Por Antonio Gaspari
ROMA, segunda-feira, 11 de julho de 2011 (ZENIT.org)
– A caridade é a chave de compreensão da doutrina social cristã,
explica Dom Angelo Casile, diretor do Departamento nacional para os
problemas sociais e o trabalho, da Conferência Episcopal Italiana.
Com um novo livro, La Carità al centro, (Tau editorial), Dom
Casile ilustra as relações entre a prática da caridade e a doutrina
social da Igreja. Ele concedeu esta entrevista a ZENIT.
- Por que um livro sobre a Doutrina Social da Igreja?
- Dom Casile: O sentido deste livro sobre a Doutrina Social da Igreja
está num pensamento de Santo Agostinho. Alguns cristãos se lamentavam
do momento histórico difícil que eles viviam, e Agostinho respondeu:
“Vocês dizem: os tempos são maus; os tempos são pesados; os tempos são
difíceis. Vivam bem e vocês mudarão os tempos” (Discurso 311, 8). Nós
perguntamos: os tempos são maus ou os homens não estão à altura dos
tempos? Eu tenho certeza de que se cada um de nós vivesse com a
fidelidade e a valentia que nascem do Evangelho, o próprio testemunho de
fé seria uma contribuição essencial para a mudança desse tempo difícil,
cheio de cenários pouco confiáveis. Agora, a Doutrina Social da Igreja,
que é simplesmente o Evangelho se encarnando na história de cada dia,
conhecida, aprofundada e vivida, nos faz viver a bondade e a beleza da
nossa fé todos os dias, e, assim, os tempos serão melhores. O texto, na
primeira parte, tenta apresentar o caminho histórico da DSC, a partir da
experiência viva de Jesus e da Igreja; na segunda parte, aprofunda
alguns temas relevantes do anúncio cristão e da Doutrina Social da
Igreja (pessoa, família, sociedade, trabalho); e na terceira parte, os
percursos que combinam o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja na
sociedade.
- Conforme o seu livro, a história da caridade é a mesma da Doutrina Social da Igreja. O que isso quer dizer?
- Dom Casile: A caridade é o coração da fé cristã. Jesus, no fundo,
recapitulou e cumpriu a Lei no mandamento do amor. Ele revelou, através
do dom perfeito da sua própria vida, que salvar a vida é possível só
quando nós a oferecemos, e que a verdadeira alegria está no dar-se. A
caridade, então, não é uma simples ética do ser cristão, mas o único
modo de concretizar na história e na sociedade essa fé que nós
professamos. Este livro pretende, por isso, nos resumir a “história da
caridade”, quer dizer, da Doutrina Social da Igreja, desde as suas
raízes até os nossos dias. A encíclica Caritas in veritate, do papa Bento XVI, contém também afirmações precisas sobre a natureza da Doutrina Social da Igreja, definida como “'caritas in veritate in re sociali',
anúncio da verdade do amor de Cristo na sociedade. Essa doutrina é
serviço da caridade, mas na verdade” (nº5). Significa que a Doutrina
Social da Igreja é, antes de tudo, um “elemento essencial de
evangelização [...] É instrumento e fonte imprescindível para educar-se
nela” (nº15), “está a serviço da verdade que liberta” para a “vida
concreta sempre nova da sociedade dos homens e dos povos” (nº 9).
- O ponto mais polêmico da pastoral social tem a ver com a
relação entre Doutrina e princípios não negociáveis. De que modo a
defesa da vida, o apoio à família e a liberdade de educação têm a ver
com a Doutrina Social?
- Dom Casile: Eu acho muito apropriadas as palavras de Dom Mariano
Crociata, Secretário Geral da CEI, que escreveu o seguinte na
apresentação da série “Teologia: fé, busca e vida”, da qual o texto faz
parte: “A teologia não é um saber fechado em si mesmo, distante da
história e dos temas concretos da vida, encastelado em fórmulas
adaptadas só aos especialistas do setor. Pelo contrário, ela se
fundamenta no dom da fé e se coloca, no interior da Igreja, a serviço da
Igreja, como reflexão para favorecer o acolhimento na vida dos crentes e
no seu contexto histórico e cultural”.
As palavras e as ações de Jesus, nos Evangelhos, constituem o
paradigma da Doutrina Social da Igreja quando ela fala da sacralidade da
pessoa, da sua natureza sociável e da relação da caridade e da verdade,
da justiça e da paz, do valor e do significado do trabalho, da família e
da vida, da economia e da política, da tutela da criação, do destino
universal dos bens, do primado do reino de Deus a respeito de todas as
realidades terrenas.
Sustentados pela graça do Evangelho e pelas reflexões da DSC,
inclusive neste contexto de crise, não só econômica, nós salvamos o
essencial e decidimos começar de Deus para renovar o homem através de um
processo educativo profundo, que revele o homem para si mesmo. Através
da Doutrina Social da Igreja, num laço fecundo de evangelização e de
educação, a Igreja continua a obra do seu Mestre. Como afirma o cardeal
Angelo Bagnasco, presidente da Conferência Episcopal Italiana, na
Apresentação às Orientações Pastorais: “Anunciar a Cristo, verdadeiro
Deus e verdadeiro homem, significa levar a humanidade à plenitude, e,
portanto, semear cultura e civilização. Não há nada, em nossa ação, que
não tenha um importante valor educativo”.
A Caritas in veritate mostra a profunda unidade entre “a
questão social” e “a questão antropológica”: “A questão social se
tornou, radicalmente, uma questão antropológica” (nº75). A aparente
contraposição entre as duas problemáticas se resolve a partir de outra
questão, a “teológica”, ou seja, a primazia de Deus e do seu lugar no
mundo. É o Evangelho que nos ajuda a encontrar a solução para a questão
social, como já afirmava a Rerum novarum; que permite toda forma de desenvolvimento dos povos, como diz a Populorum Progressio; que garante à Igreja o direito de cidadania na sociedade, como explica a Centesimuns annus;
que ajuda o homem a entender a si mesmo, chamar Deus de Pai e
reconhecer em cada um dos homens o seu irmão, como deseja ardentemente a
Caritas in veritate.
– Original e muito interessante é o capítulo que o senhor
dedica ao trabalho, no qual explica a continuidade entre o trabalho de
Deus e o trabalho do homem. Pode nos explicar este ponto de vista?
- Dom Casile: A Bíblia começa falando de Deus que trabalha e que cria
o homem à sua imagem. Bento XVI nos recorda que: “O verdadeiro e único
Deus é também o Criador. Deus trabalha; continua trabalhando em e sobre a
história dos homens. Em Cristo, Ele entre como Pessoa no trabalho
cansativo da história. ‘Meu Pai trabalha sempre e eu também’. O próprio
Deus é o criador do mundo, e a criação não está ainda terminada”
(Encontro com o mundo da cultura, Paris, 12 de setembro de 2008).
Através do trabalho, o homem realiza-se, já que o trabalho, para ser
plenamente verdade, deve-nos falar mais além do homem e de sua
dignidade, deve-nos falar também de Deus. De Deus que trabalha seis dias
e no sétimo descansa, que celebra e se alegra, considerando bela a obra
de suas mãos (Gn 2, 2); de Deus que se identificou, durante quase
trinta anos de sua vida terrena, com o trabalho de carpinteiro de Nazaré
(Mc 6,3); de Deus que redimiu o trabalho e chamou seus discípulos a
segui-lo enquanto trabalhavam, convidando-os a se converter em
pescadores de homens (Lc 5, 10); de Deus que “trabalhou com mãos
humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade
humana, amou com um coração humano” (Gaudium et spes, 22).
O trabalho é para todo homem uma vocação: a expressão, já usada pelo Papa Paulo VI na Populorum progressio, foi retomada por Bento XVI na forma “Todo trabalhador é um criador” (Caritas in Veritate,
41). É próprio da pessoa, por cujo bem a todo trabalhador é dada a
oportunidade de dar sua própria contribuição, expressar a si mesmo, seu
próprio talento, suas capacidades. É expressão da própria criatividade a
imagem do Criador, de um Deus que “trabalha” na Criação e na Redenção.
- Seu livro conclui com a invocação de “viver a esperança como um dever cotidiano”. Como alimentar a esperança?
- Dom Casile: A escuta do Evangelho e a graça de poder vivê-lo a cada
dia em nossas ocupações cotidianas, também no atual contexto de crise,
faz florescer a esperança em nossos corações e nos permite viver na
confiança em Deus. Jesus, falando dos últimos tempos (poderíamos definir
como a “crise” do final do cosmos), descreve “sinais no sol, na lua e
nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas. apavoradas com o
bramido do mar e das ondas. As pessoas vão desmaiar de medo”. Depois,
dirigindo-se aos discípulos, afirma: “Quando estas coisas começarem a
acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação
está próxima” (Lc 21, 25-28). Só Deus, perante um cenário apocalíptico,
pode nos convidar a estar serenos, a estar confiantes. Seguindo sua
Palavra, compreendemos como o Senhor está sempre conosco, e enquanto por
um lado nos adverte: “separados de mim, nada podem fazer” (Jo 15, 5),
por outro nos anima: “eu estarei sempre com vocês até o fim do mundo”
(Mt 28, 20).
Na noite e na escuridão da atual situação, nosso dever de cristãos
que vivem nas cidades dos homens é anunciar e viver o Evangelho da
esperança e da confiança no Senhor, que não nos abandona nunca. Vivamos
nosso compromisso cotidiano seguindo o estilo de nosso Mestre, que nos
convida a aprender dele, “manso e humilde de coração” (Mt 10, 16). Somos
conscientes de que – segundo as palavras de São João Crisóstomo –
“sendo cordeiros, venceremos e, ainda que estejamos cercados de muitos
lobos, conseguiremos superá-los”. Mas se nos convertermos em lobos,
seremos derrotados, porque estaremos privados da ajuda do pastor. Ele
não apascenta lobos, mas cordeiros. Por isso irá e te deixará sozinho,
porque o impede de manifestar sua potência (homilia sobre o evangelho de
Mateus 33, 1-2).
Que o Senhor Jesus nos ajude a todos, unidos como sua Igreja, a
realizar sua obra: viver bem nossa fé todos os dias, para que os tempos
sejam melhores e demos Deus ao mundo na caridade e na verdade.
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terça-feira, 31 de janeiro de 2012
VISÃO CRISTÃ DA ECONOMIA
Artigo para dia 1º de fevereiro de 2012, quarta-feira:
Dom Fernando Arêas Rifan*
Acabo de participar, de 24 a 28 de janeiro, nos Estados Unidos, de um Congresso para Bispos, com a presença de 2 cardeais e 50 Bispos de 18 nacionalidades, promovido pelo Acton Institute, instituição universitária voltada para estudos de economia e sociologia à luz da Doutrina social da Igreja. O congresso deste ano intitulou-se “Economias e culturas em transição: a resposta da Igreja na era secular”.
Na palestra inicial, o Cardeal George Pell, de Sydney, Austrália, falou sobre o papel do Bispo Católico na Sociedade Secular atual, explanando sobre a tensão básica que existe entre a cosmovisão judaico-cristã e o secularismo, resultando dela uma grande ameaça para a cultura. O hedonismo, as drogas, o jogo e a pornografia geram enormes mercados. Na nova era tecnológica, a elite cultural que lidera o mundo e são formadores de opinião, desestima a religião, considerando-a antiquada. Ele frisou que as palavras secularismo e laicismo acabam sendo eufemismos para significar ateísmo. Mostrando que a Igreja tem uma visão coerente dos problemas sociais, ele insistiu na fidelidade ao Magistério, lembrando que não podemos ser católicos de “buffet”, escolhendo só o que nos agrada da Doutrina católica.
Entre as muitas palestras, ressalto a de Dr. Samuel Gregg, doutor em Filosofia da Universidade de Oxford e autor de vários livros, que versou sobre a crise econômica e cultural da Europa, sugerindo que a Igreja não deve se envolver no diagnóstico das causas nem se ocupar da promoção de soluções econômicas específicas, mas atacar a crise nas áreas da moral e da cultura, recordando às pessoas que vivem na mentira, que isto tem consequências no mundo, inclusive na economia.
