Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente/Igreja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente/Igreja. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 21 de junho de 2012

POR UMA ALIANÇA ENTRE O HOMEM E O AMBIENTE

ZP12061505 - 15-06-2012
Permalink: http://www.zenit.org/article-30595?l=portuguese



A posição da Santa Sé em vista do Comitê Preparatório da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio +20

ROMA, sexta-feira, 15 de junho de 2012 (ZENIT.org) – Publicamos aqui a aqui a Position Paper  da Santa Sé por ocasião da III sessão do Comitê Preparatório da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio +20, assimo como foi publicada pelo L'Osservatore Romano em língua italiana na tarde de ontem em Roma.tarde de ontem em Roma.
1. Introdução
A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, Rio +20, representa um importante passo de uma caminhada que proporcionou significativas contribuições para uma melhor compreensão do conceito de desenvolvimento sustentável, bem como das interações daqueles que são considerados os três pilares deste conceito: o crescimento econômico, a proteção do ambiente e a promoção do bem-estar social. Tal caminho começou em Estocolmo no distante 1972 e passou por dois momentos cruciais no Rio de Janeiro em 1992, com a assim chamada passo de uma caminhada que proporcionou significativas contribuições para uma melhor compreensão do conceito de desenvolvimento sustentável, bem como das interações daqueles que são considerados os três pilares deste conceito: o crescimento econômico, a proteção do ambiente e a promoção do bem-estar social. Tal caminho começou em Estocolmo no distante 1972 e passou por dois momentos cruciais no Rio de Janeiro em 1992, com a assim chamada Earth Summit , e em Joanesburgo em 2002.
No contexto dessa caminhada emergiu um consenso unânime sobre o fato de que a tutela do ambiente passa pela melhoria de vida dos povos, e vice-versa, que a degradação ambiental e o subdesenvolvimento são temas altamente interdependentes entre si e devem ser enfrentados em conjunto de forma responsável e solidária.
Em todos estes eventos internacionais, a presença da Santa Sé foi caracterizada não tanto pela promoção de soluções técnicas específicas para as diferentes problemáticas envolvidas na busca de um correto processo de desenvolvimento sustentável, mas especialmente no sublinhar como não é possível reduzir à problema “técnico” o que afeta a dignidade do homem e dos povos: não é possível, de fato, confiar o processo de desenvolvimento somente à técnica, porque senão isso permaneceria sem orientação ética.  A busca de soluções a tais problemáticas não pode ser separada da nossa compreensão do ser humano.
É o ser humano, de fato, que vem em primeiro lugar. Vale a pena lembrá-lo. É a pessoa humana que deve estar no centro do desenvolvimento sustentável. A pessoa humana, que é responsável pela boa gestão da natureza, não pode ser dominada pela técnica e tornar-se objeto dela. Tal consciência deve levar os Estados a refletirem juntos sobre o futuro a curto e médio prazo do planeta, evocando as suas responsabilidades pela vida de cada pessoa, bem como pelas tecnologias úteis para ajudar a melhorar a qualidade.
Adotar e incentivar em todas as circunstâncias um modo de vida que respeite a dignidade de cada ser humano e sustentar a pesquisa e a exploração de energia e tecnologias adequadas que preservem o patrimônio da criação e não causem perigo para o ser humano devem ser prioridades políticas e econômicas . Neste sentido, é necessário rever a nossa abordagem da natureza, que é o lugar onde nasce e interage o ser humano, a sua "casa".
A mudança de mentalidade nesta matéria e as obrigações que isso traz devem permitir alcançar rapidamente uma arte do viver juntos que respeite a aliança entre o ser humano e a natureza, sem a qual a família humana corre o risco de desaparecer. É necessário fazer uma reflexão séria e propor soluções precisas e sustentáveis; reflexões que não devem ser ofuscadas por interesses políticos, econômicos ou ideológicos cegamente partidários, que tendem de modo míope a privilegiar o interesse particular sobre a solidariedade.particular sobre a solidariedade.
É verdade que a técnica dá para a globalização um ritmo especialmente acelerado, mas deve-se reafirmar a primazia do ser humano sobre a técnica, sem a qual corre-se o risco de uma perda existencial e uma perda de senso da vida. O fato de que a tecnologia corra mais rápida do que tudo faz com que as sedimentações dos porquês sejam sistematicamente envolvidas pela urgência do como e não tenham portanto o tempo de solidificar-se.
É, portanto, importante chegar a combinar a técnica com uma forte dimensão ética baseada na dignidade da pessoa humana (cf. Bento XVI, durante a apresentação coletiva da Cartas Credenciais de alguns embaixadores, 09 de junho de 2011).
Nesta perspectiva, convém sublinhar como a dignidade do ser humano está intimamente ligada aos direitos de desenvolvimento, a um ambiente saudável e à paz; estes três direitos destacam as dinâmicas das relações entre as pessoas, a sociedade e o ambiente; Isso estimula a responsabilidade de cada ser humano consigo mesmo, com o próximo, com a criação e, em última instância, com Deus. Responsabilidade que envolve a análise criteriosa do impacto e das consequências das nossas ações, com especial atenção para os mais pobres e para as gerações futuras.
2. A centralidade do ser humano no desenvolvimento sustentável
Portanto, é essencial colocar o fundamento da reflexão da Rio+20 no primeiro princípio da Declaração do Rio sobre Ambiente e Desenvolvimento, aprovada na Conferência do Rio de Janeiro de junho de 1992, reconhecendo a centralidade do ser humano, afirma que "os seres humanos estão no centro das preocupações relativas ao desenvolvimento sustentável. Eles têm direito a uma vida saudável e produtiva em harmonia com a natureza".
Colocar o bem do ser humano no centro da atenção do desenvolvimento sustentável é, de fato, a forma mais segura para a sua realização, bem como para promover a proteção da criação; assim, como mencionado, estimula-se a responsabilidade de cada um com os outros, com os recursos naturais e com o seu uso criterioso.
Além disso, partir da centralidade do ser humano e da sua dignidade leva a evitar os riscos de adotar uma abordagem reducionista e ineficaz de caráter neo-malthusiano, que vê o ser humano como um obstáculo ao desenvolvimento sustentável.
Não há oposição entre o ser humano e o ambiente, mas há uma aliança estável e inseparável na qual o ambiente condiciona a existência e o desenvolvimento do ser humano, enquanto que este último aperfeiçoa e enobrece o ambiente com a sua atividade criativa, produtiva e responsável. É essa aliança que deve ser reforçada; uma aliança que respeite a dignidade do ser humano desde a concepção; e aqui deve-se ressaltar também que o termo "igualdade de gênero" significa a igual dignidade entre homens e mulheres.
3. Necessidade de uma revisão profunda e de longo alcance
Nas últimas 4 décadas verificaram-se mudanças muito significativas no âmbito da comunidade internacional, é só pensar nos extraordinários progressos nos conhecimentos técnico-científicos que foram aplicados em setores estratégicos para a economia e a sociedade, tais como transportes, energia e comunicações. Progressos extraordinários que chocam-se com as distorções e os dramáticos problemas do desenvolvimento de muitos Países, e com a crise econômico-financeira que a maioria da sociedade está experimentando.
Estas questões interpelam cada vez mais a comunidade internacional para uma nova e profunda reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins, bem como a uma revisão profunda e completa do modelo de desenvolvimento, para corrigir as suas falhas e distorções. Exige-o, na verdade, o estado de saúde ecológica do planeta; acima de tudo o requer a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas têm sido evidentes em cada parte do mundo (cf. Bento XVI, Caritas in veritate, n. 32).
Com base nestes pressupostos, a Santa Sé, no contexto do processo da Rio +20, gostaria de concentrar-se especialmente sobre alguns aspectos, que têm claras repercussões éticas e sociais em toda a humanidade.
Um primeiro aspecto diz respeito ao fato de que esta redefinição de um novo modelo de desenvolvimento, que também a Rio +20 quer contribuir, deve ser permeado e ancorado nos princípios que são pilares da efetiva proteção da dignidade humana. Tais princípios sustentam a correta implementação de um desenvolvimento que tenha um foco especial nas pessoas em situações mais vulneráveis ​​e garantam portanto o respeito da centralidade do ser humano. Estes princípios põe em causa:
- A responsabilidade, também no que diz respeito à necessária mudança de padrões de produção e consumo para que sejam reflexo de um apropriado estilo de vida;
- A promoção e a partilha do bem comum;
- O acesso aos bens primários, incluindo aqueles bens essenciais e fundamentais, como a nutrição, a educação, a segurança, a paz, a saúde; neste último caso, deve ser sempre lembrado que o direito à saúde decorre do direito à vida: o aborto e a contracepção são ferramentas que se opõem gravemente à vida e não podem ser consideradas questões de saúde; a saúde corresponde de fato, à cura e não a meros serviços: esta mercantilização dos cuidados sanitários coloca as questões técnicas sobre aquelas humanas;
- Uma solidariedade com dimensão universal, capaz de reconhecer a unidade da família humana;
- O cuidado da criação, por sua vez conectada com a equidade entre gerações; no entanto, a solidariedade intergeracional requer levar em consideração as capacidades das gerações futuras para superar as dificuldades do desenvolvimento;
- A equidade intrageracional, que está intimamente ligada à justiça social;
- O destino universal não somente dos bens mas também dos frutos da atividade humana.
Estes princípios deveriam estar adesivados naquela "visão compartilhada" que ilumina o caminho da Rio +20 e da pós Rio+20. Além disso, Rio +20 poderia dar uma contribuição para a redefinição de um novo modelo de desenvolvimento ainda mais significativo quanto mais o debate que emergir da Conferência tender a construir esse modelo de desenvolvimento nestes princípios.
4. O princípio da subsidiariedade e o papel da família
Outro princípio fundamental é o da subsidiariedade, como reforço daquele governo internacional para o desenvolvimento sustentável, que é um dos principais objetos de discussões da Rio+20. Hoje, o princípio da subsidiariedade, também na Comunidade internacional, é cada vez mais visto como instrumento de regulação das relações sociais e, portanto, contribui para a definição de regras e formas institucionais.
Uma correta subsidiariedade pode permitir às autoridades públicas, a partir do nível local até o nível mais amplo de dimensão mundial, obrarem de modo eficaz para a valorização de cada pessoa, para a preservação dos recursos e para a promoção do bem comum.
No entanto, o princípio de subsidiariedade deve permanecer intimamente ligado ao princípio da solidariedade e vice-versa, porque se a subsidiariedade sem a solidariedade cai no particularismo social, é igualmente verdade que a solidariedade sem a subsidiariedade cai no assistencialismo que humilha o portador de necessidades. (cf. Bento XVI, Caritas in veritate, n. 58).
E isso deve ser ainda mais ressaltado nas reflexões de caráter internacional, como as dea Rio +20, onde a aplicação destes dois princípios deve-se traduzir na adoção de mecanismos voltados para combater as iniquidades existentes entre e dentro dos Estados e, portanto, favorecer: a transferência de tecnologias adequadas a nível local, a promoção de um sistema comercial global mais justo e inclusivo, o respeito dos compromissos assumidos com relação à ajuda ao desenvolvimento, a identificação de novos e inovadores instrumentos financeiros que coloquem no centro da vida econômica a dignidade humana, o bem comum e a salvaguarda da criação.
No campo da aplicação do princípio de subsidiariedade, é importante além do mais reconhecer e valorizar o papel da família, célula fundante da nossa sociedade humana como consagrado pelo Art. 16 da Declaração dos Direitos Humanos. Além do mais, essa é a última linha de defesa do princípio de subsidiariedade contra os totalitarismos.
Com efeito, é na família que começa aquele fundamental processo educativo de crescimento de cada pessoa, no qual tais princípios podem ser assimilados e transmitidos às gerações futuras.
Além disso, é no seio da família que o homem recebe as primeiras e determinantes noções sobre a verdade e o bem, aprende o que quer dizer amar e ser amados e, portanto, o que quer dizer em concreto ser uma pessoa (cf. João Paulo II, Centesimus Annus, 39).
A discussão sobre o "quadro internacional para o desenvolvimento sustentável" deveria ser portanto ancorada a um princípio de subsidiariedade, que valorize plenamente o papel da família, unido ao da solidariedade, tendo como elementos fundamentais o respeito pela dignidade humana e a centralidade do ser humano.
5. O desenvolvimento sustentável como parte do desenvolvimento humano integral
Um terceiro aspecto que visa promover a Santa Sé, no quadro do processo da Rio +20 é a conexão entre o desenvolvimento sustentável e o desenvolvimento humano integral. Ao lado do bem estar material e social devem ser considerados os valores éticos e espirituais que orientam e dão significado às escolhas econômicas e portanto ao progresso tecnológico, dado que cada decisão econômica tem uma consequência de caráter moral. A esfera técnico-econômica não é nem eticamente neutra nem desumana e anti-social por natureza. Pertence à atividade humana e, porque humana, deve ser estruturada e regida eticamente (cf. Bento XVI, Caritas in veritate, nn. 36 e 37).
Claro, esse é um desafio complexo, mas, além disso, deve-se apoiar a importância de passar de um desenvolvimento meramente econômico a um desenvolvimento integralmente humano nas suas dimensões: econômica, social e ambiental (cf. Angelus de João Paulo II do 25 de Agosto de 2002, no domingo anterior ao início da Cúpula de Johannesburg) que parte da dignidade de cada pessoa.
Isso significa ancorar sempre mais os três pilares do desenvolvimento sustentável em uma dimensão ética baseada, precisamente, sobre a dignidade humana. Tal desafio pode ser concretamente enfrentado no início daquele processo dirigido à identificação de uma série de “Objetivos do desenvolvimento sustentável” – Sustainable Development Goals, promovendo um trabalho de inovação sobre a modulação de velhos e novos indicadores do desenvolvimento no breve e no longo período; indicadores capazes de individualizar de modo eficaz a melhoria ou não nos aspectos não somente econômicos, sociais ou ambientais do desenvolvimento sustentável, mas também naqueles éticos, pondo em causa necessidades e recursos, e também o acesso a bens e serviços, tanto materiais quanto imateriais.
6. A economia verde e o desenvolvimento humano integral
Uma quarta área de interesse para a Santa Sé diz respeito à economia verde. Conforme destacado pelo debate realizado durante as reuniões preparatórias da Rio +20, não faltam preocupações sobre a transição para uma "economia verde". Este conceito, que demora para encontrar uma clara definição, potencialmente poderia dar uma importante contribuição às causas da paz e da solidariedade internacionais.
No entanto, é importante que seja aplicado de forma inclusiva, orientando-o claramente à promoção do bem comum e à erradicação local da pobreza, elemento essencial para alcançar o desenvolvimento sustentável. Deve-se também evitar com cuidado que a economia verde dê lugar a novas formas de "condicionamentos" do comércio e da assistência internacional, tornando-se uma forma escondida de "protecionismo verde".
Mas é igualmente importante que a economia verde tenha como foco principal o desenvolvimento humano integral. Nesta perspectiva, e tendo em vista a identificação de modelos de consumo e de produção apropriados, a economia verde pode se tornar um instrumento importante para promover um trabalho decente, capaz de favorecer um crescimento econômico que respeite não apenas o ambiente, mas também a dignidade do ser humano.
É desejo da Santa Sé que tudo que emerja da Rio +20 seja considerado não somente um bom resultado mas também e acima de tudo um resultado inovador e capaz de olhar para o futuro, contribuindo para o bem estar material e espiritual de todas as pessoas, das suas famílias e comunidades.
[Tradução do original italiano por Thácio Siqueira]

