar. Elas nasceram às sombras das Catedrais e dos mosteiros. Logo receberam o apoio das autoridades da Igreja e dos Papas. Assim, diz Daniel Rops, "a Igreja passou a ser a matriz de onde saiu a Universidade" (A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, pág. 345).
Tudo isso nesta bela época que alguns teimam em chamar maldosamente de "obscura" Idade Média. A razão e a fé sempre caminharam juntas na Igreja.
A raiz das Universidades esta no século IX com as escolas monásticas da Europa, especialmente para a formação dos monges, mas que recebiam também estudantes externos. Depois, no século XI surgiram as escolas episcopais; fundadas pelos bispos, os Centros de Educação nas cidades, perto das Catedrais. No século XII surgiram centros docentes debaixo da proteção dos Papas e Reis católicos, para onde acorriam estudantes de toda Europa.
A primeira Universidade do mundo Ocidental foi a de Bolonha (1158), na Itália, que teve a sua origem na fusão da escola episcopal com a escola monacal camaldulense de São Félix. Em 1200 Bolonha tinha dez mil estudantes (italianos, lombardos, francos, normandos, provençais, espanhóis, catalães, ingleses germanos, etc.). A segunda, e que teve maior fama foi a Universidade de Paris, a Sorbone, que surgiu da escola episcopal da Catedral de Notre Dame. Foi fundada pelo confessor de S. Luiz IX, rei de França, Sorbon. Ali foram estudar muitos grandes santos como Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e São Tomás de Aquino. A universidade de Paris (Sorbonne) era chamada de "Nova Atenas" ou o "Concílio perpétuo das Gálias", por ser especialmente voltada à teologia.
O documento mais antigo que contém a palavra "Universitas" utilizada para um centro de estudo é uma carta do Papa Inocêncio III ao "Estúdio Geral de Paris". A universidade de Oxford, na Inglaterra surgiu de uma escola monacal organizada como universidade por estudantes da Sorbone de Paris. Foi apoiada pelo Papa Inocêncio IV (1243-1254) em 1254.
Salamanca é a Universidade mais antiga da Espanha das que ainda existem, fundada pela Igreja; seu lema é "Quod natura non dat, Salmantica non praestat" (O que a natureza não nos dá, Salamanca não acrescenta". Entre as universidades mais antigas está a de Santiago de Compostela. A cidade foi um foco de cultura desde 1100 graças ao prestígio de sua escola capitular que era um centro de formação de clérigos vinculados à Catedral. A Universidade de Valladolid é anterior à de Compostela já que em 1346 obteve do  papa Clemente VI a concessão  de todas as faculdades, exceto a de Teología.
Em 1499 o Cardeal Cisneros fundou a famosa universidade "Complutense" mediante a Bula Pontifícia concedida pelo Papa Alexandre VI. Nos anos de 1509-1510 já funcionavam cinco Faculdades: Artes e Filosofía, Teología, Direito Canônico , Letras e Medicina.
Até 1440 foram erigidas na Europa 55 Universidades e 12 Institutos de ensino superior, onde se ministravam cursos de Direito, Medicina, Línguas, Artes, Ciências, Filosofia e Teologia. Todos fundados pela Igreja. O Papa Clemente V (1305-1314) no Concílio universal de Viena em 1311, mandou que se instaurassem nas escolas superiores cursos de línguas orientais (hebreu, caldeu, árabe, armênio, etc.), o que em breve foi feito também  em Paris, Bolonha, Oxford, Salamanca e Roma.
A atual Universidade de Roma, La Sapienza - onde tristemente estudantes e professores impediram o Papa Bento XVI de proferir a aula inaugural em 2008 -  foi fundada há sete séculos, em 1303, pelo Papa Bonifácio VIII (1294-1303), com o nome de "Studium Urbis".
Das 75 Universidades criadas de 1500, 47 receberam a Bula papal de fundação, enquanto muitas outras, que surgiram espontaneamente ou por decisão do poder secular, receberam em seguida a confirmação pontifícia, com a concessão da Faculdade de Teologia ou de Direito Canônico. (Sodano, 2004).
As universidades atraíam multidões de estudantes, da Alemanha, Itália, Síria, Armênia e Egito. Vinham para a de Paris chegavam a 4000, cerca de 10% da população.
Só na França havia uma dezena de universidades: Montepellier (1125), Orleans (1200), Toulouse (1217), Anger (1220), Gray, Pont-à-Mousson, Lyon, Parmiers, Norbonne e Cabors. Na Itália: Salerno (1220), Bolonha (1111), Pádua, Nápoles e Palerno. Na Inglaterra: Oxford (1214), nascida das Abadias de Santa Frideswide e de Oxevey, Cambridge. Além de Praga na Boêmia, Cracóvia (1362), Viena (1366), Heidelberg (1386). Na Espanha: Salamanca e Portugal, Coimbra. Todas fundadas pela Igreja. Como dizer que a Idade Média cristã foi uma longa "noite escura" no tempo? As universidades medievais foram centros de intensa vida intelectual, onde os grandes homens se enfrentavam em discussões apaixonadas nos grandes problemas. E a fé era o fermento que fazia a cultura crescer.
