Por Paul De Maeyer
ROMA, terça-feira, 1º de março de 2011 (ZENIT.org)
- Depois de ter abordado temas delicados, como a chamada "identidade
nacional" e o uso o véu muçulmano integral em público, o presidente
francês, Nicolas Sarkozy, está novamente se preparando para entrar em
território perigoso, o da "laicidade", em particular o da
compatibilidade do islamismo com a república e os valores republicanos.
Seu
partido, a UMP (União para o Movimento Popular), marcou para 5 de abril
uma convention sobre "o exercício dos cultos religiosos na República
leiga, em particular o exercício do culto da fé islâmica". Estas foram
as palavras do secretário-geral da formação de direita, Jean-François
Copé (la-Croix.com, 17 de fevereiro).
Recebendo, na quarta-feira,
16 de fevereiro, os deputados da UMP, o presidente denunciou "a brecha
crescente entre a mídia e a preocupação francesa" sobre as questões do
Islã e da laicidade. "Nós pagamos muito caro pela cegueira sobre a
imigração dos anos 80. Era um debate tabu. Com a laicidade e o Islã
ocorre a mesma coisa", disse Sarkozy, que pediu, para este ano,
propostas concretas sobre elementos como o conteúdo das pregações dos
imames e dos lugares de culto dos muçulmanos (Le Figaro, 17 de
fevereiro).
Sarkozy quer parar, particularmente, o mal visto
fenômeno das reuniões dos muçulmanos para rezar na rua. "Devemos ter um
debate sobre a oração na rua. Em um país leigo, não devem existir
convites à oração na rua", continuou Sarkozy. "É preciso chegar a um
corpus ideológico em 2011", disse aos deputados da UMP.
A
direita tampouco rejeita a alteração da lei de 1905 sobre a separação
entre Igreja e Estado, que estipula que "a República não reconhece, nem
paga, nem subvenciona qualquer culto". Foi o secretário de Estado da
Habitação e Desenvolvimento Urbano, Benoît Apparu, quem confirmou a
ideia de permitir um financiamento público para os locais de culto. "Em
minha opinião, é necessário facilitar a construção de mesquitas em
nosso país, mesmo que o Estado deva participar", disse à Radio
Montecarlo e BFM-TV. De acordo com Apparu, se necessário, será feita uma
reforma da legislação.
Nem todos os expoentes do governo do
primeiro-ministro François Fillon parecem dispostos a tocar na "lei
símbolo" da França secular. O ministro do Orçamento e porta-voz do
governo Fillon, François Baroin, disse em Europe 1 que, "na agenda do
governo, não há um texto leve a uma mudança na lei de 1905; e como
líder político da UMP e encarregado do debate, não serei favorável à
modificação da lei de 1905".
Sobre este tema também opinou, em
entrevista ao Le Figaro, em 17 de fevereiro, outra figura-chave da
maioria, o atual ministro da Defesa e fundador da UMP, Alain Juppé. "A
lei republicana - disse - deve ser aplicada em condições de igualdade
para todos. Certamente, existe diversidade. Mas o princípio republicano
(...) é que a lei não pode aceitar as distinções com base em critérios
religiosos ou étnicos."
"No que diz respeito aos direitos, é
imperioso dizer que os muçulmanos, bem como os católicos, judeus,
protestantes e outros, têm o direito de poder praticar sua religião.
Entre os deveres, está o respeito pelos valores republicanos, em
especial à igualdade entre homens e mulheres", acrescentou Juppé.
A
oposição criticou a iniciativa de Sarkozy e da UMP, acusando-os de
desejo de destaque, tendo em conta os eventos eleitorais de 2012
(presidenciais e legislativos) e de quer roubar espaço à extrema
direita, que há meses está usando o tema em sua campanha contra a
islamização da França. Para o deputado Henri Emmanuelli (PS), Sarkozy
ficou para trás. "Ele ainda não compreendeu que, com este tipo de
iniciativas, ele trabalha para Marine Le Pen", disse o ex-ministro
socialista, convidado do programa Le Talk-Orange-Le Figaro.
Segundo
Sarkozy, a esquerda está errada. "Marine Le Pen propôs os problemas,
mas trabalha pouco pelas soluções": assim se defendeu das críticas o
ocupante do Palácio do Eliseu (Le Figaro, 17 de fevereiro). No entanto,
resta o fato de que a extrema direita cresce nas pesquisas, roubando
intenções de voto da UMP. De acordo com uma recente pesquisa do IFOP
(Institut français d'opinion publique) para o jornal France-Soir, a
jovem Le Pen (nascida em 1968) aumentaria para 19-20% das preferências
no primeiro turno presidencial de 2012, em comparação com os 22-23%
para o presidente Sarkozy.
A própria Marine Le Pen pediu à UMP
"mais um pequeno esforço". "Quero destacar que, quando a FN é de 15%
nas pesquisas, a UMP fala sobre os problemas", disse Le Point.fr (17
de fevereiro). "Mas eu não sou boba - continuou; a convenção da UMP é
apenas "bla-bla-blá", ou seja, conversa vazia. Para a política, "as
orações na rua não são o resultado da falta de espaço nos locais de
culto dos muçulmanos. Isso é mentira e manipulação."
A proposta
mais drástica foi feita pelo Partido de Esquerda de Jean-Luc Mélenchon,
que pediu para retornar ao texto original da lei de 1905, retirando a
alteração feita em 1942 por Philippe Pétain, chefe do então governo
colaboracionista de Vichy. Mélenchon também solicitou a revogação da
Concordata napoleônica de 1801, que ainda estava em vigor na região da
Alsácia-Moselle.
Uma coisa é clara: depois da chanceler alemã,
Angela Merkel, em outubro de 2010, e o primeiro-ministro britânico,
David Cameron, no seu discurso de 5 de fevereiro, durante a 47ª
Conferência de Segurança em Munique, também o presidente Sarkozy
rejeita, por conseguinte, o "multiculturalismo" ou o que dele se
deriva.
"Não queremos uma sociedade na qual as comunidades
coexistam próximas umas das outras. Quando se chega à França, deve-se
aceitar a incorporação a uma única comunidade, a comunidade nacional",
disse Sarkozy na quinta-feira, 10 de fevereiro, ao canal de televisão
TF1. De acordo com uma pesquisa publicada no livro "Les Français face
aux inégalités et la justice sociale" (que chegará às livrarias em 9 de
março), apenas 20% dos franceses querem que os imigrantes "mantenham
suas tradições particulares", enquanto 80% quer "que se adaptem e se
misturem na sociedade" (La-Croix.com, 17 de fevereiro).
A
sociedade multicultural e multiétnica foi defendida por três políticos
ecologistas: Esther Benbassa, Noël Mamère e Eva Joly, de Europe
Écologie. "A integração e a assimilação são movimentos vindos do alto,
autoritários, que não levam em conta as realidades humanas", disseram
em um fórum público divulgado em 27 de janeiro no jornal Libération. O
trio lança um apelo a favor do que eles chamam de "uma laicidade
racional que reconheça a parte da pertença étnica, cultural, religiosa e
linguística".
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domingo, 10 de abril de 2011
Amor e razão, os dois pilares do real
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Filosofia além do Iluminismo e do relativismo
ZP08052811 - 28-05-2008
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Entrevista ao decano da Faculdade de Filosofia da Urbaniana
ROMA, quarta-feira, 28 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Foi apresentado hoje, em Roma, na sala Marconi da Rádio Vaticano, o livro em italiano do sacerdote Aldo Vendemiati, «Universalismo e relativismo nell’etica contemporanea» (Edições Marietti), que aponta para a busca de sentido, superando o universalismo ético iluminista e o relativismo pós-moderno e propõe um pluralismo fundado nos deveres e na responsabilidade.
O autor, especializado em ciências éticas e bioéticas, é professor de Filosofia Moral e decano da Faculdade de Filosofia da Universidade Pontifícia Urbaniana de Roma.
Para apresentar o livro de Vendemiati, estiveram o cardeal Carlo Caffarra, ex-professor de Teologia Moral e de Ética Médica, e a professora Franca D’Agostini, de Filosofia Contemporânea no Politécnico de Turim.
Para compreender as razões que estão no centro do debate, Zenit entrevistou Aldo Vendemiati.
-O Iluminismo expressou um pensamento ético fortemente universalista: basta pensar nas declarações «universais» dos direitos humanos. Como é que hoje isso parece estar «fora de moda»?
-Vendemiati: Isso depende do fato de que grande parte do pensamento contemporâneo é explicitamente cético sobre as possibilidades da razão. O enfoque culturalmente mais difundido é o voluntarista, segundo o qual seria possível conhecer o bem e a virtude só quando se soubesse o que Deus quer; mas sendo isto impossível em perspectiva ‘leiga’ (que nestes contextos significa simplesmente ‘não fideísta’), não resta outro critério fora do que as pessoas querem: não já o diálogo (que implica uma comunicação racional), mas o consenso entre as pessoas (sua «permissão») é o único princípio moral válido.
Pois bem, se esta é a perspectiva «leiga», das duas uma: ou esta é uma posição racional ou não o é. Se é racional, é porque – apesar do que sustentam seus defensores – se reconheceu o valor universal da autonomia, da negociação e da convivência pacífica. Se, pelo contrário, a proposta não é racional, se tudo repousa sobre a vontade das pessoas, não se vê por que se a deverá respeitar.
O fundamento teorético do pluralismo é, ao contrário, a afirmação de que nosso conhecimento está condicionado e que, portanto, se por um lado nenhum pensamento humano pode presumir de possuir a Verdade absoluta, por outro lado são possíveis diversos pontos de vista sobre uma mesma matéria, cada um dos quais está potencialmente em grau de contribuir para o conhecimento da própria matéria.
Quando, com Gadamer, afirmo «iniludível vínculo da razão com horizontes, tradições e situações», eu me situo, com a razão, sobre horizontes, tradições e situações e afirmo uma verdade de caráter universal.
Isso significa que o pensamento não é tal frágil como se quer fazer crer. A própria afirmação da condicionalidade pressupõe uma razão forte, seguramente uma razão pobre e nua – porque aquele que sabe com certeza é em verdade bastante pouco, e está cheia de dúvidas, titubeios, erros – mas tão forte como para reconhecer a própria pobreza e não envergonhar-se da própria nudez.
Penso, portanto, que seja não só necessário mas também possível superar o impasse que nos vê oprimidos entre o universalismo moderno e a «insustentável leveza» do relativismo pós-moderno.
-Quais são as motivações do relativismo atual? São a última palavra possível no campo da ética?
-Vendemiati: O pior serviço ao universalismo foi feito pelas ambições racionalistas e idealistas do pensamento ocidental, que pretenderam elevar a própria «razão» ao nível de «Razão» em absoluto, ou seja, de situar-se «desde o ponto de vista de Deus» (como diria H. Putnam), em outras coisas após ter negado valor cognoscitivo à fé n’Ele.
Em ética, isto se expressa assumindo a perspectiva da «terceira pessoa»: a reflexão moral consistiria na busca de normas, elaboradas «desde o ponto de vista de Deus», mas de um deus secularizado e imanente, coincidente – em última análise – com o legislador ou o juiz humano.
A tal pretensão se opõem as «razões» da democracia liberal, da antropologia, da hermenêutica, da epistemologia ou da própria ética contemporânea, que – de diversas maneiras – mostram a condicionalidade de nosso conhecimento, a vã inconsistência de quem pretende possuir a Verdade absoluta, o Inteiro, o Todo.
O pensamento único deve deixar-se empobrecer e desnudar por tais razões, para chegar a uma correta visão do pluralismo: sobre a mesma matéria são, de fato e de direito, possíveis diversos pontos de vista, cada um dos quais poderiam contribuir a uma melhor compreensão da realidade.
Contudo, é preciso guardar-se bem também dos «excessos de correção» nos quais as perspectivas relativistas vêm a cair. O relativismo, longe de garantir os valores do pluralismo e do diálogo entre as civilizações, nivela todos os enfoques ético-culturais em uma equivalência teorética e prática, da qual se sai unicamente com a violência da manipulação ou do terrorismo.
-Qual é o sentido e o papel da busca ético-racional para quem vive no horizonte da fé cristã?
-Vendemiati: O conhecimento racional tem uma especificidade própria que não pode nunca desaparecer. E isso é particularmente evidente hoje, na sociedade complexa e secularizada na qual nos movemos.
No debate sobre temas que despedaçam a consciência das nações e do mundo inteiro (por exemplo, sobre os temas da eutanásia, do aborto, da política econômica, etc), nós, cristãos, não podemos apoiar nossos argumentos a partir da autoridade do Evangelho, já que nos encontramos discutindo com pessoas (e são a maioria) que não reconhecem esta autoridade.
Devemos fundar racionalmente nossos argumentos. A tradição cristã, neste sentido, ensinou que a filosofia está «ao serviço» da teologia (philosophia ancilla theologiae). E se trata de um serviço prestado em duas frentes: por um lado, a teologia descobre algumas verdades que facilitam a acolhida do Evangelho; por outro lado, a filosofia desmascara alguns erros que impedem a acolhida do Evangelho.
Por outra parte, nós nos sentimos convidados por nossa própria fé a exercitar até o final a razão: um axioma teológico clássico diz: «A graça não destrói a natureza, mas a supõe»; em nosso campo isto pode ser traduzido assim: «A fé não destrói a razão, mas a supõe».
A fé não substitui a razão, mas a completa e a eleva: portanto, é necessário que haja algo a completar e elevar: uma atividade racional que a fé não substitui. Feita esta distinção metodológica, é agora possível sublinhar que para a ética é necessário pôr-se à escuta das grandes tradições religiosas e, em nosso caso, do cristianismo.
-É possível propor uma ética que permita dar razão às instâncias da autenticidade, da diversidade social e do reconhecimento? Ou estamos obrigados a submeter-nos à «ditadura do relativismo»?
-Vendemiati: Para a salvação do planeta e da humanidade que o habita, é necessário proporcionar as bases éticas de confrontação que possam garantir o diálogo, e, se não a convivência pacífica, ao menos uma eqüitativa resolução dos conflitos.
Se não é possível considerar alguma civilização concreta como uma cultura universalmente válida, não é nem sequer possível negar que há valores universalmente válidos aos que todas as civilizações podem (com maior ou menor esforço) em última análise remeter-se.
Este é o sentido de uma busca sobre o universalismo moral. Para fazer isto é necessário que a ética se ponha à escuta das grandes tradições religiosas: estas são um horizonte interpretativo universal, capaz de oferecer um sentido último à vida e à morte. Nelas, efetivamente, os valores, as normas e as motivações ficam garantidas.
Incondicionalmente, concretizados, capazes de criar segurança espiritual, confiança e esperança.
Onde, ao contrário, a secularização corta o cordão umbilical entre as grandes tradições da fé e a busca racional, ou onde o fundamentalismo exclui a possibilidade da própria busca racional, os riscos são evidentes. O fundamentalismo, quando não conduz ao isolamento e à incomunicabilidade, desemboca no conflito e no terrorismo.
