Caroline Glick
| 17 Janeiro 2011
Internacional -
Oriente Médio
A Europa está reconhecendo, mesmo que
tardiamente, esses comissários politicamente corretos devem ser
colocados de lado se o mundo livre quiser se opor à crescente ameaça
dessa jihad criada em casa.
Há algum tempo ficamos sabendo que Nazaré é um centro da al-Qaida. O
sheik Nazem Abu Salim Sahfe, que é o imã árabe-israelense da mesquita
Shihab al-Din na cidade, foi acusado de promover e recrutar pessoas para
a
jihad (guerra santa) global e de convocar seus seguidores a causarem danos aos não-muçulmanos.
Dentre outras tramas originadas nos sermões de Sahfe, estava o
assassinato do motorista de táxi Yefim Weinstein em novembro de 2009. Os
seguidores de Sahfe também tramaram assassinar o papa Bento XVI durante
sua viagem a Israel em 2009. Eles incendiaram vários ônibus com
turistas cristãos. Raptaram e esfaquearam um entregador de pizza. Dois
de seus discípulos foram presos no Quênia em viagem para se juntarem às
forças da al-Qaida na Somália.
Com seu indiciamento, Sahfe se junta a uma lista crescente de
jihadistas nascidos e criados em Israel e em sociedades livres em todo o
mundo, que rejeitaram suas sociedades e abraçaram a causa da dominação
global islâmica. Atualmente, o membro mais proeminente desse grupo é
Anwar al-Awlaki, líder da al-Qaida nascido nos Estados Unidos.
Autoridades americanas descrevem Awlaki como o homem mais perigoso do
mundo. O registro de sua trilha jihadista é estarrecedor. Parece que
não houve nenhum ataque grave nos EUA ou na Grã-Bretanha dos quais
Awlaki não tivesse participado -- inclusive os ataques de 11 de setembro
em Nova Iorque e os ataques de 7 de julho em Londres.
Sahfe e Awlaki, como quase todos os jihadistas proeminentes do
Ocidente, são homens privilegiados. Suas histórias pessoais são uma
refutação ao popular mito ocidental de que um jihadista nasce da
frustração, da pobreza e da ignorância. Esses dois homens, como quase
todos os jihadistas ocidentais proeminentes, têm formação universitária.
Portanto, as histórias deles também desmentem a fantasia ocidental de que a aderência à causa da
jihad
é gerada pela pobreza. Esses homens e seus colegas são filhos de
famílias ricas ou de confortáveis famílias de classe média. Eles jamais
conheceram a privação.
Armados com seus confortos materiais, seus graus universitários, e
seu conhecimento nativo dos caminhos da democracia e dos hábitos da
liberdade, esses homens escolheram tornar-se jihadistas. Eles escolhem a
submissão ao islã, em vez dos direitos democráticos, porque é o que
preferem. São idealistas.
Isso significa que todas as considerações ocidentais padronizadas
sobre a necessidade de expandir os benefícios para o bem-estar dos
muçulmanos, ou a abstenção de reforçar as leis contra as comunidades
deles, ou, ainda, de dar às mesquitas imunidade contra vigilância e
fechamento, ou buscar cooptar líderes jihadistas, tratando-os como vozes
muçulmanas com credibilidade, são atitudes erradas e contraproducentes.
Esses programas não neutralizam as intenções ou ações de supremacia
deles. Eles incentivam os supremacistas islâmicos ocidentais,
sinalizando-lhes que estão vencendo a batalha. Suas sociedades
ocidentais não são páreo para eles.
Temos visto uma série de declarações de líderes políticos da Europa,
indicando que estão dispostos a considerar o abandono desses clichês
politicamente corretos. Por exemplo, a afirmação da chanceler alemã
Angela Merkel, de que "definitivamente, o multiculturalismo não deu
certo", é amplamente entendida como um evento divisor de águas.
Em uma coluna do
Wall Street Journal, o ex-primeiro ministro
britânico Tony Blair reconheceu que existe um problema com muçulmanos
que não se assimilaram na Grã-Bretanha. Como ele mesmo colocou, o
sentimento de anti-imigração não é geral, mas particular. Ele se
relaciona, admite Blair, ao "fracasso de uma parte da comunidade
muçulmana em resolver e criar uma identidade que seja tanto britânica
quanto muçulmana".
Blair admitiu que, devido à recusa do
establishment* europeu
em reconhecer o problema do crescimento do "supremacismo" islâmico na
Europa, milhões de europeus estão, atualmente, rejeitando o
establishment
com suas ortodoxias politicamente corretas e votando em favor de
políticos anti-sistema, que estejam dispostos a tratar do problema. Ele
pediu uma abordagem continental à imigração, cujo objetivo seria impedir
jihadistas de explorarem o sistema para destruí-lo.
