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sábado, 19 de março de 2011

Leia íntegra do discurso de Obama no Palácio do Planalto


“Obrigado, senhora Presidente, pelas gentis palavras. Muito obrigado a vocês e ao povo brasileiro pela calorosa recepção e pela famosa hospitalidade brasileira com que vocês receberam Michelle, a mim e nossas filhas. ‘Muito obrigado’.
Em nossa reunião hoje, mencionei que esta é minha primeira visita à América do Sul e o Brasil é minha primeira parada, e não por acaso. A amizade entre os povos americano e brasileiro já soma mais de dois séculos. Nossos empreendedores e empresários inovam juntos, nossos cientistas e pesquisadores estão criando novas vacinas, juntos nossos alunos e professores exploram novos horizontes. Todos os dias trabalhamos para tornar nossas sociedades mais inclusivas e mais justas.
O crescimento extraordinário do Brasil, senhora Presidente, atrai a atenção do mundo todo. Graças ao sacrifício de pessoas como a presidente Dilma Roussef, o Brasil saiu da ditadura para a democracia, é uma das economias que mais crescem no mundo, tirando milhões da pobreza e levando-os à classe média. Hoje os EUA e o Brasil são as duas maiores democracias do hemisfério e as duas maiores economias. O Brasil, líder regional que promove uma cooperação maior entre todas as Américas e o Brasil é, cada vez mais, um líder mundial, passando de receptor de ajuda externa para doador, reivindicando um mundo sem armas nucleares e estando sempre adiante dos esforços globais para lutar contra a mudança climática. Como presidente, eu sempre promovo o compromisso baseado em respeito mútuo e interesses mútuos e uma parte fundamental desse compromisso é promover uma cooperação maior com centros de influência do século XXI, incluindo o Brasil. Em suma, os EUA não apenas reconhecem o crescimento do Brasil, mas apóiam esse crescimento com entusiasmo. Por isso criamos o G20, o principal fórum de cooperação econômica mundial, para ter certeza de que países como o Brasil terão mais voz ativa. Por isso aumentamos a cota de votação do Brasil e o seu papel nas instituições financeiras internacionais. Por isso que eu vim ao Brasil hoje.
A presidente Roussef e eu acreditamos que esta visita seja uma oportunidade histórica para colocar os EUA e o Brasil na rota de uma cooperação ainda maior nas décadas vindouras. Hoje estamos começando a aproveitar esta oportunidade. Senhora Presidente, gostaria de agradecê-la pelo seu compromisso pessoal em fortalecer as alianças entre as nossas duas nações. Estamos ampliando o comércio e os investimentos, criando empregos nos nossos dois países. O Brasil é um dos nossos principais parceiros comercias, mas ainda há muito que podemos fazer.
Mais tarde hoje, a presidente e eu vamos nos reunir com líderes de negócios dos nossos dois países, vamos ouvir e decidir quais serão as etapas concretas que vão expandir nossas relações econômicas. Vamos anunciar uma série de novos acordos, inclusive um diálogo financeiro e econômico que venha promover relações comerciais, expandir a colaboração na área de ciência e tecnologia e à medida que o Brasil se prepara para receber a Copa do Mundo e as Olimpíadas e, ainda me magoa tocar neste assunto, estamos assegurando que as empresas americanas terão um papel entre os projetos de infraestrutura necessários para essas competições. Estamos criando um novo diálogo estratégico sobre energia para garantir que as cúpulas dos nossos governos estão trabalhando conjuntamente para aproveitar novas oportunidades, em particular, como as novas descobertas de petróleo no Brasil, como disse a presidente Roussef, o Brasil quer ser um grande fornecedor de novas fontes estáveis de energia e eu falei para ela que os EUA também querem ser um grande cliente dessas fontes, o que traria benefícios para ambos os países.
Ao mesmo tempo, estamos expandindo nossa parceria em energia limpa, fundamental para nossa segurança em energia em longo prazo. Como líder na área de energia renovável, como biodiesel, e como parte da parceria de energia e clima entre as Américas que proponho, o Brasil está compartilhando seu conhecimento na região e no mundo. Esse novo diálogo de economia verde que estamos criando hoje aumenta ainda mais nossa cooperação construindo prédios “verdes” e desenvolvimento sustentável. Na área de segurança, nossos exércitos trabalham com proximidade ainda maior para lidar com crises humanitárias, como fizemos no Haiti. Nossas polícias trabalham em conjunto contra os narcotraficantes que ameaçam a todos nós, o Brasil se aliou ao esforço internacional para evitar o contrabando de armas nucleares por seus portos. Agradeço à presidente Roussef pela liderança do Brasil em criar um centro regional de promoção de excelência na área de segurança nuclear. Como membro do conselho de direitos humanos, o Brasil se juntou a nós na condenação aos abusos aos direitos humanos realizados pela Líbia. Gostaria de rapidamente mencionar a situação na Líbia porque conversei sobre isso com a presidente. Ontem a comunidade internacional exigiu um cessar fogo imediato na Líbia, inclusive um fim a todos os ataques contra civis, e hoje a secretária Clinton se reuniu com uma coalizão internacional com nossos parceiros árabes e europeus em Paris para discutir como aplicar a resolução do conselho de segurança criada pela ONU em 1973. Houve um consenso coeso e a conclusão foi clara: o povo da Líbia deve ser protegido e se não for colocado um fim imediato à violência contra civis, nossa coalizão está preparada para entrar em ação, e agirá com urgência. Conversei com a presidente Roussef sobre os passos que estão sendo tomados nesse sentido.
Finalmente, estou especialmente satisfeito pelo Brasil e os EUA estarem juntos em criar uma governança democrática para além de nossos hemisférios. O Brasil está ajudando a liderar a iniciativa global que anunciei nas Nações Unidas de promover governos abertos e novas tecnologias que capacitem os cidadãos no mundo todo. Hoje estamos lançando novos esforços para ajudar outros países a combater a corrupção e o trabalho infantil. Estamos expandindo nossos esforços para aumentar a segurança alimentar nesse movimento de desenvolvimento da agricultura na África. Acredito que este seja apenas o começo do que os dois países podem fazer juntos em todo o mundo. Por isso, os EUA continuarão se esforçando para ter certeza de que as novas realidades do século XXI serão refletidas nas instituições internacionais, como disse a senhora Presidente, incluindo as Nações Unidas onde o Brasil aspira a um assento permanente no conselho de segurança. Como falei à presidente Roussef, os EUA continuarão a trabalhar tanto com o Brasil quanto com outras nações nas reformas que vão tornar o conselho de segurança mais eficaz, eficiente e representativo para poder levar adiante nossas visões compartilhadas de um mundo mais seguro e pacífico.
Mais uma vez, com os resultados de hoje, criamos uma base para uma cooperação maior entre EUA e Brasil nas décadas vindouras. Gostaria de agradecer a presidente Roussef por sua liderança, por tornar este progresso possível. Não conheço a senhora Presidente há muito tempo, mas noto a paixão extraordinária no sentido de oferecer a oportunidade a todo povo brasileiro para que todos possam progredir e essa é uma paixão que compartilho com a senhora Presidente e aqui representando os cidadãos americanos também. Portanto, tenho certeza de que, dado esse espírito que compartilhamos, essa amizade que existe não apenas no âmbito governamental mas entre os nossos povos, que vamos continuar a progredir no futuro e aguardo ansiosamente minha passagem pelo Rio amanhã, onde terei a oportunidade de me dirigir diretamente ao povo brasileiro sobre o que nossos países podem fazer conjuntamente como parceiros globais no século XXI.
Muito obrigado.”
Por Reinaldo Azevedo

