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domingo, 12 de junho de 2011

A crítica de Freud à religião - entrevista com Hans Zirker


“Enquanto o homem se mantém fiel a Deus, Freud o vê sujeito à imaturidade, à consciência ilusória e à neurose coletiva”. Essas são as palavras do filósofo e teólogo alemão Hans Zirker em entrevista exclusiva à IHU On-Line. Zirker ainda acrescentou que Freud ”procura compreender o homem e sua cultura tão radicalmente pela lei natural, e o estimula a uma condução tão autônoma da vida, que mais ou menos todas as religiões devem parecer-lhe como sistemas de um pensamento não-esclarecido e de uma dependência imatura”.
Hans Zirker é professor emérito de Teologia Católica e Didática na Universidade Duisburg-Essen. A entrevista que segue foi concedida por e-mail.


IHU On-Line - Qual a posição de Freud ante as religiões, sobretudo a cristã?
Hans Zirker - Freud dirige-se, em primeira linha, contra as religiões monoteístas, nas quais ele fala de Deus como “Pai”, são objetivadas a fé judaica e a fé cristã (ao islã é estranha esta imagem de Deus); em que ele critica a autoridade religiosamente imposta, todas as três religiões se devem ver atingidas. Com boas razões, porém, Freud agride de maneira bastante geral “a religião” no singular. Ele procura compreender o homem e sua cultura tão radicalmente pela lei natural e o estimula a uma condução tão autônoma da vida, que mais ou menos todas as religiões devem parecer-lhe como sistemas de um pensamento não-esclarecido e de uma dependência imatura. Freud vê o fim ideal de todo o conhecimento na limitação em torno daquilo que pode ser cientificamente demonstrado. E ele sabia que ele próprio ainda não atingira este fim com sua psicanálise, e ele também não nutria a esperança de que os homens em sua maioria jamais alcançassem este fim. Apesar disso, para ele, o pensamento religioso perdera indiscutivelmente sua validade.

