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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cardeal Newman (1801-1890)


“Consciência é a voz de Deus na natureza e no coração do homem... A Consciência é o vigário primitivo de Cristo, um profeta nas informações, um monarca na peremptoriedade, um padre nas bênçãos e anátemas... A consciência tem seus direitos porque tem seus deveres... Aquele que age contra a sua consciência perde a alma”.
O teólogo e escritor John Henry Newman foi o clérigo mais eminente da Inglaterra do século XIX. Nasceu em Londres no dia 21 de fevereiro de 1801. Sua família era de origem calvinista, sendo a mãe, Jemina Fourdrinier, uma huguenote e o pai, John Newman, um cristão com opiniões tolerantes a respeito de religião. Newman fez os estudos superiores na Universidade de Oxford e foi ordenado pastor da Igreja Anglicana em 1824. Se converteu ao catolicismo em 1845, recebendo a ordenação presbiteral, como sacerdote da Congregação do Oratório de São Felipe Neri, em Roma no dia 30 de maio de 1847. Foi criado cardeal diácono pelo papa Leão XIII em 12 de maio de 1879, antes da hierarquia católica ser reconstituída na Inglaterra. Faleceu em 11 de agosto de 1890.Ainda como padre anglicano, Newman passou muito tempo dentro do campus da Universidade de Oxford como membro do Oriel College e vigário da Igreja universitária de St. Mary. Durante seu período anglicano apoiou a emancipação católica de 1829 e foi líder do chamado Movimento de Oxford, promovendo um grande movimento religioso anti-racionalista e defendendo o rompimento dos laços entre a Igreja da Inglaterra e a coroa, por acreditar que o controle estatal da Igreja nunca serviria aos interesses da verdadeira religião.Após sua conversão ao catolicismo, Newman tomou a defesa dos direitos dos leigos contra o clericalismo e defendeu as artes liberais contra os membros do clero que desejavam restringir o acesso dos estudantes aos novos conhecimentos por medo de que tais idéias acabassem com a fé. Por intermédio do testemunho de vida, da ação pastoral e dos escritos, devolveu a fé católica muito do prestígio perdido nas terras inglesas em conseqüência da Reforma Protestante.Na clássica autobiografia, Apologia Pro Vita Sua, Newman contrastou o liberalismo teológico fundamentado no relativismo com a espécie de reforma da Igreja que apoiava, ao chamar os católicos liberais de “Lacordaire” e os indivíduos que admirava de “Montalembert”. Newman, ao defender que o catolicismo deveria buscar uma conciliação com os valores positivos da modernidade sem abandonar o compromisso com a verdade, foi um precursor do Concílio Vaticano II.No campo político Newman defendia que o fundamento da paz está em “reconhecer que a verdade como tal deve guiar quer o comportamento político quer o privado... e que o zelo, na escala das graças cristãs, tinha a prioridade sobre a benevolência”. Apesar de nunca ter sido ativo na política, Newman sustentava e expressava suas opiniões políticas na esfera privada, tendo ao longo de sua vida apoiado o partido liberal de William E. Gladstone (1809-1898). Como colaborador próximo de Lorde Acton (1834-1902) na publicação do The Rambler, indicava sua simpatia liberal nos assuntos de Igreja e de política. Foi um dos primeiros opositores do envolvimento da Igreja nos assuntos temporais e responsável, em grande parte, por convencer o jovem Acton nesta posição.O apostolado exercido por Newman em prol da inteligência cristã foi intenso e variado, versando sobre campos distintos como a teologia, a filosofia, a literatura, a história e a espiritualidade. Suas obras completas atingem a extensão de 37 tomos e os arquivos da Congregação do Oratório em Birmingham conservam 70.000 cartas que ele escreveu. As obras que publicou sobre a Universidade de Dublin tornaram-se clássicas para a literatura católica e um ponto de referência pedagógico para educadores de diferentes tradições intelectuais, até mesmo para pensadores ateus. Os seus Sermões espelham uma sólida piedade e grande amor pelas almas.No campo pedagógico, Newman defendia que o saber é um fim em si mesmo, pois toda espécie de saber traz sua própria recompensa, mesmo que o estudante não faça disso nenhum uso posterior e que o saber não contribua para nenhum fim imediato. A função da Universidade, nesta perspectiva, não seria a de formar profissionais específicos, deveria promover a formação integral da pessoa, pois, para Newman, “a inteligência em vez de ser formada ou sacrificada a qualquer fim particular ou acidental, a qualquer estado ou profissão específica, a qualquer estudo ou ciência particular, é disciplinada por si mesma, pela percepção de seu objeto próprio e pelo nível mais elevado de sua própria cultura”.A sabedoria e a ortodoxia do Cardeal Newman foram louvadas por quase todos os pontífices romanos desde Leão XIII. Newman foi considerado por Pio XII como uma “Glória da Inglaterra e de toda a Igreja”. Dentre inúmeros elogios feitos ao Cardeal Newman por João Paulo II, destaca-se a referência como “um dos campeões mais universais e ilustres da espiritualidade inglesa”. Já o papa Bento XVI, ainda como Cardeal Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé, afirmou que “Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento”, além de ressaltar que “o contributo de Newman ainda não foi completamente utilizado nas teologias modernas”.