Discorrendo sobre os efeitos culturais do capitalismo, o Dr. Michael Matheson Miller, graduado em várias universidades e pesquisador em países da Europa, Ásia e África, falou sobre a retidão da economia de mercado, as críticas aos efeitos negativos do capitalismo, dos quais muitas vezes ele não é a causa, mas a ocasião, dando a fórmula para a crise: a razão reabilitada e purificada pela Fé, o progresso temperado pela Esperança e a liberdade purificada e orientada para o Amor.
O Padre Roberto Sirico, diretor, tratou do tema solidariedade e subsidiariedade, dois conceitos inseparáveis da visão social cristã, sobretudo no trato com a pobreza.
Muito interessante foi a palestra do Sr. Frank Hanna, banqueiro e empresário, falando sobre a sua visão cristã do capital e da empresa. Em sua explanação, ele disse que tem 50 milhões de dólares, perguntando-nos quantos de nós seriam tão ricos como ele. Todos riram. E ele disse que essa nossa admiração era devido ao fato de que se costuma definir riqueza como sinônimo de bens materiais, uma visão de fundo marxista. Discorreu sobre o que é realmente riqueza, falando sobre o pecado contra a esperança, que destrói a riqueza, mesmo material. As virtudes e não os vícios são a maior riqueza que podemos ter.
*Bispo da Administração Apostólica Pessoal
São João Maria Vianney
Marcadores:
D.Fernando Rifan,
Doutrina Social da Igreja,
Economia/Religião
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Empenho social e Doutrina Social
[normal] [medium] [big]
ZP11111201 - 12-11-2011
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Qual é a relação que existe entre a Verdade e a prática da caridade?
de Mons. Giampaolo Crepaldi
ROMA, sábado, 12 de novembro, 2011 (ZENIT.org) - Gostaria de chamar a atenção sobre um aspecto muito importante do conhecimento e da utilização da Doutrina Social da Igreja e sobre o envolvimento social e político dos católicos. Refiro-me à falta de consciência da dimensão social dos princípios da doutrina cristã. Eu acho que muitos católicos seriamente engajados na sua comunidade sejam certamente capazes de dizer por que a Doutrina Social da Igreja considere mais importante a pessoa do funcionário do que o produto do trabalho, mas talvez não sejam tão capazes de dizer por que o dogma da Trindade seja de fundamental importância também para a construção da cidade terrena, bem como da celestial.
O nosso observatório já falou sobre estas questões, que consideramos fundamentais. Por exemplo, no passado nós escrevemos sobre a importância dos documentos da Congregação para a Doutrina da Fé, a fim de um uso correto da Doutrina Social da Igreja. Eu mesmo falei com uma nota publicada seja no nosso site que está no "Boletim da Doutrina Social da Igreja", sobre "A doutrina social da Igreja no contexto da Doutrina Cristã". Dentro dos Relatórios Anuais sobre a Doutrina Social da Igreja no Mundo, publicados pelo nosso Observatório, a análise do Magistério de Bento XVI centra-se sempre sobre estas questões doutrinárias, considerando-as fundamentais para definir corretamente a questão social. Seria uma grave amputação da Doutrina Social da Igreja esquecer esses fundamentos dogmáticos e projetar-se diretamente nas assim chamadas "coisas para fazer". No entanto, talvez, justamente é isso que ocorre, mesmo em escolas e sessões de formação na Doutrina Social da Igreja.
Esta atenção para os aspectos dogmáticos e doutrinários e as suas consequências sociais, é também muito importante no discernimento com relação às outras religiões. Se estes são colocados de lado e negligenciados, então acaba que também o católico acredita que todas as religiões sejam igualmente capazes de levar a humanização, a justiça, a paz, o respeito pela pessoa e de estabelecer uma vida social saudável. Se acreditar em um Deus que é três pessoas é o mesmo que acreditar em um Deus que não o é, então não faz diferença para a construção da sociedade ser um cristão ou ser de outra religião monoteísta.
Como exemplo, gostaria de trazer aqui o caso do dogma da Trindade, ou seja, no fato de que a Igreja Católica crê num Deus que é apenas uma substância em três pessoas e do monoteísmo, ou seja, na crença em um só Deus.
Se seguirmos o pensamento de Joseph Ratzinger, observamos que a Trindade nos diz que originária não é só a unidade, mas também a multiplicidade; que uma pessoa como unidade única não existe porque está sempre dirigida a; que existe, além da substância, o plano da relação, que deve ser considerado um verdadeiro e próprio plano do ser. Da mesma forma como a pessoa é feita à imagem de Deus, também a pessoa vive junto desta unidade e multiplicidade, originariamente e contemporaneamente. Este aspecto dogmático e doutrinal da fé cristã nos diz portanto que não acontece que nós primeiro sejamos aquilo que sejamos e depois nos relacionamos com os outros comunitariamente. A realidade é que o nosso ser individual é por si mesmo aberto à comunhão, é já uma relação dentro de si mesmo e com os outros.
Agora, pensemos na sociedade e nos perguntemos: a sociabilidade relacional entre as pessoas se reforça mais por meio de uma semelhante religião ou por meio de uma religião na qual Deus é só unidade e não multiplicidade? Eu diria que a resposta é bastante evidente. Uma sociedade tem maiores possibilidades de que seja coesa e unida partindo daquela concepção religiosa, mais do que da outra. Um Deus que seja também Trinitário não é menos Uno, mas sim é mais Uno, porque aqui se trata da unidade do Espírito, que é absolutamente mais profunda justamente porque tal. Dois esposos, ainda que distantes fisicamente entre eles, estão infinitamente mais unidos do que duas pedras juntas uma da outra. Na comunhão espiritual é possível unir-se ao outro sem renunciar de ser si mesmo, e mais, tornando-se maiormente si mesmo na medida que se une ao outro. Estas simples observações tomadas da nossa experiência quotidiana nos fazem compreender que um Deus em Três pessoas é mais Uno e fornece à sociedade um exemplo de íntima e profunda unidade relacional que a sociedade, nos seus níveis infinitamente inferiores, experimenta no matrimônio, na família, na comunhão de um grupo, de uma nação e na inteira comunidade universal vista como uma só família. O monoteísmo, em quanto tal, trouxe grandes benefícios à sociedade, mas nem todos os monoteístas são iguais. O monoteísmo trinitário é capaz de trazer benefícios ainda maiores.
Aqui não é o lugar para examinar outros dogmas da religião católica, basta um exemplo. A encarnação, a epifania, a morte na Cruz, a Ressurreição, Pentecostes, a Vida Eterna, o Juízo Final ... são aspectos dogmáticos e doutrinais que são de fundamental importância para a organização deste mundo e para a doutrina social da Igreja . Abrir um lugar para Deus no mundo, diz Bento XVI, requer evitar negligenciar este elo fundamental entre os aspectos dogmáticos e a construção da cidade terrena. Em outras palavras, não deve ser esquecido, mas estudado e aprofundado o primeiro capítulo do Compêndio da Doutrina Social da Igreja.
* Arcebispo de Trieste
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Caridade: coração da doutrina social da Igreja
ZP11071106 - 11-07-2011
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Livro explica a relação entre a caridade e a doutrina social
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Livro explica a relação entre a caridade e a doutrina social
sábado, 14 de maio de 2011
A Igreja copta, à mercê dos salafitas
ZP11051203 - 12-05-2011
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Pelo menos 12 coptas assassinados no Cairo
Por Paul de Maeyer
ROMA, quinta-feira, 12 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Uma nova onda de violência inter-religiosa no Egito deixou ao menos 12 coptas mortos e 232 pessoas feridas na tarde de sábado, 7 de maio, quando centenas de manifestantes salafitas, uma corrente muçulmana fundamentalista, atacaram a igreja copta de São Minas, no bairro de Imbaba, periferia do Cairo (AINA - Assyrian International News Agency, 8 de maio).
Os manifestantes pediam aos gritos a libertação de uma mulher supostamente convertida ao islã, uma jovem chamada Abir, que estaria presa no complexo da igreja, fato negado pelo próprio governador da província de Gizé e pelo padre Yohanna Mansour, da diocese copta de Gizé. Depois das agressões verbais iniciais, a situação degenerou rapidamente e passou para os ataques com pedras e coquetéis molotov, até começarem os tiros. Algumas casas sofreram danos, inclusive incêndios, junto com outras duas igrejas do mesmo bairro, entre as quais uma católica (Fides, 9 de maio). “Um grupo de salafitas entrou atirando na igreja e matou o pai de um dos nossos postulantes, que está em Uganda”, contó a Fides o padre Luciano Verdoscia, missionário comboniano.
Segundo o jornal egípcio Al-Ahram (8 de maio), os incidentes ocorreram poucas horas depois que um canal de televisão sediado em Chipre -Hayat Christian TV- mostrou outra suposta neo-conversa ao islã, Camelia Shehata Zakher, esposa de um sacerdote copta que, junto com a outra “convertida”, Wafa' Costantine, está no centro da polêmica entre a comunidade muçulmana e a copta. Na televisão, Shehata negou que tivesse se convertido ao islã. Em gravação disponível no YouTube, a mulher, de 25 anos, afirma que pertence à igreja copta e nega ter sido torturada, como alguns grupos muçulmanos tinham denunciado. “Sou cristã por escolha pessoal”, afirmou ela, dizendo-se ainda “muito fiel à Igreja”.
Mas a falsa história da “conversão” de Shehata e Wafa' Constantine continua envenenando as relações entre as duas comunidades.
Na tentativa de se consolidar no Egito pós-Mubarak, o movimento conservador dos salafitas procura tirar o máximo proveito da polêmica dos supostos conversos. Se antes pouco se falava dos salafitas, após a queda de Mubarak, em 11 de fevereiro, eles passaram a ser “muito ativos”, tentando, por exemplo, assumir o controle de uma das maiores mesquitas da capital, a Nour ou Noor. Foram impedidos pelos militares.
Nas últimas semanas, indivíduos ou grupos salafitas lançaram vários ataques contra igrejas coptas. Na quarta-feira 30 de março, no coração do Cairo, foi anunciada uma aliança para apoiar os “novos muçulmanos”: segundo os responsáveis, cerca de 70 conversos ao islã teriam sido sequestrados pelos coptas (ZENIT, 14 de abril de 2011).
Sincronizados com a Páscoa cristã, os salafitas anunciaram seu “programa” de dez pontos ou pedidos à Igreja copta durante uma manifestação no domingo 25 de abril, diante da mesquita El Kayed Ibrahim de Alexandria. Entre as exigências estão “a libertação de Shehata e Wafa' Constantine” e “a inspeção dos mosteiros e igrejas para procurar mulheres muçulmanas aprisionadas pela Igreja” (AINA, 30 de abril).
Algumas testemunhas relatam que no ataque de sábado alguns salafitas estavam vestidos como os talibãs. Segundo um residente de Imbaba, Saber Loutfi, que falou para o Coptic Free Voice, os responsáveis pertencem aos “3.000 jihadistas que voltaram recentemente do Afeganistão” (AINA, 8 de maio). A pobreza também alimenta o extremismo, como declarou o padre Verdoscia à Fides. “Imbaba é um bairro pobre e o fanatismo prospera onde reinam a ignorância e a pobreza. Os salafitas são um grupo minoritário, mas barulhento, graças inclusive a ações violentas”.
O banho de sangue em Imbaba ligou o alerta para o governo do primeiro ministro Essam Sharaf, que adiou uma visita ao Bahrein e aos Emirados Árabes Unidos e convocou uma reunião de emergência para discutir a situação. O ministro da Justiça, Abdel Aziz al-Gindi, afirmou que o governo manterá “punhos de ferro” contra os que ameaçarem a segurança do país (BBC, 9 de maio). Os militares também parecem decididos a ser duros: “O Supremo Conselho Militar decidiu enviar todas as pessoas presas no sábado ao Tribunal Supremo Militar” (BBC, 8 de maio).
