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quarta-feira, 27 de março de 2013

O martírio das Carmelitas na Revolução Francesa




revolucao-francesa-1A escritora Gertrud von le Fort mostrou em seu livro A ÚLTIMA AO CADAFALSO (Ed. Quadrante, SP), o quão perversa e sanguinária foi a Revolução Francesa (1789) que nada teve de “Igualdade, liberdade e fraternidade”, como se propaga, mas foi a encarnação diabólica do mal na França, especialmente contra a Igreja Católica.
O texto abaixo mostra o assassinato covarde e revoltante de 16 irmãs carmelitas de Compiègne, na guilhotina, acusadas maldosamente de serem “subversivas” e inimigas da Revolução. Como, se eram enclausuradas? Foi o ódio de Satanás contra aquelas que ofereciam a Deus a sua vida para aplacar a cólera de Deus na França. Leia este relato e depois o livro todo, para não ser enganado.
“São cerca de oito horas da tarde. É verão e o céu ainda está claro. A multidão comprime-se em volta da guilhotina, erguida no centro da antiga Place du Thrône, atual Barriére de Vincennes. Junto dos degraus que conduzem ao cadafalso, o carrasco, Charles-Henri Sanson, espera respeitosamente de pé, flanqueado por dois ajudantes. O calor é opressivo, e em toda a praça reina um odor mefítico de sangue. Vindos da cidade, despontam os carroções. Hoje são dois, e vêm bastante cheios: ao todo, serão quarenta vítimas. Recebem-nas as exclamações e ameaças habituais, mas o barulho logo se abafa em murmúrios de espanto. Acontece que, entre os condenados, se veem diversas mulheres de capa branca: são as dezesseis carmelitas do convento de Compiègne, Ao contrário dos seus companheiros de infortúnio, não deixam pender a cabeça nem choram ou gritam; trazem o rosto erguido, e a linha firme do corpo é sublinhada pelas mãos amarradas às costas. E cantam: aos ouvidos de todos, ressoam as notas quase esquecidas da Salve Rainha em latim e do Te Deum. Até para o mais empedernido dos basbaques presentes, é um espetáculo inaudito.
Quando os carroções param ao pé do cadafalso, o burburinho faz-se silêncio absoluto. Até essas mulheres histéricas, as chamadas “fúrias da guilhotina”, que sempre estão na primeira fila dos espectadores, emudecem.
As primeiras a descer são as carmelitas. Uma delas, a priora, Madre Teresa de Santo Agostinho, aproxima-se do carrasco e pede-lhe que lhes conceda uns minutos para poderem renovar os seus votos e que a deixe ser a última a sofrer a execução, para que possa animar cada uma das suas filhas até o fim. Sanson, o carrasco, alma delicada, concorda de bom grado.
Todas juntas, cantam o Veni Creator Spiritus. A seguir, renovam os seus votos religiosos. Enquanto rezam, uma voz de mulher sussurra na multidão: “Essas boas almas, vejam se não parecem anjos! Pela minha fé, se essas mulheres não forem diretas ao paraíso, é porque o paraíso não existe!… “.
A priora recua até a base da escada. Tem nas mãos uma estatueta de cerâmica da Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo. A primeira a ser chamada, a mais jovem de todas, é a noviça Constança. Ajoelha-se diante da Madre e pede-lhe a bênção. Segundo uma testemunha, ter-se-ia também acusado nesse momento de não haver terminado o ofício do dia.
Com um sorriso, a Madre diz-lhe: “Vai, minha filha, confiança! Acabarás de rezá-Io no Céu”…, e dá-lhe a beijar a imagem. Constança sobe rapidamente os degraus, entoando o salmo Laudate Dominum omnes gentes, “Louvai o Senhor, todos os povos”. “Ia alegre, como se se dirigisse para uma festa”. O carrasco e seus ajudantes, com gesto profissional, dispõem-na debaixo da guilhotina. Ouve-se o golpe surdo do contrapeso, o ruído seco da lâmina que cai, o baque da cabeça recolhida num saco de couro. Sem solução de continuidade, o corpo é lançado ao carroção funerário.
Uma por uma, as freiras ajoelham-se diante da priora e pedem-lhe a bênção e permissão para morrer. Cantam o hino iniciado por Constança. Quando chega a vez da Irmã de Jesus Crucificado, que tem 78 anos, os jovens ajudantes do carrasco têm de descer para ajudá-la a vencer os degraus. Ela diz-lhes afavelmente: “Meus amigos, eu vos perdoo de todo o coração, tal como desejo que Deus me perdoe”.
Só falta a Madre. Com gesto simples e firme, beija a estatuinha e confia-a a primeira pessoa que tem ao lado*. Tem 41 anos, um rosto expressivo, nem muito bonito nem feio; o porte é, mais do que altivo, descontraído. Os olhos castanhos, sofridos, mas irradiando bondade, procuram os do Pe. Lamarche, que as confessara no dia anterior na prisão e que se encontra entre a multidão. Como quem tem pressa em concluir uma tarefa urgente, sobe por sua vez os degraus. Agora tudo terminou. Pode-se cortar o silêncio como se fosse um queijo. Muitos dos assistentes choram baixinho. Anos mais tarde, encontrar-se-ão – registrados em cartas pessoais, diários íntimos e memoriais – os ecos da emoção que experimentaram e dos efeitos que ela lhes causou: muitos sentiram a necessidade de mudar de vida, de retomar a prática dos sacramentos, um ou outro de ingressar num convento… Um deles, um menino que presenciara a cena das janelas de um prédio situado em frente da guilhotina, guardou dela uma impressão tão profunda que, anos mais tarde, quando fazia o serviço militar, carregava sempre consigo as obras de Santa Teresa de Ávila e acabou por fazer-se sacerdote. “O amor vence sempre”, costumava dizer a Madre priora; “o amor vence tudo”.
(*) Essa imagem foi devolvida mais tarde à Ordem e encontra-se hoje no Carmelo de Compiègne, novamente fundado em 1867.
Os corpos foram levados às pressas para o antigo convento dos agostinianos do Faubourg de Picpus. Lá foram lançados na fossa comum e cobertos de cal viva. Hoje há ali um gramado cercado de ciprestes, com uma simples cruz de ferro. É um lugar de silêncio e oração.
Na capelinha anexa a esse cemitério, há uma lápide que traz o nome das dezesseis mártires beatificadas em 27 de maio de 1906 por São Pio X.
Prof. Felipe Aquino

domingo, 16 de setembro de 2012

A FACE OCULTA DA REVOLUÇÃO FRANCESA



Jean Marc Bastière  Le Figaro Magazine *
    
Da perseguição religiosa aos tribunais do Terror;
da guerra civil à destruição das obras de arte,
"O Livro Negro da Revolução Francesa"
revela o que os manuais escolares nos ocultam

 
     Como o tempo passa! Faz praticamente vinte anos que celebramos o bicentenário da Revolução Francesa. Tomando como referência o ano de 1789, seria como se já estivéssemos na época do Império... Embora o nome de Napoleão esteja presente nas livrarias, o homem do 18 Brumário já não é celebrado oficialmente [1]. Em certo sentido, porém, o Consulado e o Império também integram o grande ciclo inaugurado em 1789. Agora, vem à luz um "O Livro Negro da Revolução Francesa". Sem dúvida, um acontecimento de porte! Trata-se de um alentado volume, com 882 páginas, que ajuda a refrescar a memória.
     Em 1989, a Revolução deixara de ser a personificação daquela mulher petulante e fogosa [Marianne] à qual o mundo inteiro não ousava resistir. A Revolução bolchevista já havia projetado as suas sombras sobre Marianne, empalidecendo-lhe os atrativos. É certo que, com o brilhante desfile de 14 de julho, o publicitário Jean-Paul Gaude tentou insuflar-lhe novo alento. Contudo, nesse mesmo ano [1989], a derrubada do Muro de Berlim desferiu um decisivo golpe no sonho de um "porvir revolucionário". Hoje, a única mulher jovem que pretende encarnar a idéia de Revolução usa véu e é islâmica! [2]
     Foi, sobretudo, nos últimos vinte anos que uma re-interpretação radical, feita por certos historiadores, comprometeu seriamente a reputação dessa antiga glória. A partir da década de 60 [do século XX], François Furet, um homem de esquerda que aderira ao liberalismo, abriu um rombo no catecismo revolucionário de Soboul e dos historiadores marxistas. Pouco antes das celebrações do Bicentenário, e como um ponto final após longa análise, ele chegou à conclusão — em seu Dicionário Crítico da Revolução Francesa, publicado em 1988 — de que o processo revolucionário, em nome da "soberania indivisível", já trazia em seu bojo os germes do Terror. A bem dizer, não sendo a Revolução aquele “bloco indivisível”, como intentara fazer crer Clemenceau aos correligionários da Terceira República, também a fase sangrenta [o Terror] já não poderia ser vista como mero “desvio” no conjunto do processo. [3]
     No elenco de autores que contribuíram para "O Livro Negro da Revolução Francesa", encontram-se numerosos historiadores de renome que, nas últimas décadas, tomaram parte ativa na “desconstrução” da mitologia revolucionária. Mencionemos alguns: Pierre Chaunu, Jean-Christian Petitfils, Jean de Viguerie, Jean Tulard ou Emmanuel Le Roy Ladurie. Nesse rol, excelentes escritores, assim como Reynald Secher, Jean Sévillia, Jean des Cars ou Frédéric Rouvillois. Embora de valor desigual, tais estudos são sérios, caracterizando-se pela erudição e largueza de horizontes.
Não só a nobreza foi guilhotinada, 80% eram pessoas do povo!
     A primeira parte do "Livro Negro da Revolução Francesa" discorre sobre os episódios históricos. São discutidos os mais diversos temas, entre os quais, soberania popular, iconografia, legado do Terror, 14 de Julho, divisa "Liberdade, Igualdade, Fraternidade", vandalismo, perseguição religiosa ou o papel de Saint-Just — figura que, ainda hoje, atrai certa gama de fascistas... [4]
     Desde o princípio, a Revolução suscitou intenso debate, com um grau de repercussão que se prolongou durante várias gerações. Daí provém o interesse da segunda parte da obra, análise inteiramente inédita, que versa sobre o impacto dessa crise sobre as mentalidades. Não só autores contra-revolucionários são estudados. Constam da relação: Joseph de Maîstre, Rivarol, Malesherbes, Chateaubriand, Balzac, Baudelaire, Augustin Cochin, Maurras, Bainville, Péguy, Nietzsche, Hannah Arendt...
     O gênio literário ou filosófico encontrou na Revolução Francesa um tema-padrão para a formulação de uma crítica radical da modernidade. A terceira parte — final da obra — apresenta uma antologia de textos inéditos ou menos conhecidos.
     O vandalismo revolucionário
     Escreve Alexandre Gady: “Não há termos para exprimir a comoção de quem vê a escultura da “Virgem com o Menino”, do século XIII, sendo destruída a marteladas. Não há vocabulário que faça sentir o impacto de presenciar uma catedral medieval dinamitada e reduzida a escombros...”.

     No "Livro Negro", esse professor da Sorbonne analisa o vandalismo revolucionário. Não há igreja, castelo ou cidade que não ostente tal estigma. Juntamente com os objetos e monumentos religiosos, as destruições mais sistemáticas se voltaram contra as efígies reais. Com exceção de uma estátua em pé de Luís XIV, de Coysevox, poupada por milagre (ela se encontra no Museu Carnavalet), não foi preservada nenhuma das estátuas eqüestres ou pedestres que ornamentavam os palácios reais e os edifícios públicos. Foram todas derrubadas, despedaçadas, espalhadas, pulverizadas...

Setembro de 1792: foram massacradas em Paris 1400 pessoas pelos revolucionários. Enquanto matavam, elaboravam as Declarações de Direitos Humanos...
     Destruam a Vandéia!
     “Destruam a Vandéia!” (Barrère, julho de 1793); “A Vandéia deverá ser um cemitério nacional” (Turreau); “Serão todos exterminados” (Carrier); “Essa é uma gente maldita” (Lequinio). De fato, a população vandeana foi objeto de um inaudito empenho de extermínio. Prisões, campos de prisioneiros a céu aberto e barcos-prisões afundados tornaram-se leitos mortuários. No afã de acelerar os processos, recorria-se à guilhotina, aos fuzilamentos em massa e aos afogamentos. Mulheres e meninos não escaparam à carnificina. Os próprios revolucionários relataram as piores atrocidades. Do total de uma população calculada em 815.000 pessoas, a incursão republicana na Vandéia matou 117.000 habitantes — decorrência de uma “chacina populacional” cujos métodos inspirariam, no século XX, figuras como Lenine e Pol Pot.
     A ambição do "Livro Negro" não é denegrir a Revolução Francesa, mas apenas deixar que os fatos falem por si. São atrocidades pavorosas. Do ponto de vista humano, financeiro, econômico ou internacional, o balanço é bem triste. Contudo, como acentua Pierre Chaunu, computadas as perdas do ponto de vista de talentos e capacidades criativas, os resultados desastrosos foram, proporcionalmente, ainda muito mais altos para a França. Enquanto potência, o país debilitou-se irreversivelmente.[5]
     A editora católica Le Cerf, que goza de grande penetração nos meios universitários, acha-se na origem desse projeto, sendo que o responsável pela publicação é Renaud Escande, (jovem) religioso dominicano. Eis aí dois pontos que merecem registro. Ao que parece, a esfera eclesiástica está-se desprendendo de certos tabus, ou da inibição de ventilar certos temas...