IHU On-Line - Sob que pontos de vista a crítica de Freud se dirige de maneira mais dura contra a religião?
Hans Zirker - Freud acusa a religião de três grandes males principalmente: Em primeiro lugar, ele vê que nela os homens são mantidos na imaturidade. As crianças, quando se sentem desamparadas e com medo, buscam nos pais abrigo e proteção. Deles esperam amparo e cuidado. Elas ainda não são responsáveis por si próprias, mas são conduzidas. Mas, o que nos primeiros anos de vida é natural, bom e necessário, não deveria permanecer quando as pessoas se tornam adultas. Elas devem poder libertar-se dos progenitores e tornar-se autônomas, se não quiserem falhar em sua vida. Elas devem aprender a superar sozinhas os medos e as necessidades, onde estas puderem ser superadas e, onde isso não for possível, a suportá-las. A isso, segundo Freud, se contrapõe a religião: ela propõe Deus como aquele que aparentemente faculta aos homens que eles possam permanecer como crianças e não precisem tornar-se adultos. Na realidade, porém, – segundo a convicção de Freud – a religião não pode ajudá-los. Perigos e miséria não são por ela afastados, porém surgem tanto mais dura e perfidamente.
Em segundo lugar, a religião significa para Freud o mais extremo domínio do pensamento desejoso. Que tenhamos sonhos, saudades e desejos é novamente natural, bom e necessário. Mas nós também devemos poder reconhecer a realidade que se lhes contrapõe. Não só é pernicioso, mas também indigno anestesiar-se de tal maneira que já não se percebam as próprias condições e relações. Isso, no entanto, o fazem, segundo Freud, pessoas religiosas. Elas imaginam coisas divinas, para não precisar posicionar-se ante seu mundo. Elas se entregam à ilusão, elas recorrem à religião como a um ópio.
Em terceiro lugar, Freud vê na religião uma ordem cultural imposta que se equipara a uma enfermidade psíquica, a uma neurose. Muitas vezes, quando se sentem sobrecarregadas, as pessoas procuram uma proteção perigosa: elas atribuem, de maneira exagerada, um lugar estável às coisas que as circundam, submetem-se, em sua conduta, a regras estranhas, parecendo aos seus concidadãos estranhos ou até perturbados. Eles o fazem por não ter aprendido a entender-se razoavelmente com seu mundo. Elas necessitam de seguranças adicionais. Com isso, porém, eles estreitam violentamente seu espaço vital e suas possibilidades vitais. Sua capacidade de conduzir-se significativamente entre outras pessoas e comunicar-se racionalmente com elas, se reduz e são elas que mais sofrem com isso. A inquietude que as conduz não pode ser afastada dessa maneira, mas até ainda aumenta.
Programa saudável
O que, na vida individual, se manifesta dessa forma como enfermidade, vê Freud realizado cultural e coletivamente na religião. Também ela circunda e concretiza a vida com ritos, para afastar experiências caóticas por meio de uma ordem sagrada. Ela zela angustiadamente pelo exato cumprimento das cerimônias, para que nada apareça perturbado. No entanto, com isso, segundo Freud, ela não obtém estabilidade psíquica, porém escrúpulo, nem obtém segurança, porém temores acrescidos. Diante destes três aspectos da religião Freud concebe sua crítica como programa saudável. As pessoas devem, enquanto isso for possível, ser transpostas à condição de aceitarem a si próprias e seu mundo assim como eles o são. Elas devem ser capacitadas a aceitar a verdade e renunciar às ilusões, para, desta forma finalmente, conquistar saúde espiritual e psíquica.
IHU On-Line – O senhor crê que Freud era ateu?
Hans Zirker - Segundo sua própria compreensão, Freud certamente era ateu, porque, como homem se mantém fiel a Deus, Freud o vê sujeito à imaturidade, à consciência ilusória e à neurose coletiva. Ele não admite que a fé em Deus também possa capacitar o homem a tornar-se maduro, a superar ilusões e afastar uma conduta angustiada. Prestar-se-ia pouco serviço à compreensão da crítica psicanalítica da religião, caso realmente se quisesse interpretar Freud, em algum “sentido mais profundo”, como um homem que acreditava em Deus. Já em sua etimologia, porém, o conceito “ateísta” [ateu: em alemão ‘A-theist’ - BD] tem sentido meramente negativo. Por isso, este conceito não faz suficiente justiça a Freud. Em primeira linha e em ultima análise Freud é “humanista”. A controvérsia com ele também deve, por isso, ser conduzida principalmente em torno da compreensão do ser humano, e não com relação a Deus.
IHU On-Line – Como pode a teologia contribuir para a compreensão da psicanálise?
Hans Zirker - A psicanálise é um procedimento direcionado para o autoconhecimento e a estabilização, possivelmente para a cura do ser humano. Ela ultrapassa amplamente a crítica de Freud à religião e, em seu todo, não pode ser fixada na discussão da religião. De sua parte, a teologia não pode pretender estar também amplamente disponível para questões de psicanálise. Aqui é adequada uma atitude de reserva. Mas, a teologia deve, em todo o caso, refletir sobre o modo pelo qual ela quer abordar a crítica da religião proposta por Freud. Não seria suficiente que ela procurasse ver quais os representantes da psicanálise que reconhecem mais valor e validade à religião.
Quatro pontos a serem levados em consideração
