domingo, 12 de julho de 2015

Religião faz mal?
Marx escreveu que a religião é o ópio do povo, José Saramago disse que a Igreja reacionária deveria ser combatida com a inteligência viva e Stephem Hawking afirmou que não precisamos de Deus para explicar a origem do universo. Qual a razão de tanto ódio? Por que nos meios acadêmicos a fé é vista como sinônimo de atraso, obscurantismo, contrária a razão e ao progresso, intolerante, responsável pelas guerras e por isto tão ridicularizada por professores inspirados em autores e ideologias materialistas e ateias?
A resposta está no orgulho humano, que reconhecendo a razão como único critério de verdade não se dobra as verdades reveladas, sobrenaturais, comprovadas por critérios históricos, filosóficos, psicológicos e pelas práticas sociais solidárias inspiradas nos Evangelhos. Fazem do cientificismo, da crença no progresso, do consenso social, das convenções sociais as normas de convivência na sociedade e o caminho para a felicidade, desprezando Deus e a moral cristã ocidental.

Como escreveu o historiador Christopher Dawson, a religião é o elemento cultural que serviu de fundamento para a solidariedade no convívio social, devendo ser considerada sob o viés positivo, como responsável pela construção do progresso, criadora da identidade cultural de uma civilização, de todas as suas bases materiais e intelectuais.  “A religião é como o seio no qual tem origem os germes da civilização humana,” afirmou o sociólogo Durkheim.  Thomas E. Woods, PhD em Harvard, no livro Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental escreveu: “Foi esta civilização moderna, gerada no bojo do Cristianismo que nos deu o ‘milagre’ das ciências modernas, a saudável economia de livre mercado, a segurança das leis, a caridade como virtude, o esplendor da arte e da música, uma filosofia assentada na Razão, a agricultura, a arquitetura, as universidades, as Catedrais e muitos outros dons que nos fazem reconhecer em nossa civilização a mais bela e poderosa civilização da História”. 
Marxismo ou Capitalismo?
Marx e Engels publicaram em 1848 o Manifesto Comunista, considerado o marco inicial do chamado Socialismo Científico. As suas ideias encontraram terreno fértil no explosivo século XIX. Somadas às ideias liberais, nacionalistas e anarquistas motivaram movimentos revolucionários por quase todo o continente, empregando a violência como o único método legítimo para solucionar as questões sociais. Para Marx o motor da história é a luta de classes, as relações econômicas são o fundamento da dinâmica social, a religião é fator de alienação dos trabalhadores, a política, a justiça e todo o aparato ideológico e cultural funcionam a reboque das estruturas econômicas.
Tal ideologia foi condenada pelos papas, inicialmente por Leão XIII na Rerum Novarum, de 1891, por desprezar a propriedade, que a concepção cristã considera inerente à natureza humana e fator de libertação da pessoa, desde que usada racionalmente e com funcionalidade social; por desconsiderarem Deus e toda a questão da alma e da espiritualidade humana; por possuírem uma concepção materialista da história e pregar a violência, a luta armada como forma de construção da sociedade comunista, o paraíso na terra, uma verdadeira utopia. E onde tais princípios foram aplicados, nos processos revolucionários do século XX, o que se viu foi a opressão e a falta de liberdade, os massacres, as perseguições religiosas, a completa libertinagem como método de libertação das forças alienantes da sociedade, das instituições como a família, consideradas elementos da moral burguesa e obstáculos para a revolução.