Graças ao latim todos se entendiam, era a língua universal  e acadêmica; esta permitia aos sábios comunicar-se de um ponto a outro da Europa Ocidental. Havia uma unidade interna e de obediência aos mesmos princípios; era o reflexo de uma civilização vigorosa, segura de sua força e de si mesma.
A partir de 1250 o grego foi ensinado nas escolas dominicanas e, a partir de 1312 nas universidades de Sorbonne, Oxford, Bolonha e Salamanca. Abria-se assim um novo campo ao pensamento que desencadeou uma onda de paixão filosófica no nascimento da Escolástica-teologia e filosofia unidas para provar uma proposição de fé.
Santo Agostinho, Cassidoro, Santo Isidoro de Sevilha, Rábano Mauro e Alamino, os grandes mestres da Antigüidade, se apoiavam sobretudo nas Sagradas Escrituras. Agora o intelectual cristão da Idade Média quer demonstrar que os dogmas estão de acordo com a razão e que são verdadeiros. É a "teologia especulativa", onde a filosofia é amiga da teologia. Os problemas do mundo são estudados agora sob esta dupla ótica.
A Universidade medieval era um mundo turbulento e cosmopolita; os estudantes de Paris estavam repartidos em quatro nações: os Picardos, os Ingleses, os Alemães e os Franceses.  Os professores também vinham de diversas partes do mundo: havia Sigério de Brabante (Bélgica), João de Salisbury (Inglaterra), S. Alberto Magno (Renânia), S. Tomás de Aquino e São Boaventua da Itália.   
Os problemas que apaixonavam os filósofos, eram os mesmos em Paris, em Oxford, em Edimburgo, em Colônia ou em Pavia. O mundo estudantil era também um mundo itinerante: os jovens saiam de casa para alcançar a Universidade de sua escolha; voltavam para sua terra nas festas.  O sistema universitário que temos hoje com cursos de graduação, pós-graduação, faculdades, exames e graus veio diretamente do mundo medieval.
Os papas sabiam bem da importância das universidades nascentes para a Igreja e para o mundo, e por isso intervinham em sua defesa muitas vezes. O Papa Honório III (1216-1227) defendeu os estudantes de Bolonha em 1220 contra as restrições de suas liberdades. O Papa Inocêncio III (1198-1216) interveio quando o chanceler de Paris insistiu em um juramento à sua personalidade. O Papa Gregório IX (1227-1241) publicou a Bula "Parens Scientiarum" em nome dos mestres de Paris, onde garantiu à Universidade de Paris (Sorbonne) o direito de se auto-governar, podendo fazer suas leis em relação aos cursos e estudos, e dando à Universidade uma jurisdição papal, emancipando-a da interferência da diocese.
O papado foi considerado a maior força para a autonomia da Universidade, segundo A. Colban (1975). Era comum as universidades trazerem suas queixas ao Papa em Roma. Muitas vezes o Papa interveio para que as universidades pagassem os salários dos professores; Bonifácio VIII (1294-1303), Clemente V (1305-1314), Clemente VI (1342-1352), e Gregório XI (1370-1378) fizeram isso. "Na universidade e em outras partes, nenhuma outra instituição fez mais para promover o saber do que a Igreja Católica", garante Thomas  Woods( pg. 51).
O processo para se adquirir a licença para ensinar era difícil. Para se ter idéia da solenidade e importância do ato, basta dizer que a pessoa para ser licenciada se ajoelhava diante do Vice-chanceler, que dizia:
"Pela autoridade dos Apóstolos Pedro-Paulo, dou-lhe a licença de ensinar, fazer palestras, escrever, participar de discussões... e exercer outros atos do magistério, ambos na Faculdade de Artes em Paris e outros lugares, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém" [Daly, 1961; pg 135].
Uma riqueza da universidade medieval é que era atenta às finalidades sociais. Não se aceitava a idéia de uma cultura desinteressada, ou um saber exclusivamente para seu próprio benefício pessoal. "Deve-se aprender apenas para a própria edificação ou para ser útil aos outros; o saber pelo saber é apenas uma vergonhosa curiosidade", já havia dito São Bernardo (1090-1153).
Para Inocêncio IV (1243-1254) a Universidade era o "Rio da ciência que rege e fecunda o solo da Igreja universal", e Alexandre IV (1254-1261) a chamava de: "Luzeiro que resplandece na Casa de Deus" (Daniel Rops, pg.348).
Portanto, são maldosos ou ignorantes da História aqueles que insistem em se referir à Idade Média e à Igreja como promotoras da inimizade à Ciência e perseguidora dos cientistas. 
Prof. Felipe Aquino