No afã de acelerar os processos, recorria-se à guilhotina, aos fuzilamentos em massa e aos afogamentos. Mulheres e meninos não escaparam à carnificina.
     Sem dúvida, à Igreja Católica coube oneroso tributo: a perseguição anti-religiosa, na Revolução Francesa, foi de uma extrema crueldade. Nela pereceram oito mil sacerdotes, religiosos, religiosas, e muitos milhares de leigos. Um dos aspectos interessantes do livro é propriamente fazer uma clareação a respeito do problema espiritual (aliás, uma obra vinda a lume recentemente é intitulada “As Origens Religiosas da Revolução Francesa”). Outro sinal característico da evolução das mentalidades: um artigo do filósofo Michaël Bar-Zvi, com uma visão bastante crítica sobre a natureza ambígua da Revolução Francesa em face dos judeus.
     O Livro Negro da Revolução Francesa é como que um desdobramento ou eco de outra obra de grande repercussão, anos atrás. Trata-se doLivro Negro do Comunismo. Vale notar que Stéphane Courtois, coordenador do trabalho sobre o comunismo, também contribui para este novo estudo com um brilhante artigo acerca da Revolução Francesa enquanto “inspiradora da Revolução de Outubro”. Como O Livro Negro da Revolução Francesa foi calcado no Livro Negro do Comunismo, é fácil compreender porque o descrédito do comunismo e a sua posterior derrocada concorreram para difundir a desconfiança e as interrogações sobre a Revolução Francesa. É daí que procede a crise moral e intelectual da esquerda francesa, que está num beco sem saída. [6]
     Na França, a Revolução tem assento num espaço da memória nacional, mas de uma maneira hoje bem edulcorada. [...] Com efeito, de um lado, a abolição dos privilégios, a proclamação dos direitos do homem e do cidadão (reafirmados e complementados principalmente pelas resoluções da ONU, em 1945) são pilares essenciais de nossa República. Todavia, de outro, a fase do Terror, freqüentemente na penumbra, suscita certo mal-estar. Nossa Revolução, ao longo de tanto tempo tida como a fonte inspiradora do Universo, na verdade, teria sido apenas uma exceção nacional. Isso porque os demais países, em particular os anglo-saxões, tornaram-se promotores dos mesmos valores democráticos sem o grande derramamento de sangue de que nós, franceses, nos tornamos responsáveis. A reforma e o progresso social podem ser efetivados sem que a perspectiva de futuros radiosos degenere em alvoradas sangrentas. Ao contrário da política de tábua rasa, é o nosso legado histórico, em toda a sua profundidade e complexidade, que precisamos saber avaliar.
      _________

     NOTAS DO TRADUTOR:

    [1] Em 18 Brumário, 09/11/1799 no calendário gregoriano, Napoleão Bonaparte derrubou o governo do Diretório e instituiu o Consulado. 
    [2] Marianne é figura alegórica que personifica os ideais da Revolução Francesa encarnados na República Francesa. Delacroix pintou Marianne como a “Liberdade guiando o povo”, empunhando a bandeira tricolor no campo de batalha, os seios com liberdade à mostra. Hoje não há mais sinais de vitalidade revolucionária republicana na França: passou da Marianne para certas manifestações de adeptos do islamismo ou grupos afins, que incendeiam automóveis e semeiam o caos na periferia das cidades francesas. 
    [3] François Furet, partidário da corrente “revisionista” da revolucionária francesa, afirmou, às vésperas do bicentenário, que o processo revolucionário trazia em si os germes do Terror. Em outras palavras, o período do Terror não teria sido tão-só um episódio marginal, já que toda a Revolução Francesa ficou impregnada pela violência cruel e ferocidade sangrenta. 
    [4] Há, em nossos dias, toda espécie de condescendência e cegueira diante da crescente disseminação de tiranetes, mais ou menos ferozes, mais ou menos histriônicos. Haja vista a espalhafatosa presença, no cenário internacional, de certos caudilhos latino-americanos: Chaves, Morales, Corrêa, indubitavelmente inspirados no verdugo-mor que é Fidel Castro e o seu regime. Analogamente, é o que acontece com relação aos régulos ou chefetes de muitas infelizes nações africanas. Não espanta, pois, que, nesse contexto, as memórias de muitos terroristas dos últimos séculos, mesmo dentre os mais sanguinários e monstruosos, encontrem guarida, admiração e sejam até objeto de “culto” em diversos círculos étnicos e sociais. Assim, é o caso de Stalin, em certas zonas da Rússia, de Mao-tsé-Tung na China, como também de Robespierre e Saint-Just, em certos meios político-sociais francófonos. 
    [5] Essa lúcida afirmação de Pierre Chaunu colide frontalmente com tudo aquilo que os manuais de História, em voga há décadas nas escolas brasileiras, sempre proclamaram quase como dogma de fé — a saber, as indestrutíveis “conquistas” e “glórias” da Revolução Francesa. Para Chaunu, num cotejo imparcial, foi a Revolução que acarretou para a França o início de seu declínio como grande potência no concerto das nações. 
    [6] A Revolução Francesa é a matriz inspiradora da revolução comunista. O descrédito da segunda repercute sobre a primeira. Se as duas revoluções estão em crise irreversível, a alternativa lógica consistiria em aderir à Contra-Revolução. O desfecho lógico do artigo, portanto, conduziria o leitor a essa direção. Contudo, o articulista Jean Marc Bastière não é contra-revolucionário. É revolucionário moderado. Seu coração não está com os Danton e os Marat sanguinários, mas comunga com os moderados girondinos, companheiros de Madame Roland. Por isto a conclusão do artigo, no último parágrafo, não conduzirá a uma efetiva tomada de atitude contra-revolucionária. O legado que intenta preservar é de matiz girondino: mescla o passado contra-revolucionário com o "futuro radioso" revolucionário. Ora, de fato, uma vez feito o balanço dos últimos duzentos anos, verifica-se que a faceta vitoriosa da Revolução foi moderada e não radical. A face oculta da Revolução Francesa — pelo seu radicalismo sanguinolento — não é bem vista pelos revolucionários moderados de hoje. Não nos iludamos, porém. Assim como os seus predecessores, também estes são "companheiros de viagem" da Revolução radical, consolidando assim, a seu modo, as suas “conquistas” passadas, obtidas no decurso do período sangrento. 
      _________

     * Publicado no Le Figaro Magazine de 09/02/08, pp. 70-71.
     Tradução: André F. Falleiro Garcia.   

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Pensando a revolução Francesa - François Furet


    
      Resumo do livro Pensando a Revolução Francesa, de François Furet

“E a história que se escreve é também história dentro da história.”
Furet

1º. Biografias

François Furet (1927 - 1997): foi membro da resistência durante a guerra e membro do Partido Comunista por mais de dez anos, quando iniciou os estudos de história; rompeu primeiro com o stalinismo, e em seguida com toda a esquerda; a partir da década de 60 inicia os estudos da Revolução Francesa, e vai se converter num crítico ferrenho das interpretações marxistas e esquerdistas do fenômeno. Isso dará origem a um debate ácido em que será muitas vezes taxado de inconsistente.
 Aléxis de Tocqueville (1805 – 1859): escritor e historiador francês, célebre pela análise que faz da Revolução Francesa; oriundo de família aristocrática, seu avô foi guilhotinado durante o Terror  e sua família esteve exilada na Inglaterra. Foi deputado e em 1849 chefiou a pasta de Negócios Exteriores.
 Augustin Cochin (1876 – 1916), historiador vindo de uma tradicional família católica e pouco conhecido antes de Furet, faz uma análise histórico-sociológica da Revolução Francesa, usando conceitos de Durkheim; a maior parte de sua obra foi publicada postumamente, tendo ele falecido combatendo na I Guerra Mundial.
  
2º. Análise da Obra

            Como explica o próprio autor em seu prefácio, a obra é composta de duas partes: a primeira é uma síntese sobre como pensar um evento como a Revolução Francesa; na 2ª. Parte ele apresenta as etapas de sua pesquisa, sobretudo o estudo das obras de dois historiadores franceses, Aléxis de Tocqueville e Augustin Cochin, que ele considera complementares e na qual baseou seu sistema de interpretação.
             Furet é um crítico feroz da historiografia clássica da Revolução Francesa, sobretudo os chamados jacobino-marxistas; os historiadores marxistas do século XX , sobretudo, ao apontar a Revolução Francesa como o berço da Revolução de 1917, tornam-se teleológicos; a revolução deixa de ser um campo aberto de possibilidades, e o único futuro possível é a revolução soviética.
            Denuncia o que ele classifica de mito das origens, de ver em 1789 o ano zero da atual sociedade. Para Furet isso é resultado de uma construção ideológica dos próprios revolucionários, em busca de legitimar o movimento; eles se apresentam como as forças do futuro e da modernidade em ação.
            Também refuta a idéia habitual de que o período jacobino teve grande participação popular, apoiando-se nos trabalhos de Cochin para afirmar que o respeito à vontade popular era algo apenas do imaginário social, sobretudo com o advento do Terror; essa é, em sua opinião, a grande característica do movimento jacobino: a apropriação simbólica da vontade do povo.
            Furet discorda da chamada teoria das circunstâncias, de que a radicalização do discurso revolucionário é uma resposta à crescente reação dos conservadores; isso, segundo ele, estaria transferindo a iniciativa histórica aos inimigos da revolução, o que é um engano. Para Furet o discurso das circunstâncias é uma importante justificativa para o inevitável banho de sangue necessário para uma radical transferência de poder de uma classe aristocrática para os burgueses. Idéias como a da conspiração aristocrática, com a fuga do rei, são trabalhadas e arranjadas para produzir um imaginário revolucionário, uma mentalidade coletiva para alavancar o novo poder.
            Furet propõe um modelo explicativo alternativo para o estudo do fenômeno revolucionário francês, considerado ao mesmo tempo como processo e acontecimento, definindo a revolução como uma modalidade de ação social; o processo comporta continuidades e rupturas; ao lado da instauração de uma política democrática há a permanência da tradição absolutista (Gouveia, Maria. p.2)          
            Outra crítica controvertida de Furet é quanto à definição da Revolução Francesa como uma revolução burguesa; acha mais apropriado falar nas várias revoluções em andamento, sobretudo a revolução camponesa; enquanto os burgueses querem acelerar as mudanças econômicas e sociais que estão ocorrendo na França desde 1750, os camponeses marcham no sentido contrário; aliados às classes populares urbanas, desejam a volta das garantias feudais que gozavam no passado; ou seja, a motivação dos camponeses é reacionária.
            Ainda segundo Furet, a radicalização do movimento é fruto da atividade camponesa e popular; a burguesia não desejava a guerra de 1793, seus representantes tentaram impedi-la até onde foi possível; e ironiza: à burguesia não interessava que camponeses armados marchassem por todo continente.
            E destaca outra contradição básica dos dois movimentos: a burguesia quer um militar liberal para liderar um sistema representativo; as camadas populares querem um general vitorioso instaurando um Estado Absoluto.

A Evolução da Revolução

            A Revolução não é um bloco, diz Furet; há contradições e rupturas fundamentais:

            No primeiro momento temos o jacobinismo e a democracia direta; a política democrática é visto como ideologia nacional; todas questões morais e intelectuais tornam-se políticas, tudo é passível de uma solução política. Forma-se um cenário maniqueísta de luta entre o bem e o mal. Há um novo ator político (o povo) e um novo imaginário social.
             A Guerra de 1793 é o cimento necessário para unir os diferentes grupos; a guerra torna-se o último critério de fidelidade à Revolução: fazer a paz com os inimigos é trair a revolução. Ela perde a racionalidade prática dos conflitos limitados do Antigo Regime; a primeira guerra democrática busca a vitória ou a derrota total. Vai alimentar a paranóia do Terror e a partir do Termidor ela se torna um investimento social, político e ideológico; essa nova cruzada refunda as tendências seculares da sociedade francesa e recria o poder central; purifica-os do passado e restitui suas ambições históricas; o povo agora tem acesso às honras militares antes exclusivas dos nobres.
             O Terror atua sobretudo no imaginário; a paranóia da traição é o exemplo máximo da manipulação das idéias; a idéia se torna poder. Agora só há espaço para o consenso ou a morte.
             Com o Termidor acaba a democracia direta, e a idéia de representatividade é restaurada. A ideologia revolucionária deixa de ser coextensiva ao governo da república. Furet considera que é o momento mais puro da revolução, por devolver à sociedade sua independência sobre a ideologia.
           
