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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Homenagem a Johan Huizinga


Em 1º de fevereiro de 1945, morria, na pequena cidade holandesa de De Steeg, confinado pelo exército nazista,
o grande historiador holandês Johan, Huizinga, nascido em 1872.
A entrevista que segue abaixo foi concedida pelo renomado historiador francês Jacques Le Goff a Claude Mettra, em 1980, quando uma outra edição francesa do livro tornou-se fiel a seu título original, Outono da Idade Média, antes, como em português o título era Declínio da Idade Média, Le Declin Du Moyen Age.
Posto que ela continua surpreendentemente viva e traz um olhar deveras profético, a obra maior de Johan Huizinga representa um território que cada geração descobre mediante um olhar diferente. No seu primeiro encontro com o público francês, ela surgiu sob a luz agônica que evidenciava em seu título inicial. O séc. XV era então visto como a noite escura que precede a aurora da Renascença. Totalmente outra é a visão de Huizinga, como demonstra aqui Jacques Le Goff nesta entrevista a Claude Mettra.
CM- O gde livro de J. Huizinga, “L`Automne du Moyen Age”, publicado nos Países Baixos em 1919, foi traduzido na França em 1932 e apareceu sob o título “Le déclin du Moyen Age”. A escolha de tal título é significativa, uma vez que se refere a uma visão cara a historiografia do séc. XIX: a Renascença nascida como um mundo novo, teria de surgir das cinzas do mundo antigo, um mundo velho, decrépito, precisamente no séc. XV que é o período privilegiado de J. Huizinga. E is que regressamos a “L`Automne du Moyen Age”. Mas qual Outono?
JLG- Sem dúvida Huizinga foi influenciado pelo livro de Spengler: “Le déclin de L`Occident” que foi muito mais criticado do que elogiado por ele. Contudo a tradução francesa do livro é uma traição. À primeira vista, “O Outono da Idade Média”, longe de ser uma desvalorização moral que porta a palavra declínio, nos instrui a beleza e a dimensão poética do livro. E esta poesia em última instância está refletida na tradução em toda a sua amplitude, pois toda a grandeza que J. Huizinga tem da história perpassa a palavra Outono.
O Outono é esta estação em que aparentemente toda a fecundidade e todas a contradições da natureza parecem exasperar-se. É nela que, na arte, Eugenio d`Ors chama de fase barroca, onde a natureza se manifesta nua, sem máscara, a exaltação das tendências profundas de uma época. Essa exaltação em si é fascinante. Pois, como canta Agrippa d`Aubigné:
“uma rosa outonal e mais que deliciosa”
Num tal momento da história, os contrastes surgem com extraordinária clareza, quando se pode compreender melhor o que é uma civilização, quando se tem em plena luz as tensões que lhe são implícitas.
CM- E seria no outono que se elabora a fermentação para a primavera que está para chegar.
JLG- Penso que se deveria perguntar a J. Huizinga qual seria a questão fundamental de seu livro, ele teria de falar sobre a imbricação íntima da Idade Média nisso que chamamos Renascimento. Pois a Idade Média do século XV é um autônomo exasperado, que traz ao lado de toda morte o seu contrário: uma extraordinária pujança de tal modo viva que continuará presente em pleno séc. XVI, como bem o mostra Lucien Febvre no seu Rabelais. Da mesma forma no séc. XV é o século seguinte que se faz perceber.
Em realidade, sabe-se o quanto Huizinga esteve no gene das periodizações imperativas que tiveram curso na pesquisa historiográfica. Os conceitos de Idade Média e Renascença são para ele formas vazias. Ele sabia muito bem que o problema estava além da repartição abstrata do tempo. Quando se atinge as camadas profundas da história, se percebe que há continuidades.
Há as camadas que insistem em se exasperar, outras em serem afáveis. Outras nascem lentamente; mal se enxerga a fonte. Em tal nível de profundidade, a periodização se torna impossível.
CM- E esta poderia ser a explosão implícita nos quadros temporais presentes no “Outono da Idade Média”, essa liberdade, essa atitude algo oceânica, mais em acordo com a sensibilidade de 1975 que à de 1920?...
JLG- De fato, o livro parece ser um pouco moderno em demasia para o momento em que apareceu, ainda que não tenha produzido o mesmo choque. Ou, tal finalidade da visão de J. Huzinga, e creio que a oportunidade de se obtê-la a partir de quaisquer palavras-chave que põem nua a natureza desta descoberta do passado.
E a bordo a palavra “vida”. Como testemunham os próprios títulos dos capítulos do livro: “O sabor acre da vida”, “A aspiração por uma vida mais bela”, “A arte e a vida”...É um dos temas que nos reporta a Lucien Febvre.
Mas o que significa essa fome de vida? Que em 1919 os historiadores que não eram marxistas e tampouco se julgaram herdeiros do positivismo puderam enfileirar-se diante de um certo vitalismo. Mediante a vida, eles tentaram incorporar a biologia à história, eles buscaram a presença do corpo vivo, dentro de um ambiente ele mesmo vivo. Na primeira página do livro, esta constatação, fundamental: “A doença e a saúde apresentavam um grande contraste”, e um pouco mais além, “A oposição entre a luz e as trevas, o silêncio e o barulho era ainda maior que hoje em dia”.
Em primeiro plano, a palavra “vida”: o uso do corpo, e dos sentidos.
CM- E em relação a esta relevância do cotidiano define-se por outro lado isto que está além do corpo, além dos sentidos. J. Huizinga vai fazer do sonho um personagem ativo da história.
JLG- A palavra mesmo de sonho se reencontra como aquela de visão, todas as vezes que J. Huizinga vem nos livrar da visão global dos homens da Idade Média. Há o sonho de heroísmo e de amor, herança da cavalaria; há a visão da morte, a presença constante das emoções, quer reveladas ou escondidas, e dos fantasmas. Há uma bifurcação psicanalítica que se encontra, na terceira palavra chave, após vida e sonho no Outono da Idade Média, a palavra Imagem.
Pois aqui tudo aquilo que é imagem é posto em primeiro plano. J. Huizinga se esforça por enfatizar a imagem e todo o campo imaginário em detrimento do que os marxistas chamam de infra-estruturas econômicas, por assim dizer. Para os marxistas tradicionais toda a representação do mundo pertencem ás superestruturas.
E aqueles que hoje nos confirmam as intuições de Huizinga não são os historiadores, são os etnólogos, feito Maurice Godelier por exemplo, que descobriu nas sociedades arcaicas um pensamento simbólico e as representações profundamente inscritas no desenvolvimento humano, que eles definem como infra-estruturas. E não é sem razão que com um pressentimento genial Huizinga se refere frequentemente à etnologia e às comunidades primitivas, ainda que seu conhecimento pareça confuso e seu comparatismo seja pouco crítico.
CM- A este olhar sobre o sonho está ligado um olhar sobre as quimeras e sobre o que hoje aprendemos a chamar de loucura. Sob certos aspectos a descrição que Huizinga faz da relação medieval entre os indivíduos e o sonho parece ir de encontro com o descontentamento das correntes anti-psiquiátricas atuais, representadas por Ronald Laing. Para ele o séc. XV deu ao individuo uma identidade pessoal inalienável. E a rispidez do Outono Medieval seria quase um anti-loucura.
JLG- Por muito tempo fomos batidos por pelo conceito de uma Idade Média desconhecedora do indivíduo. Esta é uma das falhas do belo livro de Eric Erikson sobre Lutero, pois ele vê o indivíduo tendo sua identidade formada a partir da reforma. Na verdade, no séc. XV, a relação entre indivíduo e grupo é singular.
A pessoa se constitui a partir da afetividade, sensibilidade e emoção, e é isto que estamos em via de redescobrir. Resta saber de que material dispõe um historiador para descrever tal afetividade. J. Huizinga se apoiou na literatura e na arte....Evidentemente, se houve alguma mudança depois de 1919, foi essa aproximação da literatura. Depois desse período a sociologia da literatura nos trouxe grandes luzes para a relação entre as obras e o real (?), como testemunha temos por exemplo o belo livro de Erich Kohler, “A Aventura cavaleiresca : ilusão e realidade no romance cortês”. Globalmente, J. Huizinga considerava a literatura como expressão da sociedade, até mesmo seu espelho conquanto com algumas dúvidas. Ele alega que a literatura é uma realidade entre outras, ainda que traga relações fortes de sentido com estas outras realidades.
No mínimo as obras fornecem o inventário de um certo número de fenômenos que hoje em dia a História considera fundamentais: o modo como as pessoas comiam, se vestiam, divertiam, brigavam, amavam. Desde então, os historiadores tentam fundar um “corpus” da realidade do tempo, o que Huizinga não pôde suspeitar. É necessário reconstituir, por exemplo, a partir de textos e da iconografia, o sistema gestual da Idade Média ou de um período da Idade Média. Mas esta é a questão. Em se buscando ajuda nos trabalhos dos etnólogos, seria possível uma aproximação das intuições de J. Huizinga: o fato de que deve-se ir longe em busca dos sentidos de representação de uma sociedade e do lugar que este sistema ocupa na estrutura da sociedade e na “realidade”.
CM- Na busca por representações J. Huizinga considera fundamentais a inteligência do corpo e do princípio sensorial. A vida se dava mediante o uso que o homem fazia da orelha, do olho, boca, mão, nariz. O Outono da Idade Média está repleto de sons, perfumes, e mesmo de carícias.
JLG- Como pode um historiador abarcar tal uso dos sentidos? Tarefas consideráveis estão em curso, em particular nas pesquisas sobre a representação do corpo feminino na literatura, nos tratados de medicina, em todas as fontes que são testemunhas.
Grosso modo, temos uma documentação profundamente mais vasta que a de que dispunha Huizinga. Resta lê-la. Um grande progresso esta sendo feito, graças aos historiadores e aos filósofos da história como Paul Zumthor e Michel Foucault adeptos da noção de documento-momento. Contrariamente ao que cria a história positivista, o documento não é um material que se encontra ao acaso: ele detém o segredo de uma época, as razões precisas, voluntárias e involuntárias, e não podemos utilizar deles sem antes analisarmos seu lugar e função no sistema social em seu conjunto.