Leia íntegra do Discurso de Dilma no Palácio do Planalto



“Excelentíssimo senhor Barack Obama, presidente dos Estados Unidos da América,
Senhoras e senhores integrantes das delegações dos Estados Unidos da América e do Brasil,
Senhoras e senhores jornalistas,
Senhoras e senhores,
Senhor presidente Obama,
A sua visita ao meu país me enche de alegria, desperta os melhores sentimentos de nosso povo e honra a histórica relação entre o Brasil e os Estados Unidos. Carrega também um forte valor simbólico.
Os povos de nossos países ergueram as duas maiores democracias das Américas. Ousaram também levar aos seus mais altos postos um afrodescendente e uma mulher,  demonstrando que o alicerce da democracia permite o rompimento das maiores barreiras para a construção de sociedades mais generosas e harmônicas.
Aqui, senhor presidente Obama, sucedo a um homem do povo, meu querido companheiro Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a honra de trabalhar. Seu legado mais nobre, Presidente, foi trazer à cena política e social milhões de homens e mulheres que viviam à margem dos mais elementares direitos de cidadania.
Dos nove chefes de Estado norte-americanos que visitaram oficialmente o Brasil, o senhor é aquele que encontra o nosso país em um momento mais vibrante.
A combinação de uma política econômica séria com fundamentos sólidos e uma estratégia consistente de inclusão fez do nosso país um dos mais dinâmicos mercados do mundo. Fortalecemos o conteúdo renovável da nossa matriz energética e avançamos em políticas ambientais protetoras de nossas importantes reservas florestais e de nossa rica biodiversidade.
Todo esse esforço, presidente Obama, criou milhões de empregos e dinamizou regiões inteiras antes marginalizadas do processo econômico. Permitiu ao Brasil superar, com êxito, a mais profunda crise econômica da história recente, mantendo, até os dias atuais, níveis recordes de geração de postos de trabalho.
Mas são ainda enormes os nossos desafios. Meu governo, neste momento, se concentra nas tarefas necessárias para aperfeiçoar nosso processo de crescimento e garantir um longo período de prosperidade para o nosso povo.
Meu compromisso essencial é com a construção de uma sociedade de renda média, assegurando oportunidades educacionais e profissionais para os trabalhadores e para a nossa imensa juventude, garantindo também um ambiente institucional que impulsione o empreendedorismo e favoreça o investimento produtivo.
O meu governo trabalhará com dedicação para superar as deficiências de infraestrutura, e não pouparemos esforços para consolidar nossa energia limpa, ativo fundamental do Brasil.
Enfim, daremos os passos necessários para alcançar nosso lugar entre as nações com desenvolvimento pleno, forte democracia e ampla justiça social.
É aqui, senhor presidente Obama, que enxergo as melhores oportunidades para o avanço das relações entre nossos países. Acompanho com atenção e a melhor expectativa seus enormes esforços para recuperar a vitalidade da economia americana.
Temos assim, como o mundo todo, uma única certeza: a de que o povo americano, sob a sua liderança, saberá encontrar os melhores caminhos para o futuro dessa grande nação.
A gentileza da sua visita, logo no início do meu governo, e o longo histórico de amizade entre nossos povos me permitem avançar sobre dois temas que considero centrais nas futuras parcerias que fizermos: a educação e a inovação.
Aproximar e avançar em nossas experiências educacionais, ampliando nosso intercâmbio e construindo progresso em todas as áreas do conhecimento é uma questão chave para o futuro dos nossos países.
Na pesquisa e inovação, os Estados Unidos alcançaram as mais extraordinárias conquistas nas últimas décadas, favorecendo a produtividade em diferentes setores econômicos. O Brasil, senhor presidente Obama, está na fronteira tecnológica em algumas importantes áreas, como a genética, a biotecnologia, as fontes renováveis de energia e a exploração do petróleo em águas profundas.
Combinar as nossas mais avançadas capacidades no campo da pesquisa e da inovação certamente trará os melhores frutos para as nossas sociedades. Tomo como exemplo o pré-sal, a mais recente fronteira alcançada pela tecnologia brasileira. Acreditamos que os enormes desafios de cada etapa da exploração dessas riquezas poderão reunir uma inédita conjunção do conhecimento acumulado pelos nossos melhores centros de pesquisa.
Mas, senhor Presidente, se queremos construir uma relação de maior profundidade é preciso também, com a mesma franqueza, tratar de nossas contradições.
Preocupam-me em especial os efeitos agudos decorrentes dos desequilíbrios econômicos gerados pela crise recente. Compreendemos o contexto do esforço empreendido por seu governo para a retomada da economia americana, algo tão importante para o mundo. Porém, todos sabem que medidas de grande vulto provocam mudanças importantes nas relações entre as moedas de todo o mundo. Este processo desgasta as boas práticas econômicas e empurra países para ações protecionistas e defensivas de toda natureza.
Somos um país que se esforça por sair de anos de baixo desenvolvimento, por isso buscamos relações comerciais mais justas e equilibradas. Para nós é fundamental que sejam rompidas as barreiras que se erguem contra nossos produtos –etanol, carne bovina, algodão, suco de laranja, aço, por exemplo. Para nós é fundamental que se alarguem as parcerias tecnológicas e educacionais, portadoras de futuro.
Preocupa-me igualmente a lentidão das reformas nas instituições multilaterais que ainda refletem um mundo antigo. Trabalhamos incansavelmente pela reforma na governança do Banco Mundial e do FMI. Isso foi feito pelos Estados Unidos e pelo Brasil, em conjunto com outros países. E saudamos o início das mudanças empreendidas nestas instituições, embora ainda que limitadas e tardias, quando olhada a crise econômica. Temos propugnado por uma reforma fundamental no desenho da governança global: a ampliação do Conselho de Segurança da ONU.
Aqui, senhor Presidente, não nos move o interesse menor da ocupação burocrática de espaços de representação. O que nos mobiliza é a certeza que um mundo mais multilateral produzirá benefícios para a paz e a harmonia entre os povos.
Mais ainda, senhor Presidente, nos interessa aprender com os nossos próprios erros. Foi preciso uma gravíssima crise econômica para mover o conservadorismo que bloqueava a reforma das instituições financeiras. No caso da reforma da ONU, temos a oportunidade de nos antecipar.
Este país, o Brasil, tem compromisso com a paz, com a democracia, com o consenso. Esse compromisso não é algo conjuntural, mas é integrante dos nossos valores: tolerância, diálogo, flexibilidade. É princípio inscrito na nossa Constituição, na nossa história, na própria natureza do povo brasileiro. Temos orgulho de viver em paz com os nossos dez vizinhos há mais de um século, agora.
Há uma semana, senhor Presidente, entrou em vigor o Tratado Constitutivo da Unasul, que deverá reforçar ainda mais a unidade no nosso continente. O Brasil está empenhado na consolidação de um entorno de paz, segurança, democracia, cooperação e crescimento com justiça social. Neste ambiente é que deve frutificar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos.
Senhor Presidente, quero dizer-lhe que vejo com muito otimismo nosso futuro comum.
No passado, esse relacionamento esteve muitas vezes encoberto por uma retórica vazia, que eludia o que estava verdadeiramente em jogo entre nós, entre Estados Unidos e Brasil.
Uma aliança entre os nossos dois países –sobretudo se ela se pretende estratégica– é uma construção. Uma construção comum, aliás, como o senhor mesmo disse no seu pronunciamento sobre o Estado da Nação.
Mas ela tem de ser uma construção entre iguais, por mais distintos que sejam esses países em território, população, capacidade produtiva ou poderio militar.
Somos países de dimensões continentais, que trilham o caminho da democracia. Somos multiétnicos e em nossos territórios convivem distintas e ricas culturas. Cada um, a sua maneira, temos o que um poeta brasileiro chamou de “sentimento do mundo”.
Sua presença no Brasil, senhor Presidente, será de enorme valia nessa construção que queremos juntos realizar.
Uma vez mais, presidente Obama, bem-vindo ao Brasil.”
Por Reinaldo Azevedo