Em primeiro lugar, a teologia deve levar a sério a crítica de Freud. Há suficientes provas de que determinados estilos de educação religiosa são predominantemente direcionados para a obediência e promovem a imaturidade; de que, com a religião, pode ser apoiado o poder e ser desviado o olhar de situações escandalosamente injustas; que sob influências religiosas há pessoas que adoecem, etc. Isso também não pode ser contestado com a alegação de que, nestes casos, sequer se trata propriamente de religião, porém de degenerescências e perversões da religião. Este argumento seria demasiado simplório. Não, a própria religião é algo ambivalente. Ela não cai do céu como dom de Deus, mas também é sempre cultura humana. E assim ela também contém comprometedoras possibilidades. Só se poderia discutir, se seria conveniente reduzi-las, como o fez Freud, às suas conseqüências malsãs.
Em segundo lugar, a teologia pode apelar precisamente a Freud, quando ela admoesta à precaução em face do juízo crítico, pois, para a psicanálise, Freud exige uma conduta comunicativa: o médico ou psicólogo não deveria antecipar-se com seu próprio julgamento à concepção do outro, ao qual quer ajudar, não deveria bloquear com suas próprias hipóteses a autocompreensão do outro, porém abrir caminho a percepções que possam ser convincentes para ambos os lados. Esta exigência também pode ser transposta para o trato com religião e pessoas crentes. Uma crítica que sabe de antemão como se encontra a fé religiosa, ela própria viola o método analítico exigido e não palmilha o penoso caminho do entendimento comum para uma compreensão, quanto possível, comum.
Em terceiro lugar, a teologia pode contribuir para uma compreensão diferenciada da experiência. Quando Freud fala “da realidade” com a qual é preciso relacionar-se, ele pensa numa grandeza aparentemente inquestionável. No entanto, a “realidade” não pode ser estabelecida tão univocamente, ela não pode ser entendida tão “objetivamente” como Freud o pensava numa determinada tradição científica. O que vale como “experiência” e “realidade”, já é amplamente condicionado historicamente, cunhado culturalmente e também dependente de caminhos e concepções pessoais de vida.
Finalmente, e em quarto lugar, a crítica da religião e a religião, a psicanálise e a teologia devem entender-se sobre qual o significado que, na vida humana, também na religião, se atribui às necessidades, desejos e esperanças. Elas não podem ser contrapostas às experiências, como se ambos os lados fossem algo totalmente distinto e não tivessem nada a ver reciprocamente. Saudades não só podem reprimir experiências, como também despertar sensibilidade para elas. As experiências nem sempre devem contrapor-se aos desejos e esperanças, mas também podem fortalecê-los.
IHU On-Line – Na visão da psicanálise, qual a distinção entre crença e fé? Poderia a distinção entre crença e fé contribuir ao entendimento pela psicanálise?
Hans Zirker - A distinção entre fé e crença aponta para o fato de que uma religião historicamente dada e institucionalmente formulada sempre se refere a uma convicção responsavelmente assumida e vivida. Caso contrário, religião e fé tornam-se mero costume exterior ou dever imposto. Somente em experiências conquistadas pela crença se pode confirmar a fé. Por sua vez, a crença pessoal também se refere sempre a uma fé formulada, porque, caso contrário, ela não teria um lugar histórico e social; sem uma linguagem comum ela não poderia ser comunicada e não poderia confirmar-se numa vida comunitária.
Por isso a distinção, mas também a relação entre crença e fé é do maior significado para uma psicanálise que não recusa, de antemão, qualquer valor à religião.
IHU On-Line – Que contribuição a psicanálise de Freud pode dar à compreensão da fé?
Hans Zirker – Com base nos precedentes pontos de vista, já deveria ter ficado claro quão importante é, para a autocompreensão religiosa, a crítica psicanalítica da religião, feita por Freud. Exige-se a análise e a discussão desta crítica não só para a auto-afirmação religiosa, mas também, em primeira linha, para o esclarecimento da consciência religiosa. Esta é aguçada pela psicanálise a reconhecer os perigos que se encontram na própria religião (imaturidade, ofuscamento da realidade e autoritarismo).
Por essa razão, a religião e a teologia também são direcionadas pela psicanálise a verem quão significativas são a necessidade, a saudade e o desejo para a força de atração da religião. Contra a perspectiva de Freud, esta percepção pode ser um enriquecimento religioso.
Religião e fé
Já que a religião e a fé não podem jamais ser asseguradas com procedimentos científicos e, apesar de todas as experiências, também são conduzidas por desejos e saudades, elas também terão sempre objeções contra si. A inquietude espiritual que parte da crítica da religião permanecerá como algo fundamental. Mas, entre pessoas de boa vontade e esclarecidas dever-se-iam esperar pelo menos duas coisas: os crentes entre elas deveriam ter consciência de que suas convicções, que lhes são pessoalmente confiáveis, podem ser rejeitadas por outros com respeitáveis razões. E os seus críticos, apesar de seus argumentos contrários, deveriam poder dispor-se a uma respeitosa percepção da religião e da fé.

