sábado, outubro 13, 2012
Está
circulando na internet um troço curioso. Trata-se de um texto-manifesto,
assinado por uma certa ANPUH (Associação Nacional de Professores de
História), da qual eu, apesar de graduado em História, nunca tinha ouvido falar
- e da qual, pelo que segue, orgulho-me de não ser sócio.
É uma resposta (ou deveria ser) ao
obituário publicado na revista VEJA do historiador inglês Eric Hobsbawn,
falecido no dia 1 de outubro aos 95 anos de idade. Os senhores da tal
ANPUH se mostram indignados pelo que consideram um tratamento
desrespeitoso dado pela revista ao historiador marxista inglês, uma das vacas
sagradas da intelligentisia esquerdista mundial e, por tabela,
brasileira - o que significa: um autor obrigatório nas universidades
brasileiras, sobretudo para quem não conhece outro autor e acredita que a
historiografia marxista é a única existente.
O texto é um típico produto coletivo
de mentes que só sabem pensar coletivamente (ou seja: que não sabem pensar).
Tanto que seus autores, na ânsia de darem uma "resposta" a
quem teve a ousadia de criticar um de seus ídolos (um crime, enfim, de
lesa-santidade), parecem esquecer-se de fatos básicos, fundamentais. O que
apenas reforça minha convicção de que os esquerdistas são guiados por um
misto de cegueira voluntária e amnésia. E por nenhum senso do ridículo.
Fiz questão de transcrever
o texto na íntegra. Vai em vermelho. Meus comentários vão em
preto.
ANPUH- RESPOSTA À REVISTA VEJA
09/10/2012
Eric Hobsbawm:
um dos maiores intelectuais do século XX
Na última
segunda-feira, dia 1 de outubro, faleceu o historiador inglês Eric Hobsbawm.
Intelectual marxista, foi responsável por vasta obra a respeito da formação do
capitalismo, do nascimento da classe operária, das culturas do mundo
contemporâneo, bem como das perspectivas para o pensamento de esquerda no
século XXI. Hobsbawm, com uma obra dotada de rigor, criatividade e profundo
conhecimento empírico dos temas que tratava, formou gerações de intelectuais.
Não se discute que Hobsbawn foi um
historiador de talento, dotado de inteligência. Falo sobre isso depois.
Tampouco está em questão sua influência sobre gerações de intelectuais. O
debate é outro, como se verá adiante.
Ao lado de E. P. Thompson e Christopher
Hill liderou a geração de historiadores marxistas ingleses que superaram o
doutrinarismo e a ortodoxia dominantes quando do apogeu do stalinismo.
Nem tanto. Hobsbawn, se procurou
distanciar-se do stalinismo, depois da denúncia dos crimes de Stálin feita por
Kruschev em 1956, não teve a coragem e a ousadia de abandonar o barco do
comunismo nos anos seguintes. Pelo contrário: até intensificou sua militância
comunista, recusando-se a criticar abertamente a URSS e justificando os milhões
de assassinatos de Stálin, como veremos em seguida. Ele sempre se manteve
no campo marxista, dando "apoio crítico" ao Kremlin e considerando os
EUA "a maior ameaça à humanidade". Nos últimos tempos, não cansava de
elogiar Lula como um exemplo de governante marxista.
Deu voz aos homens e mulheres que sequer
sabiam escrever. Que sequer imaginavam que, em suas greves, motins ou mesmo
festas que organizavam, estavam a fazer História. Entendeu assim, o cotidiano e
as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do
desenvolvimento capitalista.
Para começar, a função do
historiador, como a de qualquer intelectual, não é "dar voz aos
excluídos", ou, como está acima, "aos homens e mulheres que sequer
sabiam escrever". Ele pode até fazer isso, mas como militante político,
não como um investigador, que deve ter como único compromisso a realidade
dos fatos. E a realidade da História é que as "agruras do desenvolvimento
do capitalismo", ao contrário do que diz o texto, levaram à melhoria
das condições gerais de vida dos trabalhadores em todos os países
capitalistas europeus, conforme demonstraram, com dados e números
inquestionáveis, estudiosos sérios como Ludwig von Mises (ver o seu As
Seis Lições, se quiserem tirar a prova).