terça-feira, 15 de março de 2011

Kadafi avança sobre nova cidade controlada por rebeldes. E as impotências ocidentais?


As tropas de Muamar Kadafi avançam para o Leste. Conforme o previsto, a cidade de Ajdabiya, a 160 km de Benghazi, centro da resistência armada, está sendo alvo de ataques aéreos. O general rebelde Mohamed Abdel-Rahim voltou a pedir à comunidade internacional que forneça armas aos rebeldes, o que foi descartado hoje pelo chanceler britânico, William Hague, em entrevista à BBC. Quem não fornece armamento estaria disposto a intervir militarmente no país?
Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, está em Paris e se encontra hoje com líderes europeus para tratar da crise. Representantes da oposição armada líbia estarão presentes. O governo de Nicolas Sarkozy reconhece o Conselho de Governo Interino como o legítimo governo do país. Muito bem! Kadafi dispõe de armas, dinheiro e tropas leais — apostava-se que não — que lhe permitem esmagar a insurreição. Se chegar a Benghazi, a expectativa é que haja um banho de sangue. Está ganhando terreno dia a dia.
Volto a indagar: que diabo de papel é este que está sendo desempenhado pelos patetas do Ocidente? Kadafi é um facínora? Nem me digam! Há mais de 40 anos! Mas tinha sido reabilitado por esses mesmos que se apressaram em dar apoio a um desconhecido movimento armado contra o regime. Estamos diante de uma questão que também é de método: cabe aos governos ocidentais, em nome da democracia — ou de algum outro valor qualquer —, escolher com qual força armada dialogam?
O conflito líbio, especialmente em razão do apoio nada velado dos líderes ocidentais aos insurrectos, evoluiu vertiginosamente para uma guerra civil. A depender dos desdobramentos, o que dirá Sarkozy? “Não falo com vitoriosos”???
Há um quê de surrealismo nessa coisa toda. Barack Obama, Nicolas Sarkozy e David Cameron resolveram se colocar ao lado da arena, torcendo para um dos contendores, insuflando-o para a batalha. Qual foi a aposta? Que a elite militar líbia resolvesse fazer com Kadafi o que a elite militar egípcia fez com Mubarak. Não aconteceu.
E agora? Um vagabundo como Kadafi conseguiu dar um nó nos brilhantes estrategistas das impotências ocidentais…
Por Reinaldo Azevedo

domingo, 13 de março de 2011

“O custo da liderança atrofiada dos EUA será pior para o mundo que para os próprios EUA”