Resta que não sabemos como encontrar o documento-momento. Em seguida, há os silêncios da história, pois uma sociedade funciona silenciando-se sobre uma parte de si mesma.
CM- E as pessoas também funcionam da mesma maneira.
JLG- A relação do historiador com os silêncios é extremamente significativa.
O silêncio, essa foi uma das grandes descobertas de Michelet. Mas ele a interpretou à sua moda: ele o via sobretudo como o espelho da opressão. O silêncio, este seria a palavra totalmente reduzida, e com uma visão por sua vez passional e perigosa da História como ressurreição integral do passado, ele quis, intuitivamente, preencher os silêncios. Mas ele os preencheu consigo mesmo, pois ele tinha uma personalidade devoradora. Sendo assim, se se conhece Michelet, seus delírios, sua obsessões, vê-se os silêncios preenchidos por sua própria paixão, eis o que o historiador deve render à obra de Michelet. De onde a importância do ensaio de Barthes, para nós, leitores críticos da história da França.
Todavia por trás de todos os silêncios esconde-se o psiquismo profundo de uma sociedade. Como decifrá-lo? Aqui o historiador fatalmente penetra nos territórios da psicanálise. E é fato que J Huizinga, particularmente, logo que dá a melancolia um papel privilegiado, pois a partir da melancolia ele escreve (<<>>), e desnuda um conceito intelectual e artístico solidamente ancorado na sensibilidade intra-biológica da época.
É isto o que conduz Huizinga a bordo da psicanálise, este erotismo. É isto que é assaz assustador em 1919, e explica largamente o fato de J. Huzinga pertencer a uma cultura, aquela dos antigos Países Baixos (que é também a mesma de outro grande historiador dessa geração, Henri Pirenne, viva nas paisagens, nas imagens de Bosh e de Breughel), de uma terra tradicionalmente aberta a esse tipo de curiosidade.
É isso que permite a J. Huizinga descobrir o fundamento erótico no espírito de coragem da Cavalaria. Ele compreende assim como a ética coletiva pode ter por fundamento seu próprio recalque. E qual seria o do séc. XV? As pessoas tinham uma noção muito viva do corpo, viviam sua sensualidade. Se houve recalque, foi num outro nível.
Por compreendê-los, ele pode buscar ajuda de certas análises weberianas. Uma das idéias fundamentais de Max Weber, que estuda a relação entre capitalismo e protestantismo, é a seguinte: em se tolhendo as energias de se desdobrarem no campo do prazer, através da sensualidade, o protestantismo as canaliza para o trabalho, ao crescimento econômico, para o desejo do ganho.
Durante muito tempo, a Idade Média obteve êxito em integrar o recalque a uma certa liberdade dos sentidos. Esse êxito se deve ao fato de que o Cristianismo medieval se ter revelado capaz de unir duas modalidades de religião: a religião popular e a dos clérigos que por sua vez tendia a ser uma religião racionalizada.
Ou, no final da Idade Média, essa união areja-se(briser). Eis o triunfo da religião institucionalizada, racionalizada. Isso será ainda mais verdadeiro no século XVI, tanto para o catolicismo quanto para o protestantismo. Por conseqüência a religião popular não mais está integrada, é oprimida, não mais um modo de se exprimir a magia.
CM- E se volta assim para a feitiçaria.
JLG- Sim, a relação entre a nova religião racionalizada e outra popular tornou-se demente, condenada à loucura, exprimiu-se através da feitiçaria e de sua repressão, uma vez que a feitiçaria só existe se houver repressão.
Nesse sentido o séc. XVI é um período limítrofe e J. Huizinga tem uma visão muito clara das tensões extremas e de seus contrastes que irão provocar as grandes revoluções. É mediante essa ruptura entre as duas formas de religião que J. Huizinga toma consciência das duas formas de sublimação que habitam a Idade Média ao seu final: de um lado a fachada religiosa dos clérigos e se há uma fachada somos reenviados ao crivo psicanalítico; e do outro lado a aspiração a uma vida mais sublime através do erotismo.
É isso o que desconcerta num olhar sobre a sociedade medieval, é isso que J. Huizinga, no seu intuito de chegar às profundezas, de se lançar ao outro, descobre o séc. XV como o etnólogo descobre a sociedade arcaica, com o sentimento de quem é estranho ao seu objeto, de quem não o compreende. Trata-se de uma humildade absolutamente nova na pesquisa histórica.
CM- Um dos aspectos mais desconcertantes e controversos da paisagem medieval descrita por J. Huizinga, é por em questão o simbolismo medieval. Ele percebe, mediante um deslizamento do simbolismo à alegoria, um sistema de decadência, como se as imagens tivessem perdido sua significação dinâmica, e não passassem de formas frias, sem enlace algum com a sensibilidade da época.
JLG- O horizonte do simbolismo medieval é encontrado, desde então convulsionado, renovado, em particular pelos historiadores da literatura, como em Jollès e seu estudo sobre as formas simples e Paul Zumthor em seus ensaios sobre poética medieval. Em pouco tempo apareceram cinco livros sobre o romance da rosa, e todos propõem uma reabilitação da parte propriamente alegórica de Guillaume de Loris, que, em relação àquela de Jean de Meung, era considerada muito formalista e desprovida tanto de poesia como de conteúdo.
Tem se dado conta de que o universo alegórico, longe de ser um espelho do gratuito, corresponde a uma verdade estética. Certamente, esta cultura livresca é uma cultura de clérigos, resta saber como ela foi recebida, consumida, e como um sistema de representações elaborado em meio aos melhores e mais privilegiados pôde, ao nível do povo, servir de fonte de nutrição no plano imaginário.
CM- Não me parece que o simbolismo tenha se tornado agonizante ou gratuito em momento algum no séc. XV, pois ele se manifesta com esplendor durante toda a primeira Renascença, e teve sem dúvida um papel muito forte nas ressurgências do mundo antigo.
JLG- É o que sublinha J. Huizinga ao final de seu livro: <<É da alma da Idade Média em si que surgiram os novos tempos, e apenas agora isso é reconhecido. A Antiguidade não teve papel um papel representativo em seu início- o da IM. A Antiguidade não teve, ao um papel, tão >>. Em verdade a referência à Antiguidade feita pelos homens da Renascença não passou de um estratagema para que exprimissem um certo número de descobertas e descontentamento contra a rotina. Eles se serviam do passado para testemunhar sua própria novidade, e estavam bem presos nessa armadilha. É dentro deste contexto que se pode medir o quão abusivo é nomear a esta época de Renascença, e quanto de efetivo se opera em tal termo, tanto que Jacob Burckhardt, que tanto admirava Huizinga, deveria ser revisado.
Pois a originalidade de uma época não pode ser definida pelo retorno que se obtém de um grupo de intelectuais debruçado sobre uma época antiga: há as continuidades históricas. E a chave de um período não pode jamais estar presa há dez séculos antes, obliterando-se tudo o que há no intervalo. Naturalmente, para se compreender o que é esta nossa civilização, há que se remontar desde o neolítico, mas remontando continuamente, sem saltar séculos inteiros.
Para se compreender o que se deu no momento da Renascença, não é necessário procurar em Roma ou na Atenas de antanho, mas observar o que se encontra imediatamente antes.
Há um exemplo particularmente alarmante. Atribui-se à Renascença o nascimento do capitalismo, a consideração pelo trabalho. Essa sacralização do trabalho exprime-se com força na maldição que pesa sobre a mendicância regulamentar, daquele que poderia trabalhar e prefere viver como parasita do trabalho alheio. O mendigo regulamentar está pregado ao pelourinho, não só nos países protestantes, mas também nos países católicos.
Ou o momento em que esta figura social em particular é rotulada é o séc. XV, mas ela nasce no XIII. Estudos recentes sobre os amantes vagabundos e os mendigos hereges, aqueles de Jean-Claude Schmidt, o demonstram claramente. Entre esses marginais, ainda mais perigosos eram os religiosos, a igreja do séc. XIV os qualifica como hereges. Esta era a etiqueta de exclusão da sociedade, no séc. XV eles se tornam igualmente exclusos, ainda que qualificados desta feita de mendigos oficiais. É no coração do Outono da Idade Média que se forja o estereótipo que conhecerá um grande renome nos tempos modernos.
CM- J. Huizinga fala da Idade Média no seu conjunto. Não se poderia sendo assim perguntar se a Idade Média de seu interesse não seria aquela dos Países Baixos, e mais amplamente a atmosfera territorial flamenga ou borgonhesa?
JLG- Não há um subtítulo na obra de J. Huizinga do tipo cidade Neerlandesa, França e Países Baixos, o livro é sobre a unidade cultural da época, a saber, a cristandade. Neste mesmo período na Itália ou em Languedoc, encontra-se basicamente a mesma ideologia dominante, aquela representada pela Igreja, e as mesmas estruturas sociais. Mas a paisagem cultural e mental é todavia totalmente diferente. E nessa busca por uma história das profundezas, faz-se mister perceber como uma mesma cultura, com todos seus sofrimentos, revela uma extraordinária diversidade.
É isto o que nos faz perceber em meio a esta diversidade o raio comum que as fundamenta em todos os movimentos regionalistas. Percebe-se bem hoje em dia que as entidades sociais são as herdeiras de um longo passado enraizado em um país particular, um passado de natureza regional, que escondem mais ou menos, e sob períodos mais ou menos longos, uma história unificante.
De um outro golpe, alhures, percebe-se melhor os limites da reivindicação regionalista. Se não se tem em conta que a raiz regional, que foi golpeada, reduzida ao silêncio, ignora-se todo o peso da história unificante. Aquela que Michelet põe em cena quando empreende a descrição da França como uma personagem geográfico-histórica nascida da aglomeração sucessiva de diversas províncias. Aqui, há um pouco o movimento contrário: J. Huizinga pôs em cena uma certa experiência histórica da Cristandade como um todo.