O Grande Mufti do Egito, professor Alí Gomaa, exortou os egípcios a “ficarem unidos para evitar os enfrentamentos” (Reuters, 8 de maio). Essam El-Erian afirmou com clareza: “Precisamos mudar de vida contra esta violência. Não podemos permitir que essa gente arruíne o que fizemos na Revolução de janeiro”, disse o porta-voz dos Irmãos Muçulmanos (Al-Ahram). “O incidente de Imbala demonstra claramente que algumas pessoas continuam atuando às escondidas para provocar os conflitos sectários”, declarou El-Erian, fazendo alusão ao partido do ex-homem forte do Egito, o ‘National Democratic Party’ (NDP). Segundo os meios de comunicação egípcios, seria uma “contrarrevolução” organizada dos restos da formação política, dissolvida oficialmente pela justiça egípcia no dia 16 de abril passado.
Nem sequer o bispo de Gizeh, Dom Anba Theodosius, tem dúvidas. “Essas coisas estão planejadas”, disse com amargura (AINA, 8 de maio). “Não temos lei nem segurança, estamos na selva. Estamos em um estado de caos. Um rumor percorre toda a região. Todo dia é uma catástrofe”, continuou o prelado, que não pretende ceder em nada aos extremistas. “Não abandonaremos nunca o nosso país”, disse com firmeza.
A Igreja local também criticou as forças de ordem. “O exército não se oporá às pessoas que fazem essas coisas. Querem permanecer neutros. A polícia chega, mas muito lentamente. Tem medo”, declarou em uma entrevista concedida a AIS (Ajuda à Igreja que Sofre), dia 9 de maio, o bispo católico de Gizeh, Dom Antonios Aziz Mina.
Para o bispo, não basta restabelecer a ordem. “Não podemos alcançar a paz e a reconciliação sem antes levar essa gente à justiça. Senão a reconciliação será um teatro e os problemas continuarão existindo”, disse. No bairro de Imbaba, a comunidade copta começou – segundo o jornal egípcio Al-Masry Al-Youm (8 de maio) –, a formar grupos de auto-defesa.
Para o padre Verdoscia, urge uma reforma no islã. “O islã deve evoluir – disse a ‘Fides’ –. Espero que os muçulmanos moderados possam se distanciar de determinadas leituras do islã”. Segundo o comboniano, que vive no Egito há muitos anos, “esses homicídios acontecem quando no islã, uma categoria de pessoas é declarada 'kuffar' (infiel); podem então ser assassinadas ou privadas de todos os seus bens. As interpretações desse tipo devem ser revisadas pelos próprios muçulmanos”.
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João Paulo II foi apóstolo do mundo do trabalho
ZP11051204 - 12-05-2011
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Organizado ato em Roma pelos os 30 anos da “Laborem exercens”
ROMA, quinta-feira, 12 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Uma vigília de oração dedicada ao Beato João Paulo II por ocasião dos 30 anos da sua primeira encíclica social, a Laborem exercens, foi realizada ontem à noite em Roma, na Basílica da Santa Croce in Gerusalemme.
O evento foi uma iniciativa da Ação Católica de trabalhadores italianos, do sindicato católico CISL e do Movimento Comunhão e Libertação, e também foi realizado em outras igrejas italianas.
Na basílica lotada, a vigília foi presidida por Dom Paolo Schiavon, bispo auxiliar de Roma, e introduzida pelo chefe de comunicações do Vicariato de Roma, Dom Walter Insero, que recordou como o Papa Wojtyla gostava de se definir "não como um padre operário, mas sim um seminarista operário".
O representante sindical italiano, Rafael Bonanni, lembrou a preocupação pela falta de trabalho, especialmente entre os jovens e entre os que têm mais de 50 anos.
Entre as leituras, esteve a parábola dos talentos e o evangelho que diz: "Eu tive fome e me alimentaste...", intercaladas com alguns versos da Laborem exercens.
Dom Schiavon afirmou que "João Paulo II foi chamado de ‘profeta da doutrina social da Igreja', pois mostrou como o ensinamento proposto pela Igreja nasce do ‘sim' de Deus ao homem, do projeto de amor que Deus tem pelo homem, um plano que foi confiado especialmente à Igreja".
"A doutrina social - continuou ele - se nutre do Evangelho, do homem, de Jesus Cristo e dos principais problemas do mundo e da Igreja e é expressão da caridade desta última para com o mundo."
Dom Schiavon disse que "a história pessoal de Karol Wojtyla é importante para explicar como João Paulo II foi um profeta da doutrina social da Igreja", porque também em um papa existe o elemento humano e este Pontífice teve uma experiência pessoal no mundo do trabalho.
Sobre os novos desafios, recordou que "o conflito capital-trabalho foi superado por outros novos. Cresce o trabalho autônomo e também novas formas de trabalho. Crescem as preferências por trabalhos mais criativos, por um sistema mais equilibrado; e se repropõe a instrução técnica profissional".
"Cristo tem a ver - indicou o bispo - com o empenho social do homem, com o trabalho, com a atuação econômica, porque nesses lugares o homem se instrui, encontra a verdade de si mesmo e dos outros, encontra Cristo."
Sua excelência precisou que, "por isso, na Laboren Exercens, o trabalho é concebido como um elemento de desenvolvimento global, natural e sobrenatural da pessoa e, portanto, o momento da própria santificação interior, o momento da construção de um mundo melhor, o tempo em que amadurece uma nova humanidade, o momento da responsabilidade e da solidariedade".
O trabalho, assim, torna-se "um quadro concreto para uma ação de desenvolvimento que, além disso, cria condições de trabalho para outros" e "João Paulo II pediu que essa espiritualidade cristã passasse a ser um patrimônio de todos, especialmente nos dias de hoje".
Dom Schiavon explicou que existe uma novidade importante da encíclica social de João Paulo II, que deu uma mudança de rumo, porque "mudou o foco a partir das problemáticas tradicionais - trabalho, trabalhadores, salário justo, relações sindicais, lucro e empresa - à grande questão da ecologia do trabalho".
Assim, Wojtyla considerava "necessário construir uma cultura do trabalho, capaz de levar a uma síntese suas diversas dimensões, da pessoal à econômica, à social".
"Recordemos, por um instante - prosseguiu - as observações de João Paulo II na Laborem exercens: o trabalho é para o homem, e não o homem para o trabalho. É um convite a pensar em termos de ecologia social do trabalho."
Este pensamento se encontra "também na encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate, que introduz novos conceitos e dimensões, como o desenvolvimento da verdade e do amor".
E Bento XVI indicou que "a crise econômica e financeira poderá ser uma oportunidade para um novo modelo de desenvolvimento, colocando no centro a pessoa, sua dignidade, responsabilidade, empenho no trabalho, na lógica da fraternidade e da reciprocidade", porque o centro do problema é que "o mercado tem de se abrir ao homem para obter o bem comum".
Dom Schiavon concluiu com um convite aos presentes: "A vocês corresponde a tarefa de ser uma luz acesa no mundo do trabalho, em suas fadigas e contradições, para, assim, ser sal da terra e luz do mundo".
Mais desenvolvimento para resolver conflitos no Norte de África
ZP11051304 - 13-05-2011
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Fala secretário do Conselho Pontifício “Justiça e Paz"
ROMA, sexta-feira, 13 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Vendo como se movem os rebeldes na Líbia, a pergunta é: "E depois, o que virá?". Isso não quer dizer que "vamos dar-lhes armas e que resolvam o seu problema", porque, "para resolver determinadas situações de conflito e injustiça, são necessários instrumentos muito diferentes em relação aos que temos agora". É necessário "superar a resposta imediata e trabalhar nas bases do desenvolvimento".
Estes são alguns dos pensamentos apresentados por Dom Mario Toso, durante a coletiva de imprensa de apresentação, na sede do Conselho Pontifício "Justiça e Paz" - do qual ele é secretário -, do Congresso por ocasião do 50º aniversário da encíclica Mater et Magistra.
"A doutrina social da Igreja aborda o uso de instrumentos de paz: esta é a direção que a Igreja oferece a todos, aos leigos, aos líderes dos Estados. A estes últimos cabe avaliar quais são os instrumentos de paz e se são eficazes para alcançá-la", disse ele.
Com grande sinceridade, Dom Toso disse que a Igreja, como muitos, foi apanhada de surpresa pelos acontecimentos do Norte de África: "Quem poderia esperar que houvesse uma intervenção de alguns países europeus mesmo antes de uma resolução da ONU?".
"Nem sempre há tempo suficiente para analisar, refletir e para sair com pronunciamentos ponderados. Diante dos acontecimentos, uma declaração pode acabar sendo tardia, mas tampouco pode ser apressada."
Aprofundando-se neste ponto, afirmou que "não é tarefa da Igreja fazer pronunciamentos políticos". Ele lembrou que "a honra da Igreja e sua força é pregar Cristo, agir no nível das consciências, no âmbito pedagógico. E depois, a sua força se expressa através de leigos bem treinados, servindo em alguns lugares, nos parlamentos, para abordar estas questões. Há pessoas bem preparadas, mas às vezes se comprova que prevalecem as menos experientes".
Não se pode esquecer também de que existe a exigência de um clima político diferente. "Se muitos fogem dessa situação, não é por espírito de aventura, mas por necessidade, porque não se respeitam os direitos fundamentais, porque não há liberdade nem oportunidades de trabalho, nem tampouco possibilidades de participação."
Na Líbia, acrescentou que é necessário trabalhar em profundidade, e os meios de comunicação têm essa tarefa. Ajudar as pessoas a refletir sobre os compromissos para além da resposta imediata. "É preciso trabalhar nas bases do desenvolvimento."
Quanto às ondas massivas de imigrantes, disse que necessária "uma cooperação séria com os Estados mais pobres. A Gaudium et spes já dizia que é preciso ajudar os pobres a resolver seus próprios problemas".
"Por que vários movimentos não estão associados e não dão respostas, como buscar financiamento ou bolsas de estudo para formar os futuros líderes desses países?", concluiu Dom Toso.
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Congresso sobre os 50 anos da “Mater et Magistra”
ZP11051306 - 13-05-2011
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Organizado pelo Conselho Pontifício “Justiça e Paz”
ROMA, sexta-feira, 13 de maio de 2011 (ZENIT.org) - Um congresso internacional sobre o tema "Justiça e globalização: da Mater et Magistra à Caritas in veritate" será realizado em Roma de 16 a 18 de maio, organizado pelo Conselho Pontifício "Justiça e Paz", por ocasião do 50º aniversário da encíclica Mater et Magistra.
O congresso pretende considerar as desigualdades atuais, bem como as diversas questões ligadas ao atual contexto de globalização; oferecer soluções à luz do destino universal dos bens e da justiça social; aprofundar na tarefa de estudar, difundir e experimentar a doutrina social da Igreja, partindo da encíclica de João XXIII e da Caritas in veritate.
Entre os expoentes, encontram-se os cardeais Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício "Justiça e Paz", Laurent Monsengwo Pasinya e Oscar Rodríguez Maradiaga.
O secretário do dicastério, Dom Mario Toso, indicou, na coletiva de imprensa realizada ontem na sede do Palácio São Calisto, que os desequilíbrios indicados pela Mater et Magistra não só não foram totalmente superados, senão que alguns se agravaram.
"Além dos desequilíbrios, por assim dizer, tradicionais - explicou -, foram acrescentados outros, que são abordados na Caritas in veritate, como os apresentados pela globalização, pela questão ecológica, pela defesa da vida etc.
Recordou também que "a Mater et Magistra não propunha tanto um conjunto de receitas, mas uma série de critérios interpretativos muito parecidos aos elaborados pela Caritas in veritate, para analisar e colocar em marcha soluções aos novos desequilíbrios".
Sobre os resultados que se esperam do congresso, Dom Toso explicou a ZENIT: "Esperamos que haja uma nova conscientização sobre a importância da mobilização de todas as comunidades eclesiais e das diversas associações e movimentos leigos com relação aos grandes problemas do mundo".