O secularismo tende a substituir a verdade pelo consenso, e – como assinala Ratzinger – «quão frágeis são os consensos e que rapidamente, em um certo clima intelectual, grupos partidários podem impor-se como os únicos representantes autorizados do progresso e da responsabilidade, está diante dos olhos de todos nós».
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Entrevista ao decano da Faculdade de Filosofia da Urbaniana
ROMA, quarta-feira, 28 de maio de 2008 (ZENIT.org).- Foi apresentado hoje, em Roma, na sala Marconi da Rádio Vaticano, o livro em italiano do sacerdote Aldo Vendemiati, «Universalismo e relativismo nell’etica contemporanea» (Edições Marietti), que aponta para a busca de sentido, superando o universalismo ético iluminista e o relativismo pós-moderno e propõe um pluralismo fundado nos deveres e na responsabilidade.
O autor, especializado em ciências éticas e bioéticas, é professor de Filosofia Moral e decano da Faculdade de Filosofia da Universidade Pontifícia Urbaniana de Roma.
Para apresentar o livro de Vendemiati, estiveram o cardeal Carlo Caffarra, ex-professor de Teologia Moral e de Ética Médica, e a professora Franca D’Agostini, de Filosofia Contemporânea no Politécnico de Turim.
Para compreender as razões que estão no centro do debate, Zenit entrevistou Aldo Vendemiati.
-O Iluminismo expressou um pensamento ético fortemente universalista: basta pensar nas declarações «universais» dos direitos humanos. Como é que hoje isso parece estar «fora de moda»?
-Vendemiati: Isso depende do fato de que grande parte do pensamento contemporâneo é explicitamente cético sobre as possibilidades da razão. O enfoque culturalmente mais difundido é o voluntarista, segundo o qual seria possível conhecer o bem e a virtude só quando se soubesse o que Deus quer; mas sendo isto impossível em perspectiva ‘leiga’ (que nestes contextos significa simplesmente ‘não fideísta’), não resta outro critério fora do que as pessoas querem: não já o diálogo (que implica uma comunicação racional), mas o consenso entre as pessoas (sua «permissão») é o único princípio moral válido.
Pois bem, se esta é a perspectiva «leiga», das duas uma: ou esta é uma posição racional ou não o é. Se é racional, é porque – apesar do que sustentam seus defensores – se reconheceu o valor universal da autonomia, da negociação e da convivência pacífica. Se, pelo contrário, a proposta não é racional, se tudo repousa sobre a vontade das pessoas, não se vê por que se a deverá respeitar.
O fundamento teorético do pluralismo é, ao contrário, a afirmação de que nosso conhecimento está condicionado e que, portanto, se por um lado nenhum pensamento humano pode presumir de possuir a Verdade absoluta, por outro lado são possíveis diversos pontos de vista sobre uma mesma matéria, cada um dos quais está potencialmente em grau de contribuir para o conhecimento da própria matéria.
Quando, com Gadamer, afirmo «iniludível vínculo da razão com horizontes, tradições e situações», eu me situo, com a razão, sobre horizontes, tradições e situações e afirmo uma verdade de caráter universal.
Isso significa que o pensamento não é tal frágil como se quer fazer crer. A própria afirmação da condicionalidade pressupõe uma razão forte, seguramente uma razão pobre e nua – porque aquele que sabe com certeza é em verdade bastante pouco, e está cheia de dúvidas, titubeios, erros – mas tão forte como para reconhecer a própria pobreza e não envergonhar-se da própria nudez.
Penso, portanto, que seja não só necessário mas também possível superar o impasse que nos vê oprimidos entre o universalismo moderno e a «insustentável leveza» do relativismo pós-moderno.
-Quais são as motivações do relativismo atual? São a última palavra possível no campo da ética?
-Vendemiati: O pior serviço ao universalismo foi feito pelas ambições racionalistas e idealistas do pensamento ocidental, que pretenderam elevar a própria «razão» ao nível de «Razão» em absoluto, ou seja, de situar-se «desde o ponto de vista de Deus» (como diria H. Putnam), em outras coisas após ter negado valor cognoscitivo à fé n’Ele.
Em ética, isto se expressa assumindo a perspectiva da «terceira pessoa»: a reflexão moral consistiria na busca de normas, elaboradas «desde o ponto de vista de Deus», mas de um deus secularizado e imanente, coincidente – em última análise – com o legislador ou o juiz humano.
A tal pretensão se opõem as «razões» da democracia liberal, da antropologia, da hermenêutica, da epistemologia ou da própria ética contemporânea, que – de diversas maneiras – mostram a condicionalidade de nosso conhecimento, a vã inconsistência de quem pretende possuir a Verdade absoluta, o Inteiro, o Todo.
O pensamento único deve deixar-se empobrecer e desnudar por tais razões, para chegar a uma correta visão do pluralismo: sobre a mesma matéria são, de fato e de direito, possíveis diversos pontos de vista, cada um dos quais poderiam contribuir a uma melhor compreensão da realidade.
Contudo, é preciso guardar-se bem também dos «excessos de correção» nos quais as perspectivas relativistas vêm a cair. O relativismo, longe de garantir os valores do pluralismo e do diálogo entre as civilizações, nivela todos os enfoques ético-culturais em uma equivalência teorética e prática, da qual se sai unicamente com a violência da manipulação ou do terrorismo.
-Qual é o sentido e o papel da busca ético-racional para quem vive no horizonte da fé cristã?
-Vendemiati: O conhecimento racional tem uma especificidade própria que não pode nunca desaparecer. E isso é particularmente evidente hoje, na sociedade complexa e secularizada na qual nos movemos.
No debate sobre temas que despedaçam a consciência das nações e do mundo inteiro (por exemplo, sobre os temas da eutanásia, do aborto, da política econômica, etc), nós, cristãos, não podemos apoiar nossos argumentos a partir da autoridade do Evangelho, já que nos encontramos discutindo com pessoas (e são a maioria) que não reconhecem esta autoridade.
Devemos fundar racionalmente nossos argumentos. A tradição cristã, neste sentido, ensinou que a filosofia está «ao serviço» da teologia (philosophia ancilla theologiae). E se trata de um serviço prestado em duas frentes: por um lado, a teologia descobre algumas verdades que facilitam a acolhida do Evangelho; por outro lado, a filosofia desmascara alguns erros que impedem a acolhida do Evangelho.
Por outra parte, nós nos sentimos convidados por nossa própria fé a exercitar até o final a razão: um axioma teológico clássico diz: «A graça não destrói a natureza, mas a supõe»; em nosso campo isto pode ser traduzido assim: «A fé não destrói a razão, mas a supõe».
A fé não substitui a razão, mas a completa e a eleva: portanto, é necessário que haja algo a completar e elevar: uma atividade racional que a fé não substitui. Feita esta distinção metodológica, é agora possível sublinhar que para a ética é necessário pôr-se à escuta das grandes tradições religiosas e, em nosso caso, do cristianismo.
-É possível propor uma ética que permita dar razão às instâncias da autenticidade, da diversidade social e do reconhecimento? Ou estamos obrigados a submeter-nos à «ditadura do relativismo»?
-Vendemiati: Para a salvação do planeta e da humanidade que o habita, é necessário proporcionar as bases éticas de confrontação que possam garantir o diálogo, e, se não a convivência pacífica, ao menos uma eqüitativa resolução dos conflitos.
Se não é possível considerar alguma civilização concreta como uma cultura universalmente válida, não é nem sequer possível negar que há valores universalmente válidos aos que todas as civilizações podem (com maior ou menor esforço) em última análise remeter-se.
Este é o sentido de uma busca sobre o universalismo moral. Para fazer isto é necessário que a ética se ponha à escuta das grandes tradições religiosas: estas são um horizonte interpretativo universal, capaz de oferecer um sentido último à vida e à morte. Nelas, efetivamente, os valores, as normas e as motivações ficam garantidas.
Incondicionalmente, concretizados, capazes de criar segurança espiritual, confiança e esperança.
Onde, ao contrário, a secularização corta o cordão umbilical entre as grandes tradições da fé e a busca racional, ou onde o fundamentalismo exclui a possibilidade da própria busca racional, os riscos são evidentes. O fundamentalismo, quando não conduz ao isolamento e à incomunicabilidade, desemboca no conflito e no terrorismo.
O secularismo tende a substituir a verdade pelo consenso, e – como assinala Ratzinger – «quão frágeis são os consensos e que rapidamente, em um certo clima intelectual, grupos partidários podem impor-se como os únicos representantes autorizados do progresso e da responsabilidade, está diante dos olhos de todos nós».
Iluminismo: A Filosofia Sem Deus
por Carlos Eduardo Maculan
O pretensioso projeto revolucionário e sua abertura para o fim da moral. O iluminismo, que sem sombra de dúvidas, é o mais trivial período do pensamento humano, que proporcionou ao mundo a marginalização do Sagrado, e uma tentativa de destituir o Império de Cristo Rei do Universo, Senhor espiritual e temporal sentado à direita do Pai.
O racionalismo, para os defensores de hoje e de outrora, despoticamente assume a condição de ser o sustento da base política do Estado, e o meio pelo qual se conhece a verdade, pois, negando que o homem é criado e se submete ao governo da lei natural que está impressa no coração de todos, expropria-se Deus da vida cotidiana, e estabelece uma forma de atuar politicamente que concretize a negação da moral. Acreditam que tudo está sujeito ao domínio da razão, e somente dela se faz a verdadeira leitura dos acontecimentos. Voltaire sintetiza essa questão no seu “dicionário filosófico” ao discorrer sobre a pretensiosa perniciosidade da religião. Tudo deve ser construído fora de Deus, e Aquele que É dominador da razão humana é categoricamente negado em benefício da liberdade. A filosofia sem Deus declara que o homem só pode conhecer a si mesmo no próprio homem, sendo ele fruto dele mesmo. A sentença “Nosce te Ipsum” de Sócrates, que já era de forma imperfeita um lampejo da luz divina, e que já condensava no seu enunciado aquilo que foi posteriormente enxertado na verdadeira videira conhecida por Cristo Jesus, é deturpado tanto em sua essência, quanto na sua prática. Vigora o utopismo onde o fundamental é a criação de um lugar fantasioso, contrário ao mundo criado, não importando se Deus, o Sumo Bem, está ou não no centro da filosofia, atuando então para substituir a religiosidade, a moral, a doutrina cristã, sancionando a destruição da firmeza de uma doutrina reta, fruto de séculos inteiros de verdadeira filosofia cristã, que em Santa Catarina de Siena faz a autêntica leitura do conhecimento do homem e de sua existência, purificando Sócrates e afirmando o absoluto: - Conhece a ti mesmo, em Deus. O Criador é o centro, e obrigatoriamente toda nossa construção filosófica deve para Ele convergir e n’Ele encontrar a razão do existir humano e toda ordem criada. O mundo só se conhece em Deus, pois a criatura não tem por direito enxergar-se fora de sua origem.
O iluminismo necessitava destruir essa base filosófica tão profunda, fruto da fé que presta auxílio à razão, pois ela existindo e vigorando, seria uma ameaça real para as pretensões ilustradas que coloca a humanidade como senhora de si própria. Logo, com o desejo de fundar uma nova ordem de pensamento, tendo o homem e sua razão sem fé no centro, estabelecem os adeptos da revolução a mais perfeita corrupção do pensamento, colocando a humanidade na direção de sua própria história, e centralizando a busca da felicidade de forma a se negar que cada um possa escutar a voz de sua consciência, e ouvindo o desejo do infinito, deve se pautar pelo senso do correto fruto da lei moral. Pelas coisas criadas, o homem - segundo a doutrina Santa e Católica -, é capaz de conhecer Deus, portanto, toda a realidade circundante deve nos levar para a contemplação de Deus, sendo Ele a razão infinita, a inteligência suprema que supre as incapacidades da razão humana, e na melhor esteira do Doutor Angélico, sabe-se com certeza filosófica cristã, como servidora a teologia, que o mundo e o homem atestam que não têm em si mesmo nem seu princípio primeiro nem seu fim último, mas que participam do Ser em si, que é sem origem e sem fim. Assim por estas diversas "vias", o homem pode aceder ao conhecimento da existência de uma realidade que é a causa primeira e o fim último de tudo, "e que todos chamam Deus" (Santo Tomás de Aquino: Suma Teológica I, 2, 3)
O “justo” para a corrente iluminista não é mais aquele que passa do estado de pecado para o estado de justiça diante de Deus, tornando-se amigo e servo do Seu Senhor, aceitando a iniciação cristã e submetendo à confissão sacramental, mas, aquele que muda a sociedade para só depois pensar em Cristo que nos colocou em estado de filiação divina, quando não - mesmo fazendo mudanças estruturais na vida social -, esquece-se totalmente da Sã Doutrina pregada pelos lábios Santíssimos do Nosso Senhor, e validando essas mudanças por meios que podem variar do uso da força revolucionária, até da subversão moral, de forma que a sociedade assuma os falsos valores pela repetição de conceitos livremente pregados contra a fé. Desconstruir o vigor cristão na vida cotidiana era a palavra de ordem, criando conceitos que colocavam a religião no campo das superstições, além o ataque frontal às certezas oriundas do catolicismo e dos mistérios divindos. O que os homens louvam no iluminismo é a destituição de Deus do poder e de Sua primazia sobre a filosofia; o que se aplaude é o decreto do pensamento que tenta – como se possível fosse -, retirar Deus do seu trono excelso para assim, colocar o homem no lugar; este mesmo que não lhe compete ocupar, pois qualquer criatura não exerce poder sobre si mesma. Opostamente, a máxima da verdade cristã enfatizada pelos filósofos do cristianismo, por sua vez, apregoa que a mudança começa pelo homem – criatura de Deus que é princípio e fim de toda a criação - que aceita a supremacia divina, devotando toda a capacidade intelectual em benefício de Cristo, sendo essa mesma inteligência devedora de se inclinar humildemente diante do esplendor da verdade; e depois de curvada diante do Senhorio Divino, modifica o espaço criado, pelo fato de ter assumido a prática das virtudes cristãs mantidas pela Igreja Católica, e anunciadas como frutos da Revelação Divina. Inverte-se os papéis na filosofia ilustrada, pois para os homens modernos, a sociedade deve ceder espaço para a humanidade no centro e Deus às margens. O utilitarismo da divindade, que só será consultada quando necessário, quanto surgir o interesse de ver a criação partindo do Criador, ou para justificar a imoralidade da razão como se fosse fruto de um desejo transcendental, ou então, é negada categoricamente, para dizer que o cristianismo perfeito e puro dentro da Igreja Católica, é pernicioso e insalubre ao conhecimento. Nega-se a direção única para a qual toda ciência deve tender: “Procurai as coisas do alto, onde Cristo Se encontra, sentado à direita Deus. Pensais nas coisas do alto, e não nas da terra, pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus”. (Col 3, 2 – 3).