sábado, 9 de julho de 2011

Ecologia e antropologia

09 de julho de 2011 | 0h 00


Dom Odilo P.Scherer - O Estado de S.Paulo
Preservar a natureza, respeitar os ecossistemas e não interferir indevidamente no delicado equilíbrio ambiental, para não comprometer a sobrevivência das espécies... Será apenas exaltação romântica de ambientalistas? Por certo, ninguém ousa mais afirmar isso; o desrespeito à natureza e uma relação inconsequente com o mundo que nos sustenta poderia custar caro. Também nós somos parte dessa natureza e dependemos dela.
Isso me faz refletir sobre a união estável entre pessoas do mesmo sexo, equiparada pelo Supremo Tribunal Federal à união estável entre pessoas de sexos diferentes. A decisão pôs ainda mais em evidência, na opinião pública, as temáticas de homossexualidade e gênero, em discussão um pouco por toda parte. Penso que isso requeira uma reflexão sobre a própria natureza do ser humano e sua sexualidade.
Parto da antropologia cristã, que procura compreender e explicar o ser humano à luz do desígnio de Deus sobre o homem e a mulher, perceptível pela inteligência a partir da natureza das coisas e da revelação divina, na Sagrada Escritura. O pensamento cristão reconhece dois gêneros complementares - masculino e feminino. O relato bíblico diz, de maneira poética, que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança e constata: "Homem e mulher Deus os criou" (Gn 1,27). E Deus viu que assim estava bem, muito bom!
O homem não é, pois, fruto de uma evolução caótica ou de um voluntarismo volúvel, mas do desígnio divino, sábio e bom, perceptível na própria natureza humana: nas suas corporeidade, inteligência, vontade e capacidades espirituais, orientadas não apenas para a sobrevivência, mas também para a busca da verdade, do bem e da plenitude do viver. O homem é dotado de liberdade e tem a capacidade de discernir e de se decidir pelo bem, ou pelo mal. No exercício da liberdade, com responsabilidade, está uma das razões de sua dignidade e sua grandeza.
Nem somos, como cantava um de nossos poetas, "esta metamorfose ambulante", que segue vagando pela vida sem saber quem é, o que quer, para que vive, por que é aquilo que é; nem estamos presos a um determinismo cego, acorrentados aos acontecimentos e à ignorância sobre nós mesmos, sem que possamos ser senhores das nossas decisões e ações. Cabe-nos tomar conta de nós mesmos e viver de forma responsável, conforme a nossa natureza e a nossa dignidade.
Um aspecto importante desse viver conforme a nossa natureza e a nossa dignidade consiste em assumir a própria identidade sexual. Sobre isso há muita confusão na cultura atual: ao invés de ter a identidade sexual como um dado de natureza, com significado e valores próprios, tende-se a ver nela um fenômeno cultural volúvel, uma "construção subjetiva". Cada um lhe daria a orientação ditada pela vontade, pelos sentimentos e gostos pessoais. Nem mesmo a diferenciação sexual física entre o masculino e o feminino é levada a sério; seria apenas um "fato secundário", quase um adereço descartável no corpo humano, contando mais aquilo que o sujeito decide ser. Identidade sexual seria, pois, uma questão de opção.
Será que não estamos aqui diante de um tremendo equívoco, apoiado no pressuposto errôneo de que a "natureza humana" não é um dado real, mas algo projetado pelo sujeito, de dentro para fora de si? Nega-se à natureza humana a "objetividade" que se afirma e defende, com razão, para a natureza dos outros seres.
Uma consequência dessa confusão relativa à identidade sexual é o aumento de comportamentos pouco ou nada definidos, nem masculinos nem femininos. A "troca de sexo" parece um fato banal, apenas uma intervenção cirúrgica no corpo... Neste contexto, ser heterossexual, homem ou mulher, seria apenas uma entre várias possibilidades e opções quanto à identidade sexual. E se chama "casamento" a união entre pessoas do mesmo sexo! Diante da pressão das circunstâncias, questionar isso, quem ousaria? Seria politicamente incorreto!
Mas... perguntar é preciso! Assim está bem? Assim vai ficar bem? Que consequências isso terá para o futuro? A antropologia cristã afirma que a diferenciação sexual física tem um significado próprio, a ser levado plenamente a sério. A pretensão de mexer na harmonia entre os sexos e de submeter a identidade sexual ao arbítrio da vontade e dos sentimentos, tão influenciáveis por fatores culturais e dinâmicas socioeducativas (ou deseducativas...), é uma temeridade, que não promete bons frutos.
A Igreja Católica vê com preocupação a crescente distorção sobre a identidade sexual. Antes mesmo de ser uma questão moral, é um problema antropológico. A Igreja não incentiva, não apoia nem justifica nenhum tipo de violência e agressão contra homossexuais, ou quem quer que seja, mas convida a uma séria reflexão. Não é pensável que a natureza tenha errado ao moldar o ser humano como homem e mulher. Isso tem sentido e finalidade, que é preciso descobrir e acolher, em vez de banalizar.
A sexualidade qualifica todos os aspectos da pessoa humana, na sua unidade de alma e corpo, e diz respeito à afetividade, à capacidade de amar e procriar, de estabelecer vínculos serenos e altruístas com os demais. Cabe a cada homem e mulher reconhecer e aceitar a própria identidade sexual como um dom e uma missão; as diferenças físicas, morais e espirituais são voltadas para a complementaridade, um bem para as pessoas e para o fecundo convívio social.
O coração pode ser como um barco desatado: não comandado pela racionalidade, ele é arrastado pelas correntes oportunistas e se rebenta contra os rochedos... Não respeitar a natureza das coisas leva a desastres ambientais e compromete a sustentabilidade da vida.
E não é assim quando se trata da natureza humana?
CARDEAL ARCEBISPO DE SÃO PAULO