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A idéia de Universidade do Cardeal Newman e sua relevância para a educação superior católica.

Trechos do artigo publicado em COMMUNIO, revista internacional de teologia e cultura, Vol. XXVII, No. 2 (Abr/Jun 2008)
Cardeal Avery Dulles
Esse artigo é uma colaboração da revista

Cardeal Avery Dulles S.J. foi professor de Teologia em várias universidades norte-americanas. É membro e foi presidente da American Theological Society e da Catholic Theological Society of America. Foi membro da Comissão Teológica Internacional do Vaticano e coordenador do Comitê Católico-Luterano. É autor de mais de vinte e cinco livros sobre Teologia e Filosofia, além de ter publicado mais de setecentos artigos acadêmicos.
O Cardeal John Henry Newman (1801-1890) foi um dos maiores pensadores católicos do século XIX. Crítico contumaz do positivismo, esteve muito à frente de seu tempo, descortinando paradoxos e contradições do pensamento moderno que só se tornariam evidentes no século XX. Neste texto, são apresentadas suas críticas aos desvios do utilitarismo, da fragmentação, do secularismo e do racionalismo no ensino acadêmico.

John Henry Newman (1801-1890), ao escrever na Inglaterra em meados do século XIX, propôs uma visão de educação superior católica que levasse em conta as principais dificuldades que prevaleciam em sua época e que são igualmente predominantes hoje. Embora suas propostas tenham sido, em grande parte, endereçadas em termos positivos, irei resumi-las contrastando-as com quatro tendências que Newman tinha como inaceitáveis. Chamarei tais tendências de utilitarismo, fragmentação, secularismo e racionalismo.
Como utilitarismo Newman entendia o movimento filosófico ligado ao nome de Jeremy Bentham (1748-1832). O editor da Edinburgh Review, Lorde Francis Jeffrey (1773-1850), juntamente com personalidades influentes como Lorde Henry Brougham (1778-1868) e Sydncy Smith (1771-1845), propunham destronar os clássicos da posição de supremacia que tinham em Oxford e Cambridge e substituí-los por um conhecimento útil que levasse ao comércio ou à profissionalização. Newman afirmava, ao contrário, que a finalidade primeira da educação não era a aquisição de uma informação útil ou de habilidades necessárias para uma determinada ocupação, mas o cultivo do intelecto. O fruto especial da educação universitária, conforme seu ponto de vista, era produzir o que chamava de "hábito filosófico da mente". O estudo dos clássicos, acreditava, havia provado sua capacidade de "reforçar, refinar e enriquecer as capacidades intelectuais"
Newman estava convencido de que o refinamento mental que deriva da capacidade de ler, escrever e do estudo da Filosofia é algo bom em si mesmo, realmente aparte da utilidade. Mas acrescentou que, longe de ser inútil, uma educação desse tipo permitiria ao aluno assumir várias posições sociais e profissionais. Caso queira tornar-se um soldado, um homem público, um advogado ou um médico, tal pessoa precisará da capacidade de pensar com clareza, de organizar o conhecimento e articular as próprias idéias de forma a lidar, eficazmente, com as questões mais prementes. Um programa de estudos estritamente profissional ou vocacional, portanto, iria falhar no teste da utilidade, para não mencionar o teste adicional do conhecimento liberal como fim em si mesmo.
A segunda ameaça é a fragmentação. Newman estava incomodado com o aumento da compartimentalização da educação. Ele não era co i u rã a multiplicação das disciplinas. Na universidade irlandesa, criou não só uma escola de artes e ciências, mas também escolas de Medicina e Engenharia, Tomou providências para criar um laboratório de Química e um observatório astronômico. Todos esses elementos, segundo sua visão, tinham um lugar apropriado na universidade, local de aprendizagem universal. Mas a própria multiplicidade de disciplinas aumentou a necessidade de um princípio ordenador, que governasse o todo, de forma que os alunos fossem capazes de perceber o significado de cada ramo específico do conhecimento em relação ao todo.
A Filosofia, como Newman empregava o termo, não era tanto uma disciplina especial como uma metadisciplina. Ao compreender a Filosofia como o exercício da razão sobre o conhecimento, ele defendia que era ilimitada quanto ao horizonte. Dessa perspectiva própria, ela abraça todo tipo de verdade e estabelece cada um dos métodos para alcançá-la. Dessa forma, o estudo da Filosofia supera a ameaça de fragmentação.