Freud, Nietzsche e Bento XVI


[i]Artigo publicado no Jornal Folha da Manhã em 01/02/2006.[/i]

O Apóstolo São João resume o mau espírito do mundo nas três concupiscências, a da carne, que é a sensualidade, a dos olhos, que é a ganância de possuir, e a do próprio eu, a soberba. O Papa João Paulo II fez um paralelo entre essas concupiscências e três pensadores influentes da civilização moderna: Freud para a primeira concupiscência, Marx para a segunda e Nietzsche para a terceira.


     Na tentativa de solucionar o problema da busca da felicidade pessoal, Freud apresenta uma perspectiva pessimista, considerando impossível que o Eros (amor-prazer) domine seu inimigo o Tánatos (morte – impulso para a destruição). As conseqüências são, exteriormente, a guerra com os outros ou, interiormente, o sentimento de culpa e uma profunda ansiedade. Crise sem solução.


     Nietzsche, após ter renegado o pessimismo de Schopenhauer e se convertido ao Iluminismo, atacou o cristianismo e a moral cristã, aos quais opôs o culto de Dionísio. Achava que o cristianismo era contra o amor e a alegria de viver. Lamentavelmente, Nietzsche morreu louco.


     O Papa Bento XVI acaba de lançar a sua primeira Carta Encíclica “Deus é amor”, dedicada a mostrar como o cristianismo não reprime o amor, mas o eleva, dando a solução cristã que esses pensadores não tinham conseguido achar.


     O Papa explica as três palavras gregas que significam “amor”: “éros”, “philia” e “ágape”, acrescentando que no Novo Testamento “a marginalização da palavra eros, juntamente com a nova visão do amor que se exprime através da palavra agape, denota sem dúvida, na novidade do cristianismo, algo de essencial e próprio relativamente à compreensão do amor. Na crítica ao cristianismo que se foi desenvolvendo com radicalismo crescente a partir do iluminismo, esta novidade foi avaliada de forma absolutamente negativa. Segundo Friedrich Nietzsche, o cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que, embora não tivesse morrido, daí teria recebido o impulso para degenerar em vício”.


     Bento XVI responde assim a uma das objeções mais comuns apresentadas à Igreja. “Com os seus mandamentos e proibições — pergunta o Papa —, a Igreja não nos torna porventura amarga a coisa mais bela da vida?”. E dando-nos Cristo como exemplo, o Papa nos ensina em que consiste o verdadeiro amor-caridade, palavra que resume toda a mensagem do Evangelho.



Dom Fernando Arêas Rifan
Bisbo Titular de Cedamusa
Administrador Apostólico da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

