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terça-feira, 17 de abril de 2012

Politicamente correto




Pero Vaz de Caminha e Padre Anchieta têm de ser proibidos nas escolas e banidos das bibliotecas!!!

Como vocês sabem, o Brasil é um país laico. Devemos seguir os bons exemplos que se espalham pelo mundo, nas pegadas desta ONG neoiluminista chamada “Gherush92″, que quer proibir que se ensine a “Divina Comédia” na Itália porque o livro seria “homofóbico, islamofóbico e anti-semita”, e também do Conselho das Magistratura do Rio Grande do Sul, que considera que a exposição de um crucifixo num tribunal vem carregada daqueles valores cristãos que tornam desiguais os homens e promovem a injustiça.
Ora, escolas, especialmente as públicas, são espaços coletivos, onde deve prevalecer a diversidade. Assim, todos os sinais, em qualquer tempo, de que uma religião predominou sobre as outras — afinal, por qual direito divino, por exemplo, o Brasil do século 16 teve uma colonização cristã e não islâmica? — devem ser banidos do ensino em nome da igualdade. Deve ser terminantemente proibido que se mencionem nas escolas alguns textos. Ao longo do dia, eu os citarei e direi por quê.
Começando do começoA Carta de Pero Vaz de Caminha, primeiro documento escrito em solo brasileiro, tem de ser banida. Fica evidente, como diria hoje em dia um intelectual petista, que o autor puxa a brasa para a sua sardinha — se me permitem empregar um clichê que guarda relação com a culinária portuguesa.
No momento mais perverso da Carta, Caminha sugere que os índios estão naturalmente vocacionados para o cristianismo, o que contraria a moderna antropologia. O fato de Caminha ter escrito aquilo no último ano do século 15, não no 20, não deve intimidar as pessoas que lutam por igualdade, diversidade cultural e um mundo mais justo. Diz Caminha ao Rei Dom Manuel, que tinha três penas no chapéu:“Chantada a Cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco a ela obra de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como nós.
E quando  veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção.”
Tinha início ali, é bom que se diga, uma história de domínio de uma cultura sobre a outra, com base numa pretensa superioridade. Mais: sabe-se que a presença portuguesa no Brasil deriva da expansão mercantil, que trazia mais do que a semente — em certo sentido, era mesmo a sua essência — do capitalismo. À medida que a mercantilização —- em sentido pleno — invadiu aquilo que de mais próximo se conheceu do paraíso edênico, estavam abertas as portas para o genocídio.
É bem verdade que se produziu cultura antes da chegada dos portugueses e de que há sinais de que os tupis esmagaram povos primitivos, mas isso deve ser conversa dessas revisionistas que insistem em negar o caráter originalmente pacífico e absolutamente integrado à natureza dos povos aqui encontrados pelos portugueses…
Padre AnchietaJá está claro por que se deve proibir a Carta de Caminha nas escolas. Mas a correção dos desvios cristãos do ensino não deve parar por aí. Mais do que Caminha, Padre Anchieta tem der eliminado até das nossas bibliotecas. O leitor encontra, por exemplo, o Auto de São Lourenço na Internet. Peça de teatro de intenção didática e criada como instrumento da catequese, Anchieta representa os demônios como índios. O “bem”, claro!, é português e cristão. Foi o precursor do método de alfabetização de Paulo Freire no Brasil, só que do lado errado! Este grande e maravilhoso educador de esquerda queria passar conceitos revolucionários e socialistas enquanto alfabetizava; Anchieta pretendia cristianizar os índios, quando o certo, obviamente, seria mostrar a grandeza antropológica do canibalismo aos portugueses.
Olhem como Anchieta é perverso no trecho que seleciono. Guaixará, o mal, vestido de índio, com um comportamento obviamente inconveniente, faz caricatura dos hábitos indígenas. Anchieta era um porco reacionário e cristão. Ter vivido no século 16 não o desculpa, não! Ele não respeitava a diversidade cultural.  Leiam:
GUAIXARÁ
Esta virtude estrangeira
Me irrita sobremaneira.
Quem a teria trazido,
com seus hábitos polidos
estragando a terra inteira?
(…)
Guaixará sou chamado.
Meu sistema é o bem viver.
Que não seja constrangido
o prazer, nem abolido.
Quero as tabas acender
com meu fogo preferido
Boa medida é beber
cauim até vomitar.
Isto é jeito de gozar
a vida, e se recomenda
a quem queira aproveitar.
Repararam? Anchieta põe na boca do demônio o que hoje poderia ser uma festa dos “progressistas” da USP, especialmente naquela parte de “beber até vomitar”! Vômito progressista, é evidente!
E estamos só no começo. Há muitas obras sendo ensinadas (em tese ao menos) nas escolas e que estão abrigadas nas bibliotecas que agridem a diversidade, fazem pouco caso do oprimido, referendam a superioridade da cultura cristã e não valorizam os movimentos de resistência.
Por Reinaldo Azevedo

domingo, 15 de janeiro de 2012

Os cafetões ideológicos dos desgraçados. Ou: Haddad dá início a guerrilha eleitoral explorando tragédia social