A ideia é que "esta conscientização provoque uma mobilização da Igreja e de suas instituições e sirva para uma nova evangelização do social", ou seja, "compromisso de formação, na catequese social, e no acompanhamento da doutrina social da Igreja nas diversas partes do mundo, onde mais haja necessidade".
E concluiu que ambas as encíclicas são muito claras, razão pela qual, "mais do que esperar ideias novas, esperamos um desenvolvimento dessas sementes que foram já depositadas pela Caritas in veritate, que já em si é um sementeiro".
Além disso, "este conjunto de solicitudes deve também encontrar, por meio da aproximação científica, uma tradução em projetos, e que sejam experimentadas pelas instituições e pelos leigos". Em resumo, uma oportunidade para "colocar em prática a doutrina social da Igreja".
No primeiro dia, será tratado o tema da nova evangelização do âmbito social, da pastoral social e da doutrina social, analisando o problema do bem comum mundial e das instituições civis, políticas e eclesiais.
No segundo dia, o trabalho se realizará por meio de quatro grupos de reflexão sobre as grandes áreas continentais (americana, africana, asiática e europeia).
O congresso concluirá baseando-se na 4ª parte da Mater et Magistra, sobre o dever de anunciar, dar testemunho e, portanto, de vivenciar a doutrina social da Igreja, especialmente por parte dos leigos e dos homens de boa vontade.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Doutrina social da Igreja é resposta à crise econômica
ZP11022506 - 25-02-2011
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Conferência de Ettore Gotti Tedeschi, presidente do IOR
Permalink: http://www.zenit.org/article-27354?l=portuguese
Conferência de Ettore Gotti Tedeschi, presidente do IOR
ROMA, sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011 (ZENIT.org)
- A crise econômica e suas raízes, a lei natural ignorada, a criação
de um bem-estar somente material: estes foram alguns dos problemas
relacionados à encíclica Caritas in Veritare que estiveram no centro de
uma conferência, ontem, do presidente do Instituto para Obras
Religiosas (IOR), Ettore Gotti Tedeschi, no final do seminário
"Economia social de mercado: uma nova visão", em uma das sedes da
Câmara dos Deputados, em Roma.
O orador recordou que a economia de mercado foi definida pelo economista italiano Luigi Einaudi como "uma terceira via entre o capitalismo e o socialismo, que garante a liberdade individual freando seu instinto egoísta, através de critérios de subsidiariedade e de solidariedade. Nem estatismo nem capitalismo exagerado".
"Entretanto, para que funcione - esta é a minha opinião -, tem que ser baseada na doutrina social da Igreja, porque ela tem experiência e valor", disse ele.
O banqueiro lembrou que "a doutrina social da Igreja foi a forma mais eficaz de tornar o amor efetivo, apesar de que, como diz Bento XVI na encíclica, a caridade desvinculada da verdade não pode subsistir".
No entanto, existem algumas condições: "A doutrina da Igreja, para poder funcionar, requer duas colunas: ensinar, porque a Igreja é mestra, e um Estado que não seja ávido".
O presidente do IOR explicou que "a economia social de mercado, como primeiro objetivo, deve usar os recursos disponíveis de maneira eficiente e obter resultados mais eficazes. O segundo objetivo tem de assegurar o progresso integral, tendo presente a unidade corpo-alma do homem. E, finalmente, precisa distribuir a riqueza criada, não só por caridade, mas também por sustentabilidade".
Crise de sentido
"A encíclica diz que, se a liberdade vem antes da verdade, o homem imaturo raramente chegará à verdade e, portanto, não saberá distinguir entre meios e fins e confundirá o uso dos instrumentos."
"E os instrumentos são neutros. Não existe banco ético nem finanças éticas; existe o homem ético, que faz as finanças de maneira ética e moral, ou seja, dando sentido às suas ações."
"Na introdução da encíclica, o Papa diz que, se o homem começa a refletir e dar sentido à sua vida, os instrumentos, a política, a medicina adquirirão independência e autonomia moral. Mas o instrumento não pode ter autonomia moral. É o homem que dá sentido ao uso dos instrumentos."
"E Bento XVI, na Caritas in veritate, lembra o que Paulo VI disse na Humanae Vitae e na Populorum progressio: não se pode prescindir das ações humanas e do pleno respeito pela vida e não se pode fazer um plano de desenvolvimento econômico se o progresso é apenas material, porque o homem não é apenas um animal material."
Eutanásia e orçamento
Gotti Tedeschi lembrou que "temos negado a dignidade da vida e estamos fazendo progressos apenas materiais. E agora está em discussão a lei sobre a eutanásia. Para provocar, direi: é uma lei econômica, porque não se podem manter os velhos, que custam muito quando não nascem crianças; é uma questão de orçamento".
"A questão - continuou ele - é que os Estados Unidos e a Europa representam, há 30 anos, um bilhão de pessoas. A diferença é a idade delas. Há 25 anos, 25% das pessoas eram menores de 25 anos. Hoje, são 10%. E os de 65 representavam 15%, e hoje são 65% da população."
"Quando as pessoas saem do ciclo de produção, geram gastos de saúde e aposentadoria. O que acontece em uma sociedade que não tem nenhuma mudança geracional? Se a estrutura permanece a mesma, o que é feito para aumentar o PIB?"
"Tudo isso está contido na encíclica - reiterou Gotti Tedeschi. E, no começo, ela afirma que negamos a vida e o desenvolvimento integral."
Redução da dívida
"É possível reduzir a dívida?", perguntou-se Gotti Tedeschi. E lembrou que os três sistemas são: um default, como o argentino; a inflação, uma nova bolha; e que o Papa ensina: a austeridade.
"É preciso voltar a economizar para formar a base monetária e construir - disse. Além disso, 60% das coisas que são consumidas não geram mão de obra."
Do ponto de vista econômico, "o homem tem três dimensões: produtor, consumidor e economizador. Há 20 anos, as dimensões eram coerentes. Agora, porém, eu trabalho e produzo um produto, mas compro um similar feito na Ásia, melhor e que custa menos. Depois de três anos, a minha empresa, que produzia esse mesmo produto, vai falir e, portanto, não gastarei mais".
"Este é o paradoxo da globalização consumista. É o que o Papa chamou de ‘desenvolvimento econômico não-integrado'. Porque o homem se esqueceu de que tem uma alma; considera somente um corpo, pela influência do niilismo e do relativismo."
"Como dizia um ex-ministro italiano da Saúde, Umberto Veronesi, ‘é inútil pensar que o homem tem uma faísca do divino quando o homem é apenas um animal inteligente. Comem e se divertem, mas depois reclamam se alguém faz isso demais'."
O orador recordou que a economia de mercado foi definida pelo economista italiano Luigi Einaudi como "uma terceira via entre o capitalismo e o socialismo, que garante a liberdade individual freando seu instinto egoísta, através de critérios de subsidiariedade e de solidariedade. Nem estatismo nem capitalismo exagerado".
"Entretanto, para que funcione - esta é a minha opinião -, tem que ser baseada na doutrina social da Igreja, porque ela tem experiência e valor", disse ele.
O banqueiro lembrou que "a doutrina social da Igreja foi a forma mais eficaz de tornar o amor efetivo, apesar de que, como diz Bento XVI na encíclica, a caridade desvinculada da verdade não pode subsistir".
No entanto, existem algumas condições: "A doutrina da Igreja, para poder funcionar, requer duas colunas: ensinar, porque a Igreja é mestra, e um Estado que não seja ávido".
O presidente do IOR explicou que "a economia social de mercado, como primeiro objetivo, deve usar os recursos disponíveis de maneira eficiente e obter resultados mais eficazes. O segundo objetivo tem de assegurar o progresso integral, tendo presente a unidade corpo-alma do homem. E, finalmente, precisa distribuir a riqueza criada, não só por caridade, mas também por sustentabilidade".
Crise de sentido
"A encíclica diz que, se a liberdade vem antes da verdade, o homem imaturo raramente chegará à verdade e, portanto, não saberá distinguir entre meios e fins e confundirá o uso dos instrumentos."
"E os instrumentos são neutros. Não existe banco ético nem finanças éticas; existe o homem ético, que faz as finanças de maneira ética e moral, ou seja, dando sentido às suas ações."
"Na introdução da encíclica, o Papa diz que, se o homem começa a refletir e dar sentido à sua vida, os instrumentos, a política, a medicina adquirirão independência e autonomia moral. Mas o instrumento não pode ter autonomia moral. É o homem que dá sentido ao uso dos instrumentos."
"E Bento XVI, na Caritas in veritate, lembra o que Paulo VI disse na Humanae Vitae e na Populorum progressio: não se pode prescindir das ações humanas e do pleno respeito pela vida e não se pode fazer um plano de desenvolvimento econômico se o progresso é apenas material, porque o homem não é apenas um animal material."
Eutanásia e orçamento
Gotti Tedeschi lembrou que "temos negado a dignidade da vida e estamos fazendo progressos apenas materiais. E agora está em discussão a lei sobre a eutanásia. Para provocar, direi: é uma lei econômica, porque não se podem manter os velhos, que custam muito quando não nascem crianças; é uma questão de orçamento".
"A questão - continuou ele - é que os Estados Unidos e a Europa representam, há 30 anos, um bilhão de pessoas. A diferença é a idade delas. Há 25 anos, 25% das pessoas eram menores de 25 anos. Hoje, são 10%. E os de 65 representavam 15%, e hoje são 65% da população."
"Quando as pessoas saem do ciclo de produção, geram gastos de saúde e aposentadoria. O que acontece em uma sociedade que não tem nenhuma mudança geracional? Se a estrutura permanece a mesma, o que é feito para aumentar o PIB?"
"Tudo isso está contido na encíclica - reiterou Gotti Tedeschi. E, no começo, ela afirma que negamos a vida e o desenvolvimento integral."
Redução da dívida
"É possível reduzir a dívida?", perguntou-se Gotti Tedeschi. E lembrou que os três sistemas são: um default, como o argentino; a inflação, uma nova bolha; e que o Papa ensina: a austeridade.
"É preciso voltar a economizar para formar a base monetária e construir - disse. Além disso, 60% das coisas que são consumidas não geram mão de obra."
Do ponto de vista econômico, "o homem tem três dimensões: produtor, consumidor e economizador. Há 20 anos, as dimensões eram coerentes. Agora, porém, eu trabalho e produzo um produto, mas compro um similar feito na Ásia, melhor e que custa menos. Depois de três anos, a minha empresa, que produzia esse mesmo produto, vai falir e, portanto, não gastarei mais".
"Este é o paradoxo da globalização consumista. É o que o Papa chamou de ‘desenvolvimento econômico não-integrado'. Porque o homem se esqueceu de que tem uma alma; considera somente um corpo, pela influência do niilismo e do relativismo."
"Como dizia um ex-ministro italiano da Saúde, Umberto Veronesi, ‘é inútil pensar que o homem tem uma faísca do divino quando o homem é apenas um animal inteligente. Comem e se divertem, mas depois reclamam se alguém faz isso demais'."
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terça-feira, 30 de novembro de 2010
O catolicismo social no século XIX
Gustavo Corção
Parece-me necessário completar nossa constelação de sinais com outro aspecto da luta da Igreja, que também tem sido objeto da mais divulgada das calúnias. Refiro-me à "questão social" e ao papel que o povo de Deus (agora os membros da Igreja) tiveram na tentativa de defender, contra a avidez de toda uma nova civilização, a causa dos pobres, e principalmente na tentativa de subtrair esse pretexto aos socialistas que, movidos por paixão de poder ou por avidez do vazio, quiseram fazer das chagas dos pobres degraus de sua dominação do mundo. Sem esquecer as condenações vindas do Magistério Extraordinário, é com apoio nas obras dos leigos que a Igreja combate o socialismo com seu magistério ordinário. Referime atrás aos movimentos em favor dos pobres no século passado, e agora creio estar ouvindo um clamor de vozes indignadas de nosso bravo século:
— Assistencialismo! Paternalismo! Obras de misericórdia! Caridade!