Um aspecto do freudismo


Roland Dalbier, num livro que se tornou clássico (O Método Psicanalítico e a Doutrina de Freud, tr. José Leme Lopes, Agir) começar por uma distinção entre a parte científica e experimental da descoberta de Freud, e a parte filosófico-doutrinária, que não chega a ser uma filosofia por sua espantosa falta de coesão racional, mas que os chamados "ortodoxos" (como se houvesse na ciência lugar para ortodoxia!) acompanham com religiosa fidelidade. "O freudismo — diz o mesmo Dalbier — é uma dogmática."
Na verdade Freud pretendeu filosofar. Malgrado suas repetidas declarações em contrário, onde até se advinha um certo desprezo pelas especulações metafísicas, Freud fez metafísica. E nessa parte de sua obra revelou uma incapacidade que muitas vezes tangencia o domínio da vulgar inépcia.
Consideremos, por exemplo, o processo da "sublimação" pelo qual a energia sexual desviada dos obstáculos da censura se manifestaria disfarçada, transformada em atividades psíquicas superiores chamadas culturais ou espirituais. O mestre vienense, depois de ter descoberto os jogos de força que explica os tiques e os atos falhados, pretende estender o diagrama até a zona dos mais altos feitos humanos, como se houvesse homogeneidade de natureza e de causas entre o homem que coça o bigode e o homem que compõe os concertos de Brandenburgo. O pensamento de Freud, nesse capítulo, não tem a tranqüila nitidez que se encontrará mais tarde entre os discípulos ortodoxos. É sempre assim. O gênio que tem o vigor para descobrir coisas até então escondidas, e que se entrega à tentação das generalizações grandiosas, salva-se pela incoerência. Corrige-se. Hesita. Desdiz-se. Mas o medíocre que o segue não tem a mesma sensibilidade: seu vigor consiste em ser coerente e nítido no erro. O medíocre tem a capacidade de ser lógico no desacerto, o brio de ser fiel ao disparate. Assim são os marxistas e freudianos ortodoxos. Mas aqui, sem intenção de cultivar paradoxos, eu direi que os seguidores medíocres são sempre os que têm razão, isto é, são os que interpretam melhor os erros do mestre, forçando-os até as últimas conseqüências.
O pensamento de Freud, dissemos, é hesitante no que concerne ao mecanismo da sublimação, mas através das reprises e das ressalvas, subsiste o bastante para nos autorizar a dizer que ele considerava homogêneas com o instinto sexual as manifestações psíquicas superiores. Se em algumas passagens o processo é descrito como uma ativação ou estimulação de funções psíquicas pré-existentes, noutros lugares, mais brutalmente, o processo é apresentado como se a energia primitiva engendrasse, sob disfarce, as formas de atividade superiores. No livro em que estuda as reminiscências infantis de Leonardo Da Vinci, diz assim: "A observação da vida cotidiana nos mostra que a maioria dos homens consegue derivar partes consideráveis de suas forças instintivas sexuais em favor de sua atividade profissional. O instinto sexual se presta muito para essas contribuições, pois é dotado da faculdade de sublimação, isto é, capaz de abandonar seu fim imediato em favor de outros fins não sexuais e eventualmente mais elevados no conceito dos homens". (Un souvenir d´enfance de Léonard De Vinci, trad. M. Bonaparte, pg. 52).
A parte por mim sublinhada mostra que Freud quer evitar o julgamento de valor deixando-o por conta do consenso. Não é ele, cientista, psicólogo, que reconhece a superioridade real, a superioridade metafísica daqueles fins, são os homens, é a cultura, será até, digamos assim, a força de um preconceito que estabelece a tal superioridade. Com essa pequena cautela o psicólogo tem as mãos livres para homogeneizar o efeito com a causa.
É aliás inerente ao pensamento freudiano a idéia de um abismo entre a manifestação das coisas, visível ao homem comum, e a fisionomia das causas, visíveis somente para os doutos. O mundo dos fenômenos é um mundo de disfarces onde nada é o que parece ser.
Todo analitismo, ou toda investigação polarizada pela hipertrofia das causas materiais, chegará a esta mesma óbvia conclusão: há entre a fisionomia do todo e os aspectos das partes uma diferença prodigiosa. O físico dirá — como já disse o Edington — que sua mesa só é mesa, sólida, estável, para o olho vulgar. Para o cientista ela é uma nuvem de elétrons e prótons. A idéia de chocar o senso-comum e de mostrar que a face dos fenômenos tem uma epiderme diferente dos nervos e ossos que a sustentam não é de Freud, nem é nova. Em geral, todos os cientistas, e principalmente os tolos, gostam muito de chocar o senso-comum com a exibição das vísceras dos fenômenos. Em Freud, porém, o vezo tem significação mais profunda e revela o pessimismo radical de sua metafísica disfarçada também, já que tudo é disfarçado. Em Freud eu diria que há uma exorbitação do erro nominalista que trouxe a cisão entre a inteligência e o ser. O ser, para o psicólogo vienense, é algo que tem um novo transcendental de perfídia e de deslealdade. É essencialmente enganador.
Mas o que mais espanta na filosofia freudiana é a grosseria com que é tratada a noção de causa. O exemplo da sublimação é frisante. Se a observação dos fatos demonstra, no campo do microscópio psicanalista, a presença de matizes, de lembranças marcadas de sexualidade, o psicólogo, com imperdoável precipitação, afirma a causalidade. Um estudante de filosofia de alguma universidade do século XIII que ouvisse tal raciocínio, piscaria o olho para o colega próximo e diria: "cum hoc ergo propter hoc".
Com isto, logo por causa disto, é o que traduz essa fórmula cunhada para denunciar o erro elementar de julgamento que confunde concomitância com causa.
Todos os casos que ilustram o fenômeno da sublimação só provam que o homem tem a capacidade de elevar o potencial, o nível ontológico de uma experiência primitiva e que a manifestação em nível elevado traz certas marcas do nível inferior. E daí? Concluirei que o maior sai do menor, ou que um ser possa sozinho por sua própria capacidade potencial, galgar o nível entitativo superior? "Nada pode passar da potência ao ato, a não ser por algo que já seja em ato", murmuraria ao nosso ouvido, e em latim, o estudante medieval.
Os mesmos fenômenos descritos por Freud seriam salvos com uma explicação infinitamente mais lógica: o que se passa na sublimação é um processo de erguimento ontológico, um processo de espiritualização semelhante àquele que no dinamismo do conhecimento, por ação do intelecto agente, espiritualiza o conteúdo da imagem dotando-a de inteligibilidade e de universalidade. Como empirista, Freud não podia atinar com esse processo de espiritualização promovida por energias espirituais em ato e capazes de produzir a elevação da experiência primitiva. Situa-se pois em pólo oposto a causa verdadeira do processo, e não é de admirar que no resultado da sublimação subsista o gosto, a cor da matéria in-formada. Basta dizer que a energia transformadora é sexuada e não sexual, uma vez que provém de um espírito vivendo em condição carnal. Salva-se assim o fenômeno sem ser preciso agredir o bom-senso e assassinar a razão.
("Diário de Notícias", 27/05/1956)