Um grupo de bacanas e descolados, ligados a ONGs e a movimentos sociais, decidiu organizar um churrasco em protesto contra a ação da Prefeitura e da Polícia Militar na cracolândia. Segundo a PM, o evento reuniu ontem umas 200 pessoas entre viciados e deslumbrados. Os primeiros são suicidas; os outros são homicidas. Já chego lá. O leitor Allan Pinho, de São João do Meriti, no Rio, envia uma indagação interessante. leiam: “Reinaldo, aqui no Rio, no combate à cracolândia da favela do Jacarezinho, inclusive com a internação compulsória, houve grande apoio da população, da grande maioria da imprensa, do Poder Judiciário, inclusive do MP [Ministério Público] e da DP [Defensoria Pública]. Por que em São Paulo não está tendo esse apoio? Qual a diferença entre Rio e São Paulo nessa situação?” Boa questão, Allan! Essas mesmas correntes de opinião e entes apoiaram, de modo inequívoco, a instalação das UPPs e a retomada de alguns morros. Qual a diferença? No Rio, o PT é situação, e Sérgio Cabral é considerado um aliado estratégico pelo Palácio do Planalto. Não há ninguém, em Brasília, sabotando as ações do governo estadual, nem no Ministério Público, na Defensoria, nas ONGs ou nos movimentos sociais. Em São Paulo, o PT é oposição a Geraldo Alckmin (PSDB) e está tentando entender qual é a de Gilberto Kassab (opôs-se à sua gestão ao menos até a criação do PSD). O PT é mesmo assim: pode apoiar ou sabotar uma determinada medida a depender de quem a implemente. Assiste-se, em São Paulo, a um movimento de caráter político, com apelo eleitoral. Amplos setores da imprensa já se alinham com a candidatura do petista Fernando Haddad à Prefeitura. Vai ver estão encantados com a competência demonstrada pelo rapaz no Ministério da Educação, em especial no Enem… Na Folha de hoje, o ainda ministro aparece classficando a ação em São Paulo de “desastrada”. Bem, ao menos as coisas ficam mais claras agora. Eis a diferença, meu caro Allan! Como os petistas dominam boa parte das ONGs, dos movimentos sociais e têm forte presença nas redações, consegue emplacar a sua pauta. É o caso da tal “Churrascada da Gente Diferenciada - Cracolândia”. Estará hoje em todos os jornais, foi amplamente noticiada nos sites e portais e ganha, assim, uma visibilidade muitíssimas vezes superior à sua importância. Só para você ter uma idéia, o Estadão informa que foram comprados 18 quilos de carne e alguns frangos, assados em quatro grelhas. O Globo Online não economizou: alguém contou à reportagem que foram consumidos nada menos de QUINHENTOS QUILOS. Imaginem que estrutura não seria necessária para assar meia tonelada! Ainda no Globo, lê-se a declaração de Patricia Cornils, de uma certa “Transparência Hacker”, segundo quem a idéia do churrasco foi de um morador de rua. É mentira! A história começou num site que defende a legalização das drogas chamado “Desentorpecendo a Razão”. Parece piada macabra, mas não é. Viciados em crack, que já não têm mais nada de seu a não ser o vício - vivem em função da pedra -, estão servindo ao proselitismo de um grupo que fala em “desentorpecer a razão”. Não havia mais do que 200 pessoas lá, incluindo dependentes que perambulam pelo local. Boa parte não gostou do movimento e preferiu se afastar. Alguns pobres desgraçados só queriam um pouco de pão e carne - quem poderá condená-los por isso? Animados mesmo estavam os Remelentos & as Mafaldinhas de classe média, muitos deles certamente consumidores “recreativos” de drogas, que depois voltariam para o conforto dos seus lares, rumariam para as suas baladas, retomariam a sua rotina “burguesa”, deixando para trás os andrajos humanos que só pensam na próxima pedra… Os viciados em crack praticam o suicídio lento - na verdade, nem tão lento assim. Esses deslumbrados que foram lá fazer política são, queiram ou não, homicidas cordiais. Sob o pretexto de defender os direitos dos viciados, fazem, na prática, a apologia do vício. A maioria dos paulistas, dos paulistanos em particular, estou certo, apóia as medidas da Prefeitura e do governo. Mas essa turma não faz churrasco, não ocupa as ruas, não pertence a “coletivo” nenhum! E a minoria, então, acaba dando o tom da cobertura. Uma das estrelas do evento de ontem foi ninguém menos do que o padre Júlio Lancelotti, aquele que não conseguiu dar uma explicação razoável para o fato de ter comprado um carro de luxo para um ex-interno da Febem que o chantageava. Ele é o chefão de uma tal “Pastoral do Povo de Rua” - boa parte dessas pessoas, todos sabem, é viciada em crack. Há anos este, vá lá, “religioso”, histórico militante ligado ao PT, organiza a resistência a toda e qualquer tentativa do Poder Público de intervir na área. Não por acaso, quando prefeita, Marta Suplicy (PT) ignorou o problema. Foi em sua gestão que a cracolândia passou definitivamente para o controle dos viciados, dos traficantes e das ONGs que diziam fazer por ali um trabalho de “redução de danos”. Um desses trabalhos, acreditem!, era distribuir cachimbos novos aos viciados sob o pretexto de que era mais higiênico e impedia a transmissão de doenças. A cracolândia se transformou num enorme mercado de almas para a caridade à moda Lancelotti. Ao Globo, ele deu uma declaração assustadora. Já que é um padre da Igreja Católica (fazer o quê? Há dessas coisas…), ouso dizer que suas palavras são inspiradas, sim, mas pelo antípoda de Deus. Leiam: “Uma manifestação como essa é tudo que ninguém esperava: o povo que vive na cracolândia comendo com pessoas de outros segmentos sociais. Isso é um sinal de que a sociedade muda se todo mundo puder comer junto, se a comida for suficiente para todos, se eu olhar para o outro como meu irmão. Se houver partilha, se todos tiverem direito ao pão, a cidade vai ser nova e diferente”. É para estômagos fortes. O que é que “mudou” exatamente? Nada! A fala de Lancelotti traz o desastre moral que já está embutido no nome de sua pastoral: “Povo de Rua”. Não existe um “povo de rua” como categoria sociológica, política, antropológica ou religiosa. Aquele que está na rua vive um drama pessoal e familiar que pede uma solução. Na fala desse padre, os viciados da cracolândia se transformam num segmento social dotado de direitos específicos. Errado! São cidadãos, sim, submetidos às mesmas leis que regulam a vida das demais pessoas. Se estão doentes, têm de buscar ajuda. Mas não dispõem de licença especial, como privatizar o espaço público, por exemplo. Noto em setores da imprensa paulistana um viés delirante, estúpido. Aqui e ali, percebe-se um esforço para transformar os viciados da cracolândia numa comunidade com valores próprios, como se houvesse por lá uma variante antropológica. Não há dúvida de que um sociólogo ou antropólogo conseguiria fazer fascinantes trabalhos descritivos sobre aquela “subcultura”, encontrando todos os mecanismos de poder e de organização que estruturam a sociedade dos não-viciados. Não há dúvida, e os jornalistas babam embevecidos quando diante de uma historieta, que se multiplicam por lá manifestações de solidariedade e companheirismo. Não há dúvida de que os viciados têm sonhos, anseios, ambições, pequenas vaidades. Pulsa, sim, senhores, a vida humana em meio àqueles escombros e andrajos físicos, morais, éticos… Por isso mesmo, cumpre ao Poder Público tomar uma medida drástica. E a primeira consiste em recuperar o território para dar combate ao tráfico, oferecendo, como está sendo feito, a oportunidade de tratamento aos viciados e prendendo os bandidos. “E se os viciados não quiserem?” Bem, enquanto não há uma legislação que dê amparo à internação forçada, são livres para rejeitar ajuda, MAS, ATENÇÃO!, NÃO SÃO LIVRES PARA ESPALHAR A DESORDEM! Uma das faixas pregadas pelos organizadores do churrasco sustentava: “Nem criminoso, nem doente: usuário de drogas é cidadão”. Já o viciado Paulo Henrique Bispo, de 38 anos, pensa um pouco diferente: “A gente está doente e precisa de tratamento, não brutalidade”. Perceberam? Os proxenetas dos viciados, seus cafetões ideológicos, querem lhes emprestar uma voz política. Ocorre que muitos deles, no entanto, sabem-se doentes. O curioso é que tanto o discurso “sociologizado” como o “medicalizado” partem do princípio de que o dependente pode impor a sua vontade ao conjunto da sociedade. E não pode! “A contrário do que dizem por aí, a operação não tem prazo para acabar. A polícia vai permanecer enquanto tiver necessidade. Vamos apoiar as próximas fases da operação, apoiar os agentes de saúde e de assistência social”. A fala é do secretário de Segurança de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto. Assim seja! A região hoje conhecida por cracolândia precisa voltar a abrigar a churrascada da gente que não se diferencia: o homem comum, que não se droga, trabalha, estuda e luta para ter uma vida digna. Por Reinaldo Azevedo

domingo, 16 de outubro de 2011

Quem está por trás do movimento esquerdista “Ocupe Wall Street”?