A terceira ameaça era o secularismo: a exclusão do conhecimento religioso da educação superior. Uma boa parcela da culpa, acreditava Newman, recaía sobre os evangélicos, que descreviam a religião não como conhecimento, mas como uma questão de sentimento ou emoção. Se a religião não é nada além disso, Newman admitia, ela não poderia reivindicar, convenientemente, o mérito de ter uma cátedra na universidade. Mas, para ele a religião era uma questão de verdade. Por meio da razão e da revelação, o intelecto poderia chegar a um conhecimento genuíno acerca de Deus e, tal conhecimento, poderia ser estruturado num sistema.
A universidade deveria, obviamente, levar em conta as verdades a respeito de Deus que são acessíveis a todas as pessoas que estão atentas a elas, tais como os artigos da religião natural. Mas não deveria omitir a verdade revelada, já que a revelação divina é necessária para evitar que a razão se perca. A universidade, como Newman a concebia, não era um seminário, e por isso ela não poderia explorar, profundamente, as questões dogmáticas e de Teologia Sacramentai, mas deveria buscar comunicar o que chamava de "conhecimento religioso geral". Nenhuma parcela da verdade católica poderia ser devidamente excluída da universidade.
A ausência da Teologia, argumenta Newman, deixaria desequilibrados os outros ramos do conhecimento. Ansiosos por preencher o vácuo deixado por tal ausência, essas disciplinas buscariam responder, com os próprios métodos, questões que não poderiam ser corretamente respondidas a não ser pela Teologia. Provavelmente todos nós já experimentamos como os professores de Tísica ou de Kconomia, Medicina ou Psicologia para citar alguns exemplos — tendem a operar como se a sua qualificação especializada desse totalmente conta da realidade e do que significa ser humano. A Teologia é necessária, portanto, para manter as disciplinas seculares dentro dos próprios limites e para lidar com questões além do alcance de tais disciplinas.
O racionalismo, na visão de Newman, era a quarta grande ameaça. A universidade, como local de cultivo intelectual, tende a tratar a razão humana como a medida de todas as coisas. Ao absolutizar seus próprios padrões e objetivos, a universidade aspira a completa autonomia e se torna rival da Igreja, até mesmo na própria esfera de competência eclesiástica. Para evitar essa intromissão, a Igreja deve exercer o que Newman chama de uma "jurisdição direta e ativa" sobre a universidade. Isso não deve ser visto como um obstáculo, mas como auxílio à universidade. A supervisão eclesiástica evita que a universidade recaia nos tipos de ceticismo e descrença que infestaram os bancos escolares desde a época de Abelardo. Por não poder completar a sua missão sem a verdade revelada, e porque a Igreja tem total autoridade para ensinar os conteúdos da revelação, a universidade deve aceitar a direção da Igreja.
Newman estava bem ciente de que os resultados da ciência, muitas vezes, pareceriam conflitar com a doutrina cristã. Ele aconselhava paciência e reserva, por parte das autoridades eclesiásticas, bem como dos cientistas. Ambos deveriam proceder com a certeza de que a reconciliação poderia, no devido tempo, ser alcançada, pois seria impossível que a verdade da revelação pudesse ser contrária à razão e à ciência. [...]
Se Newman estivesse vivo hoje, iria, entusiasticamente, abraçar os princípios apresentados por João Paulo II na Constituição Apostólica “Ex Cores Ecclesiae” (15 de agosto de 1990). Nesse documento, o Santo Padre demonstra os mesmos princípios gerais que tentei destacar no tratado de Newman. Ensina que a educação universitária não deveria se contentar em produzir mão de obra eficiente para a indústria ou para o mercado, não deveria exaltar a técnica em detrimento do espiritual. É francamente contra a multiplicação de departamentos e institutos, que vê como danosos a uma rica formação humana. Reclama um humanismo universal e uma visão orgânica da realidade. Da mesma forma, defende que as universidades católicas possuam uma vantagem incomparável diante das demais por serem capazes de integrar toda a verdade em relação ao Cristo, o Logos encarnado, a quem os cristãos reconhecem como o caminho, a verdade e a vida para todo o mundo. [...]