O pessimismo de Freud


Referi-me, em artigo anterior, ao pessimismo intelectual, inerente ao analismo e à hipertrofia da investigação das causas materiais, que levava Freud a ver o mundo psíquico como um mecanismo de disfarces e de ilusionismos. Na extensão de sua concepção construiríamos uma metafísica em que o ser, em vez de ser objeto adequado à inteligência, é o enganador, o despistador. Teríamos uma espécie de deslealdade metafísica do ser, e um novo transcendental de perfídia. Daí não é de admirar que o genial investigador, de tanto considerar os fenômenos, tenha perdido a lucidez de ver as naturezas; e por isso não saiba mais distinguir a anormalidade da normalidade. Tratando das aberrações sexuais, eis o que conclui Freud: “Somos levados, diante dessa freqüência da perversão, a admitir que a disposição para a perversidade não é rara e excepcional, mas é parte integrante da constituição normal”. (Introduction à la Psychanalyse, p.424).

A primeira coisa que choca nesse trecho é a impropriedade dos termos. Se ele conclui que tais ou quais fenômenos, pela freqüência com que ocorrem, devem ser considerados normais, como se explica que ainda os chamem de perversões? A segunda coisa que produz espanto é o conceito que esse médico tem da normalidade. Normal, na sua definição, é aquilo que ocorre freqüentemente. Então, se houver uma epidemia que atinja a quase totalidade de uma população, os médicos poderão ficar em casa descansando, porque todos estão normais. Ou deverão talvez procurar os poucos não atingidos pela peste normalizadora para providenciar o enquadramento deles na norma fornecida pelas estatísticas. Já abordei esse problema, há tempo, a propósito de certos sociólogos que, seguindo as lições de Durkeim (Les Régles de la Methode Sociologique), definiam como normal aquilo que mais freqüentemente ocorre. Há erros filosóficos que se explicam pela sutileza dos elementos postos em equação; mas este é tão grosseiro, tão prodigiosamente estúpido que só se explica por uma colossal obliteração da inteligência, ou por uma espécie de fatalidade que leva os homens mais inteligentes a pagar um tributo à burrice universal. Disse atrás que esses analisadores, atentos demais aos fenômenos, não vêem as naturezas. O conceito de normalidade é correlato ao de natureza. Só posso saber, de uma coisa, que está em condições normais quando sei o que ela é. As essências entretanto não se concretizam, não existem em estado puro. Inseridas nas outras existências, sujeitas aos choques, às interseções, elas nos aparecem machucadas, feridas, amassadas. Na medida que sofrem esses acidentes que lhes subtraem alguma perfeição devida à sua natureza, as coisas se afastam da normalidade. A anormalidade é, portanto, definida pela presença de um mal físico ou moral que desfalca uma perfeição exigida por natureza. No compacto universo criado, a anormalidade pode ser muito mais freqüente do que a normalidade. Há mais automóveis arranhados do que ilesos; há mais dentaduras incompletas que perfeitas. E assim, não será por via estatística que poderemos decidir a questão. Nem sempre o cientista está habilitado a se pronunciar sobre a normalidade em que se acha uma coisa, porque nem sempre sabe defini-la, ou nem sempre vê a sua essência. Num caso desses pode lançar mão do que os filósofos chamam “abstração total”, e que consiste na consulta da coleção de coisas da mesma espécie; para ter uma descrição mediana que toma provisoriamente o lugar da definição. Mas tem a obrigação de saber que não pode generalizar esse critério. Na maioria dos casos não podemos dizer que a estatura de um homem é anormal, a não ser por uma comparação com o valor médio. Mas é evidente que o médico, diante de uma apendicite supurada ou de um câncer, não seguirá esse mesmo critério. Como também eu sei que devo procurar um lanterneiro ainda que todos os sociólogos da escola de Durkeim me provem que o automóvel-médio no Rio de Janeiro tem um ou dois pára-lamas amassados.