DISCURSO DO CARDEAL JOSEPH RATZINGER NO CENTENÁRIO DA MORTE DO CARDEAL JOHN HENRY NEWMAN

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

28 de Abril de 1990


Não me sinto competente para falar da figura ou da obra de John Henry Newman, mas talvez seja interessante que eu fale da minha pessoal abordagem a Newman, no qual se reflecte também algo da actualidade deste grande teólogo inglês nas controvérsias espirituais do nosso tempo.
Quando em Janeiro de 1946 pude iniciar o meu estudo da teologia no seminário da Diocese de Frisinga, que finalmente reabriu depois dos tormentos da guerra, foi previsto que ao nosso grupo fosse destinado como prefeito um estudante mais velho, o qual, já antes do início da guerra tinha começado a trabalhar numa dissertação sobre a teologia da consciência de Newman. Durante todos os anos em que esteve envolvido na guerra, não afastou da sua mente este tema, que agora retomava com novo entusiasmo e energia. Ligou-nos, desde o início uma amizade pessoal, que se concentrava totalmente sobre os grandes problemas da filosofia e da teologia. É evidente que Newman estava sempre no centro deste intercâmbio. Alfred Läpple, o prefeito acima mencionado, publicou em 1952 a sua dissertação, com o título O indivíduo na Igreja. A doutrina de Newman sobre a consciência tornou-se então para nós o fundamento daquele personalismo teológico, que a todos nos atraiu com o seu fascínio. A nossa imagem do homem, assim como a nossa concepção da Igreja, foram assinaladas por este ponto de partida. Tínhamos conhecido a pretensão de um partido totalitário, que se concebia como a plenitude da história e que negava a consciência do indivíduo. Hermann Goering dissera do seu chefe: "Eu não tenho consciência alguma! A minha consciência é Adolf Hitler". A imensa ruína do homem que derivou disto, estava diante dos nossos olhos.
Por isso, era um facto para nós liberatório e fundamental saber que o "nós" da Igreja não se fundava na eliminação da consciência, mas podia desenvolver-se unicamente a partir da consciência. Contudo, precisamente porque Newman explicava a existência do homem a partir da consciência, isto é, na relação entre Deus e a alma, era também claro que este personalismo não representava cedência alguma ao individualismo, e que o vínculo à consciência não significava concessão alguma à arbitrariedade tratava-se antes precisamente do contrário. De Newman aprendemos a compreender a primazia do Papa: a liberdade de consciência assim ensinava Newman com a Carta ao Duque de Norfolk não se identifica de modo algum com o direito de "dispensar-se da consciência, de ignorar o Legislador e o Juiz, e de ser independentes de deveres invisíveis". Deste modo a consciência, no seu significado autêntico, é o verdadeiro fundamento da autoridade do Papa. De facto, a sua força vem da Revelação, que completa a consciência natural iluminada de maneira apenas incompleta, e "a sua razão de ser é o facto de ser o campeão da lei moral e da consciência".
Esta doutrina sobre a consciência tornou-se para mim cada vez mais importante no andamento sucessivo da Igreja e do mundo. Apercebo-me cada vez mais que ela se abre sempre de maneira completa só em referência à biografia do Cardeal, a qual supõe todo o drama espiritual do seu século. Newman, enquanto homem da consciência, tornou-se um convertido; foi a sua consciência que o guiou dos antigos vínculos e das antigas certezas para o mundo que para ele era mais difícil e inabitual do catolicismo. Contudo, precisamente este caminho da consciência é muito diferente do caminho da subjectividade que se afirma a si mesma: ao contrário, é um caminho de obediência à verdade objectiva. A segunda passagem do caminho de conversão que dura toda a vida de Newman foi de facto a superação da posição do subjectivismo evangélico, em favor de uma concepção do Cristianismo fundada na objectividade do dogma. A este propósito penso que é sempre muito significativa, sobretudo hoje, uma formulação tirada de uma das suas pregações da época anglicana. O verdadeiro Cristianismo demonstra-se na obediência, e não num estado de consciência. "Assim, qualquer tarefa e trabalho de um cristão se organiza tendo como centro estes dois elementos: a fé e a obediência; "ele olha para Jesus" (Hb 2, 9)... e age segundo a sua vontade. Parece-me que hoje corremos o perigo de não dar a importância que deveríamos a nenhum dos dois. Consideramos qualquer reflexão verdadeira e cuidadosa sobre o conteúdo da fé como estéril ortodoxia, como técnica impenetrável. Por conseguinte fazemos consistir o critério da nossa piedade na posse de uma disposição do ânimo espiritual".