Mas Hobsbawm não foi apenas um
"acadêmico", no sentido de reduzir sua ação aos limites da sala de
aula ou da pesquisa documental. Fiel à tradição do "intelectual" como
divulgador de opiniões, desde Émile Zola, Hobsbawm defendeu teses, assinou
manifestos e escolheu um lado. Empenhou-se desta forma por um mundo que
considerava mais justo, mais democrático e mais humano.
Aqui há uma falsidade disfarçada de
verdade biográfica: Hobsbawn foi sim, além de historiador, um militante - ou um
"divulgador de opiniões". Mas de maneira nenhuma essas se enquadram
numa perspectiva fiel à tradição intelectual de autores como Émile Zola -
Hobsbawn era comunista, Zola era um liberal e um democrata, um defensor da
tolerância, famoso pela defesa do capitão Dreyfus no final do século XIX.
Aliás, Hobsbawn, judeu como Dreyfus, assinou manifestos e participou
de passeatas a favor do nacionalismo palestino (na época em que este sequer
reconhecia o direito de Israel à existência). Aproximou-se, assim,
portanto, muito mais dos detratores antissemitas de Dreyfus do que de
Zola e outros paladinos da liberdade de imprensa. Algo, aliás, inexistente na
defunta URSS, que Hobsbawn sempre tratou com simpatia em seus livros, como
um paradigma daquilo que ele considerava um mundo "justo, democrático e
mais humano"... Nada mais longe da verdade.
Claro está que, autor de obra tão
diversa, nem sempre se concordará com suas afirmações, suas teses ou
perspectivas de futuro. Esse é o desiderato de todo homem formulador de ideias.
Como disse Hegel, a importância de um homem deve ser medida pela importância
por ele adquirida no tempo em que viveu. E não há duvidas que, eivado de
contradições, Hobsbawm é um dos homens mais importantes do século XX.
Deixando de lado o português
arrevesado - isso de escrever "desiderato"... -, a frase de Hegel, no
contexto em que está colocada, não significa rigorosamente nada: Napoleão,
Hitler, Lênin e Stálin foram importantes no tempo em que viveram, e isso
não acrescenta ou retira absolutamente nada do significado de suas ações. O que
está em questão não é a importância de Hobsbawn - ele foi, sim, um historiador importante
-, mas o valor de suas idéias. Ou, melhor dizendo: a moralidade delas.
Eis que, no
entanto, a Revista Veja reduz o historiador à condição de "idiota
moral" (cf. o texto "A imperdoável cegueira ideológica da
Hobsbawm", publicado em www.veja.abril.com.br). Trata-se de um julgamento
barato e despropositado a respeito de um dos maiores intelectuais do século XX.
Aqui, finalmente, entramos na
questão principal. Vejamos quão "barato" e "despropositado"
é o julgamento da revista sobre Hobsbawn.
Veja desconsidera a contradição que é
inerente aos homens. E se esquece do compromisso de Hobsbawm com a democracia,
inclusive quando da queda dos regimes soviéticos, de sua preocupação com a paz
e com o pluralismo.
Pelo menos o texto reconhece que
Hobsbawn tinha contradições... Mas somente para, logo em seguida, incorrer na
maior das contradições, ao afirmar que o marxista Hobsbawn tinha uma
compromisso com a democracia (!). Ora, de que democracia os autores do
manifesto estão falando? Se é das "democracias populares" do Leste
Europeu ou da ex-URSS, então acertaram em cheio. Mas não da democracia
liberal, da democracia tal qual a conhecemos, com alternância de poder,
eleições livres e liberdade de associação e de expressão, a qual
Hobsbawn, como todo bom marxista, dedicava um desprezo solene, tachando-a de
"burguesa". E isso mesmo após a queda dos regimes soviéticos, ao
contrário do que está dito acima. Preocupação com a paz e com o pluralismo?