Por Denise Chrispim Marin, no Estadão:
Sob o peso de uma dívida pública de US$ 14 trilhões (…), os EUA não serão mais a mesma superpotência das sete décadas passadas. As ações militares e diplomáticas diminuirão, por resistência dos contribuintes americanos em pagar a conta. Regiões que precisam de apoio direto de Washington para construir suas instituições - da Líbia ao Haiti, do Afeganistão ao Iraque - mergulharão na “desordem”.
A previsão sombria é de Michael Mandelbaum, professor de política externa americana da Universidade Johns Hopkins. Segundo ele, porém, mesmo com o aparente declínio americano, nenhuma outra potência alcançará os Estados Unidos nas próximas décadas. A seguir, trechos da entrevista.
Os Estados Unidos não têm hoje o mesmo peso em foros internacionais como no pós-2ª Guerra. Qual é o seu real poder?
Os Estados Unidos continuam a ser o país mais poderoso e importante do mundo. Mas, haverá uma contração do poder americano nos próximos anos por causa do peso maior dos programas de assistência e previdência social no orçamento do país. A geração do baby boom, americanos nascidos entre 1946 e 1964, começou a se aposentar. Os EUA serão obrigados a conduzir uma política externa com gastos menores. E não há outro país interessado em assumir o papel dos EUA no mundo, mesmo de forma complementar.
A China seria uma alternativa aos EUA?
A China não se tornará uma superpotência, como os EUA. Primeiro, a China é ainda um país muito pobre. Cresceu muito, mas a renda per capita continua muito baixa e há centenas de milhões de pessoas pobres no país. O foco de qualquer governo chinês estará sempre no espaço doméstico, no crescimento econômico interno, não na projeção de seu poder no mundo. Segundo, a China não assume responsabilidades no sistema internacional. Terceiro, os países do Leste Asiático suspeitam da China e preferirão contar com os EUA.
Outros emergentes não podem tocar essa agenda?
O Brasil se tornará mais importante na América Latina e no Caribe. A Índia, no Sul da Ásia. Para carregarem as tarefas atuais no mundo, não vejo nenhum outro substituto.
A redução do orçamento dos EUA em defesa e diplomacia levará a que tipo de mudança? O que é descartável na atual política externa?
As áreas vitais são o Leste da Ásia, o Oriente Médio e a Europa - as mesmas do período da Guerra Fria. A política de construção de nação conduzida desde o final da Guerra Fria - Bósnia, Kosovo, Haiti e Somália - não será repetida.
Por pressão doméstica ou outras razões?
Porque os EUA constataram que essas intervenções são muito custosas. Talvez sejam desejáveis, mas não são mais viáveis.
E em relação a países como Egito, Tunísia e Líbia. Os EUA podem se dar ao luxo de negar essa ajuda?
Eu acredito que os EUA podem e vão negar. E, com isso, não creio que a imagem do país como líder mundial sofrerá. Será uma surpresa se os EUA custearem essas intervenções porque os contribuintes americanos não querem mais pagar essa conta. Os EUA continuarão com suas atividades de contraterrorismo e de inteligência, em cooperação com outros governos e agências, e ainda podem se valer de seus mísseis de alcance continental. A questão não é mais enviar grandes contingentes de soldados nem adotar programas de construção de nações. Ou seja, não mais valer-se dos modelos de (George W.) Bush e de (Bill) Clinton. Essas políticas de intervenção militar não contam mais com o apoio popular.
Se não há substitutos para os EUA como superpotência, qual o destino dos países em reconstrução?
Haverá mais desordem no mundo. Não chegará ao caos. Mas, onde os EUA não puderem mais intervir, haverá desordem. O custo da liderança atrofiada será pior para o mundo do que para os EUA. Aqui
Por Reinaldo Azevedo