Huizinga

Por francisco razzo, 21 de novembro de 2010 7:36
Por Martim Vasques da Cunha
Em uma época em que se discute se o livro como objeto físico irá permanecer ou não, eis que a Cosac Naify resolve provar que “yes, we can!”, com nada mais nada menos O outono da idade média, a obra-prima de Johan Huizinga.
Huizinga não brincava em serviço. Era um historiador que sabia pesquisar os documentos, sabia escrever e, sobretudo, sabia pensar. Não se intimidava por moldes ideológicos que deformavam a visão real do que foi um determinado período na História. Podia ser acusado de esteticismo em alguns momentos, mas era um esteta de excelente gosto – e, de certa forma, isso é um pecado menor.
A edição da Cosac Naify vem com imagens fabulosas de quadros e desenhos da época retratada, além de uma entrevista com o historiador Jacques Le Goff, um ensaio correto de Peter Burke e uma qualidade gráfica que faz qualquer editor brasileiro pensar duas vezes antes de lançar o seu próximo livro.
Como se não bastasse, o livro em si é uma delícia de leitura. Talvez os únicos que podem ser comparados a Huizinga na escrita da história sejam Jacob Burckhardt, Edward Gibbon e, mais recentemente, Jacques Barzun. O leitor não lê apenas sobre a Idade Média; ele vive a Idade Média. Os capítulos sobre a importância da morte e da vida religiosa no período calam a boca de qualquer idéologo que acusa os medievais de viverem em uma Idade das Trevas. De fato, não era uma época bonita de se viver – era extremamente violenta sob certos aspectos e tinha uma certa morbidez rondando o ar que perturba os mais incautos -, mas havia um espaço para a liberdade interior do indivíduo que, atualmente, foi relegada ao esquecimento.
Além disso tudo, ter um Huizinga na estante, no começo deste século XXI, é um privilégio para poucos. O historiador holandês quase nunca aparecia nas prateleiras de língua portuguesa – havia uma tradução do livro com o título O declínio da Idade Média, que era para fazer-me rir. Quais os motivos desta lacuna? Não se sabe: talvez Huizinga seja um autor muito sofisticado para a patuléia de intelectuais que aplaudem o poder estatal como se estivessem na Idade Média imaginada por eles próprios. O que importa é que a Cosac Naify rompeu esta barreira e esperamos que não tenha sido um lapso e sim o início de um bom e constante caminho editorial.

Resenha de 'O outono da Idade Média', de Johan Huizinga


O outono da Idade Média, de Johan Huizinga. Tradução de Francis Petra Janssen. Cosac Naify, 656 páginas. R$ 140
Por Regina Schöpke
"Quando o mundo era cinco séculos mais jovem, tudo o que acontecia na vida era dotado de contornos bem mais nítidos que os de hoje. Entre a dor e a alegria, entre o infortúnio e a felicidade, a distância parecia maior do que para nós...”. É assim, de modo belo e poético, que o brilhante historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945) inicia sua extraordinária obra “O outono da Idade Média”. E, com estas palavras, ele inaugura sobretudo uma nova maneira de pensar e de fazer a História.
Contra o positivismo e seu ideal de frieza e objetividade, e, mais ainda, contra o mecanicismo (que transforma toda a vida e todo o vivo em algo previsível e determinado), Huizinga apresenta uma visão mais orgânica e funcional do mundo que ele busca compreender, colorindo e dando movimento e vida aos homens que, de outra maneira, apareceriam para nós congelados e paralisados em esquemas racionais e abstratos. Sem dúvida, estamos diante de um vitalista, como define muito bem Jacques Le Goff, um dos mais notáveis representantes da Nova História (uma filha tardia de Huizinga, que, com justiça, é considerado o precursor da História das Mentalidades e da História Cultural).

Só para citar uma frase de um dos mais renomados vitalistas da época de Huizinga, o filósofo francês Henri Bergson, “a vida é pura zona de indeterminação”. Isto quer dizer simplesmente que a vida não é previsível e nem lógica: eis porque a razão clássica não consegue dar conta dela. Huizinga provavelmente acrescentaria: a razão, sozinha, não consegue realmente dar conta da vida: nem da vida presente e nem da vida que passou. Eis porque, para ambos, será preciso recorrer à intuição se realmente desejamos conhecer as coisas em profundidade. Afinal, sem este sentimento de simpatia ou de empatia, que nos faz mergulhar em outros mundos, tudo parece estranho demais, ou seja, qualquer outro mundo transforma-se num “transmundo” (termo usado por Nietzsche para designar “o outro”, “o não-eu”, aquilo que é irredutível a mim).

É claro que os homens não são iguais em todos os tempos, embora sejamos até tentados a crer nisto quando vemos que jamais cessam as guerras, as perseguições, as epidemias, os fanatismos, a opressão, a miséria. Mas também é óbvio que, apesar das diferenças cruciais de cada época, o pano de fundo da História é sempre a Humanidade. Eis porque é preciso aproximar-se ao máximo do universo real dos homens, se desejamos compreender melhor o período em que eles viveram. Foi isto, afinal, que esta maneira nova de experimentar o passado revelou aos historiadores da época de Huizinga e das seguintes: que era preciso criar um elo maior entre o pesquisador e o objeto de seu conhecimento. Em outras palavras, era preciso produzir um novo olhar para uma nova História, aquela que não narra apenas os grandes fatos e feitos (história do poder, por excelência), mas que mergulha na vida cotidiana para conhecer os homens mais de perto, os seus sonhos e desejos, seus medos e obsessões, suas paixões e expectativas, enfim, sua maneira de sentir e de experimentar as coisas.
E foi exatamente isto que Huizinga fez em seu “Outono”: ele deu voz e cor aos homens dos séculos XIV e XV, e fez isto de modo apaixonado, porque havia nele certa nostalgia por um tempo em que os homens se sentiam parte de um todo maior, porque — digam o que disserem, e ainda que os renascentistas e iluministas tenham razão em considerar a Idade Média como um período repleto de obscurantismo e de fanatismo religioso — a verdade é que a cristandade, com seu ideal cosmopolita, conseguiu reunir os homens (nobres e reis, camponeses e burgueses) em um organismo vivo. De tal maneira que toda falta pessoal era também uma falta coletiva (a despeito, é claro, de todas as hipocrisias, que não nasceram na Idade Média e nem morrerão conosco).
Neste outono medieval, ou seja, neste momento em que tudo florescia e atingia a sua plena maturidade, precedendo o fim inexorável — porque tal é o sentido deste livro, escrito originalmente em 1919: mostrar o momento em que a Idade Média chega ao seu clímax, para depois declinar e morrer, embora não tão rápido quanto se imagina — o que não faltavam eram procissões e sermões. De todos os lugares vinham os cristãos, guiados pelos sinos, em busca de salvação e de alívio, uma forma de catarse social que, afinal de contas, ajudava a manter o equilíbrio desta sociedade que vivia com a morte instalada no seio da vida (e isto é literal, não apenas porque se trata de um mundo que aguarda a felicidade no além, mas também porque a morte era tão próxima e insidiosa que se fazia, ao mesmo tempo, assustadora e profundamente familiar).