Respondeo dicendum:
—• Exatameate, minhas senhoras e meus senhores: assístencialismo, paternalismo, obras de misericórdia e de caridade, mesmo porque acho matematicamente impossível, fisicamente impossível, metafisicamente impossível e moralmente impossível melhorar um pouco as asperezas do mundo sem muito assistencialismo, muito paternalismo, muitas obras de misericórdia e muitíssimas obras de santa caridade. Os socialistas apregoam que só será possível construir um mundo melhor com mudanças radicais de "estruturas" sociais, a começar, todavia, por um arrasamento total. Nós outros, católicos, acreditamos modestamente no "mundo melhor"; mas só acreditamos nesse digno e preceptivo ideal a partir de um aperfeiçoamento interior do homem, isto é, a partir do melhor aproveitamento dos dons de Deus transformados em virtudes morais e teologais, para uma vida humana mais dignamente vivida com vistas à vida eterna, pela qual e por nós Nosso Senhor Jesus Cristo padeceu.
Não ignoramos que o problema do aperfeiçoamento humano, tanto na ordem de pedagogia como na das reformas sociais, deve sempre contar com a primordial autonomia do educando ou dos pobres. Sabemos que a "atividade imanente do educando" é o principal fator no dinamismo da ascensão humana. Sabemos que o melhor modo de ajudar o pobre é o de nele ativar essa atividade, ou de nele despertar o gosto de se ajudar a si mesmo, sem o qual será dificílimo ajudá-lo. Há um abismo entre essas noções e a filosofia que só vê possibilidade de ascensão humana pelo processo de "conscientização" em que a autonomia é despertada para o ódio e para a luta de classes.
Karl Marx, o messias do Século do Nada, conclamou a união de todos os proletários para a luta de classes no seu manifesto de 1848 que terminava com este grito: "Operários do mundo inteiro, uni-vos!"
Seria mais didático ter dito: "Operários do mundo inteiro, desunivos da humanidade comum". E é ainda Augustin Cochin, no termo da Introdução da obra atrás citada, quem nos dirá uma palavra lúcida sobre a união na revolução:
As três formas de opressão que correspondem aos três estados das "sociétés de pensée" — a socialização do pensamento, a socialização da vida pública e a socialização da vida privada — não são um efeito do temperamento do indivíduo nem um acaso, mas a condição da própria existência das sociedades que armam o princípio da liberdade absoluta na ordem intelectual, moral e sensível.
Toda sociedade de pensamento é opressão intelectual pelo simples fato de denunciar todo dogma como opressão. Porque ela não pode, sem_ cessar de ser, renunciar a toda unidade de opinião. Ora, uma disciplina intelectual sem objeto que lhe responde, sem ideia, é a própria definição de opressão intelectual. Toda sociedade de iguais é privilégio pelo simples fato de renunciar em princípio a qualquer direção pessoal, porque ela não pode existir sem unidade de direção. Ora, uma direção sem responsabilidade, o poder sem autoridade, isto é, a obediência sem o respeito, eis a própria definição da opressão moral.
Toda sociedade de irmãos é luta e ódio pelo fato de denunciar, como egoísta, qualquer independência pessoal: porque ela não pode deixar de ligar seus membros uns aos outros, e não pode deixar de manter uma coesão social. Ora, a união sem o amor é a própria definição de ódio.
E aí está como o liberalismo se transmuda em socialismo, e a mística da liberdade produz, como produziu, a opressão.
O "catolicismo social" só se manterá católico enquanto mantiver, paralelo ao seu atendimento dos pobres, uma vigilante luta contra os que exploram os pobres em nome da justiça, e portanto contra os pregadores da união no ódio.
O Século do Nada, Cap. III A revolução se avoluma; O Catolicismo social no Século XIX, pag 145-146, Gustavo Corção.
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quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Economia de Mercado e Doutrina Social da Igreja
| | A relação entre a doutrina social da Igreja e a economia de mercado é complexa e equívoca. Embora, no essencial, os seus fundamentos sejam claros e – aparentemente – não contraditórios, a sua interacção tem sido historicamente marcada por múltiplas tensões e ambiguidades. |
| Catholic Social Teaching and the Market Economy Philip Booth (ed.) Londres: The Institute of Economic Affairs, 2007, 277 pp. |
POR ANDRÉ AZEVEDO ALVES
DOUTORANDO NA LONDON SCHOOL OF ECONOMICS AND POLITICAL SCIENCE
É a essa luz que se tem de compreender a existência em alguns segmentos católicos de um forte antagonismo face à economia de mercado, o qual por sua vez encontra correspondência na hostilidade manifestada por alguns liberais face à Igreja e ao seu pensamento social. É verdade que hoje são cada vez mais os católicos que reconhecem, em teoria, os benefícios da economia de mercado em termos de produtividade e efi ciência, mas ainda assim tendem a aceitá-la apenas de forma reticente e sob reserva. Para esta reserva, muito contribuiu a pretensa equivalência moral entre capitalismo liberal e colectivismo marxista, decorrente de uma interpretação da Doutrina Social da Igreja (DSI), em particular desde o seu desenvolvimento mais estruturado a partir do Séc. XIX, como estando equidistante do socialismo e do liberalismo (em si mesmo um conceito difícil de defi nir com precisão). O que levou muitos católicos a encarar o mecanismo de mercado como fundamentalmente hostil aos princípios cristãos. Por outro lado, a popularidade das teses de Weber sobre a relação entre protestantismo e capitalismo contribuiu para reforçar essa hostilidade, obscurecendo linhas de pensamento católico que foram precursoras do enquadramento ético, fi losófi co e teológico das leis económicas que explicam o funcionamento do mercado, como é o caso da Escola de Salamanca, que antecipou em vários aspectos importantes contributos que os chamados economistas clássicos só vieram a apresentar cerca de dois séculos mais tarde.
No que diz respeito à promoção de um mais correcto entendimento da economia de mercado enquanto sistema de organização social, a encíclica Centesimus Annus de 1991 constituiu um marco importante ao salientar explicitamente o “papel fundamental e positivo da empresa, do mercado, da propriedade privada e da consequente responsabilidade pelos meios de produção, da livre criatividade humana no sector da economia”, ao mesmo tempo que chama a atenção para a necessidade de um sólido contexto jurídico que coloque a liberdade económica ao serviço da liberdade humana integral. Ainda assim, muitos católicos continuam frequentemente a considerar ser sua obrigação moral apoiar políticas intervencionistas que negligenciam as leis económicas e que, nalguns casos, restringem injustifi cadamente a liberdade, autonomia e responsabilidade individual, provocando graves danos ao bem comum. Uma atitude que por sua vez serve para reforçar a convicção de muitos economistas (em especial nos meios académicos) de que a DSI, ainda que bem intencionada, é constituída por ensinamentos retrógrados e desajustados que não podem ser considerados seriamente na análise do funcionamento de uma economia de mercado, sob pena de constituírem um obstáculo ao conhecimento científi co e ao desenvolvimento.
Face ao difícil contexto que envolve a discussão destes temas, a obra Catholic Social Teaching and the Market Economy, coordenada por Philip Booth, não podia ser mais oportuna. Reunindo contributos de vários especialistas, cada um dos capítulos cobre um tema relevante para um melhor entendimento da relação entre a DSI e a economia de mercado. A lista de autores é equilibrada ainda que, compreensivelmente dada a origem do livro, esteja centrada no contexto anglo-saxónico.
O livro vem, aliás, na linha de um ressurgimento de interesse no mundo anglo-saxónico – e em especial nos EUA - pela refl exão sobre o enquadramento da economia de mercado no pensamento social cristão, no qual pontifi cam Economic Thinking for the Theologically Minded (University Press of America, 2001) e The Commercial Society (Lexington Books, 2007), ambos de Samuel Gregg, Faith and Liberty: The Economic Thought of the Late Scholastics (Lexington Books, 2003), de Alejandro A. Chafuen, The Church and the Market: A Catholic Defense of the Free Economy (Lexington Books, 2005), de Thomas E. Woods Jr., e a colecção Foundations of Economic Personalism, organizada pelo Acton Institute.
Importa contudo realçar que Catholic Social Teaching and the Market Economy se distingue pelo facto de ser a primeira obra sobre esta rica problemática organizada e editada a partir de Inglaterra, o que proporciona, em certos aspectos, um enquadramento mais europeu dos temas.
No capítulo introdutório, Philip Booth estabelece três objectivos para este livro: a aplicação da teoria económica e da evidência empírica resultante de estudos económicos a matérias que são de especial interesse para os cristãos, a análise de como a DSI pode ser aplicada de forma mais adequada aos vários temas analisados e a consideração de novas questões e perspectivas sobre áreas de políticas públicas que incorporam de forma muito pronunciada aspectos económicos e morais. Há temas importantes que ficaram de fora do livro, tais como o comércio internacional, os cuidados de saúde e o ambiente, mas é justo afirmar que, relativamente aos que foram incluídos, os objectivos foram genericamente atingidos pelos diversos autores.
SOLIDARIEDADE SOCIAL,
TRIBUTAÇÃO E SALÁRIO JUSTO
Ao capítulo introdutório seguem-se mais quatro, que tratam dos sistemas de assistência social, da ajuda internacional, do princípio do salário justo e ainda da tributação. No capítulo sobre assistência social, o Padre Robert A. Sirico salienta a importância de os católicos analisarem os fundamentos e efeitos reais das políticas sociais levadas a cabo pelo Estado. A existência de uma obrigação moral de ajudar os mais necessitados é evdiente para os católicos mas não deve ser confundida com um mandato automático para a intervenção do Estado. Aliás, considerando as frequentes distorções sociais provocadas pela intervenção estatal e a necessidade de respeitar o princípio da subsidiariedade, o recurso à intervenção do Estado – embora não possa ser posto de parte – deveria ser visto com muito mais desconfiança do que acontece actualmente. Sirico chama ainda a atenção para o grave erro que consiste em confundir o combate à pobreza – uma obrigação de todos os cristãos – com o igualitarismo – um ideal ilusório e perigoso que facilmente é instrumentalizado por todos aqueles que visam eliminar a caridade privada e restringir o imprescindível papel das famílias e dos corpos intermédios da sociedade. TRIBUTAÇÃO E SALÁRIO JUSTO
No que diz respeito à ajuda internacional aos países menos desenvolvidos, Philip Booth centra a sua argumentação na necessidade de distinguir os objectivos proclamados dos resultados efectivos dos programas de ajuda ao desenvolvimento. Sabemos hoje que o desenvolvimento sustentável de uma sociedade exige o estabelecimento de um conjunto de instituições jurídicas, políticas e éticas que assegurem a paz e coesão social e permitam o florescimento da actividade económica. Ora o que frequentemente acontece é que a ajuda internacional aos países menos desenvolvidos – particularmente quando se processa através de canais públicos – acaba por ajudar a perpetuar estruturas de governação deficientes e por vezes mesmo predatórias. Nos casos em que – uma vez considerado seu contributo para a perpetuação de estruturas políticas injustas e opressivas – se conclua que as transferências internacionais para os Estados menos desenvolvidos estão a causar mais mal do que bem às populações locais, essas transferências tornam-se moralmente indefensáveis. Há, certamente, situações de emergência e necessidade extrema em que o argumento a favor da ajuda internacional é forte mas Booth defende de forma convincente que a maioria dos programas públicos internacionais de transferências de recursos para Estados menos desenvolvidos acabam por reforçar o poder de maus governos e minar as possibilidades de um desenvolvimento sustentável.
A existência de uma obrigação moral de ajudar os mais necessitados é evidente para os católicos mas não deve ser confundida com um mandato automático para a intervenção do Estado.