quinta-feira, 10 de março de 2011

Rasgando a fantasia - A crise na Líbia expõe o governo patético de Barack Obama


Vamos a um texto longo, para tirar a ferrugem do Carnaval e para que nos dispamos, de vez, das fantasias?
Na entrevista concedida à VEJA desta semana (ver abaixo), Walter Williams, professor de economia da Universidade George Manson, afirma que Barack Obama será, na melhor das hipóteses, “um desastre igual ao de Jimmy Carter”. Como discordar? Carter perdeu o Irã para os aiatolás, não sem antes puxar o tapete do xá Reza Pahlevi, um aliado. Obama perdeu o Egito sabe-se lá para quem, não sem antes puxar o tapete de Hosni Mubarak, um aliado. A vitória do extremismo islâmico no Irã mudou para pior o mapa político do Oriente Médio. As revoltas de agora no mundo árabe, querem os otimistas, trazem o vento fresco da democracia. Será? Em todo caso, rezemos para Alá para que os tiranos muçulmanos não cheguem à conclusão de que, entre a hostilidade e a aliança com o Ocidente, melhor a primeira do que a segunda. A exceção foi Saddam Hussein — na origem, de todo modo, era um “ditador amigo”. Volto a Saddam daqui a pouco.
Obama e seus bravos — Hillary Clinton não tem se mostrado menos despreparada para o cargo — não tinham noção do vespeiro em que mexiam quando deixaram claro, na primeira semana da ocupação da praça Tahir, que Mubarak já era carta fora do baralho. A “revolta árabe”, conduzida pela rede TV Al Jazeera — não pelo Facebook ou pelo Twitter —, espalhou-se, preservando, curiosamente, o governo antiamericano da Síria ou o enclave terrorista de Gaza. Nesses lugares, as respectivas populações parecem mais satisfeitas com suas muitas misérias: miséria democrática, miséria material, miséria moral… Estranho, não? Nem tanto!
O ditador da Tunísia correu. O ditador do Egito correu. Os demais ditadores, acossados , tentam, inutilmente, acenar com concessões. Obama, pateticamente, feito uma barata tonta, luta para capturar a agenda de um lado e de outro, buscando evidenciar que está no controle do processo. A verdade dramática é que o homem mais poderoso da Terra foi surpreendido pela revolta, o que é uma nota adicional da qualidade de seu governo.  Ocorre que ao menos um assassino contumaz decidiu mudar o script: justamente Muamar Kadafi, que já foi considerado o inimigo nº 1 do Ocidente. Isso foi lá nos tempos do, vá lá, “terrorismo romântico”, em que um ou dois vagabundos podiam fazer suas bravatas, muitas vezes homicidas. O jihadismo foi buscar no passado o seu futuro: transformou a ação terrorista em indústria. Uma coisa ao menos pode-se dizer de sucessivos governos americanos: à diferença de Lula com Ahmadinejad, não é de graça que têm seus ditadores de estimação; eles valem, em muitos casos, o petróleo e, em todos os casos, o combate ao terrorismo.
Aqui uma nota à margem antes que prossiga: querem alguns que pouco adianta os EUA se alinharem com governos como os do Egito, Líbia (sim, Kadafi havia saído da lista negra) ou Iêmen se esses países continuam a ser celeiros de terroristas. O argumento parece bom, mas é uma bobagem lógica: se, com combate efetivo ao terror, ainda há o fornecimento da mão-de-obra jihadista, é de se perguntar como seria sem esse enfrentamento. Eu sei que é chato escrever assim, mas, a essa altura, nada a perder senão alguns leitores inocentes: NÃO PERGUNTE POR QUEM OS EUA APÓIAM TANTOS DITADORES ÁRABES; ELES OS APÓIAM POR VOCÊ TAMBÉM!!! Desde que você seja alguém interessado em combater o terror, é claro. É evidente que houve erros brutais nessa relação ao longo dos anos. Mas uma coisa é certa: governo nenhum, desde que o mundo é mundo, deixa o aliado pelo caminho sem desdobramentos trágicos. Como lembra certo chiste, o chato das conseqüências é que elas vêm sempre depois…
O que fazer?
A Líbia é uma dessas conseqüências. Obama se pergunta agora o que fazer e, bem, ele não tem a menor idéia. Mas não está menos perdido do que boa parte dos analistas políticos mundo afora, os do Brasil incluídos. Volto a Saddam Hussein, conforme o prometido, para explicitar as minhas preocupações e o sentido deste texto. Boa parte das pessoas que condenaram e condenam ainda a guerra do Iraque o faz na presunção de que Saddam não representava risco nenhum para o mundo. Ao contrário até, dizem esses, ele não tinha as tais armas de destruição em massa e era inimigo (havia sido ao menos) dos jihadistas e, adicionalmente, do Irã — que hoje assombra o mundo com a perspectiva da bomba atômica. Assim, o “satã” George W. Bush fez, sustentam, uma guerra assentado em falsos motivos, a um custo astronômico, metendo-se na realidade interna do Iraque, com a hipocrisia suplementar de afirmar que levava democracia àquele país — democracia que, insistem, não se exporta.
Bem, eu não pertenço a esta maioria — já escrevi muito a respeito — e acho que Saddam deveria, sim, ter sido apeado. Se ele não tinha as armas que dizia ter, deveria ter bravateado menos, mas não vou me ater a essa lateralidade agora. Qual a diferença entre Saddam Hussein e Muamar Kadafi? Como e que se pode ser radicalmente contrário à guerra do Iraque e defender, agora, uma intervenção de forças estrangeiras na Líbia, ainda que feita no ambiente da Otan e com o apoio da ONU? A única razão por que Bush foi, então, criticado foi por ter agido sem o beneplácito — mas também sem o veto (mente-se muito sobre um veto que não existiu) — do Conselho de Segurança das Nações Unidas? Ora…
Todas as razões humanitárias — TODAS, SEM EXCEÇÃO! — que justificam uma possível intervenção na Líbia estavam dadas no Iraque com mais intensidade, com uma fartura de mortos. Saddam tratava seus inimigos a bala ou gás. Sim, é verdade: ele o fez contra iranianos, como aliado do Ocidente — recebeu armas também de Grã-Bretanha e França, não só dos EUA —, mas também contra a população do próprio país, como sabem os curdos. Para o seu próprio povo, não custa notar, Kadafi chega a ser ameno perto de Saddam. Hoje, a exemplo do Iraque ocupado por George W. Bush, a Líbia não representa mais um perigo para o mundo. O tirano havia renunciado às chamadas armas de destruição em massa e a seu programa nuclear.
Estou contra?
Estaria eu contra a ocupação da Líbia ou à tal zona de exclusão aérea, que corresponde a uma declaração de guerra? Eu não! Convivo muito bem com as minhas escolhas. Posso apoiar a intervenção americana na Líbia sem corar. Quem não poderia fazê-lo são aqueles que consideram criminosa a intervenção no Iraque e que agora clamam por ela em nome dos direitos humanos. Seriam os “direitos humanos” dos iraquianos esmagados por Saddam menos respeitáveis do que os dos líbios? Não posso crer. São países muito diferentes, sei disso. Mas os americanos encontrariam, obviamente, resistência de boa parte da população. Trata-se de uma distorção estúpida acreditar que só meia-dúzia de mercenários e uma pequena fatia das Forças Armadas mantêm Kadafi no controle de parte do país. ISSO É COISA DO JORNALISMO FACEBOOK!!! Ainda que isto nos ofenda, o fato é que o ditador conta com o apoio de parcela considerável da população.
Assim, que fique claro: por mim, faz-se a tal intervenção humanitária. A questão virá logo depois, na hora do bate-papo: “Leve-me a seu líder!” Quem é o líder? Será possível chegar lá, dar uma coça no coronel e cair fora? Acho que não. Vencer as forças líbias leais a Kadafi é fácil — como foi fácil bater os aliados de Saddam, muito mais poderoso.  O problema está nas conseqüências. Uma das alternativas que se estudam é armar os insurgentes. Cá com os meus cabelos brancos (nem tantos assim, mas em maior número do que os de Sarney ou Kadafi…), não posso crer que se especula sobre tal alternativa em 2011: no passado, os EUA já armaram Saddam e o próprio Osama Bin Laden, não é mesmo? À época, pareceu uma boa idéia…
Então qual é o ponto?
O ponto é restabelecer um mínimo de objetividade nessa história. O governo Obama errou de novo quando supôs que Kadafi cairia em questão de horas. Como se vê, não é o caso. Erra quando chama de “população civil” uma “população civil de fuzis na mão”  — e alguns tanques das forças desertoras. Ainda que isto não esteja de acordo com a visão romântica das revoluções espontâneas by Facebook, a Líbia está vivendo uma guerra civil. É uma questão de fato, não de gosto.
O que resta agora aos EUA? O Egito deixará claro num futuro médio que “a” solução era um problema — vai demorar um pouco, e, por isso, não peço que acreditem em mim. Acho que a história dirá. Se não disser, erro com gosto porque será melhor para o mundo. No caso da Líbia, resta aos EUA o ruim e o pior. O ruim já está dado. Ainda que Kadafi viesse a vencer a guerra, como continuar no poder? Voltou a ser pária — desta feita, até entre os pares. E assim é pelos próprios “méritos”, não por responsabilidade de Obama. Mas não cumpria ao presidente americano, SOB NENHUMA HIPÓTESE, ter dado o ultimato: “Saia daí ou…” Ora, esse “ou”, agora, pedirá a intervenção se os insurgentes não vencerem sozinhos. Em nome mesmo do quê? Ah, sim: dos direitos humanos, da paz, da… Inventem aí algumas dezenas de razões pelas quais os americanos deveriam invadir todas as ditaduras muçulmanas — notem que escrevo “muçulmanas”, não “árabes”; é que incluo o Irã no grupo de países passíveis de intervenção, dado tal critério.
Uma coisa é derrubar um governante que está por um fio, batendo em retirada; outra, diferente, é depor alguém que corre o risco de ganhar a guerra, caracterizando uma clara intervenção, o que ajudará, como desaire adicional, a incendiar as massas em outros países, descontentes com seus respectivos ditadores: “Vá para a rua que o Obama garante!” Infelizmente, isso parece não funcionar na Síria, em  Gaza ou no Irã… “E o pior, Reinaldo?” Bem, o pior é ter de invadir a Líbia e continuar lá!
Obama é pateticamente despreparado. A Casa Branca é hoje um ajuntamento de saberetas buliçosos testando teses. Trata-se de um arremedo de governo que age em nome de supostos valores universais, mas que pode deixar o mundo à beira do caos em virtude desse despreparo. Alguns cretinos diziam até outro dia que estava tendo de se haver com a herança maldita (oh, sempre ela!) de Bush no Iraque e no Afeganistão e que era molestado, internamente, pela extrema direita republicana, que se opunha a seu programa de saúde… Bem, vocês conhecem a vocação dos “esquerdistas democráticos” para pichar a democracia. Pois bem: a crise de agora do Oriente Médio não deve nada ao passado; também não deriva da ação dos inimigos republicanos. Evidentemente, não se trata de uma criação do próprio Obama. O que importa é o modo como ele reagiu e tem reagido.
Trata-se de um governo sem eixo, refém da opinião pública e obcecado pelo propósito de não contrariar ninguém, o que o leva a não ter agenda. A maior máquina militar do planeta é hoje caudatária de movimentos nos países árabes cuja origem ignora. Se Kadafi esmaga a revolta, não poderá ficar no poder; e isso é um desastre. Se Kadafi cai sem a interferência americana, os EUA serão acusados de omissos e vistos como inimigo por parte da população, e isso é um desastre. Se Kadafi cai com a intervenção americana, ela terá de ser menos breve do que muitos gostariam,  e os americanos serão vistos como inimigos pela outra parte da população, e isso é um desastre.
Obama corre o risco de se tornar sócio da derrota da Kadafi e, obviamente, adversário de sua eventual, mas improvável, vitória. É preciso ser muito ruim para cair numa esparrela dessas. Nunca apostei em Obama, como sabem, mas, de algum modo, ele me surpreende: está abaixo das piores expectativas. As irresoluções e tolices de agora projetam um futuro sombrio para o Ocidente.E não pensem que também não estou na torcida pela primavera democrática dos países árabes. Eu também sou livre para torcer, como todo mundo.
Por Reinaldo Azevedo