Enquanto os frutos do movimento revolucionário iluminista determinam uma inteira corrupção da razão, limitando ainda mais suas incapacidades, e orientando a humanidade para radicalizar a vida social sem ter a doutrina cristã como centro, instaurando modificações somente no campo material, vitimando o pensamento e as condutas humanas para ações somente em benefício da coletividade sem ter Deus, em detrimento da verdade católica, esta, por sua santa e esponsal união com Jesus Cristo, com toda sinceridade, e sabendo que nossas vidas devem ser pautadas pela abertura para o transcendente, condicionando nossas ações para o que é agradável aos olhos de Deus, ensinou pelos séculos passados e vindouros que a vida plena é a vida sobrenatural da qual já participamos no mundo criado redimidos pelos méritos da Cruz de Cristo e por sua ressurreição, a qual nascemos pelo batismo. A mudança deve, portanto, ter a base sólida no Redentor, que não degrada sob nenhuma hipótese a mudança da sociedade sob os valores fundados pela doutrina cristã – que é diametralmente oposta da pretensão iluminista -, pois mesmo procurando as coisas do alto, trabalham diuturnamente todos os homens cristãos para a construção do mundo mais humano na humanidade de Jesus Cristo, sendo a Pessoa Divina de Cristo o santificador concreto e absoluto da corrupção humana experimentada na corrupção moral, por isso, o mal iluminista reside no direcionamento deturpado que se dá para as coisas terrenas, usando-as não em benefício do bem, mas da expropriação de Deus. O poder é puramente material, e jamais decorrente de Supremo Senhor. Tudo que vive o cristão, que assume a filosofia com Deus e não sem Ele, deve ser adquirido pelo espírito da fé que recebe do amor a sua perfeição; o mundo é visto com Cristo no poder, então, a esperança que opta pela glória do Senhor latentemente irá se iniciar na terra: “Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que lhe agrada e o que é perfeito” (Rom 12, 2).
O homem não é o fim de si mesmo, pois se ele fosse seu próprio fim, além de salvar a si mesmo por seus próprios méritos, seria ele também sua causa, e sabemos fortemente que não exercermos senhorio sobre nós, porque se assim fosse, certamente escolheríamos nascer ou não nascer, quando, onde e como entraríamos na existência terrena. Pelo contrário, a causa e o fim de todas as coisas é Deus, sem Ele o sustento do universo e seu ordenamento, e evidentemente a sociedade, que faz parte do universo criado, não se sustentaria fora de Deus, e fora de Deus, tudo caminha para a aniquilação total de toda a criação. Quando o pensamento faz sua ruptura com a busca de contemplar as coisas do alto, deixando de procurá-la no universo criado e fazendo com que elas se iniciem aqui na terra, Aquele que É a causa e o fim de todas as coisas (Deus) não está no centro, pelo contrário, renuncia-se ao bem para se abraçar o mal, pois Deus é o sumo Bem, e por ser tal, não existe sumo Bem fora de Deus. Toda e qualquer filosofia que não tende para o seu fim último, sendo esse fim a causa primeira de tudo, arvora-se arrogantemente em dizer que ela é o fim de si própria. (cf. Santo Tomás de Aquino: Suma Contra os Gentios III, XVIII, 1)
Existe a certeza cristã, que nos assevera com doce inteligência e excelsa sabedoria, que toda a criação, a sociedade, a humanidade, e todas as demais coisas estão sujeitas ao Cristo, até que Ele as submeta ao Pai (Cf. I Cor 15, 27s). Cristo reina em soberano império absoluto e supremo sobre todas a criaturas: “E necessário que Cristo reine na inteligência do homem, a qual, com perfeito acatamento, há de dar assentimento firme e constantemente às verdade reveladas e à doutrina de Cristo; é necessário que reine na vontade, a qual há de obedecer às leis e preceitos divinos” [Sua Santidade, o Papa Pio XI – Carta Encíclica Quas Primas ]. O homem só será governado para praticar o bem, quando participar da sabedoria celestial assistido pelo Espírito Santo, que beneficia a condição humana limitada com o discernimento para entender o que é bem e o que é mal. A disposição estável da inteligência é dominada por Deus, que permite, por grande amor do Pai pelos seus filhos, que não condicionemos em construir pensamentos que sejam distantes de Deus, pois buscando Sua face (Salmo 27) , encontraremos a justiça que abarca cada um para se viver Cristo, imitando-O; porque só assim não iremos corromper a vida social, como desejam os partidários das correntes iluministas.
A conservação da vida, da sociedade, a pregação da verdadeira doutrina não se constrói concorrentemente ao poderio de Deus, porém, se faz de forma tão íntima com o Senhor, que com Ele a razão e a vontade de dirigir nossas ações para a concretização da vontade divina na terra se unem, o que possibilita toda a conservação do existir humano. O iluminismo pretende por sua vez, colocar a humanidade centrada em si própria pela negação dos conceitos universais da fé, fruto da verdade Revelada por Deus, e que já foi entregue de forma completa, sendo que nada há entre os homens que necessita ser revelado. O depósito dessa Revelação, que Deus fez de Si próprio, dando-se a conhecer através Filho, Encarnado no seio da Virgem Maria pela ação do Espírito Santo, está contido e guardado fielmente pela Igreja Católica, que na sucessão dos apóstolos, e sob o Primado de Pedro, fundador da Sé Romana, por sua autoridade constituída por Cristo, legou aos seus sucessores, os Papas, a mesma primazia sobre a fé dos povos.
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____________
Para citar:
MACULAN, Carlos Eduardo. Apostolado Sociedade Católica: Iluminismo: A Filosofia Sem Deus. Disponível em: http://www.sociedadecatolica.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=123.
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Uma guerra surda: cristianismo x iluminismo ateu
Publicado por Pe Henrique
Há uma guerra surda sendo travada, no Brasil e no mundo, entre os
crentes e os herdeiros do iluminismo ateu e anti-cristão, nascido a
partir do século XVIII. A sociedade ocidental, século após século, foi
sendo plasmada pelo cristianismo: suas leis, suas expressões culturais,
sua sensibilidade, tudo tem a marca dos discípulos de Cristo...
O Ocidente foi parido pelo cristianismo. Agora, com a descristianização generalizada, os bem-pensantes iluministas querem criar um novo ordenamento, totalmente alheio e até contrário à cultura cristã. Querem também que os cristãos aceitem isso sem reagir... Se o leitor quiser um exemplo, basta ler as revistas semanais brasileiras (Época, Veja, IstoÉ) e os jornais de maior circulação no País (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, o Jornal do Brasil, O Globo). O argumento deles é o seguinte: a sociedade hoje é pluralista, o Estado é laico, sem vínculo com qualquer religião; logo, a Igreja e os cristãos, de modo geral, não têm nada a dizer sobre as questões da atualidade: aborto, manipulação genética, uso de embriões humanos em experiências para adquirir células-tronco, união civil dos homossexuais, eutanásia... nada disso compete aos cristãos. Aqui, cada um deve seguir sua consciência, sem querer impor ao conjunto da sociedade sua visão. Religião é questão privada, é questão de opinião e não deve ter nenhum influxo na construção do ordenamento social.
Aparentemente, o raciocínio dessa gente parece certo: cada um siga a sua consciência e pronto! Mas, aqui, há alguns pontos que precisam ser esclarecidos:
(1) É verdade que o Estado é laico e, enquanto tal, não deve professar ou favorecer religião alguma. Mas também e verdade que o Estado está a serviço do Povo, deve respeitar e tutelar os valores do Povo e o Povo brasileiro é cristão, na sua grande maioria e na sua matriz cultural. O Estado brasileiro não pode ser anticristão, não pode ignorar o cristianismo, não pode tratá-lo com desdém. Se o fizer, deve ser desautorizado e reformado pelo Povo! O Estado não é Deus e não está acima do bem e do mal! Então, quando se propõe arrancar o crucifixo do Supremo Tribunal Federal, se está agredindo a grande maioria do povo brasileiro: hoje arranca-se o crucifixo para amanhã se arrancar os valores cristãos que guiam nossa sociedade.
(2) É bobagem pensar que existam valores soltos, neutros e imparciais. Na verdade, o que os neo-iluministas desejam é impor seus valores: valores laicos, que apregoam a destruição da família e a adoção de uma ética atéia para decidir sobre o conceito de família, aborto, pesquisa genética, eutanásia, assassinato de embriões anencéfalos, etc. Note-se bem: não há uma ética neutra! Querem fazer o povo brasileiro engolir uma ética pagã, fundamentada numa razão meramente utilitarista e individualista.
(3) Os cristãos têm todo direito de gritar e defender seus valores. Se a sociedade é democrática e pluralista e a Igreja e outras denominações cristãs são membros dessa sociedade, têm direito sim de fazer pressão. É interessante: quando as minorias fazem barulho, todos elogiam; quando os cristãos o fazem, a turma iluminista reclama e mete o pau na Igreja católica (que é a bruxa velha) e nos outros cristãos! A Igreja deve gritar, deve organizar os que crêem, deve se articular com as demais denominações cristãs e com as pessoas de boa vontade para defender que nossas leis exprimam valores cristãos. Todos devem ser respeitados, mas temos o direito de lutar por nossas idéias.
(4) Isso não significa querer impor aos outros nosso modo de pensar. A questão é que uma sociedade permissiva, com leis em contradição com uma cultura cristã, marca toda a sociedade, marca as famílias, marca as escolas, marca nossos jovens e crianças. Temos o direito de lutar para defendê-los! Basta pensar no que uma idéia pagã de matrimônio e família, veiculada pelos meios de comunicação, tem gerado no Brasil: o conceito de família tem sido totalmente destruído na nossa cultura brasileira. Agradeçamos à Rede Globo e demais emissoras de televisão! Como seria interessante escutar os filhos de descasados e recasados, os filhos de mães solteiras e adolescentes, para vermos de perto o resultado desastroso de tudo isso! O que será dos jovens daqui a cinqüenta anos, formados em famílias totalmente alheia a valores sólidos?
As coisas, como estão, encaminham-se para uma contraposição forte. Estamos chegando num ponto de fusão, no qual os cristãos terão de dizer claramente “basta”! É preciso perguntar se é correto promover a desconstrução do Ocidente como se está fazendo. O Estado não religioso é uma conquista que deve ser mantida; a separação entre religião e governo é uma realidade sadia. O problema é quando grupos poderosos – os senhores dos meios de comunicação, por exemplo – fazem uma campanha bem orquestrada para arrancar as marcas cristãs de nossa cultura. Aí é necessário dizer “basta”, é necessário gritar, pressionar e mostrar que os cristãos não estão dormindo.
Devemos caminhar para a elaboração de uma ética civil, isto é, critérios éticos, fundamentados no princípio de respeito profundo pelos valores humanos mais nobres, que possam, de modo geral, ser por todos compartilhados. Todos – crentes ou não, cristãos ou não-cristãos – têm algo a dizer e têm em que colaborar. Mas, não se pode esquecer que este País chamado Brasil ainda é majoritariamente cristão e católico. Não se pode esquecer de nossas raízes culturais e dos valores que plasmaram nossa sociedade. Não se pode aceitar a ditadura intelectual de uma minoria “iluminada” por uma razão atéia querendo impor seus contra-valores – ainda na semana passada a Veja referia-se a Jesus como um simples “mito” e ridicularizava sutilmente os que acreditam que Cristo nasceu de uma Virgem... Uma guerra ideológica não faria bem a ninguém, pois provocaria somente exacerbações e exageros... Mas, os cristãos não ficarão calados; não ficarão quietos... Quem viver, verá!
Côn. Henrique Soares da Costa
fonte: www.padrehenrique.com
O Ocidente foi parido pelo cristianismo. Agora, com a descristianização generalizada, os bem-pensantes iluministas querem criar um novo ordenamento, totalmente alheio e até contrário à cultura cristã. Querem também que os cristãos aceitem isso sem reagir... Se o leitor quiser um exemplo, basta ler as revistas semanais brasileiras (Época, Veja, IstoÉ) e os jornais de maior circulação no País (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, o Jornal do Brasil, O Globo). O argumento deles é o seguinte: a sociedade hoje é pluralista, o Estado é laico, sem vínculo com qualquer religião; logo, a Igreja e os cristãos, de modo geral, não têm nada a dizer sobre as questões da atualidade: aborto, manipulação genética, uso de embriões humanos em experiências para adquirir células-tronco, união civil dos homossexuais, eutanásia... nada disso compete aos cristãos. Aqui, cada um deve seguir sua consciência, sem querer impor ao conjunto da sociedade sua visão. Religião é questão privada, é questão de opinião e não deve ter nenhum influxo na construção do ordenamento social.
Aparentemente, o raciocínio dessa gente parece certo: cada um siga a sua consciência e pronto! Mas, aqui, há alguns pontos que precisam ser esclarecidos:
(1) É verdade que o Estado é laico e, enquanto tal, não deve professar ou favorecer religião alguma. Mas também e verdade que o Estado está a serviço do Povo, deve respeitar e tutelar os valores do Povo e o Povo brasileiro é cristão, na sua grande maioria e na sua matriz cultural. O Estado brasileiro não pode ser anticristão, não pode ignorar o cristianismo, não pode tratá-lo com desdém. Se o fizer, deve ser desautorizado e reformado pelo Povo! O Estado não é Deus e não está acima do bem e do mal! Então, quando se propõe arrancar o crucifixo do Supremo Tribunal Federal, se está agredindo a grande maioria do povo brasileiro: hoje arranca-se o crucifixo para amanhã se arrancar os valores cristãos que guiam nossa sociedade.
(2) É bobagem pensar que existam valores soltos, neutros e imparciais. Na verdade, o que os neo-iluministas desejam é impor seus valores: valores laicos, que apregoam a destruição da família e a adoção de uma ética atéia para decidir sobre o conceito de família, aborto, pesquisa genética, eutanásia, assassinato de embriões anencéfalos, etc. Note-se bem: não há uma ética neutra! Querem fazer o povo brasileiro engolir uma ética pagã, fundamentada numa razão meramente utilitarista e individualista.
(3) Os cristãos têm todo direito de gritar e defender seus valores. Se a sociedade é democrática e pluralista e a Igreja e outras denominações cristãs são membros dessa sociedade, têm direito sim de fazer pressão. É interessante: quando as minorias fazem barulho, todos elogiam; quando os cristãos o fazem, a turma iluminista reclama e mete o pau na Igreja católica (que é a bruxa velha) e nos outros cristãos! A Igreja deve gritar, deve organizar os que crêem, deve se articular com as demais denominações cristãs e com as pessoas de boa vontade para defender que nossas leis exprimam valores cristãos. Todos devem ser respeitados, mas temos o direito de lutar por nossas idéias.
(4) Isso não significa querer impor aos outros nosso modo de pensar. A questão é que uma sociedade permissiva, com leis em contradição com uma cultura cristã, marca toda a sociedade, marca as famílias, marca as escolas, marca nossos jovens e crianças. Temos o direito de lutar para defendê-los! Basta pensar no que uma idéia pagã de matrimônio e família, veiculada pelos meios de comunicação, tem gerado no Brasil: o conceito de família tem sido totalmente destruído na nossa cultura brasileira. Agradeçamos à Rede Globo e demais emissoras de televisão! Como seria interessante escutar os filhos de descasados e recasados, os filhos de mães solteiras e adolescentes, para vermos de perto o resultado desastroso de tudo isso! O que será dos jovens daqui a cinqüenta anos, formados em famílias totalmente alheia a valores sólidos?