domingo, 31 de outubro de 2010

Identidade e Diálogo na Universidade Católica


Trechos da Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, de João Paulo II, sobre as Universidades Católicas
 

1. NASCIDA DO CORAÇÃO DA IGREJA, a Universidade Católica insere-se no sulco da tradição que remonta à própria origem da Universidade como instituição, e revelou-se sempre um centro incomparável de criatividade e de irradiação do saber para o bem da humanidade [...]

6. A Universidade Católica, mediante o encontro que estabelece entre a riqueza insondável da mensagem salvífica do Evangelho e a pluralidade e imensidade dos campos do saber em que aquela encarna, permite à Igreja instituir um diálogo de fecundidade incomparável com todos os homens de qualquer cultura. Com efeito, o homem vive uma vida digna graças à cultura e, se encontra a sua plenitude em Cristo, não há dúvida que o Evangelho, atingindo-o e renovando-o em todas as suas dimensões, é também fecundo para a cultura, da qual o mesmo homem vive. [...]

12. Toda a Universidade Católica, enquanto Universidade,  é uma comunidade acadêmica que, dum modo rigoroso e crítico, contribui para a defesa e desenvolvimento da dignidade humana e para a herança cultural mediante a investigação, o ensino e os diversos serviços prestados às comunidades locais, nacionais e internacionais. [1] Ela goza daquela autonomia institucional que é necessária para cumprir as suas funções com eficácia, e garante aos seus membros a liberdade acadêmica na salvaguarda dos direitos do indivíduo e da comunidade no âmbito das exigências da verdade e do bem comum. [2]

13. Uma vez que o objetivo de uma Universidade católica é garantir em forma institucional uma presença cristã no mundo universitário perante os grandes problemas da sociedade e da cultura, [3] ela deve possuir, enquanto católica, as seguintes características essenciais:
1. uma inspiração cristã não só dos indivíduos, mas também da Comunidade universitária enquanto tal;
2. uma reflexão incessante, à luz da fé católica, sobre o tesouro crescente do conhecimento humano, ao qual procura dar uma contribuição mediante as próprias investigações;
3. a fidelidade à mensagem cristã tal como é apresentada pela Igreja;
4. o empenho institucional a serviço do povo de Deus e da família humana no seu itinerário rumo àquele objetivo transcendente que dá significado à vida. [4]