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A voz da direita


Sem medo de ser feliz, o historiador Paul Johnson
cutuca ainda mais as feridas da esquerda, que perdeu
o rumo da História
Carlos Graieb
Prestes a completar 70 anos, o ensaísta Paul Johnson é o que se poderia chamar de católico britânico em estado puro. Formado na tradicional Universidade de Oxford, ele defende a monarquia, os dogmas da Igreja e a cultura clássica. Sempre atento à decadência dos valores morais, Johnson adora fustigar a esquerda e os artistas modernos. Faz isso toda semana na revista Spectator, uma trincheira da inteligência inglesa, da qual é colunista. Suas principais armas são o texto impecável e uma verve que mesmo os adversários mais ferrenhos respeitam. Em paralelo com o jornalismo, Johnson firmou uma brilhante carreira como historiador. É dono de uma bibliografia com dezesseis títulos. Três deles foram lançados no Brasil: Intelectuais, Tempos Modernos e História dos Judeus. A obra mais recente de Johnson é um catatau de 1.088 páginas, com o título de A History of the American People (Uma História do Povo Americano). Os Estados Unidos, descritos por Johnson como "a maior de todas as aventuras humanas", são um dos assuntos da entrevista abaixo:
Veja — Por que os Estados Unidos são um país digno de admiração?
Johnson — Há muita coisa errada nos Estados Unidos, mas os americanos são grandes "resolvedores de problemas". Veja o seu déficit orçamentário, que nos anos 70 e 80 parecia conduzir diretamente ao apocalipse. De repente, foi completamente domado: o país floresce e comemora superávit atrás de superávit. A esquerda vive chamando os Estados Unidos de império, mas não acho isso justo. Trata-se de um país que teve poucas colônias e que soube livrar-se delas assim que esses territórios mostraram capacidade para o autogoverno. Os EUA são apenas uma nação gigantesca, com interesses comerciais em todo o mundo, que exercem sua influência com força. Acho esse exercício absolutamente legítimo. Sou velho o bastante para lembrar do tempo em que os Estados Unidos tendiam para o isolacionismo. Foi um período terrível para a Europa. Gente da geração de meu pai implorou para que os EUA entrassem para a Liga das Nações e mantivessem o interesse na Europa, mas eles se negaram. Um dos resultados dessa omissão foi a II Guerra Mundial. Eu realmente espero que os Estados Unidos se interessem pelo resto do mundo e exerçam seu poderio bélico e econômico em favor da democracia.
Veja — Em seu livro Intelectuais, o senhor diz que a grande questão da vida intelectual é a posição a assumir diante do problema da violência. A violência pode ser moral e intelectualmente justificável?
Johnson — Nada me intriga mais na vida de pensadores renomados do que perceber que um grande número deles apoiou ou apóia a violência em diversas situações. O francês Jean-Paul Sartre, por exemplo, sustentava que a violência era tolerável em certas circunstâncias. Algumas das pessoas que seguiram seus ensinamentos foram ainda piores — basta pensar no grupo de intelectuais responsável pelos massacres no Cambodja, todos discípulos de Sartre. Outro caso de filósofo que deplorou a violência em certos casos e a endossou em outros foi o inglês Bertrand Russell. Ele chegou a sugerir um ataque nuclear preventivo contra a União Soviética. De minha parte, sigo um dos mandamentos da Igreja — "Não matarás". Acho, porém, que exista algo como a "guerra justa", no sentido descrito por Santo Tomás de Aquino no século XIII. Já a violência do dia-a-dia, que afeta a vida dos cidadãos, é um problema espinhoso. Combatê-la com a violência do Estado seria legítimo? A tão discutida pena de morte, por exemplo, é um desses casos sobre os quais pessoas de boa vontade, inteligência e educação terão sempre opiniões conflitantes.
Veja — Um ataque dos EUA ao Iraque seria um caso de "guerra justa"?
Johnson — Saddam Hussein é um ditador insano, com currículo assombroso de crueldade, vício e agressão. Regimes como o dele têm de ser mantidos sob controle e vigilância. Considero os Estados Unidos uma espécie de "polícia global" absolutamente necessária enquanto certos párias continuarem dispostos a quebrar a ordem internacional ou construir armas de destruição em massa.
Veja — Voltando aos intelectuais, o senhor escreveu recentemente um artigo reclamando da entrega de uma comenda real ao historiador Eric Hobsbawn, uma das mais eminentes figuras da esquerda. Por quê?
Johnson — Hobsbawn foi feito Acompanhante de Honra, uma distinção bastante elevada na Grã-Bretanha. Não reclamei por motivos pessoais, mas porque me parece inadequado que um stalinista não arrependido como Hobsbawn receba essa espécie de honraria. Ninguém que tenha apoiado o totalitarismo deveria ser homenageado com título.
Veja — O senhor não acredita que haja um legado de esquerda a ser explorado no presente?
Johnson — Não. Karl Marx foi um embusteiro intelectual que distorcia fatos. É claro que seu sistema não funcionou quando aplicado à União Soviética: estava todo embasado em falsidades. Seu único legado foi conduzir um país rico como a Rússia à pobreza. Não há qualidades redentoras, nenhuma que seja, no marxismo. Aqueles que discordarem de mim, que mostrem provas. Mostrem-me um regime que tenha empregado princípios marxistas e tenha melhorado a vida de seus cidadãos. Não há. Todos que enveredaram por esse caminho na Europa, América Latina, Ásia ou África falharam. Também não faço nenhuma distinção entre nazismo, comunismo e fascismo. Foram todos movimentos totalitários e radicais pertencentes à esquerda. Marx, afinal de contas, derivou todas as suas teorias de Hegel, assim como os nazistas. Todos os sistemas totalitários do século XX foram de esquerda: apenas na superfície pareceram pertencer à direita. Todos os sistemas radicais do século XX foram ruins segundo os mais retos padrões morais. São sistemas que não podem ser melhorados ou civilizados. É impossível um comunismo com face humana. O regime chinês não se humanizará. Com sorte, desaparecerá no tempo, e é tudo que podemos dizer.
Veja — O que pensa do papa João Paulo II?
Johnson — Ele é o maior papa do século XX. Fez um trabalho magnífico ao resgatar a Igreja Católica de uma espécie de liberalismo sem rumo. Restaurou a disciplina no clero. Como resultado, a Igreja Católica está mais saudável hoje do que nas últimas décadas. Além de suas qualidades de líder religioso e estadista, o papa tem uma personalidade admirável. Quem quer que tenha estado em sua companhia concordará com isso. Ele tem um carisma intenso e exala bondade.
Veja — João Paulo II é criticado pela rigidez de suas opiniões sobre temas como aborto, sexo e casamento. Ele não estaria em descompasso com a modernidade?