A Igreja, com base nos Evangelhos, na riqueza dos conhecimentos elaborados ao longo dos séculos sobre as questões sociais e fundados numa concepção integral da pessoa humana e na lei natural, propõe o respeito aos trabalhadores, que devem ser tratados com dignidade, a função social da propriedade, a redução das desigualdades extremas e todas as formas de opressão, condenando ao mesmo tempo as propostas radicais do socialismo e do anarquismo, mas também a lógica consumista, materialista e voltada unicamente para o lucro e a acumulação de riquezas da sociedade capitalista.

sábado, 11 de julho de 2015

A verdadeira Pedagogia...
A Pedagogia tradicional é demonizada por pedagogos e professores marxistas, à moda Paulo Freire, que se intitulam libertadores, criadores de uma consciência crítica capaz de engendrar a transformação social e a construção de uma sociedade democrática, solidária e cidadã. E na verdade nunca se viu tanto individualismo, egoísmo e violência nas escolas e na sociedade. A escola tradicional tinha os seus defeitos, inerentes às contingências humanas, mas nos limites do seu contexto produziu conhecimentos e inspirou valores humanos que fermentavam as práticas sociais, pautadas no respeito, tolerância, disciplina, honestidade e no senso de responsabilidade, produzindo uma verdadeira transformação nas relações humanas.

A Pedagogia tradicional não é a que se identifica com a educação tecnicista, inaugurada com a Revolução Francesa e Industrial e muito em voga no século XX, mas aquela aplicada no Brasil com os jesuítas, representada pela Ratio Studiorum, que se fundamentava numa concepção integral da pessoa humana e incorporava toda a riqueza dos conhecimentos construídos pela Filosofia, Teologia, e tudo o que foi produzido por grandes estudiosos nos séculos anteriores, como Santo Agostinho, Boécio, Santo Tomás de Aquino, Hugo de São Vitor e tantos outros. Era uma educação que tinha com clareza as ideias dos fins. Educar para quê? Para que se conhecesse o mais profundo sentido e a razão da existência da vida humana, onde a abertura para o transcendente era o centro da formação educacional. E vale lembrar que considerava o aluno como o verdadeiro sujeito do processo de ensino e aprendizagem, era um modelo dinâmico na utilização de recursos, como por exemplo, o teatro, e que valorizava os conhecimentos experienciais dos educandos e a construção coletiva dos conhecimentos.  
O MARXISMO ...

O socialismo produziu milhões de mortos no século XX. Nos países onde a doutrina marxista foi implantada a história está repleta de perseguições e extermínios em massa, como no caso dos Gulags da URSS. A opressão e a falta de liberdade, além do caos econômico produziram a derrocada do socialismo, simbolizadas na queda do Muro de Berlim e no fim da URSS. Mas a doutrina marxista não deixou de ser hegemônica nas universidades, pois os seus conceitos, em especial o materialismo histórico e dialético, continuam sendo os critérios fundamentais de análise das dinâmicas sociais. A História, a Antropologia, a Filosofia, a Pedagogia, a Geografia e a Sociologia utilizam os princípios marxistas como recursos metodológicos para a interpretação da realidade, colocando-os a serviço da revolução cultural, centrada na transformação da sociedade a partir da quebra de “tabus”, da contestação dos fundamentos que construíram a civilização ocidental: O Direito Romano, a Filosofia grega e a moral Judaico-cristã. Assim, a noção de verdade, de bem e de belo e as virtudes que constituíam os alicerces da vida social passam a ser contestados e derrubados e sem estes fundamentos a sociedade caminha a passos largos para o caos. É importante resgatar a noção do transcendente, o valor das instituições, a necessidade da virtude e do bem, como elementos essenciais para a construção das relações sociais mais humanas e harmônicas.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

A história ensinada nas nossas escolas...