Qual pluralismo existia na finada URSS? Existe tal coisa na moribunda ditadura
cubana (que Hobsbawn admirava)? Uma coisa é a contradição que é inerente a
todos os homens. Outra, é a idiotice moral de justificar a morte de
milhões de seres humanos em nome do que quer que seja.
A Associação Nacional de História
(ANPUH-Brasil) repudia veementemente o tratamento desrespeitoso, irresponsável
e, sim, ideológico, deste cada vez mais desacreditado veículo de informação.
A tal ANPUH considera desrespeitoso e
irresponsável (!?) chamar Hobsbawn, por sua posição esquerdista pró-URSS, de
idiota moral. E investe contra o mensageiro e não a mensagem. Deixando de lado
o ódio da esquerda brasileira ao "cada vez mais desacreditado veículo de
informação" - ódio que se estende aliás a todo e qualquer órgão de
imprensa que não esteja sob seu controle -, devo dizer que, a meu ver, a
denominação de idiota moral para referir-se a Hobsbawn não lhe faz justiça.
Isso porque, ao contrário do que afirma a revista, ele não era um idiota. Idiota
é quem não sabe o que faz. E Hobsbawn sabia. Ao se negar a criticar a URSS e ao
justificar o morticínio de milhões de pessoas em nome de "um mundo
melhor", ele mostrou mais que idiotice: mostrou cumplicidade moral com o
terror e com a barbárie. Se ele fosse um idiota, desses de babar na
gravata, seria melhor para ele: seria um álibi. Portanto, a VEJA foi até
boazinha com ele...
O tratamento desrespeitoso é dado logo no
início do texto "historiador esquerdista", dito de forma pejorativa e
completamente destituído de conteúdo. E é assim em toda a "análise"
acerca do falecido historiador.
Em primeiro lugar, o tratamento de
"historiador esquerdista" (na verdade,
"comunista"), não é dado pela revista, mas por outro historiador
eminente, o igualmente britânico e também recentemente falecido Tony Judt.
Este, citado no texto da VEJA, advertira Hobsbawn em 2008 que, com sua insistência
ideológica em tratar de forma benigna a ex-URSS, ele seria lembrado pela
posteridade não como "o" historiador, mas como "o historiador
marxista" (ou "comunista"). E, de fato, foi isso que
Hobsbaw sempre foi, e jamais escondeu que fosse.
Nós, historiadores, sabemos que os homens
são lembrados com suas contradições, seus erros e seus acertos. Seguramente
Hobsbawm será, inclusive, criticado por muitos de nós. E defendido por outros
tantos. E ainda existirão aqueles que o verão como exemplo de um tempo dotado
de ambiguidades, de certezas e dúvidas que se entrelaçam. Como historiador e
como cidadão do mundo. Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o
mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá
ser ela, Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada.
São Paulo, 05
de outubro de 2012
Diretoria da Associação Nacional de
História
ANPUH-Brasil
Gestão
2011-2013
Sempre
desconfiei de textos escritos na primeira pessoa do plural, ainda mais
referentes a toda uma categoria profissional ("Nós, historiadores").
Como se todos os historiadores estivessem representados etc.
Mas deixa pra lá. É curioso como, ao mesmo tempo em que afirmam,
corretamente aliás, que "os homens são lembrados com suas
contradições, seus erros e seus acertos", os autores do manifesto buscam
isentar Hobsbawn de qualquer julgamento crítico. Como se ele, Hobsbawn,
estivesse acima de qualquer análise que não fosse hagiográfica - em outras
palavras: acima do bem e do mal. E isso ao mesmo tempo em que caem num
relativismo fácil, negando a própria validade de conceitos como bem e mal,
vistos como categorias absolutas, mais em termos teológicos do que históricos
ou ideológicos. (Menos, claro, se for para atacar o "imperialismo
ianque" ou a besta-fera do capitalismo, mas já desisti de tentar
explicar para esse pessoal que o capitalismo não é um jogo de soma zero.)