As Idéias de Tocqueville

            Para Tocqueville a chave da compreensão da Revolução Francesa está nos conflitos internos da nobreza: a chamada nobreza de sangue perdeu seus poderes locais e não tem forças para influenciar a política real.
            Ao mesmo tempo a atividade econômica está provocando uma redistribuição da riqueza em proveito do Terceiro Estado; os burgueses abastados agora adquirem cargos no Estado; tornam seus filhos parlamentares e casam-nos com filhas de duques, tornando-se assim nobres. Ou seja: há um conflito intranobiliário opondo a antiga nobreza à nova nobreza de ascendência burguesa.
            Há ainda um terceiro personagem neste confronto: a cada vez mais influente classe de funcionários reais, que se tornam nobres por nomeação real. Assim temos a nobreza de sangue, a nobreza do dinheiro e a nobreza por mérito disputando avidamente cargos e influência na Corte, na Igreja e no Exército.
            O conflito vai fazer com que parte da nobreza estimule a instabilidade social para fragilizar o Estado, na esperança de que um estado fragilizado faça concessões para obter o seu apoio.
             E enumera as três conclusões fundamentais de Tocqueville:
 A significação histórica da Revolução Francesa não é econômica ou social, é sócio-política: ela substitui as instituições herdadas do feudalismo por instituições igualitárias; entendendo-se como instituições tanto a ordem social como a ordem política.
 A causa mais geral da Revolução Francesa reside num processo dialético de continuidade/ruptura (continuidade nos fatos, ruptura nos espíritos) em que ela vai concluir o processo de centralização administrativa e a modernização do aparelho estatal (através de uma classe de funcionários administrativos e do desenvolvimento do poder público) iniciado pelo Estado Absolutista.
 As causas mais imediatas da Revolução Francesa estão ligadas à intensa circulação das idéias iluministas na 2ª. Metade do século XVIII, produzindo uma transformação nas mentalidades e nos espíritos, uma revolução cultural em que o foco nos sentimentos religiosos desloca-se para um culto imaginário do Estado-modelo. A isso acrescente-se o boom de desenvolvimento econômico que a França vive desde 1750, produzindo uma insuportável pressão por mudanças político-sociais.

As Idéias de Cochin

Seu interesse fundamental é o jacobinismo. Segundo Furet, enquanto Tocqueville busca o segredo da continuidade, Cochin busca o da ruptura.
Ele descarta as teorias então vigentes de que o jacobinismo é fruto de uma conspiração maçônica. E apresenta a idéia original de o jacobinismo ser originário da evoluções das sociedades de pensamento (círculos literários, lojas maçônicas, clubes culturais e patrióticos); a sociedade, e sobretudo a sociedade erudita, privada dos canais tradicionais de comunicação entre sociedade e Estado (estados gerais, parlamentos, corpos municipais) por Luis XIV, passa cada vez mais a ocupar-se da filosofia e literatura; o debate desloca-se dos problemas reais para os princípios, a discussão de valores. Essa nova sociabilidade política vai formando a nova opinião; esta, alienada da monarquia, logo começa a vê-la como inimiga do povo.
A partir daí inicia-se um hábil jogo de manipulação de idéias, sempre respaldadas pelo imaginário igualitário/democrático de que exprimem a vontade do povo. Cochin o resume assim:

  • O primeiro passo é a fabricação de uma idéia consensual.
  • O consenso estende-se da sociedade de pensamento para a totalidade da sociedade.
  • O consenso domina o Estado; o controle é exercido pelas minorias militantes, depositárias da nova legitimidade (a vontade do povo).
             Para Cochin a Revolução Francesa não é fruto de contradições econômicas ou sociais: ela tem sua origem numa manipulação política do corpo social e na conquista do poder por pequenos grupos anônimos que o exercem em nome da igualdade e do povo.
A grande obra do jacobinismo foi criar uma nova legitimidade cultural (o principio da igualdade de todos os homens) e uma nova regra do jogo político, a democracia pura ou direta (o poder exercido diretamente pelo povo, sem intermediação de representantes).
Essa utopia inicia uma luta cada vez mais violenta para que os líderes se legitimem como “porta vozes” do povo, que vai desembocar no Terror.

Bibliografia

GOUVEIA, Maria de Fátima S. Revolução e Independência: notas sobre o conceito e os processos revolucionários na América Espanhola. Estudos Históricos, n. 20, Rio de Janeiro, 1997.
FURET, François. Pensando a Revolução Francesa. São Paulo, Paz e Terra, 1989.

A Revolução Francesa e a Religião Católica

A Revolução Francesa marcou para Igreja Católica um dos períodos mais difíceis de sua história. Isto porque a Revolução não só propagou os ideais iluministas que incluíam um sentimento anticlerical e anti-religioso, como também exerceu na prática esses ideais, muitas vezes de forma violenta.
A França sempre teve uma posição de destaque na cristandade, desde os séculos medievais, da conversão dos francos ao catolicismo até a época em que a cidade francesa de Avignon abrigou a sede do papado. Foi também a França um dos maiores pontos de conflito entre católicos e protestantes. Tais fatos levaram a França a ser considerada por muitos papas como a “filha predileta da Igreja”. Às vésperas da Revolução, o país mostrava um quadro onde o catolicismo vivia o seu auge: a população participava dos ritos religiosos e o clero paroquial cuidava da vida religiosa da sociedade. Exercia grande influencia na vida política, pois o poder absoluto do rei era garantido pelo direito divino, e o próprio clero possuía status de Estado. A religião católica influenciava também o tempo, com o calendário gregoriano que possuía festas e feriados cristãos. Por fim, era papel do clero presidir as atividades civis como os casamentos e os registros de nascimento e óbito. Era esse quadro que a revolução viria a mudar radicalmente.
A Revolução Francesa, em sua tentativa de acabar com as estruturas feudais ainda vigentes, colocou a Igreja Católica em uma difícil situação. Desde os primeiros passos da Assembléia Constituinte até a Constituição Civil do Clero, foram tomadas medidas capazes de levantar suspeitas de que a revolução era hostil ao clero. Uma das primeiras medidas dos revolucionários foi a supressão do dizimo e o confisco dos bens do clero, para saldar o déficit nacional. Essas medidas, a principio, não causaram um conflito direto entre a Igreja e a Revolução.
O conflito só viria com a Constituição Civil do Clero e o juramento dos padres. Tal medida dividiu o clero francês: o clero constitucional, fiel à constituição, e o clero refratário, fiel ao papa. Este repudiava cada medida dos revolucionários, pois, além de perder o controle sobre o clero francês também perdeu suas possessões territoriais francesas na cidade de Avignon.
É possível afirmar que a Constituição Civil do Clero foi o divisor de águas nas relações entre a Religião Católica e o Estado revolucionário francês. Foi o juramento dos padres que estimulou a contra-revolução na Vendéia e a guerrilha camponesa dos Chouans – a Chouannerie, da qual participaram o clero refratário e a aristocracia. Foi também a questão do juramento que desencadeou um movimento violento de ataques aos padres e aos templos. Além disso, subordinava o clero ao Estado rompendo os seus vínculos com o papa.
A Igreja ainda viria a perder suas áreas de influência na vida política e social. O rei Luís XVI, antes de ser decapitado, é obrigado a renunciar o seu “poder divino”, tornando-se um cidadão como outro qualquer. O clero deixa de presidir as atividades da vida civil como o casamento e os registros de certidões de nascimento e de óbito. É importante ressaltar que na tentativa de enterrar de vez a influência católica, o governo aboliu o calendário gregoriano acabando com os dias da semana, e conseqüentemente, eliminando as festas e feriados religiosos, inclusive o domingo, conhecido como “Dia do Senhor”. Para substituí-lo criou um novo calendário, conhecido como Calendário Republicano Francês, que marcaria o inicio da nova era da Republica Francesa dando uma nova nomenclatura aos meses e semanas de acordo com as estações do ano.
O período do Terror marca o inicio do movimento violento que se deu contra a Igreja Católica. Igrejas são apedrejadas, padres são forçados a abdicar, imagens religiosas são destruídas e o culto religioso passa a ser proibido. Podemos ainda citar as tentativas de substituir o culto religioso por um culto revolucionário, como o culto à razão e ao Ser Supremo. Esses cultos exaltavam a vitória da razão e da consciência sobre a dominação da Igreja. Sobre o culto ao Ser Supremo, Robespierre aparece como pontífice da religião do Estado na tentativa promover a união entre o sentimento revolucionário e o sentimento religioso.
Passado o período violento do Terror, com a queda de Robespierre, seguiu-se uma fase confusa para a religião. Os homens que o derrubaram eram anticlericais que participaram dessas perseguições. Contudo, a política da Convenção Termidoriana seguia a lógica do retorno da liberdade que o período do Terror havia negligenciado. A essa lógica de liberdade estava ligada à questão da liberdade de culto. No período que vai de 1795 a 1799, as Assembléias do Diretório agiam ora permitindo o retorno ao culto, ora regressando a uma política de perseguição.
Esse quadro só seria resolvido com Napoleão Bonaparte. No período do Consulado, Napoleão e o Papa Pio VI assinam uma Concordata que redefine as relações entre a Igreja e o Estado. Por essa Concordata a Igreja Católica era reconhecida na sua unidade e estatuto, a liberdade de culto era garantida e o catolicismo era aceito como a religião da maioria dos franceses. Contudo a Igreja ficava subordinada ao Estado, uma vez que a nomeação de bispos era feita pelo Consulado. Os territórios da Igreja, como Avignon, e seus bens também não são restituídos.
O ultimo pilar do movimento de ataque a religião católica, o Calendário Republicano, foi extinto por Napoleão no Império, em 1805.
Cronologia:
  • 04/08/1789 – Abolição dos direitos feudais e supressão do dizimo.
  • 02/11/1789 – Confisco dos bens do clero para saldar déficit nacional.
  • 12/07/1790 – Aprovada a Constituição Civil do Clero.
  • 26/11/1790 – Decreto fixando o prazo de dois meses para o juramento dos padres em exercício à Constituição.
  • 03/1793 à 03/1796 – Revolta da Vendéia e guerrilha camponesa dos Chouans
  • 07/11/1793 (17 de Brumário do ano II) – Abjuração do bispo de Paris, marca o inicio da descristianização.
  • 21/11/1793 (1 de Frimário do ano II) – Intervenção de Robespierre, refreando a descristianização violenta.
  • 24/11/1793 (4 de Frimário do ano II) – Convenção Nacional adota o Calendário Republicano, determinando a data de 22/09/1792 como inicio do ano I da Republica.
  • 07/05/1794 (18 de Floreal do ano II) – Relatório da Convenção que define as relações entre Estado e Igreja.
  • 27/07/1794 (09 de Termidor do ano II) – Queda de Robespierre , sucedido por anticlericais que haviam participado da descristianização violenta.
  • 18/08/1797 à 17/09/1797 (Frutidor do ano V) – Inicio da política de perseguição religiosa.
  • 07/1801 – Concordata assinada entre Napoleão e o Papa Pio VI.
  • 31/12/1805 – Abolição do Calendário Republicano por Napoleão.
Textos de época:
 “A lei considera o casamento como sendo um contrato civil”. (Artigo 7 do Titulo II da Constituição Francesa de 1791).
A lei não reconhece os votos religiosos, nem qualquer outro compromisso que seja contrário aos direitos naturais, ou à Constituição”. (Constituição Francesa de 1791).
O novo calendário assim como suas instruções serão enviadas aos corpos administrativos, as municipalidades, aos tribunais, aos juizes de paz e a todos os oficiais públicos, aos mestres de todas as instituições e as sociedades populares. O conselho executivo provisório fará passar aos ministros, cônsules e outros agentes da França nos países estrangeiros”. (Artigo 13 do Decreto da Convenção Nacional sobre a instituição do Calendário Republicano).
Ilustrações:
O Terror e os ataques a religiao catolica na figura dois homens da Igreja aparecem enforcados
O Terror e os ataques à religião católica: na figura dois homens da Igreja aparecem enforcados.
Simbolo dos patriotas insignias como essas eram portadas pelos soldados que lutaram na Vendeia e contra os Chouanneires
Símbolos dos patriotas: insígnias como essas eram portadas pelos soldados que lutaram na Vendéia e contra as Chouanneires.
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Nas figuras de Robespierre e Napoleão, a religião católica conheceu dois momentos: com o primeiro, a tentativa de sua superação, através de cultos revolucionários; com o segundo, a restituição do seu estatuto e unidade, embora subordinada ao Estado.
Referências Bibliográficas:
  • Ø Burke, Edmund. Reflexões sobre a Revolução Francesa, UNB, Brasília, 1969.
  • Ø Furet, François. Pensando a Revolução Francesa, Paz e Terra, São Paulo, 1989 (2. ª edição).
  • Ø Furet, François e Ozuf, Mona (orgs.). Dicionário Crítico da Revolução Francesa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1989.
  • Ø Hobsbawn, Eric. Ecos da Marselhesa: dois séculos revêem a Revolução Francesa, Companhia das Letras, São Paulo, 1996.
  • Ø Lefebvre, Georges. 1789, O Surgimento da Revolução Francesa, Paz e Terra, São Paulo, 1989.
  • Ø Michelet, Jules. História da Revolução Francesa, São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
  • Ø Soboul, Albert. A Revolução Francesa, Difel, Rio de Janeiro, 2003 (8. ª edição).
  • Ø Vovelle, Michel. A revolução francesa contra a Igreja: da razão ao ser supremo,
  • Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1989.
Filmes:
Danton – O Processo da Revolução (1982), dirigido por Andrzej Wajda.
Sinopse: Na primavera de 1794, Danton (Gérard Depardieu) retorna a Paris e constata que o Comitê de Segurança, sob a incitação de Robespierre (Wojciech Pszoniak), inicia várias execuções em massa. O povo, que já passava fome, agora vive um medo constante, pois qualquer coisa que desagrade o poder é considerado um ato contra-revolucionário. Nem mesmo Danton, um dos líderes da Revolução Francesa, deixa de ser acusado. Os mesmos revolucionários que promulgaram a Declaração de Direitos do Homem implantaram agora um regime onde o terror impera. Confiando no apoio popular, Danton entra em choque com Robespierre, seu antigo aliado, que detém o poder. O resultado deste confronto é que Danton acaba sendo levado a julgamento, onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade foram facilmente esquecidas.
Casanova e a Revolução (La Nuit de Varennes) (1982), dirigido por Ettore Scola.
Sinopse: No início de outubro o rei Luís XVI é obrigado a viver em Paris. Os líderes da revolução julgam que no Palácio de Paris o rei estará sob maior vigilância; temem as ações contra-revolucionárias. Depois de mais de um ano de reclusão, em junho de 1791, a família real foge de Paris em direção da Áustria, com a intenção de apoiar e fortalecer as ações austríacas contra a Revolução. O rei seria desculpado pela Assembléia Constituinte no mês seguinte e condenado somente um ano e meio depois, em janeiro de 1793.
André Filgueiras, Daniel Tomazine, e Ingrid Casazza