É verdade que estamos falando de um mundo repleto de contradições, mais triste e angustiado do que alegre, mas todo tempo tem sua cota de felicidade e de dor, diz Huizinga, e ainda que não fosse de bom tom exaltar a vida naquele período, é verdade que já existiam manifestações artísticas que antecipavam o que Huizinga chamou de “alegria de viver”, sentimento que marcará indelevelmente o Renascimento. Seja como for, ao encanto do texto (traduzido, pela primeira vez, diretamente do original holandês), os editores resolveram acrescentar outro deleite para os sentidos: nada menos que 320 maravilhosas ilustrações que tornam a leitura do livro uma experiência ainda mais fascinante. Em tudo e por tudo, trata-se de um livro fundamental, que, acima de qualquer coisa, é belo e afirmativo, como cada aurora, cada alvorecer, que sempre anuncia que a vida continua a despeito da escuridão.

REGINA SCHÖPKE é filósofa, medievalista e autora, entre outros, dos livros “Matéria em movimento” e “Dicionário filosófico”

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Outono da Idade Média, obra de Huizinga, chega ao País


Para discuti-la, o 'Estado' reuniu o francês Jacques Le Goff e o brasileiro Hilário Franco Júnior

30 de outubro de 2010 | 6h 00
Andrei Netto - O Estado de S. Paulo
Desde o Renascimento e, mais tarde, o Iluminismo, em línguas europeias como o português, o inglês ou o francês, os vocábulos "medieval" e "moderno", além de definirem duas eras distintas da História, designam uma dicotomia: de um lado, as trevas, o ultrapassado, o atraso; de outro, as luzes, o atual, o progresso. Essa visão de mundo, decretada por humanistas do século 16 e reforçada por filósofos do século 18, trazia embutida a ideia de que, ao deixar a Idade Média, seus valores e seus princípios, a Humanidade alcançava a passarela para um futuro mais justo, democrático e legítimo: a Idade Moderna.
Andrei Netto/AE
Andrei Netto/AE
Jacques Le Goff: historiador é reconhecido como o maior medievalista vivo

Veja também:
link'A Figura da Morte em Dante', um inédito de Huizinga
link'Renascença e Realismo', outro inédito do escritor

Essa visão dos "medievalismos", cujos fragmentos de preconceito ainda perduram, começou a ser desconstruída pelas mãos do historiador americano Charles Haskins, autor de The Renaissance of the Twelfth Century, de 1927.
Antes dele, porém, outro especialista em história medieval, o holandês Johan Huizinga (1872-1945), já havia traçado em cores a vida, os valores, os hábitos e as emoções naquele período em seu clássico O Outono da Idade Média, que chega na íntegra às livrarias brasileiras, traduzida diretamente de seu idioma original.
Uma das virtudes tácitas de Huizinga em sua obra-prima é sua habilidade de relativizar as "certezas". Virtuoso de sua disciplina, o autor reconhecia as contradições da História, que ajudam, por exemplo, a entender o dualismo medieval-moderno. "É bem verdade que cada época deixa mais rastros de sofrimento do que de felicidade. Suas desgraças se tornam sua história", ponderou. No mesmo trecho, Huizinga apela à convicção "talvez instintiva" para elaborar uma equação: a soma de paz e felicidade destinadas às pessoas não pode variar muito de uma época à outra. "O brilho do final da Idade Média também não passou despercebido: ele sobreviveu na canção popular, na música, nos horizontes quietos da pintura de paisagem e nos rostos sóbrios dos retratos", escreveu, em seu tom romântico e subjetivo.
Raros são os livros de História que se tornam história, assim como poucos são os historiadores lembrados pela posteridade. Esse é o caso de Huizinga e de sua obra-prima.
Publicado em 1919, O Outono da Idade Média (Herfsttij der Middeleeuwen) derrubou as fronteiras que outros pesquisadores haviam construído entre a Idade Média tardia e o Renascimento. Para o holandês, a transição vivida no século 15, um ponto de virada da civilização ocidental, foi muito mais fluida do que supúnhamos. A Idade Média era, sim, um período de fome, doenças, miséria, ódio, mas não apenas isso. Era também tempo de prazeres, de ideais, de arte e de amor.
Para explorar os meandros, as sutilezas, os erros e acertos da obra de Huizinga, o Sabático – que na quarta-feira, em parceria com a editora do livro, a Cosac Naify, promoveu um debate na Universidade de São Paulo com os professores Lorenzo Mammì, Marcelo Cândido da Silva e Tereza Aline Pereira de Queiroz –, propôs um encontro, por assim dizer, histórico. Em Paris, o caderno reuniu o historiador francês Jacques Le Goff, 86 anos, considerado o maior especialista do mundo sobre o tema, e seu ex-orientando brasileiro, o ex-professor da USP Hilário Franco Júnior, de 61 anos. No encontro, realizado no escritório do acadêmico francês, em sua casa, no 19.º distrito parisiense, Le Goff saudou a adoção do título O Outono..., e não o da primeira versão francesa da obra, denominada O Declínio da Idade Média. "Essa é uma leitura estúpida do livro", ressaltou em diferentes momentos.
Admiradores de Huizinga, Le Goff e Hilário travaram um diálogo fascinante e revelador sobre o autor, morto em De Steeg em 1945, durante a ocupação nazista da Holanda. A seguir, a síntese do encontro, marcado pela amizade – e pelo reconhecimento intelectual mútuo.