15. A Universidade Católica, portanto, é o lugar onde os estudiosos examinam a fundo a realidade com os métodos próprios de cada disciplina acadêmica, e deste modo contribuem para o enriquecimento do tesouro dos conhecimentos humanos. Cada disciplina vem estudada dum modo sistemático, as várias disciplinas são levadas depois ao diálogo entre elas com a finalidade dum enriquecimento recíproco. Tal investigação, para além de ajudar homens e mulheres na perseguição constante da verdade, proporciona um testemunho eficaz, hoje tão necessário, da confiança que a Igreja tem no valor intrínseco da ciência e da investigação. Numa Universidade Católica, a investigação compreende necessariamente: a) perseguir uma integração do conhecimento; b) o diálogo entre a fé e a razão; c) uma preocupação ética; e d) uma perspectiva teológica. [...]

17. Ao promover esta integração, a Universidade Católica deve empenhar-se, mais especificamente, no diálogo entre fé e razão, de modo a poder ver-se mais profundamente como fé e razão se encontram na única verdade. Conservando embora cada disciplina acadêmica a sua integridade e os próprios métodos, este diálogo põe em evidência que a “investigação metódica em todo o campo do saber, se conduzida de modo verdadeiramente científico e segundo as leis morais, nunca pode encontrar-se em contraste objetivo com a fé. As coisas terrenas e as realidades da fé têm, com efeito, origem no mesmo Deus”. [5] A interação vital dos dois níveis distintos de conhecimento da única verdade conduz a um amor maior pela mesma verdade e contribui para uma compreensão mais ampla do significado da vida humana e do fim da criação. [...]

21. A Universidade Católica persegue os seus objetivos também mediante o empenho em formar uma comunidade humana autêntica, animada pelo espírito de Cristo. A fonte da sua unidade brota da sua comum consagração à verdade, da mesma visão da dignidade humana e, em última análise, da pessoa e da mensagem de Cristo que dá à instituição o seu caráter distintivo. Como resultado desta ótica, a Comunidade universitária é animada por um espírito de liberdade e de caridade; é caracterizada pelo respeito recíproco, pelo diálogo sincero, pela defesa dos direitos de cada um. Assiste todos os seus membros a conseguir a plenitude como pessoas humanas. Cada membro da Comunidade, por sua vez, ajuda a promover a unidade e contribui, segundo a sua função e as suas capacidades, para as decisões que dizem respeito à mesma Comunidade, bem como para manter e reforçar o caráter católico da instituição.

22. Os professores universitários esforcem-se sempre por melhorar a própria competência e por enquadrar o conteúdo, os objetivos, os métodos e os resultados da investigação de cada disciplina no contexto de uma coerente visão do mundo. Os professores cristãos são chamados a ser testemunhas e educadores duma autêntica vida cristã, a qual manifeste a integração conseguida entre fé e cultura, entre competência profissional e sabedoria cristã. Todos os professores devem ser inspirados pelos ideais acadêmicos e pelos princípios duma vida autenticamente humana. [...]

26. A Comunidade universitária de muitas instituições católicas inclui colegas pertencentes a outras Igrejas, a outras Comunidades eclesiais e religiões, e bem assim colegas que não professam nenhum credo religioso. Estes homens e estas mulheres contribuem, com a sua formação e experiência, para o progresso das diversas disciplinas acadêmicas ou para a realização de outras tarefas universitárias.

27. Afirmando-se como Universidade, cada Universidade Católica mantém com a Igreja uma relação que é essencial à sua identidade institucional. Como tal, ela participa mais diretamente na vida da Igreja particular na qual tem sede, mas, ao mesmo tempo e sendo inserida como instituição acadêmica, pertence à comunidade internacional do saber e da investigação, participa e contribui para a vida da Igreja universal, assumindo, portanto, uma ligação particular com a Santa Sé em virtude do serviço de unidade, que é chamada a realizar em favor de toda a Igreja. Desta sua relação essencial com a Igreja derivam consequentemente a fidelidade da Universidade, como Instituição, à mensagem cristã, o reconhecimento e a adesão à autoridade magisterial da Igreja em matéria de fé e moral. Os membros católicos da Comunidade universitária, por sua vez, são também chamados a uma fidelidade pessoal à Igreja, com tudo quanto isto comporta. “Dos membros não católicos, enfim, espera-se o respeito do caráter católico da instituição na qual prestam serviço, enquanto a Universidade, por seu lado, respeitará a sua liberdade religiosa”. [6] [...]