Em relação a isto, tornaram-se importantes para mim algumas frases tiradas do livro Os Arianos do IV século, que à primeira vista me tinham parecido bastante surpreendentes: o princípio apresentado pela Escritura como fundamento da paz é "reconhecer que a verdade como tal deve guiar quer o comportamento político quer o privado... e que o zelo, na escala das graças cristãs, tinha a prioridade sobre a benevolência". Para mim é sempre de novo fascinante aperceber-me e reflectir como precisamente assim e só assim, através do vínculo com a verdade, com Deus, a consciência recebe valor, dignidade e força. Neste contexto gostaria de acrescentar apenas outra expressão tirada da Apologia pro vita sua, que ao contrário demonstra o realismo desta concepção da pessoa e da Igreja: "Os movimentos vivos não surgem de comissões".
Gostaria de voltar mais uma vez ao aspecto autobiográfico. Quando em 1947 continuei em Mónaco os meus estudos, encontrei no professor de teologia fundamental, Gottlieb Söhngen, o meu verdadeiro mestre em teologia, um culto e apaixonado seguidor de Newman. Ele apresentou-nos a Gramática do Consentimento e com ela a modalidade específica e a forma de certeza própria do conhecimento religioso. Ainda mais profundamente agiu em mim o contributo que Heinrich Fries publicou por ocasião do Jubileu de Calcedónia: nele tive o acesso à doutrina de Newman sobre o desenvolvimento do dogma, que considero ser, com a doutrina sobre a consciência, o seu contributo decisivo para a renovação da teologia. Com isto ele pôs nas nossas mãos a chave para inserir na teologia um pensamento histórico, ou melhor: ele ensinou-nos a pensar historicamente a teologia, e precisamente desta forma, a reconhecer a identidade da fé em todas as mutações. Sou obrigado a abster-me do aprofundamento, neste contexto, desta ideia.
Parece-me que o contributo de Newman ainda não foi completamente utilizado nas teologias modernas. Ele contém em si ainda possibilidades frutuosas, que aguardam ser desenvolvidas. Nesta sede gostaria apenas de me referir mais uma vez ao aspecto biográfico desta concepção. Todos sabem como a concepção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao catolicismo. Contudo não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento está em jogo a própria vida pessoal de Newman. Parece-me que isto se torna evidente na sua conhecida afirmação, contida no famoso ensaio sobre O desenvolvimento da doutrina cristã: "aqui, na terra, viver é mudar, e a perfeição é o resultado de muitas transformações". Newman foi ao longo de toda a sua vida uma pessoa que se converteu, que se transformou, e desta forma permaneceu sempre ele mesmo, e tornou-se sempre mais ele mesmo.
Vem-me à mente a figura de Santo Agostinho, tão semelhante à figura de Newman. Quando se converteu no jardim perto de Cassiciaco, Agostinho tinha compreendido a conversão ainda segundo o esquema do venerado mestre Plotino e dos filósofos neoplatónicos. Pensava que a vida de pecado passada estava agora definitivamente superada; o convertido seria daquele momento em diante uma pessoa completamente nova e diferente, e o seu caminho seguinte teria consistido numa contínua subida para as alturas mais puras da proximidade de Deus, algo como o que descreveu Gregório de Nissa em De vita Moysis: "Precisamente como os corpos, logo que receberam o primeiro impulso para baixo, mesmo sem ulteriores estímulos, afundam-se por si mesmos... também mas em sentido contrário, a alma que se liberta das paixões terrenas, se eleva constantemente ao de cima de si com um movimento veloz de ascensão... num voo sempre em direcção ao alto". Mas a experiência real de Agostinho era outra: ele teve que aprender que ser cristãos significa, ao contrário, percorrer um caminho sempre mais cansativo com todos os seus altos e baixos. A imagem da ascensão é substituída com a de um iter, um caminho, de cujas fadigosas asperezas nos confortam e amparam os momentos de luz, que de vez em quando podemos receber. A conversão é um caminho, uma via que dura a vida inteira. Por isso, a fé é sempre desenvolvimento, e precisamente assim maturação da alma para a Verdade, que "nos é mais íntima de quanto nós o somos para nós mesmos".
Newman expôs na ideia do desenvolvimento a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída, e assim ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã. O sinal característico do grande doutor da Igreja parece-me que seja aquele que ele não ensina só com o seu pensamento e com os seus discursos, mas também com a sua vida, porque nele pensamento e vida compenetram-se e determinam-se reciprocamente. Se isto é verdade, então Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento.