Hilário Franco Júnior – O Outono da Idade Média desenhado por Huizinga é tão magnífico que permitiu a Philippe Wolff tentar transformar o outono em primavera. Este é o nome de um livro de 1986: O Outono da Idade Média ou a Primavera de Tempos Novos. O que eu gostaria de saber é: o fim da Idade Média, segundo Huizinga, é realmente um outono ou é uma primavera?
Jacques Le Goff – Você, como historiador, sabe que mesmo que a História só possa ser construída a partir de documentos, baseada em pilares os mais sólidos possíveis, ela é aberta, e à medida que o tempo passa, as interpretações podem variar bastante. O Outono da Idade Média de Huizinga é um livro tão interessante que passado quase um século ele continua a ser lido, traduzido e se presta a novas interpretações. É preciso dizer que o período ao qual o livro se dedica, digamos um longo século 15, talvez também seja um dos mais mal estudados na Europa, e por isso ainda há novas descobertas e interpretações. Há uma exposição em cartaz hoje, no Grand Palais, com o título France Quinze Cent, que mostra como esse período foi uma mistura do apogeu da Idade Média e de afirmação do Renascimento. Eu creio que este seja o caso de uma virada histórica que não se parece com nenhum outro, porque se trata de um belo outono. A tradução francesa antiga era uma tradução estúpida ao se referir ao declínio da Idade Média.
No entanto, Huizinga compartilhava com muitas pessoas cultas da Europa do início do século 20 a ideia de que a Idade Média acabava no fim do século 15, um período marcado pela tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, com a tomada de Granada e com a reunificação de toda a Península Ibérica pelos reis católicos, que haviam caçado os muçulmanos, e, sobretudo, pela descoberta da América de Cristóvão Colombo, que produziu o que poderíamos chamar de primeira globalização da história. Mas eu me pergunto se o nosso conhecimento desse período e nossas interpretações não mudaram um pouco.
No que me diz respeito, eu fui voluntariamente provocador ao falar de uma longa Idade Média que se prolongou até o século 18. Continuo a pensar que há uma certa verdade na ideia de que a Idade Média vai até o fim do século 18, se observamos aspectos essenciais, como a fome, as pestes, a indústria – a economia capitalista do século 18 é uma grande virada. O que ocorre é que, na verdade, nós voltamos à visão de Huizinga, continuando ou retomando a ideia de que do fim do século 15 ao século 16 acontece um certo número de mudanças profundas, dentre as quais a descoberta da América, a Reforma na Europa. Realmente há algo de novo no século 16. Mas o que me parece novo é que, mesmo que consideremos que o fim da Idade Média acontece no fim do século 15, ela não era decadente, não era triste, mas sim soberba, até exagerada. Vemos isso com os pintores flamengos e com a riqueza econômica das cidades flamengas e italianas, em particular Veneza, antes da descoberta da América, ou na moda da época, às vezes extraordinária.
Vejo hoje um retorno a Huizinga. De outro lado, ele soube no início do século 20 fazer viver a história que ele escrevia com qualidades, dons, procedimentos que não eram nada correntes na História. Em seu livro, Huizinga se mostra o precursor de um novo tipo de História que está em pleno desenvolvimento hoje, a história das emoções, a história das paixões, lançada há cerca de 20 anos pela historiadora americana Barbara Rosenwein. E isso é O Outono da Idade Média.
Franco Júnior – Como o senhor explica a pequena posteridade do livro de Huizinga? Seria em razão de uma certa instintividade que ele explora e que é mal compreendida por certos historiadores, que se consideram grandes cientistas e que veem grandes leis históricas, ou coisas do gênero?
Le Goff – Eu creio que, na realidade, a posteridade de Huizinga foi contida em grande parte pelo nascimento e pelo desenvolvimento de uma forma de fazer a História que alcançou grande posteridade, que é a Escola dos Annales. Mas, ao contrário do que possamos pensar, a história dos Annales é sobretudo uma história econômica e social, diferente do Outono da Idade Média. De qualquer forma, acho que o sucesso dos Annales contribuiu muito para bloquear a influência de Huizinga.
Franco Júnior – Deixe-me perguntar algo mais pessoal: o senhor falava há pouco de uma longa Idade Média. O senhor se sente um pouco tributário de Huizinga, desta visão de longo termo?
Le Goff – Sim, absolutamente. Não apenas de sua visão de longa duração, mas também da ideia de alargar o domínio da História. A meu ver, entre os grandes méritos de Huizinga estava procurar fontes às quais os historiadores não se interessavam muito, seja na arte, na literatura, nos costumes. Além disso, há no Outono da Idade Média uma busca da época no coração dos homens e mulheres e um olhar muito compreensivo sobre o "parecer". Essa combinação da busca do íntimo e da procura do "parecer" me soa avançada em relação ao momento mais ambicioso do início da Escola dos Annales – algo que ela não conseguiu completar porque traçar a história universal é um objetivo utópico.
Franco Júnior – Conceitos como representação, sistema de valores, temas como o corpo, a morte, as emoções, etc., tudo está presente em Huizinga. De certa forma, tudo prenunciava a Antropologia Histórica, que o senhor desenvolveu nos anos 70.
Le Goff – Sim. E isso me permite reconhecer minha dívida em relação a Huizinga, pelas pesquisas que fiz nesse sentido, em particular sobre o corpo e as imagens. No tema das imagens tive uma grande receptividade, porque um grupo de jovens historiadores o retomou e o desenvolveu, em particular sob a direção de Jean-Claude Schmitt, Jean-Claude Bonne, de Jérôme Baschet, na França, e também na Alemanha, com Hanz Belting. (Erwin) Panofsky também pode ser incluído. Houve um esforço, do qual participei, para alargar as fontes e o domínio da História, em particular em direção ao corpo e à exploração da imagem, que são diferentes da História da Arte tradicional.

Franco Júnior – Mas há uma diferença entre a forma com que Huizinga fazia a história das imagens, das representações, e a forma como a Escola dos Annales o fazia. Qual seria essa diferença essencial?
Le Goff – Eu creio que, apesar de seu charme, o livro de Huizinga é subjetivo demais. Podemos fazer uma história dos sentimentos, mas não podemos fazer História com sentimentos. Creio que a história das imagens desenvolvida a partir da Escola dos Annales era mais próxima das fontes, com métodos de análise mais científicos em relação às práticas de Huizinga, que eram mais literárias do que científicas, ao menos em relação ao tipo de ciência que é a História.
Franco Júnior – Sua ressalva sobre a história emocional das emoções me leva a outra questão: no prefácio da primeira edição, Huizinga diz que escrever o livro foi como "observar o profundo de um céu noturno, um céu vermelho como o sangue, pesado e desértico de um cinza chumbo ameaçador. O quadro que eu tracei é mais sombrio e menos sereno do que o que eu entrevi quando comecei a trabalhar". Minha questão é: esse quadro mais sombrio é um reflexo dos séculos 14 e 15, ou da Grande Guerra, que recém-acabava e que estava presente no espírito de Huizinga?
Le Goff – Eu acredito que seja a segunda hipótese, até porque não é assim que vemos o século 14 e o século 15. Eu insisti, talvez até um pouco demais, no lado subjetivo da obra de Huizinga. Mas não se deve esquecer que a subjetividade dos historiadores transparece um pouco frente ao horror, independente de qualquer esforço de se trabalhar cientificamente. Um dos primeiros historiadores, senão o primeiro historiador a ter acentuado a subjetividade de sua obra foi Jules Michelet, que foi uma fonte dos Annales. Muito do que Huizinga pôs em O Outono está em Michelet. Há uma outra tendência da História, da qual O Outono da Idade Média talvez seja uma produção tardia: é a veia romântica. A passagem que você acaba de ler é profundamente romântica.
Franco Júnior – Em um artigo de 1986, reproduzido na edição brasileira, Peter Burke, historiador inglês, diz que O Outono... é penetrado de nostalgia e pode ser considerado um caso de medievalismo romântico à maneira de Walter Scott e Gabriel Rossetti.
Le Goff – Devo admitir que em um momento dessa conversa eu pensei em Walter Scott. Ele é uma das minhas grandes fontes de pesquisa como historiador da Idade Média e é alguém que me aproxima de Huizinga. Mas para diversos historiadores o livro de Huizinga foi um verdadeiro pioneiro em um domínio que precisa continuar a ser explorado: o da História dos valores e dos sistemas de valores. O que satisfaz, faz chorar e viver as pessoas de uma época? Esse é um domínio que ainda não produziu toda a sua riqueza. A meu ver, por muito tempo, entre 1850 e 1930, a História ficou bloqueada pela história das ideias, além, é claro, da história tradicional. Sem os outros domínios, os homens perdem suas carnes. Aliás, eis uma palavra que convém a Huizinga: há carne no Outono da Idade Média.
Franco Júnior – Mas carne viva ou morta? Porque Huizinga revela uma certa obsessão pela morte, pela história da morte...
Le Goff – Há, sem dúvida, uma certa obsessão pela morte em O Outono da Idade Média, o que tem várias fontes. Antes de mais nada, a morte é um dos valores do século 15, que foi, por exemplo, o século das danças macabras. Outra prova da fascinação de Huizinga pela morte é o seu romantismo. E outra fonte de influência é o que você citou, a Guerra de 1914-1918, na qual a Holanda foi uma das vítimas.
Franco Júnior – Por duas vezes em sua entrevista de 1975, o senhor ressaltou a semelhança entre Huizinga e Lucien Febvre. Eu me pergunto se não poderíamos fazer o mesmo em relação a Marc Bloch. Digo isso porque o subtítulo de O Outono da Idade Média é Estudo Sobre as Formas de Vida e de Pensamento, o que me lembra o célebre capítulo de A Sociedade Feudal, A Condição de Vida e a Atmosfera Mental. É possível aproximar Huizinga e Bloch? Huizinga havia lido Bloch?
Le Goff – Estou mais ou menos certo que sim. Não tenho lembranças claras, para ser sincero, mas sei que me preocupei com esse assunto, e cheguei à conclusão de que Bloch teria lido Huizinga. E eu penso que, mesmo que Lucien Febvre tenha sido mais próximo da mentalidade, da sensibilidade de Huizinga, Marc Bloch também pode ter sido influenciado, ainda que com uma certa distância. Por exemplo, esse capítulo da Sociedade Feudal, que citamos frequentemente e que foi um dos grandes trechos deste livro, não era o tema que mais o interessava.
Franco Júnior – Ah, não? Isso me surpreende...
Le Goff – O que interessava a Marc Bloch era antes de mais nada a história econômica, a história social e, eu diria, a história da mitologia. Eu acredito que qualquer que fosse o parentesco e a influência de Huizinga sobre a Escola dos Annales e sobre seus fundadores, Lucien Febvre e Marc Bloch, os Annales deram à pesquisa histórica na Europa e na França direções que os afastavam de Huizinga. E creio que esse tenha sido um fator que bloqueou, em maior ou menor proporção, a difusão do trabalho de Huizinga.
Franco Júnior – Muito interessante... Na sua entrevista, o senhor diz que O Outono da Idade Média é um livro poético e que sua poesia expressa ao mesmo tempo sua grandeza e seu limite. Nós já discutimos esse ponto. Mas, no que diz respeito aos limites de Huizinga, no fim da Idade Média havia uma forte necessidade de dar formas ao sagrado. Mesmo fazer amor era algo sagrado. Ainda assim, Huizinga dá muito pouca atenção às sensibilidades hereges, em um momento em que a Holanda era marcada por esse sentimento. A meu ver é uma das fraquezas deste livro. Qual o porquê desse desprezo?
Le Goff – Para ser franco, é algo que eu nunca me questionei, e por isso vou improvisar. Falamos bastante que é necessário conservar o título original do livro, que é o "outono", e não o "declínio". É um belo outono ensolarado. No entanto, para um protestante, é o fim de um mundo. Talvez Huizinga não tenha querido misturar em seu livro aquilo que seria o fermento de uma modernidade. As heresias, à medida que anunciavam a Reforma, referiam-se ao período posterior àquele que Huizinga queria mostrar. Mesmo que eu não aceite a tradução "declínio", tenho de admitir que Huizinga quer oferecer à Idade Média um bom túmulo. E talvez ele não tenha querido misturar o assunto.
Franco Júnior – É possível. Para encerrar, eu me permitiria fazer uma pequena provocação. O senhor me afirmou certa vez que a obra de um historiador não sobrevive a si próprio mais de 50 anos. Se Huizinga morreu em 1945, a provocação é: O Outono da Idade Média está morto?
Le Goff – Quando disse isso, devo tê-lo feito por duas razões. A primeira, que eu me referia a uma espécie de média. As obras de História, em sua maioria, sobrevivem, têm alguma influência e nos permite interpretar os fatos de outra maneira, o que as diferencia das obras mortas. Os 50 anos, eu diria, é mais ou menos o prazo de validade correto. De outro lado, eu confesso que não suporto os historiadores que evocam um tal limite como uma espécie de conjuração, na esperança de que a própria História lhes desminta. No fundo, eles esperam que ao menos uma parte de suas obras supere esse limite, que aliás não é absoluto.