Basta fazer um pequeno exercício para
desmontar essa falácia. Imaginem se um historiador se propusesse a
escrever "a" História do século XX e que, ao
fazê-lo, denunciasse acerbamente os crimes do comunismo mas evitasse, de
propósito, qualquer menção ao nazi-fascismo. Seria chamado, no mínimo, de intelectualmente
desonesto. Agora imaginem que esse mesmo historiador fizesse declarações nas
quais buscasse justificar os crimes de Hitler e de Mussolini. Algum dos
signatários do manifesto da ANPUH se oporia a que se criticasse tal
historiador, no mínimo como cúmplice moral dos crimes do totalitarismo
nazi-fascista? Quem, em vez disso, acusaria o crítico de não levar em conta as
contradições e ambiguidades do historiador, considerando a condenação moral
deste como uma visão "medíocre, pequena e mal-intencionada"?
Mas deixemos que o próprio Hobsbawn
responda essa questão. No artigo da VEJA, do qual o manifesto dos
"historiadores" é, supostamente, uma réplica, há o relato de um
episódio que os autores da "resposta" estranhamente não citam. E que
apenas aumenta minha certeza de que os devotos brasileiros de Hobsbawn
realmente mal e mal conhecem o pensamento e a obra do autor. Eis o episódio,
uma entrevista dada em 1994 por Hobsbawn ao jornalista da BBC Michael
Ignatieff (conforme relatado pelo historiador britânico Robert Conquest,
autor do clássico O Grande Terror):
Segundo o historiador, o Grande Terror
de Stalin [mais de 20 milhões de mortos apenas na principal de três ondas, fora
outros milhões de mortes fora dos Expurgos] teria valido a pena caso tivesse resultado
na revolução mundial. Ignatieff replicou essa afirmação com a seguinte
pergunta: “Então a morte de 15, 20 milhões de pessoas estaria
justificada caso fizesse nascer o amanhã radiante?” Hobsbawm respondeu com uma
só palavra: “Sim”.
Este era Hobsbawn. O verdadeiro
Hobsbawn. Aquele que em nenhum momento aparece no manifesto da ANPUH.
Não pensem vocês que não reconheço, na
obra de Hobsbawn, qualidades, inclusive literárias. Entre suas obras, estão
livros interessantes como A Era das Revoluções, A Era do Capital e
a A Era dos Impérios (A Era dos Extremos, que trata
do "breve século XX" [1914-1991], é o mais fraco da série, por razões
ideológicas - Hobsbawn passa ao largo dos crimes do comunismo, como
se tivessem sido uma nota de rodapé). Mesmo obras como Bandidos,
se foram pioneiras em suas áreas de pesquisa, por enfocar temas
até então relegados a um plano secundário pela historiografia tradicional,
trazem consigo um forte ranço ideológico (no caso, a tese marxista do
"banditismo social", que trata criminosos como
"rebeldes primitivos" em luta contra uma ordem social injusta
etc.). Ele certamente foi um grande historiador e um
intelectual importante, que não se rebaixava à condição
de panfletário produtor de agitprop. Não era um
agitador vulgar, como Noam Chomsky, ou um filósofo de quinta, como
Slavoj Zízek. Mas, sinto dizer, ele foi, assim como estes, um idiota
moral. A exemplo de intelectuais e figuras proeminentes da
esquerda, como Jean-Paul Sartre, José Saramago e Gabriel García Márquez,
que não quiseram ou não foram capazes de deixar suas preferências ideológicas e
seus preconcentos anticapitalistas e antiamericanos fora de suas
análises, Hobsbawn justificou o terror stalinista. Flertou, para dizer o
mínimo, com uma das faces do Mal. Talvez a pior de todas.
Hobsbawn foi um historiador
inteligente, mas colocou a sua inteligência a serviço de um projeto totalitário
que deixou mais de 100 milhões de mortos no século XX. E se recusou a fazer uma
autocrítica consistente. Seu talento e capacidade acadêmica apenas aumentam sua
culpa. E ainda há quem escreva manifestos defendendo (ou omitindo) essa sua
atitude. Enfim, isso sim, uma visão pequena, medíocre e mal-intencionada. Coisa
de idiotas.