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A Revolução Francesa que não é contada nos livros de História

A revolução Francesa de 1789 é considerada um marco histórico, que delimita o fim da Idade Moderna e o início da Idade Contemporânea. Geralmente elogiada pelos historiadores e professores como redentora da humanidade,tendo feito a libertação do atraso e obscurantismo do Antigo Regime, das Monarquias absolutas, da sociedade hierarquizada e ainda fortemente influenciada pela fé e pela Igreja.
As ideias liberais e o espírito anticlerical e deísta dos iluministas, o enfraquecimento da fé pelo avanço da Reforma Protestante, do Galicanismo, e do Jansenismo, a decadência moral e religiosa do povo, o crescimento da mentalidade burguesa capitalista valorizando o lucro como fundamento da economia, o absolutismo monárquico que envolvia as nações em guerras e mantia um excessivo luxo das cortes, endividando o Estado e aumentando a pressão fiscal sobre a população foram as causas que desencadearam o processo revolucionário. A Revolução teve início quando o Rei Luís XVI convocou os Estados Gerais, Parlamento, para opinar sobre a crise financeira do Estado francês. Dentro do Parlamento, o terceiro Estado, representando a burguesia e as camadas populares reivindicou o fim do voto por ordens e que a votação fosse feita individualmente. Com a recusa do pedido por Luís XVI o terceiro Estado passou a se reunir em separado, formando a Assembleia Nacional Constituinte.
A Assembleia decretou a abolição dos direitos feudais, aboliu os dízimos e confiscou os bens da Igreja(a pretexto de resolver a crise financeira da França), suprimiu as Congregações religiosas que não se dedicassem as escolas e hospitais, proibiu os votos religiosos e votou a Constituição Civil do Clero, que instituía Bispos e párocos eleitos pelo povo, negando assim a jurisdição do Papa. E os Bispos e padres que não juraram a Constituição foram destituídos dos cargos, perseguidos, mortos, deportados.
Na fase da Assembleia Legislativa, comandada por Robespierre, Marat e Danton, as perseguições foram mais violentas. Todas as congregações religiosas foram suprimidas, proibidas as vestes eclesiásticas e o celibato, confiscadas e saqueadas as Igrejas, abolido o culto, presos e deportados os padres não juramentados.
Encheram-se os cárceres. Nos “massacres de setembro” foram mortas 14 mil pessoas, das quais 500 sacerdotes. Cerca de 10 mil padres tiveram de emigrar ou viver na clandestinidade, arriscando a vida.
Proclamada a República(1792), Robespierre iniciou o regime do Terror. A guilhotina fez milhares de vitimas, do rei aos próprios chefes da revolução. Em Paris, de 10 de junho a 27 de julho de 1794, 2425 pessoas subiram ao cadafalso. Navios cheios de deportados eram afundados. Jourdan trucidou 600 padres em Avinhão.
Procurava-se destruir a própria lembrança do Cristianismo. Foi estabelecido o casamento civil, insituido o divorcio, proclamado o ateísmo oficial, substituído o calendário civil pelo republicano, instituído o culto da “deusa razão”, representada por uma comediante que foi “adorada”pelos republicanos em Notre Dame de Paris. E depois de tanto sangue, desentendimentos e intrigas,o próprio Robespierre acabou guilhotinado.
Na fase do Diretório(1795-1799) foi inaugurada a “religião oficial”ou teofilantropia(amigo de Deus e dos homens). Suas grotescas cerimônias levaram-na ao ridículo e a divisão entre seus lideres completou-lhe a ruina.
O espírito cristão reagia. O povo admirou a energia da Igreja na defesa dos seus direitos, ridicularizou o culto caricato dos teofilantropistas, vibrou com a resistência da Vendeia e da Bretanha. Às escondidas o povo era atendido pelos padres não juramentados, recebia orientações e os sacramentos da Igreja.
A loucura revolucionária produziu um autoritarismo mil vezes pior, semeando a insegurança, o terror e a morte, destruindo a arte e arruinando a nação. Decretara a liberdade de religião, mas confiscou as igrejas, proibiu o culto, expulsou os sacerdotes, extinguiu as ordens religiosas e proibiu até as vestes eclesiásticas. Decretara a igualdade civil, mas perseguiu os nobres e se recusou a abolir a escravidão. Decretara a liberdade de pensamento, mas exigiu juramento de ódio à monarquia e proibira o direito de associação, extinguindo as beneméritas corporações profissionais. Destruíra a Bastilha, onde havia apenas 7 presos condenados por crimes comuns, mas encheu as prisões com 200 mil presos. Em nome da liberdade tantos crimes foram cometidos, tantos foram presos, mortos e deportados.

Professor Faria

sábado, 28 de agosto de 2010

A Revolução Francesa e a Igreja

A Revolução Francesa e a Igreja
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Publicado por Marcia em 05/5/2008 (4820 leituras)
A Revolução Francesa e a Igreja
É comum afirmar que a Igreja Católica, imbuída de uma mentalidade obscurantista e autoritária, opôs-se aos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pregados pela Revolução Francesa. Entretanto, um estudo mais aprofundado dos acontecimentos ocorridos na França durante esse conturbado período mostra que a realidade é bem mais complexa do que parece.

Uma nação em crise
Ainda se encontra em jornais e salas de aula um ou outro intelectual imbuído do preconceito de que a Igreja se teria oposto desde o início à Revolução Francesa. Segundo essa visão, a Revolução seria sinônimo de “democracia”, e a Igreja teria estado unida de corpo e alma à monarquia, ou seja, ao obscurantismo e à opressão das consciências.
Felizmente, uma infinidade de estudos realizados ao longo do século XX, e publicados ou republicados por ocasião do segundo centenário da Revolução, já tornou do conhecimento comum que nem uma coisa nem outra são verdade. Mais do que representar a instauração da democracia numa sociedade ferrenhamente absolutista, a Revolução marcou o paroxismo de uma crise espiritual e social num país já abalado do ponto de vista político e institucional.
A título de exemplo: nem o rei nem a Igreja puseram entraves à Declaração dos direitos do homem e do cidadão – principal conquista positiva do primeiro período revolucionário –, com a única exceção de um velho bispo, aliás deputado da Assembléia, que sugeriu que se completasse a declaração dos direitos com outra dos deveres... A nobreza, maior prejudicada pela abolição dos seus privilégios, foi paradoxalmente a classe que mais se empenhou, corporativamente, na abolição desses mesmos privilégios. E as sangrentas lutas entre as facções monarquistas, burguesas, republicanas, comunistas e até anarquistas que marcaram o apogeu da atividade revolucionária e culminaram no Terror, foram tudo, exceto democráticas.
Quanto à acusação de “retrógrada” e de “inimiga das liberdades” que se costuma lançar contra a Igreja Católica, é preciso reconhecer que muitos católicos não souberam distinguir, no primeiro instante, os limites que era necessário traçar entre a tradição política e a religiosa. Os seus adversários anticlericais, porém, não deram mostras de terem horizontes mais amplos. Em contrapartida, e é um fato que se costuma esquecer, a Revolução moveu contra a Igreja uma perseguição que durou mais de dez anos, e na qual os motivos políticos, embora bastante presentes, desempenharam um papel secundário.
Para entendermos o que se passou, teremos de lançar uma vista de olhos sobre a crise econômica, institucional e espiritual que, a partir de 1750 aproximadamente, preparou os acontecimentos de 1789 (1).

Crise econômica. Ao longo do século XVIII, a economia francesa tinha experimentado um crescimento e uma consolidação inauditos. Por volta de 1780, a população atingira 25 milhões de pessoas, o que fazia da França a maior potência européia. A indústria diversificara-se e expandira-se. Mas, no seio dessa economia próspera, o governo estava falido: graças às manobras do Ministro das Finanças Necker, os gastos públicos excediam em um terço as rendas do governo. O apoio que a monarquia dera à guerra de libertação dos Estados Unidos transformara o furo nas finanças num rombo: mais de um terço dos gastos públicos se destinavam, por volta de 1789, a pagar apenas os juros das dívidas contraídas pelo governo. O fisco, sua principal fonte de renda, chocava-se com a antiga e generalizada prática da sonegação, acobertada ou francamente promovida pelos “Parlamentos” locais – mais ou menos equivalentes às nossas Câmaras de Deputados estaduais, acrescidas do Tribunal de Contas do Estado –, compostos na sua quase totalidade pelos principais sonegadores: nobres e burgueses ricos e grandes proprietários de terras.
Acrescentemos a isso as dificuldades por que passava a indústria têxtil, incapaz de concorrer com a inglesa, que já empregava os recém-inventados teares a vapor; o recente acordo comercial com a Inglaterra, impregnado do espírito de laissez-faire, que praticamente tinha suprimido as taxas de importação sobre os produtos estrangeiros; a crescente falta de crédito que o governo encontrava junto aos banqueiros, com a conseqüente inflação do franco; e ainda as más colheitas de trigo de 1787-88, que fizeram quadruplicar o preço do pão, e as supersafras simultâneas de uva, que fizeram despencar o preço do vinho. Tudo isso levou a uma insatisfação generalizada, que deflagrou a anarquia popular dos seis primeiros meses da Revolução.
Por fim, os arredores de Paris e de algumas outras grandes cidades do reino – Lyon, Bordeaux – tinham sido invadidos por uma população desarraigada, depreciativamente chamada sans-culottes (“sem-cuecas”); somente a crise da indústria têxtil produzira cerca de 200.000 desempregados, e o seguro-desemprego, que já existia, não era lá grande coisa. A “bandidagem” aumentara de uma maneira sem precedentes; por todo o lado , ocorriam desordens e tumultos, motivados em parte pela “psicose da carestia” causada pela alta do pão, mas sobretudo manobrados por alguns agitadores que pregavam uma “nova era de liberdade e de bonança prestes a instalar-se”. Foi essa populaça instável que forneceu, uma e outra vez, os grupos de “pressão popular” de que os revolucionários mais atuantes precisavam para obrigar o rei e a Assembléia a aceitarem as medidas mais radicais.

Crise institucional. Os principais protagonistas coletivos da primeira parte do drama serão os três “Estados”. A palavra provém das reuniões que os reis medievais deviam convocar sempre que quisessem instituir um novo imposto ou introduzir uma inovação administrativa ou judicial importante, não prevista pelos costumes estabelecidos. Essas assembléias, chamadas Estados Gerais, deviam representar a totalidade da população, e para esse efeito dividiam-se tradicionalmente em três estamentos. O “primeiro” era o clero, o “segundo” a nobreza, e o “terceiro” definia-se por exclusão: compreendia todos os não-clérigos e não-nobres, isto é, de lavradores e artesãos a banqueiros e advogados, a imensa maioria da população.
Ao longo de todo o século XVIII, o “terceiro Estado” vira crescer a sua atuação econômica e a carga tributária que pesava sobre ele, sem que a sua participação na gestão da “coisa pública” aumentasse de maneira proporcional. Os seus membros mais proeminentes alimentavam um arraigado ressentimento contra as imunidades tributárias da Igreja e contra os privilégios da nobreza, que detinha um acesso praticamente exclusivo ao primeiro e segundo escalões dos cargos públicos, diplomáticos e militares. E, como os Parlamentos locais vinham fazendo oposição sistemática às necessárias reformas administrativas, judiciárias, tributárias, de distribuição da terra etc., tentadas pelo rei Luís XVI e seu conselho de ministros, não parecia possível aos “terceiro-estadistas” mais ambiciosos mudar essa situação sem alterar toda a estrutura social do país.
Tinham-se já tentado todos os meios. Convocara-se uma assembléia de “Notáveis”, de personalidades significativas do reino, mas ela se limitara a preconizar as reformas que todos conheciam de cor e ninguém tinha coragem de aplicar. O rei fechou os Parlamentos, o que simplesmente os ransformou em governos clandestinos que já não o informavam sobre nada. A anarquia ameaçava tomar conta do país. E foi nessa altura que Luís XVI decidiu ressuscitar, como medida de emergência e pela primeira vez havia cento e cinqüenta anos, a reunião dos Estados Gerais.