O ensino de história deixou de ser fundamentado na reconstrução do passado a partir dos princípios da imparcialidade, da consideração do contexto da época, da objetividade e fidelidade às fontes para tornar-se um campo de devaneios, onde os fatos são interpretados sob o viés ideológico marxista, pluriculturalista, vestidos em verdadeiras camisas de força, em conceitos forjados para justificar teses como o materialismo histórico, a luta de classes e o multiculturalismo. A história transformou-se num verdadeiro tribunal e os historiadores em juízes implacáveis, que condenam os feitos e as mentalidades que não servem ou são empecilhos aos seus objetivos revolucionários. Assim, por exemplo, todo o trabalho heroico dos jesuítas na América em favor dos indígenas é julgado como um serviço ao colonizador opressor e uma violência cultural contra as civilizações indígenas. Uma análise de fontes primárias, por exemplo, dos relatos dos próprios índios, cartas dos jesuítas, depoimentos de época, demonstram bem o contrário. É preciso investigar com imparcialidade para não transformar a história num emaranhado de juízos de valor.
Refletindo... O crescente ateísmo entre os jovens.



É cada vez mais comum jovens que cursam o Ensino Médio e a universidade tornarem-se ateus, adotando um discurso que beira ao ódio contra as práticas religiosas, em especial ao Cristianismo, fundamento essencial da construção da civilização ocidental.  Isto porque são doutrinados por professores marxistas, materialistas, relativistas, que lhes apresentam uma única bibliografia, inspirada por estas mesmas ideologias, sem ao menos conhecer autores clássicos, conservadores, que permitiriam um contraponto à hegemonia esquerdista do pensamento contemporâneo. Que tal ler Edmund Burke, Christopher Dawson, Paul Johnson, Gilberto Freire, Russel Kirk e tantos outros?
 A Ciência construída com base nos fundamentos materialistas fomenta o orgulho, que despreza a fé, Deus e a transcendência, gerando a autossuficiência alienante. E sem os alicerces da moral e os fundamentos dos valores encontram nas universidades o ambiente permissivo para dar vazão a todos os desejos, onde comportamentos e práticas grupais exasperam verdadeiras irracionalidades, que negam a própria dignidade humana.

domingo, 23 de março de 2014

HOBSBAWM E O PREÇO DA UTOPIA


Filed under: História incluído por Joel Pinheiro 
Data do post: 1 de outubro de 2012
Na Dicta mais recente, lançada em agosto de 2012, pedimos ao autor conservador inglês David Pryce-Jones um artigo, que na verdade ele próprio já queria escrever, sobre Eric Hobsbawm.
O resultado é um ensaio para lá de crítico. Posto que Hobsbawm faleceu hoje, por um lado há um aumento no interesse por sua obra; e nesse sentido mesmo artigos pesadamente críticos são relevantes. Por outro lado, há um louvável costume social que pede que não se fale terrivelmente mal daqueles que acabaram de morrer (exceção feita aos grandes monstros e tiranos da história da humanidade).
Sendo assim, como leve contrapeso ao artigo de Pryce-Jones, que publicamos abaixo (e que foi escrito meses antes da morte de Hobsbawm), cabem algumas palavras de matização. O artigo é eficaz em mostrar duas coisas: 1) o comprometimento pessoal de Hobsbawm com a causa soviética, algo verdadeiramente detestável; e 2) como esse comprometimento levou a algumas omissões em sua obra histórica.
Contudo, essas duas críticas não tiram seu mérito de pesquisador e intérprete da história moderna, algo que ele fez com maestria, e que explica por que recebeu tantos prêmios e títulos relatados no próprio ensaio. Sua matriz interpretativa da história – as teorias e premissas que ele usa para articular os fatos inicialmente desconexos que são a matéria-prima do historiador – pode ser altamente questionável, mas dentro de seus parâmetros, a obra tem um grande valor, por mais que em certos momentos (não todos) ela tenha deixado a ideologia falar mais alto do que os fatos (sem nunca, contudo, inventar falsidades; há uma grande distância entre aplicar pesos distorcidos e simplesmente mentir).
É curioso que, mesmo adotando uma matriz interpretativa falsa (parece-me seguro afirmá-lo acerca do socialismo soviético), ele tenha criado uma obra histórica de peso e alcance maior do que muitos outros contemporâneos seus que não se deixaram seduzir (ou deixaram-se mas depois mudaram de opinião) por uma ideologia tão destrutiva quanto a que Hobsbawm apoiou. 
Seja como for, segue abaixo o artigo de Pryce-Jones para a Dicta 09.