O cardeal Newman e a busca da verdade

ZP10090301 - 03-09-2010
Permalink: http://www.zenit.org/article-25918?l=portuguese 
Entrevista a Cristina Siccardi, biógrafa do futuro beato
Por Carmen Elena Villa
TURIM, sexta-feira, 3 de setembro de 2010 (ZENIT.org) – Depois de viajar cinco horas debaixo de chuva, a 8 de outubro de 1845, o sacerdote passionista Domenico Barberi encontrou-se com o então pastor anglicano John Henry Newman (Londres, 1801- Birmingham, 1890), que lhe pediu que o acolhesse nos braços da Igreja católica, depois de décadas de busca na teologia e filosofia.
O cardeal Ratzinger, em 1990, escreveu, a propósito do centenário da morte de Newman: “foi sua consciência que o conduziu dos antigos laços e das antigas certezas para o difícil e estranho mundo do catolicismo”.
E será agora o Papa Bento XVI que o beatificará em Coventry, centro da Grã-Bretanha, no dia 19 de setembro, durante sua viagem à Inglaterra.
Sobre a vida e inquietações de Newman, em que sempre estiveram entrelaçadas fé e razão, ZENIT entrevistou a escritora italiana Cristina Siccardi, autora do livro Nello specchio del cardinale Newman (No espelho do Cardeal Newman, 2010, editora Fede e cultura), cuja publicação na Itália será nos próximos dias. Cristina escreve para vários meios de comunicação católicos da Itália.
É autora, entre outros livros, de La ‘bambina’ di padre Pio (Rita Montella, 2003), Santa Rita da Cascia e il suo tempo, 2004; Paolo VI. Il papa della luce, 2008.
ZENIT: Como foi a infância de Newman?
Cristina Siccardi: John Henry Newman era o primogênito dos seis filhos do casal John Newman e Jemina Fourdrinier. Nasceu em Londres e foi batizado na Igreja anglicana de Saint Bennet Fink.
Seu pai, um homem empreendedor, foi subindo de posição social até se converter em banqueiro. Mas depois de vários anos de êxito, veio a derrocada. Foi o próprio John Henry que teve de manter toda a sua família quando frequentou a Universidade de Oxford.
“Fui educado durante minha infância para ter o grande prazer de ler a Bíblia, mas não tive sólidas convicções religiosas até os 15 anos”. Assim Newman abriu o segundo parágrafo da obra-prima intitulada Apologia pro vita. História de suas convicções religiosas, que escreveu em 1864 para combater quem, à raiz de sua conversão, havia-o atacado ferozmente.
Um dia, na ermida de Littlemore, onde se converteu, encontrou e folheou um velho caderno seu de escola. Na primeira página encontrou maravilhado um emblema que lhe cortou a respiração: tinha desenhado a figura de uma cruz robusta e, atrás, uma figura que representava um rosário com uma pequena cruz unida a este. Naquele momento tinha só dez anos. Estas imagens não teriam por que terem sido desenhadas a lápis por Newman, devido à aversão que os protestantes têm às imagens sagradas.
ZENIT: Por que chamavam tanto a atenção dele os Padres da Igreja?
Cristina Siccardi: Quando ainda era anglicano, em 1826, Newman decidiu estudar com um método sistemático os Padres da Igreja, e nasceu assim um grande amor por eles. Em primeiro lugar, examinou-os com a ótica protestante, mas depois, em 1835 e 1839, retomou o estudo com uma ótica mais parecida com a do catolicismo.
Em uma carta a seu amigo Pusey, disse: “Não me envergonho de basear-me nos Padres, e não penso em de forma alguma me afastar deles. A história de seus tempos não é para mim um almanaque velho. Os Padres me fizeram católico e eu não pretendo me afastar da escada pela qual subi para entrar na Igreja”.
Os Padres foram para Newman seu grande amor, neles encontrou a resposta às persistentes perguntas religiosas e de fé que o torturaram durante 44 anos, até que, a 9 de outubro de 1945, foi acolhido na Igreja católica pelo padre Domenico Barberi, passionista italiano que foi beatificado por Paulo VI em 1963.
ZENIT: Conte-nos mais sobre a conversão dele para o catolicismo...
Cristina Siccardi: Esta chegou através de um cansativo percurso intelectual e espiritual. Sua biografia identifica-se com a elaboração do pensamento e com o empenho da alma. John Henry Newman está situado entre os grandes pensadores, filósofos e teólogos da história da humanidade. Sua bibliografia, que se têm edificado no mundo no transcurso dos 120 anos desde sua morte, é enorme.