Um olhar romântico sobre a era medieval


Livro de História que se tornou histórico, O Outono da Idade Média, de Johan Huizinga - aqui debatido por Jacques Le Goff e Hilário Franco Júnior - buscou o sentido da época no coração de homens e mulheres

30 de outubro de 2010 | 3h 41

Andrei Netto
Desde o Renascimento e, mais tarde, o Iluminismo, em línguas europeias como o português, o inglês ou o francês, os vocábulos "medieval" e "moderno", além de definirem duas eras distintas da História, designam uma dicotomia: de um lado, as trevas, o ultrapassado, o atraso; de outro, as luzes, o atual, o progresso. Essa visão de mundo, decretada por humanistas do século 16 e reforçada por filósofos do século 18, trazia embutida a ideia de que, ao deixar a Idade Média, seus valores e seus princípios, a Humanidade alcançava a passarela para um futuro mais justo, democrático e legítimo: a Idade Moderna.
Essa visão dos "medievalismos", cujos fragmentos de preconceito ainda perduram, começou a ser desconstruída pelas mãos do historiador americano Charles Haskins, autor de The Renaissance of the Twelfth Century, de 1927.
Antes dele, porém, outro especialista em história medieval, o holandês Johan Huizinga (1872-1945), já havia traçado em cores a vida, os valores, os hábitos e as emoções naquele período em seu clássico O Outono da Idade Média, que chega na íntegra às livrarias brasileiras, traduzida diretamente de seu idioma original.
Uma das virtudes tácitas de Huizinga em sua obra-prima é sua habilidade de relativizar as "certezas". Virtuoso de sua disciplina, o autor reconhecia as contradições da História, que ajudam, por exemplo, a entender o dualismo medieval-moderno. "É bem verdade que cada época deixa mais rastros de sofrimento do que de felicidade. Suas desgraças se tornam sua história", ponderou. No mesmo trecho, Huizinga apela à convicção "talvez instintiva" para elaborar uma equação: a soma de paz e felicidade destinadas às pessoas não pode variar muito de uma época à outra. "O brilho do final da Idade Média também não passou despercebido: ele sobreviveu na canção popular, na música, nos horizontes quietos da pintura de paisagem e nos rostos sóbrios dos retratos", escreveu, em seu tom romântico e subjetivo.
Raros são os livros de História que se tornam história, assim como poucos são os historiadores lembrados pela posteridade. Esse é o caso de Huizinga e de sua obra-prima.
Publicado em 1919, O Outono da Idade Média (Herfsttij der Middeleeuwen) derrubou as fronteiras que outros pesquisadores haviam construído entre a Idade Média tardia e o Renascimento. Para o holandês, a transição vivida no século 15, um ponto de virada da civilização ocidental, foi muito mais fluida do que supúnhamos. A Idade Média era, sim, um período de fome, doenças, miséria, ódio, mas não apenas isso. Era também tempo de prazeres, de ideais, de arte e de amor.
Para explorar os meandros, as sutilezas, os erros e acertos da obra de Huizinga, o Sabático - que na quarta-feira, em parceria com a editora do livro, a Cosac Naify, promoveu um debate na Universidade de São Paulo com os professores Lorenzo Mammì, Marcelo Cândido da Silva e Tereza Aline Pereira de Queiroz -, propôs um encontro, por assim dizer, histórico. Em Paris, o caderno reuniu o historiador francês Jacques Le Goff, 86 anos, considerado o maior especialista do mundo sobre o tema, e seu ex-orientando brasileiro, o ex-professor da USP Hilário Franco Júnior, de 61 anos. No encontro, realizado no escritório do acadêmico francês, em sua casa, no 19.º distrito parisiense, Le Goff saudou a adoção do título O Outono..., e não o da primeira versão francesa da obra, denominada O Declínio da Idade Média. "Essa é uma leitura estúpida do livro", ressaltou em diferentes momentos.
Admiradores de Huizinga, Le Goff e Hilário travaram um diálogo fascinante e revelador sobre o autor, morto em De Steeg em 1945, durante a ocupação nazista da Holanda. A seguir, a síntese do encontro, marcado pela amizade - e pelo reconhecimento intelectual mútuo.
Hilário Franco Júnior - O Outono da Idade Média desenhado por Huizinga é tão magnífico que permitiu a Philippe Wolff tentar transformar o outono em primavera. Este é o nome de um livro de 1986: O Outono da Idade Média ou a Primavera de Tempos Novos. O que eu gostaria de saber é: o fim da Idade Média, segundo Huizinga, é realmente um outono ou é uma primavera?
Jacques Le Goff - Você, como historiador, sabe que mesmo que a História só possa ser construída a partir de documentos, baseada em pilares os mais sólidos possíveis, ela é aberta, e à medida que o tempo passa, as interpretações podem variar bastante. O Outono da Idade Média de Huizinga é um livro tão interessante que passado quase um século ele continua a ser lido, traduzido e se presta a novas interpretações. É preciso dizer que o período ao qual o livro se dedica, digamos um longo século 15, talvez também seja um dos mais mal estudados na Europa, e por isso ainda há novas descobertas e interpretações. Há uma exposição em cartaz hoje, no Grand Palais, com o título France Quinze Cent, que mostra como esse período foi uma mistura do apogeu da Idade Média e de afirmação do Renascimento. Eu creio que este seja o caso de uma virada histórica que não se parece com nenhum outro, porque se trata de um belo outono. A tradução francesa antiga era uma tradução estúpida ao se referir ao declínio da Idade Média.
No entanto, Huizinga compartilhava com muitas pessoas cultas da Europa do início do século 20 a ideia de que a Idade Média acabava no fim do século 15, um período marcado pela tomada de Constantinopla pelos turcos, em 1453, com a tomada de Granada e com a reunificação de toda a Península Ibérica pelos reis católicos, que haviam caçado os muçulmanos, e, sobretudo, pela descoberta da América de Cristóvão Colombo, que produziu o que poderíamos chamar de primeira globalização da história. Mas eu me pergunto se o nosso conhecimento desse período e nossas interpretações não mudaram um pouco.
No que me diz respeito, eu fui voluntariamente provocador ao falar de uma longa Idade Média que se prolongou até o século 18. Continuo a pensar que há uma certa verdade na ideia de que a Idade Média vai até o fim do século 18, se observamos aspectos essenciais, como a fome, as pestes, a indústria - a economia capitalista do século 18 é uma grande virada. O que ocorre é que, na verdade, nós voltamos à visão de Huizinga, continuando ou retomando a ideia de que do fim do século 15 ao século 16 acontece um certo número de mudanças profundas, dentre as quais a descoberta da América, a Reforma na Europa. Realmente há algo de novo no século 16. Mas o que me parece novo é que, mesmo que consideremos que o fim da Idade Média acontece no fim do século 15, ela não era decadente, não era triste, mas sim soberba, até exagerada. Vemos isso com os pintores flamengos e com a riqueza econômica das cidades flamengas e italianas, em particular Veneza, antes da descoberta da América, ou na moda da época, às vezes extraordinária.
Vejo hoje um retorno a Huizinga. De outro lado, ele soube no início do século 20 fazer viver a história que ele escrevia com qualidades, dons, procedimentos que não eram nada correntes na História. Em seu livro, Huizinga se mostra o precursor de um novo tipo de História que está em pleno desenvolvimento hoje, a história das emoções, a história das paixões, lançada há cerca de 20 anos pela historiadora americana Barbara Rosenwein. E isso é O Outono da Idade Média.
Franco Júnior - Como o senhor explica a pequena posteridade do livro de Huizinga? Seria em razão de uma certa instintividade que ele explora e que é mal compreendida por certos historiadores, que se consideram grandes cientistas e que veem grandes leis históricas, ou coisas do gênero?
Le Goff - Eu creio que, na realidade, a posteridade de Huizinga foi contida em grande parte pelo nascimento e pelo desenvolvimento de uma forma de fazer a História que alcançou grande posteridade, que é a Escola dos Annales. Mas, ao contrário do que possamos pensar, a história dos Annales é sobretudo uma história econômica e social, diferente do Outono da Idade Média. De qualquer forma, acho que o sucesso dos Annales contribuiu muito para bloquear a influência de Huizinga.
Franco Júnior - Deixe-me perguntar algo mais pessoal: o senhor falava há pouco de uma longa Idade Média. O senhor se sente um pouco tributário de Huizinga, desta visão de longo termo?