Hobsbawm e o Preço da Utopia

Eric Hobsbawm tem passado sua carreira de pelo menos sessenta anos ora justificando a existência da União Soviética, ora lamentando sua derrocada. Ninguém no Reino Unido poderia igualar semelhante recorde; aliás, nem na Rússia de hoje há alguém com uma carreira comparável. A culpa dos males do mundo é, argumenta Hobsbawm invariavelmente, do capitalismo e dos capitalistas. Ele gosta de se definir como um historiador profissional, mas isso não passa de rematada autoindulgência da parte de um apologista denodado da ideologia marxista‑leninista. Hobsbawm não tem qualquer interesse pelas normas habituais da historiografia, que é contar o mais objetivamente possível a verdade dos acontecimentos. No entanto, quanto mais distorcidas e perversas são as suas ideias, maior a reputação que angaria. Reitor do Birkbeck College, em Londres, professor universitário, membro da British Academy e da American Academy of Arts and Sciences, coleciona prêmios, títulos honoríficos e louvores muitas vezes negados a acadêmicos de verdade. É extraordinário que a defesa do totalitarismo e o desprezo pelas sociedades livres sejam recebidos com a aprovação de multidões.
Sir Keith Thomas, autoridade em temas da cultura britânica, por exemplo, chegou a dizer que Hobsbawm “é inigualável na sua profissão”. Numa resenha para o New York Review of Books, Tony Judt considerou‑o “o mais conhecido historiador do mundo [...] um herói lendário da cultura. Sua fama é bem merecida. Ele controla vastos continentes de informação”. Um comentarista conservador, Niall Ferguson, criticou o comunismo de Hobsbawm, mas julgou inegável o fato de ele ser “um dos grandes historiadores desta geração”. Tampouco o New York Times viu algo de contraditório ou estranho em descrevê-lo como “um dos grandes historiadores britânicos da sua geração, comunista ferrenho e homem culto, cujas obras de história, escritas com erudição e estilo elegante, continuam a ser lidas nas escolas daqui e do exterior”. A revista The Nation foi muito além disso, elevando‑o a nada menos que a categoria de “um dos ‘homens virtuosos’ de Aristóteles”. O ex‑primeiro‑ministro Blair o elevou a membro da Ordem dos Companheiros de Honra, distinção rara que serviu para confirmar sua reputação. Um entrevistador da BBC, célebre por desbaratar pretensões, convidou‑o para um dos principais programas de entrevista e, de repente, entregou‑se à bajulação, chamando Hobsbawm de o maior historiador do século XX.
A experiência comunista – trata‑se de uma opinião já amplamente aceita – é responsável por cem milhões de mortes, e impôs ao século XX o estigma de uma das épocas mais assassinas da história. Já se descobriu que o marxismo‑leninismo é, na melhor das hipóteses, um devaneio acadêmico e um eufemismo para engenharia social; na pior, uma máquina infalível de guerra, conflitos e genocídios. Os condenados a aturar o comunismo livraram‑se agradecidamente dele assim que tiveram chance. Antigos fiéis da primeira hora – de Andrei Sakharov e Leszek Kolakowski a François Furet – viriam a explicar detalhadamente como pessoas inteligentes como eles próprios puderam estar tão enganados. Humanidade, liberdade, a simples compaixão pelo próximo: nada disso preocupa Hobsbawm. Para ele, a União Soviética caiu porque, infelizmente, não aplicou os métodos adequados para o verdadeiro comunismo. Todo o experimento deveria ser repetido a partir das diretrizes deixadas por Marx e Lenin, embora essa nova tentativa também suponha o uso da força e um grande número de mortos. Em 1994, Michael Ignatieff – então jornalista político, mas depois presidente do Partido Liberal do Canadá – entrevistou Hobsbawm para a BBC. Segundo o historiador, o Grande Terror de Stalin teria valido a pena caso tivesse resultado na revolução mundial. Ignatieff replicou essa afirmação com a seguinte pergunta: “Então a morte de 15, 20 milhões de pessoas estaria justificada caso fizesse nascer o amanhã radiante?” Hobsbawm respondeu com uma só palavra: “Sim”.