Com espírito de explorador, atento e escrupuloso pesquisou o interminável nó de caminhos que é o protestantismo. Primeiro como calvinista e depois como anglicano, para depois chegar com alegria à Igreja de Pedro, como pôde experimentar também outro convertido excepcional: Santo Agostinho. Newman comportou-se como o capitão que governa seu navio de guerra com destreza e competência e, sem trégua alguma, alcançou com grande humildade, e sobretudo com zelo, a meta desejada.
ZENIT: Que seus amigos disseram quando ele deu este passo?
Cristina Siccardi: Newman, apesar de dar uma especial importância ao valor da amizade e aos laços profissionais, quando viu e compreendeu a verdade e onde estava, não se preocupou com mais nada nem ninguém e abandonou tudo e todos, assim como fizeram os apóstolos. Seus amigos anglicanos compreenderam que tinham perdido um grande homem: alguns lamentaram, outros o julgaram ferozmente, outros, em contrapartida, o apoiaram.
O elogio mais belo, a nosso parecer, que lhe deram em vida, foi a carta que Edward Pusey enviou a um amigo: “Deus está ainda conosco e nos permitirá seguir adiante, apesar desta grande perda. Não devemos esconder sua importância, porque foi a maior perda que tivemos. Quem o conheceu sabe bem dos seus méritos. Nossa igreja não soube se beneficiar. Era como se uma espada afiada dormisse em sua bainha porque ninguém sabia empunhá-la. Era um homem predestinado a ser um grande instrumento divino, capaz de realizar um amplo projeto que restabelecesse a Igreja. Foi-se – como todos os grandes instrumentos de Deus – inconsciente de sua própria grandeza. Foi-se para cumprir um simples ato de dever, sem pensar em si mesmo, abandonando-se completamente nas mãos do Altíssimo. Assim são os homens em quem Deus confia. Poder-se-ia dizer que se transferiu para outra área da vinha, onde pode utilizar todas as energias de sua poderosa mente”.
ZENIT: Ele recebeu muitos ataques da parte da Igreja anglicana e dos intelectuais da época?
Cecila Siccardi: Certamente da Igreja anglicana, dos intelectuais protestantes e também da própria Igreja católica. Os primeiros o consideravam um traidor, os segundos, alguém de quem se deve desconfiar. Também alguns católicos na Irlanda estiveram contra: ele foi removido do cargo de reitor da Universidade de Dublin. John Henry Newman escreveu a Apologia pro vita justamente para se defender dos ataques dos intelectuais. Este livro engendrou muitas conversões. Recordemos que o Papa Leão XIII afastou muitos rumores maliciosos, quando concedeu a Newman o barrete cardinalício.
ZENIT: Em uma sociedade onde reina o relativismo moral e intelectual, que nos diz a beatificação de Newman?
Cristina Siccardi: O cardeal Newman combateu sincera e lealmente o liberalismo, trazendo, com seu método sistemático e analítico, um dos perfis mais reais daquela Europa em fase de corrupção, de abandono da civilização cristã e de agonizante apostasia. Conseguiu identificar as conotações de secularização e relativismo de nossos dias, fruto da presunção que já os gregos pagãos, depositários de verdadeiras sementes do Verbo, definiam ύβρις (übris = a arrogância de quem não se submete aos deuses), ou o que é o mesmo, a ideia de antepor os lugares comuns supostamente racionais da própria época à razoabilidade e racionalidade da Tradição.
Newman, quem, como disse o cardeal Ratzinger em 1990, “pertence aos grandes doutores da Igreja”, esse grande cavalheiro do século XIX inglês, alcançou a Verdade quando tinha 44 anos, depois de décadas de estudo e aprofundamento. Com valentia, forçou sua própria mente para entender, indagar, sondar os meandros da história, da filosofia, teologia e descobrir finalmente a pedra preciosa. Foi assim que “vi meu rosto naquele espelho: era o rosto de um monofisista, o rosto de um herege anglicano e o descobri quase com terror”.
O epitáfio na tumba do futuro beato Newman, cuja vida é a prova mais evidente e concreta de que a razão pode se unir à fé para trazer à terra a Igreja de Jesus Cristo, a única verdade que leva à salvação eterna. Crer na verdade e ser livre: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos tornará livres” (Jo 8, 31-32). John Henry Newman  é o modelo que a Igreja, sob o pontificado de Bento XVI, propõe aos cristãos e aos católicos para seguir: é a resposta claríssima do Papa ao mundo relativista.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Cardeal John Henry Newman