As coisas, como estão, encaminham-se para uma contraposição forte. Estamos chegando num ponto de fusão, no qual os cristãos terão de dizer claramente “basta”! É preciso perguntar se é correto promover a desconstrução do Ocidente como se está fazendo. O Estado não religioso é uma conquista que deve ser mantida; a separação entre religião e governo é uma realidade sadia. O problema é quando grupos poderosos – os senhores dos meios de comunicação, por exemplo – fazem uma campanha bem orquestrada para arrancar as marcas cristãs de nossa cultura. Aí é necessário dizer “basta”, é necessário gritar, pressionar e mostrar que os cristãos não estão dormindo.
Devemos caminhar para a elaboração de uma ética civil, isto é, critérios éticos, fundamentados no princípio de respeito profundo pelos valores humanos mais nobres, que possam, de modo geral, ser por todos compartilhados. Todos – crentes ou não, cristãos ou não-cristãos – têm algo a dizer e têm em que colaborar. Mas, não se pode esquecer que este País chamado Brasil ainda é majoritariamente cristão e católico. Não se pode esquecer de nossas raízes culturais e dos valores que plasmaram nossa sociedade. Não se pode aceitar a ditadura intelectual de uma minoria “iluminada” por uma razão atéia querendo impor seus contra-valores – ainda na semana passada a Veja referia-se a Jesus como um simples “mito” e ridicularizava sutilmente os que acreditam que Cristo nasceu de uma Virgem... Uma guerra ideológica não faria bem a ninguém, pois provocaria somente exacerbações e exageros... Mas, os cristãos não ficarão calados; não ficarão quietos... Quem viver, verá!
Côn. Henrique Soares da Costa
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quarta-feira, 2 de março de 2011
França enfrenta problemas com laicidade e islamismo
ZP11030110 - 01-03-2011
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Partido de Sarkozy organiza debate nacional sobre estes temas
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Partido de Sarkozy organiza debate nacional sobre estes temas
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Europa precisa reconhecer suas raízes cristãs, afirma Papa
ZP11020404 - 04-02-2011
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Pontífice recebe novo embaixador da Áustria junto à Santa Sé
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Pontífice recebe novo embaixador da Áustria junto à Santa Sé
CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org)
- "A construção de uma casa comum europeia pode ser bem sucedida se o
continente estiver ciente de suas raízes cristãs e se os valores do
Evangelho, assim como a imagem cristã do homem, forem, também no futuro,
o fermento da civilização europeia."
Isto foi afirmado ontem Papa Bento XVI, ao receber em audiência Alfons M. Kloss, novo embaixador da Áustria junto à Santa Sé, por ocasião da apresentação das suas cartas credenciais.
"A fé viva em Cristo e o amor ativo pelo próximo, refletindo as palavras e a vida de Cristo e o exemplo dos santos, devem pesar mais fortemente na cultura ocidental cristã", observou o Papa.
Estado e liberdade religiosa
Em muitos países europeus, disse o Pontífice, "a relação entre Estado e religião está enfrentando uma tensão particular".
"Por um lado, as autoridades políticas procuram não fornecer espaços públicos para as religiões, concebendo-as como ideias de fé meramente individuais dos cidadãos. Por outro lado, pretende-se aplicar os critérios de uma opinião pública leiga às comunidades religiosas."
"Parece que se quer adaptar o Evangelho à cultura e, no entanto, busca-se impedir, de forma quase vergonhosa, que a cultura seja moldada pela dimensão religiosa", lamentou.
Neste sentido, quis reconhecer "a atitude de alguns Estados da Europa Central e Oriental que buscam dar espaço para as questões fundamentais do homem, a fé em Deus e a fé na salvação por meio de Deus".
A Santa Sé, acrescentou, "observou com satisfação algumas atividades do governo austríaco, neste sentido", incluindo "a importância da posição tomada em relação à chamada ‘sentença do crucifixo', ou a proposta do ministro de Assuntos Exteriores de que se elabore um informe sobre a situação da liberdade religiosa no mundo".
Não só uma ONG
Bento XVI também quis destacar os esforços da Igreja pelos necessitados, que "evidencia" o modo como ela "é porta-voz dos desfavorecidos".
"Este esforço da Igreja, que na sociedade recebe amplo reconhecimento, não pode ser reduzido a uma mera filantropia", disse o Papa.
"Suas raízes mais profundas estão em Deus, no Deus que é amor. Por isso, é necessário respeitar plenamente a ação própria da Igreja, sem transformá-la em um dos muitos serviços de beneficência."
Política familiar
Outra questão em que o Papa quis mostrar a preocupação da Santa Sé é a necessidade de uma "política equilibrada em relação à família".
Dado que a ordem social "encontra um apoio essencial na união esponsal do homem e da mulher, que também é direcionada à procriação", o casamento e a família "requerem uma proteção especial do Estado".
"São, para todos os seus membros, uma escola de humanidade, com efeitos positivos para os indivíduos, bem como para a sociedade", explicou, ressaltando que a família é chamada a "viver e proteger o amor mútuo e a verdade, o respeito e a justiça, a fidelidade e a colaboração, o serviço e a disponibilidade aos demais, em particular os mais fracos".
Neste contexto, ele lamentou que a vida dos nascituros não receba a "proteção jurídica adequada", mas, ao contrário, "seja muitas vezes reconhecido o direito de existir como secundário com relação à liberdade de escolha dos pais".
Direitos fundamentais
Em seu discurso ao Papa, que aparece na edição diária do L'Osservatore Romano, o novo embaixador manifestou a "convicção do seu país, no campo dos direitos humanos, da necessidade de chamar mais a atenção sobre as liberdades de religião e de consciência como elementos básicos desses direitos".
"A Áustria, portanto, está entre os países que intervêm com ênfase para que, no futuro, seja atribuído um maior valor ao compromisso com a liberdade de religião nas relações externas da União Europeia."
Kloss também observou que, em 2013, seu país vai organizar o 5º Fórum Anual da Aliança das Civilizações e que o "tradicional papel" da Áustria, como ponto de encontro cultural, "confirma a escolha de Viena como sede do Centro Rei Abdullah para o Diálogo Inter-Religioso".
A este respeito, disse que a Áustria "aprecia a atitude positiva da Santa Sé com relação a esse Centro e sua disponibilidade para enviar um representante ao comitê de direção".
O embaixador concluiu agradecendo ao Papa pelas suas intervenções "sobre o significado do diálogo entre as religiões", que são para seu país "um incentivo para prestar atenção especial a esta instância em sua atividade política".
Isto foi afirmado ontem Papa Bento XVI, ao receber em audiência Alfons M. Kloss, novo embaixador da Áustria junto à Santa Sé, por ocasião da apresentação das suas cartas credenciais.
"A fé viva em Cristo e o amor ativo pelo próximo, refletindo as palavras e a vida de Cristo e o exemplo dos santos, devem pesar mais fortemente na cultura ocidental cristã", observou o Papa.
Estado e liberdade religiosa
Em muitos países europeus, disse o Pontífice, "a relação entre Estado e religião está enfrentando uma tensão particular".
"Por um lado, as autoridades políticas procuram não fornecer espaços públicos para as religiões, concebendo-as como ideias de fé meramente individuais dos cidadãos. Por outro lado, pretende-se aplicar os critérios de uma opinião pública leiga às comunidades religiosas."
"Parece que se quer adaptar o Evangelho à cultura e, no entanto, busca-se impedir, de forma quase vergonhosa, que a cultura seja moldada pela dimensão religiosa", lamentou.
Neste sentido, quis reconhecer "a atitude de alguns Estados da Europa Central e Oriental que buscam dar espaço para as questões fundamentais do homem, a fé em Deus e a fé na salvação por meio de Deus".
A Santa Sé, acrescentou, "observou com satisfação algumas atividades do governo austríaco, neste sentido", incluindo "a importância da posição tomada em relação à chamada ‘sentença do crucifixo', ou a proposta do ministro de Assuntos Exteriores de que se elabore um informe sobre a situação da liberdade religiosa no mundo".
Não só uma ONG
Bento XVI também quis destacar os esforços da Igreja pelos necessitados, que "evidencia" o modo como ela "é porta-voz dos desfavorecidos".
"Este esforço da Igreja, que na sociedade recebe amplo reconhecimento, não pode ser reduzido a uma mera filantropia", disse o Papa.
"Suas raízes mais profundas estão em Deus, no Deus que é amor. Por isso, é necessário respeitar plenamente a ação própria da Igreja, sem transformá-la em um dos muitos serviços de beneficência."
Política familiar
Outra questão em que o Papa quis mostrar a preocupação da Santa Sé é a necessidade de uma "política equilibrada em relação à família".
Dado que a ordem social "encontra um apoio essencial na união esponsal do homem e da mulher, que também é direcionada à procriação", o casamento e a família "requerem uma proteção especial do Estado".
"São, para todos os seus membros, uma escola de humanidade, com efeitos positivos para os indivíduos, bem como para a sociedade", explicou, ressaltando que a família é chamada a "viver e proteger o amor mútuo e a verdade, o respeito e a justiça, a fidelidade e a colaboração, o serviço e a disponibilidade aos demais, em particular os mais fracos".
Neste contexto, ele lamentou que a vida dos nascituros não receba a "proteção jurídica adequada", mas, ao contrário, "seja muitas vezes reconhecido o direito de existir como secundário com relação à liberdade de escolha dos pais".
Direitos fundamentais
Em seu discurso ao Papa, que aparece na edição diária do L'Osservatore Romano, o novo embaixador manifestou a "convicção do seu país, no campo dos direitos humanos, da necessidade de chamar mais a atenção sobre as liberdades de religião e de consciência como elementos básicos desses direitos".
"A Áustria, portanto, está entre os países que intervêm com ênfase para que, no futuro, seja atribuído um maior valor ao compromisso com a liberdade de religião nas relações externas da União Europeia."
Kloss também observou que, em 2013, seu país vai organizar o 5º Fórum Anual da Aliança das Civilizações e que o "tradicional papel" da Áustria, como ponto de encontro cultural, "confirma a escolha de Viena como sede do Centro Rei Abdullah para o Diálogo Inter-Religioso".
A este respeito, disse que a Áustria "aprecia a atitude positiva da Santa Sé com relação a esse Centro e sua disponibilidade para enviar um representante ao comitê de direção".
O embaixador concluiu agradecendo ao Papa pelas suas intervenções "sobre o significado do diálogo entre as religiões", que são para seu país "um incentivo para prestar atenção especial a esta instância em sua atividade política".
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
O político católico, laicismo e cristianismo
ZP11013002 - 30-01-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27120?l=portuguese
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Por Dom Giampaolo Crepaldi*
ROMA, domingo, 30 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) - Para o político católico, o laicismo é um valor adquirido que deve ser defendido. Isto significa que a esfera política é independente da eclesiástica, que a política e a religião pertencem a âmbitos diferentes.
O cristianismo contribuiu bastante para o estabelecimento do laicismo autêntico. O cristianismo não é uma religião fundamentalista. O texto sagrado em que ele se inspira não deve ser lido ao pé da letra, e sim interpretado; a autoridade universal do Papa libera os cristãos das excessivas sujeições políticas nacionais; Deus confiou a construção do mundo à livre e responsável participação do homem. Não significa que a sociedade e a política sejam totalmente alheias à religião cristã, que não tenham nada a ver com ela. A sociedade precisa da religião de maneira concreta para manter um nível sadio de laicismo.
O cristianismo colabora com este objetivo, porque não impede a sociedade de ser legitimamente autônoma e ao mesmo tempo a sustenta e ilumina com sua própria mensagem religiosa. Poderíamos até dizer que o cristianismo a impulsiona a ser ela mesma, por explicitar a sua plena vocação e pedir-lhe o máximo das suas capacidades, sem se fechar em si mesma.
A sociedade que fecha as portas para a religião e para o cristianismo fecha portas para si mesma: ela não permite que as pessoas e as relações sociais respirem, sufocando as suas possibilidades com uma suposta autossuficiência. O cristianismo não teme enfrentamentos com outras religiões neste ponto: é no Deus feito homem que reside a valorização máxima da dimensão humana, familiar, social e ao mesmo tempo a sua total iluminação por Deus. Quando a razão política teme o cristianismo, é porque já decidiu optar pela própria autossuficiência, fechando-se para uma mensagem que na verdade a valorizaria.
Tende-se hoje a considerar que o laicismo é a neutralidade do espaço público aos absolutos religiosos. Um espaço em que os absolutos religiosos não deveriam intervir por dois motivos: primeiro, porque numa democracia não haveria espaço para os absolutos; segundo, porque os absolutos religiosos seriam irracionais, ao passo que o espaço público deveria alimentar-se de um discurso racional. Ocorre que este espaço permaneceria vazio, e nesse vazio haveria lugar para novos absolutos inimigos do homem, para novos deuses.
Mas examinemos antes os dois princípios vistos até agora: a democracia é incompatível com os princípios absolutos? A religião é irracional? Não é verdade que a democracia pressuponha o relativismo moral e religioso, nem é verdade que os princípios absolutos sejam necessariamente violentos e opressivos. Mas poderíamos dizer o contrário: a falta de referências absolutas gera uma luta de todos contra todos, onde tem razão quem é mais forte. A democracia também se arrisca a reduzir-se à força da maioria. Por isso existe a necessidade de que os cidadãos acreditem em princípios absolutos, como por exemplo a dignidade de cada pessoa humana, a liberdade, a justiça, etc. Por outro lado, a democracia se torna apenas um procedimento, mas estes podem mudar facilmente se não estão repletos do que é substancial.
A substância da democracia não é o procedimento, mas a dignidade da pessoa, que deveria ser considerada um valor absoluto. E como pode ser considerada um valor absoluto se não se baseia em Deus? Como bem observou Tocqueville a respeito da jovem democracia americana, a religião está estreitamente conectada com a liberdade, e a liberdade pode diminuir inclusive nos regimes democráticos.
Passamos ao segundo ponto: a religião é irracional? Não há dúvida de que existem formas de religião irracionais, total ou parcialmente. Mas não é o caso do cristianismo.
Existem as religiões do mito, que entendem a divindade como uma união de forças obscuras e indecifráveis, arbitrárias e estranhas, que a religião tenta tornar suas aliadas. Há também as religiões do Logos, como a judaico-cristã, que crê num Deus que é Verdade e Amor.
Esta religião é razoável e não contradiz nenhuma verdade racional; antes, vincula-se a elas complementando-as, e não exige do homem a renúncia a tudo o que o torna verdadeiramente homem, para ser cristão. Não é aceitável, portanto, a idéia de que a religião, seja qual for, é, pela sua natureza, irracional. Isto certamente não vale para o cristianismo. Apesar disso, muitos entendem o laicismo como neutralidade, como uma expulsão da religião do espaço público. A ideia de eliminar a celebração do Natal, de impedir a exposição de símbolos religiosos em espaços públicos, de proibir a ação missionária que divulga aos outros a própria fé, são algumas expressões dessa visão do laicismo como espaço neutro, o que é visto especialmente no modelo francês. Nestes casos não se demonstra absolutamente a mencionada neutralidade.