Certa vez, encontrei Hobsbawm na casa de um amigo em comum. Conversamos sobre a Guerra Fria, em pleno vapor à época. Para ele, o certo seria jogar uma bomba atômica em Israel. Era uma simples questão de matemática: melhor matar cinco milhões de judeus do que ver uma superpotência nuclear matar duzentos milhões de pessoas. “Goebbels foi a última pessoa a falar assim”, eu disse. Ele se levantou da mesa e foi embora.
É difícil e doloroso simpatizar com alguém tão disposto a ver o assassinato em massa como prelúdio da Utopia. É ainda mais difícil fazer‑lhe justiça. Hobsbawm pertence a um tipo de gente retratado numa memorável passagem de Ferdinand Peroutka, ex‑aliado de Tomas Masaryk, o primeiro presidente da Tchecoslováquia. Os nazistas o prenderam e os comunistas o exilaram.
“O tirano dos dias de hoje sempre envia dois tipos de emissários: homens armados e falsificadores de ideias; sujeitos robustos e homens magrelas de óculos e rosto chupado; capangas que espancam a nação e outros capangas que agradecem o espancamento em nome da nação. O policial é seguido – e às vezes precedido – pelo mentiroso.”
Capangas e brutos estão presentes em todas as sociedades. Despertam pouco ou nenhum interesse, com a possível exceção da polícia. A revolução marxista‑leninista ou qualquer outro colapso social dá a tais homens a licença de pôr em prática a brutalidade que é sua segunda natureza. Obedecerão a qualquer um que lhes mandar servir de guarda em um campo de concentração ou atirar na nuca de alguém. Os falsificadores de ideias e mentirosos são muito mais sinistros. Em busca de poder, distorcem a verdade e transformam crime em justiça. Por trás dos escritos de Hobsbawm, está a sombria silhueta de um comissário assinando penas de morte com a consciência limpa. Como pôde ter se tornado um dos magrelas de óculos e rosto chupado, um profissional da falsificação e da mentira de que nos fala Peroutka?
O primeiro lugar onde procurar a resposta é em Tempos interessantes, sua autobiografia. Ele nasceu em 1917, e eu um pouco depois, em 1936. Por coincidência, ambos temos raízes judaicas e vienenses. Sua mãe, escreve, dizia‑lhe para nunca fazer algo que pudesse sugerir certa vergonha de ser judeu. Uma ou duas gerações atrás, muitos judeus abraçaram o comunismo, que parecia oferecer‑lhes assimilação, a libertação completa de uma identidade que talvez lhes envergonhasse ou – pior ainda – desse margem a situações vergonhosas. O internacionalismo teórico do comunismo oferecia a libertação das exigências da identidade judaica, uma escapatória, uma promessa de igualdade com os gentios. Essa resposta a tantas aspirações foi forte o bastante para seduzir muitos judeus a se tornarem revolucionários marxistas. Hobsbawm foi um deles.
Perseguidos tanto por Hitler como por Stalin, o destino dos marxistas judeus não foi senão trágico. Sua identidade revolucionária adotiva só convencia a eles próprios. O sionismo, ou seja, o nacionalismo judaico, era outra escapatória possível, uma retirada, uma afirmação de alteridade, uma espécie de tribalismo até – também com seu elemento trágico. Sendo um judeu marxista revolucionário, Hobsbawm vê em Israel uma nação “imperialista”, e por isso negou‑se certa vez a tomar um voo que fazia escala em Tel-Aviv. Na sua autobiografia, despreza Israel, chamando‑o de “o pequeno Estado‑nacao militarista, frustrante na sua cultura e agressivo na sua política, que pede a minha solidariedade em termos raciais”. Noutra ocasião, visitou a Universidade Bir Zeit, na Cisjordânia, para dar seu apoio aos palestinos. Ficamos sem saber por que o nacionalismo palestino é válido, mas o judaico não. A proposta que uma vez o ouvi fazer – cinco milhões de sionistas deveriam ser mortos – representa a ideologia marxista judaica levada ao ponto de transformar a revolução em reação.