29. A Igreja, aceitando “a legítima autonomia da cultura humana e especialmente das ciências”, reconhece também a liberdade acadêmica de cada um dos estudiosos na disciplina da sua competência, de acordo com os princípios e os métodos da ciência, a que ela se refere, [7] segundo as exigências da verdade e do bem comum.  [...]

43. Por sua mesma natureza, a Universidade promove a cultura mediante a sua atividade de investigação, ajuda a transmitir a cultura local às gerações sucessivas, por meio do seu ensino, favorece as iniciativas culturais com os próprios serviços educativos. Ela está aberta a toda a experiência humana, disposta ao diálogo e à aprendizagem de qualquer cultura. A Universidade Católica participa neste processo oferecendo a rica experiência cultural da Igreja. Além disso, consciente de que a cultura humana está aberta à Revelação e à transcendência, a Universidade Católica é lugar primário e privilegiado para um frutuoso diálogo entre Evangelho e cultura. [...]

Notas

[1] Cf. La Magna Charta delle Università Europee, Bolonha, Itália, 18 de Setembro de 1988, “Princípios fundamentais”.

[2] Cf. Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, n. 59: AAS 58 ( 1966), p. 1080. Gravissimum educationis, n. 10: AAS 58 (1966), p. 737. “Autonomia institucional” significa que o governo de uma instituição acadêmica é e permanece interno à instituição. “Liberdade acadêmica” é a garantia, dada a quantos se dedicam ao ensino e à investigação, de, no âmbito do seu campo específico de conhecimento e de acordo com os métodos próprios de tal área, poder procurar a verdade em toda a parte onde a análise e a evidência as conduzam, e de poder ensinar e publicar os resultados de tal investigação, tendo presente os critérios citados, isto é, de salvaguarda dos direitos do indivíduo e da comunidade, das exigências da verdade e do bem comum.

[3] A noção de cultura, usada neste documento, compreende uma dupla dimensão: a humanista e a sócio-histórica. “Com o termo genérico de 'cultura' indicam-se todos aqueles meios, mediante os quais o homem apura e desenvolve as suas múltiplas capacidades espirituais e físicas; procura sujeitar ao seu domínio o próprio cosmos através do conhecimento e do trabalho; torna mais humana a vida social quer na família quer em toda a sociedade civil, mediante o progresso dos costumes e das instituições; e, finalmente, no decorrer do tempo, exprime, comunica aos outros e conserva nas suas obras, para que sejam de proveito a muitos e até à inteira humanidade, as suas grandes experiências espirituais e as suas aspirações. Daqui se segue que a cultura humana implica necessariamente um aspecto histórico e social e que o termo 'cultura' assume frequentemente um sentido sociológico e etnológico é” (Gaudium et spes, n. 53: AAS 58 [1966], p. 1075).

[4] L'Université Catholique dans le monde moderne. Document final du 2 Congrès des Délegués des Universités Catholiques, Roma, 20-29 de Novembro de 1972, § 1.

[5] Gadium et spes, n. 36: AAS 58 (1966), p. 1054. A um grupo de cientistas observava que “embora razão e fé representem sem dúvida duas ordens distintas de conhecimento, cada uma autônoma relativamente aos seus métodos, ambas devem convergir finalmente para a descoberta duma só realidade total que tem a sua origem em Deus”. (JOÃO PAULO II, Mensagem ao encontro sobre Galileu, 9 de Maio de 1983, n. 3: AAS 75 [1983], p. 690).

[6] Cf. Concílio Vaticano II, Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatis humanae, n. 2: AAS 58 (1966), pp. 930-931.

[7]Gaudium et spes, n. 59: AAS 58 ( 1966), p. 1080.