Uma parede sem um crucifixo não é neutra: é uma parede sem crucifixo. Um espaço público sem Deus não é neutro: ele não tem Deus. O estado que impede a toda religião manifestar-se em público, talvez com a desculpa de defender a liberdade de religião, não é neutro, porque se posiciona a favor do laicismo ou do ateísmo e assume a responsabilidade de relegar a religião ao âmbito privado. Em muitos casos, nasce a religião do estado, a religião da antirreligião.
Entre a presença ou ausência de Deus no espaço público não há meio termo; não há neutralidade. Eliminar a Deus do espaço público significa construir um mundo sem Deus. Qualquer um diferencia um laicismo forte de um laicismo fraco. O primeiro se limitaria a admitir no espaço público todas as opções, compreendida a não religiosa; a segunda admite também formas de oposição à religião. Mas esta diferenciação não convence, porque um mundo sem Deus já é um mundo contra Deus. Excluir a Deus, mesmo que Ele não seja combatido, significa construir um mundo sem referências a Ele.
Por este motivo, o político católico não pode admitir nem colaborar com o laicismo entendido como neutralidade, porque isto significa dar espaço a uma nova razão do estado que, prejudicando a religião, prejudicará a si mesma. O político católico se oporá a esta visão, seja por razões religiosas, das quais ele não pode separar-se, seja por razões políticas, para impedir que nasça uma nova religião do estado prejudicial à liberdade das pessoas.
--- --- ---
*Dom Giampaolo Crepaldi é arcebispo de Trieste, presidente da Comissão "Caritas in Veritate" do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e presidente do Observatório Internacional "Cardeal Van Thuan" sobre a Doutrina Social da Igreja.
ROMA, domingo, 30 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) - Para o político católico, o laicismo é um valor adquirido que deve ser defendido. Isto significa que a esfera política é independente da eclesiástica, que a política e a religião pertencem a âmbitos diferentes.
O cristianismo contribuiu bastante para o estabelecimento do laicismo autêntico. O cristianismo não é uma religião fundamentalista. O texto sagrado em que ele se inspira não deve ser lido ao pé da letra, e sim interpretado; a autoridade universal do Papa libera os cristãos das excessivas sujeições políticas nacionais; Deus confiou a construção do mundo à livre e responsável participação do homem. Não significa que a sociedade e a política sejam totalmente alheias à religião cristã, que não tenham nada a ver com ela. A sociedade precisa da religião de maneira concreta para manter um nível sadio de laicismo.
O cristianismo colabora com este objetivo, porque não impede a sociedade de ser legitimamente autônoma e ao mesmo tempo a sustenta e ilumina com sua própria mensagem religiosa. Poderíamos até dizer que o cristianismo a impulsiona a ser ela mesma, por explicitar a sua plena vocação e pedir-lhe o máximo das suas capacidades, sem se fechar em si mesma.
A sociedade que fecha as portas para a religião e para o cristianismo fecha portas para si mesma: ela não permite que as pessoas e as relações sociais respirem, sufocando as suas possibilidades com uma suposta autossuficiência. O cristianismo não teme enfrentamentos com outras religiões neste ponto: é no Deus feito homem que reside a valorização máxima da dimensão humana, familiar, social e ao mesmo tempo a sua total iluminação por Deus. Quando a razão política teme o cristianismo, é porque já decidiu optar pela própria autossuficiência, fechando-se para uma mensagem que na verdade a valorizaria.
Tende-se hoje a considerar que o laicismo é a neutralidade do espaço público aos absolutos religiosos. Um espaço em que os absolutos religiosos não deveriam intervir por dois motivos: primeiro, porque numa democracia não haveria espaço para os absolutos; segundo, porque os absolutos religiosos seriam irracionais, ao passo que o espaço público deveria alimentar-se de um discurso racional. Ocorre que este espaço permaneceria vazio, e nesse vazio haveria lugar para novos absolutos inimigos do homem, para novos deuses.
Mas examinemos antes os dois princípios vistos até agora: a democracia é incompatível com os princípios absolutos? A religião é irracional? Não é verdade que a democracia pressuponha o relativismo moral e religioso, nem é verdade que os princípios absolutos sejam necessariamente violentos e opressivos. Mas poderíamos dizer o contrário: a falta de referências absolutas gera uma luta de todos contra todos, onde tem razão quem é mais forte. A democracia também se arrisca a reduzir-se à força da maioria. Por isso existe a necessidade de que os cidadãos acreditem em princípios absolutos, como por exemplo a dignidade de cada pessoa humana, a liberdade, a justiça, etc. Por outro lado, a democracia se torna apenas um procedimento, mas estes podem mudar facilmente se não estão repletos do que é substancial.
A substância da democracia não é o procedimento, mas a dignidade da pessoa, que deveria ser considerada um valor absoluto. E como pode ser considerada um valor absoluto se não se baseia em Deus? Como bem observou Tocqueville a respeito da jovem democracia americana, a religião está estreitamente conectada com a liberdade, e a liberdade pode diminuir inclusive nos regimes democráticos.
Passamos ao segundo ponto: a religião é irracional? Não há dúvida de que existem formas de religião irracionais, total ou parcialmente. Mas não é o caso do cristianismo.
Existem as religiões do mito, que entendem a divindade como uma união de forças obscuras e indecifráveis, arbitrárias e estranhas, que a religião tenta tornar suas aliadas. Há também as religiões do Logos, como a judaico-cristã, que crê num Deus que é Verdade e Amor.
Esta religião é razoável e não contradiz nenhuma verdade racional; antes, vincula-se a elas complementando-as, e não exige do homem a renúncia a tudo o que o torna verdadeiramente homem, para ser cristão. Não é aceitável, portanto, a idéia de que a religião, seja qual for, é, pela sua natureza, irracional. Isto certamente não vale para o cristianismo. Apesar disso, muitos entendem o laicismo como neutralidade, como uma expulsão da religião do espaço público. A ideia de eliminar a celebração do Natal, de impedir a exposição de símbolos religiosos em espaços públicos, de proibir a ação missionária que divulga aos outros a própria fé, são algumas expressões dessa visão do laicismo como espaço neutro, o que é visto especialmente no modelo francês. Nestes casos não se demonstra absolutamente a mencionada neutralidade.
Uma parede sem um crucifixo não é neutra: é uma parede sem crucifixo. Um espaço público sem Deus não é neutro: ele não tem Deus. O estado que impede a toda religião manifestar-se em público, talvez com a desculpa de defender a liberdade de religião, não é neutro, porque se posiciona a favor do laicismo ou do ateísmo e assume a responsabilidade de relegar a religião ao âmbito privado. Em muitos casos, nasce a religião do estado, a religião da antirreligião.
Entre a presença ou ausência de Deus no espaço público não há meio termo; não há neutralidade. Eliminar a Deus do espaço público significa construir um mundo sem Deus. Qualquer um diferencia um laicismo forte de um laicismo fraco. O primeiro se limitaria a admitir no espaço público todas as opções, compreendida a não religiosa; a segunda admite também formas de oposição à religião. Mas esta diferenciação não convence, porque um mundo sem Deus já é um mundo contra Deus. Excluir a Deus, mesmo que Ele não seja combatido, significa construir um mundo sem referências a Ele.
Por este motivo, o político católico não pode admitir nem colaborar com o laicismo entendido como neutralidade, porque isto significa dar espaço a uma nova razão do estado que, prejudicando a religião, prejudicará a si mesma. O político católico se oporá a esta visão, seja por razões religiosas, das quais ele não pode separar-se, seja por razões políticas, para impedir que nasça uma nova religião do estado prejudicial à liberdade das pessoas.
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*Dom Giampaolo Crepaldi é arcebispo de Trieste, presidente da Comissão "Caritas in Veritate" do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE) e presidente do Observatório Internacional "Cardeal Van Thuan" sobre a Doutrina Social da Igreja.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Laicidade (ou laicismo)
Multiculturalismo(s): identidade cultural é opressão individual
Na ressaca dos atentados de Julho no
Reino Unido[1], e num momento em que o Canadá esteve prestes a
reconhecer tribunais arbitrais que aplicariam a chária, verifica-se um
questionamento crescente e inevitável do multiculturalismo, uma palavra usada em pelo menos três sentidos diferentes que convém distinguir.
Na verdade, alguns dos que mais
veementemente afirmam «rejeitar o multiculturalismo» são fascistas mais
ou menos envergonhados que pretendem aproveitar-se do fanatismo de uma
minoria entre os muçulmanos e dos actos terroristas de meia dúzia para
promoverem um programa político de uniformização «racial» (no caso dos
racistas) ou religiosa (no caso dos clericalistas), que avançaria pela
exclusão política e social dos imigrantes. A crítica que fazem do
fascismo islâmico é portanto meramente oportunista e releva de intenções
tão fascistas (ou clericalistas) como as dos jihadistas. Estas pessoas,
quando rejeitam o «multiculturalismo», referem-se a um facto social (a presença de imigrantes e a consequente diversidade cultural) que revitaliza as sociedades e as regenera demograficamente.
Numa segunda acepção, fala-se em
«multiculturalismo» para descrever um discurso baseado na ideia de que
os valores éticos ou mesmo os direitos políticos só podem ser criticados
a partir «de dentro» de cada cultura, e portanto por «pessoas dessa
cultura». Esta corrente de pensamento defende o máximo de tolerância (no
limite, a indiferença) por qualquer prática apresentada com uma caução
cultural ou religiosa, designadamente os casamentos forçados ou, em
Portugal, a excisão do clitóris. Esta corrente aprisiona os indivíduos à
sua identidade cultural ou religiosa de origem, e negligencia todos
aqueles que desejam abandonar, em parte ou mesmo no todo, a religião ou
cultura em que foram educados. Pior ainda, entrega a definição dessa
religião ou cultura aos seus puristas, ou seja, aos mais integristas
(Salman Rushdie acusa disto mesmo o governo britânico[2]). Os produtores
desta linha de pensamento são sobretudo académicos e educadores, tão
intoxicados de pós-modernismo que são incapazes de olhar para um
indivíduo sem verem a «identidade cultural» ou «identidade religiosa»
que esse indivíduo adquiriu acidentalmente. E no entanto, por detrás
desses efeitos da educação todos temos os mesmos instintos e
necessidades.
Finalmente, a palavra
«multiculturalismo» é ainda usada para designar os modelos políticos
comunitaristas, em que os cidadãos não são tratados como indivíduos
iguais em direitos e deveres e destinados a conviver uns com os outros,
mas sim como membros de «comunidades culturais» com direitos distintos,
condenadas a coexistirem separadamente. Evidentemente, estas políticas
legitimam-se com o discurso criticado no parágrafo anterior. A Holanda e
o Reino Unido são exemplos (imperfeitos) de multiculturalismo de
Estado, que em ambos os casos foi o sucessor histórico do
multiconfessionalismo. Refira-se, concretamente, os tribunais arbitrais
islâmicos que há pouco estiveram em discussão no Canadá, o financiamento
público de escolas privadas confessionais (protestantes, católicas,
judaicas, muçulmanas) ou a indiferença perante o elogio da violência
feito por alguns imãs. Existe um sector importante da esquerda
contemporânea que é politicamente comunitarista, mas alguma direita
(mais religiosa ou mais identitária-racista, conforme os casos) está
também interessada no separatismo étnico-religioso que lhe conforta os
preconceitos e lhe afasta da frente os indesejáveis.
Felizmente, o debate sobre os
multiculturalismos está a conduzir muitos à conclusão de que, nestes
tempos conturbados, só a laicidade à francesa, com a sua separação clara
entre uma esfera pública neutral e uma esfera privada onde se pratica
facultativamente a religião, e também com a sua igualdade de direitos e
deveres entre cidadãos independentemente da religião, poderá responder
ao desafio que a integração dos muçulmanos representa. É esse o
argumento apresentado por Gilles Kepel[3], e Salman Rushdie[4] já
concluiu o mesmo. Convém aqui esclarecer que, ao contrário de um
fantasma habitualmente evocado, não deve ser considerada racista toda e
qualquer crítica de culturas e religiões minoritárias ou o conferir
direitos e deveres iguais a todos os cidadãos, mas que pelo contrário
deve ser considerado racista tratar os cidadãos diferenciadamente em
função das suas pertenças religiosas, atribuir-lhes direitos diferentes
(que inexoravelmente separam e discriminam as minorias) ou ainda ser
complacente com discursos fascizantes[5].
No momento actual, é necessário recordar
ao mundo que o muçulmano que abandona a sua religião não é nem uma
anomalia estatística nem um traidor à sua comunidade. É um indivíduo que
exerce a sua liberdade de pensamento. E apenas uma República laica lhe
permitirá seguir o seu caminho, livre da opressão identitária e dos
mulás que o tentam instrumentalizar.
Ricardo Gaio Alves
sábado, 11 de dezembro de 2010
Pregador do Papa: A resposta cristã ao secularismo
ZP10121003 - 10-12-2010
Permalink: http://www.zenit.org/article-26763?l=portuguese
Segunda pregação do Advento
Permalink: http://www.zenit.org/article-26763?l=portuguese
Segunda pregação do Advento
CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 10 de dezembro de 2010 (ZENIT.org)
- Apresentamos a segunda pregação do Advento pronunciada nesta
sexta-feira pelo Pe. Raniero Cantalamessa OFM cap, pregador da Casa
Pontifícia, diante de Bento XVI e da Cúria Romana, na Capela Redemptoris Mater do Palácio Apostólico Vaticano, sobre o tema da resposta cristão ao secularismo.
* * *
P. Raniero Cantalamessa, ofmcap.
Segunda Pregação de Advento
“A VIDA ETERNA QUE A VÓS ANUNCIAMOS” (1 Jo 1,2)
A resposta cristã ao secularismo
1. Secularização e secularismo
Nesta meditação, veremos o segundo obstáculo que a evangelização no mundo ocidental moderno encontra: a secularização. No Motu Proprio com o qual o Papa criou o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, é dito que este “está a serviço das Igrejas particulares, especialmente naqueles territórios de antiga tradição cristã onde se manifesta mais claramente o fenômeno da secularização”.
A secularização é um fenômeno complexo e ambivalente. Pode significar a autonomia das realidades terrenas e a separação entre o reino de Deus e o reino de César e, neste sentido, não só não é contra o Evangelho, mas encontra nele uma de suas raízes profundas. Pode, no entanto, indicar também todo um conjunto de atitudes contrárias à religião e à fé, pelo qual é preferível usar o termo secularismo. O secularismo está para secularização assim como o cientificismo para a ciência e o racionalismo à racionalidade.
Cuidando dos obstáculos ou desafios que a fé encontra no mundo moderno, referimo-nos exclusivamente a este sentido negativo da secularização. Mesmo assim delimitada, no entanto, a secularização tem muitas faces, dependendo dos campos em que se manifesta: a teologia, ciência, ética, a hermenêutica bíblica, a cultura em geral, a vida cotidiana. Nesta meditação, tomo o termo em seu primordial. A secularização, como o secularismo, na verdade, derivam da palavra saeculum, que no uso comum termina por indicar o tempo presente (aeon atual, segundo a Bíblia), por oposição à eternidade (aeon futuro, “séculos dos séculos”, da Bíblia. NT: um período de tempo extremamente longo e indefinido). Nesse sentido, o secularismo é sinônimo de temporalidade, de redução do real somente à dimensão terrena.