Depois de crescer em Viena e Berlim, Hobsbawm chegou à Inglaterra em 1933 e entrou em Cambridge três anos mais tarde. Naquela época, a cultura britânica era provinciana. Com o intuito de provocar uma mudança no público, formadores de opinião como H.G. Wells, Bernard Shaw, o casal Webb, Victor Gollancz – editor e iniciador do sucesso comercial Left Book Club – divulgavam o comunismo a pessoas que não tinham contato com o Partido nem com o movimento trabalhista. Acadêmicos, donos de terras, advogados, poetas e jornalistas, futuros ministros, clérigos, socialites, celebridades: todos se declaravam comunistas. Ano após ano, a Intourist levava milhares de visitantes ansiosos à União Soviética para passeios cuidadosamente escolhidos e supervisionados dos quais voltavam para casa empolgados, repassando desinformações sobre o país. Uma Gra‑Bretanha Soviética estava se formando, os acontecimentos mundiais talvez a fizessem surgir, assim como o regime colaboracionista de Vichy emergiu do blitzkrieg nazista de 1940.
Faltava uma cabeça cosmopolita no centro da batalha política do continente, seja nas barricadas, seja nas conferências; era preciso uma versão local de Malraux, Aragon ou Togliatti. Tipos como Arthur Koestler e Malcolm Muggeridge poderiam ter servido, mas disseram a verdade sobre o que viram e logo se tornaram inimigos do povo. É aí que entra Hobsbawm. Falante de alemão, podia ser admirado por ter visto as tropas de choque de Hitler. O fato de ser judeu e marxista aumentou a sua credibilidade. Em Cambridge, era rodeado de amigos e conspiradores como Kim Philby e Guy Burgess, ambos já agentes soviéticos. Outro membro desse círculo era Noel Annan, que me disse certa vez que Hobsbawm tinha tanto talento para a persuasão que espalhou o comunismo entre seus contemporâneos. Também estava com eles James Klugmann, futuro membro do Comitê Central do Partido e um dos pivôs no processo de manipulação a levar Tito ao poder na Iugoslávia. Quando Tito se revelou nacionalista, Stalin retirou seu apoio e ordenou Klugmann a iniciar uma polêmica contra o próprio homem que ele secretamente ajudara a chegar ao poder. Um pequeno episódio de Tempos interessantes mostra‑se especialmente revelador. Durante um dos ataques aéreos, uma mulher descrita como camarada Freddie ficou presa sob os escombros. Certa de que morreria, gritou: “Vida longa ao Partido, vida longa a Stalin”. A conclusão de Hobsbawm para essa tragicomédia foi: “O Partido era a nossa vida”.
Hobsbawm é sem dúvida inteligente e engenhoso; é capaz de manusear com facilidade as ferramentas de trabalho do historiador: pesquisar arquivos e fontes primárias e ser o mais objetivo possível no tema que tem às mãos. Um historiador marxista, porém, não pode seguir tais princípios; deve propor perguntas a respostas já dadas. Seu estudo orienta‑se pela obrigação de provar que os dogmas, teorias, especulações, gostos e repulsas de Karl Marx são confirmados em todas as sociedades em todas as épocas. A historiografia marxista nada mais é que um longo juízo de valores a priori que elimina necessariamente tudo o que não lhe dê sustentação.