Johnson — É preciso lembrar que essas não são opiniões pessoais do papa. São opiniões da Igreja, fazem parte de sua doutrina. Dois mil anos de catolicismo condenam o aborto, o papa não pode alterar esse fato. João Paulo II simplesmente afirma — guiado pelo Espírito Santo, como toda vez que um papa se pronuncia — que os preceitos da Igreja sobre sexo e casamento devem ser estritamente seguidos. Numa época em que o comportamento sexual é irresponsável, acarretando um número crescente de nascimentos ilegítimos, mães solteiras e crianças abandonadas, ele está fazendo aquilo que é necessário — desse ponto de vista, portanto, ninguém é mais moderno.
Veja — O senhor também acha o aborto um crime?
Johnson — Sim, claro que sim. Trata-se de uma forma de homicídio. Talvez se devam fazer algumas ressalvas — quando a vida da mãe está em perigo, por exemplo —, mas como prática institucionalizada o aborto é perverso, errado e deveria ser banido. Essa é uma das grandes questões do nosso tempo. Acredito que os Estados Unidos mudarão sua legislação permissiva com relação ao aborto, como fizeram em relação à escravidão, e tomarão medidas para proteger a criança ainda não nascida. Uma vez tomada essa decisão, todos os outros países seguirão no mesmo caminho. Em 100 anos o aborto não será mais legal, em nenhuma circunstância.
Veja — Em artigos recentes o senhor criticou o sexo na TV. Não é um excesso de moralismo?
Johnson — Alguns meses atrás, chamei o diretor do Canal 4 inglês, Michael Grade, de "pornógrafo-mor" da televisão britânica. Ele entendeu a dica e pediu demissão, de modo que posso me gabar de uma pequena vitória. A televisão é inócua no melhor dos casos, destrutiva no pior. Creio que seria mais útil para as pessoas ler bons livros em vez de passar grande parte do dia na frente de uma caixa falante.
Veja — O senhor tem um livro chamado Para o Inferno com Picasso. Nos ensaios desse livro, também ataca o pintor francês Cézanne. O que lhe agrada nas artes plásticas?
Johnson — Quando eu era criança, costumava sair com meu pai, que era pintor, para desenharmos juntos. Passávamos horas diante de igrejas e catedrais, que eram seus motivos pictóricos preferidos. Um dia ele disse: "Bem, Paul, você é muito talentoso, mas não acho que deveria se tornar artista. Eu prevejo um tempo ruim para as artes plásticas. Fraudes como Picasso vão governar pelos próximos cinqüenta anos. Portanto, vá fazer outra coisa". Meu pai morreu quando eu tinha 13 anos e eu segui seu conselho, transformando-me em escritor. Mas nunca deixei a pintura e, nos últimos tempos, confesso que meu maior deleite vem dela. Em abril, tenho uma exposição agendada numa galeria de Londres. Além disso, transformei-me num colecionador e hoje sou dono de um acervo bastante razoável de 350 obras, mais uma enorme coleção de livros de arte. Como pintor e colecionador, gosto do tradicional e do realista. E não acho que esteja errado nisso. Suspeito que, no futuro, o século XX será visto como um período de aberrações. Um período em que a arte descarrilou por um desvio modernista antes de voltar à pintura tradicional. Nesse dia, talvez percebam que Picasso era um artista de talento, mas também um cínico, que percebeu que poderia ter imenso sucesso se fizesse concessões às modas estéticas. E que Cézanne era simplesmente um mau pintor, ainda que esforçado.
Veja — Sua opinião sobre pintura moderna também vale para a literatura?
Johnson — Acho que não é preciso tanta preocupação com a literatura quanto com a pintura. Obras literárias são escritas em linguagem que todo mundo pode entender e julgar autonomamente. Artes plásticas, por outro lado, intimidam um pouco. As pessoas acham que precisam de especialistas para explicar-lhes o que está acontecendo. Daí nascem as fraudes, como Picasso. De qualquer modo, não tenho lido muitos ficcionistas contemporâneos. O último romancista moderno que li com prazer foi Evelyn Waugh, e ele morreu nos anos 60. Talvez pudesse citar também meu amigo Kingsley Amis, morto há três anos — mas não seu filho, Martin, que é absolutamente ilegível. Entre os poetas, Auden não era ruim, e Stephen Spender é muito bom. Minha autora preferida, no entanto, é Jane Austen. Ela morreu há 200 anos.
Veja — A coroa britânica dá sinais de querer aproximar-se do povo. O que o senhor acha da idéia?
Johnson — A rainha está certa ao tentar uma melhor comunicação com seus súditos. Mas não acho que a coroa deva buscar popularidade, no sentido em que estrelas de cinema são populares. Seria terrivelmente indigno.
Veja — A comoção em torno da morte da princesa Diana pareceu-lhe de bom gosto?
Johnson — Sim, eu aprovei aquele rompante espontâneo de sentimento popular. A coroa tentou diminuir a importância daquela morte e foi corrigida pela população. Deram-lhe, então, um enterro adequado, que foi ao mesmo tempo uma grande demonstração democrática. Eu gostava muito de Diana. Era uma pessoa rara, com um único defeito grave: o pavoroso gosto para homens.
Veja — Logo depois da eleição do primeiro-ministro Tony Blair, a maioria dos intelectuais ingleses parecia bastante satisfeita, inclusive o senhor. A lua-de-mel continua?
Johnson — Sinto que surgiu uma ponta de ceticismo em muitos de meus amigos. Mas continuo otimista. Temos um ótimo primeiro-ministro: jovem, charmoso, inteligente e firme nos princípios. Prepara-se agora para apresentar seu plano de reforma do Estado de bem-estar, uma jogada política bastante ousada. Como sabemos, a Inglaterra foi pioneira na implantação de um Estado de bem-estar, mas depois viu esse aparato sair das proporções adequadas e se tornar excessivamente caro. Qualquer reforma nessa máquina será complicada e sofrerá oposição. Mas Blair é determinado e, se o plano for tão radical e ambicioso quanto espero que seja, poderá se tornar um modelo para todo o mundo, da mesma maneira que a fórmula de privatização da senhora Thatcher tornou-se universal.
Veja — As comparações freqüentes entre Tony Blair e Bill Clinton procedem?
Johnson — Não, de jeito nenhum. Clinton é um oportunista, um homem de moral muito duvidosa. Blair tem convicções, fé religiosa e princípios. Eles são antípodas.
Veja — O senhor votaria pelo impeachment de Clinton, caso fosse provado que ele realmente assediou sexualmente secretárias e estagiárias?
Johnson — Acho que preferiria outra solução. O impeachment só foi usado uma vez na História dos Estados Unidos, contra Andrew Johnson. Os resultados foram muito duvidosos. É um processo longo e trabalhoso, que tende a sofrer todo tipo de interferência política. Caso seja mesmo impossível provar a inocência do presidente, gostaria que ele nos oferecesse a solução mais fácil e saísse de fininho.