(autor sagrado, filósofo)
1801-1890




Todas são também tão numerosas e tão diferentes umas das outras, que, no fim, o motivo originário e primordial pode chegar a nos parecer quase insignificante e secundário.

Cardeal Diácono de São George em Velabro, autor sagrado, filósofo, homem de letras, líder do Movimento Tractariano, e o mais ilustre converso inglês à Igreja.

Nascido na Cidade de Londres, em 21 de fevereiro de 1801, o mais velho de seis irmãos, três homens e três mulheres; morreu em Edgbaston, Birmingham, em 11 de agosto de 1890. Houveram certas discussões sobre sua ascendência com respeito a seu lado paterno.

Seu pai foi John Newman, um banqueiro, sua mãe Jemima Fourdrinier, de uma família Hugonote estabelecida em Londres como cinzeladores e fabricantes de papel.

Sabe-se que o sobrenome era escrito "Newmann"; está claro que muitos judeus, ingleses ou estrangeiros, o levaram, e a insinuação era que o cardeal era de ascendência judaica.

Mas não encontraram nenhuma evidência documentaria para confirmar tal idéia. Sua linhagem francesa é inegável. Recebeu de sua mãe seu treinamento religioso, um Calvinismo modificado; e provavelmente ajudou à "concisão lúcida" de suas palavras quando tratava de temas abstrusos.

Seu irmão Francis William, também escritor, mas carente de elegância literária, separou-se da Igreja Inglesa para aderir-se ao Deísmo; Charles Robert, o segundo irmão, era bastante errático e professava o ateísmo.

Uma das irmãs, Mary, morreu jovem; Jemina tem um lugar na biografia do cardeal durante a crise de sua carreira anglicana; e estamos em dívida com uma filha de Harriet, Anne Mozley, pelas "Cartas e Correspondência" de 1845, que contêm uma seqüela das próprias mãos do cardeal Newman da "Apologia" Clássica desde o dia em que foi completada, a "Apologia" será sempre a principal autoridade dos primeiros pensamentos de Newman, e de seu conceito sobre o grande ressurgimento religioso, conhecido como Movimento de Oxford, do qual foi o guia o filósofo e o mártir.

Sua imensa correspondência, da qual a maior parte permanece sem ser publicada, não pode mudar essencialmente nossa estiva para quem, ainda que sutil ao grau de marginar o refinamento, foi também impulsivo e aberto com seus amigos, assim como enérgico em suas posições com o público. De tudo o que conhecemos dele, podemos deduzir que a grandeza de Newman consistia na união de originalidade, que chegava a uma genialidade de primeira classe, e um caráter de grande profundidade espiritual, manifestadas em uma linguagem de perfeita harmonia e ritmo, em uma energia que tão freqüentemente criou seitas ou Igrejas, e em uma personalidade não menos arrebatadora quanto sensível.

Entre as estrelas literárias de seu tempo Newman se distingue pelo puro resplendor cristão que brilha em sua vida e escritos. Ele é o inglês da era que manteve o antigo credo com uma sabedoria que só os teólogos possuem, com uma força shakespeariana de estilo, e um fervor próprio dos santos.

É esta combinação única a que o eleva sobre os pregadores católicos de vinitate mundi, como Thackeray, e que o outorga um lugar aparte de Tnnyson e Browning. Em comparação a ele Keble é uma luz de sexta magnitude; Pusey, um professor devoto, Lidon, um menos eloqüente Lacordaire. Newman ocupa no século XIX uma posição semelhante à do Bispo Butler no XVIII.

Se Butler é o paládio cristão contra o deísmo, então Newman é o apologista católico em uma época de agnosticismo, rodeada pelas teorias da evolução. Ele é, alem disso, um poeta, e seu "Sonho de Gerontio" ("Dreams of Gerontius") avantaja cem vezes mais o verso meditativo dos poetas modernos por seu claro-escuro de símbolos e cenas dramáticas do mundo visto atrás do véu./

Foi educado desde sua infância em deleitar-se com a leitura da Bíblia, mas carecia de convicções religiosas formadas até que completou quinze anos. Costumava desejar que os contos das mil e uma noites fossem verdadeiros; sua mente discorria com influências desconhecidas; pensava que a vida era possivelmente um sonho, que ele era um anjo, e que seus amigos anjos o estariam enganando com a aparência de um mundo material. Era "muito supersticioso" e tinha medo do escuro.

Aos quinze anos se "converteu", ainda que não praticasse muito os Evangelhos; das obras da escola de Calvino, obteve suas idéias dogmáticas definitivas, enquanto descansava "no pensamento de dois e somente dois absolutos e luminosos seres evidentes a todas as luzes, eu mesmo e meu Criador".

Em outras palavras, a personalidade se converteu na verdade primeira de sua filosofia; sem se importar com a lei, a razão ou a experiência dos sentidos. Daqui em diante, Newman foi um místico cristão, e como tal permaneceu. Dos escritos de Thomas Scott de Aston Sandford, "a quem, humanamente falando", disse, "Quase devo a minha alma" , aprendeu a doutrina da Trindade, apoiando cada frase do Credo Atanasiano com textos da Escritura.

A idéia de Universidade do Cardeal Newman e sua relevância para a educação superior católica.

Trechos do artigo publicado em COMMUNIO, revista internacional de teologia e cultura, Vol. XXVII, No. 2 (Abr/Jun 2008)
Cardeal Avery Dulles
Esse artigo é uma colaboração da revista

Cardeal Avery Dulles S.J. foi professor de Teologia em várias universidades norte-americanas. É membro e foi presidente da American Theological Society e da Catholic Theological Society of America. Foi membro da Comissão Teológica Internacional do Vaticano e coordenador do Comitê Católico-Luterano. É autor de mais de vinte e cinco livros sobre Teologia e Filosofia, além de ter publicado mais de setecentos artigos acadêmicos.
O Cardeal John Henry Newman (1801-1890) foi um dos maiores pensadores católicos do século XIX. Crítico contumaz do positivismo, esteve muito à frente de seu tempo, descortinando paradoxos e contradições do pensamento moderno que só se tornariam evidentes no século XX. Neste texto, são apresentadas suas críticas aos desvios do utilitarismo, da fragmentação, do secularismo e do racionalismo no ensino acadêmico.