O princípio do salário justo – uma das mais complexas questões no que diz respeito ao relacionamento entre DSI e economia de mercado – é abordado no capítulo a cargo de Thomas Woods. Não é possível discutir aqui o assunto com o detalhe que ele exigiria, mas o argumento mais forte de Woods pode ser resumido na ideia de que a imposição pelo Estado de um salário mínimo prejudica – por fomentar o desemprego e dificultar a inserção no mercado de trabalho – os mais pobres e é, por isso, moralmente indefensável. Mas a discussão sobre o salário mínimo não esgota as implicações do princípio do salário justo e alguma da argumentação de Woods parece ir no sentido de pretender esvaziar o conceito de qualquer significado. Interpretar a doutrina do salário justo como um mandato para o intervencionismo governamental no mercado de trabalho é provavelmente abusivo e um erro com consequências danosas para os mais pobres, mas isso não quer dizer que a noção de salário justo não tenha aplicação em algumas condições económico- sociais específicas. No quinto capítulo, Philip Booth aborda a questão da tributação e da dimensão do Estado. Booth recorda que a DSI concede ao Estado um papel legítimo, mas estritamente limitado, no domínio da redistribuição de recursos. A caridade é certamente preferível à redistribuição por meios coercivos e o princípio da subsidiariedade exige que o recurso à coerção seja limitado ao mínimo possível.
É por isso um grave erro falar em “generosidade” do Estado ou considerar os impostos como uma extensão benevolente do princípio da caridade. A solidariedade genuína não deve ser confundida com a acção política e é essencial compreender que o insaciável apetite fiscal do Estado frequentemente mina a caridade, as instituições intermédias e a família. O excesso de tributação desincentiva o trabalho e fomenta a economia informal subterrânea, prejudicando os trabalhadores e o bem comum.
Acresce que, em muitos países desenvolvidos, o Estado, ao penalizar fiscalmente as famílias, atenta contra a coesão social e a autonomia familiar, sem esquecer os casos em que os impostos são utilizados para financiar males objectivos, como é o caso do aborto. Booth recomenda também que a aplicação da DSI seja acompanhada de um melhor entendimento da teoria da escolha pública, em particular no que diz respeito às falhas do governo, um problema frequentemente ignorado por muitos cristãos bem intencionados quando discutem programas de políticas públicas.
CULTURA, EMPREENDEDORISMO E EDUCAÇÃO
Nos seus capítulos, Andrew Yuengert e Robert Kennedy abordam respectivamente o consumismo e a relação das empresas com o bem comum, dois temas interligados. Yuengert salienta a centralidade para a DSI da ideia de que o progresso material – embora desejável como um meio para a realização plena de cada pessoa – pode tornar- se perverso se tomado como um fim em si mesmo. Nesta perspectiva, o erro fundamental do socialismo não foi a sua notória incapacidade para proporcionar níveis de vida aceitáveis, mas sim o seu materialismo. Por outras palavras, as consequências economicamente desastrosas do socialismo real são certamente um factor importante para que deva ser rejeitado, mas é o seu carácter materialista que o torna verdadeiramente desumano e moralmente inaceitável. Porém, o materialismo manifesta-se também em sociedades capitalistas. A prosperidade proporcionada pela economia de mercado não é, por si só, garante de uma sã cultura respeitadora do homem todo. Cabe a cada indivíduo – também enquanto consumidor e produtor – promover uma cultura forte e orientada para a dimensão ética e religiosa do homem. É neste contexto que deve ser visto o contributo das empresas para o bem comum. Um contributo que passa, antes de mais, pela prossecução das suas actividades, que não só servem os consumidores mas também devem gerar rendimentos suficientes para remunerar os factores de produção de que fazem uso. Numa economia de mercado bem enquadrada por instituições sólidas, as empresas contribuem para o bem comum ao promover o uso eficiente dos recursos e ao fornecer mais e melhores bens e serviços. A sua actuação não deve, por isso, ser vista como tendo lugar num vazio ético. O contributo das empresas para o bem comum depende também de estarem orientadas para actividades que se justificam moralmente e não apenas economicamente.
Em muitos países desenvolvidos, o Estado, ao penalizar fiscalmente as famílias, atenta contra a coesão social e a autonomia familiar, sem esquecer os casos em que os impostos são utilizados para financiar males objectivos, como é o caso do aborto.
No capítulo sobre o papel do empreendedor na DSI, Anthony Percy chama a atenção para a centralidade do trabalho e da iniciativa privada. A espiritualidade do trabalho é um valor tradicional da Igreja (com numerosos exemplos salientes que vão desde a Ordem de São Bento ao Opus Dei) e está associado de perto aos valores personalistas. A afirmação do empreendedor no âmbito da DSI não assenta apenas no seu imprescindível contributo para a criação de riqueza, mas remete também para a importância da liberdade de escolha, da autonomia e da criatividade na afirmação da dignidade humana. São também os valores personalistas que fundamentam a análise de Dennis O’Keefe sobre a educação. Embora o capítulo esteja centrado nas experiências inglesa e galesa, a maioria dos argumentos empregues têm validade universal. O’Keefe começa por alertar para o perigo de apenas se valorizar a componente secular nas (geralmente bem sucedidas em termos de resultados académicos) escolas católicas. Simultaneamente, salienta a importância de garantir a concorrência em condições de igualdade entre o ensino estatal e o ensino católico. Em Estados caracterizados por formas agressivas de secularismo e laicismo, a defesa da liberdade de educação é cada vez mais um pilar essencial para a sobrevivência de qualquer projecto educativo com vocação universal, de que as escolas católicas no mundo, dos EUA ao Japão, são frequentemente exemplos reconhecidos. SUBSIDIARIEDADE E BEM COMUM
Os últimos dois capítulos do livro, de Denis O’Brien e Samuel Gregg, apresentam uma abordagem mais global sobre subsidiariedade, solidariedade e o papel do Estado numa sociedade bem ordenada. Um dos maiores riscos dos tempos que correm é a tentação de colocar o Estado acima de Deus. O princípio da subsidiariedade implica a impossibilidade de aceitar um Estado sem limites e tanto a DSI como a análise económica fornecem boas razões para estabelecre limites restritos à acção dos governos. Entre as principais está o facto de também os políticos e agentes do Estado serem humanos e, como tal, falíveis e marcados pelo pecado original. Daí que pressupor a benevolência do Estado seja não só errado como perigoso. Adicionalmente, o fl orescimento humano só é possível em contextos onde há liberdade de escolha, autonomia e responsabilidade. Nenhuma sociedade humana pode atingir a perfeição. Mas esse reconhecimento não dispensa os católicos de procurar a melhoria das sociedades em que vivem nem implica que alguns sistemas e políticas não sejam melhores que outros. A obrigação de agir no mundo deve, no entanto, ser entendida como uma obrigação de actuar racionalmente. Como salientou Bento XVI na sua conferência “Fé, razão e universidade: Recordações e refl exões” na Universidade de Regensburg a 12 de Setembro de 2006, não agir razoavelmente é contrário à própria natureza de Deus. O conhecimento das leis naturais é essencial para evitar tentativas fúteis e contra-producentes de moldar o mundo à vontade humana, desrespeitando leis que está para além do poder do homem alterar. Aplicar esta importante obrigação à compreensão e aplicação da DSI implica avaliar cuidadosamente os fundamentos empíricos e teóricos das posições que podem ser derivadas a partir dela e procurar articulá- la da melhor forma possível com os ensinamentos da ciência económica. O livro Catholic Social Teaching and the Market Economy constitui um bom contributo para esse importante fim.
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sábado, 30 de outubro de 2010
Bento XVI comenta Caritas in veritate
| Audiência geral de 8 de Julho de 2009, publicada no site da Santa Sé |
O amor e a verdade a serviço do desenvolvimento integral, passando pela solidariedade e a subsidiariedade: assim o próprio Papa nos apresenta sua encíclica. A minha nova Encíclica Caritas in veritate, que ontem foi oficialmente apresentada, inspira-se na sua visão fundamental num trecho da carta de São Paulo aos Efésios, no qual o Apóstolo fala do agir segundo a verdade na caridade: "praticando a verdade — ouvimo-lo agora — cresceremos em todas as coisas pela caridade n'Aquele que é a Cabeça, o Cristo" (4, 15). A caridade na verdade é por conseguinte a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. Por isso, em volta do princípio "caritas in veritate", move-se toda a doutrina social da Igreja. Só com a caridade, iluminada pela razão e pela fé, é possível alcançar objetivos de desenvolvimento dotados de valor humano e humanizante. A caridade na verdade "é um princípio à volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores" (n. 6). A Encíclica recorda imediatamente na introdução dois critérios fundamentais: a justiça e o bem comum. A justiça é parte integrante daquele amor "com os fatos e na verdade" (1 Jo 3, 18), à qual exorta o apóstolo João (cf. n. 6). E "amar alguém é desejar o seu bem e comprometer-se eficazmente por ele. Ao lado do bem individual, há um bem relacionado com o viver social das pessoas... Ama-se tanto mais eficazmente o próximo quanto mais nos comprometemos" pelo bem comum. Portanto, são dois os critérios operativos, a justiça e o bem comum; graças a este último, a caridade adquire uma dimensão social. Cada cristão — diz a Encíclica — é chamado a esta caridade, e acrescenta: "É este o caminho institucional... da caridade" (cf. n. 7). Como outros documentos do Magistério, também esta Encíclica retoma, continua e aprofunda a análise e a reflexão da Igreja sobre temáticas sociais de interesse vital para a humanidade do nosso século. De modo especial, retoma quanto escreveu Paulo VI, há mais de quarenta anos, na Populorum progressio, pedra constitutiva do ensinamento social da Igreja, na qual o grande Pontífice traça algumas linhas decisivas, e sempre atuais, para o desenvolvimento integral do homem e do mundo moderno. A situação mundial, como demonstra amplamente a crônica dos últimos meses, continua a apresentar grandes problemas e o "escândalo" de desigualdades clamorosas, que permanecem apesar dos compromissos assumidos no passado. Por um lado, registram-se sinais de graves desequilíbrios sociais e econômicos; por outro, invocam-se de várias partes reformas que não podem continuar a ser adiadas para preencher o abismo no progresso dos povos. O fenômeno da globalização pode, para esta finalidade, constituir uma real oportunidade, mas para isso é importante que se lance mão a uma profunda renovação moral e cultural e a um discernimento responsável sobre as opções a serem feitas para o bem comum. Um futuro melhor para todos é possível, se for fundado na redescoberta dos valores éticos fundamentais. Isto é, é necessária uma nova projetualidade econômica que redesenhe o desenvolvimento de modo global, baseando-se no fundamento ético da responsabilidade diante de Deus e do ser humano como criatura de Deus. Certamente a Encíclica não pretende oferecer soluções técnicas às vastas problemáticas sociais do mundo de hoje — não é esta a competência do Magistério da Igreja (cf. n. 9). Mas ela recorda os grandes princípios que se revelam indispensáveis para construir o desenvolvimento humano dos próximos anos. Entre eles, em primeiro lugar, a atenção à vida do homem, considerada como centro de todo o verdadeiro progresso; o respeito do direito à liberdade religiosa, sempre estreitamente relacionado com o progresso do homem; a rejeição de uma visão prometeica do ser humano, que o considere artífice absoluto do próprio destino. Uma confiança ilimitada nas potencialidades da tecnologia no final revelar-se-ia ilusória. São necessários homens retos quer na política quer na economia, que sejam sinceramente atentos ao bem comum. Em particular, considerando as emergências mundiais, é urgente chamar a atenção da opinião pública para o drama da fome e da segurança alimentar, que investe uma parte considerável da humanidade. Um drama destas dimensões interpela a nossa consciência: é necessário enfrentá-lo com determinação, eliminando as causas estruturais que o provocam e promovendo o desenvolvimento agrícola dos países mais pobres. Tenho a certeza de que este caminho de solidariedade ao desenvolvimento dos países mais pobres ajudará sem dúvida a elaborar um projeto de solução da crise global em curso. Sem dúvida deve ser revalorizado atentamente o papel e o poder político dos Estados, numa época em que existem de fato limites à sua soberania devido ao novo contexto