Ou: Obama como potencial beneficiário do “fascismo de esquerda” Quem, afinal de contas, dá suporte ao movimento esquerdista “Ocupe Wall Street”? O debate corre solto nos Estados Unidos, e um nome se tornou freqüente no debate: alguns conservadores vêem na patuscada dinheiro do bilionário George Soros, já que ele financia ONGs “progressistas” que, por sua vez, apóiam a “ocupação”. Huuummm… Parte dos que estão na praça quer o fim do capitalismo, reivindicação surgida junto com o capitalismo, há alguns séculos. Outro tanto defende uma sobretaxação para os ricos, e isso, sim, conta com o apoio de alguns milionários e bilionários “progressistas”, que igualmente censuram a ganância do capitalismo financeiro — nesse caso, não vêem contradição nenhuma em arrancar o máximo possível do “sistema”, ainda que o façam com dor no coração e alguma culpa. Um expoente dessa corrente dos “bilionários com alma” é Warren Buffet, que passou a defender ativamente que os ricos paguem mais impostos, como quer Barack Obama. Bem, o meu “jornalismo investigativo” pessoal se atém mais à lógica dos processos e à análise da metafísica influente do que à caça de “culpados”. Temos não mais do que frases esparsas de Obama expressando sua simpatia pelo movimento. Parte da pauta da turma da praça coincide com a sua. Mas não é algo que possa ser considerado uma “prova” em sentido técnico. A minha prova é, como posso explicar?, imaterial. Soros, Buffet ou outro potentado qualquer, todos eles, para mim, são irrelevantes. Quero saber a quem interessa essa esfera de valores que sai da praça, retratada com entusiasmo pela imprensa liberal (nos EUA, isso quer dizer “esquerdista”). A resposta leva a um único homem: Barack Hussein Obama. Parece-me evidente que a origem do movimento está nos grupos “obamistas” espalhados na rede, os mesmos que deram à luz o fenômeno Obama e fizeram de um senador inexperiente do Illinois, que havia administrado, no máximo, uma ONG, o candidato a Demiurgo, supostamente apto a tirar os EUA da crise — ele só a aprofundou! — e a salvar a civilização: o mundo está potencialmente menos seguro. Obama se atrapalhou todo na política institucional; não conseguiu encontrar as respostas pelos métodos convencionais. A democracia americana está mais protegida da vontade cesarista de um líder do que ele gostaria. O Congresso não é “cooptável” — não do modo como é o nosso ao menos. Urgia criar uma movimento de opinião pública, algo para responder, de algum modo, ao Tea Party, este um movimento mais institucionalizado. O “Ocupe Wall Street” tem, na imprensa, inclusive na nossa, uma presença muito superior à sua real importância, ao menos por enquanto. Estamos falando, AINDA, de meia-dúzia de gatos-pingados com uma pauta que vai do centro (onde pretende se situar o obamismo) para a esquerda. No ritmo em que as coisas ainda caminham, Obama vai para uma derrota eleitoral. É preciso mobilizar a sociedade contra “os ricos”, “o capitalismo financeiro”, “os bancos”, “os políticos”, “as instituições corruptas” etc. Essa pauta vem lá de de Mussolini, hehe… Não sei se a coisa vai prosperar como pretendem os obamistas. No melhor dos mundos para eles, mais de milhão vai para a rua, com aqueles jargões muito próprios do fascismo de esquerda, de que o presidente americano e candidato à reeleição pretende ser o beneficiário. E o Brasil? Reitero: qualquer associação com os atos contra a corrupção no Brasil são infundados, estúpidos até. A turma do “Ocupe Wall Street” está brava, curiosamente, porque as instituições americanas funcionam, e o demiurgo não pode fazer o que lhe dá na telha; tem de prestar contas ao Congresso. Obama está com o saco cheio de ter de governar o país segundo a Constituição que herdou. No Brasil, os que se mobilizam pedem justamente o contrário: que as instituições funcionem; que a letra da lei seja seguida, que o Congresso exerça suas prerrogativas. Texto publicado originalmente às 18h36 deste sábado Por Reinaldo Azevedo

sábado, 14 de maio de 2011

Livro didático faz a apologia do erro: exponho a essência da picaretagem teórica e da malvadeza dessa gente