sábado, 6 de novembro de 2010

A primeira grande derrota de Obama


Na eleição de amanhã nos EUA, o Partido Republicano deve conquistar a maioria dos deputados da Câmara dos Representantes (Representative House), que é como os americanos chamam a Câmara dos Deputados, por 10 pontos percentuais em relação aos democratas. Ou seja, o partido de Barack Obama deve perder a maioria – o que é normal… É o preço que o presidente americano normalmente paga no meio do mandato. Foi assim com George W. Bush, com Ronald Reagan e com Bill Clinton e agora é assim com  Obama.
No caso atual, a culpa ainda é da crise econômica, que Obama pegou já no final, mas que ainda causa estragos. O desemprego chega a mais de 9% da população economicamente ativa.
Uma pesquisa da rede CNN mostra que, a um dia da eleição, 51% dos entrevistados acham que o Partido Republicano vai vencer, contra 36% que  acham que  os democratas irão conseguir virar o jogo. O presidente Obama liderou nos últimos quatro dias uma tentativa final de reverter esses números. Mas hoje quem assumiu a batalha pelos votos foram seus enviados: o vice-presidente Joe Biden, a primeira-dama Michelle e o ex-presidente Bill Clinton, que estiveram em Nevada, Virginia, Kentucky, Florida, Delaware e Vermont.
Nesses primeiros dois anos de governo desde a histórica eleição de 2008, Obama conseguiu muitas coisas: a aprovação, graças a sua maioria no Congresso, da reforma da saúde – perseguida sem sucesso pelo Partido Democrata havia décadas -, da reforma financeira (que deu maior poder de intervenção ao Estado no setor) e de um plano econômico de US$ 787 bilhões. A perda da eleição amanhã deve bloquear a agenda política, mas não deve afetar a eleição presidencial de 2012, na qual Obama deve ser candidato à reeleição.
Com o Congresso na mão dos republicanos, a política deve se voltar mais para a questão externa. Em julho do ano que vem, os EUA devem começar a retirada do Afeganistão. E até o final de 2011, todas as tropas americanas terão saído do Iraque. Deverá haver ainda uma maior atenção para a relação com a China, a quem o governo americano atribui boa parte do desequilíbrio da economia global.