sábado, 11 de junho de 2011

Papa pede “revisão total” do enfoque sobre a natureza

ZP11060908 - 09-06-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-28182?l=portuguese
A ecologia humana é “uma necessidade imperativa”, afirma a embaixadores

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 9 de junho de 2011 (ZENIT.org) - Bento XVI reafirmou nesta quinta-feira a “necessidade imperativa” de estabelecer a “ecologia humana”.
Segundo o pontífice, as prioridades políticas e econômicas devem ser “adotar em tudo uma maneira de viver respeitosa com o entorno e apoiar a pesquisa e o uso de energias limpas, que preservem o patrimônio da criação e não sejam perigosas para o homem”.
O Papa dirigiu-se em discurso a seis novos embaixadores que apresentavam suas credenciais no Vaticano hoje, de: Moldávia, Guiné Equatorial, Belize, Síria, Gana e Nova Zelândia.
O Papa falou da ecologia no discurso geral lido aos embaixadores, apesar de ter entregue a cada um deles um discurso específico sobre a realidade dos países representados.
Bento XVI afirmou que é necessário “revisar totalmente nosso enfoque da natureza”. “Esta não é unicamente um espaço a se explorar, ou lúdico. É o lugar de nascimento do homem, sua ‘casa’, por assim dizer. É essencial para nós”.
“A mudança de mentalidade neste âmbito, ainda com as contradições que carrega, deve permitir chegar rapidamente à arte de viver juntos, que respeite a aliança entre o homem e a natureza, sem a qual a família humana corre o risco de desaparecer.”
“Deve ser realizada, portanto, uma reflexão séria e devem ser propostas soluções precisas e viáveis. O conjunto dos governantes deve se comprometer a proteger a natureza e a ajudar a que desempenhe sua função essencial na sobrevivência da humanidade.”
O Papa indicou a ONU como “o marco adequado desta reflexão, que não deverá se obstaculizar por interesses políticos e econômicos cegamente partidários, para dar prioridade à solidariedade sobre o interesse particular”.
Bento XVI falou ainda sobre o “justo lugar da técnica” na atividade humana.
“A base do dinamismo do progresso corresponde ao homem que trabalha e não à tecnologia, que não é mais que uma criação humana.”
Apostar tudo na técnica e na tecnologia, ou acreditar que são o único agente do progresso ou da felicidade, implica uma “coisificação do homem, que conduz à cegueira e à miséria”.
“A técnica que domina o homem o priva da sua humanidade. O orgulho que gera faz nascer em nossas sociedades um economicismo intratável e certo hedonismo que determina os comportamentos.”
Segundo o Papa, o enfraquecimento da primazia do humano traz consigo uma confusão existencial e uma perda do sentido da vida.
“Porque a visão do homem e das coisas sem referência à transcendência desarraiga o homem da terra e, mais fundamentalmente, empobrece a própria identidade.”
“É, portanto, urgente chegar a conjugar a técnica com uma forte dimensão ética”, disse.
“A técnica deve ajudar a natureza a prosperar na linha querida pelo Criador. Trabalhando assim, o pesquisador e o cientista aderem ao desígnio de Deus, que quis que o homem seja o cume e o gestor da criação.“
“As soluções baseadas neste fundamento protegerão a vida do homem e sua vulnerabilidade, assim como os direitos das gerações presentes e as vindouras. E a humanidade poderá continuar beneficiando-se do progresso que o homem, pela sua inteligência, consegue realizar”, afirmou o Papa.
Bento XVI pediu que todos trabalhem na promoção de um humanismo respeitoso da dimensão espiritual e religiosa do homem.
“Porque a dignidade da pessoa humana não varia com a flutuação das opiniões. Respeitar sua aspiração à justiça e à paz permite a construção de uma sociedade que promove a si mesma, quando apoia a família ou rejeita, por exemplo, a primazia exclusiva das finanças”, disse.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Questão ecológica, questão moral


Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de São Paulo - SP

Sempre mais nos damos conta de quanto o nosso planeta é precioso e único no universo. Sem excluir que possa haver vida em algum outro lugar na imensidão do cosmo, o certo é que, com todo o seu potencial para esquadrinhar o espaço sideral, os estudiosos ainda não conseguiram detectar nada que se pareça com a vida no nosso Planeta Azul; nem mesmo com suas formas mais elementares.
A Terra é a casa da vida, o espaço privilegiado que abriga uma diversidade enorme de seres vivos. Ela é o condomínio da família humana, com suas raças, povos e culturas diferentes; lentamente, e com certa relutância, vamos aprendendo que ninguém é dono absoluto de pedaço algum desse globo e que todos fazem parte de uma imensa comunidade humana, que tem tanto em comum.
Todos são responsáveis por todos nesta comunidade e o bem de cada um só será completo, se também for o bem de todos os demais; da mesma forma, o mal de um, é o mal de todos. Comum deve ser também o zelo para que este condomínio não seja descuidado e tornado inabitável com o passar do tempo. Está em jogo o bem de todos.
Embora a questão ambiental entre, aos poucos, nas preocupações diárias, ainda estamos longe de ter alcançado uma consciência coletiva que seja capaz de frear os estragos causados pela intervenção humana na natureza; no âmbito dos comportamentos individuais, há muito que fazer para que o zelo pelo ambiente se torne habitual e cultural; no campo das decisões políticas, em todos os níveis, está difícil chegar a consensos que levem plenamente a sério a questão ambiental; de fato, procura-se salvar, geralmente, mais os interesses imediatos e particulares do que a sustentabilidade, a médio e longo prazo, desta casa comum que nos abriga.
A Igreja católica, no Brasil, através da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), já pela 3ª. vez, realiza a Campanha da Fraternidade sobre a ecologia.  Neste ano, o assunto é abordado de maneira ampla, com o tema “fraternidade e vida no Planeta”. Chama-se a atenção para o fenômeno de aquecimento global, as causas que o provocam e as consequências que poderá trazer, ou já vai tendo; mostra-se, sobretudo, que o comprometimento das condições ambientais para o futuro da vida na Terra não tem, geralmente, sua causa em fenômenos espontâneos da dinâmica do universo, mas em ações do homem, que interferem no equilíbrio ecológico. Tais intervenções foram aceleradas, sobretudo, pelo sistema industrial e os modelos econômicos adotados a partir dos últimos 3 séculos. A comunidade humana está cuidando mal da natureza, dela exigindo mais que ela pode dar, destruindo a própria casa, pouco a pouco.
Vamos deixar correr, fazendo de conta que o problema não existe, ou que é só dos outros? Manter o mesmo ritmo de consumo e de interferência na natureza, sem nos importar com as consequências? Num condomínio, quando aparecem problemas e riscos, é normal que todos os condôminos se reúnam e decidam sobre o quê fazer, pois o bem de todos está relacionado intimamente com o bem do próprio condomínio. Não deveria ser diferente com nosso Planeta: descuidar da Terra faz mal a todos; cuidar bem da Terra é bom para todos.
O papa João Paulo II advertiu que a questão ecológica representa um problema moral, cujas implicações são, basicamente, duas: a solidariedade para com os pobres e o direito das futuras gerações. De fato, os maiores prejudicados com a deterioração ambiental são, e o serão ainda mais no futuro, os pobres do mundo, os mais fracos e desprotegidos da família humana. E não é moralmente honesto viver e agir apenas pensando em si, sem levar em conta o bem dos membros mais frágeis da família. Por outro lado, esta é uma questão de respeito e de justiça para com as gerações futuras, que habitarão este Planeta depois de nós. Em que estado deixaremos este condomínio para nossos pósteros? A questão ecológica demanda com urgência uma nova consciência solidária. O zelo pelo Planeta é um desafio moral, que a humanidade precisa enfrentar com políticas adequadas de convivência e de interação responsável com a natureza.
Recentemente, na encíclica Caritas in Veritate (32), o papa Bento XVI apontou para a necessidade de uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e do sentido da economia e seus objetivos, para corrigir disfunções e deturpações, que têm implicação direta na deterioração do ambiente da vida na Terra. Por outro lado, não menos necessária é uma renovação cultural, para redescobrir os valores que constituem o alicerce firme sobre o qual se pode construir o futuro melhor para todos.
Para os cristãos e para os crentes em Deus, de modo geral, há um motivo a mais para tratar a natureza com profundo respeito e responsabilidade: ela é dádiva do Criador para todas as suas criaturas, não, certamente, para que a depredem e destruam, mas para que dela vivam e louvem a Deus. De modo especial, o ser humano foi feito “zelador do jardim” e colaborador inteligente e responsável no cuidado pela obra de Deus. Tratar mal a dádiva é desprezar e ofender o doador; e a vontade de potência absoluta do homem sobre a natureza é irresponsável, pois introduz a desordem no mundo; as consequências só podem ser desastrosas, como aquelas que já constatamos e lamentamos.
A Campanha da Fraternidade deste ano é um convite à reflexão e à ação para manter acolhedora e vivível para todos nossa preciosa casa no universo. Também para aqueles que a ocuparão depois de nós. É questão moral; questão de fraternidade.
Artigo publicado em O ESTADO DE SÃO PAULO, Ed. de 12.02.2011