econômico-comercial e financeiro internacional. E por outro lado, não deve faltar a participação responsável dos cidadãos na política nacional e internacional, graças também a um renovado empenho das associações dos trabalhadores chamadas a instaurar novas sinergias a nível local e internacional. Desempenham um papel de primeiro plano, também neste campo, os meios de comunicação social para potencializar o diálogo entre culturas e tradições diversas. Querendo portanto programar um desenvolvimento não viciado pelas disfunções e deturpações hoje amplamente presentes, impõe-se da parte de todos uma séria reflexão sobre o próprio sentido da economia e sobre as suas finalidades. É o estado de saúde ecológica do planeta que o reclama; é a crise cultural e moral do homem, que sobressai com evidência em todas as partes do globo, que o exige. A economia precisa da ética para o seu correto funcionamento; precisa recuperar o importante contributo do princípio de gratuidade e da "lógica da doação" na economia de mercado, onde a regra não pode ser unicamente o lucro. Mas isto só é possível graças ao compromisso de todos, economistas e políticos, produtores e consumidores e pressupõe uma formação das consciências que dê força aos critérios morais na elaboração dos projetos políticos e econômicos. Justamente, de várias partes se faz apelo ao fato de que os direitos pressupõem deveres correspondentes, sem os quais os direitos correm o risco de se transformarem em arbítrio. É necessário, repete-se cada vez mais, um estilo de vida diferente da parte de toda a humanidade, no qual os deveres de cada um para com o ambiente se unam com os deveres para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com os outros. A humanidade é uma só família e o diálogo fecundo entre fé e razão não pode deixar de enriquecê-la, tornando mais eficaz a obra da caridade no social, e constituindo o quadro apropriado para incentivar a colaboração entre crentes e não-crentes, na compartilhada perspectiva de trabalhar pela justiça e pela paz no mundo. Como critérios-guia para esta integração fraterna, na Encíclica indico os princípios de subsidiariedade e de solidariedade, em estreita relação entre eles. Indiquei por fim, face às problemáticas tão vastas e profundas do mundo de hoje, a necessidade de uma Autoridade política mundial regulamentada pelo direito, que seja conforme com os mencionados princípios de subsidiariedade e solidariedade e firmemente orientada para a realização do bem comum, no respeito das grandes tradições morais e religiosas da humanidade. O Evangelho recorda-nos que nem só de pão vive o homem: não se pode satisfazer a sede profunda do seu coração apenas com bens materiais. O horizonte do homem é indubitavelmente mais alto e mais vasto; por isso, qualquer programa de desenvolvimento deve ter presente, paralelamente ao crescimento material, também o espiritual da pessoa humana, que é dotada precisamente de alma e corpo. É este o desenvolvimento integral, ao qual a doutrina social da Igreja se refere constantemente, desenvolvimento que tem o seu critério orientador na força propulsora da "caridade na verdade". Queridos irmãos e irmãs, rezemos para que também esta Encíclica possa ajudar a humanidade a sentir-se uma só família empenhada em realizar um mundo de justiça e de paz. Oremos para que os crentes, que trabalham nos sectores da economia e da política, sintam como é importante o seu testemunho evangélico coerente no serviço que prestam à sociedade. Sobretudo, convido-vos a rezar pelos Chefes de Estado e de Governo do G8 que se encontram nestes dias em L'Aquila. Desta importante Cimeira mundial possam surgir decisões e orientações úteis para o verdadeiro progresso de todos os Povos, especialmente dos mais pobres. Confiamos estas intenções à intercessão materna de Maria, Mãe da Igreja e da humanidade. |
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Caritas in veritate: o desenvolvimento humano integral e o “Deus no mundo”
| Stefano Fontana |
| Stefano Fontana, filósofo, é diretor do Observatório Van Thuân sobre a Doutrina Social da Igreja |
| Esse artigo é uma colaboração do |
A terceira encíclica de Bento XVI retoma o grande tema da “Populorum progressio” de Paulo VI: o desenvolvimento humano integral. Ao mesmo tempo, mostra as implicações sociais do dom de amor que Deus fez ao mundo, em Cristo. |
| A encíclica “Caritas in veritate” de Bento XVI transforma a Doutrina Social da Igreja em nada menos que a relação entre a Igreja e o mundo, pois se trata “do desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade”, ampliando ao máximo o tema do desenvolvimento presente na “Populorum progressio” de Paulo VI – da qual recorda o quadragésimo aniversário. É uma encíclica de amplo respiro, perfeitamente inserida no pontificado de Bento XVI, que não só fez dos termos “caridade” e “verdade” o coração de seu magistério, pois os considera o coração mesmo do cristianismo, mas também insere de modo radical o tema de “Deus no mundo” – ou seja, o cristianismo é somente útil ou é indispensável para a construção de um verdadeiro desenvolvimento humano? O Papa pensa que é indispensável e, na encíclica, diz o porquê. Por isso, trata-se de um texto corajoso, que elimina qualquer dúvida possível com relação ao papel público da fé cristã e ao fato de que dela deriva uma visão coerente de vida, em pé de igualdade com outras visões. O mundo, segundo a “Caritas in veritate” não deve apenas ser acompanhado por uma caridade sem verdade, mas deve ser salvo pela caridade na verdade. Para chegar a essa conclusão, o papa retoma Paulo VI e indica o ponto de vista teológico pelo qual a Igreja deveria considerar os fatos sociais. Trata-se de duas considerações estratégicas que o Cardeal Renato Martino e Dom Giampaolo Crepaldi, presidente e secretário do Pontifício Conselho Justiça e Paz, apresentando a encíclica em 7 de julho, mostraram muito bem. O primeiro capítulo da encíclica, dedicado a Paulo VI, recorda sua encíclica “Populorum progression” de 1967. Paulo VI não estava incerto sobre o valor da Doutrina Social da Igreja, como muitos disseram e continuam dizendo, nem teria atenuado a importância de uma presença pública do cristianismo na história. Pelo contrário, Bento XVI diz que ele assentou as bases da grande retomada que pouco depois aconteceria com João Paulo II. E sendo Paulo VI o papa do Concílio, é evidente que com esse trabalho de Bento XVI representa a revalorização de todo um período histórico. Esta retomada do pensamento de Paulo VI tem o mesmo significado da condenação à “hermenêutica da fratura”, na análise do Vaticano II, feita por ele em 2005. A “Caritas in veritate” afirma que não existem duas doutrinas sociais, uma pré-conciliar e outra pós-conciliar, mas uma única Doutrina Social da Igreja. Quanto à visão teológica da qual partir, o papa esclarece que não se trata de qualquer análise sociológica, mas da fé dos apóstolos. Ou seja, a Igreja não parte “do mundo”, mas da fé dos apóstolos. Só assim a Doutrina Social da Igreja pode ser útil para o mundo. Esta é a perspectiva central de toda a encíclica e a razão de ser das posições que sustenta. Que o verdadeiro desenvolvimento não pode separar os temas da justiça social daqueles do respeito da vida e da família. Que não se pode lutar pela proteção da natureza se esquecendo de que a pessoa humana é superior a todo o resto da criação. Que a eugenia é muito mais preocupante que a diminuição da diversidade nos ecossistemas. Que o aborto e a eutanásia corroem o senso da lei e impedem, na origem, toda forma de acolhida ao mais fraco – representando uma ferida de enormes conseqüências para a comunidade humana. Que a economia precisa de gratuidade e que essa não deve ser simplesmente superposta no fim ou pensada ao lado da atividade econômica, mas – pelo contrário – deve ser elemento de solidariedade no interior mesmo dos processos econômicos – e sem isto a própria atividade redistributiva do Estado se tornará impossível. Essas e outras considerações presentes na encíclica nascem do Evangelho. Mas, o Evangelho, enquanto ilumina essa realidade social, econômica e política, lhe restitui a autonomia da própria dignidade, mostrando convergências antes impensadas entre a visão cristã e as necessidades autênticas da sociedade humana. Pensemos, por exemplo, na economia: a globalização, em função da competição, impede os Estados de praticar a solidariedade “depois” da produção. É necessário organizar a solidariedade já dentro da atividade produtiva, como buscam fazer, por exemplo, ainda que entre mil contradições, os movimentos de responsabilidade social das empresas. Aqui se encontram as necessidades concretas da economia globalizada de hoje e as indicações da fé cristã – para a qual a economia é sempre um fato humano e comunitário e, portanto, a dimensão ética não lhe diz respeito apenas no momento seguinte, mas no interior do próprio processo produtivo. Nesta encíclica, pela primeira vez, são tratados de modo sistemático os temas da globalização, do respeito ao meio ambiente e da bioética, que nas encíclicas precedentes haviam sido tocados. É uma encíclica que olha decididamente para o futuro, com a coragem do realismo da sabedoria cristã. A polarização Norte-Sul deve ser superada, diz Bento XVI, a responsabilidade do subdesenvolvimento não é só de alguns, mas de muitos, inclusive dos países emergentes e das elites dos países pobres. Algumas vezes, até mesmo as organizações humanitárias e os organismos internacionais parecem mais interessados com o próprio bem estar e com a própria burocracia que com o desenvolvimento dos países pobres. O turismo sexual não é sustentado apenas dos países dos quais partem os “clientes”, mas também daqueles que os hospedam. A corrupção pode ser encontrada também nas ajudas humanitárias. Os países industrializados erram ao proteger excessivamente a propriedade intelectual, principalmente no caso dos medicamentos. Nos países considerados atrasados, existem realmente superstições e visões ancestrais que podem impedir o desenvolvimento... E vai por aí afora... É uma encíclica que condena as ideologias do passado e também as novas: do terçomundismo ao ecologismo. Mas enfrenta, sobretudo, uma: a ideologia da técnica, à qual está dedicado todo o sexto capítulo. Depois da falência das ideologias políticas, se consolidou a ideologia da técnica, ainda mais perigosa na medida em que se alimenta da cultura relativista que a cerca. O ponto de vista central da encíclica foi retomado por Dom Crepaldi, que ao apresenta-la no Vaticano, caracterizou-a como a “prevalência do receber sobre o fazer”. E assim voltamos ao problema de fundo: sem Deus os homens são fruto do acaso e da necessidade e nada têm a receber. Mas então o mundo – inclusive o mercado e a comunidade política – necessita de um pressuposto que ele mesmo não pode dar-se. A pretensão cristã permanece sempre a mesma. |
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Nova encíclica de Bento XVI critica a 'economia sem Deus'
| Terça-feira, 07/07/2009 - 22:30 | |
Dividida em quatro capítulos, além de introdução e conclusão, a carta apostólica traz uma reflexão sobre o aumento da desigualdade social, da extrema pobreza, do drama do trabalho precário e dos riscos à democracia e adverte para as responsabilidades do homem diante dos desafios da nova realidade econômica e social.
Iniciando sua reflexão com uma releitura da encíclica Populorum Progressio, de Paulo VI, publicada em 1967, Bento XVI retoma os temas abordados por seu antecessor -- como a fome, a miséria e as consequências do capitalismo -- e adverte para a necessidade de Deus para o desenvolvimento humano.
"Sem Ele, o desenvolvimento ou é negado ou acaba confiado unicamente às mãos do homem, que cai na presunção da auto-salvação e acaba por fomentar um desenvolvimento desumanizado", diz.
O Pontífice faz também uma crítica à ONU, que se mostra inadequada, assim como outros fóruns internacionais diante das necessidades decorrentes de um mundo globalizado e alerta para "a urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitetura econômica e financeira internacional".
Nesse sentido, critica também o binômio mercado-Estado e fala da necessidade de "novas autoridades políticas mundiais", capazes de administrarem os processos globais com "um poder efetivo", respeitando "os princípios de subsidiariedade e solidariedade".
Em outros pontos, Bento XVI confirma a negativa da Igreja Católica ao aborto, à eutanásia e à eugenesia e defende o trabalho estável "para todos", pedindo respeito dos direitos humano dos imigrantes.
Joseph Ratzinger afirma também que "o grande desafio" da era da globalização é agir com transparência, honestidade, responsabilidade e ética nas relações comerciais, partindo do "princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade". "A economia tem necessidade da ética para o seu correto funcionamento; não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga da pessoa", ressalta.