John Henry Newman (1801-1890), ao escrever na Inglaterra em meados do século XIX, propôs uma visão de educação superior católica que levasse em conta as principais dificuldades que prevaleciam em sua época e que são igualmente predominantes hoje. Embora suas propostas tenham sido, em grande parte, endereçadas em termos positivos, irei resumi-las contrastando-as com quatro tendências que Newman tinha como inaceitáveis. Chamarei tais tendências de utilitarismo, fragmentação, secularismo e racionalismo.
Como utilitarismo Newman entendia o movimento filosófico ligado ao nome de Jeremy Bentham (1748-1832). O editor da Edinburgh Review, Lorde Francis Jeffrey (1773-1850), juntamente com personalidades influentes como Lorde Henry Brougham (1778-1868) e Sydncy Smith (1771-1845), propunham destronar os clássicos da posição de supremacia que tinham em Oxford e Cambridge e substituí-los por um conhecimento útil que levasse ao comércio ou à profissionalização. Newman afirmava, ao contrário, que a finalidade primeira da educação não era a aquisição de uma informação útil ou de habilidades necessárias para uma determinada ocupação, mas o cultivo do intelecto. O fruto especial da educação universitária, conforme seu ponto de vista, era produzir o que chamava de "hábito filosófico da mente". O estudo dos clássicos, acreditava, havia provado sua capacidade de "reforçar, refinar e enriquecer as capacidades intelectuais"
Newman estava convencido de que o refinamento mental que deriva da capacidade de ler, escrever e do estudo da Filosofia é algo bom em si mesmo, realmente aparte da utilidade. Mas acrescentou que, longe de ser inútil, uma educação desse tipo permitiria ao aluno assumir várias posições sociais e profissionais. Caso queira tornar-se um soldado, um homem público, um advogado ou um médico, tal pessoa precisará da capacidade de pensar com clareza, de organizar o conhecimento e articular as próprias idéias de forma a lidar, eficazmente, com as questões mais prementes. Um programa de estudos estritamente profissional ou vocacional, portanto, iria falhar no teste da utilidade, para não mencionar o teste adicional do conhecimento liberal como fim em si mesmo.
A segunda ameaça é a fragmentação. Newman estava incomodado com o aumento da compartimentalização da educação. Ele não era co i u rã a multiplicação das disciplinas. Na universidade irlandesa, criou não só uma escola de artes e ciências, mas também escolas de Medicina e Engenharia, Tomou providências para criar um laboratório de Química e um observatório astronômico. Todos esses elementos, segundo sua visão, tinham um lugar apropriado na universidade, local de aprendizagem universal. Mas a própria multiplicidade de disciplinas aumentou a necessidade de um princípio ordenador, que governasse o todo, de forma que os alunos fossem capazes de perceber o significado de cada ramo específico do conhecimento em relação ao todo.
A Filosofia, como Newman empregava o termo, não era tanto uma disciplina especial como uma metadisciplina. Ao compreender a Filosofia como o exercício da razão sobre o conhecimento, ele defendia que era ilimitada quanto ao horizonte. Dessa perspectiva própria, ela abraça todo tipo de verdade e estabelece cada um dos métodos para alcançá-la. Dessa forma, o estudo da Filosofia supera a ameaça de fragmentação.
A terceira ameaça era o secularismo: a exclusão do conhecimento religioso da educação superior. Uma boa parcela da culpa, acreditava Newman, recaía sobre os evangélicos, que descreviam a religião não como conhecimento, mas como uma questão de sentimento ou emoção. Se a religião não é nada além disso, Newman admitia, ela não poderia reivindicar, convenientemente, o mérito de ter uma cátedra na universidade. Mas, para ele a religião era uma questão de verdade. Por meio da razão e da revelação, o intelecto poderia chegar a um conhecimento genuíno acerca de Deus e, tal conhecimento, poderia ser estruturado num sistema.
A universidade deveria, obviamente, levar em conta as verdades a respeito de Deus que são acessíveis a todas as pessoas que estão atentas a elas, tais como os artigos da religião natural. Mas não deveria omitir a verdade revelada, já que a revelação divina é necessária para evitar que a razão se perca. A universidade, como Newman a concebia, não era um seminário, e por isso ela não poderia explorar, profundamente, as questões dogmáticas e de Teologia Sacramentai, mas deveria buscar comunicar o que chamava de "conhecimento religioso geral". Nenhuma parcela da verdade católica poderia ser devidamente excluída da universidade.
A ausência da Teologia, argumenta Newman, deixaria desequilibrados os outros ramos do conhecimento. Ansiosos por preencher o vácuo deixado por tal ausência, essas disciplinas buscariam responder, com os próprios métodos, questões que não poderiam ser corretamente respondidas a não ser pela Teologia. Provavelmente todos nós já experimentamos como os professores de Tísica ou de Kconomia, Medicina ou Psicologia para citar alguns exemplos — tendem a operar como se a sua qualificação especializada desse totalmente conta da realidade e do que significa ser humano. A Teologia é necessária, portanto, para manter as disciplinas seculares dentro dos próprios limites e para lidar com questões além do alcance de tais disciplinas.
O racionalismo, na visão de Newman, era a quarta grande ameaça. A universidade, como local de cultivo intelectual, tende a tratar a razão humana como a medida de todas as coisas. Ao absolutizar seus próprios padrões e objetivos, a universidade aspira a completa autonomia e se torna rival da Igreja, até mesmo na própria esfera de competência eclesiástica. Para evitar essa intromissão, a Igreja deve exercer o que Newman chama de uma "jurisdição direta e ativa" sobre a universidade. Isso não deve ser visto como um obstáculo, mas como auxílio à universidade. A supervisão eclesiástica evita que a universidade recaia nos tipos de ceticismo e descrença que infestaram os bancos escolares desde a época de Abelardo. Por não poder completar a sua missão sem a verdade revelada, e porque a Igreja tem total autoridade para ensinar os conteúdos da revelação, a universidade deve aceitar a direção da Igreja.
Newman estava bem ciente de que os resultados da ciência, muitas vezes, pareceriam conflitar com a doutrina cristã. Ele aconselhava paciência e reserva, por parte das autoridades eclesiásticas, bem como dos cientistas. Ambos deveriam proceder com a certeza de que a reconciliação poderia, no devido tempo, ser alcançada, pois seria impossível que a verdade da revelação pudesse ser contrária à razão e à ciência. [...]
Se Newman estivesse vivo hoje, iria, entusiasticamente, abraçar os princípios apresentados por João Paulo II na Constituição Apostólica “Ex Cores Ecclesiae” (15 de agosto de 1990). Nesse documento, o Santo Padre demonstra os mesmos princípios gerais que tentei destacar no tratado de Newman. Ensina que a educação universitária não deveria se contentar em produzir mão de obra eficiente para a indústria ou para o mercado, não deveria exaltar a técnica em detrimento do espiritual. É francamente contra a multiplicação de departamentos e institutos, que vê como danosos a uma rica formação humana. Reclama um humanismo universal e uma visão orgânica da realidade. Da mesma forma, defende que as universidades católicas possuam uma vantagem incomparável diante das demais por serem capazes de integrar toda a verdade em relação ao Cristo, o Logos encarnado, a quem os cristãos reconhecem como o caminho, a verdade e a vida para todo o mundo. [...]