terça-feira, 12 de abril de 2011

Fraternidade e ecologia humana

ZP11041208 - 12-04-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27722?l=portuguese
Artigo do cardeal Odilo Scherer

SÃO PAULO, terça-feira, 12 de abril de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos artigo do cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, publicado na edição desta semana do jornal ‘O São Paulo’. O texto é intitulado ‘Fraternidade e ecologia humana’.
* * * 
Na semana passada, ficamos todos chocados diante dos atos de barbárie cometidos numa escola no Rio de Janeiro, onde 12 adolescentes foram assassinados e 12 foram feridos por uma pessoa perturbada de cabeça; e, antes de terminar a mesma semana, numa tragédia semelhante, várias pessoas foram assassinadas num centro comercial na Holanda, sem nenhuma explicação plausível. Aparentemente, também se tratava de uma pessoa desequilibrada. Esses fatos chocantes, não totalmente raros, merecem uma reflexão.
De fato, muitas são as interrogações sobre os motivos de tais atos e outras tantas são as tentativas de explicar esse tipo de comportamento humano anormal e violento contra o próximo. Não pretendo explicar, mas parto de algumas constatações sobre o assassino do Rio de Janeiro; elas também aparecem, em certa medida, em outros casos semelhantes: mente perturbada, sinais de esquizofrenia, infância sofrida e carente de afeto, dignidade e autoestima machucadas e reprimidas durante a infância e a adolescência, desprezos suportados, isolamento social e comportamentos solitários, vivência num mundo de fantasia (internet), apreço por cenas de violência, paranóias de tipo religioso, acesso fácil a armas... Enfim, um ser humano profundamente desajustado e perturbado. 
Como se chega a isso? Certamente, os psicólogos e estudiosos do comportamento humano terão muito a dizer; a mente humana é complexa e as decisões pessoais dependem de uma série de fatores. De minha parte, desejo apenas refletir sobre a necessidade de uma renovada atenção ao ser humano, a cada pessoa em particular. Talvez hoje, no ritmo alucinante da vida social e econômica, acaba-se reservando pouco tempo e atenção à pessoa humana. Quanto tempo os pais têm para estarem com seus filhos pequenos e adolescentes, para ouvi-los, observá-los, falar com eles, perceber suas inquietações e problemas? Quem quer perder tempo com um adolescente problemático?
Quanto se leva em conta na educação os pequenos desequilíbrios de comportamento e caráter, que já podem aparecer na infância? Preocupam-nos as cenas de violência e desrespeito à dignidade humana, que povoam telas e telinhas e se instalam no inconsciente das crianças e adolescentes?
Durante a Campanha da Fraternidade, falamos dos problemas ecológicos e, com razão, preocupamo-nos com o equilíbrio ambiental, as mudanças climáticas e o futuro da vida no nosso planeta Terra; tudo isso tem repercussões no convívio humano e requer atitudes e comportamentos solidários e fraternos. E o próprio ser humano, fazendo parte desse delicado equilíbrio ambiental, não mereceria uma atenção especial também? Pelo menos, a mesma que se tem diante da destruição de plantas e bichinhos?
O papa Bento 16, na sua encíclica Caritas in Veritate, fala da necessidade de desenvolver uma verdadeira “ecologia humana” (cf, n.51); já tratara do mesmo tema o papa João Paulo 2º na encíclica Centesimus Annus (cf. n.38). A ecologia humana refere-se ao conjunto de modos como o homem trata de si mesmo e cuida do seu semelhante, dos hábitos pessoais e estilos no convívio social. Quem alimenta sua mente de violência, acabará praticando a violência um dia; o desprezo e o desrespeito pela dignidade do próximo desencadeiam fermentos de ódio e violência; os vícios cultivados e até incentivados são campo fértil para toda sorte de males. E quando tratado bem e estimulado à prática da virtude, o ser humano se torna semeador de obras de bem.

Cardeal Odilo P. Scherer
Arcebispo de São Paulo

quarta-feira, 16 de março de 2011

FRATERNIDADE E VIDA NO PLANETA


                                                          Dom Fernando Arêas Rifan*

Estamos na Quaresma, tempo de penitência e oração, cujo ponto alto é a Semana Santa, como preparação para a celebração da Festa da Páscoa. Na Quaresma, no Brasil, também se faz a Campanha da Fraternidade que, conforme explica a mesma CNBB, é uma campanha quaresmal, que une em si as exigências da conversão, da oração, do jejum e da doação, convocando os cristãos a uma maior participação nos sofrimentos de Cristo, vendo-o na pessoa dos pobres, que merecem nossa ajuda.
A Campanha da Fraternidade vem a ser, pois, um grande instrumento para desenvolver o espírito quaresmal, que é de conversão e renovação interior. Ela pretende renovar a vida da Igreja e transformar a sociedade, a partir de temas específicos, tratados sob a visão cristã, à luz do projeto de Deus. 
No Credo do Povo de Deus, Paulo VI exprimiu bem o pensamento da Igreja: “Nós professamos que o Reino de Deus iniciado aqui na Terra, na Igreja de Cristo, não é deste mundo, cuja figura passa, e que seu crescimento próprio não se pode confundir com o progresso da civilização..., mas consiste em conhecer cada vez mais profundamente as insondáveis riquezas de Cristo, em esperar cada vez mais corajosamente os bens eternos, em responder cada vez mais ardentemente ao amor de Deus e em difundir cada vez mais amplamente a graça e a santidade entre os homens. Mas é este mesmo amor que leva a Igreja a preocupar-se constantemente com o bem temporal dos homens,... suas necessidades, alegrias e esperanças, seus sofrimentos e seus esforços...”.
O tema da campanha nesse ano está bem explicado na mensagem enviada à CNBB pelo Santo Padre, o Papa Bento XVI, que transcrevemos a seguir.
“É com viva satisfação que venho unir-me, uma vez mais, a toda Igreja no Brasil que se propõe percorrer o itinerário penitencial da quaresma, em preparação para a Páscoa do Senhor Jesus, no qual se insere a Campanha da Fraternidade cujo tema neste ano é: ‘Fraternidade e vida no Planeta’, pedindo a mudança de mentalidade e atitudes para a salvaguarda da criação”.
            “Pensando no lema da referida Campanha, ‘a criação geme em dores de parto’, que faz eco às palavras de São Paulo na sua Carta aos Romanos (8,22), podemos incluir entre os motivos de tais gemidos o dano provocado na criação pelo egoísmo humano. Contudo, é igualmente verdadeiro que a ‘criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus’ (Rm 8,19). Assim como o pecado destrói a criação, esta é também restaurada quando se fazem presentes ‘os filhos de Deus’, cuidando do mundo para que Deus seja tudo em todos (cf. 1 Co 15, 28)”.
            “O primeiro passo para uma reta relação com o mundo que nos circunda é justamente o reconhecimento, da parte do homem, da sua condição de criatura: o homem não é Deus, mas a Sua imagem; por isso, ele deve procurar tornar-se mais sensível à presença de Deus naquilo que está ao seu redor: em todas as criaturas e, especialmente, na pessoa humana há uma certa epifania de Deus. Quem sabe reconhecer no cosmos os reflexos do rosto invisível do Criador, é levado a ter maior amor pelas criaturas. O homem só será capaz de respeitar as criaturas na medida em que tiver no seu espírito um sentido pleno da vida; caso contrário, será levado a desprezar-se a si mesmo e àquilo que o circunda, a não ter respeito pelo ambiente em que vive, pela criação. Por isso, a primeira ecologia a ser defendida é a ‘ecologia humana’. Ou seja, sem uma clara defesa da vida humana, desde sua concepção até a morte natural; sem uma defesa da família baseada no matrimônio entre um homem e uma mulher; sem uma verdadeira defesa daqueles que são excluídos e marginalizados pela sociedade, sem esquecer, neste contexto, daqueles que perderam tudo, vítimas de desastres naturais, nunca se poderá falar de uma autêntica defesa do meio-ambiente”.
            “O dever de cuidar do meio-ambiente é um imperativo que nasce da consciência de que Deus confia a Sua criação ao homem não para que este exerça sobre ela um domínio arbitrário, mas que a conserve e cuide como um filho cuida da herança de seu pai, e uma grande herança Deus confiou aos brasileiros”.

sexta-feira, 11 de março de 2011

INTERVENÇÃO DA SANTA SÉ NA 59ª SESSÃO ORDINÁRIA DA ASSEMBLEIA GERAL DA ONU SOBRE "O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL"