Declarações como as de Merkel e de Blair são insuficientes. Mas o
simples fato de que um número expressivo de europeus está disposto a
quebrar a barreira politicamente correta para forçar esses líderes a
admitirem e talvez a tratarem dos desafios das minorias muçulmanas
supremacistas não-assimiladas significa que a Europa está dando os
primeiros passos em direção ao tratamento de desafios que o islã
jihadista impõe à segurança, cultura e civilização daquele continente.
Talvez o mais emblemático dessa mudança tenha sido o recente
movimento do governo de Merkel para finalmente fechar a mesquita em
Hamburgo, onde os conspiradores do 11 de setembro se encontravam e
planejaram seus atos de guerra contra os EUA.
É preocupante, mas os sistemas dos dois países que mais foram alvejados pela
jihad
global, os EUA e Israel -- permanecem em profunda contradição a
respeito dos desafios de jihadistas criados dentro de casa, embora a
maioria dos recentes ataques e tentativas de ataques jihadistas contra
os EUA tenha sido realizada por cidadãos americanos.
A contradição dos EUA com respeito à natureza da ameaça jihadista foi
demonstrada em toda sua glória politicamente correta no discurso do
presidente Barack Obama a estudantes indianos na Universidade St. Xavier
em Mumbai. Em resposta ao questionamento de um dos alunos sobre a
maneira que o presidente via a
jihad e os jihadistas, Obama
elogiou o islamismo como "uma das grandes religiões do mundo". Ele
prosseguiu, afirmando que a maioria avassaladora dos muçulmanos vê o
islamismo como uma religião de "paz, justiça, imparcialidade e
tolerância".
A mensagem de Obama não foi apenas enganosa e inadequada, mas foi
também profundamente ofensiva aos que o ouviam. Há dois anos, naquele
mesmo mês, Mumbai tinha sido o local de um ataque maciço de um comando
jihadista contra alvos em toda a cidade, e os residentes de Mumbai ainda
estão tratando das feridas daquele ataque.
A declaração de Obama também ignorou a contribuição dos EUA àquele
ataque. O suspeito de planejar os massacres em Mumbai foi um cidadão
americano chamado David Coleman Headley, de Chicago, a cidade natal de
Obama. Além disso, Headley (ex-Daud Sayed Gilani) serviu durante muitos
anos como agente duplo. Um traficante de drogas condenado, ele foi
enviado ao Paquistão como agente da Drug Enforcement Agency (DEA).
Enquanto estava lá, treinou em campos de formação de jihadistas do grupo
Lashkar-e-Taibe.
Obama deixou de observar que talvez, devido ao trabalho de Headley na
DEA, os agentes americanos ignoraram os testemunhos de duas das
ex-esposas dele em 2005 e 2007, de que ele era membro do
Lashkar-e-Taibe, afiliado à al-Qaida paquistanesa com enfoque na Índia,
dirigido pela Agência de Inteligência Inter-Serviços do Paquistão.
Em vez de tratar dessas questões, ou do fato de que os EUA recusaram
pedidos de extradição de Headley para a Índia, Obama falou vagamente aos
alunos que é função de gente jovem de todas as religiões rejeitar os
extremistas e a violência.
Headley, logicamente, é apenas um dentre os muitos americanos
jihadistas que têm imposto os frutos da contradição politicamente
correta da América a respeito da ameaça islâmica criada dentro de casa.
Nos meses que seguiram os ataques de 11 de setembro, o Departamento do
Exército dos EUA cortejou ativamente Awlaki como parte de seu programa
de alcançar os muçulmanos. Awlaki, naquela época capelão muçulmano da
Universidade George Washington, foi cortejado a despeito de suas
ligações documentadas com três dos seqüestradores de 11 de setembro.
À medida que os israelenses acordarem para a realidade da al-Qaida em Nazaré, nosso
establishment
esquerdista permanece em contradição sobre seu papel em permitir essa
realidade. Shihab AL-Din, a mesquita de Sahfe, foi estabelecida como uma
mesquita triunfante adjacente à Igreja da Anunciação nos momentos que
antecederam a mudança do milênio. Naquela época, o Vaticano lançou um
protesto sem papas na língua contra sua construção.
Na esperança de triunfar sobre Sahfe e seus semelhantes, o então
primeiro-ministro Ehud Barak, e o então ministro das Relações Exteriores
e da Segurança Pública, Shlomo Ben-Ami, rejeitaram as objeções do
Vaticano. Eles até mesmo doaram o terreno para a mesquita através do
Departamento de Terras de Israel.
Sahfe retornou o favor, interrompendo a homília do papa João Paulo II
na Igreja da Anunciação durante sua visita em março de 2000, com um
chamado à oração na mesquita. Meses mais tarde, a mesquita Shihab AL-Din
era um dos pontos principais para a incitação de tumultos anti-judaicos
no setor árabe, já em outubro de 2000.