Se eu me convencesse de que é impossível conhecer uma natureza para poder formar juízo do estado em que tal natureza se concretiza, então, por amor à propriedade do termo e à lógica, eu deixaria de usar as expressões “normal” e “anormal”, substituindo-as por “encontradiço” e “raro”. E, se fosse médico, fecharia o consultório.

É triste ter de repetir coisas tão óbvias. Mas o mundo é assim, cheio de anormalidades. No caso de Freud, dirão que não se pode incriminar o psiquiatra por suas deficiências filosóficas. É exato. Talvez seja mais justo incriminar os filósofos que possuíam a melhor tradição, os mais sólidos critérios, a mais gloriosa herança intelectual, e que, por uma terrível mediocridade, não conseguiram dar o tom à cultura contemporânea. Há, entretanto, um mínimo de bom senso e de saúde de espírito que podemos reclamar em qualquer cientista, e que falta de um modo impressionante em Sigmund Freud.

Atrás daquele erro filosófico, e daquela impropriedade de termos, escondem-se complexos de um radical e profundo pessimismo. Freud pertence a uma família espiritual que traz na alma um certo rancor do ser, um pessimismo infeccioso que vê o mal nas essências, ou que, por fim, já não vê o mal onde ele existe. Se tudo é perversão, alegremo-nos com riso amarelo, e cantemos o cântico novo que anuncia a extinção da secular e incômoda diferença entre o bem e o mal, entre o mórbido e o saudável, entre o reto e o torto. Neurotics, be glad! Amanhã ou depois, pela generalização crescente, será a vez de se alegrarem os homossexuais. E desde já podem aprontar o foguetório de ingresso na normalidade os peculatários, os aproveitadores do poder, os funcionários que ganham pelo que não fazem, porque o padrão de comportamento deles, pela freqüência, está se tornando “parte integrante da constituição normal” de nosso país.
 
("Diário de Notícias", 3 de junho de 1956)