Bento XVI retoma ainda as orientações de João Paulo II, que "destacou a necessidade de um sistema com três sujeitos: o mercado, o Estado e a sociedade civil" e afirma que a globalização "não é boa nem má". "Não devemos ser vítimas dela, mas protagonistas, atuando com razoabilidade, guiados pela caridade e a verdade".
"Caritas in Veritate", "o amor na verdade é um grande desafio para a Igreja num mundo em crescente e incisiva globalização". Segundo Bento XVI, "o risco do nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos, não corresponda a interação ética das consciências e das inteligências, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano".
A terceira encíclica (carta solene do Papa aos bispos e fiéis católicos do mundo) de Bento XVI era muito esperada por tratar principalmente da crise econômica mundial e suas consequências à humanidade. Antes, ele publicou "Deus caritas est" (Deus é amor, 2006) e "Spe salvi" (Salvos graças à esperança, 2007).
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Ao antecipar nova encíclica, Bento repete discurso sobre 'ditadura do relativismo'
| Quando a nova encíclica social de Bento XVI for publicada no começo de julho, ela poderá parecer amplamente bem anticlimática. Alguns trechos já surgiram na imprensa italiana, e neste domingo o pontífice deu um furo jornalístico em si mesmo ao dedicar suas considerações para o encerramento do Ano Paulino ao tema da "Caritas in Veritate" (Caridade na verdade), também o título de sua tão esperada meditação sobre a economia. A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 29-06-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Com efeito, o que Bento desenhou na noite deste domingo provavelmente remonta à subestrutura teológica e espiritual da encíclica, menos as prescrições econômicas específicas. O núcleo do que Bento disse durante as vésperas ecumênicas na grande basílica de São Paulo Fora dos Muros é que a construção de um mundo melhor exige a formação de pessoas melhores. A reforma estrutural, por isso, pressupõe uma renovação pessoal, moral e espiritual, incluindo uma vida dedicada à oração e aos sacramentos. Em uma passagem que evocou a famosa homilia sobre a "ditadura do relativismo" do então cardeal Joseph Ratzinger, há quatro anos, Bento pediu que os cristão sejam "não conformistas", recusando aceitar os valores da modernidade secular. Em particular, Bento XVI rejeitou a versão "faça-você-mesmo" do Magistério católico, insistindo na oposição ao aborto e ao casamento homossexual como parte do que significa ter uma "fé adulta". Estando a poucos passos do que a tradição cristã considera como o túmulo de São Paulo, o Papa também revelou que os testes com carbono-14 confirmaram que os fragmentos de ossos contidos no sarcófago pertencem a um homem do primeiro ou segundo século – confirmando assim, disse Bento, a "unânime e incontrastável tradição" de que o sarcófago contém "os restos mortais do apóstolo Paulo". As vésperas desse domingo encerraram o Ano Paulo, iniciado pelo Papa Bento XVI no dia 28 de junho de 2008 para comemorar o aniversário de dois mil anos do nascimento de São Paulo, o "apóstolo dos gentios". A ideia de que um mundo melhor deve ser construído por pessoas melhores será provavelmente o tema central da "Caritas in Veritate", e o Papa abordou isso em profundidade neste domingo. "Paulo nos diz: o mundo não pode ser renovado sem homens novos", disse Bento. "Só haverá homens novos se também houver um mundo novo, um mundo renovado e melhor". Dessa premissa, Bento disse que a renovação espiritual pessoal requer "não conformismo", uma disposição a "não se submeter ao esquema da época atual". Para fazer isso, disse o Papa, requer-se uma nova forma de se pensar diferente dos valores do mundo, moldada pelo encontro com o "homem novo" de Jesus Cristo. "O pensamento do homem velho, o modo de pensar comum, está geralmente voltado às posses, ao bem-estar, à influência, ao sucesso, à fama e assim por diante", disse Bento. "Assim, em última análise, o 'eu' próprio se torna o centro do mundo. Devemos aprender a pensar de maneira mais profunda", disse o Papa, baseada nos desejos de Deus em vez de si próprio. Bento retomou a insistência de Paulo em uma "fé adulta", zombando do uso dessa frase para justificar o dissenso da doutrina católica oficial. "A frase 'fé adulta', nas últimas décadas, se tornou um slogan difuso", disse o Papa. "Muitas vezes, ela é entendida no sentido da atitude de quem não dá mais ouvidos à Igreja e aos seus Pastores, mas que escolhe autonomamente em que quer crer e não crer – uma fé 'faça-você-mesmo', portanto. E ela se apresenta como 'coragem' de se expressar contra o Magistério da Igreja". "Na realidade, porém, não se precisa de coragem para isso, porque sempre se pode estar certo do aplauso público. Pelo contrário, é preciso coragem para aderir à fé da Igreja, mesmo que ela contradiga o 'esquema' do mundo contemporâneo". Bento destacou especificamente a oposição ao aborto e ao casamento gay como parte desse pacote. "Faz parte dessa fé adulta, por exemplo, o compromisso com a inviolabilidade da vida humana desde o primeiro momento, opondo-se radicalmente com isso ao princípio da violência, justamente na defesa das criaturas humanas mais indefesas", disse o Papa. "Faz parte da fé adulta reconhecer o casamento entre um homem e uma mulher por toda a vida, como ordem do Criador, restabelecida novamente por Cristo", disse. Esses comentários fizeram parte de uma meditação sobre o capítulo 04 da Carta aos Efésios, de Paulo, a mesma passagem do Novo Testamento destacada na homilia do então cardeal Ratzinger logo antes do conclave que o elegeu ao papado há quatro anos, na qual ele identificou uma "ditadura do relativismo" como o desafio central da fé hoje. Entretanto, Bento insistiu que o significado de ser uma "nova pessoa" em Cristo não tem a ver, primeiramente, com aquilo a que nos opomos, mas sim com aquilo que apoiamos. Com referência a isso, disse o Papa, a prova do nosso compromisso com a verdade, ou "veritas", é o nosso amor, "caritas". "A caridade [o amor] é a prova da verdade", disse o Papa. "Devemos sempre de novo ser medidos segundo esse critério, que a verdade se torne caridade, e a caridade nos torne verdadeiros". Bento afirmou que, como o amor de Cristo se estende a todo o universo, a preocupação cristã pelo mundo deve, da mesma forma, ter uma dimensão cósmica. Porém, o Pontífice não desenvolveu essa questão na noite do domingo. Em ocasiões anteriores, essa ideia forneceu a base para uma forte mensagem ambiental. "O Cristo crucificado abraça o universo inteiro em todas as suas dimensões", disse Bento. O Papa terminou pedindo uma vida de oração e participação nos sacramentos como uma solução ao que ele chamou de "vazio interior" da vida moderna, que se reflete, dentre outras coisas, disse o Papa, no uso de drogas. | |
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Economia global: eis a nova encíclica
| "Sem verdade, sem confiança e amor pelo verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e o agir social cai nas mãos de interesses privados e de lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, ainda mais em uma sociedade em vias de globalização, em momentos difíceis como os atuais". A análise é de Gian Guido Vecchi, publicada no jornal Corriere della Sera, 27-06-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. A última revisão de Bento XVI já está pronta. A estas horas estão revendo as últimas páginas da "Caritas in veritate", a terceira encíclica do Papa "dedicada ao vasto tema da economia e do trabalho, a uma reflexão nova e aprofundada sobre o sentido da economia e dos seus fins", que trará a data do dia 29 de junho (São Pedro e São Paulo) e será apresentada entre os dias 06 e 07 de julho. O Pontífice consultou uma grande quantidade de especialistas, entre economistas e prelados, mas, com relação à última prova de texto de abril, ele realizou a redação definitiva sozinho, palavra por palavra. No Vaticano, diz-se que ele levou uma cópia consigo até na viagem para a Terra Santa, no mês passado. A encíclica, adiada para levar em conta a crise e "responder com base nos elementos reais", exige a necessidade de "uma nova e aprofundada reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins, assim como a uma revisão aprofundada e previdente sobre o modelo de desenvolvimento". A globalização não é o mal, mas também não se regula por si mesma: se for governada com "novas regras", pode se tornar uma oportunidade. E no "novo contexto econômico-comercial e financeiro internacional", que modificou o poder político dos Estados", o texto sugere "uma renovada avaliação do seu papel e do seu poder", convida os sindicatos a "instaurar novas sinergias em nível internacional" para enfrentar "a redução das redes de segurança social" e invoca "a presença de uma verdadeira autoridade política mundial", nos traços da "Pacem in terris" de João XXIII: não um super-Estado, nem simplesmente a ONU, mas um modelo internacional de governo da globalização, uma autoridade "que deverá ser regulada pelo direito, ater-se de modo coerente aos princípios de subsidiariedade e de solidariedade, ser ordenada para a realização do bem comum e comprometer-se com a promoção de um autêntico desenvolvimento humano integral inspirado nos valores da caridade da verdade". "Caritas in veritate", justamente: "O princípio ao redor do qual a doutrina social da Igreja gira". Bento XVI reconduz tudo aos seus fundamentos teológicos e teoréticos. Desde a primeira frase: "A caridade da verdade, que Jesus Cristo nos mostrou com toda a sua vida terrena e, sobretudo, com a Sua morte e ressurreição, é o principal recurso a serviço do verdadeiro desenvolvimento de todo indivíduo humano e da humanidade inteira" A crise, observou o Papa, "nasceu de um déficit de ética nas estruturas econômicas". Um sistema infectado pela cobiça. Mas a economia "precisa da ética para o seu correto funcionaento", ou é contra o homem ou o destrói. Aqui surge a necessidade de um código ético comum: fundado na "verdade ao mesmo tempo da fé e da razão", uma verdade que, por isso, é acessível a todos, "a luz por meio da qual a inteligência alcança a verdade natural e sobrenatural da caridade". A busca da "justiça" e do "bem comum" derivam disso. Bento XVI fala de "responsabilidade social da empresa no sentido amplo, que leve em conta todos os impactos sociais do seu agir". Permanecendo firme no fato de que, em primeiro lugar, está a responsabilidade social: "O desenvolvimento é impossível sem homens retos, sem operadores econômicos e homens políticos que vivam fortemente, nas suas consciências, o apelo ao bem comum". Tudo é considerado, luta à fome e defesa da vida e atenção ao "estado de saúde ecológica do planeta", cisto que "os deveres que temos com relação ao ambiente se unem aos deveres com relação à pessoa": porque "o primeiro capital a ser protegido e valorizado é o homem na sua integridade". No início, o Papa se refere à "Populorum progressio", de Paulo VI, que, em 1967, denunciou a desigualdade entre países ricos e pobres, mas a encíclica percebe também faz referência à "Humanae vitae", contra o aborto e a contracepção. Assim, "a abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento", e, "se perdermos a sensibilidade pessoal e social com relação à acolhida de uma nova vida, outras formas de acolhida úteis à vida social também se empobrecem". Enfim, desenvolvimento e crescimento demográfico se correspondem. E uma "abertura moralmente responsável" à vida representa "uma riqueza social e econômica". Dito isso, "a caridade na verdade pede reformas urgentes para enfrentar com coragem e sem demora os grandes problemas da injustiça no desenvolvimento dos povos". Depois de mais de 40 anos da "Populorum progressio", o desenvolvimento que devia ser "extensível a todos" foi "e continua sendo agravado por distorções e problemas dramáticos". A fome, sobretudo: "Dar de comer aos famintos é um imperativo ético para a Igreja". E "alimentação e acesso à água" são "direitos universais". E os países pobres devem ser defendidos e envolvidos nos processos decisivos. A crise preocupa, mas "devemos assumir com realismo, confiança e esperança as novas responsabilidades às quais o cenário de um mundo que precisa de uma profunda renovação cultural e da redescoberta dos valores de fundo sobre os quais devemos construir um futuro melhor nos chama". Oikonomia significa "lei" ou "administração" do oikos, a casa. "O desenvolvimento dos povos depende, sobretudo, do reconhecimento de sermos uma só família" | |
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