A revolução nos espíritos
Como vemos, se de fato existiam uma crise econômica e outra institucional, ambas não bastam para justificar os acontecimentos. O que observaremos na Revolução, para além das questões econômicas e políticas, são as convulsões de morte de todo um mundo. Dizia o historiador Albert Mathiez, numa frase justamente famosa, que “as revoluções se fazem nos espíritos antes de passarem para os fatos”. Examinemos brevemente o panorama a esta luz.
Crise dos valores. Todo o século XVIII – o “século das luzes” – fora trabalhado pelos autonomeados “filósofos da razão” ou “iluministas”. Estava-se na era em que a ciência experimental, preparada pelos grandes teólogos medievais e posta em andamento pelos pioneiros do século anterior – Newton, Kepler, Harvey, Galileu – produzia os seus primeiros resultados em grande escala. As recentes descobertas geográficas acabavam de preencher os vazios ainda existentes no mapa-mundi. A anatomia do corpo humano tinha sido finalmente descrita com precisão . Enquanto subiam os primeiros balões de ar quente, nasciam a cirurgia, a geologia, a química, a metalurgia; Bouffon e Linneu revolucionavam a biologia, e Kant descrevia o nascimento das estrelas.
Nesse ambiente, não admira que germinassem o mito do progresso perpétuo – a humanidade sempre evolui para melhor – e o da soberania ilimitada da razão. “A filosofia consiste – diz a Enciclopédia – em preferir a razão à autoridade. O filósofo não admite nada sem provas; não admite noções equivocadas. É ele quem precisa os limites do certo, do provável e do duvidoso”. Os criadores desses mitos não foram os cientistas, sempre obrigados à disciplina da humilde aceitação dos fatos reais; foram os vulgarizadores da ciência – Voltaire, Diderot, Condorcet e demais colaboradores da Enciclopédia –, deslumbrados com o poder aparentemente sem limites da razão humana.
“Ora”, pensavam, se a razão dera resultados tão excelentes no campo da técnica, não se deveria aplicá-la igualmente ao social e ao político? Inspirados inicialmente, com Montesquieu, no modelo parlamentar inglês, e tendo encontrado o seu teórico mais brilhante no genebrino Jean-Jacques Rousseau, os intelectuais do século puseram-se a construir febrilmente uma utopia que fazia tabula rasa de todas as instituições em que
se plasmara, ao longo de milênios, a tradição política.
O seu ideal? A sociedade em “estado puro”, tal como supunham tê-la encontrado nos “bons selvagens” da América, dos quais se tinham visto na França, ao todo, três representantes autênticos, em tempos de Luís XV. Por reação contra o seu calvinismo natal, que insistia um pouco obsessivamente na corrupção da natureza humana, Jean-Jacques resolvera abolir o pecado original, substituindo-o pelo dogma da inata bondade humana. E se o homem é bom por natureza, mas ao mesmo tempo pululam os ladrões e estelionatários, assassinos, corruptos, mentirosos e libertinos, só poderá ser por culpa da sociedade. É preciso, pois, aboli-la e reestruturá-la pela base. É preciso criar um “novo homem”, educado num ambiente “natural”, de acordo unicamente com os princípios da “sã razão” e da “moral natural”.
Essa moral “natural” não era a que a Igreja vinha ensinando desde sempre. Era antes a moral pagã, tal como permeia as obras dos grandes pensadores da Antigüidade, um Cícero, um Marco Aurélio, um Aristóteles, um Plutarco, centrada no patriotismo e nas “virtudes republicanas”. “Todas as civilizações estão de acordo quanto aos pontos essenciais da moral, tanto quanto diferem nos pontos essenciais da fé”, pensavam os iluministas; o que não puderam ou não quiseram enxergar foi que, ao desconsiderarem a realidade do pecado e a necessidade da autoridade divina como guia dessa pobre razão, sempre mais ou menos paralítica na vida real, estavam abrindo caminho para a relativização completa da moral. Os seus sucessores dos séculos XIX e XX multiplicariam até à náusea tanto os sistemas “éticos” como as aberrações de comportamento.
Por fim, ao entronizarem a Razão humana como centro e medida de todas as coisas, na prática não queriam senão dizer que era a sua razão, a de cada um deles, que deveria mandar em tudo e em todos. É o grande erro em que a humanidade não se cansa de incidir desde as origens: Sereis como deuses, conhecedores – isto é, determinadores – do bem e do mal (Gên 3, 5). O que mais incomoda o orgulho humano é a autoridade que lhe diz o que deve ou não fazer. Assim, não era senão lógico que esses pensadores se voltassem contra todas as formas de autoridade: a autoridade monárquica, classificada como despotismo; a tradição, religiosa ou social, considerada como “lastro inútil do passado”.
O alvo preferencial de todos os ataques era, evidentemente, a Igreja. Choveram calúnias, mentiras e insídias sobre sacerdotes e frades, tanto em panfletos de baixo calão como nos romances de alto luxo que faziam as delícias das damas da corte. Os jornais e a Enciclopédia não perdiam ocasião de atirar farpas ao cristianismo. Os votos religiosos eram apresentados como ofensa grosseira à Liberdade; os conventos, como prisões em que vítimas inocentes da Superstição enlanguesciam contra a vontade. A fé equivalia ao Fanatismo, e só conseguia sobreviver nas classes humildes e atrasadas graças à Ignorância em que os padres as mantinham. E, quando Benjamim Franklin se encontrar com Voltaire, em Paris, no ano de 1778, ambas as luminárias considerarão o terreno suficientemente preparado para lançarem contra a Igreja uma ofensiva descarada, sob o lema “Écrasons l'infâme”, “Esmaguemos a infame”.
Ao mesmo tempo em que a Razão desencadeia essa campanha contra a religião, ganha força também uma corrente intimista, influenciada pelo pietismo protestante. Em todas as épocas anteriores, incluída a Antigüidade pagã, ninguém punha em dúvida que a religião fosse um assunto público: cabia ao Estado assegurar que o povo recebesse uma boa instrução religiosa e pudesse participar coletivamente das cerimônias de culto. Agora, passava-se a considerá-la assunto de foro privado, sentimento individual, experiência pessoal. No foro público, devia limitar-se, quando muito, a um vago deísmo, que reconhecesse a imortalidade da alma, a existência de Deus e a Criação do mundo (concebida como a invenção de um brinquedinho mecânico ), mas não a intervenção ativa e pessoal de Deus na história dos homens através de uma instituição, a Igreja.
Esse caldeirão de idéias fervilhava sobretudo em dois meios. Em primeiro lugar, naquele a que se chamou a “república das letras”, isto é, um sem-número de academias literárias de província, clubes de discussão, lojas maçônicas, sociedades de intelectuais, interligadas entre si por uma intensa correspondência e, já nas vésperas da Revolução, coordenadas pela chamada “sociedade dos trinta”, que transformou essa amálgama heterogênea num autêntico partido. É neste meio, tomado por uma mística revolucionária cada vez mais alambicada, que se formará “esse tipo intelectual e moral que ninguém previa, que cada qual reprovaria se lhe fosse apresentado, e que no entanto todos preparavam: o jacobino socialista de 1793” (2).
Em segundo lugar, e paradoxalmente, os salões onde as grandes famílias da nobreza – por exemplo, a do duque de Orléans, irmão do rei; ou dos príncipes de Conti; ou da duquesa do Maine – promoviam soirées elegantes e banquetes requintados. Sentado à cabeceira da mesa, ao lado da bela anfitriã que tinha disputado arduamente com as suas rivais o direito de ostentar essa jóia preciosa, encontrava-se o intelectual de plantão: Voltaire, escondendo a careca sob a longa cabeleira empoada, Jean-Jacques, envolvido no seu grosseiro manto de pele de carneiro, ou , com sorte, esse divertido embaixador americano de meia-idade, tão deliciosamente rústico, e ainda por cima revestido da aura misteriosa de grão-mestre da maçonaria, Benjamim Franklin.
Durante as entrées, com o champanhe a borbulhar nas taças, todos se dedicavam a louvar a última obra de um desses grandes gênios, a maravilhosa “audácia” com que comparara, por exemplo, os frades com as lesmas: estas, quando lhes cortam a cabeça, conseguem regenerá-la; aqueles, curiosamente, não. Durante os pratos principais, e aquecida por vinhos mais encorpados, a conversa girava em torno dos ponderosos temas da Liberdade e da Igualdade, da divisão dos três poderes, da supressão dos privilégios. Quando chegava a hora dos queijos, já os ânimos espocavam em tiradas divertidas e epigramas equívocos contra a Tirania. Por fim, bebericando o café recém-introduzido da Guiana e que tomara Paris como uma coqueluche, os cavalheiros iam para o salão de fumar onde, entre baforadas de charutos da Virgínia, baixavam a voz para conversar em tom de conspiradores sobre as graves questões da existência do “Deus-relojoeiro” dos philosophes e da imortalidade da alma.
Foi uma nobreza ébria desse novo espírito que liquidou quase sem encontrar resistências o Antigo Regime, muito mais do que os bem-situados burgueses do partido girondino. E, quando os revolucionários linha-dura chegarem ao poder, será essa mesma nobreza que fornecerá o maior número de vítimas para o holocausto. “Avançávamos alegremente sobre um tapete de flores – escreveria mais tarde um dos seus representantes, o conde de Ségur –, sem perceber o abismo que cavávamos sob os nossos pés”.

Crise religiosa. A Igreja do Antigo Regime encontrava-se estreitamente imbricada em todos os aspectos da vida nacional. Acompanhava o homem do nascimento ao túmulo, registrando-lhe o batismo, o casamento e a morte. Regulava o ritmo do trabalho e do descanso por meio do calendário de domingos e feriados. Incumbia-se da instrução e educação do povo, desde a simples alfabetização até à Universidade. E sobre ela recaía quase tudo o que hoje conhecemos como saúde pública e assistência social: hospitais , ajudas pecuniárias a viúvas e inválidos, pensões e aposentadorias para quem não tivesse sido funcionário público, etc. etc. etc.
Para poder desempenhar essas funções, a Igreja dispunha de meios proporcionados. No período imediatamente anterior à Revolução, contava com cerca de 130.000 clérigos – mais de 0,5% da população –, distribuídos entre 135 bispos, 60-70.000 párocos e vigários do clero secular, 20.000 religiosos e 40.000 religiosas. Era proprietária de quase um sexto do território nacional, tanto em terras como em edifícios públicos. Gozava do privilégio de foro e de imunidades reais, isto é, na prática, de um sistema judiciário autônomo. E percebia o dízimo, que se tinha transformado numa espécie de imposto fixo obrigatório, cobrado burocraticamente, sem o seu caráter primitivo de doação voluntária.
Se a Igreja desempenhava boa parte das funções que hoje atribuímos, e com razão, ao Estado, o Estado, por sua vez, era confessional e sentia-se na obrigação de sustentar e promover a fé católica. De há muito se estava acostumado a ver bispos e cardeais, como Richelieu e Mazarino, desempenharem papéis de grande relevância política, e os reis tomarem a peito a reforma das Ordens religiosas. Embora sempre tivesse havido abusos de uma parte e de outra, no conjunto o sistema funcionara relativamente bem ao longo dos últimos mil anos, e não passava pela cabeça de ninguém que fosse possível separar o poder espiritual e o temporal sem destruir tanto um como outro .
Além do mais, até 1750, o catolicismo francês conhecera a sua “idade de ouro”. As decisões do Concílio de Trento – sábias e ponderadas, ao contrário da caricatura que se costuma traçar delas – tinham dado fruto abundante. Os abusos condenados pelo Concílio haviam sido extirpados quase por completo sob a influência dos grandes santos reformadores: Francisco de Sales, Vicente de Paulo, João Eudes. A figura do clérigo burocrata, sem vocação para o sacerdócio e interessado sobretudo nas vantagens materiais do cargo, praticamente tinha desaparecido. Os párocos eram, na sua quase totalidade, sacerdotes modelares, de uma piedade acima de qualquer censura, embora a doutrina nem sempre acompanhasse a estatura moral.
No entanto, por volta de meados do século também na Igreja começaram a aparecer linhas de falha. O fervor popular tornou-se mais e mais rotineiro e a freqüência dos sacramentos caiu bastante, sobretudo nas grandes cidades. A querela teológica em torno do jansenismo, doutrina que acabava de ser condenada por Roma – mas já tinha ganho extensa influência na Igreja francesa –, dividiu os ânimos e fez enormes estragos, sobretudo entre os religiosos, que entraram em acentuado declínio. Diante dos ataques dos iluministas, a teologia e a apologética só se defendiam com lentidão e moleza; e se em começos do século a literatura religiosa ocupava o primeiro lugar em número de títulos publicados, às vésperas da Revolução tinha caído para o décimo. As ciências, as artes e as curiosidades haviam preenchido esse espaço.
Por outro lado, a distância que separava os bispos – o “alto clero” – dos párocos e sacerdotes seculares – o “baixo clero” – tinha aumentado muito, com o conseqüente afrouxamento da unidade e da disciplina. Os sacerdotes provinham quase todos das camadas populares e, com o declínio do fervor do seu rebanho, tinham-se proletarizado em grande medida, ao passo que os bispos provinham na sua quase totalidade da nobreza e conservavam os hábitos mundanos e faustosos da sua classe. Havia entre eles autênticos santos, como Monseigneur de la Rochefoucauld, bispo de Compiègne, que morreria martirizado no convento dos padres carmelitas de Paris, em 1794; mas havia também simples arrivistas desprovidos de fé, como o tristemente afamado Mgr. de Talleyrand, bispo de Autun.
A título de reação e estimulado pelos raciocínios “classistas” do tempo, surgira entre o baixo clero um movimento chamado presbiterianismo, que pretendia confiar toda a administração eclesiástica aos párocos e negar aos bispos diocesanos qualquer papel na Igreja. Não se deve confundi-lo com a Igreja protestante que tem este mesmo nome, embora houvesse algum remoto parentesco entre as idéias de ambos. O alto clero, por sua vez, simpatizava quase todo, aberta ou veladamente, com as teorias do galicanismo, que punha entre parênteses a autoridade do Papa nas questões que diziam respeito ao governo da Igreja francesa e, em contrapartida, concedia amplo papel à intervenção dos monarcas. Estas duas correntes, tomando a palavra em 1790, desencadearão uma tormenta que depois, como o aprendiz de feiticeiro da lenda, não saberão controlar.