A queda do horizonte da eternidade ou da vida eterna tem, sobre a fé cristã, o mesmo efeito que a areia jogada sobre uma chama: a sufoca, a apaga. A crença na vida eterna é uma das condições de possibilidade da evangelização. “Se é só para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os homens, os mais dignos de compaixão”. (1 Coríntios 15,19).
2. A ascensão e a queda da idéia de eternidade
Recordemos brevemente a história da crença na vida após a morte, vai nos ajudar a medir a novidade trazida pelo Evangelho neste campo. Na religião hebraica do Antigo Testamento, essa crença se afirma tardiamente. Somente depois do exílio, diante do fracasso das expectativas temporais, nasce a ideia da ressurreição da carne e de uma recompensa após a morte para os justos, e ainda assim não todos a adotam (os saduceus, como sabemos, não partilham tal crença).
Isso desmente clamorosamente a tese daqueles (Feuerbach, Marx, Freud) que explicam a crença em Deus com o desejo de uma recompensa eterna, como projeção no além de expectativas temporais frustradas. Israel acreditou em Deus, muitos séculos antes do que em uma recompensa eterna no além! Não é, portanto, o desejo de uma recompensa eterna que produziu a fé em Deus, mas é a fé que produziu a crença em uma recompensa pós morte.
No mundo bíblico, temos a plena revelação da vida eterna com a vinda de Cristo. Jesus não estabelece a certeza da vida eterna sobre a natureza do homem, a imortalidade da alma, mas sobre “o poder de Deus”, que é um "Deus não de mortos, mas de vivos" (Lc 20, 38). Depois da Páscoa, a este fundamento teológico, os apóstolos acrescentarão o cristológico: a ressurreição de Cristo dentre os mortos. Nela, o Apóstolo fundou a fé na ressurreição da carne e na vida eterna: “Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1 Cor 15, 12.20).
Também no mundo greco-romano assiste-se a uma evolução na concepção de vida após a morte. A mais antiga ideia é a de que a verdadeira vida termina com a morte; depois dessa existe somente um simulacro de vida, num mundo de sombras. Uma novidade se registra com o aparecimento religião órfico-pitagórica. De acordo com ela, o verdadeiro eu do homem é a alma, que, libertada da prisão (sema) do corpo (soma), pode finalmente viver sua verdadeira vida. Platão dará uma dignidade filosófica a esta descoberta, baseando-a na natureza espiritual e, portanto, imortal, da alma [1].
Essa crença permanecerá, no entanto, sendo minoritária, reservada aos iniciados nos mistérios e aos seguidores de escolas filosóficas especiais. Para a massa, persistirá a antiga crença de que a vida real termina com a morte. São conhecidas as palavras que o imperador Adriano dirigi a si próprio próximo de morrer:
“Pequena alma, alma terna e inconstante,
companheira do meu corpo, de que foste hóspede,
vais descer àqueles lugares pálidos,
duros e nus, onde deverás renunciar aos jogos de outrora.
Por um momento, contemplemos juntos ainda os lugares familiares,
os objetos que certamente nunca mais veremos...” [2].
Entende-se neste contexto o impacto que devia ter a mensagem cristã de vida após a morte infinitamente mais plena e mais alegre do que a da terra; também podemos entender por que a ideia e os símbolos da vida eterna são tão comuns nas sepultura cristãs das catacumbas romanas.
Mas o que aconteceu à ideia cristã de uma vida eterna para a alma e para o corpo depois de ter triunfado sobre a ideia pagã de “escuridão além da morte”? Ao contrário do momento atual, no qual o ateísmo é primariamente expresso na negação da existência de um Criador, no século XIX, ele se expressava na negação da vida após a morte. Acolhendo a afirmação de Hegel, segundo a qual “os cristãos desperdiçam no céu a energia destinada à terra”, Feuerbach e principalmente Marx combateram a crença na vida após a morte, sob o pretexto de que aliena o compromisso terreno. À ideia de uma sobrevivência pessoal em Deus, se substitui uma ideia de sobrevivência na espécie e na sociedade do futuro.
Pouco a pouco, recaiu sobre a palavra eternidade a suspeita e o silêncio. O materialismo e o consumismo completaram a obra nas sociedades opulentas, fazendo parecer inconveniente que se fale ainda de eternidade entre pessoas cultas e em sintonia com os tempos. Tudo isso provocou claramente um retrocesso na fé dos crentes que, com o tempo, fez-se tímida e reticente sobre este ponto. Quando ouvimos o último sermão sobre a vida eterna? Continuamos a rezar o Credo: “Et expecto resurrectionem mortuorum et vitam venturi saeculi” (“E Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”), mas sem dar muito peso a estas palavras. Kierkegaard tinha razão quando escreveu: "A vida após a morte tornou-se uma piada, uma necessidade tão incerta que não só ninguém respeita, mas nem mesmo se cogita que exista, ao ponto que se divertem com o pensamento de que houve um tempo em que esta ideia transformava a toda a existência” [3].
Qual é o efeito prático desse eclipse da ideia de eternidade? São Paulo refere-se à intenção daqueles que não acreditam na ressurreição dos mortos: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (1 Cor. 15,32). O desejo natural de viver sempre, distorcido, torna-se um desejo ou frenesi de viver bem, ou seja, agradavelmente, mesmo que às custas dos outros, se necessário. Toda a terra se torna o que Dante disse da Itália da sua época: "o canteiro que tão nos faz ferozes". Perdido o horizonte da eternidade, o sofrimento humano parece dupla e irremediavelmente absurdo.
3. A eternidade: uma esperança e uma presença
Ainda a propósito do secularismo, como para o cientificismo, a resposta mais eficaz não é combater o erro contrário, mas fazer brilhar novamente diante dos homens a certeza da vida eterna, confiando na força intrínseca que possui a verdade quando é acompanhada pelo testemunho de vida. "Sempre se poderá negar uma ideia com outra – escreve um antigo Padre – e uma opinião pode ser oposta à outra; mas o que poderá se opor a uma vida?”
Devemos também aproveitar a correspondência de tal verdade ao desejo mais profundo, ainda que reprimido, do coração humano. A um amigo que o repreendeu, quase como se seu desejo de eternidade fosse uma forma de orgulho e arrogância, Miguel de Unamuno, que não era um apologista da fé, disse em uma carta:
“Eu não estou dizendo que merecemos uma vida depois da morte, nem que a lógica nos mostre isso; estou dizendo que a necessito, mereça ou não, e nada mais. Estou dizendo que o que é passageiro não me satisfaz, que tenho sede de eternidade, e que, sem ela, tudo dá no mesmo para mim. Eu necessito disso, necessito! E, sem isso, nem a alegria de viver quer dizer coisa alguma. É muito cômodo dizer ‘temos de viver, temos de estar contentes com a vida!’ E os que não nos contentamos com ela?” [4].
Não é que desejasse a eternidade - acrescentava na mesma ocasião - desprezando o mundo e a vida aqui embaixo: “Eu amo tanto a vida que, perdê-la, parece-me o pior dos males. Não amam realmente a vida aqueles que vivem o dia a dia, sem preocupar-se por saber se vão perdê-la totalmente ou não”. Santo Agostinho dizia a mesma coisa: Cui non datur semper vivere, quid prodest bene vivere?, “De que serve viver bem, se não nos é dado viver para sempre?” [5]. “Tudo, exceto o eterno, é vão ao mundo”, cantou um dos nossos poetas [6].
Aos homens do nosso tempo, que cultivam no fundo do coração esta necessidade de eternidade, sem talvez ter a coragem de confessar a outros e nem para si mesmo, podemos repetir o que Paulo disse aos atenienses: “Pois bem, aquilo que adorais sem conhecer, eu vos anuncio” (cf. At 17,23).
A resposta cristã ao secularismo, no sentido que entendemos aqui, não se baseia, como para Platão, em uma ideia filosófica - imortalidade da alma - mas em um evento. O Iluminismo tinha colocado a famosa pergunta de como é possível atingir a eternidade, enquanto você estiver no tempo, e como dar um ponto de partida histórico para uma consciência eterna [7]. Em outras palavras: como se pode justificar a alegação da fé cristã de prometer uma vida eterna e de ameaçar com uma pena igualmente eterna por atos realizados no tempo.
A única resposta válida para este problema é aquela baseada na fé na encarnação de Deus. Em Cristo, o eterno entrou no tempo, manifestado na carne; diante dele é possível tomar uma decisão para a eternidade. É assim que o evangelista João fala da vida eterna: “Vida eterna que a vós anunciamos, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós” (1 Jo 1, 2).
Para o crente, a eternidade não é, como se vê, somente uma esperança, é também uma presença. Realizamos a experiência cada vez que fazemos um verdadeiro ato de fé em Cristo, porque todo aquele que nele crê “já possui a vida eterna” (cf. 1 Jo 5,13), e toda vez que recebemos a comunhão, onde nos é dado “o penhor da glória futura” (futurae gloriae nobis pignus datur); toda vez que escutamos as palavras do Evangelho são “palavras de vida eterna "(Jo 6,68). São Tomás de Aquino também afirma que “a graça é o início da glória” [8].
Esta presença da eternidade no tempo é chamada Espírito Santo. Ele é descrito como “garantia da nossa herança” (Ef 1,14; 2 Coríntios 5,5), e foi dada a nós porque, tendo recebido as primícias, nós ansiamos pela plenitude. “Cristo - escreve Santo Agostinho - nos deu o penhor do Espírito Santo com o qual ele, que não poderia enganar-nos, quis ter certeza do cumprimento de sua promessa. O que ele prometeu? Ele prometeu a vida eterna, cuja garantia é o Espírito Santo que nos foi dado ” [9].
4. Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos?
Entre a vida de fé no tempo e a vida eterna no tempo há uma relação semelhante à que existe entre a vida do embrião no seio materno e a do bebê, uma vez nascido. Cabasilas escreve:
“Este mundo traz, em gestação, o homem interior, novo, criado segundo Deus, para que ele, formado, moldado e tornado perfeito, não seja gerado àquele mundo perfeito que não envelhece. Como o embrião que, enquanto está na existência escura e líquida, a natureza prepara à vida na luz, é assim com os santos [...]. Para o embrião, no entanto, a vida futura é absolutamente futura: não chega a ele nenhum raio de luz, nada do que é desta vida. Não é assim para nós, do momento que o século futuro foi como derramado e misturado ao presente [...] Então, agora já é concedido aos santos não só dispor-se e preparar-se à vida, mas viver e atuar” [10].
Há uma história que ilustra essa comparação. Havia dois gêmeos, um menino e uma menina, tão inteligentes e precoces que, mesmo no útero materno, já conversavam entre si. A menina perguntava ao irmão: “Pra você, haverá vida após o nascimento?”. Ele respondia: “Não seja ridícula. O que faz você pensar que exista algo fora desse espaço estreito e escuro em que nos encontramos? A menina, criando coragem, insistia: “Talvez haja uma mãe, alguém que nos colocou aqui e que vai cuidar de nós.” Ele disse: “Você vê alguma mãe em algum lugar? O que você vê é tudo que existe”. Ela de novo: “Mas você não sente, às vezes, uma pressão no peito que aumenta dia a dia e nos impele para frente?”. “Pensando bem, ele respondeu, é verdade, sinto isso o tempo todo”. “Veja, concluiu, triunfante, a irmã mais nova, essa dor não pode ser para nada. Eu acho que está nos preparando para algo maior do que este pequeno espaço”.
Podemos usar esta simpática história quando tivermos de anunciar a vida eterna para as pessoas que perderam a fé nela, mas conservaram a nostalgia e talvez esperam que a Igreja, como aquela menina, as ajude a acreditar.
Há perguntas que os homens não deixam de fazer desde que o mundo é mundo e os homens de hoje não são exceção: “Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos”. Na sua “História Eclesiástica do Povo Inglês”, Beda, o Venerável, relata como a fé cristã entrou no norte da Inglaterra. Quando os missionários, vindos de Roma, chegaram a Northumberland, o rei Edwin convocou um conselho de notáveis para decidir se permitiam a eles ou não, pelo menos, divulgar a nova mensagem. Um deles se levantou e disse:
“Suponha, ó rei, esta cena. Você se senta para jantar com seus ministros e líderes: é inverno, o fogo arde no meio e aquece a sala, enquanto lá fora, a tempestade grita e a neve cai. Um passarinho entra pela abertura de uma parede e sai imediatamente do outro lado. Enquanto está dentro, está protegido da tempestade de inverno mas, depois de desfrutar o calor rapidamente, apenas desaparece de vista, perdendo-se no inverno escuro de onde veio. Assim parece ser a vida do homem na terra: ignoramos tudo o que a segue e que a precedeu. Se esta nova doutrina nos traz algo mais seguro sobre isso, acho que deve ser acolhida” [11].
Quem sabe se a fé cristã não pode voltar à Inglaterra e ao continente europeu pela mesma razão pela que fez sua entrada: como a única que tem uma resposta definitiva a dar às grandes interrogações da vida terrena. A melhor oportunidade de transmitir esta mensagem são os funerais. Neles, as pessoas estão menos distraídas que nos outros ritos de passagem (Batismo, Casamento); eles questionam o seu próprio destino. Quando se chora por um ente querido, se chora também por si mesmo.
Certa vez ouvi um interessante programa da BBC inglesa sobre os chamados “funerais seculares”, com a gravação ao vivo de um deles. Em certo momento o mestre de cerimônias dizia aos presentes: “Nós não devemos ficar tristes. Viver uma vida boa, satisfatória, por 70 anos (a idade da falecida), é algo pelo qual se deveria ser grato”. “Grato a quem?, me perguntava. Tais funerais não fazem mais que deixar evidente a derrota total do homem frente à morte.
Os sociólogos e estudiosos da cultura, chamado a explicar o fenômeno dos funerais seculares ou “humanistas”, viam a causa da propagação desta prática em alguns países do norte da Europa no fato de que estes funerais religiosos envolvem os presentes numa fé que não se sentem à vontade para compartilhar. A proposta sugerida era: a Igreja, nos funerais, deveria evitar qualquer menção a Deus, à vida eterna, a Jesus Cristo morto e ressuscitado, e limitar seu papel ao de “organizadora natural e experiente dos ritos de passagem”! Em outras palavras, resignar-se à secularização inclusive da morte!
5. Vamos à casa do Senhor!
Não precisamos de uma fé renovada na eternidade somente para evangelizar, isto é, para o anúncio aos outros, precisamos dela, mesmo antes, para dar um novo impulso à nossa caminhada rumo à santidade. O enfraquecimento da ideia de eternidade atinge também os crentes, diminuindo neles a capacidade de enfrentar com coragem o sofrimento e as provas da vida.
Pensemos em um homem com uma balança na mão: uma daquelas balanças se equilibram com uma mão e tem de um lado um prato onde se colocam as coisas para pesar e do outro uma barra que marca o peso ou a medida. Se cai no chão ou perde a medida, tudo o que e colocado no prato levanta a barra e inclina a balança. Até um punhado de penas.