O livro mais conhecido de Hobsbawm, A era dos extremos, com suas 627 páginas, alega ser uma síntese do século XX. É um ótimo exemplo de história escrita como um juízo de valores a priori, uma completa obra‑prima de distorção e omissão. Seriam precisas outras 627 páginas para apontar e esclarecer todas as suas duvidosas generalizações ex cathedra. Detenhamo‑nos pelo menos em alguns detalhes. Não há qualquer menção ao rearmamento secreto da Alemanha promovido pelos soviéticos durante o entreguerras. O argumento bastante convincente de que Hitler aprendera de Lenin e Stalin a estratégia da violência é descartado de antemão. Nenhuma menção a Beria e à polícia secreta NKVD, nenhuma análise do trabalho escravo nem da grande fome projetada na Ucrânia para roubar e matar camponeses infelizes. A única vítima do gulag a ser nomeada é Nikolai Vavilov. E quanto a Mandelstam, Babel, ou os milhões de vítimas que não merecem ser esquecidas no anonimato? Com um desdém particularmente hediondo, Hobsbawm diz que mesmo o anticomunista Soljenitsin teve a carreira de escritor “firmada pelo sistema”. As referências ao Terror de Stalin são esparsas e fortuitas. DaPequena historia do Partido Comunista Sovietico, de Stalin, Hobsbawm diz, como se fosse incapaz de ver o seu erro de lógica: “não obstante as suas mentiras e as suas limitações intelectuais, é um texto pedagógico escrito com maestria”.
Muitos abandonaram o Partido diante do pacto firmado entre Hitler e Stalin em agosto de 1939. Hobsbawm não. Para ele, o Pacto marcou “a recusa da URSS em continuar opondo‑se a Hitler”. O Pacto trouxe consigo imensos ganhos territoriais, mas Hobsbawm acha lógico afirmar que por esse meio Stalin esperava ficar fora da guerra. Na verdade, em 1939 veio a invasão dos países bálticos, e quase metade da sua população foi deportada. Esse processo genocida é desprezado por Hobsbawm com o costumeiro desdém marxista por pequenas nações. Em uma imensa sequência de eufemismos, esses países foram simplesmente “adquiridos” ou “transferidos” por Stalin. Da mesma forma, em 1989 eles “viriam a se separar”. Aquilo que para todas as repúblicas aprisionadas pela União Soviética representou uma libertação, para Hobsbawm foi a criação de um “vácuo internacional entre Trieste e Vladvostok”.
O pacto entre Hitler e Stalin permitiu ainda que os soviéticos invadissem a Finlândia. O Partido teve que elaborar uma justificativa especialmente convoluta e mendaz para acobertar esse ato unilateral de agressão contra um país pequeno. Em dezembro de 1939, Hobsbawm e Raymond Williams, outro comunista, cumpriram com seu dever e escreveram um panfleto com a alegação de que Stalin enviara o Exército Vermelho ao país para proteger a Rússia de uma invasão imperial britânica. Ambos os autores viviam na Inglaterra do tempo de guerra e não podiam ignorar que seu país enfrentava uma invasão alemã que podia muito bem acontecer, de modo que os ingleses não estavam em condições de invadir a Rússia. Hobsbawm menciona esse episódio vexaminoso apenas na sua autobiografia e bem de passagem.
Segundo Hobsbawm, Stalin modernizou e industrializou a União Soviética; se assim não fosse, Hitler teria vencido a guerra. Não há menções à contribuição americana, sequer dos equipamentos que forneceu ao Exército Vermelho. Comparado aos salvadores da humanidade Lenin e Stalin, Hitler parece débil. Nada de menções a Treblinka ou Auschwitz. Esses crimes parecem quase secundários. O leitor deve ser poupado de qualquer coisa que possa conduzi‑lo à equação bastante aceita dos sistemas totalitários semelhantes.