DISCURSO DE SUA EX.CIA D. CELESTINO MIGLIORE
5 de Outubro de 2004

Senhor Presidente
Tendo em consideração os resultados do Encontro de Joanesburgo (África do Sul), não podemos deixar de recordar que o desenvolvimento sustentável é um dos temas mais importantes e vitais das deliberações da Organização das Nações Unidas.
Se o Encontro Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável (WSSD) deve constituir o ponto de partida para a nova definição de uma cooperação internacional que interpele todos nós como sujeitos directamente interessados, é bom recordarmos que "os seres humanos se encontram no âmago das solicitudes pelo desenvolvimento sustentável. Eles têm o direito de levar uma vida sadia e produtiva, em harmonia com a natureza". Por este motivo, acreditamos que o desenvolvimento sustentável deve ser sempre considerado no contexto de uma autêntica ecologia humana.
Senhor Presidente
No seu Relatório sobre o Trabalho da Organização, o Senhor Secretário-Geral discorreu acerca dos elos de ligação entre os vários aspectos do desenvolvimento sustentável. Parece evidente a existência de uma rede de vínculos interdependentes em tudo aquilo que é necessário para promover o desenvolvimento sustentável.
Todos nós conhecemos os diferentes tipos de interligação, salientados no passado mês de Março em Jeju (Coreia), no âmbito da VIII Sessão Especial do Programa da Organização das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (UNEP), e depois no mês de Abril em Nova Iorque (E.U.A.), no contexto da Comissão da Organização das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (UNCSD), temas estes que serão ulteriormente aprofundados na próxima sessão da mencionada Comissão sobre o Desenvolvimento Sustentável, que terá lugar no mês de Maio de 2005.
Considerando problemáticas como a salvaguarda e a utilização dos recursos hídricos, a oferta de serviços médicos, a promoção das povoações humanas e da saúde pública, a redução da pobreza e a consecução das chamadas "Finalidades de Desenvolvimento do Milénio" (MDGs), deparamo-nos com uma complexidade de interligações e sinergias, que precisam de ser reguladas e novamente consideradas.
A Santa Sé oferece toda a sua assistência a este processo, em vista da sessão de 2005 da Comissão da Organização das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável e do seu encontro preparatório, que terá lugar no próximo mês de Fevereiro.
De igual forma, a Santa Sé tem o prazer de oferecer a sua ajuda à Conferência Mundial sobre a Redução das Calamidades, que se realizará durante o próximo mês de Janeiro em Kobe (Japão), e que terá como finalidade a promoção da integração das actividades que visam a redução das calamidades, nos programas destinados a combater a pobreza, a tutelar o meio ambiente e a contribuir para o desenvolvimento sustentável.
Senhor Presidente
Visando apressar o caminho rumo ao desenvolvimento sustentável, só se poderão dar passos nesta direcção através de uma participação mais activa das pessoas directamente interessadas. Mediante o compromisso concreto das mesmas, serão respeitados os princípios fundamentais da solidariedade e da subsidiariedade.
É através destes dois princípios que as pessoas directamente interessadas conseguirão compreender que as necessidades de todos, e não somente de alguns indivíduos, devem ser sempre tidas em consideração. Neste contexto, é importante garantir uma credibilidade apropriada da parte das pessoas responsáveis pelos programas e dos projectos que se levam a cabo em vista do desenvolvimento sustentável, de tal maneira que as decisões tomadas reflictam as preocupações das pessoas que estes mesmos programas têm a intenção de ajudar.
Neste sentido, seria extremamente útil se as pessoas marginalizadas pela sociedade fossem realmente consideradas como verdadeiras protagonistas do seu próprio desenvolvimento. Os seres humanos não são instrumentos, mas sim participantes centrais na determinação do seu próprio futuro. Nas várias circunstâncias económicas e políticas específicas, eles devem poder exercer a sua criatividade, que constitui uma característica da pessoa humana e da qual depende a riqueza das nações. Deste modo, o desenvolvimento sustentável deve ter em vista a sua inclusão, mas isto somente poderá ser alcançado mediante uma cooperação, participação e associação equitativas a nível internacional.
As pessoas marginalizadas, que constituem os sujeitos directamente interessados, encontram-se muitas vezes desprovidas da voz que lhes pertence na mesa das negociações. Somente o vínculo de solidariedade pode garantir uma mudança concreta a este respeito. Os verdadeiros progresso e prosperidade mundiais, no que se refere às questões relativas ao desenvolvimento sustentável, dependem na unificação dos interesses de todos os povos. A Santa Sé aproveita este ensejo para revigorar um género de solidariedade em que todos os indivíduos, e não apenas alguns, possam exercer em conjunto as diversas funções administrativas.
Senhor Presidente
Por fim, tendo em vista a Década Internacional em prol da Acção, denominada "Água para a Vida", a Santa Sé une-se a todos aqueles que reconhecem o lugar fundamental da água num desenvolvimento que tenha o ser humano no seu centro e que seja verdadeiramente sustentável.
A minha Delegação reconhece que a água não é apenas uma parte essencial da vida e do desenvolvimento, mas que todos têm o direito a dispor de água pura, segura e adequada para a promoção da vida.
Embora esta questão não pertença de maneira específica ao contexto do nosso presente debate, ao abordar as diversas problemáticas relativas ao desenvolvimento sustentável a Santa Sé acredita que o acesso à água constitui um bem humano fundamental, assim como um instrumento essencial para promover um desenvolvimento que esteja genuinamente centrado no ser humano e seja sustentável.
Obrigado, Senhor Presidente!

INTERVENÇÃO DO CHEFE DA DELEGAÇÃO DA SANTA SÉ NO ENCONTRO MUNDIAL DE JOHANESBURGO SOBRE O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