Primeira etapa: uma Igreja dócil ao Estado
No dia 4 de maio de 1789, nas dependências do palácio real de Versalhes, abriam-se com uma missa solene ao Espírito Santo os trabalhos dos Estados Gerais, a assembléia geral dos três “Estados”. Os 1100 representantes que os franceses tinham eleito estavam divididos em três grupos; o primeiro Estado, concretamente, contava 296 clérigos, dos quais 47 bispos; o segundo, cerca de 300 deputados, e o terceiro, uns 500.
Eram enormes as esperanças que se depositavam nessa Assembléia, a ponto de se poder dizer que, por alguns meses, chegou a fazer a unidade dos franceses em torno do novo projeto social. O deputado Camille Desmoulins proclamava da tribuna: “Fiat, fiat; sim, todo este bem vai-se realizar; sim, cumprir-se-á esta regeneração. Não haverá poder sobre a terra que possa impedi-lo. Sublime efeito da liberdade e do patriotismo. Chegamos a ser invencíveis”.
Nesse primeiro momento, ninguém sonhava em tomar qualquer medida contra os interesses da Igreja, tal como ninguém sonhava que se pudesse viver sem a monarquia. Havia, sim, alguns anticlericais e deístas entre os deputados, como um certo Anarchasis Clootz, cuja idéia fixa era promover o casamento de todos os padres. Mas, tal como os republicanos, eram uma minoria, teoricamente quase desprezível.
Nas primeiras semanas, não se pareceu avançar para lado nenhum. De acordo com o sistema tradicional, cada um dos três Estados reunia-se em separado e tinha direito apenas a um voto. Os projetos sucediam-se, desencontrados, e nenhum conseguia maioria. Por fim, o Terceiro resolveu autoproclamar-se Assembléia Nacional e decidiu, à revelia dos outros dois e do rei, que as moções seriam votadas não por Estado, mas por cabeça; pouco depois, quase todo o baixo clero uniu-se às suas sessões, o que conferia à reunião dos dois a maioria absoluta no seio da Assembléia; e por fim uniu-se a eles também uma delegação de nobres, com o duque de Orléans à cabeça. Estava formado um novo poder, ainda submetido formalmente ao rei, mas na prática totalmente independente: a Assembléia legislativa.


Ao mesmo tempo, os oradores de tendências mais populistas trabalhavam o caldo de cultura dos sans-culottes. No dia 13 de julho, abrindo um precedente importante, a populaça saqueou o convento de Saint-Lazare, pois se tinha posto a circular o boato de que os monges tinham acumulado imensas provisões de trigo. Não se encontrou um único saco de farinha. No dia seguinte, foi a vez da Bastilha, onde os resultados foram parecidos. Libertaram-se ao todo sete “vítimas do Despotismo”: quatro falsários comuns, que aproveitaram para desaparecer quanto antes; dois loucos perigosos, transferidos logo depois para um hospício; e um jovem libertino, discípulo do marquês de Sade, mantido ali a pedido dos pais... Seja como for, a cabeça do comandante da praça-forte, De Launay, foi passeada pelas ruas na ponta de uma lança, num gesto que em breve faria escola. Mais tarde, em outubro, essa massa de manobra cercaria Versalhes a fim de forçar a família real e a Assembléia a mudar-se para as Tulherias, em Paris, com a idéia de mantê-los sob estreita vigilância e evitar um golpe por parte do “complô da Corte”.
Nesse meio tempo, a Assembléia Nacional, animada com a facilidade de aprovar novas leis, declarou-se Assembléia Constituinte. Em 20 de agosto, à imitação da Constituição americana, aprovou a Declaração dos direitos do homem e do cidadão, proclamou a soberania do povo e aboliu todos os antigos privilégios. E de passagem, a fim de ajudar a cobrir o rombo das finanças e por sugestão do baixo clero, transferiu os dízimos eclesiásticos para os cofres do Estado.
A 10 de outubro, como não se encontrava solução para o déficit crônico das contas públicas, resolveu-se lançar mão do clássico e já tantas vezes experimentado remédio dos governos falidos: nacionalizar os bens eclesiásticos. A sugestão partiu nada menos que do bispo Talleyrand, que a justificou dizendo que esses bens já serviam, de uma forma ou de outra, para a prestação de umas funções públicas; nada mais razoável, portanto, do que aplicá-los a outras mais urgentes. Ninguém considerou digno de menção, naquele momento, que isso significava pura e simplesmente arruinar por tempo indefinido toda a educação, assistência e saúde públicas.
A moção foi aprovada um mês depois, ao cabo de ásperos debates. Em contrapartida, decretava-se que o governo pagaria uma pensão a todos os clérigos incumbidos de tarefas pastorais. Inconformados, a maioria dos bispos e sacerdotes abandonaram a Assembléia. Abria-se um período novo nas relações entre o Estado e a Igreja: a tentativa de criar uma Igreja inteiramente dependente do Estado.
A partir de fevereiro de 1790, sucede-se toda uma série de decretos em que se põem de manifesto a tibieza dos cristãos presentes na Assembléia e os resultados da virulenta propaganda que os iluministas tinham dirigido contra a Igreja. Os primeiros raios fulminaram as Ordens religiosas. Numa total incompreensão do papel que a oração ocupa na vida cristã, também no seu aspecto social, suprimiram-se todas as Ordens contemplativas, isto é, todas as que não se dedicassem a alguma atividade “útil”, pedagógica ou hospitalar. Aos religiosos que aceitassem secularizar-se, oferecia-se uma pensão vitalícia; os outros deveriam ser reagrupados, para deixar os seus conventos ao dispor da Nação. Além disso, em nome da decantada Liberdade, “degradada” pelos votos religiosos, proibia-se a emissão de novos votos por parte dos noviços e postulantes de todas as Ordens.
Mas o maior dos erros ainda estava por vir: no dia 12 de julho de 1790, a Assembléia aprovou a Constituição civil do clero, lei que pretendia reorganizar a Igreja francesa. Começava por fixar os limites das dioceses de acordo com a recente divisão política do território em “departamentos”; era um abuso de competência flagrante, mas ainda tolerável. Além disso, porém, bispos e párocos passavam a ser eleitos pelo “povo soberano” das suas respectivas circunscrições, no qual estavam incluídos protestantes, judeus e até ateus, o que era no mínimo curioso. Os bispos já não receberiam a investidura canônica do Papa, mas do seu arcebispo metropolitano, limitando-se a comunicar ao Santo Padre a sua nomeação, o que, na prática, representava um cisma. E os próprios bispos não podiam mais tomar medida alguma sem o apoio de um conselho permanente de sacerdotes, o que redundava em heresia, pois significava negar-lhes os poderes hierárquicos instituídos pelo próprio Cristo.
Noventa e três bispos – a quase totalidade dos que estavam à frente de uma diocese – reagiram sem perda de tempo com uma Exposição de princípios na qual se deixava claro que “os soberanos da terra” não tinham o direito de interferir na jurisdição espiritual da Igreja e se ressaltava a necessidade de respeitar os direitos do sucessor de Pedro, “intérprete da Igreja universal”. Também o baixo clero e o povo não mostraram nenhum entusiasmo pelas medidas. Quanto ao Papa, que era então Pio VI, preferiu guardar silêncio oficialmente, embora em privado instasse Luís XVI a não sancionar a Constituição civil; o rei, no entanto, depois de mil hesitações angustiosas, acabou por dar a sua aprovação.
Exasperada com a resistência que encontrou na aplicação das novas medidas, a Assembléia cometeu mais um atropelo funesto: no dia 27 de novembro de 1790, aprovou uma lei que obrigava bispos, párocos e todos os que exercessem funções pastorais a prestar juramento de que apoiariam “com todas as forças a Constituição [civil do clero] decretada pela Assembléia Nacional e aceita pelo rei”. Os que se recusassem a fazê-lo deveriam considerar-se demitidos dos seus ofícios pastorais e ser substituídos por outros; se persistissem em exercer as suas funções, seriam perseguidos como “perturbadores da ordem pública”.
O resultado foi que, no primeiro semestre de 1791, a Igreja francesa se cindiu em duas: a dos “juramentados”, isto é, dos que tinham prestado o juramento, e a dos “refratários”. Para honra dos bispos, é preciso dizer que, dos cento e sessenta que havia na França, apenas sete decidiram prestar o juramento, entre eles Talleyrand e o arrivista Gobel, bispo coadjutor de Bâle, a quem a traição valeria ser nomeado arcebispo de Paris. “Nós lhes tomamos os bens”, comentaria o deputado Mirabeau, “mas eles guardaram a honra”. Mais doloroso, porém, é que cerca de oitenta optaram pelo exílio voluntário, deixando o seu clero acéfalo.
Quanto aos sacerdotes, o resultado variou muito de região para região. No primeiro dia, na própria reunião da Assembléia, animados pelo exemplo do jansenista pe. Grégoire, “cujas virtudes sacerdotais eram indiscutíveis, mas cujo zelo revolucionário era mais indiscutível ainda” (3), vários deputados sacerdotes prestaram o juramento; muitos outros, porém, permaneceram inflexíveis, mesmo diante das ameaças dos colegas e dos “patriotas populares” ululantes que cercavam a sala de reuniões e ameaçavam “dependurá-los da lanterna mais próxima”. Na França inteira, ao que parece, pouco menos que a metade dos párocos, cerca de um terço do total dos sacerdotes, cedeu.
Em setembro, a Assembléia Constituinte – depois de cantar o hino Veni Creator Spiritus a fim de pedir luzes ao Espírito Santo... – passou a organizar a Igreja nacional, que logo receberia a alcunha de “constitucional”. Era preciso designar nada menos que oitenta novos bispos para as dioceses reorganizadas, praticamente todas sem titular juramentado, e mais de trinta mil párocos. A escolha, evidentemente, não podia ser lá muito criteriosa, mas chegou a haver entre os recém-recrutados alguns excelentes sacerdotes e administradores; de algum bispo, pôde-se mesmo dizer “que teria sido digno do seu cargo se não o tivesse usurpado”... Por outro lado, certo bispo constitucional exclamou com toda a franqueza, quando o censuraram pela mediocridade do seu clero: “Que havemos de fazer?! Quando não se tem cavalos, trabalha-se com asnos”...
Ordenar os bispos designados pela Assembléia depois da condenação papal significava pura e simplesmente consumar o cisma; uma vez mais, Talleyrand dispôs-se a fazer o serviço sujo e, no que seria o seu último ato eclesiástico, consagrou os primeiros bispos constitucionais. A transformação da Igreja francesa num mero “ministério da religião” parecia estar completa.
Um sacerdote “refratário” resumiu perfeitamente a situação numa brochura de circulação subterrânea: “A Assembléia Nacional constituiu-se em juiz e fonte da Sagrada Doutrina. Suprimiu a Igreja de Jesus Cristo na França, e não quer mais que uma igreja humana, formada pelos seus decretos”.