Tampouco há menções à supressão do Partido Comunista polonês no final da década de 1930, ou ao massacre da elite polonesa em Katyn. A destruição de Varsóvia pelos alemães em 1944 – a que o Exército Vermelho assistiu, imóvel – não foi senão “o castigo pelos levantes urbanos prematuros”. Do leste e do centro da Europa ocupada, no qual o Exército Vermelho criaria o bloco soviético, Hobsbawm, em mais um incrível eufemismo, diz‑nos se tratavam de “países que romperam com o capitalismo na segunda grande onda mundial de revolução social”. Ao fim da guerra, “a URSS não era expansionista – e muito menos agressiva – nem esperava haver qualquer outra expansão da frente comunista”. Não há qualquer referência à prisão, deportação e assassinatos frequentes dos democratas e anticomunistas, ou à supressão dos partidos políticos. Tampouco se fala que os comunistas da Alemanha Oriental livravam‑se dos opositores pondo‑os nos campos de concentração deixados por seus precursores nazistas. A vitória da União Soviética foi “o triunfo do regime ali instalado pela Revolução de Outubro”. Hobsbawm afirma muitas vezes que a União Soviética trouxe estabilidade a diversos países, quando na verdade os estava invadindo e subvertendo. A globalização é apresentada como o ápice do mal capitalista e causa da falha do comunismo. E o mundo é quem sai perdendo, uma vez que há um “espaço moral vazio” no centro do liberalismo capitalista. A China mantém a chama acesa. Sob Mao Tse‑Tung, na opinião de Hobsbawm, “o povo chinês ia bem”, havia mais matrículas na escola primária e melhores roupas. A desumanidade nunca é desumana quando serve ao comunismo, mesmo que a realidade o estivesse destruindo.
As denúncias de Khruchev contra Stalin no XX Congresso do Partido em 1956 enchem Hobsbawm de horror. Khruchev maculou propositadamente a Revolução de Outubro. Disso podemos depreender que, se ele tivesse ficado quieto, os crimes de Stalin poderiam se repetir indefinidamente. Consequência imediata das declarações de Khruchev foi o levante húngaro daquele mesmo ano. Com sua habitual mescla de duplicidade e força bruta, os soviéticos debelaram o que fingiam ser uma contrarrevolução. Depois de garantir salvo‑conduto aos líderes da revolta, prenderam‑nos, julgaram‑nos num tribunal secreto e os enforcaram. Quase tantas pessoas abandonaram o Partido como quando da invasão da Finlândia pelo Exército Vermelho – inclusive amigos e colegas de Hobsbawm. Hobsbawm por sua vez escreveu uma defesa da carnificina soviética no jornal comunista Daily Worker: “Embora aprovemos, com o coração pesado, o que agora ocorre na Hungria, também devemos dizer abertamente que a URSS deveria retirar as suas tropas do país assim que possível”.
O caso de Eric Hobsbawm nos permite vislumbrar muita coisa sobre o desejo que os seres humanos têm de ser enganados. Nos vinte anos desde que a União Soviética se deparou com a realidade e desapareceu, ele tem implicado com os Estados Unidos, com as políticas e os aliados americanos, prevendo um desastre que só pode ser evitado por uma renascença marxista. Parece não haver limites para a capacidade da imaginação de crer no que se quer e racionalizar o irracional. A sua óbvia fé em mentiras e ideias falsas aproxima‑o mais das superstições dos curandeiros do que dos métodos de um historiador profissional. A condescendência extravagante que recebe da parte de pessoas que deveriam estudar mais é uma prova inequívoca do declínio intelectual e moral dos tempos modernos.
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David Pryce‑Jones é autor e comentarista conservador inglês. Seu livro mais recente é Treason of the Heart: from Thomas Paine to Kim Philby (2011).
Traduzido por Cristian Clemente.