Por que Freud rejeitou Deus? - Entrevista Ana-Maria Rizzuto


No livro Por que Freud rejeitou Deus ? a psicanalista Ana Maria Rizzuto interpreta elementos contidos na teoria freudiana e em seu desenvolvimento para mostrar as razões que fizeram de Freud um opositor ferrenho da religiosidade e suas instituições. Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Ana diz que “circunstâncias pessoais da vida de Freud, durante seu crescimento, não lhe permitiram a experiência da sensação de proteção”. Ana-Maria Rizzuto é psicanalista latino-americana radicada nos Estados Unidos. Trabalha criticamente as teorias de Sigmund Freud. 
IHU On-Line – Por que Freud rejeitou Deus?
Ana-Maria Rizzuto – Circunstâncias pessoais da vida de Freud, durante seu crescimento, não lhe permitiram a experiência da sensação de proteção. Seus primeiros anos de vida foram marcados por mortes significativas: seu avô paterno, seu tio e seu irmão Julius. A última morte marcou a experiência psíquica de Freud para toda a vida. Ele teve outras perdas: sua babá, a quem foi superapegado, desapareceu de sua vida sem dar notícia. Freud, quando era pequeno, saiu de sua cidade natal, e seu pai perdeu o emprego. Depois, entrou para a escola pública, e pegaram seu tio favorito contrabandeando, prenderam-no e julgaram-no. Em suma, nenhum dos adultos com os quais Freud precisou contar foram capazes de oferecer-lhe proteção e segurança. Eles falharam com Freud de uma maneira ou de outra. Meus estudos mostram que crianças precisam de modelos de confiança e figuras adultas para dar forma a uma representação de Deus que seja acreditável. Freud não teve essa experiência. Ele sentiu que tinha que tomar conta dele mesmo, sozinho. Para ele, em suas palavras, “não há nenhuma Providência” para prestar atenção nele. Como cientista, ele acreditou apenas nos métodos científicos que implica que tudo que não é provado cientificamente não existe. Esse segundo fator contribuiu para consolidar sua descrença na existência divina.
IHU On-Line – Qual a imagem que Freud tinha de Deus?
Ana-Maria Rizzuto – Eu não analisei Freud. Minha resposta não vem da exploração de sua mente, mas dos acessos indiretos que tive a seus escritos. De sua experiência, Freud concluiu que Deus descrito pela religião como uma divindade que nos protege, não existe. Na consciência dele, a representação de Deus clamava por um aspecto de proteção. A experiência emocional de Freud indicava para ele que nenhuma das figuras paternas nem os adultos de sua vida foram capazes de protegê-lo das perdas profundas e do sofrimento. Ele não teve experiências para formar sua crença na representação da providência e proteção de Deus.
IHU On-Line - Quem é Deus para Freud? Como definir Deus pelo olhar da psicanálise?
Ana-Maria Rizzuto – Freud demonstrou com material clínico que Deus e a opinião religiosa eram formadas como resultado da transformação das representações paternas, assim como no complexo de Édipo. Tal conclusão foi a mais significativa contribuição de Freud para a psicologia da religião. Pesquisas no mundo todo confirmaram as conclusões de Freud. Para Freud, Deus é construído sobre a representação do pai. Ele dizia que Deus é “uma exaltação do pai”, “uma sublimação do pai”, “um substituto do pai”, “uma cópia do pai” e finalmente que “Deus é o pai”. Freud negligenciou examinar o significado da mãe na formação da representação de Deus. Psicanálise é uma disciplina empírica e teórica. Sua metodologia não permite nenhuma conclusão sobre a existência de alguma divindade, pois tal divindade não pode ser sujeitada à pesquisa empírica. Apesar de tudo, psicanalistas observam que as pessoas acreditam em Deus ou que elas rejeitam Deus. Isso significa que elas têm uma representação de Deus que foi formada em suas mentes durante seu processo de crescimento. Acreditando ou não, a real existência de Deus não faz parte da psicanálise. E isso está diretamente relacionado com a qualidade das nossas relações emocionais com nossos pais, adultos e figuras religiosas.
IHU On-Line - Deus e Freud estão em campos opostos?
Ana-Maria Rizzuto – Não. Freud elucidou as Escolas de Psicologia da crença em Deus e a elaboração psíquica da representação da divindade. Freud, o homem, poderia não acreditar por causa de suas próprias experiências, cultura e circunstâncias científicas. Ele foi convencido de que a religião era essencialmente uma defesa baseada na projeção da figura paterna dentro de uma proteção e providência de Deus. Ele acreditou que a ciência poderia ajudar seres humanos a desistir da religião e renunciar ao desejo por proteção, como ele escreveu em The Future of an Illusion. Nas últimas décadas, a psicanálise aceitou e ampliou as dinâmicas freudianas no entendimento da formação da representação de Deus e aceitou que crença e necessidades espirituais são componentes significativos dos seres humanos.
(Fonte: http://www.unisinos.br/ihu)