Segunda etapa: a perseguição tolerada
No início, os refratários foram tolerados pelo governo, ao passo que os juramentados foram unanimemente desprezados pelo povo. Em muitos lugares, o pároco não-juramentado teve de ser substituído à força, mas os fiéis continuavam a recorrer a ele fora da igreja para confessar-se e receber os sacramentos, enquanto o seu colega constitucional tinha de contentar-se com pregar às moscas... e aos anticlericais da paróquia, lá presentes por obrigação política.
Gradualmente, porém, apertou-se o cerco: quando se tornou conhecida a condenação papal, Pio VI foi queimado em efígie pelas ruas de Paris. Proibiram-se os não-juramentados de residir a menos de dez e depois vinte milhas da sede paroquial. Romperam-se as relações com a Santa Sé e fecharam-se as grandes escolas de teologia, a Sorbonne e o Colégio de Navarra. Transmitiram-se aos grupos jacobinos instruções discretas para “castigar” os padres antigos e os fiéis que recorressem a eles, enquanto a polícia recebia ordens de manter os olhos bem fechados ante esses abusos. Mas os católicos resolveram retribuir na mesma moeda e os incidentes multiplicaram-se por toda a parte, amargando os ânimos e acirrando as oposições.
A nova Assembléia Legislativa que assumiu a 1º. de outubro de 1792 apresentava um cunho mais marcadamente progressista e anticlerical, uma vez que os Clubes republicanos e jacobinos, que haviam organizado a eleição, tinham conseguido excluir os eleitores monarquistas e moderados. Somente 27 dentre os deputados eram eclesiásticos, 10 deles bispos, evidentemente juramentados, ao passo que havia, por exemplo, 150 advogados.
Desde o início, formaram-se três grandes grupos: a “direita”, que se chamava assim por ocupar os assentos da parte direita do plenário, era integrada sobretudo pelos Feuillants, conservadores que tendiam a apoiar uma monarquia constitucional, e pela Gironde, os nobres e burgueses republicanos, entre os quais havia muitos deístas ilustrados à Voltaire e Rousseau; a “esquerda”, que agrupava desde republicanos exaltados até socialistas , era dominada pela Montagne, os membros dos clubes mais radicais: jacobinos, cordeleiros, “raivosos” ( enragés )..., muitos dos quais eram ateus ou deístas fanáticos e não admitiam sequer a Igreja constitucional; e por fim, entre os dois pólos, o Marais, o grande “pântano” dos oportunistas e indecisos. Entre os deputados, Marat, Danton, Robespierre, Desmoulins...
Logo a primeira medida marcou o endurecimento da perseguição: estendeu-se a todos os clérigos, quer exercessem funções pastorais quer não, a obrigação de prestar o juramento no prazo de oito dias. A pena passava a ser a deportação. Como o rei se negasse a ratificar essa lei, mesmo depois de os sans-culottes terem invadido as Tulherias, massacrado o pelotão de suíços que lhe serviam de guarda pessoal, e ameaçado a sua família com as piores represálias, a causa dos sacerdotes refratários pareceu identificada com a da monarquia. A esquerda aproveitou para acenar com o espectro de um “iminente complô reacionário monárquico-clerical”, e as perseguições recrudesceram. Padres e religiosos foram presos em massa e encerrados em escolas e conventos; as comunidades religiosas que tinham sobrado foram fechadas na sua maioria e os seus membros, dispersados.
Pouco depois, rebentava a guerra com a Áustria e a Prússia, o que exasperou ainda mais os ânimos. Muitos dos exilados, entre eles a maior parte dos bispos depostos, apoiavam abertamente a invasão da França pela coalizão monarquista, o que fez com que se identificasse ainda mais a Igreja Católica com a monarquia: era nada mais nada menos que “traidora da pátria”. Uma fuzilada de decretos abateu-se sobre ela: proibiram-se os trajes talares e hábitos religiosos; suprimiram-se as últimas Ordens ainda existentes, as dedicadas ao ensino e aos hospitais; deu-se um prazo de quinze dias aos não-juramentados para que deixassem o país; e decretou-se que todo o refratário denunciado por apenas seis cidadãos seria deportado para a Guiana.
A esquerda aproveitou a situação de pânico para armar os elementos mais fiéis e formar com eles as Comunas Insurrecionais, espécie de corpos paramilitares precursores dos milicianos da Guerra Civil espanhola, dos “guardas vermelhos” de Mao-Tse-Tung edas FARC. Em setembro de 1792, uma onda de massacres varreu o país, deixando 1400 mortos, dentre os quais trezentos sacerdotes: os milicianos simplesmente invadiam os conventos e escolas que serviam de prisão e executavam quem encontrassem pela frente a golpes de cutelo, lançadas ou pauladas. Os conventos de Saint-Germain-des-Prés e do Carmo, em Paris, foram invadidos e todos os presos chacinados. No Carmo, a matança durou três dias ininterruptos. Em toda a França, depredaram-se igrejas e mosteiros. Era o início da perseguição aberta.
Concomitantemente, a vaga de sacerdotes refugiados atingia o auge. Se antes era um arroio que crescia pouco a pouco, agora atingia as proporções de enchente: no total, foram cerca de 40.000 os que cruzaram as fronteiras, na maioria a pé e na calada da noite. Distribuíram-se pelos Estados Pontifícios, pela Espanha e pela Suíça; os principados católicos da Alemanha, com medo de que o seu clero sofresse uma contaminação de “republicanismo”, não lhes concederam senão o direito de passagem; em contrapartida, a Holanda e a Inglaterra protestantes abriram-lhes largamente as portas, com autêntico espírito cristão. Muitas vezes os expatriados chegavam apenas com a roupa do corpo – certo bispo desembarcou em Dover apenas com uma calça esfarrapada e um chapéu de palha –, e tinham de sujeitar-se a ser tratados com desconfiança casmurra pelas autoridades; o povo simples, em contrapartida, recebeu-os com carinho e afeto, e desviveu-se por tratá-los bem.
Um dos efeitos mais paradoxais dessa perseguição foi que a presença dos refugiados na Inglaterra, que acolheu mais de 10.000 sacerdotes e 31 bispos, contribuiu para desfazer preconceitos seculares e criar uma atitude positiva para com o catolicismo romano, o que influiria poderosamente na restauração da hierarquia eclesiástica na Inglaterra uns cinqüenta anos mais tarde. William Pitt, primeiro-ministro, dizia em 1798: “Poucas pessoas esquecerão a piedade, o comportamento irrepreensível, a dolorosa paciência destes homens respeitáveis, lançados repentinamente a uma nação estrangeira, diferente pela sua religião, pela língua e pelos costumes. Eles granjearam o respeito e a simpatia de todo o mundo pela uniformidade de uma vida caracterizada pela piedade e pela decência”.


Terceira etapa: a descristianização oficial
Inicialmente assustada com os massacres de setembro, a Assembléia resolveu propor uma versão atenuada do juramento, que se limitava a exigir fidelidade aos princípios de Liberdade e Igualdade. Muitos bons sacerdotes e religiosos prestaram esse juramento, pensando que era suficientemente vago para não implicar nenhuma ofensa à fé; entre eles, por exemplo, M. Emery, antigo superior do Seminário de Saint-Sulpice, que residia sozinho no imenso casarão abandonado.
As sucessivas derrotas sofridas pelo exército francês no norte e no oeste aprofundaram nos deputados e no povo a “psicose do complô antipatriótico”. Na nova Assembléia , sob o impacto dessa psicose, cresceu a influência dos elementos radicais girondinos e montanheses. Dominada inicialmente pelos primeiros, a Assembléia proclamou a República e processou o rei , que se encontrava detido desde a invasão das Tulherias, por traição à pátria. Luís XVI, superando nos momentos finais a irresolução que o tinha caracterizado em vida, portou-se nobremente nesse transe, e foi executado a 21 de janeiro de 1793.
A repercussão foi espantosa. A Espanha declarou guerra à França e o oeste francês, rural e conservador, levantou-se em armas “em nome do rei e da santa religião”: era a guerra civil da Vendéia, que se prolongaria numa guerrilha atroz e interminável até a época de Napoleão. Em Paris, que já não era “mais que uma grande cidade sitiada”, adiou-se a aplicação da recém-aprovada Constituição do Ano I, a primeira autenticamente democrática; a Assembléia, em mais uma das suas transformações, autoproclamou-se Convenção; e criaram-se as instituições de exceção: o Comitê de Salvação Pública, o Comitê Geral de Segurança e os Tribunais Revolucionários.
Em junho, os “montanheses” conseguem maioria no Comitê de Salvação Pública e, apoiados na Comuna Insurrecional de Paris, começam a eliminar os girondinos. Abre-se o período do Terror. Durante um ano inteiro, de julho de 1793 até julho de 1794, a guilhotina estará em funcionamento permanente em duas praças centrais de Paris, e cada capital de departamento disporá também da sua. Suceder-se-ão nela os diversos desafetos políticos do ditador reinante – primeiro, os girondinos, que sucumbem aos ataques de Marat; depois, os partidários de Marat e os de Hébert, destronados por Danton e Robespierre; os do mesmo Danton e de Desmoulins, derrotados por Robespierre; e por fim o próprio Robespierre, derrubado pelo conjunto dos deputados sobreviventes. As rebeliões da Vendéia, de Lyon e de Toulon serão impiedosamente esmagadas, com abundância de sangue; e a guerra nas fronteiras, conduzida por soldados esfarrapados e famintos, mas fanáticos, ganhará novo alento e salvará a República.
No plano religioso, passava-se da descatolicização para a descristianização aberta – a déprêtrisation, literalmente “despadrização”. Instituiu-se o divórcio e passou-se o registro civil para as mãos das autoridades municipais. Por iniciativa do procurador-síndico da Comuna de Paris, Pierre-Gaspard Chaumette, a Igreja constitucional foi por sua vez despojada dos seus bens e os palácios episcopais vendidos. Suprimiram-se os lugares de culto, transformados – a exemplo da igreja de la Madeleine, em Paris – em “panteões” onde se veneravam estátuas de Voltaire, Rousseau, Benjamin Franklin e outros ilustres iluminados, bem como dos “mártires da liberdade”, como Marat, assassinado por uma donzela girondina um tanto desequilibrada .
Todos os padres, juramentados ou não , foram intimados a entregar as suas “lettres de prêtrise”, os documentos que os acreditavam como sacerdotes; e, num lance entre cômico e trágico, o Comitê de Salvação Pública fez-se “casamenteiro”: decretou que a todo o sacerdote casado, mesmo refratário, se perdoariam a prisão e a deportação... Se os comitês de milicianos já organizavam, por conta própria, os chamados “casamentos republicanos”, em que um sacerdote era amarrado estreitamente a uma paroquiana e ambos lançados à água para se afogarem, agora será o governo em peso que assumirá a tarefa de conduzir sacerdotes e religiosos ao porto seguro do himeneu...
Desmantelada a Igreja como instituição, passou-se a combater os “vestígios da Superstição e do Fanatismo”. Criou-se um novo calendário destinado a substituir o cristão, dividido em décadis (conjuntos de dez dias, dos quais o décimo seria feriado) a fim de fazer esquecer os domingos. As festas religiosas foram substituídas por celebrações da Natureza e da Razão ou das grandes datas patrióticas. E, para celebrar a “grande data” em que diversos sacerdotes juramentados, com o arcebispo constitucional de Paris – Gobel – à cabeça, se tinham “despadrizado” em plena sessão da Assembléia, realizou-se, na catedral de Notre-Dame, a 10 de novembro, a “festa da Razão”, em que uma dançarina de branco representava a “deusa”. Essas celebrações republicanas, pautadas pelas cerimônias romanas pagãs, chegaram a estar de moda durante algum tempo, embora “não servissem senão para cobrir de ridículo os que nelas tomavam parte”...
A Igreja constitucional ruiu quase inteiramente sob os golpes. 24.000 de 29.000 sacerdotes juramentados abandonaram o hábito e a vida sacerdotal, e até a prática religiosa. Além do nosso conhecido Gobel – “o povo pediu a minha presença, o povo agora manda-me embora: é o destino de um servo às ordens do seu mestre” –, vinte e quatro bispos juramentados apostataram publicamente, enquanto vinte outros renunciaram ao sacerdócio ou se secularizaram. Apenas um terço permaneceu firme, entre eles o antigo pe. Grégoire, agora bispo de Loire-et-Cher, que vimos jurar com tanto entusiasmo a Constituição civil, e que foi o único eclesiástico a permanecer na Convenção durante esse período, ousando desfraldar as suas vestes roxas pelas ruas de Paris:
“Católico por convicção e por sentimentos, sacerdote por vocação, fui designado pelo povo para ser bispo, mas não foi dele nem de vós [os seus colegas deputados] que recebi esta missão”...
Também entre os juramentados houve heróis e até autênticos mártires: mais de quinhentos sacerdotes foram enviados à guilhotina em Paris, e oito bispos tiveram o mesmo destino. E, como em todo o ser humano resta sempre a possibilidade do retorno à nobreza interior, o nosso ignóbil amigo Gobel, que foi preso pouco depois da apostasia e condenado à decapitação por “incitar o povo ao ateísmo”, ainda teve tempo de escrever ao seu vigário que oferecia a vida em expiação
“pelos crimes e escândalos que havia cometido”, pedindo-lhe que o esperasse junto do cadafalso para lhe dar a absolvição.
Quanto à Igreja que permanecera fiel, como tinha tido tempo de organizar-se na clandestinidade, sofreu menos com essa tormenta. Muitos sacerdotes viviam ocultos havia mais de três anos, e não faltavam fiéis dispostos a escondê-los e a passá-los de casa em casa, mesmo sabendo que corriam risco de vida. No interior, as dioceses haviam-se organizado em “missões” subterrâneas: a catequese era dada por leigos, em pequenos grupos, e os sacerdotes só permaneciam numa aldeia durante uma noite, o tempo suficiente para celebrar a missa, confessar e batizar os recém-nascidos, mantendo-se escondidos durante o dia. Graças a essa renovada “Igreja das catacumbas”, quando Robespierre cair , em julho de 1794, terão sobrevivido no próprio coração da tempestade, em Paris, nada menos que cento e cinqüenta lugares onde se celebrava freqüentemente a missa.
Mesmo assim, não foram poucas as baixas sofridas pelos católicos. Os que eram presos e destinados ao exílio na Guiana foram concentrados em Rochefort; mas, como os ingleses impediam o trânsito de navios franceses pelo Atlântico, foram confinados em dois barcos-prisão por meses a fio, num suplício que recebeu o apelido de “guilhotina seca” ( sem sangue ); ao cabo de um ano, de 850, apenas sobreviviam 274. Milhares de sacerdotes – os números variam entre dois e cinco mil – foram guilhotinados, afogados, arrastados por cavalos ou simplesmente mortos a pauladas.
O número de leigos que deu a vida pela fé é incontável. Houve cenas com um inconfundível sabor a primitiva cristandade, pois em muitos casos bastava a confissão da fé diante do Tribunal Revolucionário para condenar o acusado à morte. – “Você é fanático?”, perguntou um dos juízes de Lyon a um certo Auroze, comerciante: – “Serei tudo o que vocês quiserem, mas sou católico”, foi a simples resposta. Resultado: guilhotina. E foram também numerosas as religiosas que subiram ao cadafalso, como as carmelitas de Compiègne, as sacramentinas de Bollène, as ursulinas de Valenciennes e as filhas da Caridade de Arras.
Nem todos os que morreram durante o Terror foram mártires, como é evidente; ou seja, nem todos morreram unicamente pela fé. Da parte dos perseguidores, o ódio à monarquia e aos “traidores da pátria”, como consideravam os refratários, misturou-se e muitas vezes predominou sobre o ódio à religião; da parte dos perseguidos, essa incapacidade de discernir entre o político e o religioso também esteve presente com freqüência. Mas os requintes de crueldade de que se revestiram precisamente os massacres de sacerdotes e religiosos, e o encarniçamento satânico contra todos os símbolos cristãos – destruíram-se os belíssimos vitrais de quase todas as igrejas góticas, arrasaram-se mosteiros de antiqüíssima tradição como Cluny, arrancaram-se até as simples cruzes de madeira fincadas à beira das estradas – mostram com clareza que se assistia ao desencadeamento de algo mais do que meras paixões políticas: como Cristo , também os cristãos tiveram de submeter-se à hora e ao poder das trevas (Lc 22, 53).
No dia 28 de julho, Robespierre subia por sua vez à guilhotina. A França, tomada pela “náusea do cadafalso”, respirou aliviada. Em questão de dias, o clima social virou, e uma onda de fervor religioso tomou conta da Nação. Sem que a Convenção tivesse abrandado as leis em vigor, sacerdotes e bispos exilados começaram a retornar, os clandestinos saíram dos seus refúgios, as igrejas foram reabertas. A 21 de fevereiro de 1795, votava-se uma lei de separação entre Igreja e Estado, que permitia a liberdade de culto. Os sacerdotes ainda prisioneiros foram libertados. Voltou-se a celebrar a Páscoa segundo o calendário católico, embora oficialmente permanecesse em vigor o revolucionário.
Em começos de novembro de 1793, o presidente do clube jacobino, Robespierre, já em alta, tinha conseguido que a Assembléia reconhecesse por um decreto a existência do Ser Supremo e a imortalidade da alma, o que lhe serviria dentro em pouco para fazer condenar os seus rivais Danton e Desmoulins por “ateísmo”. Um pouco mais tarde, arrancou à Assembléia um decreto sobre a liberdade de culto, do qual ninguém quis tomar conhecimento. Mas não havia, por trás dessas medidas, nenhuma simpatia pelo cristianismo, e sim apenas a mística revolucionária na sua expressão mais pura. O maior triunfo pessoal do ditador foi presidir como sumo-sacerdote à procissão e festa “do Ser Supremo e da Natureza”, a 8 de julho de 1794. E, por mais vinte dias, poderia ainda alimentar a ilusão de que tinha substituído o cristianismo pela sua própria religião ...
A Igreja constitucional ruiu quase inteiramente sob os golpes. 24.000 de 29.000 sacerdotes juramentados abandonaram o hábito e a vida sacerdotal, e até a prática religiosa. Além do nosso conhecido Gobel – “o povo pediu a minha presença, o povo agora manda-me embora: é o destino de um servo às ordens do seu mestre” –, vinte e quatro bispos juramentados apostataram publicamente, enquanto vinte outros renunciaram ao sacerdócio ou se secularizaram. Apenas um terço permaneceu firme, entre eles o antigo pe. Grégoire, agora bispo de Loire-et-Cher, que vimos jurar com tanto entusiasmo a Constituição civil, e que foi o único eclesiástico a permanecer na Convenção durante esse período, ousando desfraldar as suas vestes roxas pelas ruas de Paris: “Católico por convicção e por sentimentos, sacerdote por vocação, fui designado pelo povo para ser bispo, mas não foi dele nem de vós [os seus colegas deputados] que recebi esta missão”...
Também entre os juramentados houve heróis e até autênticos mártires: mais de quinhentos sacerdotes foram enviados à guilhotina em Paris, e oito bispos tiveram o mesmo destino. E, como em todo o ser humano resta sempre a possibilidade do retorno à nobreza interior, o nosso ignóbil amigo Gobel, que foi preso pouco depois da apostasia e condenado à decapitação por “incitar o povo ao ateísmo”, ainda teve tempo de escrever ao seu vigário que oferecia a vida em expiação “pelos crimes e escândalos que havia cometido”, pedindo-lhe que o esperasse junto do cadafalso para lhe dar a absolvição.
Quanto à Igreja que permanecera fiel, como tinha tido tempo de organizar-se na clandestinidade, sofreu menos com essa tormenta. Muitos sacerdotes viviam ocultos havia mais de três anos, e não faltavam fiéis dispostos a escondê-los e a passá-los de casa em casa, mesmo sabendo que corriam risco de vida. No interior, as dioceses haviam-se organizado em “missões” subterrâneas: a catequese era dada por leigos, em pequenos grupos, e os sacerdotes só permaneciam numa aldeia durante uma noite, o tempo suficiente para celebrar a missa, confessar e batizar os recém-nascidos, mantendo-se escondidos durante o dia. Graças a essa renovada “Igreja das catacumbas”, quando Robespierre cair , em julho de 1794, terão sobrevivido no próprio coração da tempestade, em Paris, nada menos que cento e cinqüenta lugares onde se celebrava freqüentemente a missa.
Mesmo assim, não foram poucas as baixas sofridas pelos católicos. Os que eram presos e destinados ao exílio na Guiana foram concentrados em Rochefort; mas, como os ingleses impediam o trânsito de navios franceses pelo Atlântico, foram confinados em dois barcos-prisão por meses a fio, num suplício que recebeu o apelido de “guilhotina seca” ( sem sangue ); ao cabo de um ano, de 850, apenas sobreviviam 274. Milhares de sacerdotes – os números variam entre dois e cinco mil – foram guilhotinados, afogados, arrastados por cavalos ou simplesmente mortos a pauladas.
O número de leigos que deu a vida pela fé é incontável. Houve cenas com um inconfundível sabor a primitiva cristandade, pois em muitos casos bastava a confissão da fé diante do Tribunal Revolucionário para condenar o acusado à morte. – “Você é fanático?”, perguntou um dos juízes de Lyon a um certo Auroze, comerciante: – “Serei tudo o que vocês quiserem, mas sou católico”, foi a simples resposta. Resultado: guilhotina. E foram também numerosas as religiosas que subiram ao cadafalso, como as carmelitas de Compiègne, as sacramentinas de Bollène, as ursulinas de Valenciennes e as filhas da Caridade de Arras.
Nem todos os que morreram durante o Terror foram mártires, como é evidente; ou seja, nem todos morreram unicamente pela fé. Da parte dos perseguidores, o ódio à monarquia e aos “traidores da pátria”, como consideravam os refratários, misturou-se e muitas vezes predominou sobre o ódio à religião; da parte dos perseguidos, essa incapacidade de discernir entre o político e o religioso também esteve presente com freqüência. Mas os requintes de crueldade de que se revestiram precisamente os massacres de sacerdotes e religiosos, e o encarniçamento satânico contra todos os símbolos cristãos – destruíram-se os belíssimos vitrais de quase todas as igrejas góticas, arrasaram-se mosteiros de antiqüíssima tradição como Cluny, arrancaram-se até as simples cruzes de madeira fincadas à beira das estradas – mostram com clareza que se assistia ao desencadeamento de algo mais do que meras paixões políticas: como Cristo , também os cristãos tiveram de submeter-se à hora e ao poder das trevas (Lc 22, 53).
No dia 28 de julho, Robespierre subia por sua vez à guilhotina. A França, tomada pela “náusea do cadafalso”, respirou aliviada. Em questão de dias, o clima social virou, e uma onda de fervor religioso tomou conta da Nação. Sem que a Convenção tivesse abrandado as leis em vigor, sacerdotes e bispos exilados começaram a retornar, os clandestinos saíram dos seus refúgios, as igrejas foram reabertas. A 21 de fevereiro de 1795, votava-se uma lei de separação entre Igreja e Estado, que permitia a liberdade de culto. Os sacerdotes ainda prisioneiros foram libertados. Voltou-se a celebrar a Páscoa segundo o calendário católico, embora oficialmente permanecesse em vigor o revolucionário.