Blair escreve no Osservatore Romano sobre o cardeal Newman


Num texto publicado ontem no Osservatore Romano, Tony Blair assina o texto "On the eve of the beatification - The Pope and Newman". O texto incide, sobretudo, no diálogo inter-religioso, mas aborda igualmente outras questões, de inevitável incidência na actualidade da Igreja Católica. Um curto extracto:
"(...)Newman foi o primeira a colocar o conceito de desenvolvimento no mapa. A sua compreensão sobre como a doutrina se desenvolveu revelou-se extremamente influente no seu tempo. Ele fez do desenvolvimento uma ideia-chave, tanto dentro como fora da Igreja. Nós provavelmente não estaríamos hoje a usar as expressões "Objectivos de Desenvolvimento do Milénio" ou "desenvolvimento internacional" se ele não tivesse usado primeiro a palavra na sua teologia.
As reflexões de Newman sobre o desenvolvimento das ideias têm, evidentemente, implicações não menos profundas para a vida da Igreja hoje. Ele concluiu que era impossível fixar um ponto em que o crescimento da doutrina da Igreja cessaria. Daí decorre que esse crescimento continua hoje, e não acontece no vácuo. (...).
Decidir se algo foi um desenvolvimento "verdadeiro" era, naturalmente, a prerrogativa do magistério da Igreja. Mas Newman também descreveu o consenso do "conjunto dos fiéis" sobre questões de doutrina como a "voz da Igreja Infalível". Duvido que esta voz esteja ainda a ser suficientemente levada a sério sobre as questões morais, e se digerimos devidamente as implicações dessas ideias. A tendência de alguns líderes religiosos para meter um grande número de ideias diferentes dentro de um saco etiquetado de "secularismo" para, em seguida, tratá-lo como um pacote de sinistro, é divisionista em sociedades pluralistas, porquanto amputa a Igreja das possibilidades de novos desenvolvimentos no pensamento. (...)"