Hoje, juízes esquerdistas juntamente com políticos esquerdistas e
formadores de opinião impedem todos os esforços feitos por políticos e
pelo público para admitir e tratar da crescente falta de cumprimento das
leis e das tendências jihadistas da minoria muçulmana de Israel. Medo
da Suprema Corte politicamente correta tem intimidado as autoridades,
impedindo-as de decretar a ilegalidade do Movimento Islâmico. Esforços
para combater a tomada ilegal de terras e construções têm sido impedidos
pela mídia esquerdista, grupos de pressão patrocinados principalmente
pelo New Israel Fund [Fundo do Novo Israel] e pelos tribunais. Até mesmo
medidas simbólicas, como a recente decisão do governo para se requerer
dos imigrantes não-judeus que jurem lealdade ao Estado têm sido
perversamente atacadas pelo
establishment esquerdista de Israel como sendo fascista e racista.
Mas, como a Europa está reconhecendo, mesmo que tardiamente, esses
comissários politicamente corretos devem ser colocados de lado se o
mundo livre quiser se opor à crescente ameaça dessa
jihad criada em casa.
O que isso significa para Israel é que tem que ser encontrado o
espaço político e legal para rapidamente dar início à aplicação da lei,
equivalente a uma operação de contrainsurgência. Israel deve fazer
cumprir suas leis com tanto zelo e dedicação no setor muçulmano quanto o
faz no setor judeu. Isso quer dizer que a Shihab al-Din e outras
mesquitas jihadistas devem ser fechadas.
Isso quer dizer que os grupos jihadistas como o Movimento Islâmico
devem ser decretados ilegais e seus líderes têm que ser processados por
traição e por outros crimes relevantes. O mesmo é verdade para todos os
líderes árabes, agrupamentos políticos e organizações sociais que
promovem a destruição de Israel.
Leis sobre edificações e de zoneamento devem ser cumpridas. Terras do
Estado que foram tomadas devem ser devolvidas, se necessário à força,
inclusive com o envolvimento das Forças de Defesa de Israel.
Portanto, também os direitos judeus devem ser protegidos. Como os
muçulmanos, os judeus têm o direito de comprar terras e casas em todo o
país. Os judeus que quiserem viver em comunidades islâmicas majoritárias
devem ter a proteção da lei, assim como os muçulmanos que moram em Tel
Aviv e no Alto Nazaré a têm.
Justamente por isso, o governo deve iniciar uma campanha para ganhar
de volta a lealdade de seus cidadãos muçulmanos. Ele deve colocar no
poder líderes que abracem sua identidade como israelenses e que busquem a
integração de muçulmanos israelenses em uma sociedade mais ampla. As
autoridades devem se certificar de que os muçulmanos israelenses que
queiram se integrar não sejam discriminados pelos judeus nem intimidados
por outros muçulmanos.
Os comandantes das IDF têm falado longamente sobre a natureza da
guerra que está por vir. As observações deles se concentraram naquilo
que já é amplamente admitido -- que a população civil de Israel será
alvejada por mísseis de longo alcance.
É desapontador, mas eles ignoraram a nova ameaça mais significativa
que o front interno está enfrentando atualmente: a probabilidade de que
os inimigos externos de Israel recebam assistência efetiva de seus
cidadãos muçulmanos.
Quase uma década depois dos ataques de 11 de setembro, a
jihad
global permanece a ameaça central para o Ocidente, e não é por causa de
sua popularidade no Paquistão ocidental. Ela permanece a ameaça central
para o mundo livre por causa de sua popularidade entre os muçulmanos do
mundo livre.
Para permanecerem livres, as sociedades livres devem abandonar nossos
impedimentos politicamente corretos e tratar dessa ameaça crescente a
tudo que valorizamos.
* Grupo dominante ou elite.
Caroline Glick nasceu nos EUA e
emigrou para Israel em 1992. Como capitã do exército israelense, ela fez
parte da equipe de negociações com os palestinos de 1994 a 1996. Mais
tarde, serviu como conselheira-assistente de política externa do
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (durante seu primeiro mandato, de
1997 a 1998). A seguir, fez mestrado na Universidade Harvard. Após
retornar a Israel, foi comentarista diplomática e editora de suplementos
sobre questões estratégicas no jornal
Makor Rishon. Desde 2002, é vice-editora e colunista do jornal
The Jerusalem Post. Seus artigos têm sido reproduzidos em muitas outras publicações e suas opiniões são amplamente respeitadas. Seu site é
www.carolineglick.com
Publicado na revista
Notícias de Israel 2/2011 -
http://www.Beth-Shalom.com.br
http://www.carolineglick.com/e/2010/11/addressing-our-homegrown-enemi.php