QUARTA ETAPA: A DIFÍCIL CONVIVÊNCIA
A nova Convenção eleita em 1795 espelhava claramente o descontentamento popular: 95% dos antigos deputados não conseguiram reeleger-se. No entanto, não chegava nem de longe a ser pró-católica, em parte por medo de se ver obrigada a devolver as propriedades eclesiásticas alienadas; sem muita margem de manobra quanto à religião, adotou a política de “vigiar o que não se pode reprimir”. Manteve as festas cívicas e a educação laica , e voltou a exigir um novo juramento de submissão e obediência às leis da República – “era uma mania!”, comenta Daniel-Rops –, desta vez de todos os cidadãos.
No entanto, se na França a perseguição estava refreada pela opinião pública vigilante, não acontecia o mesmo no exterior, por toda a parte aonde tinham chegado os exércitos franceses. Na Bélgica recém-anexada, renovaram-se entre 1796 e 1798 todas as medidas que já conhecemos: o cardeal Frankenberg foi deportado, a Universidade de Lovaina fechada, o culto católico proibido e as Ordens e Congregações religiosas suprimidas. Na Itália, o general Bonaparte infligia derrota sobre derrota aos Estados Pontifícios e à Áustria, sua coligada; pelo armistício de Bolonha, em 1796, e pelo posterior tratado de Tolentino, o papa Pio VI foi forçado a pagar cerca de cinqüenta milhões de ducados ao governo francês, além de se ver obrigado a ceder obras de arte, jóias e o antigo feudo de Avinhão. Por fim, pressionado pela Convenção, que queria descarregar no Papado a sua raiva contra o cristianismo, Napoleão tomou e saqueou Roma, mandou proclamar a república romana e levou Pio VI para o exílio em Florença e, mais tarde, na França.
A Convenção, agora dividida em dois corpos, o Conselho “dos Quinhentos” (mais ou menos equivalente à Câmara dos Deputados) e o “dos Antigos” (mais ou menos equivalente ao Senado), tinha delegado o poder executivo a uma junta de cinco membros, o Diretório . Nas eleições de 1797, os monarquistas triunfaram, mas o Diretório deu um golpe de Estado a 4 de setembro e expulsou os deputados “brancos”. Impôs ainda um novo juramento, de “ódio à monarquia e à anarquia” – tratava-se decididamente de uma mania! –, que muitos sacerdotes não quiseram prestar porque exigia explicitamente o ódio. Em represália, renovaram-se todas as velhas leis anticatólicas: 1.500 sacerdotes franceses e 8.200 belgas foram deportados para a Guiana, de onde poucos voltariam; perseguiram-se os operários e camponeses que observavam o repouso dominical; e chegou-se ao requinte de proibir a venda de peixe nos dias de abstinência...
Mas, desta vez, a “alegria” não foi longe, pois o Diretório carecia totalmente de respaldo popular. No ano seguinte, a Bélgica levantou-se em armas, e a 9 de novembro de 1799 um novo golpe desfez o Diretório, confiando o governo a uma “comissão consular executiva”: Sièyes, Roger Ducos e Napoleão Bonaparte. Era, enfim, o encerramento de um pesadelo que, para os católicos, durara quase dez anos.
Quanto à Igreja, apesar dos horrores a que a tinha submetido, o vendaval da perseguição teve efeitos extremamente positivos. A Igreja Católica francesa ressurgiu purificada e renovada no seu fervor. As antigas tendências do galicanismo e do jansenismo praticamente desapareceram. A vinculação entre catolicismo e monarquia, tanto pela teoria do direito divino dos reis como pelo intervencionismo dos monarcas em assuntos da Igreja, desfez-se pouco a pouco nas consciências e na vida social. A freqüência dos sacramentos cresceu notavelmente entre o povo, de 1795 em diante, e as vicissitudes do século seguinte foram incapazes de neutralizar essa revitalização da fé.
O Papa, cuja autoridade fora durante séculos contestada pela hierarquia eclesiástica francesa, se não explicitamente, ao menos na prática, surgiu como núcleo indubitável da fidelidade católica. Quando Pio VI foi conduzido através da França como prisioneiro, enormes multidões se agrupavam ao longo das estradas, rezando o terço e cantando, em desagravo pelo ultraje que lhe era feito. E o semi-cativeiro que teve de suportar até a sua morte, em 1802, foi suavizado e alegrado pelo carinho e pela devoção dos fiéis de todo o país.

Notas:
(1). Para toda esta parte, cfr. Pierre Gaxotte, La Révolution française, ed. revista por Jean Tulard, Éds. Complexe, Paris, 1988; Daniel-Rops, L'Église des Révolutions: en face de nouveaux destins; e Juan María Laboa, La Revolución francesa y la Iglesia, em Historia de la Iglesia Católica, vol. IV, Edad Moderna, 2a. ed., BAC, Madrid, 1991]
(2). Pierre Gaxotte, La Révolution française, pág. 57. O clube chamado jacobino recebeu esse nome por reunir-se no convento de Saint-Jacques (Jacques é a forma francesa de Tiago; ambas derivam do nome hebraico Jacob), onde São Tomás de Aquino havia lecionado quinhentos anos antes.
(3) Daniel-Rops, L'Église des Révolutions, pág. 25.

Fonte: A última ao Cadafalso, Gertrud von le Fort, Quadrante.