Assim somos nós quando perdemos o peso, a medida de tudo que é a eternidade: as coisas e os sofrimentos terrenos levam facilmente nossa alma ao chão. Tudo parece muito pesado, excessivo. Jesus dizia: “Se tua mão ou teu pé te leva à queda, corta e joga fora. É melhor entrares na vida tendo só uma das mãos ou dos pés do que, com duas mãos ou dois pés, seres lançado ao fogo eterno. Se teu olho te leva à queda, arranca-o e joga fora. É melhor entrares na vida tendo um olho só do que, com os dois, seres lançado ao fogo do inferno”. (cf. Mt 18,8-9). Mas nós, tendo perdido de vista a eternidade, achamos já excessivo que se nos peça fechar os olhos a um espetáculo imoral.
São Paulo se atreve a escrever: “Com efeito, a insignificância de uma tribulação momentânea acarreta para nós um volume incomensurável e eterno de glória. Isto acontece porque miramos às coisas invisíveis e não às visíveis. Pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno” (2 Cor 4,17-18). O peso da tribulação é “leve, porque provisório, o da glória é enorme exatamente por ser eterno”. Por esta razão, o mesmo Apóstolo pode dizer: “Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós.” (Rm 8:18).
O cardeal Newman, que foi escolhido como mestre especial neste Advento, obriga-nos a adicionar uma verdade que falta na reflexão realizada até agora sobre a eternidade. Ele faz isso com o poema "O Sonho de Gerôncio", com música do grande compositor inglês Edgar Elgar. Uma verdadeira obra-prima pela profundidade de pensamento, pela inspiração e dramaticidade lírica.
Descreve o sonho de um ancião (o que significa o nome Gerontius-Gerôncio) que se sente perto do fim. A seus pensamentos sobre o sentido da vida, a morte, o abismo do nada no qual se precipita, se sobrepõem os comentários dos espectadores, a voz orante da Igreja: "Parte desse mundo, alma cristã” (proficiscere, alma christiana ), as vozes de contestação de anjos e demônios que pesam sua vida e reclamam sua alma. É particularmente bela e profunda a descrição do momento da morte e do despertar no outro mundo:
“Fui dormir, e agora estou renovado.
Um refresco estranho: por que eu sinto em mim
Uma leveza indescritível, e um sentido
De liberdade, como se eu finalmente fosse
E nunca tinha sido antes. Que paz!
Já não ouço mais que a incessante batida do tempo,
Não, nem me falta a minha respiração, ou o pulso;
Não é um momento diferente do outro” [12].
As últimas palavras que a alma pronuncia no poema são aquelas com as quais chega serena e até ansiosa ao Purgatório:
Lá cantarei o meu Senhor e amor ausente:
Leve-me embora,
Que, mais cedo eu possa subir, e ir acima,
E vê-Lo na verdade do dia eterno.” [13].
Para o imperador Adriano, a morte era a passagem da realidade às sombras, para o cristão John Newman ela é a passagem das sombras à realidade ex umbris et imaginibusin veritatem como quis que fosse escrito sobre seu túmulo.
Qual é, então, a verdade que Newman nos obriga a não manter em silêncio? Que a passagem do tempo à eternidade não é retilínea e igual para todos. Há um juízo para enfrentar, um juízo que pode ter dois resultados muito diferentes, o inferno ou o paraíso. A espiritualidade de Newman é austera, inclusive rigorosa, como a do Dies irae, mas que salutar nessa época inclinada a tomar tudo como brincadeira, como dizia Kierkegaard, com o pensamento da eternidade!
Elevemos o nosso pensamento à eternidade com renovado ímpeto. Repitamos a nós mesmos as palavras do poeta: “Tudo, exceto o eterno, o mundo é em vão.” No saltério hebraico há um grupo de salmos, chamados de “salmos de ascensão” ou “cânticos de Sião”. Eram os salmos que os peregrinos israelitas cantavam quando saíam em peregrinação à cidade santa, Jerusalém. Um deles começa assim: “Fiquei alegre, quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!”. Estes salmos de ascensão tornaram-se os salmos de quem, na Igreja, segue a caminho da Jerusalém celeste; são os nossos salmos. Comentando sobre as palavras iniciais do salmo, Santo Agostinho dizia a seus seguidores:
“Corremos porque vamos para a casa do Senhor, corremos porque uma corrida como essa não cansa; porque chegaremos a uma meta onde não existe cansaço. Corramos à casa do Senhor e nossa alma se alegra por aqueles que repetem essas palavras. Estes viram primeiro que nós a pátria, os apóstolos a viram e nos disseram: “Corram, apressem-se, venham atrás! Vamos para a casa do Senhor!” [14].
Temos diante de nós, nesta capela, uma esplêndida representação em mosaico da Jerusalém celeste, com Maria, os apóstolos e uma longa procissão de santos orientais e ocidentais. Eles repetem silenciosamente este convite. Aceitemo-lo e levemo-lo conosco nesta jornada e ao longo da vida.
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Notas
[1] Cf. M. Pohlenz, L’uomo greco, Florença 1967, p. 173ss.
[2] Animula vagula, blandula, In ‘Memórias de Adriano’, p. 251, Editora Circulo do Livro, 1974
[3] S. Kierkegaard, Postilla conclusiva, 4, in Opere, a cura di C. Fabro, Firenze 1972, p. 458.
[4] Miguel de Unamuno, “Cartas inéditas de Miguel de Unamuno e Pedro Jiménez Ilundain,” ed. Hernán Benítez, Revista de la Universidad de Buenos Aires, vol. 3, no. 9 (Gennaio-Marzo 1949), pp. 135. 150.
[5] S. Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de João, 45, 2 (PL, 35, 1720).
[6] Antonio Fogazzaro, “A Sera,” in Le poesie, Milano, Mondadori, 1935, pp. 194–197.
[7] G.E. Lessing, Über den Beweis des Geistes und der Kraft, ed. Lachmann, X, p.36.
[8] S. Tomás deAquino, Somma teologica, II-IIae, q. 24, art.3, ad 2.
[9] S. Agostinho, Sermo 378,1 (PL, 39, 1673).
[10] N. Cabasilas, Vida em Cristo, I,1-2, UTET, 1971, pp.65-67.,
[11] Beda, o Venerável, Historia ecclesiastica Anglorum, II, 13.
[12] O sonho de Gerôncio, in Newman Poeta, a cura di L. Obertello, Jaka Book, Milano 2010, p.124
[13] O sonho de Gerôncio, in Newman Poeta, a cura di L. Obertello, Jaka Book, Milano 2010, p.124
[14] S. Agostino, Enarrationes in Psalmos 121,2 (CCL, 40, p. 1802).
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[Traduzido do original italiano por Márcia Ameriot]
* * *
P. Raniero Cantalamessa, ofmcap.
Segunda Pregação de Advento
“A VIDA ETERNA QUE A VÓS ANUNCIAMOS” (1 Jo 1,2)
A resposta cristã ao secularismo
1. Secularização e secularismo
Nesta meditação, veremos o segundo obstáculo que a evangelização no mundo ocidental moderno encontra: a secularização. No Motu Proprio com o qual o Papa criou o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, é dito que este “está a serviço das Igrejas particulares, especialmente naqueles territórios de antiga tradição cristã onde se manifesta mais claramente o fenômeno da secularização”.
A secularização é um fenômeno complexo e ambivalente. Pode significar a autonomia das realidades terrenas e a separação entre o reino de Deus e o reino de César e, neste sentido, não só não é contra o Evangelho, mas encontra nele uma de suas raízes profundas. Pode, no entanto, indicar também todo um conjunto de atitudes contrárias à religião e à fé, pelo qual é preferível usar o termo secularismo. O secularismo está para secularização assim como o cientificismo para a ciência e o racionalismo à racionalidade.
Cuidando dos obstáculos ou desafios que a fé encontra no mundo moderno, referimo-nos exclusivamente a este sentido negativo da secularização. Mesmo assim delimitada, no entanto, a secularização tem muitas faces, dependendo dos campos em que se manifesta: a teologia, ciência, ética, a hermenêutica bíblica, a cultura em geral, a vida cotidiana. Nesta meditação, tomo o termo em seu primordial. A secularização, como o secularismo, na verdade, derivam da palavra saeculum, que no uso comum termina por indicar o tempo presente (aeon atual, segundo a Bíblia), por oposição à eternidade (aeon futuro, “séculos dos séculos”, da Bíblia. NT: um período de tempo extremamente longo e indefinido). Nesse sentido, o secularismo é sinônimo de temporalidade, de redução do real somente à dimensão terrena.
A queda do horizonte da eternidade ou da vida eterna tem, sobre a fé cristã, o mesmo efeito que a areia jogada sobre uma chama: a sufoca, a apaga. A crença na vida eterna é uma das condições de possibilidade da evangelização. “Se é só para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, somos, dentre todos os homens, os mais dignos de compaixão”. (1 Coríntios 15,19).
2. A ascensão e a queda da idéia de eternidade
Recordemos brevemente a história da crença na vida após a morte, vai nos ajudar a medir a novidade trazida pelo Evangelho neste campo. Na religião hebraica do Antigo Testamento, essa crença se afirma tardiamente. Somente depois do exílio, diante do fracasso das expectativas temporais, nasce a ideia da ressurreição da carne e de uma recompensa após a morte para os justos, e ainda assim não todos a adotam (os saduceus, como sabemos, não partilham tal crença).
Isso desmente clamorosamente a tese daqueles (Feuerbach, Marx, Freud) que explicam a crença em Deus com o desejo de uma recompensa eterna, como projeção no além de expectativas temporais frustradas. Israel acreditou em Deus, muitos séculos antes do que em uma recompensa eterna no além! Não é, portanto, o desejo de uma recompensa eterna que produziu a fé em Deus, mas é a fé que produziu a crença em uma recompensa pós morte.
No mundo bíblico, temos a plena revelação da vida eterna com a vinda de Cristo. Jesus não estabelece a certeza da vida eterna sobre a natureza do homem, a imortalidade da alma, mas sobre “o poder de Deus”, que é um "Deus não de mortos, mas de vivos" (Lc 20, 38). Depois da Páscoa, a este fundamento teológico, os apóstolos acrescentarão o cristológico: a ressurreição de Cristo dentre os mortos. Nela, o Apóstolo fundou a fé na ressurreição da carne e na vida eterna: “Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1 Cor 15, 12.20).
Também no mundo greco-romano assiste-se a uma evolução na concepção de vida após a morte. A mais antiga ideia é a de que a verdadeira vida termina com a morte; depois dessa existe somente um simulacro de vida, num mundo de sombras. Uma novidade se registra com o aparecimento religião órfico-pitagórica. De acordo com ela, o verdadeiro eu do homem é a alma, que, libertada da prisão (sema) do corpo (soma), pode finalmente viver sua verdadeira vida. Platão dará uma dignidade filosófica a esta descoberta, baseando-a na natureza espiritual e, portanto, imortal, da alma [1].
Essa crença permanecerá, no entanto, sendo minoritária, reservada aos iniciados nos mistérios e aos seguidores de escolas filosóficas especiais. Para a massa, persistirá a antiga crença de que a vida real termina com a morte. São conhecidas as palavras que o imperador Adriano dirigi a si próprio próximo de morrer:
“Pequena alma, alma terna e inconstante,
companheira do meu corpo, de que foste hóspede,
vais descer àqueles lugares pálidos,
duros e nus, onde deverás renunciar aos jogos de outrora.
Por um momento, contemplemos juntos ainda os lugares familiares,
os objetos que certamente nunca mais veremos...” [2].
Entende-se neste contexto o impacto que devia ter a mensagem cristã de vida após a morte infinitamente mais plena e mais alegre do que a da terra; também podemos entender por que a ideia e os símbolos da vida eterna são tão comuns nas sepultura cristãs das catacumbas romanas.
Mas o que aconteceu à ideia cristã de uma vida eterna para a alma e para o corpo depois de ter triunfado sobre a ideia pagã de “escuridão além da morte”? Ao contrário do momento atual, no qual o ateísmo é primariamente expresso na negação da existência de um Criador, no século XIX, ele se expressava na negação da vida após a morte. Acolhendo a afirmação de Hegel, segundo a qual “os cristãos desperdiçam no céu a energia destinada à terra”, Feuerbach e principalmente Marx combateram a crença na vida após a morte, sob o pretexto de que aliena o compromisso terreno. À ideia de uma sobrevivência pessoal em Deus, se substitui uma ideia de sobrevivência na espécie e na sociedade do futuro.
Pouco a pouco, recaiu sobre a palavra eternidade a suspeita e o silêncio. O materialismo e o consumismo completaram a obra nas sociedades opulentas, fazendo parecer inconveniente que se fale ainda de eternidade entre pessoas cultas e em sintonia com os tempos. Tudo isso provocou claramente um retrocesso na fé dos crentes que, com o tempo, fez-se tímida e reticente sobre este ponto. Quando ouvimos o último sermão sobre a vida eterna? Continuamos a rezar o Credo: “Et expecto resurrectionem mortuorum et vitam venturi saeculi” (“E Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”), mas sem dar muito peso a estas palavras. Kierkegaard tinha razão quando escreveu: "A vida após a morte tornou-se uma piada, uma necessidade tão incerta que não só ninguém respeita, mas nem mesmo se cogita que exista, ao ponto que se divertem com o pensamento de que houve um tempo em que esta ideia transformava a toda a existência” [3].
Qual é o efeito prático desse eclipse da ideia de eternidade? São Paulo refere-se à intenção daqueles que não acreditam na ressurreição dos mortos: “Comamos e bebamos, pois amanhã morreremos” (1 Cor. 15,32). O desejo natural de viver sempre, distorcido, torna-se um desejo ou frenesi de viver bem, ou seja, agradavelmente, mesmo que às custas dos outros, se necessário. Toda a terra se torna o que Dante disse da Itália da sua época: "o canteiro que tão nos faz ferozes". Perdido o horizonte da eternidade, o sofrimento humano parece dupla e irremediavelmente absurdo.
3. A eternidade: uma esperança e uma presença
Ainda a propósito do secularismo, como para o cientificismo, a resposta mais eficaz não é combater o erro contrário, mas fazer brilhar novamente diante dos homens a certeza da vida eterna, confiando na força intrínseca que possui a verdade quando é acompanhada pelo testemunho de vida. "Sempre se poderá negar uma ideia com outra – escreve um antigo Padre – e uma opinião pode ser oposta à outra; mas o que poderá se opor a uma vida?”
Devemos também aproveitar a correspondência de tal verdade ao desejo mais profundo, ainda que reprimido, do coração humano. A um amigo que o repreendeu, quase como se seu desejo de eternidade fosse uma forma de orgulho e arrogância, Miguel de Unamuno, que não era um apologista da fé, disse em uma carta:
“Eu não estou dizendo que merecemos uma vida depois da morte, nem que a lógica nos mostre isso; estou dizendo que a necessito, mereça ou não, e nada mais. Estou dizendo que o que é passageiro não me satisfaz, que tenho sede de eternidade, e que, sem ela, tudo dá no mesmo para mim. Eu necessito disso, necessito! E, sem isso, nem a alegria de viver quer dizer coisa alguma. É muito cômodo dizer ‘temos de viver, temos de estar contentes com a vida!’ E os que não nos contentamos com ela?” [4].