2 de setembro de 2002
 


Senhor Presidente
"Encontramo-nos aqui reunidos neste dia, em espírito de paz, para o bem de todos os seres humanos e para a salvação da criação. Neste momento da história, no início do terceiro milénio, ficamos profundamente amarguardos ao observarmos que um elevado número de pessoas sofrem quotidianamente, em virtude da violência, da miséria, da pobreza e das enfermidades em geral.
Estamos também profundamente preocupados com as consequências negativas, para a humanidade e para toda a criação, proporcionadas pela degradação de alguns dos seus recursos básicos, como a água, o ar e a terra, causada pelo progresso económico e tecnológico, que não reconhece nem tem em consideração os limites que lhe são próprios"(1).
Estas são as palavras iniciais da Declaração Conjunta, assinada no dia 10 de Junho de 2002, por Sua Santidade o Papa João Paulo II e o Patriarca Ecuménico, Sua Santidade Bartolomeu I. Elas parecem ser muito oportunas para introduzir a declaração da Santa Sé no Encontro Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável (WSSD).
Na esteira da Conferência do Rio sobre o meio ambiente
A partir da Conferência do Rio de Janeiro, realizada em 1992, no seio da comunidade internacional promoveram-se amplas discussões e debates sobre o desenvolvimento sustentável.
Trata-se de um conceito que já penetrou no terreno da história, um terreno que deve ser preparado para permitir que as raízes do desenvolvimento sustentável cresçam profundamente, a fim de darem muito fruto, em benefício de toda a humanidade.
Senhor Presidente
Os Estados vieram para este encontro, trazendo consigo singulares interesses, necessidades, recursos, direitos e responsabilidades. O elemento unificador nesta mistura orgânica das legítimas diversidades é e assim deve ser a pessoa humana, como foi enunciado pelo primeiro Princípio da Declaração do Rio de Janeiro:  "Os seres humanos encontram-se no centro das solicitudes pelo desenvolvimento sustentável. Eles têm direito a uma vida sadia e produtiva, em harmonia com a natureza".
"Com efeito, a maneira mais segura de salvaguardar a criação consiste em pôr o bem-estar do ser humano no centro da solicitude pelo meio ambiente"(2).
Reconhecer a dignidade e os direitos do homem
Considerando o facto de que qualquer acordo sólido e duradouro em favor do desenvolvimento sustentável deve reconhecer e salvaguardar a dignidade e os direitos da pessoa humana, a promoção contínua da centralidade do ser humano no debate sobre o desenvolvimento sustentável é do máximo interesse para a Santa Sé e a principal razão da sua presença neste importante Encontro mundial. A promoção da dignidade humana está vinculada tanto ao direito ao desenvolvimento, como ao direito a um meio ambiente sadio, uma vez que estes direitos realçam a dinâmica do relacionamento entre os indivíduos e a sociedade em geral; isto estimula a responsabilidade das pessoas em relação a si mesmas, ao próximo, à criação e, em última análise, em relação ao próprio Deus.
A este propósito, a Santa Sé continua a afirmar a sua séria preocupação, no que se refere aos três pilares interdependentes e mutuamente revigorantes do desenvolvimento sustentável:  o económico, o social e o ambiental, e à sua contribuição para o desenvolvimento humano verdadeiramente integral e para a promoção do bem-estar de todas as pessoas. O desenvolvimento é, em primeiro lugar e acima de tudo, uma questão que diz respeito à pessoa. Como o Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, Sua Ex.cia o Senhor Kofi Annan, quis realçar, "a Organização  das  Nações  Unidas  deve  pôr a pessoa no centro de tudo aquilo que ela faz, tornando-a capaz de corresponder às necessidades que lhe são próprias e de realizar a sua potencialidade integral"(3).
A Santa Sé não procurará acrescentar algo mais ao significativo discurso técnico, que está a ser promovido no que se refere ao desenvolvimento sustentável. Contudo, sente-se profundamente comprometida nos valores que inspiram as acções e as decisões relativas ao desenvolvimento sustentável, uma vez que as deliberações que se realizam têm um particular contexto histórico e conduzem directamente para os conceitos da pessoa, da sociedade e do bem-estar comum.
Salvaguardar as condições morais da "ecologia humana"
Há que reconhecer que as medidas jurídicas, económicas e técnicas não são suficientes para resolver os problemas que dificultam o desenvolvimento sustentável. Muitos destes problemas são questões de natureza ética e moral, que exigem uma profunda transformação dos modelos de consumo e de produção, típicos da civilização moderna, de maneira particular nos países industrializados. A fim de realizar esta mudança, "devemos encorajar e apoiar a "conversão ecológica" (...)(4) Enquanto justamente nos preocupamos, apesar de bem menos do que o necessário, em preservar o "habitat" natural das diversas espécies animais ameaçadas de extinção, porque nos damos conta da particular contribuição que cada uma delas dá ao equilíbrio geral da terra, empenhamo-nos demasiado pouco em salvaguardar as condições morais de uma autêntica "ecologia humana"(5).
A fim de assegurar o cumprimento da ecologia humana, é necessária a "educação para a responsabilidade ecológica. Esta educação não pode enraizar-se no mero sentimento, no desejo vazio [...] A verdadeira educação para a responsabilidade acarreta uma autêntica conversão no modo de pensar e de se comportar"(6), promovendo uma verdadeira cultura da vida, que deveria constituir a base de uma renovada cultura de desenvolvimento sustentável.
Senhor Presidente
A terra e todos os seus recursos constituem uma parte da "herança comum de toda a humanidade". Esta compreensão promove a interdependência, fomenta a responsabilidade e realça a importância do princípio da solidariedade global. Esta realidade torna-se o fundamento do desenvolvimento sustentável, orientando os imperativos morais da justiça, da cooperação internacional, da paz e da segurança, assim como o desejo de revigorar o bem-estar espiritual e material das gerações do presente e do futuro.
A urgência do apelo à "globalização da solidariedade"
Em resposta ao egoísmo e à indiferença, tanto no que diz respeito aos recursos naturais como ao abandono das pessoas com menos poder, dinheiro ou influência, a solidariedade é uma determinação firme e perseverante, em ordem a alcançar o bem comum e a prestar atenção ao próximo. Como tal, é um ideal exigente, que o Papa João Paulo II realçou com o seu apelo a uma "globalização da solidariedade".
"O grande desafio moral, que se coloca às nações e à comunidade internacional relativamente ao desenvolvimento, é ter a coragem de uma nova solidariedade, capaz de dar passos engenhosos e eficazes para vencer quer o subdesenvolvimento desumanizante, quer o "sobredesenvolvimento", que tende a reduzir a pessoa a uma mera unidade económica numa rede consumista"(7).
Hoje em dia, a pobreza absoluta continua a flagelar demasiados povos no mundo inteiro. Um elevadíssimo número de pessoas não têm acesso aos serviços sociais mais básicos, nomeadamente:  a água potável, os serviços sanitários seguros, a assistência médica, educação, o abrigo e a segurança. Um número demasidao alto de indivíduos não dispõe de um trabalho ou estão inadequadamente empregados. Muitas crianças, de maneira especial do sexo feminino, carecem de oportunidades educativas. Muitos adultos, particularmente as mulheres, são vítimas do analfabetismo e da falta de uma profissão, e não têm possibilidade de progredir economicamente e de se integrar sob o ponto de vista social. Muitas pessoas sofrem em virtude da devastação da enfermidade e da doença, de modo especial os efeitos da hiv/sida e da malária, que continuam a ter um impacto devastador, particularmente na África e na região do Caribe. Um número demasiado alto de indivíduos têm pouca esperança num futuro melhor.
A pobreza não pode ser definida apenas em termos económicos
Dado que ninguém pode ser alheio ou sentir-se indiferente perante a sorte dos outros membros da família humana (8), no contexto da solidariedade, a prioridade deve ser dada ao pleno desenvolvimento de todas as pessoas, mas de maneira especial às condições dos indivíduos que vivem na pobreza. Além disso, hoje a pobreza não pode ser definida simplesmente em termos económicos, mas de modo mais específico como a incapacidade que as pessoas têm de realizar a sua potencialidade, recebida como dádiva de Deus.
Hoje em dia, o tecido da sociedade humana é dilacerado pela falta de uma resposta às necessidades humanas mais elementares, que atingem milhões dos nossos irmãos e irmãs.
Nenhum sector, nem nenhum membro da família humana deveria ser reduzido a ponto de viver em condições sociais, económicas, ambientais, culturais e políticas sub-humanas. Talvez a pobreza extrema seja a violação mais abrangente e paralisadora dos direitos humanos no nosso mundo contemporâneo. Em conformidade com o princípio da subsidiariedade, os pobres devem ser escutados nos seus problemas e hão-de ocupar um lugar central nos programas locais, nacionais e internacionais em benefício do desenvolvimento sustentável. As pessoas que vivem na pobreza devem ser consideradas como sujeitos participativos. Os indivíduos e os povos não podem tornar-se instrumentos, mas devem ser os protagonistas do seu próprio futuro, capazes de ser "os agentes do seu desenvolvimento" e, "nas suas específicas circunstâncias económicas e políticas, [capazes](9) de exercer a criatividade que é característica da pessoa humana e da qual depende inclusivamente a riqueza das nações"(10). Qualquer iniciativa que contribua para o desenvolvimento e o enobrecimento das pessoas precisa de abordar tanto a essência espiritual como a existência material da pessoa humana (11).
A distribuição equitativa das reservas do mundo
Um dos elementos básicos para a existência humana é a água. Actualmente, um grande número das nossas famílias humanas devem enfrentar uma inadequada disponibilidade de água e um decrescente acesso à água potável, assim como uma grave falta de serviços sanitários. A responsabilidade primeira, no que diz respeito ao uso, à protecção e à gestão equitativos e sustentáveis das reservas de água do mundo inteiro está nas mãos dos governos. Na luta em ordem a desenraizar a pobreza, a água desempenha um papel vital, não apenas no que se refere à saúde, mas também um indispensável elemento de produção.
O presente Encontro mundial deve enfrentar este desafio em ordem a obter a disponibilidade deste fundamental recurso dador de vida, uma vez que, se este problema não for abordado, as pessoas que não têm acesso à água poderão ir ao encontro da sua própria morte.
Outra prioridade principal no desenvolvimento sustentável é o progresso nas áreas rurais. Nestas regiões vive mais de metade da população mundial, e os pobres que moram nas áreas rurais carecem, com frequência, do acesso ao serviços sociais mais básicos. Por vezes, o aumento da urbanização moderna tem levado ao esquecimento das populações rurais.
Contudo, são precisamente os elevados níveis de pobreza nas áreas rurais que têm contribuído, de maneira substancial, como factor propulsor da migração de tais populações para as áreas urbanas.
O papel do bom governo na luta contra a pobreza
Tendo em mente o princípio da subsidiariedade, o bom governo constitui um dos requisitos prévios na luta contra a pobreza. Ele está ao serviço do bem comum. Para que o bom governo obtenha o desejado êxito, devem existir novos compromissos conjuntos que promovam o investimento nas pessoas e nas infra-estruturas, e que facilitem a participação dos cidadãos nas decisões que dizem respeito às suas próprias vidas. O sistema democrático é considerado neste contexto, na medida em que procura assegurar a possibilidade de participação dos cidadãos nas opções políticas e de terem uma voz no governo. Este é o processo a que o Papa João Paulo II se referiu, definindo-o como "subjectividade da sociedade", que se fundamenta na "criação de estruturas de participação e co-responsabilidade"(12), ambas fundamentais para o bom governo. O governo pode definir-se como bom, quando a potencialidade do ser humano é orientada para a participação criativa no próprio governo e na sociedade em geral. No contexto da comunidade internacional, o bom governo exige que todos os Estados, inclusivamente o mais pobre e o menor de entre eles, tenham acesso aos organismos decisórios que determinam a política e promovem a cooperação internacional.
Senhor Presidente
Em 1995, o Papa João Paulo II falou de uma renovação do espírito no contexto do sistema da Organização das Nações Unidas, expressando-se com as seguintes palavras:  "A Organização das Nações Unidas tem necessidade de se elevar cada vez mais, acima do estado arrefecido de uma instituição administrativa, para se tornar um centro moral em que todas as nações do mundo se sintam em casa e desenvolvam uma consciência conjunta de ser, por assim dizer, uma "família de nações". A ideia da "família" evoca imediatamente algo mais do que as simples relações de funcionalidade ou uma mera convergência de interesses. A família é, por natureza, uma comunidade fundamentada na confiança recíproca, no apoio mútuo e no respeito sincero. Numa família autêntica, os fortes não dominam; pelo contrário, em virtude da sua debilidade, os membros mais frágeis são ulteriormente ajudados e servidos"(13).
No nosso mundo interdependente e globalizante, este é o espírito da "família" que deve ser promovido, se quisermos realizar o progresso autêntico em ordem às finalidades e às ideias do desenvolvimento sustentável. Somente se houver uma compreensão da necessidade recíproca e da criatividade mútua, é que a humanidade poderá caminhar para a realização de uma vida melhor para todos os povos do mundo, para todos os membros da "família das nações". Unindo as ideias da necessidade e da criatividade aos conceitos da confiança, do apoio e do respeito, o processo de desenvolvimento sustentável não apenas progredirá, mas será também fortalecido nos seus esforços em ordem à eliminação da pobreza, da protecção do meio ambiente, da promoção dos direitos humanos e do pleno respeito pela nossa dignidade humana conjunta.
O resultado deste Encontro mundial deve prestar a justa atenção às acções destinadas à consecução do desenvolvimento humano, económico e social, aspectos estes que correspondem ao próprio fundamento do desenvolvimento sustentável.
A Santa Sé formula votos a fim de que o resultado deste Encontro mundial seja não apenas positivo, mas inclusivamente inovativo e clarividente, e que os compromissos nele assumidos levem o mundo e a humanidade a progredir, de maneira a poderem contribuir verdadeiramente para o bem-estar espiritual e material de todas as pessoas, das suas respectivas famílias e das suas comunidades.
Em ordem a contribuir para a realização desta esperança, no contexto deste Encontro Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável, a Santa Sé exorta ao "dom de si", dado que o ser humano não se pode encontrar plenamente a si mesmo, senão na abnegação. Em resposta ao egoísmo e à indiferença, em última análise, o "dom de si" assegura o bem-estar aos outros e às gerações futuras, contribuindo desta forma para o desenvolvimento sustentável. Este conceito constitui o fundamento dos outros tipos de associações e uniões de voluntariado, que o Encontro Mundial sobre o Desenvolvimento Sustentável deseja promover. O "dom de si" é o uso mais nobre que a pessoa pode fazer da liberdade humana, assim como o fundamento para uma acção destinada à promoção do desenvolvimento humano integral.
Obrigado, Senhor Presidente.