Le Goff - Sim, absolutamente. Não apenas de sua visão de longa duração, mas também da ideia de alargar o domínio da História. A meu ver, entre os grandes méritos de Huizinga estava procurar fontes às quais os historiadores não se interessavam muito, seja na arte, na literatura, nos costumes. Além disso, há no Outono da Idade Média uma busca da época no coração dos homens e mulheres e um olhar muito compreensivo sobre o "parecer". Essa combinação da busca do íntimo e da procura do "parecer" me soa avançada em relação ao momento mais ambicioso do início da Escola dos Annales - algo que ela não conseguiu completar porque traçar a história universal é um objetivo utópico.
Franco Júnior - Conceitos como representação, sistema de valores, temas como o corpo, a morte, as emoções, etc., tudo está presente em Huizinga. De certa forma, tudo prenunciava a Antropologia Histórica, que o senhor desenvolveu nos anos 70.
Le Goff - Sim. E isso me permite reconhecer minha dívida em relação a Huizinga, pelas pesquisas que fiz nesse sentido, em particular sobre o corpo e as imagens. No tema das imagens tive uma grande receptividade, porque um grupo de jovens historiadores o retomou e o desenvolveu, em particular sob a direção de Jean-Claude Schmitt, Jean-Claude Bonne, de Jérôme Baschet, na França, e também na Alemanha, com Hanz Belting. (Erwin) Panofsky também pode ser incluído. Houve um esforço, do qual participei, para alargar as fontes e o domínio da História, em particular em direção ao corpo e à exploração da imagem, que são diferentes da História da Arte tradicional.
Franco Júnior - Mas há uma diferença entre a forma com que Huizinga fazia a história das imagens, das representações, e a forma como a Escola dos Annales o fazia. Qual seria essa diferença essencial?
Le Goff - Eu creio que, apesar de seu charme, o livro de Huizinga é subjetivo demais. Podemos fazer uma história dos sentimentos, mas não podemos fazer História com sentimentos. Creio que a história das imagens desenvolvida a partir da Escola dos Annales era mais próxima das fontes, com métodos de análise mais científicos em relação às práticas de Huizinga, que eram mais literárias do que científicas, ao menos em relação ao tipo de ciência que é a História.
Franco Júnior - Sua ressalva sobre a história emocional das emoções me leva a outra questão: no prefácio da primeira edição, Huizinga diz que escrever o livro foi como "observar o profundo de um céu noturno, um céu vermelho como o sangue, pesado e desértico de um cinza chumbo ameaçador. O quadro que eu tracei é mais sombrio e menos sereno do que o que eu entrevi quando comecei a trabalhar". Minha questão é: esse quadro mais sombrio é um reflexo dos séculos 14 e 15, ou da Grande Guerra, que recém-acabava e que estava presente no espírito de Huizinga?
Le Goff - Eu acredito que seja a segunda hipótese, até porque não é assim que vemos o século 14 e o século 15. Eu insisti, talvez até um pouco demais, no lado subjetivo da obra de Huizinga. Mas não se deve esquecer que a subjetividade dos historiadores transparece um pouco frente ao horror, independente de qualquer esforço de se trabalhar cientificamente. Um dos primeiros historiadores, senão o primeiro historiador a ter acentuado a subjetividade de sua obra foi Jules Michelet, que foi uma fonte dos Annales. Muito do que Huizinga pôs em O Outono está em Michelet. Há uma outra tendência da História, da qual O Outono da Idade Média talvez seja uma produção tardia: é a veia romântica. A passagem que você acaba de ler é profundamente romântica.
Franco Júnior - Em um artigo de 1986, reproduzido na edição brasileira, Peter Burke, historiador inglês, diz que O Outono... é penetrado de nostalgia e pode ser considerado um caso de medievalismo romântico à maneira de Walter Scott e Gabriel Rossetti.
Le Goff - Devo admitir que em um momento dessa conversa eu pensei em Walter Scott. Ele é uma das minhas grandes fontes de pesquisa como historiador da Idade Média e é alguém que me aproxima de Huizinga. Mas para diversos historiadores o livro de Huizinga foi um verdadeiro pioneiro em um domínio que precisa continuar a ser explorado: o da História dos valores e dos sistemas de valores. O que satisfaz, faz chorar e viver as pessoas de uma época? Esse é um domínio que ainda não produziu toda a sua riqueza. A meu ver, por muito tempo, entre 1850 e 1930, a História ficou bloqueada pela história das ideias, além, é claro, da história tradicional. Sem os outros domínios, os homens perdem suas carnes. Aliás, eis uma palavra que convém a Huizinga: há carne no Outono da Idade Média.
Franco Júnior - Mas carne viva ou morta? Porque Huizinga revela uma certa obsessão pela morte, pela história da morte...
Le Goff - Há, sem dúvida, uma certa obsessão pela morte em O Outono da Idade Média, o que tem várias fontes. Antes de mais nada, a morte é um dos valores do século 15, que foi, por exemplo, o século das danças macabras. Outra prova da fascinação de Huizinga pela morte é o seu romantismo. E outra fonte de influência é o que você citou, a Guerra de 1914-1918, na qual a Holanda foi uma das vítimas.
Franco Júnior - Por duas vezes em sua entrevista de 1975, o senhor ressaltou a semelhança entre Huizinga e Lucien Febvre. Eu me pergunto se não poderíamos fazer o mesmo em relação a Marc Bloch. Digo isso porque o subtítulo de O Outono da Idade Média é Estudo Sobre as Formas de Vida e de Pensamento, o que me lembra o célebre capítulo de A Sociedade Feudal, A Condição de Vida e a Atmosfera Mental. É possível aproximar Huizinga e Bloch? Huizinga havia lido Bloch?
Le Goff - Estou mais ou menos certo que sim. Não tenho lembranças claras, para ser sincero, mas sei que me preocupei com esse assunto, e cheguei à conclusão de que Bloch teria lido Huizinga. E eu penso que, mesmo que Lucien Febvre tenha sido mais próximo da mentalidade, da sensibilidade de Huizinga, Marc Bloch também pode ter sido influenciado, ainda que com uma certa distância. Por exemplo, esse capítulo da Sociedade Feudal, que citamos frequentemente e que foi um dos grandes trechos deste livro, não era o tema que mais o interessava.
Franco Júnior - Ah, não? Isso me surpreende...
Le Goff - O que interessava a Marc Bloch era antes de mais nada a história econômica, a história social e, eu diria, a história da mitologia. Eu acredito que qualquer que fosse o parentesco e a influência de Huizinga sobre a Escola dos Annales e sobre seus fundadores, Lucien Febvre e Marc Bloch, os Annales deram à pesquisa histórica na Europa e na França direções que os afastavam de Huizinga. E creio que esse tenha sido um fator que bloqueou, em maior ou menor proporção, a difusão do trabalho de Huizinga.
Franco Júnior - Muito interessante... Na sua entrevista, o senhor diz que O Outono da Idade Média é um livro poético e que sua poesia expressa ao mesmo tempo sua grandeza e seu limite. Nós já discutimos esse ponto. Mas, no que diz respeito aos limites de Huizinga, no fim da Idade Média havia uma forte necessidade de dar formas ao sagrado. Mesmo fazer amor era algo sagrado. Ainda assim, Huizinga dá muito pouca atenção às sensibilidades hereges, em um momento em que a Holanda era marcada por esse sentimento. A meu ver é uma das fraquezas deste livro. Qual o porquê desse desprezo?
Le Goff - Para ser franco, é algo que eu nunca me questionei, e por isso vou improvisar. Falamos bastante que é necessário conservar o título original do livro, que é o "outono", e não o "declínio". É um belo outono ensolarado. No entanto, para um protestante, é o fim de um mundo. Talvez Huizinga não tenha querido misturar em seu livro aquilo que seria o fermento de uma modernidade. As heresias, à medida que anunciavam a Reforma, referiam-se ao período posterior àquele que Huizinga queria mostrar. Mesmo que eu não aceite a tradução "declínio", tenho de admitir que Huizinga quer oferecer à Idade Média um bom túmulo. E talvez ele não tenha querido misturar o assunto.
Franco Júnior - É possível. Para encerrar, eu me permitiria fazer uma pequena provocação. O senhor me afirmou certa vez que a obra de um historiador não sobrevive a si próprio mais de 50 anos. Se Huizinga morreu em 1945, a provocação é: O Outono da Idade Média está morto?
Le Goff - Quando disse isso, devo tê-lo feito por duas razões. A primeira, que eu me referia a uma espécie de média. As obras de História, em sua maioria, sobrevivem, têm alguma influência e nos permite interpretar os fatos de outra maneira, o que as diferencia das obras mortas. Os 50 anos, eu diria, é mais ou menos o prazo de validade correto. De outro lado, eu confesso que não suporto os historiadores que evocam um tal limite como uma espécie de conjuração, na esperança de que a própria História lhes desminta. No fundo, eles esperam que ao menos uma parte de suas obras supere esse limite, que aliás não é absoluto.