Não é que desejasse a eternidade - acrescentava na mesma ocasião - desprezando o mundo e a vida aqui embaixo: “Eu amo tanto a vida que, perdê-la, parece-me o pior dos males. Não amam realmente a vida aqueles que vivem o dia a dia, sem preocupar-se por saber se vão perdê-la totalmente ou não”. Santo Agostinho dizia a mesma coisa: Cui non datur semper vivere, quid prodest bene vivere?, “De que serve viver bem, se não nos é dado viver para sempre?” [5]. “Tudo, exceto o eterno, é vão ao mundo”, cantou um dos nossos poetas [6].
Aos homens do nosso tempo, que cultivam no fundo do coração esta necessidade de eternidade, sem talvez ter a coragem de confessar a outros e nem para si mesmo, podemos repetir o que Paulo disse aos atenienses: “Pois bem, aquilo que adorais sem conhecer, eu vos anuncio” (cf. At 17,23).
A resposta cristã ao secularismo, no sentido que entendemos aqui, não se baseia, como para Platão, em uma ideia filosófica - imortalidade da alma - mas em um evento. O Iluminismo tinha colocado a famosa pergunta de como é possível atingir a eternidade, enquanto você estiver no tempo, e como dar um ponto de partida histórico para uma consciência eterna [7]. Em outras palavras: como se pode justificar a alegação da fé cristã de prometer uma vida eterna e de ameaçar com uma pena igualmente eterna por atos realizados no tempo.
A única resposta válida para este problema é aquela baseada na fé na encarnação de Deus. Em Cristo, o eterno entrou no tempo, manifestado na carne; diante dele é possível tomar uma decisão para a eternidade. É assim que o evangelista João fala da vida eterna: “Vida eterna que a vós anunciamos, que estava junto do Pai e que se tornou visível para nós” (1 Jo 1, 2).
Para o crente, a eternidade não é, como se vê, somente uma esperança, é também uma presença. Realizamos a experiência cada vez que fazemos um verdadeiro ato de fé em Cristo, porque todo aquele que nele crê “já possui a vida eterna” (cf. 1 Jo 5,13), e toda vez que recebemos a comunhão, onde nos é dado “o penhor da glória futura” (futurae gloriae nobis pignus datur); toda vez que escutamos as palavras do Evangelho são “palavras de vida eterna "(Jo 6,68). São Tomás de Aquino também afirma que “a graça é o início da glória” [8].
Esta presença da eternidade no tempo é chamada Espírito Santo. Ele é descrito como “garantia da nossa herança” (Ef 1,14; 2 Coríntios 5,5), e foi dada a nós porque, tendo recebido as primícias, nós ansiamos pela plenitude. “Cristo - escreve Santo Agostinho - nos deu o penhor do Espírito Santo com o qual ele, que não poderia enganar-nos, quis ter certeza do cumprimento de sua promessa. O que ele prometeu? Ele prometeu a vida eterna, cuja garantia é o Espírito Santo que nos foi dado ” [9].
4. Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos?
Entre a vida de fé no tempo e a vida eterna no tempo há uma relação semelhante à que existe entre a vida do embrião no seio materno e a do bebê, uma vez nascido. Cabasilas escreve:
“Este mundo traz, em gestação, o homem interior, novo, criado segundo Deus, para que ele, formado, moldado e tornado perfeito, não seja gerado àquele mundo perfeito que não envelhece. Como o embrião que, enquanto está na existência escura e líquida, a natureza prepara à vida na luz, é assim com os santos [...]. Para o embrião, no entanto, a vida futura é absolutamente futura: não chega a ele nenhum raio de luz, nada do que é desta vida. Não é assim para nós, do momento que o século futuro foi como derramado e misturado ao presente [...] Então, agora já é concedido aos santos não só dispor-se e preparar-se à vida, mas viver e atuar” [10].
Há uma história que ilustra essa comparação. Havia dois gêmeos, um menino e uma menina, tão inteligentes e precoces que, mesmo no útero materno, já conversavam entre si. A menina perguntava ao irmão: “Pra você, haverá vida após o nascimento?”. Ele respondia: “Não seja ridícula. O que faz você pensar que exista algo fora desse espaço estreito e escuro em que nos encontramos? A menina, criando coragem, insistia: “Talvez haja uma mãe, alguém que nos colocou aqui e que vai cuidar de nós.” Ele disse: “Você vê alguma mãe em algum lugar? O que você vê é tudo que existe”. Ela de novo: “Mas você não sente, às vezes, uma pressão no peito que aumenta dia a dia e nos impele para frente?”. “Pensando bem, ele respondeu, é verdade, sinto isso o tempo todo”. “Veja, concluiu, triunfante, a irmã mais nova, essa dor não pode ser para nada. Eu acho que está nos preparando para algo maior do que este pequeno espaço”.
Podemos usar esta simpática história quando tivermos de anunciar a vida eterna para as pessoas que perderam a fé nela, mas conservaram a nostalgia e talvez esperam que a Igreja, como aquela menina, as ajude a acreditar.
Há perguntas que os homens não deixam de fazer desde que o mundo é mundo e os homens de hoje não são exceção: “Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos”. Na sua “História Eclesiástica do Povo Inglês”, Beda, o Venerável, relata como a fé cristã entrou no norte da Inglaterra. Quando os missionários, vindos de Roma, chegaram a Northumberland, o rei Edwin convocou um conselho de notáveis para decidir se permitiam a eles ou não, pelo menos, divulgar a nova mensagem. Um deles se levantou e disse:
“Suponha, ó rei, esta cena. Você se senta para jantar com seus ministros e líderes: é inverno, o fogo arde no meio e aquece a sala, enquanto lá fora, a tempestade grita e a neve cai. Um passarinho entra pela abertura de uma parede e sai imediatamente do outro lado. Enquanto está dentro, está protegido da tempestade de inverno mas, depois de desfrutar o calor rapidamente, apenas desaparece de vista, perdendo-se no inverno escuro de onde veio. Assim parece ser a vida do homem na terra: ignoramos tudo o que a segue e que a precedeu. Se esta nova doutrina nos traz algo mais seguro sobre isso, acho que deve ser acolhida” [11].
Quem sabe se a fé cristã não pode voltar à Inglaterra e ao continente europeu pela mesma razão pela que fez sua entrada: como a única que tem uma resposta definitiva a dar às grandes interrogações da vida terrena. A melhor oportunidade de transmitir esta mensagem são os funerais. Neles, as pessoas estão menos distraídas que nos outros ritos de passagem (Batismo, Casamento); eles questionam o seu próprio destino. Quando se chora por um ente querido, se chora também por si mesmo.
Certa vez ouvi um interessante programa da BBC inglesa sobre os chamados “funerais seculares”, com a gravação ao vivo de um deles. Em certo momento o mestre de cerimônias dizia aos presentes: “Nós não devemos ficar tristes. Viver uma vida boa, satisfatória, por 70 anos (a idade da falecida), é algo pelo qual se deveria ser grato”. “Grato a quem?, me perguntava. Tais funerais não fazem mais que deixar evidente a derrota total do homem frente à morte.
Os sociólogos e estudiosos da cultura, chamado a explicar o fenômeno dos funerais seculares ou “humanistas”, viam a causa da propagação desta prática em alguns países do norte da Europa no fato de que estes funerais religiosos envolvem os presentes numa fé que não se sentem à vontade para compartilhar. A proposta sugerida era: a Igreja, nos funerais, deveria evitar qualquer menção a Deus, à vida eterna, a Jesus Cristo morto e ressuscitado, e limitar seu papel ao de “organizadora natural e experiente dos ritos de passagem”! Em outras palavras, resignar-se à secularização inclusive da morte!
5. Vamos à casa do Senhor!
Não precisamos de uma fé renovada na eternidade somente para evangelizar, isto é, para o anúncio aos outros, precisamos dela, mesmo antes, para dar um novo impulso à nossa caminhada rumo à santidade. O enfraquecimento da ideia de eternidade atinge também os crentes, diminuindo neles a capacidade de enfrentar com coragem o sofrimento e as provas da vida.
Pensemos em um homem com uma balança na mão: uma daquelas balanças se equilibram com uma mão e tem de um lado um prato onde se colocam as coisas para pesar e do outro uma barra que marca o peso ou a medida. Se cai no chão ou perde a medida, tudo o que e colocado no prato levanta a barra e inclina a balança. Até um punhado de penas.
Assim somos nós quando perdemos o peso, a medida de tudo que é a eternidade: as coisas e os sofrimentos terrenos levam facilmente nossa alma ao chão. Tudo parece muito pesado, excessivo. Jesus dizia: “Se tua mão ou teu pé te leva à queda, corta e joga fora. É melhor entrares na vida tendo só uma das mãos ou dos pés do que, com duas mãos ou dois pés, seres lançado ao fogo eterno. Se teu olho te leva à queda, arranca-o e joga fora. É melhor entrares na vida tendo um olho só do que, com os dois, seres lançado ao fogo do inferno”. (cf. Mt 18,8-9). Mas nós, tendo perdido de vista a eternidade, achamos já excessivo que se nos peça fechar os olhos a um espetáculo imoral.
São Paulo se atreve a escrever: “Com efeito, a insignificância de uma tribulação momentânea acarreta para nós um volume incomensurável e eterno de glória. Isto acontece porque miramos às coisas invisíveis e não às visíveis. Pois o que é visível é passageiro, mas o que é invisível é eterno” (2 Cor 4,17-18). O peso da tribulação é “leve, porque provisório, o da glória é enorme exatamente por ser eterno”. Por esta razão, o mesmo Apóstolo pode dizer: “Eu penso que os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós.” (Rm 8:18).
O cardeal Newman, que foi escolhido como mestre especial neste Advento, obriga-nos a adicionar uma verdade que falta na reflexão realizada até agora sobre a eternidade. Ele faz isso com o poema "O Sonho de Gerôncio", com música do grande compositor inglês Edgar Elgar. Uma verdadeira obra-prima pela profundidade de pensamento, pela inspiração e dramaticidade lírica.
Descreve o sonho de um ancião (o que significa o nome Gerontius-Gerôncio) que se sente perto do fim. A seus pensamentos sobre o sentido da vida, a morte, o abismo do nada no qual se precipita, se sobrepõem os comentários dos espectadores, a voz orante da Igreja: "Parte desse mundo, alma cristã” (proficiscere, alma christiana ), as vozes de contestação de anjos e demônios que pesam sua vida e reclamam sua alma. É particularmente bela e profunda a descrição do momento da morte e do despertar no outro mundo:
“Fui dormir, e agora estou renovado.
Um refresco estranho: por que eu sinto em mim
Uma leveza indescritível, e um sentido
De liberdade, como se eu finalmente fosse
E nunca tinha sido antes. Que paz!
Já não ouço mais que a incessante batida do tempo,
Não, nem me falta a minha respiração, ou o pulso;
Não é um momento diferente do outro” [12].
As últimas palavras que a alma pronuncia no poema são aquelas com as quais chega serena e até ansiosa ao Purgatório:
Lá cantarei o meu Senhor e amor ausente:
Leve-me embora,
Que, mais cedo eu possa subir, e ir acima,
E vê-Lo na verdade do dia eterno.” [13].
Para o imperador Adriano, a morte era a passagem da realidade às sombras, para o cristão John Newman ela é a passagem das sombras à realidade ex umbris et imaginibusin veritatem como quis que fosse escrito sobre seu túmulo.
Qual é, então, a verdade que Newman nos obriga a não manter em silêncio? Que a passagem do tempo à eternidade não é retilínea e igual para todos. Há um juízo para enfrentar, um juízo que pode ter dois resultados muito diferentes, o inferno ou o paraíso. A espiritualidade de Newman é austera, inclusive rigorosa, como a do Dies irae, mas que salutar nessa época inclinada a tomar tudo como brincadeira, como dizia Kierkegaard, com o pensamento da eternidade!
Elevemos o nosso pensamento à eternidade com renovado ímpeto. Repitamos a nós mesmos as palavras do poeta: “Tudo, exceto o eterno, o mundo é em vão.” No saltério hebraico há um grupo de salmos, chamados de “salmos de ascensão” ou “cânticos de Sião”. Eram os salmos que os peregrinos israelitas cantavam quando saíam em peregrinação à cidade santa, Jerusalém. Um deles começa assim: “Fiquei alegre, quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!”. Estes salmos de ascensão tornaram-se os salmos de quem, na Igreja, segue a caminho da Jerusalém celeste; são os nossos salmos. Comentando sobre as palavras iniciais do salmo, Santo Agostinho dizia a seus seguidores:
“Corremos porque vamos para a casa do Senhor, corremos porque uma corrida como essa não cansa; porque chegaremos a uma meta onde não existe cansaço. Corramos à casa do Senhor e nossa alma se alegra por aqueles que repetem essas palavras. Estes viram primeiro que nós a pátria, os apóstolos a viram e nos disseram: “Corram, apressem-se, venham atrás! Vamos para a casa do Senhor!” [14].
Temos diante de nós, nesta capela, uma esplêndida representação em mosaico da Jerusalém celeste, com Maria, os apóstolos e uma longa procissão de santos orientais e ocidentais. Eles repetem silenciosamente este convite. Aceitemo-lo e levemo-lo conosco nesta jornada e ao longo da vida.
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Notas
[1] Cf. M. Pohlenz, L’uomo greco, Florença 1967, p. 173ss.
[2] Animula vagula, blandula, In ‘Memórias de Adriano’, p. 251, Editora Circulo do Livro, 1974
[3] S. Kierkegaard, Postilla conclusiva, 4, in Opere, a cura di C. Fabro, Firenze 1972, p. 458.
[4] Miguel de Unamuno, “Cartas inéditas de Miguel de Unamuno e Pedro Jiménez Ilundain,” ed. Hernán Benítez, Revista de la Universidad de Buenos Aires, vol. 3, no. 9 (Gennaio-Marzo 1949), pp. 135. 150.
[5] S. Agostinho, Tratado sobre o Evangelho de João, 45, 2 (PL, 35, 1720).
[6] Antonio Fogazzaro, “A Sera,” in Le poesie, Milano, Mondadori, 1935, pp. 194–197.
[7] G.E. Lessing, Über den Beweis des Geistes und der Kraft, ed. Lachmann, X, p.36.
[8] S. Tomás deAquino, Somma teologica, II-IIae, q. 24, art.3, ad 2.
[9] S. Agostinho, Sermo 378,1 (PL, 39, 1673).
[10] N. Cabasilas, Vida em Cristo, I,1-2, UTET, 1971, pp.65-67.,
[11] Beda, o Venerável, Historia ecclesiastica Anglorum, II, 13.
[12] O sonho de Gerôncio, in Newman Poeta, a cura di L. Obertello, Jaka Book, Milano 2010, p.124
[13] O sonho de Gerôncio, in Newman Poeta, a cura di L. Obertello, Jaka Book, Milano 2010, p.124
[14] S. Agostino, Enarrationes in Psalmos 121,2 (CCL, 40, p. 1802).
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[Traduzido do original italiano por Márcia Ameriot]
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Laicidade e Laicismo
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