Notas
 1) Papa João Paulo II e Patriarca Ecuménico Bartolomeu I, Declaração Conjunta no IV Simpósio sobre Religião, Ciência e Meio Ambiente, Roma-Veneza, 10 de Junho de 2002.
 2) João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1999, n. 10.
 3) Kofi Annan, Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, Discurso no 44º Encontro Plenário da Assembleia Geral, na 56ª Sessão, 10 de Novembro de 2001.
 4) João Paulo II, Audiência geral de 17 de Janeiro de 2001.
 5) João Paulo II, Carta Encíclica Centesimus annus, 38, 1 de Maio de 1991.
 6) João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 1990, n. 13.
 7) João Paulo II, Exortação Apostólica pós-sinodal Ecclesia in Asia, 32, 6 de Novembro de 1999.
 8) João Paulo II, Carta Encíclica Centesimus annus, 51.
 9) João Paulo II, Homilia no Jubileu dos Trabalhadores, 1 de Maio de 2000.
10) João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2000, n. 17.
11) João Paulo II, Discurso aos Membros da Conferência Episcopal dos Bispos Católicos da Nigéria, em visita "ad limina Apostolorum", 9 de Maio de 2002.
12) João Paulo II, Carta Encíclica Centesimus annus, 46.
13) João Paulo II, Discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, na Sessão do 50° aniversário desta Instituição, 5 de Outubro de 1995.

Desenvolvimento sustentável: ser humano não é um obstáculo

ZP11031103 - 11-03-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27464?l=portuguese
Santa Sé convida ONU a reconsiderar certas políticas de desenvolvimento

NOVA YORK, sexta-feira, 11 de março de 2011 (ZENIT.org) - As pessoas humanas deveriam ser consideradas o objetivo do desenvolvimento, ao invés de um obstáculo para ele, segundo o delegado da Santa Sé nas Nações Unidas.
Na segunda-feira passada, Charles Clark, professor de economia da Universidade St. John, dirigiu-se ao Segundo Comitê Preparatório da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável, em nome do arcebispo Francis Chullikatt, observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas.
Os encontros estão sendo realizados como preparação para a Conferência de Desenvolvimento Sustentável Rio+20, que terá lugar de 4 a 6 de junho de 2012, no Rio de Janeiro, no 20º aniversário da Cúpula da Terra, de 1992.
Clark disse que, "para alcançar o objetivo ‘economia verde, desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza', minha delegação está confiante em que não esqueceremos que a finalidade do desenvolvimento é o desenvolvimento humano integral e que todas as nossas estratégias e práticas devem ser julgadas com base nessa norma: que o ser humano é e deve continuar sendo a nossa principal preocupação".
"Se os humanos, em sua plena humanidade, não são considerados como o objetivo final do desenvolvimento, conforme acordado no Rio há 20 anos, então tememos que os seres humanos sejam, para muitos, como o primeiro obstáculo para o desenvolvimento", advertiu.
O delegado acrescentou que "estamos certos de que estes seres humanos serão: os pobres, os marginalizados, aqueles que causam incômodo, aqueles que ainda não nasceram e aqueles que, devido à sua deficiência, idade ou doença, são incapazes de se defender".
E observou que "muitas das estratégias de desenvolvimento e políticas que não conseguiram promover um desenvolvimento humano integral no passado, fracassaram porque os seres humanos foram reduzidos a uma sombra de sua humanidade".
Clark explicou que, "por um lado, dizem-nos que o egoísmo e a cobiça são os únicos controladores da conduta humana, e que os ‘mercados livres' são o que é preciso para converter o vício privado em virtude pública".
"Por outro lado, dizem-nos que a natureza humana é o que a sociedade produz, dando-nos uma estratégia de desenvolvimento que focaliza as estruturas e instituições, esperando que as instituições de direito sejam suficientes para promover o desenvolvimento."
Toda a verdade
O gestor admitiu que "cada opinião tem uma parte da verdade: os seres humanos muitas vezes se deixam levar ​​pelos próprios interesses, e as instituições sociais formam, em grande medida, os comportamentos e ações humanos, mercados e políticas de governo, ambos com o potencial de promover o bem comum".
"Mas a humanidade não pode ser reduzida aos egoísmos individuais ou construções sociais", disse o delegado.
"Um entendimento completo do que significa o ser humano também deve incluir a solidariedade básica, que é parte necessária da nossa humanidade, coerente com a dignidade fundamental de cada pessoa e que pede justiça", afirmou.
"Uma economia não baseada em uma ética que tenha como centro as pessoas e a moralidade, certamente instrumentará as riquezas da terra para o benefício dos ricos e poderosos", advertiu Clark.
E continuou: "Os indicadores sociais e ambientais, que podem ser ferramentas importantes para ajudar a promover um autêntico desenvolvimento humano, na hora de elaborar estatísticas e falsos objetivos, dão a aparência de progresso, mas não refletem a realidade do verdadeiro progresso".
"Ou pior, podem tornar-se pretextos para sacrificar os direitos humanos e agredir a dignidade humana, tudo a partir de uma visão distorcida do bem comum."
"O desenvolvimento real não pode ser produzido apenas por mudanças em estruturas de mercado ou de incentivos - disse o delegado. Igualmente importante é a mudança necessária nos nossos corações e mentes, bem como em nossos atos subsequentes."

quinta-feira, 10 de março de 2011

Lazer, ecologia e trabalho segundo São Josemaría Escrivá

ZP11031006 - 10-03-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27456?l=portuguese
Fala Rafael Hernández Urigüen, autor do livro sobre estes temas