A Idade Média Vista pelo esteta Johan Huizinga


Especialistas discutem obra nesta quarta, em debate da Cosac Naify em parceria com o 'Sabático'

26 de outubro de 2010
Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo
O livro O Outono da Idade Média, do historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945), que mudou radicalmente a ideia que o Ocidente tem do período, será lançado nesta quarta, 27, às 19h, com um debate promovido pela editora Cosac Naify, em parceria com o caderno Sabático, do Estado, no anfiteatro do Departamento de História da USP. Publicado em 1919, o clássico de Huizinga ganha sua primeira tradução integral diretamente do holandês para o português (por Francis Petra Janssen), após ser vertido para mais de 20 línguas, inclusive o mandarim. Ele será debatido por três professores da Universidade de São Paulo - o crítico Lorenzo Mammì (do Departamento de Filosofia), Marcelo Candido da Silva e Tereza Aline Pereira de Queiroz (ambos do Departamento de História) - com mediação do editor do Sabático, Rinaldo Gama.
A importância do lançamento desse livro de Huizinga pode ser medida pelos cuidados com que foi cercada a luxuosa edição: tiragem única, sem cortes e mais de 300 ilustrações. Fiel à edição especial holandesa de 1997 que restabeleceu o texto original, encontrado nos arquivos de Huizinga em Leiden, a brasileira se diferencia da edição que circula em Portugal também em tamanho. Lá, foi publicado um volume baseado na edição abreviada inglesa, de 1924. O livro, porém, não é só um bonito produto com imagens raras, guardadas em arquivos e bibliotecas de difícil acesso: ele confronta teorias sobre a Idade Média, apresentando-a não como um simples período de transição entre a Antiguidade e o Renascimento, mas como uma época vital para a história da arte.
O ponto de partida da obra, segundo escreve Huizinga no prefácio da primeira edição, foi a necessidade de entender a pintura de Van Eyck e de seus sucessores. O historiador holandês tinha em mente o ducado de Borgonha e, de fato, o livro deveria ter se chamado O Século de Borgonha, mas ele acabou abrindo mão dessa delimitação, abrangendo o núcleo francês e dos Países Baixos. O Renascimento, então, deixa de ser um fenômeno essencialmente italiano para ganhar novas cores na obra de Huizinga, fundamental para o advento de outros estudos igualmente importantes sobre o Renascimento, como o do crítico e historiador de arte alemão Erwin Panofsky (1892-1968).
O historiador francês Jacques LeGoff, em entrevista concedida a Claude Metra e publicada no livro, condena o título da primeira tradução francesa (Le Déclin du Moyen Âge) justamente por causa da palavra "declínio". O Outono da Idade Média lhe parece melhor por ser uma estação "em que todas as fecundidades e todas as contradições da natureza parecem se exacerbar". Huizinga se incomodava com os conceitos que acompanhavam a separação dos períodos - Idade Média e Renascimento -, destacando a força do pensamento simbólico e da literatura numa época em que a sociedade medieval se espelhava no romance cortês. O historiador holandês também valoriza o aspecto erótico no comportamento do homem medieval, não recalcado como posteriormente, quando a religião institucionalizada triunfou.
O historiador inglês Peter Burke, que assina outro texto no livro, destaca, contudo, o caráter conservador de Huzinga, que tinha aversão pela arte abstrata e via com desconfiança as teorias de Karl Marx e Sigmund Freud. Sem interesse particular pela política, ainda assim condenou o fascismo em 1930 e foi levado a um campo de concentração quando os alemães invadiram a Holanda. Homem erudito e esteta, ele tanto apreciava a poesia de Verlaine como a música de Wagner. Como historiador, não conseguia dissociar a história coletiva da pessoal, valorizando o papel de poetas picarescos (François Villon) e cronistas da corte (Georges Chastellain) na formação do comportamento de uma época. Avesso ao racionalismo histórico e à modernidade, Huizinga, segundo Burke, tinha nostalgia da Idade Média, mas conservava uma relação ambivalente com o período, preocupando-se excessivamente com os temas da morte e da decadência. O historiador diz, por exemplo, que Huzinga errou ao levar a sério os torneios medievais, que interpretou como sinais de decadência ou, no mínimo, como sintomas de sobrevivência do barbarismo.
O que Huizinga vê de interessante nas manifestações culturais da Idade Média é a correspondência entre a narrativa literária e a formação de um pensamento visual. Ele observa como a descrição do mundo camponês por Chastellain tem relação direta com as pintura de Brueghel e como o interesse pelos maltrapilhos, que se revela na literatura e nas belas-artes do século 15, era tão moderno que antecipa as gravuras de Rembrandt e as pinturas de mendigos de Murillo. A diferença é que as belas-artes viam o mendigo como fenômeno estético, enquanto a literatura da época preocupa-se com o significado da mendicância, lamentando ou amaldiçoando a condição dos deserdados.
Huizinga, ao escrever sobre literatura, fala como a ironia surge combinada à melancolia no poema cortês do século 15, recusando as formas antigas e anunciando um novo estilo, que tem na autoparódia dos poemas desiludidos de Villon sua mais alta expressão. Há um elemento de profanação evidente quando as formas religiosas são metamorfoseadas em metáforas obscenas, observa o historiador holandês. Essa frivolidade, porém, não tingia a pintura do século 15. Ela, segundo Huzinga, "ainda não conhece a expressão do lado malicioso". No entanto, a Idade Média tardia mostra "uma contradição singular" entre a vergonha e a licenciosidade". Assim, a relação entre o humanismo que surgia e o espírito medieval seria menos simples do que enxergam outros historiadores. Para poder ver com clareza a chegada do Renascimento, defende Huzinga, é preciso não só considerar o caso italiano, mas voltar-se para a França. O som e o espírito da Renascença já estavam lá. Tudo já parecia degenerado com uma certa coloração pagã que iria incomodar - e muito - as autoridades da Igreja.

Quem é
Johan Huizinga, historiador holandês
Erudito, abordou a história com olhar de esteta. Estudou sânscrito e se tornou um orientalista respeitado antes de escrever O Outono da Idade Média. Foi preso pelos nazistas e morreu em 1945, em Gelderland, Holanda.
O Outono da idade Média - Debate promovido pela editora, em parceria com o Sabático, do Estado, sobre o livro de Johan Huizinga, lançado pela Cosac Naify. Quarta, 27, às 19 horas, no anfiteatro do Departamento de História da USP. Av. Professor Lineu Prestes, 338. tel. (11) 3091-3731.