Escrevi, posts abaixo, um primeiro texto sobre um livro de língua portuguesa chamado “Por Uma Vida Melhor”, que faz a apologia do erro, embora uma das autoras tente negar o óbvio. Demonstrarei a fraude intelectual e técnica em que se sustenta a tese daqui a pouco. Começo este texto pelo óbvio: o nome é péssimo. “Por Uma Vida Melhor” pode ser título de livro de medicina, de religião e de auto-ajuda, mas não de língua. Gabriel Chalita, que me lê com enorme prazer secreto, vai pensar: “Esse nome me pertence”, enquanto escreve seu 437º volume sobre filosofia criativa, depois de mandar mais uma carta fofa para o padre Fábio de Melo, aquele que canta e encanta. Terá certamente uma vida melhor o aluno que dominar o instrumental da norma culta da língua, contra o qual o livro se posiciona abertamente. Assim, esse “instrumento didático” que conta com o endosso do MEC, se algum efeito tiver, será no sentido de piorar a vida do estudante; na melhor das hipóteses, contribui para mantê-lo na ignorância. Onde está a fraude intelectual do negócio? Sim, é um negócio! Abaixo, segue reproduzida uma página do livro em que os autores defendem porque é perfeitamente aceitável dizer e, fica claro!, escrever: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado“. Leiam. Raramente vi uma vigarice intelectual em estado tão puro. Volto em seguida (se a leitura estiver difícil, clique na imagem que ela será ampliada). livro-didatico2 O que vai acima é só uma conversa mole descrevendo por que, para usar a linguagem técnica, o “emissor” conseguiu transmitir uma “mensagem” eficiente. Ocorre que o fenômeno da comunicação e, por conseqüência, da cultura vai, e tem de ir, muito além da simples eficiência. Ora, comunicamo-nos o tempo todo por códigos que não são verbais. Um simples arquear de sobrancelhas diz muito mais, a depender do contexto - como bem sabem todos aqueles que têm filhos adolescentes - do que um discurso articulado em palavras. Nem por isso a escola vai se ocupar agora de decodificar esses sistemas pessoais de comunicação. Uma coisa é explicar por que uma mensagem fora do padrão formal da língua funciona; outra, diferente, é atestar a sua validade como uma variante da língua. Não dá! Português não é inglês, por exemplo. Na nossa língua, os adjetivos têm flexão de gênero e número, e os verbos, de número. Quem dominar com mais eficiência esse instrumental terá vantagens competitivas vida afora. O que esses mestres estão fazendo, sob o pretexto de respeitar o universo do “educando”, como eles dizem, é contribuir para mantê-lo na ignorância. Uma das autoras, Heloisa Ramos, concedeu uma entrevista ao iG e demonstrou que tem talento para humorista involuntária. Ela nega que o livro faça a apologia do erro e afirma: “Esse capítulo é mais de introdução do que de ensino. Para que ensinar o que todo mundo já sabe?” Boa pergunta, minha senhora! Pra que ensinar alguém a falar errado se todo mundo já sabe fazê-lo por conta própria, não é mesmo? Sem contar que o erro, convenham, não tem norma, certo? Cada um fica livre para cometê-lo à sua maneira. Dona Heloísa tenta negar o que seu livro explicita. Acima, nas suas páginas, lê-se com clareza inequívoca: “É importante que o falante de português domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala”. Faço a pergunta de sempre de Didi Mocó? “Cuma???” Ao que Mussum emendaria: “Só no forévis do povo!!!” Bons tempos em que falar errado era norma entre os “Os Trapalhões”! Huuummm… Diga aí, professora: quando é que o erro é mais adequado do que o acerto? A mestra segue com seu talento para o humorismo na conversa com o iG: “Não queremos ensinar errado, mas deixar claro que cada linguagem é adequada para uma situação. Por exemplo, na hora de estar com os colegas, o estudante fala como prefere, mas, quando vai fazer uma apresentação, ele precisa falar com mais formalidade. Só que esse domínio não se dá do dia para a noite, então a escola tem que ter currículo que ensine de forma gradual” . Uau! Entendi a preocupação. Fico cá a imaginar os estudantes se martirizando, na conversa com os colegas, preocupados em empregar a norma culta, muitas vezes ensinada com o brilho que sabemos, tendo como instrumento didático um livro como “Por Uma Vida Melhor”… De resto, como diria a doutora, por que contestar o que ninguém afirmou? Quem é que disse que o domínio da norma culta vai se dar do dia pra noite? Pra que escola? Escola é lugar de formalização do conhecimento, segundo o padrão culto, sim, senhor! Como teria dito o próprio artista, para que se possa pintar como Picasso aos 70 anos, é preciso saber pintar como Rafael aos 5, entenderam? O leitor sabe que este escriba mesmo mescla a tal norma culta ao uso informal e sem gravata da língua. Para que se chegue a ter um estilo, uma escrita pessoal, é preciso que se tenha o domínio do instrumental técnico. Ninguém precisa de professor, minha senhora, para se comunicar de modo eficiente com os seus pares. Fosse assim, os analfabetos morreriam à míngua; fosse assim, Brasil afora, a nação estaria esfaimando. Os professores existem justamente para lembrar que a norma culta existe, que ela é importante, que, à diferença de servir à discriminação, é uma corretora de diferenças e de desigualdades. Nem Paulo Freire… Lá vou eu mexer com uma das divindades brasileiras - como se divindades humanas me constrangessem… Nem Paulo Freire ousou tanto na estupidez militante. Ele foi o criador de um método de alfabetização de adultos que se pretendia revolucionário. A partir do chamado “universo do educando”, de uma palavra que remetesse a um objeto ou realidade que fizesse parte do seu cotidiano, iniciava-se a alfabetização, que corresponderia, na verdade, a um processo de conscientização política que conduziria à libertação. Libertação do quê? De muita coisa, mas basicamente da tirania do capital. Tratava-se um “bobajol” formidável, mas se diga uma coisa ao menos em defesa de Paulo Freire: sempre defendeu o uso da norma culta. Naqueles bons tempos, as esquerdas ao menos acreditavam na alfabetização do povo - para fazer revolução, claro!, mas acreditavam. O neoesquerdismo do miolo mole, na sua fase de apologia do pobrismo, desistiu dessa bobagem. Esses vigaristas intelectuais estão certos de que o povo desenvolveu valores que lhe são próprios, que o distinguem da chamada “cultura da elite”. E deve ser respeitado por isso. A chegada do Apedeuta ao poder, com a sua compulsão de fazer a apologia da ignorância, parece dar razão prática a essa estupidez. Até parece que a complexa equação econômica em que se meteu o petismo, tendo de conservar os fundamentos do governo anterior, foi comandada por prosélitos do analfabetismo. Não foi! Ao contrário! Quem cuidou da operação foram pessoas com sólida formação intelectual. Dona Heloísa, uma deslumbrada com o “povo”, não sabe quão reacionária está sendo; não tem idéia do autoritarismo que está na base de sua teoria. Não quero usar o exemplo pessoal. Mas sei de gente que se livrou da pobreza extrema apenas porque conseguia dominar determinados códigos de uma cultura que não seria própria àquela faixa de renda. Pessoas que desrespeitam os pobres fazem de sua pobreza uma cultura alternativa. Gente decente reconhece o valor intrínseco de certas conquistas - como o domínio da norma culta da língua - e luta para que o acesso a esse código seja um direito de todos. Ouvido, o MEC defendeu a adoção da obra como um dos livros de referência. Alguém aí se surpreendeu? Para encerrar: tentamos saber por que a nossa escola é tão ruim. A vertente esquerdopata-sindical vai acusar a falta de recursos e os baixos salários dos professores. Não ganham bem, mas, dada a realidade brasileira, também não ganham tão pouco. Não importa! Dêem um salário milionário à categoria, e não sairemos do pântano enquanto valores como o que orientam a estupidez acima forem influentes. Um dos fatores que conduziram o ensino brasileiro ao desastre que aí está foi a substituição do conteúdo pelo proselitismo, trabalho conduzido pelas esquerdas “sindicalentas” da educação. Texto publicado originalmente às 19h25 desta sexta Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 22 de março de 2011

Obama, o grande santo, desmoraliza a ONU e o Congresso dos EUA, o que Bush nunca fez!


obama-pra-la-e-pra-caPois é, queridos!
Intuo que uma das coisas que os mantêm ligados ao blog, além do fato de esse ser um ponto de encontro para o diálogo entre vocês, é o fato de o blogueiro jamais passar vontade de dizer o que pensa, sem perguntar a quem está exatamente incomodando — menos ainda com medo de ser mal interpretado. Não ligo para o que pensam a meu respeito. Se eu fizesse a vontade “deles”, seria ou um deles ou seu servo. Não preciso ir a Benghazi ou a Trípoli — e nada contra quem vai, muito pelo contrário — para perceber certos desvãos da lógica, que têm de ser iluminados. (I)modestamente, noto que algumas questões aqui propostas desde sempre sobre a crise da Líbia começam a despertar a curiosidade da imprensa americana — e, em alguns casos, a indignação. Barack Obama, hoje, humilha a ONU e até o Congresso do seu país. Vamos com calma.
Só agora o New York Times se dá ao trabalho de perguntar, numa “análise” de David D. Kirkpatrick, se o que ocorre na Líbia é  uma luta por democracia ou uma guerra civil. O autor, talvez patrulhado pelo politicamente correto, não chega a dar “a” resposta. Mas demonstra com fatos: é uma guerra civil! Acho que vocês leram isso primeiro aqui, não é mesmo? Já disse que uma das minhas tarefas mais caras é revelar… o óbvio!
O autor apela à dúvida decorosa de um acadêmico — essa gente morre de medo de ver o tal óbvio —-, que vem com uma advertência. Indagado se é luta por democracia ou guerra civil, afirma Paul Sullivan, cientista político da Universidade de Georgetown: “É uma questão importante, terrivelmente difícil de responder. Quando Kadafi deixar o poder, podemos ter uma surpresa muito grande ao descobrir com o que estamos lidando”. Sullivan sabe a resposta, claro, mas deve temer que não o considerem um amante da liberdade. Se os dois lados da batalha estão armados de fuzis, tanques, aviões e baterias antiaéreas, é guerra civil!
Kirkpatrick lembra que, a exemplo do governo de Kadafi, também o dos rebeldes é formado por laços familiares e tribais. Assim como a imprensa oficial da Líbia mente, os seus opositores não têm qualquer compromisso com a verdade, reivindicando vitórias inexistentes no campo de batalha, declarando que cidades estão em disputa quando já controladas pelo coronel e, ATENÇÃO!, exagerando enormemente ao acusar o comportamento bárbaro do adversário. TUDO, AQUILO, LEITORES, QUE VOCÊS, CANSARAM DE LER POR AQUI. Ontem, por exemplo, correu o mundo a imagem do funeral de um — sim, de um! — rebelde. Havia protesto e gritaria. Se podem fazer aquela cena ganhar o planeta, por que não espalharam as dos chamados massacres? É inaceitável que a imprensa ocidental, a nossa inclusive, não se coloque essa questão. Kirkpatrick, em suma, está dizendo que os rebeldes mentem um pouquinho…
O autor observa que responder se é luta por democracia ou guerra civil poderia decidir até mesmo o futuro da intervenção das potências ocidentais. Eu diria, discordando um pouco dele, QUE A RESPOSTA DECIDE, NO MÁXIMO, A MORALIDADE DA INTERVENÇÃO. O resultado já está definido. Ou se imagina possível que o coronel resista àquela gigantesca máquina de guerra?
ONU E CONGRESSO DOS EUA
Há dois absurdos em curso. A resolução aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU fala expressamente na proteção a civis, mas prevê que qualquer medida pode ser adotada para garanti-la. Também exige o cessar-fogo e anuncia a implementação da zona de exclusão aérea. Muito bem! As potências acusam Kadafi de mentir e de não respeitar o cessar-fogo. Mas ele não deveria valer para os dois lados? Não! Segundo um assessor de Obama, “rebeldes são civis”. Assim, os aliados estariam apenas “garantindo a sua segurança” quando permitem que avancem contra forças de Kadafi previamente atacadas. ATENÇÃO! NUNCA SE VIU UMA RESOLUÇÃO COMO ESSA!
Voltemos um pouquinho àquele que foi visto como o Grande Satã também pela imprensa ocidental. Bush suou para conseguir a autorização dos congressistas para travar a guerra no Iraque. Obama mandou bombardear a Líbia sem lhes dar a menor pelota. Enviou uma carta depois de iniciado o ataque afirmando que a ação americana será limitada etc e tal e que não haverá envio de tropas terrestres. Ah, bom! Como se ele pudesse também enviar tropas sem prévia autorização! É patético! Afirmar que o que se vê no país é só proteção a civis e implementação da zona de exclusão aérea é uma piada macabra. Aquilo, obviamente, é uma guerra.
A imprensa americana começa a acordar do torpor. A nossa, com as exceções de sempre — deveria escrever “a” exceção? — ainda pisa nos astros distraída.  Críticos contumazes de Bush, aquele que queria ser “policial do planeta”, mostram-se agora engajados no esforço “humanista” de Obama, Sarkozy e Cameron…
Não dá! Eu não lido bem com baguncismo institucional, pouco importa o lugar — na minha casa (sim, há “instituições” aqui), em Dois Córregos, no Brasil, nos EUA ou na ONU. É um bem para a humanidade que Kadafi vá para o quinto dos infernos? É, sim! Mas as instituições não têm de ir junto com ele. E Obama está se mostrando um grande bagunceiro! Muitos achavam que seria temerário ter na Presidência dos EUA um homem tão inexperiente. Era um juízo convencional, conservador. Convencional, conservador e correto!
Por Reinaldo Azevedo

Um pouco de bom senso!


O bom senso começa a chegar aos nossos jornais. Leiam editorial de hoje no Estadão:
Atoleiro na Líbia

Quando o Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas aprovou, na quinta-feira passada, o uso de “todas as medidas necessárias” para deter a matança na Líbia rebelada contra o coronel Muamar Kadafi, esperava-se o que na vida civil se chama processo e, em linguagem militar, escalada. O ponto de partida seria a interdição do espaço aéreo do país, para impedir que o ditador continuasse a usar a aviação para atacar a população das cidades tomadas pelos insurretos. Isso provavelmente incluiria neutralizar as bases de onde poderiam ser alvejadas as aeronaves estrangeiras incumbidas de impor a chamada zona de exclusão sobre o território líbio. A intensidade da ofensiva, a sua duração e os seus desdobramentos dependeriam da reação do regime.
Pelo visto, porém, a coalizão que assumiu a empreitada de conter Kadafi, capitaneada pelos Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, resolveu queimar etapas, antes mesmo de qualquer reação. Já no sábado, 20 caças franceses atacaram as posições do governo nas vizinhanças de Benghazi, a segunda maior cidade líbia e último reduto rebelde, enquanto navios americanos e um submarino britânico disparavam, do alto-mar no Mediterrâneo, mais de 100 mísseis de cruzeiro contra uma vintena de alvos a oeste, incluindo Trípoli. No dia seguinte, o ataque mirou o complexo de construções que abriga o QG de Kadafi, também na capital. As autoridades líbias dizem que chegam a 64 o número das vítimas civis das operações.
Quaisquer que sejam as baixas entre a população do país e o efeito dos ataques sobre o poderio militar do regime, os seus estilhaços políticos se projetaram em várias direções. A Liga Árabe, cujo endosso à resolução anti-Kadafi na ONU foi decisivo para a sua aprovação (o texto foi oficialmente patrocinado pelo Líbano), considerou que os bombardeios deturparam o sentido da iniciativa. “O que aconteceu na Líbia é diferente do objetivo de impor uma zona de exclusão aérea”, observou o secretário-geral da Liga, Amr Moussa. “O que queremos é proteger os civis e não bombardear mais civis.” Essa preocupação foi o que levou o Brasil a se abster no Conselho de Segurança, ao lado da Alemanha, Índia, China e Rússia. O risco, argumentou a chefe da delegação brasileira, Maria Luiza Viotti, é fazer “mais mal do que bem”.
Ela falava da questão humanitária, mas a advertência se aplica à questão essencial na Líbia: a permanência de Kadafi no poder. A rápida propagação do movimento pela sua queda, abrindo mais uma festejada frente democrática no mundo árabe, embaçou a visão do Ocidente para o fato de não ser desprezível o apoio com o qual o ditador ainda conta. As bombas podem ter sido recebidas com euforia por seus inimigos ilhados em Benghazi, mas tendem a reforçar o moral dos muitos que lhe são leais, a ponto de venerá-lo, e de afrouxar a oposição de outros tantos. E não há hipótese de ele próprio renunciar para poupar vidas de concidadãos imersos numa guerra civil ou manter a integridade do país. Seria um erro tratar como meras bravatas a sua ameaça de uma “longa guerra” com o Ocidente e o anúncio de que armará 1 milhão de líbios.
De mais a mais, bombardeios aéreos decidem guerras, mas não ganham guerras. Para isso, nada substitui tropas em terra - eventualidade expressamente excluída na resolução sobre a Líbia. O documento tampouco autoriza a remoção de Kadafi. Mas outra não é a intenção dos seus patrocinadores. Isso vale para o exaltado presidente francês, Nicolas Sarkozy, desejando apagar da memória do mundo não só os negócios recentes com Kadafi, como o seu apoio até a 25.ª hora ao ditador tunisiano, Ben Ali. E vale para o presidente americano, Barack Obama, que relutou em liderar a guerra em curso não porque não queira ver o líbio deposto, mas para poupar os Estados Unidos da ira da rua árabe.
Daí Washington correr a anunciar que, em questão de dias, o comando das operações na Líbia passará para uma coalizão franco-britânica ou para a Otan, a aliança militar ocidental. Isso não fará secar o atoleiro em que os aliados se enfiaram: não podem deixar Kadafi onde está e não podem tirá-lo sem um ataque direto que faria da Líbia um novo - e impensável - Iraque.
Por Reinaldo Azevedo

Ditador do Iêmen com os dias contados; país é ninhal da Al Qaeda


Outro que já era é Ali Abdullah Saleh, do do Iêmen. Eu diria até que já caiu e ainda não percebeu. Ontem, um grupo de militares — três deles da cúpula do Exército — declarou apoio às milhares de pessoas que pedem nas ruas a saída do ditador. Também mudaram de lado os embaixadores no Kuait, Síria, Líbano, Egito e China e seu representante na Liga Árabe. Na sexta, pelo menos 52 pessoas morreram nos conflitos com forças segurança. Depois que os aliados resolveram jogar uma chuva de foguetes contra Kadafi, aconteceu o óbvio, antevisto aqui: houve uma radicalização dos protestos —  e da repressão.
Se o Exército não derrubar Saleh, os EUA, a França e a Grã-Bretanha irão proteger “civis” lá também? A situação desse país preocupa muito! É considerado hoje uma espécie de ninhal da Al Qaeda. E agora, Obama? O Iêmen não merece democracia menos do que os outros países, certo?
Por Reinaldo Azevedo

domingo, 20 de março de 2011

A guerra, o jato e o fato


Estou aqui, como sabem, para dizer o que penso sobre um monte de coisas. Mas não só isso. Também gosto da tarefa que me impus de ser parceiro de vocês no esforço de ler os fatos e de ler as notícias, que são coisas distintas.
Lembrei, num post de ontem, a afirmação do senador americano Hiram Johnson, segundo a qual, na guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. E o fiz num texto em que afirmei que um avião dos rebeldes, derrubado pelas forças de Kadafi, foi mostrado ao mundo como pertencente às forças do coronel e exemplo de que o ditador violava o anunciado cessar-fogo. Como quase todo “o” mundo — literalmente — estava afirmando o contrário, muita gente perguntou: “Tirou a informação de onde?” Antes de responder, assistam ao vídeo.
De onde?
A informação está no The Telegraph, com o depoimento de um líder rebelde atestando que o caça estava sob o controle dos inimigos de Kadafi. A AFP, insuspeita de estar alinhada com o tirano, apurou a mesma coisa, também com declarações de insurgentes, que admitem ter o controle de alguns aviões, só que meio “velhos”.
Kadafi é um assassino desprezível? É! A verdade, ainda que incômoda, deve ser ignorada para que o mundo se livre do abominável? Não! Nunca! Há os fatos, e há as notícias. A Internet está coalhada de imagens sobre a Líbia, às pencas. Muitas delas exibem os rebeldes em triunfo. Imagens de ataque das “forças aliadas” já estão em toda parte. O que justifica a ação é o “massacre” dos civis.
Vocês já notaram que, assim como inexiste um filme com a violação do cessar-fogo, inexistem imagens dos “massacres”? A Al Jazeera, diligente, está em toda parte. Tudo está ao alcance de um simples celular. Cadê? Eu não estou negando que tenham acontecido, não! Eu espero as piores coisas de Kadafi! Quem esperava as melhores era Nicolas Sarkozy, que se elegeu com dinheiro líbio. Eram os ingleses, que libertaram terroristas em troca da bufunfa do maluco. Era Barack Obama, que o tinha como aliado na guerra contra o terror. Eu acho que o facinoroso é capaz de tudo! Mas cadê os massacres? Divulgar as imagens mundo afora é do interesse dos rebeldes.
E só para encerrar: como lembrei aqui há três dias, a imposição da zona de exclusão aérea requer certas precondições: destruir baterias antiaéreas, detonar pistas de pouso, estradas etc. Não se fará isso sem vítimas e sem causar graves danos à infra-estrutura do país. O humanismo globalizante do Arnaldo Jabor e do Clóvis Rossi ficará aquecido, claro!, mas também haverá muitas mortes e a imposição de sacrifício a todos os líbios. E isso está sendo feito num ambiente em que as impotências ocidentais escolheram um dos grupos que protagonizam a guerra civil. É bem provável que o avião rebelde seja “oficializado” como avião de Kadafi. Não pega bem à causa constatar que os insurgentes têm caças…
Ficaremos juntos por muito tempo ainda. Teremos como avaliar a grande obra de Barack Obama no Oriente Médio.
Por Reinaldo Azevedo

Hugo Chávez e Fidel Castro dão a maior força para Obama no ataque à Líbia. Ou: Kadafi chama presidente americano de “meu filho”

Entranhou o título, leitor? Não estranhe, não! Sempre que Chávez e Fidel condenarem alguém, ainda que fosse por bons motivos, isso logo se tornaria uma absolvição antecipada. É exercício da pura lógica. Vejam o que vai na Folha Online:
Rússia e três países latino-americanos condenam bombardeio na Líbia
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, condenou a ofensiva militar ocidental contra a Líbia, acusando os EUA e seus aliados europeus de atacar o país para dividir, posteriormente, o seu petróleo. “Mais mortes, mais guerra. Eles são especialistas em guerra”, disse Chávez. “Que irresponsabilidade. E, por trás disso, encontramos as mãos dos EUA e dos aliados europeus”. O cubano Fidel Castro, um dos principais aliados de Chávez, manifestou preocupação similar em sua coluna escrita antes dos primeiros bombardeios. O presidente da Bolívia, Evo Morales, adotou a mesma linha ao acusar as potências mundiais de estarem com um olho voltado para as reservas de petróleo do país localizado no norte da África.
“Eles querem dividir o petróleo líbio. As vidas do povo líbio não importam para eles”, continuou. “É lamentável que, mais uma vez, a política voltada para a guerra do império ianque e dos seus aliados seja imposta, e que as Nações Unidas manifestem apoio à guerra, o que infringe seus princípios fundamentais, em vez de formar uma comissão que atue na Líbia”.
A Rússia lamentou a “intervenção armada estrangeira na Líbia” em um comunicado do porta-voz do ministério russo das Relações Exteriores, Alexandre Loukachevitch. “Moscou lamenta esta intervenção armada efetuada com base na resolução 1973 da ONU adotada apressadamente”, disse o porta-voz ao pedir um “cessar-fogo o mais rápido possível”. “Estamos convencidos de que, para solucionar de maneira estável o conflito interno na Líbia (…), é preciso deter rapidamente o derramamento de sangue e promover o diálogo entre os líbios”.
MENSAGEM
O ditador líbio, Muamar Kadafi, enviou mensagens, neste sábado, pouco antes do começo da operação militar apoiada pela ONU, para os principais líderes dos países envolvidos nos bombardeios ao seu país. Kadafi chama o presidente dos EUA, Barack Obama, de “filho” em vários momentos da carta, além de dizer que, apesar da guerra, “continuará amando” Obama.
Leia abaixo o conteúdo:
Para o nosso filho, o honrado presidente Barack Hussein Obama,
Como eu disse antes, até mesmo se, que Deus proíba, existir uma guerra entre Líbia e América, você permaneceria meu filho, e eu, ainda assim, continuaria amando você. Eu não quero mudar a imagem que tenho de você. Todo o povo líbio está comigo, pronto para morrer, até mesmo as mulheres e as crianças. Estamos lutando contra a Al Qaeda. Lutando contra o que eles chamam de Magreb Islâmico. É um grupo armado que está lutando da Líbia à Mauritânia, passando por Argélia e Mali… Se você encontrasse esse grupo lutando pelo controle de cidades americanas através do uso de armas, o que você faria?
Por Reinaldo Azevedo

sábado, 19 de março de 2011

Leia íntegra do discurso de Obama no Palácio do Planalto


“Obrigado, senhora Presidente, pelas gentis palavras. Muito obrigado a vocês e ao povo brasileiro pela calorosa recepção e pela famosa hospitalidade brasileira com que vocês receberam Michelle, a mim e nossas filhas. ‘Muito obrigado’.
Em nossa reunião hoje, mencionei que esta é minha primeira visita à América do Sul e o Brasil é minha primeira parada, e não por acaso. A amizade entre os povos americano e brasileiro já soma mais de dois séculos. Nossos empreendedores e empresários inovam juntos, nossos cientistas e pesquisadores estão criando novas vacinas, juntos nossos alunos e professores exploram novos horizontes. Todos os dias trabalhamos para tornar nossas sociedades mais inclusivas e mais justas.
O crescimento extraordinário do Brasil, senhora Presidente, atrai a atenção do mundo todo. Graças ao sacrifício de pessoas como a presidente Dilma Roussef, o Brasil saiu da ditadura para a democracia, é uma das economias que mais crescem no mundo, tirando milhões da pobreza e levando-os à classe média. Hoje os EUA e o Brasil são as duas maiores democracias do hemisfério e as duas maiores economias. O Brasil, líder regional que promove uma cooperação maior entre todas as Américas e o Brasil é, cada vez mais, um líder mundial, passando de receptor de ajuda externa para doador, reivindicando um mundo sem armas nucleares e estando sempre adiante dos esforços globais para lutar contra a mudança climática. Como presidente, eu sempre promovo o compromisso baseado em respeito mútuo e interesses mútuos e uma parte fundamental desse compromisso é promover uma cooperação maior com centros de influência do século XXI, incluindo o Brasil. Em suma, os EUA não apenas reconhecem o crescimento do Brasil, mas apóiam esse crescimento com entusiasmo. Por isso criamos o G20, o principal fórum de cooperação econômica mundial, para ter certeza de que países como o Brasil terão mais voz ativa. Por isso aumentamos a cota de votação do Brasil e o seu papel nas instituições financeiras internacionais. Por isso que eu vim ao Brasil hoje.
A presidente Roussef e eu acreditamos que esta visita seja uma oportunidade histórica para colocar os EUA e o Brasil na rota de uma cooperação ainda maior nas décadas vindouras. Hoje estamos começando a aproveitar esta oportunidade. Senhora Presidente, gostaria de agradecê-la pelo seu compromisso pessoal em fortalecer as alianças entre as nossas duas nações. Estamos ampliando o comércio e os investimentos, criando empregos nos nossos dois países. O Brasil é um dos nossos principais parceiros comercias, mas ainda há muito que podemos fazer.
Mais tarde hoje, a presidente e eu vamos nos reunir com líderes de negócios dos nossos dois países, vamos ouvir e decidir quais serão as etapas concretas que vão expandir nossas relações econômicas. Vamos anunciar uma série de novos acordos, inclusive um diálogo financeiro e econômico que venha promover relações comerciais, expandir a colaboração na área de ciência e tecnologia e à medida que o Brasil se prepara para receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas e, ainda me magoa tocar neste assunto, estamos assegurando que as empresas americanas terão um papel entre os projetos de infraestrutura necessários para essas competições. Estamos criando um novo diálogo estratégico sobre energia para garantir que as cúpulas dos nossos governos estão trabalhando conjuntamente para aproveitar novas oportunidades, em particular, como as novas descobertas de petróleo no Brasil, como disse a presidente Roussef, o Brasil quer ser um grande fornecedor de novas fontes estáveis de energia e eu falei para ela que os EUA também querem ser um grande cliente dessas fontes, o que traria benefícios para ambos os países.
Ao mesmo tempo, estamos expandindo nossa parceria em energia limpa, fundamental para nossa segurança em energia em longo prazo. Como líder na área de energia renovável, como biodiesel, e como parte da parceria de energia e clima entre as Américas que proponho, o Brasil está compartilhando seu conhecimento na região e no mundo. Esse novo diálogo de economia verde que estamos criando hoje aumenta ainda mais nossa cooperação construindo prédios “verdes” e desenvolvimento sustentável. Na área de segurança, nossos exércitos trabalham com proximidade ainda maior para lidar com crises humanitárias, como fizemos no Haiti. Nossas polícias trabalham em conjunto contra os narcotraficantes que ameaçam a todos nós, o Brasil se aliou ao esforço internacional para evitar o contrabando de armas nucleares por seus portos. Agradeço à presidente Roussef pela liderança do Brasil em criar um centro regional de promoção de excelência na área de segurança nuclear. Como membro do conselho de direitos humanos, o Brasil se juntou a nós na condenação aos abusos aos direitos humanos realizados pela Líbia. Gostaria de rapidamente mencionar a situação na Líbia porque conversei sobre isso com a presidente. Ontem a comunidade internacional exigiu um cessar fogo imediato na Líbia, inclusive um fim a todos os ataques contra civis, e hoje a secretária Clinton se reuniu com uma coalizão internacional com nossos parceiros árabes e europeus em Paris para discutir como aplicar a resolução do conselho de segurança criada pela ONU em 1973. Houve um consenso coeso e a conclusão foi clara: o povo da Líbia deve ser protegido e se não for colocado um fim imediato à violência contra civis, nossa coalizão está preparada para entrar em ação, e agirá com urgência. Conversei com a presidente Roussef sobre os passos que estão sendo tomados nesse sentido.
Finalmente, estou especialmente satisfeito pelo Brasil e os EUA estarem juntos em criar uma governança democrática para além de nossos hemisférios. O Brasil está ajudando a liderar a iniciativa global que anunciei nas Nações Unidas de promover governos abertos e novas tecnologias que capacitem os cidadãos no mundo todo. Hoje estamos lançando novos esforços para ajudar outros países a combater a corrupção e o trabalho infantil. Estamos expandindo nossos esforços para aumentar a segurança alimentar nesse movimento de desenvolvimento da agricultura na África. Acredito que este seja apenas o começo do que os dois países podem fazer juntos em todo o mundo. Por isso, os EUA continuarão se esforçando para ter certeza de que as novas realidades do século XXI serão refletidas nas instituições internacionais, como disse a senhora Presidente, incluindo as Nações Unidas onde o Brasil aspira a um assento permanente no conselho de segurança. Como falei à presidente Roussef, os EUA continuarão a trabalhar tanto com o Brasil quanto com outras nações nas reformas que vão tornar o conselho de segurança mais eficaz, eficiente e representativo para poder levar adiante nossas visões compartilhadas de um mundo mais seguro e pacífico.
Mais uma vez, com os resultados de hoje, criamos uma base para uma cooperação maior entre EUA e Brasil nas décadas vindouras. Gostaria de agradecer a presidente Roussef por sua liderança, por tornar este progresso possível. Não conheço a senhora Presidente há muito tempo, mas noto a paixão extraordinária no sentido de oferecer a oportunidade a todo povo brasileiro para que todos possam progredir e essa é uma paixão que compartilho com a senhora Presidente e aqui representando os cidadãos americanos também. Portanto, tenho certeza de que, dado esse espírito que compartilhamos, essa amizade que existe não apenas no âmbito governamental mas entre os nossos povos, que vamos continuar a progredir no futuro e aguardo ansiosamente minha passagem pelo Rio amanhã, onde terei a oportunidade de me dirigir diretamente ao povo brasileiro sobre o que nossos países podem fazer conjuntamente como parceiros globais no século XXI.
Muito obrigado.”
Por Reinaldo Azevedo

Leia íntegra do Discurso de Dilma no Palácio do Planalto



“Excelentíssimo senhor Barack Obama, presidente dos Estados Unidos da América,
Senhoras e senhores integrantes das delegações dos Estados Unidos da América e do Brasil,
Senhoras e senhores jornalistas,
Senhoras e senhores,
Senhor presidente Obama,
A sua visita ao meu país me enche de alegria, desperta os melhores sentimentos de nosso povo e honra a histórica relação entre o Brasil e os Estados Unidos. Carrega também um forte valor simbólico.
Os povos de nossos países ergueram as duas maiores democracias das Américas. Ousaram também levar aos seus mais altos postos um afrodescendente e uma mulher,  demonstrando que o alicerce da democracia permite o rompimento das maiores barreiras para a construção de sociedades mais generosas e harmônicas.
Aqui, senhor presidente Obama, sucedo a um homem do povo, meu querido companheiro Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a honra de trabalhar. Seu legado mais nobre, Presidente, foi trazer à cena política e social milhões de homens e mulheres que viviam à margem dos mais elementares direitos de cidadania.
Dos nove chefes de Estado norte-americanos que visitaram oficialmente o Brasil, o senhor é aquele que encontra o nosso país em um momento mais vibrante.
A combinação de uma política econômica séria com fundamentos sólidos e uma estratégia consistente de inclusão fez do nosso país um dos mais dinâmicos mercados do mundo. Fortalecemos o conteúdo renovável da nossa matriz energética e avançamos em políticas ambientais protetoras de nossas importantes reservas florestais e de nossa rica biodiversidade.
Todo esse esforço, presidente Obama, criou milhões de empregos e dinamizou regiões inteiras antes marginalizadas do processo econômico. Permitiu ao Brasil superar, com êxito, a mais profunda crise econômica da história recente, mantendo, até os dias atuais, níveis recordes de geração de postos de trabalho.
Mas são ainda enormes os nossos desafios. Meu governo, neste momento, se concentra nas tarefas necessárias para aperfeiçoar nosso processo de crescimento e garantir um longo período de prosperidade para o nosso povo.
Meu compromisso essencial é com a construção de uma sociedade de renda média, assegurando oportunidades educacionais e profissionais para os trabalhadores e para a nossa imensa juventude, garantindo também um ambiente institucional que impulsione o empreendedorismo e favoreça o investimento produtivo.
O meu governo trabalhará com dedicação para superar as deficiências de infraestrutura, e não pouparemos esforços para consolidar nossa energia limpa, ativo fundamental do Brasil.
Enfim, daremos os passos necessários para alcançar nosso lugar entre as nações com desenvolvimento pleno, forte democracia e ampla justiça social.
É aqui, senhor presidente Obama, que enxergo as melhores oportunidades para o avanço das relações entre nossos países. Acompanho com atenção e a melhor expectativa seus enormes esforços para recuperar a vitalidade da economia americana.
Temos assim, como o mundo todo, uma única certeza: a de que o povo americano, sob a sua liderança, saberá encontrar os melhores caminhos para o futuro dessa grande nação.
A gentileza da sua visita, logo no início do meu governo, e o longo histórico de amizade entre nossos povos me permitem avançar sobre dois temas que considero centrais nas futuras parcerias que fizermos: a educação e a inovação.
Aproximar e avançar em nossas experiências educacionais, ampliando nosso intercâmbio e construindo progresso em todas as áreas do conhecimento é uma questão chave para o futuro dos nossos países.
Na pesquisa e inovação, os Estados Unidos alcançaram as mais extraordinárias conquistas nas últimas décadas, favorecendo a produtividade em diferentes setores econômicos. O Brasil, senhor presidente Obama, está na fronteira tecnológica em algumas importantes áreas, como a genética, a biotecnologia, as fontes renováveis de energia e a exploração do petróleo em águas profundas.
Combinar as nossas mais avançadas capacidades no campo da pesquisa e da inovação certamente trará os melhores frutos para as nossas sociedades. Tomo como exemplo o pré-sal, a mais recente fronteira alcançada pela tecnologia brasileira. Acreditamos que os enormes desafios de cada etapa da exploração dessas riquezas poderão reunir uma inédita conjunção do conhecimento acumulado pelos nossos melhores centros de pesquisa.
Mas, senhor Presidente, se queremos construir uma relação de maior profundidade é preciso também, com a mesma franqueza, tratar de nossas contradições.
Preocupam-me em especial os efeitos agudos decorrentes dos desequilíbrios econômicos gerados pela crise recente. Compreendemos o contexto do esforço empreendido por seu governo para a retomada da economia americana, algo tão importante para o mundo. Porém, todos sabem que medidas de grande vulto provocam mudanças importantes nas relações entre as moedas de todo o mundo. Este processo desgasta as boas práticas econômicas e empurra países para ações protecionistas e defensivas de toda natureza.
Somos um país que se esforça por sair de anos de baixo desenvolvimento, por isso buscamos relações comerciais mais justas e equilibradas. Para nós é fundamental que sejam rompidas as barreiras que se erguem contra nossos produtos –etanol, carne bovina, algodão, suco de laranja, aço, por exemplo. Para nós é fundamental que se alarguem as parcerias tecnológicas e educacionais, portadoras de futuro.
Preocupa-me igualmente a lentidão das reformas nas instituições multilaterais que ainda refletem um mundo antigo. Trabalhamos incansavelmente pela reforma na governança do Banco Mundial e do FMI. Isso foi feito pelos Estados Unidos e pelo Brasil, em conjunto com outros países. E saudamos o início das mudanças empreendidas nestas instituições, embora ainda que limitadas e tardias, quando olhada a crise econômica. Temos propugnado por uma reforma fundamental no desenho da governança global: a ampliação do Conselho de Segurança da ONU.
Aqui, senhor Presidente, não nos move o interesse menor da ocupação burocrática de espaços de representação. O que nos mobiliza é a certeza que um mundo mais multilateral produzirá benefícios para a paz e a harmonia entre os povos.
Mais ainda, senhor Presidente, nos interessa aprender com os nossos próprios erros. Foi preciso uma gravíssima crise econômica para mover o conservadorismo que bloqueava a reforma das instituições financeiras. No caso da reforma da ONU, temos a oportunidade de nos antecipar.
Este país, o Brasil, tem compromisso com a paz, com a democracia, com o consenso. Esse compromisso não é algo conjuntural, mas é integrante dos nossos valores: tolerância, diálogo, flexibilidade. É princípio inscrito na nossa Constituição, na nossa história, na própria natureza do povo brasileiro. Temos orgulho de viver em paz com os nossos dez vizinhos há mais de um século, agora.
Há uma semana, senhor Presidente, entrou em vigor o Tratado Constitutivo da Unasul, que deverá reforçar ainda mais a unidade no nosso continente. O Brasil está empenhado na consolidação de um entorno de paz, segurança, democracia, cooperação e crescimento com justiça social. Neste ambiente é que deve frutificar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos.
Senhor Presidente, quero dizer-lhe que vejo com muito otimismo nosso futuro comum.
No passado, esse relacionamento esteve muitas vezes encoberto por uma retórica vazia, que eludia o que estava verdadeiramente em jogo entre nós, entre Estados Unidos e Brasil.
Uma aliança entre os nossos dois países –sobretudo se ela se pretende estratégica– é uma construção. Uma construção comum, aliás, como o senhor mesmo disse no seu pronunciamento sobre o Estado da Nação.
Mas ela tem de ser uma construção entre iguais, por mais distintos que sejam esses países em território, população, capacidade produtiva ou poderio militar.
Somos países de dimensões continentais, que trilham o caminho da democracia. Somos multiétnicos e em nossos territórios convivem distintas e ricas culturas. Cada um, a sua maneira, temos o que um poeta brasileiro chamou de “sentimento do mundo”.
Sua presença no Brasil, senhor Presidente, será de enorme valia nessa construção que queremos juntos realizar.
Uma vez mais, presidente Obama, bem-vindo ao Brasil.”
Por Reinaldo Azevedo