Por Miriam Díez i Bosch
SAN SEBASTIÁN, quinta-feira, 10 de março de 2011 (ZENIT.org) - O descanso, o lazer, o meio ambiente e o trabalho como meios de santificação são temas que o fundador do Opus Dei abordou em várias ocasiões.
Hernández Urigüen, sacerdote, professor e capelão da School of Management Assistants (ISSA) de San Sebastián (Espanha), responde, nesta entrevista concedida a ZENIT, sobre estes aspectos recreativos e ecológicos de São Josemaría Escrivá de Balaguer, compilados em seu livro "Juego, ecología y trabajo: tres temas teológicos desde las enseñanzas de San Josemaría Escrivá" (Editorial EUNSA).
ZENIT: Em geral, as pessoas relacionam o Opus Dei com o trabalho. Você, no entanto, traz à tona a dimensão lúdica em São Josemaría Escrivá.
Dr. Hernández: São Josemaría sempre concebeu o trabalho como a matéria habitual de santificação para os leigos que seguem Jesus de Nazaré, principalmente nos anos da vida oculta - cerca de trinta anos -, trabalhando como artesão.
Mas veja: Jesus Cristo é o Filho que trabalha com a plena liberdade de quem recebeu tudo de Deus Pai. O Senhor afirma que o Pai trabalha sempre e Ele - Jesus - só faz o que aprendeu dessa atividade da Primeira Pessoa. O trabalho, então, já não é um símbolo de escravidão ou condenação fastidiosa pelo pecado original, mas uma atividade pela qual os que se identificam com Jesus Cristo podem realizar toda a alegria dos filhos e filhas de Deus.
Quem se alegra com o que executa está vivendo uma dimensão lúdica: pode divertir-se até mesmo em seu esforço. O esforço é um desafio que implica em ativar os recursos das virtudes e da criatividade.
São Josemaría insistia, com sua vida e seus ensinamentos, em que os batizados, enquanto lidam com as suas tarefas, são contemplativos no meio do mundo.
A tese que defendo no livro é que a dimensão lúdica pode e deve envolver o trabalho cotidiano de homens e mulheres.
ZENIT: Então, para São Josemaría, descansar e divertir-se é tão importante como trabalhar?
Dr. Hernández: São Josemaría aconselhou sempre conciliar o trabalho com o descanso, e buscou que os fiéis da Prelazia aprendessem a equilibrar um trabalho exigente e sério com períodos de descanso: esportes, excursões, conversas familiares, cultivo da leitura, hobbies... Sempre incentivou a plena liberdade de seus filhos e filhas espirituais, encorajando-os a ser sempre eles mesmos e desenvolver ao máximo a personalidade de cada um, sem clichês ou moldes uniformizadores.
Além disso, o sentimento de filiação divina levava São Josemaría a promover o bom humor entre todos e a desdramatizar as situações. Na luta espiritual, ele usava imagens da ginástica, do esporte. De fato, existem gravações de suas catequese nas quais ele imita, diante de milhares de jovens e outras pessoas, gestos de saltadores com vara nos jogos olímpicos. Ele falava do espírito esportivo como atitude que traduz ao âmbito humano a virtude teologal da esperança.
Insistia em que a vida espiritual, inclusive a luta ascética, não consiste apenas em evitar a queda, mas em levantar-se, uma e outra vez, quando se falha. Chegava a definir a vida interior como "começar e recomeçar".
Sempre cuidou do descanso dos outros, inclusive com dicas práticas. Por exemplo, a alguém intelectual muito estressado, podia prescrever: "Dedique alguns dias só a remar, leia Tintín (ou outra história em quadrinhos), reze três Ave-Marias à noite e tente dormir muito e bem".
Claro que ele sabia como todas aquelas pessoas que o seguiam eram pessoalmente muito exigentes no seu trabalho diário e no serviço aos outros e que, depois de um período de descanso, voltavam com renovado vigor.
ZENIT: A ecologia realmente preocupava São Josemaría Escrivá de Balaguer?
Dr. Hernández: No livro "Lazer, ecologia e trabalho", o segundo capítulo desenvolve algumas dicas de como o ensinamento de São Josemaría oferece ideias muito inovadoras para exprimir a mensagem cristã com a linguagem da ecologia, e também para iluminar o problema ambiental a partir de uma espiritualidade que, em suas próprias palavras, permite "devolver à matéria seu nobre e original sentido".
Seus escritos envolvem toda uma teologia da criação e da redenção, na qual se afirma que "o mundo é bom, porque as obras de Deus são sempre perfeitas, e somos nós, os homens, que tornamos o mundo ruim, pelo pecado" (Conversaciones, 70).
Descobri também em seus escritos os estilos de vida cristã que favorecem o cuidado do meio ambiente: formas concretas de vida sóbria, sem deixar-se levar pelo consumismo; cuidado com os objetos que usamos, evitando que quebrem ​​desnecessariamente; e a "naturalidade". Esta expressão do santo sempre me fascinou, porque fomenta uma sábia aceitação da natureza e da forma de desenvolvimento dos cristãos simples, de acordo com o espaço e o tempo.
Outros textos fascinantes de São Josemaría aludem à sua própria maneira de celebrar a Missa. Ele estava convencido de que, ao celebrar a Missa, "estão presentes todas as criaturas de Deus - a terra, o céu e o mar, os animais e as plantas -, dando glória ao Senhor a criação inteira".
Outra imagem que eu uso muitas vezes se refere ao testemunho e à ação dos cristãos leigos no meio de um mundo muitas vezes manchado pelo pecado: nós temos que seguir no meio deste mundo podre; no meio deste mar de água suja; entre os rios que passam pelas grandes cidades e vilarejos, e que não têm em suas águas a virtude de fortalecer o corpo, de apagar a sede, porque envenenam. Meus filhos, no meio da rua, no meio do mundo, temos de estar sempre procurando criar em torno de nós um paraíso de águas limpas, para que cheguem outros peixes e, juntos, vamos expandindo o remanso, purificando o rio, devolvendo sua qualidade às águas do mar.
ZENIT: Que contribuição teológica oferece Escrivá de Balaguer?
Dr. Hernández: Em minha opinião, uma contribuição de primeira ordem. Embora ele não tenha se proposto expressamente a fazer teologia, seu carisma e seus ensinamentos oferecem ideias que sempre iluminam, como comentei anteriormente, os problemas da história, sempre a partir da luz original: santificar-se por meio do trabalho e das circunstâncias cotidianas do cristão no meio do mundo.
É uma visão muito positiva do mundo e das realidades humanas, que estimula o homem e a mulher batizados, sem se afastarem do mundo, a completarem a tarefa que Deus nos confiou com relação à criação.
ZENIT: O que seria o materialismo cristão, segundo o fundador do Opus Dei?
Dr. Hernández: No livro, é amplamente discutida esta expressão original de São Josemaría. Ele falou dela no Campus Universitário de Pamplona, durante a manhã de 8 de outubro de 1967. Estas são algumas das suas expressões: "O autêntico sentido cristão - que professa a ressurreição de toda carne - sempre enfrentou, como é lógico, a desencarnação, sem medo de ser julgado de materialismo. É lícito, portanto, falar de um materialismo cristão, que se opõe audazmente aos materialismos fechados ao espírito" (Conversaciones con Mons. Escrivá de Balaguer, 115).
Em uns parágrafos anteriores, ele mesmo explicou seu sentido: "Não há outro caminho, meus filhos: ou sabemos encontrar o Senhor em nossa vida cotidiana, ou não o encontraremos jamais".
Mais informações: http://www.eunsa.es/index.php?pagina=1&id_libro=1554&codigo_materia=&nombre_materia=&seccion=libro&plantilla=libro
Vídeo: http://www.eunsa.es/videos/videos.php

quarta-feira, 9 de março de 2011

CF 2011: Creio em Deus, Pai Criador

ZP11030807 - 08-03-2011
Permalink: http://www.zenit.org/article-27439?l=portuguese
Artigo do cardeal Odilo Scherer

SÃO PAULO, terça-feira, 8 de março de 2011 (ZENIT.org) - Apresentamos artigo do cardeal Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo, sobre o tema da Campanha da Fraternidade da Igreja do Brasil. O texto foi veiculado na edição desta semana do jornal “O São Paulo”.
* * *
CF 2011: Creio em Deus, Pai Criador
A Campanha da Fraternidade de 2011 (CF-2011) propõe uma questão de evidente atualidade: fraternidade e a vida no nosso Planeta. Nem é preciso argumentar muito para justificar a escolha desse tema pela CNBB: Já faz tempo que estudiosos estão alertando para o fenômeno do aquecimento global e suas consequências para o clima e para o equilíbrio ecológico.
As conferências mundiais sobre o clima, que congregam as maiores autoridades científicas da área, deixam sempre mais evidente que o sistema produtivo da economia moderna e contemporânea desencadeia intervenções inadequadas do homem na natureza e se constitui numa ameaça real para o equilíbrio ecológico e até mesmo para o futuro da vida na terra. Em contraste com tais constatações, nas mesmas movimentadas conferências sobre o clima, as principais autoridades políticas e econômicas do planeta não conseguem chegar a um acordo sobre as medidas a serem adotadas para sanar o problema e prevenir os riscos. É difícil redimensionar o desenvolvimento econômico, quando a receita é renunciar a certo padrão de consumo dos recursos naturais, que equivale à depredação e depauperamento da natureza. Exigimos da natureza mais do que ela pode oferecer, sem comprometer a sua sustentabilidade.
A CF-2011 convida a encarar seriamente a responsabilidade humana em relação ao futuro da vida no planeta Terra, o “ninho da vida” no universo, a casa comum da grande e diversificada família humana. O Texto Base, que apresenta a proposta da CF, traz argumentos e reflexões sobre o fenômeno do aquecimento global e os motivos que deveriam levar todos a pensar sobre o que é possível fazer e o que não se deveria fazer, para evitar a deterioração do ambiente da vida na Terra. Argumentos bíblicos e teológicos deveriam motivar os cristãos e todos os crentes em Deus a uma verdadeira conversão nos modos de viver e de se relacionar com a natureza, quando ficam comprometidas a qualidade da vida e a fraternidade na família humana. Todos são convidados a se envolverem na CF-2011.
Destaco dois motivos de fundo religioso, que deveriam ser levados em conta por todas as pessoas de fé no tocante à questão ecológica. Primeiramente, tratar bem a natureza e cuidar do pedaço do planeta que ocupamos está implicado na nossa fé no Deus Criador. Professamos a fé no Deus, Criador do Céu e da Terra, não importa como, ou quando isso aconteceu. A ciência pode continuar a pesquisar sobre a origem do universo e da vida na Terra e isso não contradiz a nossa fé no Deus Criador. O certo é que não fomos nós que demos origem a toda essa beleza e grandiosidade. Dizer que tudo isso surgiu por si mesmo é um grande absurdo.
Mas também aprendemos da nossa fé que Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, confiando-lhe o cuidado do “jardim da vida”. Embora pequeninos entre as criaturas do grande universo, somos importantes e Deus nos trata com predileção especial. O poeta do Salmo tem consciência disso, quando exclama, admirando o céu numa noite estrelada: “Que é o homem, Senhor, para que dele te ocupes?! No entanto, Tu o fizeste pouco menor que um deus... Tu o colocaste à frente da obra de tuas mãos!” (cf Sl 8). Sim, Deus colocou o mundo à disposição do homem; não para que acabe com ele, e sim, para que dele viva e usufrua, mas também para que zele por ele, qual bom administrador. Cuidar bem da natureza é sinal de fé e de gratidão para com o Deus Criador. Avançar sobre a natureza com a vontade de possuir e dominar é cair novamente na tentação de “ser deuses”, como Adão e Eva no paraíso (cf Gn 3). Quando o homem resolve assumir o lugar de Deus, desprezando seu desígnio, a desordem e o caos entram no mundo, com seus frutos de injustiça, violência e morte.
O outro motivo, relacionado com o primeiro, é de fundo ético e moral: Cuidar bem da Terra, nossa casa comum, é questão de responsabilidade e solidariedade. Os bens da criação foram colocados por Deus à disposição de todas as suas criaturas; descuidar da natureza, ou estragá-la, é falta de respeito e de justiça para com o próximo e para com as futuras gerações. Não somos os únicos a ocupar esta casa, nem seremos os últimos; e é moralmente correto pensar nos outros, quando nos relacionamos com a natureza. Não ficará bem deixar atrás de nós um paraíso depredado, o mundo cheio de lixo, as terras desertificadas, as águas contaminadas, o ar irrespirável, o equilíbrio ecológico comprometido... A CF-2011 é um convite a refletir, para formar uma consciência comum sobre nossa responsabilidade e para tomar decisões eficazes sobre os cuidados que a Terra merece. É nossa casa comum. E ainda será a casa dos que viverão depois de nós.
Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo